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segunda-feira, março 10, 2025

"O primo Basílio", de Eça de Queiroz.


Terminei a leitura de o “O primo Basílio”, de Eça de Queiroz. Confesso que estava precisando ler algo como o texto do escritor português. O livro é uma radiografia sobre os costumes da época em que foi escrito. Dentro das produções do autor português, o livro foi o segundo escrito pelo autor. O primeiro foi “O crime do padre Amaro”, de 1876. “O primo Basílio” é do ano de 1878.

Eça não é original. É possível observar que há forte influência do romance francês. Flaubert dita-lhe o esquema. Zola também é uma outra força que usa para criar os seus personagens. Não poderia ser diferente. Essas forças estéticas estão presentes em boa parte das produções romanescas do final do século XIX. Com Eça não poderia ser diferente. Ele procura ser um crítico, um dissecador dos costumes morais. Procura desnudar os vícios ocultos da burguesia e da pequena burguesia lisboeta. Nesse sentido, pode-se afirmar que ele senta à mesa e olha a paisagem como um observador cientificamente atento. O romance traz um narrador onisciente e em terceira pessoa.

A história possui um esquema. E isso pode ser observado no primeiro capítulo. Ele procura apresentar ao leitor quem são as personagens, os ideais, os vícios e os maneirismos. De alguma forma, a tese se desenha ali. Como em outros escritores realistas, Eça aborda o adultério e com isso procura colocar em destaque o papel da mulher. Flaubert já fizera isso – em 1856 – com Madame Bovary, um dos casos de adultério mais famosos da literatura. Nesse sentido, não há originalidade no romance eciano. Ele transporta para Portugal a estética realista a fim de expor provincianismo lisboeta, bem como suas doces contradições. O realismo propunha-se a isso.

O escritor realista é objetivo. Era sua intenção retratar da maneira mais fiel os vícios de determinada sociedade. Ele pode fazer isso de maneira sutil, realizando insinuações, como bem fez Machado de Assis aqui no Brasil. Dom Casmurro é um exemplo disso. Não há descrições de adultério, mas há a tese do adultério, há a rebaixada condição da mulher. O realismo de Eça segue para outra direção. Ele se apropria de elementos naturalistas para descrever certas passagens do romance. O objetivo dessa estratégia é inserir o leitor em uma atmosfera crua, em que a realidade se mostra da maneira mais eficaz. Com o realismo, escuta-se que, quando se está doente, é necessário que se faça uma cirurgia. Com o naturalismo, o interlocutor é levado ao próprio local da cirurgia a fim de que ela seja explicitamente constatada. Assim, O primo Basílio é um romance realista, mas repleto de passagens de crueza naturalista.

A história aborda a traição de Luísa. Bonita, ingênua, Luísa é o protótipo da personagem romântica. Ela acredita na paixão, nos arroubos, nas promessas feitas pelo indivíduo apaixonado, no caso, seu primo denominado Basílio. Jorge, esposo de Luísa, engenheiro bem-sucedido, viaja a trabalho. Passa largos meses fora de casa. Nesse ínterim, Luísa recebe a visita de seu primo recém-chegado do Brasil, onde enriquecera. Voltava luzidio. É evidente o seu desejo de possuir Luísa com quem já tivera um namorico em tempos passados. O reencontro fê-los reavivar o estampido da paixão. Luísa entrega-se completamente a ele. Trocam cartas apaixonadas.

Algumas dessas cartas são interceptadas por Juliana, uma das personagens que melhor demonstram um aprofundamento psicológico por parte do autor. O narrador procura nesse ponto torná-la uma opositora. Sua posição é de firme contraste, de ódio e ressentimento contra a patroa. Juliana representa os pequenos humilhados. Sua intenção com a perpetrada chantagem contra a patroa é conseguir valores financeiros que pudessem dar a ela uma certa tranquilidade na velhice. Inicia-se um jogo complicado entre as duas personagens.

Basílio, por sua vez, é o dândi vazio, oportunista. Assume o papel do canalha, do embusteiro. Ele responsabiliza Luísa pelo fato de a empregada ter furtado as correspondências. Sua preocupação é em poder usufruir das belezas do corpo de Luísa. Não seguirei com desfecho da relação entre os dois para que não sejam entregues os desfechos da obra.

Há outros personagens relevantes e marcantes que aparecem como fatos sociais. Um deles é conselheiro Acácio. Vale mencionar que conselheiro era um título ofertado pela nobreza portuguesa. Ele recebeu tal encômio pelos serviços prestados ao Estado. Acácio é a representação do banal, do inexpressivo. Veste-se de uma pompa sem conteúdo. Gosta das frases eloquentes, mas de pouco valor. É hipócrita em seu moralismo exemplar. Julião, o estudante de medicina, que procurava um lugar ao sol. É invejoso e interesseiro. Leopoldina é a adúltera assumida e, por isso, recriminada; possui uma má reputação.

Além disso, é importante refletir sobre a condição da mulher no século XIX a partir das lentes do autor português. O romance faz-nos refletir sobre como o casamento funcionava como um excelente negócio para os homens. Observe-se que, na obra, Jorge empreende uma relação extraconjugal, no período em que se encontrava fora de casa, a trabalhar no Alentejo. Todavia, ele passa desapercebido. Não faz parte do debate. O homem possui quase que um direito natural quando realiza essa incursão fora do casamento. Ele é compreensivelmente justificado. Luísa, por sua vez, é a figura que sofre as agruras da prisão psicológica. Recai sobre ela todo o peso das cobranças sociais.

Luísa é uma personagem frágil, sonhadora, sentimental; ela encarna o padrão feminino da mulher que esperava, quando jovem, juntar-se ao seu homem e experimentar os idílios somente encontrados nos romances de cavalaria. Percebe-se no romance que Luísa é uma grande leitora do escritor Walter Scott. O escritor inglês ficou famoso pelos romances ambientados na Idade Média, repletos de ideais heroicos. Afastadas da vida pública, da vida produtiva, do comércio, da cultura, da vida política, as mulheres eram ensinadas – desde cedo – a esperarem pelo “príncipe encantado”; ou seja, pela figura imarcescível que a conduziria ao ideal paraíso da felicidade.

Basílio desperta a paixão em Luísa pelo fato de ter acendido esses sentimentos de que ela era a mulher mais perfeita. O ludibrio a abocanhou por tudo de doce que ouviu do primo mau-caráter. Assim, Eça constrói personagens femininas repletas das estereotipias típicas do século XIX. As personagens femininas – no geral – carregam consigo uma disposição moral questionável e mobilizada a partir daquilo que esperavam dela e do papel social que passam a ocupar – Luísa é a adúltera; Juliana é a figura magra, feia, ossuda, chantagista, ambiciosa e que nunca se casara; Leopoldina é a adúltera e pervertida; D. Felicidade vive à cata de um casamento aos cinquenta anos, o que demonstra, do ponto de vista moral e social, uma perversão digna de ser reprovada.

O romance demonstra, na pessoa de Luísa, alguém que não se rebela. Eça mirou para os costumes da burguesia lisboeta, mas quem pagou um altíssimo preço foi Luísa. Ela morre de uma “febre mental”. A personagem é atravessa pelo remorso. Em “O primo Basílio”, os costumes de uma sociedade caduca e contraditória são expostos. Todos os personagens padecem; mas, as personagens femininas padecem mais que os outros.

segunda-feira, abril 24, 2023

A história, a mitologia judaico-cristã e as mulheres

 

Ao longo da história, observa-se um movimento que sempre procurou tornar as mulheres seres sem vontade. Em quase quatro milênios de história registrada, é proeminente a hegemonia do protagonismo do discurso masculino. A historiadora Gerda Lerner afirma que mais de 90% dos registros históricos desse período foram feitos por homens.

Observa-se o quanto as mulheres foram definidas a partir de uma valoração sobre o corpo. Elas sempre foram alvos de uma catalogação. Houve, por exemplo, a determinação de que as mulheres são seres maternais, frágeis, concebidas para as tarefas subalternas, domésticas. O espaço da rua, das ações, das decisões foi feito para os homens; já o espaço das mulheres é o “espaço do recôndito” – da cozinha, do quarto. Mesmo quando o homem está em casa, a casa passa a ser segmentada – a sala por ser o lugar dos encontros e da sociabilidade é do homem; à mulher, cabe a cozinha.

A catalogação fornece um lugar à mulher – os homens são seres da cultura; a mulher, um ser da natureza. No entendimento masculino, as mulheres existem para preencherem certas atividades. Passaram a ser acessórias ao homem.

O mito bíblico-judaico afirma que Javé (que personaliza o masculino), criou para Adão “uma auxiliadora idônea”. É necessário destacar que "idôneo" é aquele ou aquela que auxilia, que presta uma ajuda, uma assistência. Aparece como alguém que está ao lado; que não possui protagonismo, que está à sombra de algo. Esse ser só é quando está ligado ao elemento definidor de sua existência, pois surge como apêndice. A palavra “idoneus” significa “bom”, “útil” ou que “demonstra perfeito estado”. A Bíblia na Linguagem de hoje é mais reveladora no sentido de tornar mais explícita a despersonalização da mulher. Nota-se o que Javé afirma: “Não é bom que o homem viva sozinho. Vou fazer para ele alguém que ajude como se fosse a sua cara metade”. Ressalta-se, mais uma vez, que a mulher só é algo enquanto estiver ligada ao homem. Ela nunca está só; é sempre a partir de algo. A ideia de “cara metade” possui ecos da filosofia grega; todavia, o entendimento aproxima-se disso, pois a mulher nunca é inteira, completa. Ao longo de mais de quatro mil anos de história, houve sempre o discurso da incompletude; ou que sua missão é estar ao lado do homem para ser um com ele. Ou seja, ela nunca é algo estando sozinha.

A Bíblia de Jerusalém afirma que após Javé ter criado o homem, o próprio homem afirmou: “Ela será chamada mulher, porque foi tirada do homem”. O homem passa a ser uma espécie de tutor da mulher, dando-lhe um nome, definindo-lhe a forma, a natureza.

Ainda no livro de Gênesis, encontra-se estupefaciente passagem sobre a condição: "Teu desejo te impelirá ao teu marido e ele te dominará" (Gn 3.16). Fica subjacente no texto a nação de que mulher é uma entidade com instintos irrefreáveis e em constante ebulição. Somente contida pela força atávica do homem. 

A mulher, assim, ao longo da história, possui um desejo tutelado. Enquanto os homens são aqueles que registram a história, são os seres que produzem a cultura, as mulheres são os seres auxiliares, que existem para satisfazer os homens. A história foi feita por homens, por isso as mulheres nunca tiveram um lugar de protagonismo. A Bíblia corrobora aquilo que Gerda Lerner afirma, pois foi feita à imagem e semelhança do macho. Quando não é Javé que fala, é o homem que assume o seu lugar para definir os papéis das mulheres no mundo. Observa-se ainda que não há uma única autora em qualquer narrativa bíblica. Os registros dos mitos bíblicos foram feitos por homens. E daí surge uma perturbadora pergunta: Caso as mulheres tivessem escrito a Bíblia, quais seriam as noções sobre o sagrado? Javé seria um ente melindroso, violento e contraditória como aparece em todo Antigo Testamento?

quarta-feira, junho 10, 2015

A obra de Lima Barreto ainda fala - Clara dos Anjos

Lima Barreto é um dos escritores brasileiros a quem tenho mais respeito. Essa visão especial sobre o escritor carioca nasce de sua biografia e de sua literatura, que foi uma expressão de sua vida conturbada  - e que dar uma história com feições bastante trágicas. Lima foi vítima do preconceito da aristocracia coberta de pó-de-arroz, vestida de fraque e com cartola à francesa num calor de quase quarenta graus do Rio de Janeiro, para demonstrar o quanto era diferente dos sujeitos humildes dos subúrbios da República Velha e se assemelhava "aos povos civilizados" - no caso, os europeus. 

O escritor nunca conseguiu o devido reconhecimento em vida. Buscou mais de uma vez ingressar na Academia Brasileira de Letras, tendo sempre o silêncio como resposta peremptória. Qual o seu pecado? Ser mulato, falar das cenas do cotidiano, ser morador de subúrbio, denunciar o parasitismo e o artificialismo de uma elite esdrúxula que militava contra o próprio país - como ainda continua a fazer nos dias de hoje. 

Lima escreveu poucos livros. Sua existência foi povoada por rupturas dolorosas; por intervalos entre a produtividade e o vício amalgamado com tendências à loucura, inclinação que vinha de família. Escreveu pelo menos três ou quatro livros que fazem parte do espectro da grande literatura que revela, que tornam os nossos dilemas mais claros, transparentes; livros que exatificam as nossas feiuras, nossos desvarios, nossos voos de mosquito. Podem ser citados O triste fim de Policarpo Quaresma (sua maior obra), Recordações do Escrivão Isaías Caminha, Os Bruzundangas e Clara dos Anjos. Este último eu tive a oportunidade de ler semana passada. Além dos romances, vale mencionar os excelentes contos escritos pelo autor. 

Clara dos Anjos é uma obra póstuma. Foi lançado apenas em 1948, vinte e seis anos após a morte do autor. Segundo informações, Lima começou a escrevê-lo por volta de 1904 e após a sua morte, em 1922, ainda fica a impressão de que a obra possui traços de inacabamento. Clara dos Anjos, uma espécie de alter ego do autor, é uma metáfora da vida de Lima.  

A obra possui traços bem aproximados do naturalismo do século XIX. O que a torna diferente ao meu modo de ver é o despojamento da linguagem. Lima parece "brincar" com termos do falar popular, criando expressões, adaptando termos ou, simplesmente, manifestando por meio de frases sentenças do francês, do inglês ou do latim. Ele desenha com bastante vivacidade o modo de ser da periferia. As personagens vivem de forma humilde; já, outros, buscam a malandragem para locupletarem ganhos de forma fácil. É o caso de Cassi Jones, personagem finório, que trará enormes desventuras à personagem principal, deixando-a exposta aos preconceitos e deferências explícitas da sociedade.

Clara é uma mulata. Possui bons modos. É sonhadora como é pintado em traço comum pelos escritores do século XIX - a mulher sempre tida como ser frágil e alvo das intenções dos homens.  Mas Lima avança no que tange a essa visão. No seu tempo, havia um papel social definido para a mulher. Cabia a ela, quando moça, preparar-se para o casamento, alimentando essa perspectiva como criatura virtuosa que faria todos os caprichos do marido; que teria as melhores intenções, os pensamentos e as expressões mais puras. Era com esse ideal que a mulher vivia a sonhar. Se ela se inclinasse para algo que não dissesse respeito àquilo que se esperava dela, ela pagaria com a culpa, com o opróbrio e com a desaprovação da sociedade.  Em Lima a culpa deixa de ser da mulher e é transferida para a própria sociedade. Quando a sociedade atua de forma preconceituosa, ela simplesmente revela sua hipocrisia, seu racismo, seu moralismo de fachada. É nesse aspecto que a denúncia feita pelo escritor é tão mordente. Essa crítica ainda permanece viva. O mito do não preconceito, da aceitação incondicional do outro, do diferente, é outra mentira inventada para maquear o debate em torno do preconceito em nosso país. E nesse aspecto que a literatura de Lima Barreto permanece tão viva e falando tanto ainda de nossas doenças. 

Por esses dias começarei a leitura de Recordações do Escrivão Isaías Caminha

sexta-feira, agosto 31, 2007

A mulher, o amor e...

Comentário livre ao texto “O casamento e o amor na Idade Média
Este pequeno texto é um comentário livre a um artigo que li para a aula da matéria de "Medievalismo e Renascimento" do curso de Letras. Quem quiser ler o artigo na íntegra clique no link a seguir: http://www.milenio.com.br/ingo/ideias/hist/casament.htm. A foto ao lado é de Sofonisba Anguissola, uma feminista que quebrou os clichês montados pela Igreja e pela mentalidade da época - excelente pintora e escultora de obras admiradas por reis e rainhas da época, Sofonisba consititui uma antítese a esse período controverso. Espero que o texto agrade. Um abraço carlino.


O texto bíblico do Gênesis afirma que quando se deu a consumação do “pecado original”, Deus teria sentenciado: “O teu desejo [mulher] será para o teu marido”. Desse modo foi construído ao longo da história de Israel um tipo de postura seriamente machista. O direito da mulher, em Israel, partia de uma compreensão da divindade descida para o homem. Por exemplo, o homem podia divorciar-se da esposa “por ter ele ter achado coisa indecente nela”, mas à esposa não era permitido divorciar-se do marido por nenhuma razão.

A Torá de Moisés afirmava que a esposa suspeita de ter relações sexuais com outro homem devia fazer prova de ciúmes. Contudo, não havia prova nenhuma contra um homem acusado de infidelidade contra a mulher. Um homem podia fazer um voto religioso e esse voto tornava-se válido; por sua vez, o voto feito por uma mulher podia ser anulado pelo seu pai (ou se ela fosse casada) pelo marido. Ou seja, uma menina era educada para obedecer o pai sem questionar. Depois, quando se casava, devia obedecer o marido da mesma forma. Quando se nascia uma filha, era bem menos recebida do que se fosse um filho. Os meninos eram ensinados a tomar decisões e a governar as suas famílias. As meninas eram criadas para se casar e ter filhos. A mulher podia ser comprada e vendida. A mãe lhe ensinava a cuidar da casa e a criar filhos. Esperava-se que ela desse muitos filhos ao marido. Se a mulher não tinha filhas, era tida como amaldiçoada ( TENNEY e at., 1988).

Paulo de Tarso, já nos tempos do Novo Testamento, afirma que “o homem era o cabeça da mulher, assim como Cristo era o cabeça da Igreja”. Em trechos de cartas do Novo Testamento o chamado apóstolo dos gentios, que foi responsável pelo bem-sucedido proselitismo no Império Romano, leva as suas concepções judaicas para o mundo Antigo. Paulo como bom judeu na carta que escreveu para ao seu discípulo Timóteo, diz: “A mulher aprenda em silêncio, com toda submissão. E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio. Porque, primeiro, foi formado Adão, depois, Eva. E Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão”( II Tm 2.11-14). Percebe-se com muita clareza que a lógica nos quais se enquadra o pensamento de Paulo deriva, antes de tudo, de uma forte base estrutural no pensamento judaico, que tinha a mulher como um ser inferior em relação ao homem.

Já no Timeu de Platão e na Política de Aristóteles foi atribuída à mulher uma natureza secundária em relação ao homem à semelhança dos judeus. O macho tinha prerrogativas absolutas em relação à fêmea. Para Aristóteles, a mulher não passava de uma “evolução detida”. Em suma, aquilo que estacionou estanquimente – evolução involuída. Em Roma, por exemplo, dizia Catão que se um homem surpreendesse a sua esposa em adultério se poderia matá-la. Não haveria culpa para o castigo. Porém se o adúltero fosse o homem, nem um direito teria a mulher, que não poderia tocar o homem – nem com o dedo. Os romanos contavam uma história apócrifa de um certo Egnatius. A mulher desse homem tinha sido surpreendida pelo marido no ato e beber certo licor precioso. Isso bastou para que o marido a matasse a pauladas (ROSA, s.d).

No Oriente também havia esse consenso. Na China, por exemplo, a mulher era tida como inferior ao homem, por acreditar-se ser ela inferior aos olhos dum Ser Supremo. Escreveu Confúcio: “O homem é a representação do ciclo e está por cima de todas as coisas; a mulher obedece às ordens do homem e o ajuda na realização dos seus princípios. Desse modo, nada pode resolver por si mesma e está sujeita à regra das três obediências: solteira, deve obedecer aos seus pais e aos seus irmãos maiores; casada, obedecerá ao seu marido; viúva, obedecerá aos filhos”(sic) (ROSA, idem).

Sob vários aspectos, a Idade Média constitui um dos períodos mais enigmáticos da História Ocidental. Vários escritos têm surgido com o fim de retratar e descrever esse período de forte religiosidade. O período conhecido como medieval esteve debaixo do tacão da Igreja como a grande instituição que resistiu às intempéries do desmantelamento do Império Romano. Ela consolida a fé cristã como a religião hegemônica do Ocidente. Para isso, utiliza-se de todas as armas e influências que passam a subjugar todas as mentalidades.

Podemos afirmar que o homem medieval era um ser assustado. Uma criatura amofinada. Crédulo numa realidade construída pela Igreja, como a Grande Mãe de todos os homens. A Igreja é Católica, porque é Universal. Ou seja, é a Igreja de todos os homens. Ela tem o poder de legislar sobre tudo o que dizia respeito à vida. Assim, todas as relações, produções, sistematizações deveriam passar pelo seu crivo. Por sua vez, as ações defendidas por Roma deveriam ser acatadas sem resmungos, oposição ou questionamento.

É a partir dessas prerrogativas de poder temporalmente eficaz, que a Igreja passa a arbitrar sobre a política – a Igreja tirava reis e colocava reis; sobre a religião – a Igreja era única, imaculada, imarcescível; o papa o grande juiz que se assentava na cadeira de Pedro e tinha o poder de mover céus e terra. Sobre as produções artísticas(cultura) – a arte produzida nesta época deveria representar as realidades metafísicas, invisíveis. Tudo aquilo que fosse material e terreno era impuro. Portanto, o corpo, a vida, natureza estavam manchados pelo pecado. A Igreja cria, baseada no pensamento de Platão, um mundo dual. Ou seja, um dualismo que estabelecia a existência de duas realidades distintamente classificadas: de um lado o mundo do clero, perfeito, santo, espiritual. Formado em sua essência pelos bispos e os clérigos em geral. Tal classificação criava uma classe de privilegiados. Daqueles que tratavam das coisas santas, espirituais. Esse tipo de pensamento ainda domina sob vários aspectos a mentalidade dos homens. Os religiosos ainda são vistos como modelos de virtude e excelência. Por outro lado, havia o mundo habitado pelos leigos. O mundo físico, da matéria. Nele estavam os homens comuns. Que realizavam atividades comuns. Que carpiam o campo, criavam animais. Essa fatia passou a ser chamada de leigos. O termo secular ou saeculorum foi cunhado nesta época. Dizia respeito às questões “mundanas”, “profanas”. Em suma, aquilo que estava fora da igreja; afastado do clero.

Em suma, a Igreja Católica e Apostólica Romana validou o pensamento da Antigüidade. Ela como grande instituição que herdou todo o séqüito cultural dos antigos. Muitos costumes se cristalizaram e se tornaram mandamentos. No que dizia respeito à concepção hebraica sobre como teria que se efetuar as relações maritais, a Igreja preservou em muito essa visão. Por exemplo, o bispo Tertuliano afirmava que a mulher era uma espécie de “porta do inferno”. No ano de 585 d. C, o concílio de Mâcon, reunido na cidade de mesmo nome, colocou em dúvida a possibilidade da mulher ter alma à semelhança dos homens(CUNHA, 1995).

Olhando sob este ponto de vista histórico, a Idade Média apenas reproduziu o consenso que havia em torno da figura da mulher. Sempre mal vista, a mulher como é observada hoje: ativa, buscando o seu espaço no mercado de trabalho, competindo de igual para igual com os homens, assumindo altos cargos em tribunais e várias outras corporações, é fruto de uma revolução recente. Podemos chamar de revolução, porque o presente momento para a mulher se configurou nos últimos 50 anos. Com o término da Idade Média, a situação da mulher continuou a mesma. Na Rússia dos czares, por volta de 1790, havia um ditado que dizia: “assim como uma galinha não é um pássaro; a mulher não é um ser humano”. (ROSA, idem).

De certo modo, podemos afirmar que as Cantigas de Amor Cortês que surgiram na Idade Média, cantigas essas feitas em homenagem a uma mulher(uma musa), não significavam em sua essência uma ação respeitosa em relação à mulher. A mulher era o mesmo ser pequeno, atrofiado que a história produziu. Tratava-se de uma enlevo poético possibilitado pela arte. A mulher era propriedade do seu marido. Com ela o marido podia fazer o que quisesse. Dirigia-se a ele com formas de tratamento respeitosas como "meu amo e senhor". Era permitida a agressão física a mulheres quando o marido achasse que ela o havia desobedecido e as histórias de mulheres que sofriam agressões eram contadas nas vilas em tom humorístico. As agressões não podiam causar a morte nem incomodar os vizinhos, entretanto, em caso de adultério flagrante, o marido tinha o direito até mesmo de matar a própria esposa. A lei não poderia intervir em nada.

A mulher das cantigas constituíam um símbolo poético, por assim dizer: afirmado na arte; negado pela realidade. Reduzida e negada pela realidade, a mulher só existia enquanto vinculada ao marido, só a referiam como mulher dele, parte dele. O próprio designativo feminino tem em sua etimologia uma expectação preconceituosa e redutora. Palavra de origem latina, reunia em sua formação as palavras fides e minus, que significa “menos fé”, “menos crença”. O casamento como um contrato não levava em conta sentimentos de afeição da mulher para com o homem e vice e versa. Essa estrutura não privilegiava o casal. Fazia as mulheres como objetos. O amor entre um homem deve ser alimentado pela caridade cristã, sem o desejo carnal. O sexo era visto como pecado, algo sujo, deturpado, resultado inegável dos descaminhos do pecado original.

Assim, podemos afirmar que a Idade Média constituiu-se como um período de morbidez para as relações. Homens e mulheres se mantiveram embaixo da tirania “ideais” da Igreja. Às mulheres restou o descalabro. De certa forma, a Igreja apenas repetiu um consenso que havia em torno das mulheres – as mulheres como objeto, como seres submissos à vontade dos homens. A Idade Média constitui de certa forma, apenas um estágio na condução preconceituosa em torno da mulher. O machismo ainda é um aspecto constituinte na sociedade contemporânea – seja no Ocidente, seja no Oriente.


REFERÊNCIAS:

BÍBLIA. Almeida Revista e Atualizada, Sociedade Bíblica do Brasil: São Paulo, 1994.

ROMERO, Elaine(org.), Corpo, Mulher e Sociedade, Editora Papirus, Campinas, 1995.

ROSA, Ubiratan (org), Enciclopédia do Conhecimento Sexual, Editorial Amadio, São Paulo, s.d.

TENNEY, Merril C.; PACKER J. I., WHITE JR., William, Vida Cotidiana nos tempos bíblicos, Editora Vida, São Paulo, 1988.