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sexta-feira, outubro 31, 2014

Alguns filmes de outubro

O mês de novembro chega à curva do caminho. Aos poucos vai morrendo. Não mais existirá um outubro de 2014, significando que este mês é marco realizável, mas que não será mais experienciável - apenas em 2015, 2016 etc. O mês de outubro foi carregado de emoções. Mês de eleições. Para presidente foram dois turnos, em que se pôde presenciar de tudo: mentiras, dissimulações e tentativas de golpes por parte da mídia nacional. Fiz uma militância sem igual. Emendei críticas contra raciocínios pequenos; contra visões afetadas pela miopia política e filosófica. Estive com o coração aos saltos em alguns momentos, principalmente, domingo, 26, dia decisivo do segundo turno.

Além dessas atividades, assisti a doze filmes. Tomei a firme resolução de ver dois filmes, no mínimo, por semana sempre que possível. Claro, em alguns momentos a conta foi exacerbada. Alguns filmes eu revisitei como, por exemplo, o sempre aprazível O nome da rosa e os bons filmes brasileiros Desmundo e Mauá: o imperador e o rei. Estiveram ainda na linha de ação: o brasileiro Carlota Joaquina; o surpreendente filme alemão A onda; os hollywoodianos O preço do amanhã, que se mostrou interessante pela trama distópica, mas que encerra com aqueles finais previsíveis; e o fraquíssimo - e também distópico - O doador de memórias (Meryl Streep já esteve melhor); assiti à sensacional pintura política em forma de comédia de Kubrick, o Dr. Fantástico; o sensacional Nebraska, um road movie de fina sensibilidade, do diretor Alexander Payne; o filme possui uma trilha sonora (que tenho escutado bastante) arrebatável, entre o folk americano e a reflexão onírica e impressionista encontrada nas cenas filmadas em preto e branco;  vi o épico A Infância de Ivan, de Tarkovski; esteve também em meu cardápio o bom filme uruguaio O quarto de Leo, que aborda a temática homossexual. Todavia, dois filmes me deixaram muito feliz - o filme chinês O caminho para casa e o franco-belga Violette, bastante denso e de uma visceralidade arrebatadora.

Não pretendo dar spoilers sobre os filmes. Quero apenas apontar algumas impressões sucintas:

Violette (2013), de Martin Provost, é um daqueles filmes que embriagam. A começar pela belíssima fotografia da França da Segunda Guerra Mundial. O diretor nos coloca em uma Paris com laivos suburbanos. Uma cidade melancólica, porém charmosa e de febricitante produção intelectual; uma cidade de casas com aquecedores problemáticos e papéis de paredes mofados. Provost já havia conseguido esse recurso no bonito Séraphine (2008) e o repetiu agora. O filme mostra a personalidade conturbada e o drama pessoal de Violette Leduc até que esta se torne a escritora bem sucedida de A Bastarda. Inclusive, procurei o livro para comprar na Estante Virtual. Não tive êxito. Há a notificação de que existem alguns exemplares, mas não conseguimos efetivar a visualização da disponibilidade. O filme põe no centro a aproximação intelectual de Leduc com Simone de Beauvoir (a companheira de Sartre), uma feminista no sentido lato do termo. É nesse período conturbado do século XX, que Beauvoir está escrevendo O segundo sexo, uma das obras fundamentais do século passado, que debate o papel da mulher na sociedade burguesa. De certa forma, o papel de Leduc é simbólico para o desenho da obra que Beauvoir escreve. Leduc é uma personagem de personalidade complexa: abortara na juventude. possuía inclinações homossexuais; é perseguida por tramas mentais que colocam mulheres em posição de vanguarda em um ocidente cristão machista e conservador. Enfim, é um filmaço!

O caminho para casa (2000), de Zhang Yimou, é uma experiência singular de fina poesia e beleza. Há algum tempo atrás vi Balzac e costureirinha chinesa (2002), do diretor Dai Seiji, e fiquei impressionado com a suavidade da obra. A cena final do filme é uma das cenas mais sublimes que já vi: a personagem caminha pelas montanhas de uma China que vive sob o maoísmo e um dos Concertos para violino de Mozart (não lembro qual) toca e aquilo vai se rarefazendo, mostrando o poder infinito da beleza. Já no filme de Yimou, temos novamente uma China rural, bucólica, singela. O filho vem de uma cidade  grande para o enterro do pai.. Ao chegar encontra a mãe desconsolada. O que ela queria era fazer com que o marido viesse pela estrada que levava ao povoado (ele estava morto em outro lugar). Nesse ponto, o filho, como um narrador em off, começa a contar como se dera o romance entre a mãe e o pai - que viera ser professor no pequeno povoado. Curioso recurso é utilizado pelo diretor: o início e o final do filme foram filmados em preto e branco e, no meio, onde encontramos a construção do romance, o filme ganha cores (primeiro do outono e depois do inverno), talvez para mostrar a relação construída por eles. Belíssimo filme!

domingo, agosto 31, 2014

A naturalização do cotidiano e a política

















Karel Kosik diz em sua Dialética do Concreto algo essencial: "O indivíduo não é apenas aquilo que ele próprio crê nem o que o mundo crê; é também algo mais: é parte de uma conexão em que ele desempenha um papel objetivo, supra-individual, do qual não se dá conta necessariamente". (KOSIK, 1976, p. 62). Com isso, o pensador marxista nos deixa a ideia de que existe uma realidade a qual o homem comum perde o contato em seu cotidiano. Mas o que é essa cotidianidade? 

Na cotidianidade vivem todos os homens. Cotidianidade não é o espaço privado prevalecendo sobre o espaço público. Para ele "a vida de cada dia tem sua própria experiência, a própria sabedoria, o próprio horizonte, as próprias previsões, as repetições, mas também as exceções". Os homens vivem esses fatos e se acostumam a tais eventos, entendendo, que as coisas são aquilo que são. Que não existe uma outra forma de ser. Ou seja, a vida objetiva passa a criar uma instintividade mecânica em relação às coisas e ao mundo. 

O homem, assim, acaba criando um para si, em que considera a realidade como o seu próprio mundo, pois sua visão sobre as coisas se tornam eventos familiares. O sujeito acostumado com o aparente não consegue divisar a existência de outro mundo, de outra forma de ser possível à realidade. A vida calcada no cotidiano e fincada no aparente, sem que tenha uma expectativa da essência, leva o homem a naturalizar determinados acontecimentos. A naturalização dos fatos, leva o sujeito ao comodismo; à incapacidade para fazer julgamentos sobre qual a relação que o seu cotidiano tem com a história.

Um exemplo disso é o hábito que o sujeito moderno tem de colocar o dedo no interruptor de luz e acender ou apagar, sem se dar conta de que por trás de tal ação existe uma cadeia histórica. Ou quando liga a torneira e ver a água jorrando, sem se dar conta do processo que trouxe a água até à sua casa. Sartre menciona esse processo de naturalização tão comum da vida burguesa em seu romance existencialista A Náusea. Os jovens de hoje naturalizaram a consciência de que o mundo é da forma que eles veem; que os celulares são um elemento que acompanha a humanidade desde as mais remotas datas. Não saberiam viver sem os aparelhos, pois acabaram naturalizando a existência desses objetos portadores de fetiche. 

Quando penso estas coisas, me vêm à mente uma afirmação de José Carlos Libâneo em sua famosa Didática. O educador afirma em tom althusseriano que "O sistema educativo, incluindo as escolas, as igrejas, as agências de formação profissional, os meios de comunicação de massa, é um meio privilegiado para o repasse da ideologia dominante". Poderíamos completar afirmando: "para a naturalização do mundo". Em seguida, o educador nos propõe que desconfiemos nas seguintes afirmações:

(1) O Governo sempre faz o que é possível; as pessoas é que não colaboram;
(2) Os professores não têm que se preocupar com política; o que devem fazer é cumprir sua obrigação na escola;
(3) A educação é a mola do sucesso, para subir na vida;
(4) Nossa sociedade é democrática porque dá oportunidades iguais a todos. Se a pessoa não tem bom emprego ou não consegue estudar é porque tem limitações individuais;
(5) As crianças são indisciplinadas e relapsas porque seus pais não lhes dão educação conveniente em casa;
(6) As crianças repetem de ano porque não se esforçam; tudo na vida depende de esforço pessoal;
(7) Bom aluno é aquele que sabe obedecer (LIBÂNEO, 2008, p.20)

As afirmações são aplicadas no contexto do mundo da educação, mas, na vida cotidiana, poderíamos ampliar a lista, sem esquecer que muitas dessas premissas são construídas pelos meios de comunicação de massa e acabam ganhando um grau de verdade inquestionável:

(1) Política não presta; político é tudo corrupto; 
(2) Se passou na televisão é por que é verdade; não há o que se discutir;
(3) A violência é um problema que é resolvido pela presença da polícia;
(4) Os menores são os responsáveis pela violência nas grandes cidades;
(5) O Brasil é um país que não dar certo; nada presta por aqui;
(6) Comunismo, marxismo e socialismo são símbolos de ditaduras; 
(7) Manifestação ou reivindicação social é um movimento orquestrado por "vândalos" e "vagabundos";
(8) Você é capaz de ter sucesso na vida; para isso é só se esforçar que você consegue;
(9) Só é pobre quem quer, pois é só trabalhar;
(10) Deus sempre ajuda aquele que ora;
(11) O mundo sempre foi assim; não tem como mudá-lo; 
(12) "Sou brasileiro e não desisto nunca";
(13) Somos uma democracia racial; 
(14) A desigualdade social é um problema de gestão;
(15) O mundo pode ser "consertado"; para isso, basta eu fazer a minha parte; 

A lista poderia continuar. Esses são apenas algumas frases que me ocorreram. Kosik ainda afirma: "A alienação da cotidianidade reflete-se na consciência, ora como posição acrítica, ora como sentimento do absurdo. Para que o homem possa descobrir a verdade da cotidianidade alienada, deve conseguir dela se desligar, liberá-la da familiaridade, exercer sobre ela uma "violência"".(p.78). Por violência, entenda-se a capacidade de "ver a própria face e conhecer o próprio mundo", destruindo de uma vez por todas a naturalização - a pseudoconcreticidade. 

domingo, junho 02, 2013

200 anos de Kierkegaard - algumas palavras de admiração

Aprendi a admirar o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard ainda nos anos de seminário. A primeira vez que li algo a respeito dele, fiquei estarrecido com a sua paixão pelo paradoxo. O texto que li àquela época falava sobre o noivado do filósofo com a bela Regina Olsen. Kierkegaard após consumar o noivado, pede logo em seguida para desfazê-lo. Sua personalidade complexa aplicou um golpe nos sonhos da jovem Regina, que ainda tentou reatar o noivado, mas sem sucesso.

Durante muito tempo procurei informações sobre o filósofo. Comprei livros. Li a respeito dele. E, sobretudo, li alguns livros dele - Diário de um sedutor, Temor e tremor e O desespero humano. Kierkegaard sempre foi para mim um grande mistério. Sou um admirador do seu ideal de espiritualidade. É possível colocá-lo na categoria de um Agostinho ou de um Pascal, que foram nomes que viveram de maneira exponencial a fé cristã em uma época em que a razão prevalecia sobre os anseios existencializantes da interioridade humana.

Mês passado, precisamente, dia 5 de maio, o mundo comemorou duzentos anos do nascimento do filósofo. Kierkegaard passou um bom tempo no anonimato, pelo menos até as décadas de 40 e 50 do século XX, quando se deu uma onda existencializante na filosofia - Sartre, Jaspers, Heidegger, Camus e até mesmo os filósofos de Frankfurt etc, resgataram a filosofia do dinamarquês. Tanto foi assim que ele recebeu o epíteto de "pai do existencialismo". Não é de se estranhar que ele tenha ficado algum tempo incógnito. Afinal, a fria e distante Dinamarca ficava fora do cenário dos grandes debates. Kierkegaard escrevia em dinamarquês. A língua da filosofia era o francês ou alemão, sendo tolerado, quando muito, o inglês. O que poderia vir da longínqua Jutlândia?

O filósofo era uma figura, no mínimo, estranha. Escrevia sobre determinadas categorias as quais não eram referenciáveis. Os seus patrícios não o entendia. Nascido em 1813 e morto em 1855, Kierkegaard mesmo estando longe da arena filosófica não ficou alheio às grandes controvérsias filosóficas do seu tempo. Viajou à Alemanha para ouvir, por exemplo, uma palestra de Schelling. O século XIX é o século do idealismo hegeliano e, mais tarde, dos ideias materiais de Darwin, Comte e Marx. Onde se poderia colocar a filosofia singular de Kierkegaard que postulava que o individual prevalece sobre o universal? Ou seja, ao invés de se começar a análise do gênero para a espécie, deve se fazer o contrário, colocando o indivíduo sobre todas as coisas. É a existência singular do sujeito que o torna único ante todas as realidades.

Ele parecia "o patinho feio" da filosofia, fazendo uma referência ao seu conterrâneo Hans Christian Andersen. Enquanto a filosofia hegeliana explicava todas as coisas, bem como a ciência em vertiginoso desenvolvimento, Kierkegaard diz que faltava discutir sobre o indivíduo com toda a sua singularidade. Era pelo crivo do individual que a história deveria ser medida. Para ele, o sujeito precisa "decidir ser". E o instante da decisão é a loucura pela qual o universo inteiro deve parar, observar. O homem é aquilo que escolhe ser, é aquilo que se torna. E "tornar-se" é a maior das aventuras. Daí, que surge a sua máxima: "procuro uma verdade que seja verdadeira para mim", pois tudo para diante do indíviduo. São os seus olhos que observam a contigência, pois a existência é o reino do devir na história. 

Kierkegaard é o homem avesso a qualquer sistema que prenda a possibilidade de ser do sujeito individual. A possibilidade é a mais pesada e árdua das categorias, pois sugere uma escolha de fé e 'a fé é aquilo que deve sobrar quando tudo acaba'.

Kierkegaard era um "poeta cristão". Cena curiosa é aquela em que o diabo aparece para a personagem principal de Doutor Fausto, de Thomas Mann. Quando da chegada do diabo, este percebe Adrian lendo um dos livros do filósofo dinamarquês. O diabo então profere: "Então, lendo o cristão?" Em outras palavras: Kierkegaard foi aquilo que escreveu. Tornou a sua noção de fé e suas experiências em algo com sentido. Podemos dizer que ele encontrou a sua verdade. Sua filosofia era um estilo de vida. Como ele mesmo dizia: "ninguém pode se pôr em meu lugar diante de Deus". 

Selo de comemoração aos 200 anos de nascimento do filósofo
É diante de Deus, que o sujeito fica nu e se torna aquilo que deve se tornar. Daí, deerivam dois conceitos que são inextricáveis à obra do filósofo - o conceito de angústia e o conceito de desespero. A angústia é típica do homem na sua relação com o mundo; e o desespero é próprio do homem na sua relação consigo mesmo. As raízes do desespero estão em não querer se aceitar nas mãos de Deus. Quem está em desespero ainda não está consigo mesmo, ainda não se achou plenamente. Aqui cria-se a ideia do paradoxo, pois ao passo que mais me firmo na fé e me aproximo de Deus e, fujo do desespero, mais abomino o mundo e me torno pronto para a eternidade. 

Nesse sentido, é necessário mencionar os três estágios - o estético, o ético e o religioso. O estético seria aquele se vale dos prazeres. É o nível na qual os homens naturais se encontram.  O segundo estágio é o ético em que prevalece a observação das regras morais, dos códigos jurídicos. E o terceiro e último é o religioso, ou seja, o estágio em que o sujeito individual se torna a si mesmo e vive reconciliado com a eternidade.

Esse sujeito que possui uma consciência psicológica da sua condição é o "cavaleiro da fé". Fé não é meramente crer, mas é ressignificar a realidade. A filosofia de Kierkegaard sempre se constituiu em algo a ser admirado para mim. Sempre lembro dele uma hora ou outra. Ele falava daquilo que é mais fundamental na vida: tornar-se a si mesmo com todos os seus implicativos. Numa era a qual notamos um nível tão grande barbarismo e superficialidades, o pensamento de Kierkegaard surge como um desafio para que possamos nos encontrar na curva da existência do devir histórico.


quarta-feira, maio 01, 2013

Rubem Braga - "um poeta espião da vida"

"Um escritor é um homem cuja matéria de trabalho é a palavra. Sua diginidade consiste em dizer a verdade, isto, reivindicar para cada palavra o seu valor".
Rubem Braga, in Retratos Parisienses, p. 126

Este ano, o nosso país comemora o centenário do nascimento do escritor capixaba Rubem Braga, um dos nomes mais importantes do jornalismo brasileiro no século. O que é singular em Braga é que ele se tornou uma referência literária apenas escrevendo crônicas. Escreveu mais de 15 mil. Um número bastante expressivo. Morreu em 1990.

O primeiro contato que tive com o escritor nascido em Cachoeiro do Itapemirim foi no livro "Ai de ti, Copacabana", que li em 1998. Revisitei-o outra vez alguns anos mais tarde. Trata-se de um dos livros mais belos que já li. É curioso perceber como alguém conseguiu dominar com tanta maestria esse estilo literário. Afonso Romano Sant'Anna, outro excelente cronista, diz que "o cronista é um escritor crônico". Mais que um jogo de palavras, a frase quer apontar a contumácia, teima, a produção pródiga do cronista. Para o cronista, tudo é motivo para se produzir - a mulher, o dia, a manhã, a criança que brinca no pátio, os problemas da política, os intelectuais, o ônibus lotado, a árvore, a mulher que espera o homem, o velho sentado na praça etc.

Com Rubem Braga esse fato tornou-se algo efetivo. Em "Ai de ti, Copacabana", Braga desfere golpes com pétalas de flores. Seu olhar é privilegia o instante. Observador preciso, Braga parece contar as palavras para exatificam esse instante. As crônicas mais belas do livro são aquelas que ele se voltou para um fragmento do tempo, como um observador que se atém em um pedaço de uma paisagem. 
Terminei a leitura de um livro recente, editado pela José Olympio. E, mais uma vez, pude recuperar a emoção de ler o Rubem. O livro, lançado este ano, se chama "Retratos Parisienses". Fiquei sabendo da existência do livro na edição de março da Revista Cult. Trata-se da compilação feita pelo professor de Literatura Brasileira e poeta Augusto Massi. O livro reúne crônicas inéditas, escritas em 12 meses em que Braga esteve em Paris - entre 1950 e 1951. 

O livro busca mostrar outra faceta do escritor - o de cronista cultural. No livro, Braga centra o foco sobre importantes personalidades artísticas e políticas da Europa do pós-guerra - Sartre, Thomas Mann, Picasso, Cocteau, Andre Bretton, Marc Chagall, Juliette Gréco, Louis-Ferdinand Céline entre outros. Braga, apesar de ter ido a Paris como jornalista, subverte, quando entrevista algumas dessas personalidades, a ideia jornalística de que uma eentrevista deve ser realizada com perguntas e respostas. 

É interessante notar a habilidade preservada de Braga, no livro, para descrever de forma incisiva e contundente, os traços de determinada pesonalidade. Ele consegue, com poucas palavras, fornecer uma imagem precisa do retratado. Por exemplo, quando descreve Cocteau, usa as seguintes palavras de uma precisão assustadora:

Não sei a idade de Cocteau; deve estar entre os cinquenta e os sessenta anos; os cabelos são grisalhos sobre a testa alma mas fina; há uma coroa, que os cabelos não chegam a dissimular bem, como se ele fosse um padre renegado. A cara magra, nervosa e triste, talhada de rugas; o nariz bem-traçado e firme; a boca pequena, as orelhas pontudas agarradas à cabeça. Tudo isso lhe dá um ar mesmo tempo de cansaço e de atividade; os olhos pequenos, as pálpebras fatigadas, são alternativamente vivos e sonhadores. Fala com rapidez e facilidade, e sua conversa prende, proque passa incessantemente de observações práticas e precisas para coisas de poesia e sonho. Sente-se que ele vive a um só tempo nesses dois mundos; confunde-os em só, a que chama realidade.

Percebe-se em Rubem a habilidade para o ofício de escrever. As palavras eram arranjadas de forma matemática. Ele garimpava a palavra. Burilava. Dispensava o superflúo. Como diz André Seffrin, Rubem Braga era "um poeta espião da vida".

segunda-feira, dezembro 31, 2012

Último post do ano! Na encruzilhada do tempo!

Que 2013 seja um ano bom, repleto de paisagens belas, já que "a beleza está nos olhos de quem vê" (Sartre); que seja regado a muitos sorrisos, música e literatura; que as amizades sinceras frutifiquem e as anêmicas se obliteram como badulaques imprestáveis; que meus olhos se fixem na bondade, na sinceridade e que eu saiba sorrir com os que riem e me solidarizar com os que choram; que eu esteja pronto para enfrentar os fatos positivos e os negativos com justeza de julgamento, pois o mundo existe como vontade e representação; que eu não desista quando os meus pés vacilarem e quando os meus olhos insisterem em se fecharem por causa do cansaço; que as águas imensas do tempo lavem a minha alma e limpem a sujeira que os dias trazem; que eu esteja pronto a me levantar quando tropeçar em algum fato; que a vontade de poder e desejo de ser bom sejam bússolas que me orientem em um mundo cada vez mais repleto de cínicos. Não sou suspeticioso e sei que determinadas coisas estão aquém do nosso controle, mas desejo a todos um extraordinário 2013.

segunda-feira, novembro 19, 2012

Livros e uma sensação de pequenez II

Um viciado em algo sempre faz promessas de que não vai voltar a cometer o vício que o oprime. Ao perceber que errou, que voltou ao vício, escadaliza-se. Perscruta sua figura mofina e, no fundo, sente-se impotente. É assim que me vejo. O vício pelos livros me coloca numa ciranda. Em um carrossel que sempre me leva ao mesmo lugar: novas compras. 

Há alguns dias atrás, enquanto observava alguns títulos na Livraria Saraiva (virtual), acabei comprando nove livros. Algumas dessas indicações são do Charlles Campos. O sujeito anda a me mostrar cenários literários amplos e aquilo me confunde. Deixa-me aturdido. Fico a falar para mim mesmo: "Cacete! Não é possível...". E acabo fazendo listas escrupulosas. Somas imensas. Disciplinas metódicas. Afundo-me numa azáfama enorme. Embruteço.

As exigências do dia. O trabalho. As provas que tenho que preparar e corrigir. As aulas que tenho que organizar me afasta de minhas intenções. O feriado, o recesso ou o final de semana se constituem em oásis necessários e as horas acabam sendo disputadas. A mulher deseja contatos sociais. Em uma dessas exigências, quer que eu vá à igreja. Que eu me enverede pela crença desarrazoada e cacete. E, eu, misantropo, silencio num gesto atrabiliário.

Hoje, ao chegar à minha casa, encontrei uma caixa com os nove títulos. Tentei esconder. Discretiei de minha esposa. Ela anda a direcionar invectivas contra os meus hábitos de bibliófilo. Repreende-me pela desorganização. Livros próximo ao sofá; em cima de bancos; sobre a mesa. O apartamento de um quarto mostra-se exíguo como o meu peito diante dessa infinidade impossível. O meu sonho fáustico gera uma sina terrível. Amofino-me numa estupidez acabrunhante.

A caixa ainda está lacrada. Dentro dela, os títulos: Viagem ao fim da noite, Celine; O primeiro homem, Camus; Herzog, Saul Bellow; O rinoceronte, Ionesco; A história da morte no Ocidente, Ariès; dois tomos de A cidade de Deus, Santo Agostinho, livros que tenciono ler há muito tempo; A Câmara Clara, Barthes; e Com a morte na alma, Sartre.

Recordo-me ainda que comprei, ontem, três outros títulos. Todos do esloveno Slavoj Zizek: Às portas da revolução: escritos de Lênin de 1917; A Visão em Paralaxe; e Lacrimae Rerum.

Cabe lembrar, ainda, de uma biografia sobre James Joyce e o livro A montanha da alma, de Gao Xingjian. E uma sensação estranha me acomete. Deve ser aquilo que Fausto sentiu no final da vida ou aquilo que Camus escreve em o Mito de Sísifo. Subi com a pedra até o alto da montanha, mas a pedra voltou a correr morro abaixo. Desçamos e tentemos subir mais uma vez. Lutemos enquanto caminhamos montanha acima.

segunda-feira, julho 16, 2012

Amarelo Manga de Claudio Assis e a tese naturalista

Sábado à tarde eu estava em casa e resolvi assistir a um filme. Selecionei o filme nacional Amarelo Manga (tratava-se de um projeto antigo), de Claudio Assis, de 2002, e me impressionei com o que vi. Hoje, segunda-feira, mesmo estando longe de casa (estou na Serra Gaúcha - Gramado) ainda penso no filme. Amarelo Manga me pareceu um daqueles painéis pintados pelos naturalistas do século XIX; ou um daqueles romances dos quais se convencionou a produzir por escritores brasileiros como Aluísio Azevedo (Casa de Pensão, O cortiço etc) ou Júlio Ribeiro (A carne); ou ainda aquela produção francesa alavancada pro Émile Zola (A besta humana, Naná, Thérese Raquin, Germinal etc). 

Claudio Assis posicionou o seu foco sobre seres anônimos, satélites, escondidos em meio à putrefação. Em meio aos mais escabrosos, grotescos ambientes e antros do Recife, mas que poderiam figurar em qualquer cidade brasileira. Os personagens são suburbanos. Entrelaçam-se na condição vil e isso os torna humanos. Segundo a fala de um padre (padre Jonas, o intelectual do filme) "O ser humano, hem! O ser humano é estômago e sexo. E tem diante de si uma condenação. Terá obrigatoriamente de ser livre. Mas ele mata e se mata com medo de viver". A sua tese é determinista, terrivelmente naturalista e existencialista - uma mistura de Sartre e Schopenhauer. Protistutas, ambulantes, açougueiros, homossexuais, pervertidos, alcóolatras, derrotados mambembes, traficantes, maníacos, funcionário público corrupto, donas de casas são responsáveis pela formatação dos vícios e comportamentos inesperados. O ser humano é uma matéria imprevisível. Desse ser pode advir o absurdo. Mas esse absurdo é uma condição insofismável da própria condição de ser humano.

Existe uma tese de ruína social, já que "a carne" está presente em todos os espaços da obra. Tanto no aspecto real do termo quanto no figurativo. Os homens e mulheres de Amarelo Manga são seres canibais. Entredevoram-se numa teia doentia. Consomem-se. Comem-se socialmente. Existe um desarranjo social em torno de todas as relações. Marxismo, psicanálise e naturalismo se misturam para compô-los. Mesmo dentro dessa suposta anarquia existe um feixe hierárquico que deterimana as relações.

Um exemplo curioso no filme é a personagem Kika, um cristã fervorosa, que busca a virtude. Recata-se. Usa as idumentárias da decência. Busca ser um bom modelo social. Uma esposa fiel. Mas, não tolera a traição. Seu marido Wellington, um machista típico que encarna a imagem do homem nordestino, tem um caso com Daisy, outra personagem suburbana dos arrabaldes. Assim, o personagem deseja Kika para ser a esposa para "a matéria de mesa" e Daisy para "a matéria de cama".

Quando Kika descobre o caso de Wellington com Daisy transforma-se completamente. Assume a sua animalidade oculta pelo tecido da religião e da aparência social. Arranca orelha da desafeta Daisy com uma mordida; sai sem destino, vagabundamente, e entrega-se ao primeiro sujeito que se aproxima dela. Eis aí aquela tese de que do homem pode se esperar qualquer coisa. Que aquilo que vemos esconde outra força que pode vir à tona quando estimulada. Ou seja, o animal que esconde os instintos por trás cortina erguida pela moral. Segundo a obra, "o pudor é a forma mais inteligente de perversão."

Amarelo Manga não é um filme para se ver com a família. É uma obra marginal. Palavrões. O sangue do abatedouro que parece respingar em nosso corpo; o órgão genital ornamentado por pentelhos amarelos, de Lígia (dona do Bar Avenida), sugere a estética do filme. Por que "amarelo manga"? Amarelo, segundo a obra, é a cor da ruína, da podridão; "dos cabos das peixeiras, da enxada e da estrovenga. Do carro de boi, das cangas, dos chapéus envelhecidos, da charque. Amarelo das doenças, das remelas dos olhos dos meninos, das feridas purulentas, dos escarros, das verminoses, das hepatites, das diarréias, dos dentes apodrecidos".

O filme é bastante rico. Cheio de simbolismos e metáforas. Deve ser visto com atenção. Amarelo Manga é daqueles filmes que você ama ou rejeita. É cru. Visceral. Foge daquela estética que visa apenas impressionar o mercado, tendo por finalidade última ser arrematado para um Oscar - nosso eterno sonho.

Em meu simplismo diletante: baita filme!

P.S. tenho outro filme de Claudio Assis. Chama-se Baixio das Bestas (2006) e ganhou vários prêmios nacionais e internarcionais. Pretendo vê-lo o mais rápido possível.

Gramado-RS

quinta-feira, maio 21, 2009

O homem moderno e a náusea de nada ser

Ontem pela manhã enquanto caminhava, veio-me à mente um trecho instigante do livro A Náusea de Sartre. Nada de notável. Não se trata obviamente de um resultado semelhante àquele de Nietzsche. A História da Filosofia nos retrata que enquanto o filósofo alemão caminhava, como sempre gostava de fazer, veio-lhe a intuição da filosofia do eterno retorno. Esse é um dos pontos basilares do pensamento de Friedrich. Os gregos costumavam filosofar enquanto caminhavam. Aristóteles ficou conhecido como um dos principais representantes do método. Chama-se peripatético (que em gregos significa “aquele que gosta de passear”). O peripapetismo seria o saber atribuído a essa prática.

O meu caminhar não era nem como o de Nietzsche, nem tão menos como o de Aristóteles. Todavia, enquanto caminhava, vendo os seres apressados que passavam por mim, lembrei-me das palavras do filósofo francês Jean-Paul Sartre: “Eles estão saindo dos escritórios, depois de seu dia de trabalho, olham para as casas e para as praças com ar satisfeito, pensam que essa é a sua cidade, uma ‘urbe burguesa’. Não têm medo, sentem-se em casa. Nunca viram senão a água domada que corre das torneiras, a luz que jorra das lâmpadas quando se aperta o interruptor, as árvores mestiças, bastardas, sustentadas por espeques. Eles comprovam, cem vezes por dia, que tudo se faz por mecanismo, que o mundo obedece a leis fixas e imutáveis. Os corpos abandonados no vazio caem na mesma velocidade, o jardim público é fechado todos os dias às dezesseis horas no inverno e às dezoito horas no verão, o chumbo funde a 335 graus centígrados, o último bonde sai da prefeitura às vinte e três e cinco. Eles são sossegados, um pouco taciturnos, pensam no Amanhã, isto é, simplesmente num novo hoje; as cidades dispõem apenas de um único dia que retorna igualzinho todas as manhãs. Só enfeitam um pouco aos domingos. Que Imbecis! (...) Eles legislam, escrevem romances populistas, casam-se, cometem a extrema tolice de fazer filhos. No entanto a grande natureza vaga penetrou em sua cidade, infiltrou-se por todo lado, em suas casas, em seus escritórios, neles próprios. Não se mexe, mantém-se quieta, eles estão bem dentro dela, respiram-na e não a vêem, imaginam que ela está lá fora, a vinte léguas da cidade”.

O livro A Náusea de Sartre dispensa maiores comentários. É ao lado de outras grandes obras, um dos textos mais representativos do século XX. Aponta o estado psicológico do homem moderno, mergulhado numa condição de nulidade existencial. O que acontece a Roquetin, personagem principal da obra de Sartre, é de certa forma emblemático, simbólico. O personagem é o arquétipo de um homem completamente desalojado. Sentado num determinado local, Roquetin faz a observação-reflexão acima transcrita. Enxerga como os homens andam zumbificados. A vida do burguês domesticado segue uma fluência maquinal. Os fatos e sistemas estão habitados por uma lógica constante, repisada. A existência só tem uma cor e essa cor se repete, se faz da mesma forma todos os dias.

A correria de todos os dias nos grandes centros. A tirania para conquistar, para alcançar um lugar satisfatório no funil da ascensão social são fatores que escravizam o homem. O homem moderno está escravizado por uma condição com a qual não pode lutar. Esmagado, o indivíduo moderno tornou-se uma espécie de joguete coisificado pela ausência de substância universal. O seu existir é seguir um jogo de regras inalteráveis. O homem moderno já não é um ser autêntico. É uma peça manipulada pelas estruturas opressoras que drenaram o sujeito como ente que possui potencialmente a capacidade de construir a História. É a morte do sujeito, conforme apregoava Foucault. Todos estão mortos. O homem moderno morreu.

Ele é, assim, um ente programado desde o dia em que nasce, até o dia em que morre. Vive para reproduzir um modelo de vida completamente robotizado. Já não sabe o que é real e o que é fictício. Confunde-se com os símbolos que criou. Nietzsche dizia que o homem é o único ser capaz de criar realidades e logo em seguida tornar-se escravo das realidades que criou. Ou seja, a criação sujeita o criador. O homem moderno corre atrás de modelos configurados por outros. Todavia, tais modelos ao mesmo tempo não são nada.

Todos os dias os homens vão e vêm, num ritmo sem significado. São seres autômatos, incapazes de responderem o que são e para onde estão indo. Caminham, mas não têm destino. Esmurram pela vida afora, mas o resultado de tal pugna é nulo, pois não há oponentes. A única realidade que há é o modelo que deve ser seguido, obedecido, mas o mesmo não é algo em si – apenas “a coisa”.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: sábado, 23 de agosto de 2008, 00:53:10.