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quinta-feira, fevereiro 05, 2015

"Surpreendido pela Alegria", de C.S. Lewis. Observações da terceira leitura


"O universo se mostra fiel sempre que você o testa com justiça" C.S. Lewis

Foi uma experiência singular voltar a ler esse livro. Fi-lo como alguém que deixa a sua terra e volta a visitá-la depois de muitos anos. Ele olha as paisagens tão comuns e esquecidas e procura encontrar ali os fiapos das experiências pretéritas. E, após muito andar sem compromisso, analisando a paisagem despretensiosamente, abre os lábios, deixando escapar um sorriso saudoso e tímido de complacência por aquilo de bom que viveu. Durante muito tempo o procurei. Havia em mim uma disposição sôfrega para encontrá-lo. Li-o pela primeira vez em 2002 ou 2003. Naquela ocasião, fiz a leitura por duas vezes seguidas, dada era a minha paixão. A primeira leitura havia gerado uma impressão doce, habitada por disposições hedônicas. O livro me mostrara um mundo em que a promessa, após a caminhada pelas trilhas indeléveis da literatura, seria a ventura do bom sentir, do bom enxergar. Li-o novamente no mesmo ano. Penso que a diferença entre uma leitura e outra tenha sido de um mês, buscando sentir os mesmos efeitos produzidos na primeira leitura. 

Saí do seminário em 2005. Mas a lembrança da prosa lewiseana ficou em minha mente. O livro editado pela Editora Mundo Cristão rapidamente se esgotara. A primeira e única edição (parece-me) saiu em 1998. Há alguns meses atrás consegui achá-lo em PDF e grande foi o meu entusiasmo. Não hesitei em lê-lo. Consegui ler as suas mais de duzentas páginas na tela do computador em pouco mais de quinze dias. 

O que existe de tão elementar, de tão relevante neste livro? Não é necessariamente a importância o mote obra, pois trata-se de um relato de conversão ao cristianismo por parte de C.S. Lewis - embora, haja a informação de que foi um dos relatos autobiográficos mais lidos do século XX. A grandeza do livro, ao meu modo de ver, está na prosa lewiseana, ou seja, no modo leve e elegante com que a história é contada.
Lewis narra a história da sua vida, desde os dias mais tenros da infância na Irlanda, até o momento em que, já adulto, converte-se à fé cristã. Essa experiência acontece quando Lewis já era o grande catedrático de Oxford. Apesar de esse ser o grande momento do livro para o qual todos os pontos referenciais direcionem, penso que o que me fisga nesse livro é a narração do grande amor de C.S. Lewis pelos livros. Recordo-me que quando li Surpreendido pela Alegria pela primeira vez, a obra me chamou a atenção para duas coisas: a leitura e a música. Lewis cresceu em meio aos livros e, mais tarde, na adolescência, o autor de As crônicas de Nárnia, encontrou o caminho da mitologia; a segunda questão foi a descrição da paixão que ele sentia pela música de Richard Wagner. No livro, ele não explica o porquê de sua paixão pela música wagneriana, mas penso que esteja ligado ao fato de que o compositor utiliza em suas óperas os temas mitológicos os quais Lewis tanto amava.

Ao ler uma afirmação como esta "Nas tardes de sábado, no inverno, quando o nariz e os dedos podem ficar gelados o bastante para garantir um sabor a mais ao antegozo do chá e da lareira, tendo ainda à frente toda a leitura do final de semana, acho que eu alcançava tanta felicidade quanto se pode alcançar nesta terra. Especialmente se houvesse algum livro novo e longamente cobiçado à minha espera" (p. 153), sentia-me visitado por uma inominável felicidade. Eu não descobri a música wagneriana. Foi por essa época, por sua vez, que encontrei a música de Beethoven. Ficava enfeitiçado cada vez que escutava "A Pastoral" do compositor alemão. Aprendi os lances contemplativos. Acredito que essa diposição já morava em mim, todavia, ao ler o livro de Lewis e conhecer a "Pastoral", passei a entender que na natureza moram poemas não escritos e mistérios não revelados. A natureza é um dos grandes elementos presentes no livro - por exemplo, quando Lewis passa longas horas caminhando pelas cercanias; a descrição do mar entre a Inglaterra e a Irlanda; a preocupação que Lewis tem em nos relevar como eram os campos e as montanhas e seu séquito multifacetado de árvores e arbustos variados.

O livro está repleto pelo recato e pelo humor inglês. Lewis, um sujeito que passou boa parte da sua vida sozinho, olha para trás e analisa com bastante leveza e um toque fino de ironia os momentos agradáveis e difíceis de sua vida. Embora gaste dois capítulos para mostrar ao leitor o labirinto filosófico em que havia se metido até ser convencido de que o deus do cristianismo era a grande Alegria que ele passara a vida inteira procurando, penso que o momento mais bonito é aquele em que o escritor narra a sua amizade com Arthur, o que acabou ensinando a Lewis a capacidade de prestar atenção às coisas simples. Um intelectual não precisa ser necessariamente complexo ou hermético para ser respeitado ou reconhecido pela sua erudição. Precisa antes de tudo ser singelo e perceber a complexidade do mundo nas pequenas coisas que o cerca. Transformar essas paisagens invisíveis em um belo quadro para que todos vejam. É, por meio dessa confissão, que Lewis admite ter lido "os Brontës", todos "Janes Austens" etc. 

Outro importante afirmação é a amizade que Lewis desenvolveu com J.R.R. Tolkien. Pelas palavras utilizadas por Lewis, Tolkien parece ter sido um sujeito bastante risonho e tranquilo. Vale mencionar ainda o respeito de Lewis à prosa de G.K. Chesterton. Inclusive, vale mencionar que Chesterton contribuiu de forma significativa para que Lewis se rendesse à fé cristã. 

Foi curioso ter lido esse livro pela terceira vez. Analisando-o, como disse no início, acredito que ele tenha sido fundamental para a solidificação dessa porção romântica do meu ser. É justamente isso que visualizo quando leio essa obra. E, novamente, um riso frouxo derrama-se pelos meus lábios... Seria a alegria que surge quando testamos o universo com justiça? E novamente Lewis me ensina que é possível encontrar a alegria, mesmo em mundo em que os homens estão afeitos ao caos e à selvageria. Existe no cosmos um potencial de felicidade.

segunda-feira, abril 21, 2014

Quando se é estreito...

Não tinha a intenção de escrever esta reflexão, mas após ler dois textos vindos de fontes bem distintas, abordando o mesmo assunto, percebi como idiossincrasias religiosas podem levar a uma miopia; ou a uma sensibilidade além do comum.  O segundo caso é mais raro, todavia pode ser encontrado. O primeiro está vestido pela arrogância e por uma "teimosa" perspectiva de medir todas as coisas pelos valores que se cristalizaram no tempo e não acompanharam evolução da história.

Refiro-me à reflexão feita por Ricardo Gondim sobre Gabriel García Márquez, que faz aumentar o respeito que tenho por ele, um dos religiosos mais veneráveis deste país. Lúcido. Simpático. De bem com a vida. Cheio de poesia. E o outro texto pode ser lido aqui, escrito por Solano Portela, pretenso arauto da doutrina, defensor ardoroso da causa reformada. Solano também pretende falar sobre García Márquez. Mas decide estender sua análise para dois outros nomes importantes da literatura latino-americano - Mario Vargas-Llosa e Jorge Amado. Faz a pergunta: "O que Gabriel Garcia Marquez, Mario Vargas Llosa e Jorge Amado têm em comum?" Critica García Márquez e Jorge por serem de esquerda. Defenestra o primeiro por que era amigo de Fidel e aguilhoa o outro por ter sido militante comunista. Os intelectuais têm direito a ser aquilo que bem entendem. Afinal, impossível falar em intelectual, ainda mais no século XX, sem que este estivesse comprometido com uma causa política. Elogia Llosa por ser de direita, mas decide em seguida apupá-lo, também, por este ter enaltecido o presidente do Uruguai pelas medidas progressistas que não temos condições de debater dada a nossa menoridade intelectual. 

A exiguidade do pensamento de Solano fica claro quando comparamos com o texto de Gondim - mais largo, arejado, sem espinhos inquisidores. Sem sentenças judiciosas a favor de um dogma. Como se pode ver no texto de Gondim o seu dogma é a vida. A busca por compreender a sua própria condição de sujeito humano. 

Condenar a literatura de três nomes extremamente relevantes para a história do continente latino-americano pelo simples fato de a literatura fazer menção a temas repudiados pelo mundinho religioso de A ou B é um ato de ignorância. O dia em que esses indivíduos de mentes estreitas, fechadas, conseguirem escrever um romance como Jubiabá, Pastores da Noite, Tenda dos Milagres (Jorge Amado); Conversa na Catedral, A festa do bode, A guerra do fim do mundo, que é a retratação da Guerra de Canudos, sendo que para escrever o livro Vargas-Llosa morou por cinco anos no interior da Bahia; ou Cem anos de solidão, O amor nos tempos do cólera, Ninguém escreve ao coronel (Gabriel García Márquez), eu farei um silêncio e admitirei seus ideais congelados.

A literatura não está preocupada com os moralismos. E podemos contar o número de escritores com inclinações religiosas que produziram literatura de alto nível. São exceções Chesterton, C.S. Lewis ou Tolkien. A literatura é, simplesmente, a transfiguração do mundo. O que os homens não conseguem expressar por meio de teorias, criam por meio da ficção. A literatura melhora o mundo. Desconstrói para poder construí-lo. Não podemos falar em moralidade ou amoralidade nesse sentido.


quarta-feira, março 26, 2014

Uma resposta brilhante!

O esloveno Slavoj Sizek é um dos grandes críticos, polemistas, entusiastas do marxismo, "desferidor" de golpes nos mais variados exageros, contradições e paradoxos da sociedade do nosso tempo. Hoje, li uma entrevista dele, publicada na edição de janeiro da Revista Cult. Na verdade, trata-se de uma edição especial com as mais celebradas e relevantes entrevistas realizadas pela revista. Há nomes como José Saramago, Patativa do Assaré, Lars Von Trier, Marilena Chauí, Lévi-Strauss, Zygmunt Bauman, Chomsky, entre outros.

Uma das perguntas feitas pela jornalista ao grande filósofo me chamou a atenção pelo fato de ser uma daquelas perguntas que são realizadas com o objetivo claro de gerar polêmicas; levantar a poeira dos fatos a fim de que, no outro dia, a manchete venha ao mundo com letras garrafais: "Famoso filósofo fala isso e isso do político tal". É uma faceta pobre e de um malcaratismo infame de certo tipo de jornalismo. E isso me faz lembrar uma afirmação de Chesterton: "o jornalismo é hoje gerido como qualquer outro negócio". 

O sensacional nisso tudo foi a resposta de Zizek, demonstrando a sua lucidez enciclopédica e a sua capacidade de fazer conexões brilhantes. Eis a pergunta da jornalista e a resposta de Zizek: 

Jornalista - Quando surgiram suspeitas sobre o enriquecimento do atual ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, a presidente Dilma Rousseff foi criticada por não comentar o assunto. Como podemos ler essa manifestação da negação?

Zizek - Há situações em que a única atitude é não dar opinião. Não conheço esse caso específico. Se dar uma opinião é aceitar toda maneira como problema é colocado, o melhor é não dar opinião. Não tenho nada contra a punição. Mas a corrupção individual não me interessa tanto como a questão geral, por exemplo: "Como foi possível que tal pessoa fosse corrupta?" Gosto das variações daquela frase brechtiana: " O que é um roubo a banco comparado com a fundação de um banco?" A mídia burguesa gosta desse tipo de escândalo porque reafirma o sistema.

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

A violência nossa de cada dia e o processo de desumanização em nossas cidades

"As condições de vida na cidade grande e moderna criam condições que e necessidades específicas de sensibilidade e comportamento". Georg Simmel

Esta semana aconteceu um fato que me deixou perplexo. Viver em uma grande cidade como Brasília ou outra capital brasileira, com tantos problemas sociais, vai nos insensibilizando. Lamento isso todos os dias. Tanto é assim que tenho conversado com a minha esposa sobre a possibilidade de mudarmos da cidade projetada para ser a Capital do Brasil. Trata-se de uma possibilidade que pode vir a grassar com o tempo. As grandes cidades tornaram-se em espaços geradores de apartação do outro. De desconhecimento daquilo que nos faz humanos. É um processo em que os indivíduos, que partilham da mesma sociedade com outros indivíduos, ignoram os direitos de seus semelhantes. Nessa sociedade causadora de patologias e, que vive sob o signo da violência, o outro, se necessário, não deve ser considerado enquanto sujeito. O que vale é a truculência. Assistimos a tudo isso no trânsito, quando caminhamos pela rua ou quando estamos no metrô, como testemunhei outro dia. 

Pego o metrô todos os dias para ir trabalhar e voltar para casa. A qualidade do metrô aqui em Brasília é bem incipiente e amadora. Às seis da tarde, tentar entrar em um dos vagões da composição é uma luta, dependendo da estação em que se estiver. Pois aconteceu que o vagão em que eu estava, se encontrava com a lotação máxima. Era praticamente impossível entrar ali. Um brutamontes retesou os músculos e tentou abrir caminho a força para tentar entrar. Quando fez isso, ele acabou pisando no pé de um rapazote, que admoestou o "pitiboy". Imediatamente este disse, não medindo as palavras nem levando em conta as pessoas que estavam ali: senhoras, mulheres, crianças. "Vai tomar no c*! Tá maluco, filho da p*!" Os demais passageiros ficaram a olhar, estapafúrdios. O interlocutor do esquizóide antropófobo murchou no mesmo instante. Recolheu-se. Entrou em si. Talvez tenha até se sentido culpado por ter feito uma reclamação branda. Ao ouvir e ver aquilo fiquei a mirar o troglodita com cara de lutador de MMA. Rapidamente, larguei o Chesterton que estava lendo e fiquei pensando como a vida em sociedade é capaz de gerar cenas medonhas como aquela. Como os homens estão bestializados. Não se trata apenas de falta de educação. É mais que isso. É fenômeno que está para além da escola. Trata-se de uma força pujante e invisível que gera esse processo de animalização xenófoba, como se fosse um gás venenoso e embriagador.

E esta semana (para voltar àquilo que deu início a esta reflexão apressada), outra cena de barbárie - e esta com resultados mais trágicos - aconteceu por aqui. Em certo shopping de Brasília, dois sujeitos com comportamento canino decidiram urinar em uma parede externa do estabelecimento. Foram admoestados por um professor de educação física, de 27 anos de idade, que acabou sendo espancado covardemente pelos dois desleais calhordas - um com 20 e outro com 21 anos de idade. Segundo informações, o professor está em estado grave em um hospital da cidade, com um dos lados do corpo paralisado. Esse fato não me deixou de fazer pensar sobre como vivemos um processo avançado de selvageria e barbárie. De fato, já experimentamos um processo profundo e preocupante de desumanização. Ser homem não implica, consequentemente, ser humanizado. A grande missão do nosso tempo é buscar a humanização. E ser humanizado é levar em conta, necessariamente, os direitos e a condição do outro como ser humano.

Leandro Konder fazendo referência a Walter Benjamin, diz que "os habitantes das grandes cidades vivem bombardeados por 'choques', sob o impacto de experiências mais ou menos violentas, e acabam ficando um tanto 'anestesiados' ou 'insensíveis'(...)". É justamente contra essa insensibilidade que temos que lutar todos os dias. Existe um descarte agressivo contra a vida humana. Contra o direito do outro. Contra a possibilidade de solidariedade e respeito àquilo que é do outro.Mantenhamo-nos humanizados - ou pelo menos, busquemos nos humanizar.

quarta-feira, janeiro 29, 2014

G.K. Chesterton e "O homem que foi quinta-feira (um pesadelo)" - e outras coisas

Gilbert Keith Chesterton ou simplesmente G.K Chesterton foi um jornalista, teólogo, filósofo, provocador, romancista, polemista, apologeta do cristianismo, místico - ou tudo isso ao mesmo tempo. Sua figura descuidada o transformava em um cômico bonachão. Mas por trás desse muro amparentemente frágil estava um argumentador poderoso; um construtor habilidoso de paradoxos sensacionais; um grande pícaro que se desenredava com a agilidade de um acrobata de qualquer embaraço filosófico. São conhecidos seus debates públicos com sujeitos como Bernard Shaw ou H.G. Wells; este último, construtor de distopias assustadoras e ao mesmo tempo fascinantes; tais empreedimentos intelectuais de Wells com Chesterton tornaram-se um verdadeiro passatempo da vida nacional inglesa.

Era um prolífico escritor. Praticamente abordou "todos" os temas do seu tempo. Escreveu mais de cem livros. Lá no blog do Charlles, há uma resenha sobre um dos livros de Chesterton (que já comprei): A inocência do Padre Brown. Além de fazer menção à dívida do escritor argentino Jorge Luis Borges para com Chesterton, existe uma citação do autor de O livro de Areia sobre o escritor  inglês, encontrada na edição da L&PM: "A literatura é uma das formas de felicidade; talvez nenhum escritor tenha me proporcionado tantas horas felizes como Chesterton".

De Chesterton li apenas dois livros: Ortodoxia, apontado pelo mesmo Charlles e, o último, que terminei hoje, O homem que foi quinta-feira (um pesadelo). Não preciso de dizer que o estilo límpido, de uma celeridade inebriante, uma mobilidade de ações, um colorido de eventos que determinam um apego do leitor de forma incontinênti, prendeu-me até que devorasse as duzentas páginas da obra ontem e hoje. 

Caricatura de Chesterton
A história é prazerosa e repleta de lances irreais e simbólicos - um misto de suspense, mistério, romance policial e alegoria filosófico-teológica. Um policial amargurado por uma obstinação de infância, decide ingressar em uma organização supostamente criminosa de anarquistas. Sua intenção é muita clara - espicaçar os tentáculos da cepa de finórios, que cometia atentados contra a ordem com dinamites, também sendo conhecidos como "dinamiteiros". Após ter recebido o nome de Quinta-feira, passa a ser perseguido pelos membros da organização. Todavia, após ser perseguido por seis dos supostos criminosos, descobre que todos são agentes policiais disfarçados.

 
É na forma de conduzir o enredo, que percebemos a habilidade genial de Chesterton para contar uma história. Por exemplo, quando Syme (Quinta-feira) está sendo perseguido por um dos bandidos, que se transmudara em uma velha e decrépita criatura, somos conduzidos por labirintos asfixiantes. Por ruas vielas abandonadas e frias; por conduções desertas e com aspecto de desolação. Sentimos a agonia da própria personagem querendo escapar da presença do ente infernal. Para onde Syme ia, o velho amedrontador o seguia com sua bengala e sua postura de zumbi demoníaco. Até que este se revela a Syme e diz se tratar de um policial. 

Ecce Homo
O romance aborda uma série de problemas filosóficos - como já apontei. Entre eles, a obstinação que é capaz de nos cegar e nos transformar em autômatos, conduzidos para determinado desejo que, no fundo, se mostra desarrazoado; e também acerca da própria possibilidade de conhecermos alguma coisa, deixando-nos numa encruzilhada metafísica meio kantiana, meio platônica. É emblemática e salutar esta passagem do romance: 

"Mas escutem! - gritou Syme com extraordinária ênfase - Vou dizer-lhes qual é o segredo do mundo. É que do mundo só conhecemos as costas. Tudo é visto por trás, e por isso parece brutal. Isso não é uma árvore, mas as costas de uma árvore. Aquilo não é uma nuvem, mas as costas de uma nuvem. Não veem que tudo está voltado de costas e esconde o rosto? Se pudéssemos dar a volta e ficar de frente..."

Chesterton sabia contar uma história como ninguém. Possuía um controle da linguagem de forma incomum. Quem deseja ler um boa história - ou pelo menos, aprender como se constrói um bom romance - precisa ler o inglês. Ele morreu em 1936, mas deixou uma obra imorredoura que, aos poucos, começa a surgir por aqui em nosso país.

sábado, janeiro 26, 2013

Conceitos científicos x conceitos míticos




"Todos os termos usados nos livros de ciência, "lei", "necessidade", "ordem" e assim por diante, são realmente não intelectuais, porque pressupõem uma síntese interior, que nós não possuímos. As únicas palavras que sempre me satisfizeram como descrições da natureza são os termos usados nos contos de fada, "sortilégio", "feitiço", "encantamento". Eles expressam a arbitrariedade do fato e do mistério. Uma árvore dá frutos porque é uma árvore MÁGICA. A água corre morro abaixo porque está enfeitiçada. O sol brilha porque está enfeitiçado".

G.K. Chesterton, in Ortodoxia, p. 54

sexta-feira, janeiro 04, 2013

Como G.K. Chesterton pensava e argumentava

Ontem eu fiz uma pequena explanação sobre uma afirmação do inglês G.K. Chesterton sobre Nietzsche. Encontrei fortuitamente, no Youtube, duas dramatizações de como Chesterton raciocinava; de como suas ideias fluíam com bastante elegância e desembaraço. Sempre moderado, com um toque suave de ironia e sarcamo, Chesterton era uma atração para o público, que lotava auditórios para ouvi-lo falar. Nos vídeos, o inglês fala sobre milagres, fé, ciência, religião, cristianismo, sempre com um tom calmo, de quem tem controle sobre tudo aquilo que fala. Abaixo, os vídeos:
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quinta-feira, janeiro 03, 2013

Uma afirmação de Chesterton sobre Nieztsche

Influenciado pelo meu colega de espaço virtual Charlles Campos comecei a ler Ortodoxia, de G.K Chesterton. Curioso nisso tudo é que percebo que existe uma plaga bastante diversa de blogs. Os sujeitos não se conhecem pessoalmente, mas acabam se relacionando de tal modo, que dá uma ideia de que a amizade é antiga.

O inglês é um argumentador habilidoso. Impressiona como ele é capaz de analisar um objeto sob os mais variados ângulos.  Não avancei muito com a leitura. Mas o suficiente para perceber o quanto Chesterton labora a questão do fundamentalismo dos mais diversos matizes. Tanto o ateu, o materialista , o cristão ou como qualquer indivíduo arraigado em seu sistema filósofico torna-se um religioso. É a atitude de arrogância intolerante que conta nesse caso. Seus argumentos são sólidos. Fogem do jargão convencional. 

Chesterton era cristão. O nome do livro já nos aponta algo absoluto (ortodoxia - palavra formada por dois termos gregos: (1) ortho - "correto", daí vem a palavra ortografia, que é "a escrita correta"; o segundo vócabulo é doxxa - "adoração". Ou seja, a palavra ortodoxia faz pressupor "a adoração correta" ou os "princípios que validam a fé de certa forma".

Todavia, não concordei com o trecho na qual Chesterton raciocina como um verdadeiro cristão falando de Nietzsche. O filósofo alemão é um enigma. Como a esfinge, diante dele, ou o deciframos ou acabamos sendo devorados por ele. Suas provocações não nos deixam sem posionamentos. Diante dele assumimos duas atitudes: "(1) ou de repulsa completa, classificando-o como intragável e um sátiro, um cínico; (2) ou nos aliamos a ele, admirando-o, rindo dos outros; abrindo os olhos; refletindo o que senso comum não nos permite refletir. Nietzsche não era um filósofo de planícies. Era um filósofo de montanhas. Se ele descia para o mundo dos homens, era para rir dos desatinos da humanidade. Não dá para ficarmos insensíveis diante dele. Jamais.

Todavia, Nietzsche não fazia a crítica pela crística. Havia uma finalidade em sua filosofia. Uma proponência. Quando Chesterton afirma que Nietzsche não sabia rir, penso que haja um equívoco nessa frase. Não havia um sátiro maior do que Nietzsche. Em Zaratustra, o alter ego do filósofo, achamos o riso largo e despudorado do alemão. Ou ainda em A Gaia Ciência encontramos aquela famosa epígrafe:

"Moro na minha própria casa,
Nunca imitei ninguém,
Rio-me de todos os mestres
Que nunca se riram de si".
(Inscrição sobre minha porta)

Talvez Chesterton se inscreva naquela classe de cristãos que amaldiçoam Nietzsche e ficam tentado achar explicações "espirituais" para a paralisia que acometeu o filósofo nos seus dez últimos anos de vida. Certa vez ouvi alguém dizer que Nietzsche havia ficado naquela situação por causa do pecado. Era um castigo de Deus. Ou como já vi em algumas camisetas: "Deus está morto! Assinado: Nietzsche" e "Nietzsche está morto! Assinado: Deus", o que não deixa de fazer parte de um instinto de fraqueza, uma espécie de revanchismo ressentido. Uma tentativa de resposta. Um escárnio daqueles que nunca entenderam aquilo que Nietzsche tentou dizer com essa frase que faz parte do "lugar comum".Virou moda e faz parte de um comércio especulativo.

Mas acredito que Chesterton era muito inteligente  para pensar assim.

"Nietzsche tinha algum talento natural para o sarcasmo: ele sabia escarnecer, embora não soubesse rir; mas há sempre algo incorpóreo e sem peso na sua sátira, simplesmente porque ela não tem nenhum peso de moralidade comum em que se apoiar. O próprio Nietzsche é mais absurdo que qualquer coisa por ele denunciada. Mas, de fato, ele se sustenta muito bem como exemplo típico de todo esse fracasso da violência abstrata. O amolecimento do cérebro que no fim o atingiu não foi um acidente físico. Se Nietzsche não houvesse acabado na imbecilidade, o nietzscheanismo o teria feito. Pensar no isolamento e com orgulho acaba na idiotice. Todos os homens que não passam por um amolecimento do coração devem no mínimo passar pelo amolecimento do cérebro". (Chesterton, in Ortodoxia).