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sexta-feira, junho 22, 2012

O neoliberalismo e a morte da Terra

Baita texto do Mauro Santayana. O jornalista fala sobre algo que eu já intuía: o fiasco que foi a Rio+20, sendo que, como já era esperado, o responsável por tal fato vexatório é, no dizer de Santayana, "a peste da ganância do capitalismo". 

Por Mauro Santayana

Não se pode esperar muito da Conferência do Rio. Há quarenta anos que o problema do meio ambiente vem sendo discutido e, nesse tempo, pouco se fez de objetivo a fim de assegurar as condições que a biosfera oferece à Natureza. Ao que parece, o homem está à espera de uma catástrofe – como foi a peste negra, no século 14 – a fim de compreender as dimensões de seus erros. Naquele século emblemático – no qual historiadores encontram semelhanças com o nosso – a população européia quase desapareceu. Pulgas e ratos levaram a peste da Ásia e encontraram o continente vulnerável à bactéria Yersinia pestis: segundo os cálculos, mais de um terço dos europeus pereceram no curso de quatro anos. Como vemos, seres aparentemente tão frágeis são capazes de promover hecatombes.

O que está matando o mundo, hoje, vale repetir, é a peste da ganância do capitalismo, que transformou a razão científica em mera servidora do dinheiro, principalmente a partir do neoliberalismo. Todos nós sabemos que os nutrientes químicos, como o nitrogênio, e agrotóxicos, estão matando os rios e extensões cada vez maiores dos oceanos. A Monsanto continua, firme, em nome da liberdade do mercado, a envenenar os solos e os mananciais de água – isso sem falar nas suas sementes transgênicas. O que já era ruim em 1972, quando se reuniu, em Estocolomo, a Primeira Conferência sobre o Meio-Ambiente, tornou-se muito pior a partir da conjuração anti-estado, promovida por Reagan, Thatcher – e, como coringa solto na jogada, o papa Karol Wojtila. Nestes últimos trinta e dois anos, não obstante as sucessivas declarações de alarme, e três novas conferências realizadas, pouco se fez de objetivo, a fim de salvar a natureza. Assim, o neoliberalismo acelera o assassinato da Terra.

A realidade nos impõe uma constatação: enquanto os Estados Unidos que, para o bem e para o mal, são o modelo da civilização contemporânea, não mudarem a sua matriz energética, e não contiverem a insensatez da bio-engenharia a serviço dos interesses do grande capital, o mundo continuará sua marcha para a tragédia.

Em nosso caso, a salvação da biodiversidade com que nos privilegiou a Natureza e, em seguida, a História, vem correndo novos e evitáveis riscos, a partir do desmantelamento do Estado, promovido pelo governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso.

Desde Getúlio Vargas, o Brasil dispunha de grupos técnicos de planejamento de infraestrutura a médio e longo prazo. Durante o governo de Juscelino, esses grupos se tornaram a vanguarda do desenvolvimento da economia nacional. Os governos militares mantiveram alguns deles, reorganizaram outros e esvaziaram os demais. Um desses grupos, talvez o mais importante para o nosso desenvolvimento, era o Geipot – reorganizado em 1965, durante o governo de Castelo Branco, abandonado por Fernando Henrique e hoje em liquidação. A União teve o prejuízo de 400 milhões de reais na execução das obras da Ferrovia Norte-Sul, por falta de um órgão como o Geipot. O serviço das empreiteiras não foi fiscalizado, dia-a-dia, como deveria ter sido, e erros graves, além da não execução das obras planejadas, como estações e depósitos, foram constatados pela nova diretoria da Valec, a estatal que administra a implantação do grande trecho ferroviário.

Outra imprevisão do governo se manifesta agora, na Hidrelétrica do Jirau. Dois milhões de metros cúbicos de madeira e lenha, retirados da área a ser coberta pelas águas, estão destinados a apodrecer, por falta de aproveitamento econômico. A retirada dessa cobertura vegetal deveria ter sido planejada com antecedência e seu aproveitamento, da mesma forma.

Outras áreas da Amazônia estão sendo desmatadas para a exportação – legal e ilegal – da madeira, com os danos conhecidos ao meio-ambiente. É urgente que se planifique o aproveitamento racional da madeira e dos outros bens naturais existentes nas áreas a serem inundadas nas outras hidrelétricas em construção no território brasileiro. Há, ainda, no fundo da futura represa – cujo enchimento se iniciará ainda este ano – muita cobertura vegetal que, se não retirada a tempo, irá provocar danos imensos ao ambiente, ao produzir metano, um dos gases mais poluidores da atmosfera, além do carbono.

A eficiência do Estado se garante mediante o estudo prévio de suas necessidades e de suas possibilidades, ou seja, de planejamento. Desde o Império, empreendedores e homens de Estado pensaram em termos de planejamento. Até hoje é válido o projeto ferroviário de Mauá, que previa a ligação ferroviária entre o Norte e o Sul, entre o Leste e o Oeste, e o aproveitamento dos rios para o transporte de carga pesada. Vargas, na plataforma eleitoral de 1930, reafirmou a necessidade de planejamento e seguiu a idéia durante o Estado Novo. Vargas retomou o projeto nacional, em 1951 e Juscelino deu-lhe prosseguimento de forma vigorosa, em seu mandato. Com a desconstrução do estado nacional, o governo Fernando Henrique deixou o planejamento por conta das empreiteiras e dos estrangeiros. Vale lembrar a contratação da Booz Allen pelo governo tucano, para “identificar os gargalos” que dificultam o desenvolvimento do país, quando não faltam técnicos competentes nos quadros da administração federal para cuidar do planejamento dos projetos de infra-estrutura no Brasil, como é o caso dos transportes e da energia.

É hora de o Estado assumir diretamente a sua responsabilidade e buscar os meios constitucionais para acabar com as agências reguladoras e devolver aos ministérios as tarefas que devem ser suas. As agências reguladoras foram, nos Estados Unidos de Roosevelt e do New Deal, o instrumento do Estado para conduzir a economia nos anos de crise. No Brasil, elas tiveram o objetivo contrário, o de entregar aos agentes privados, a serviço dos interesses estrangeiros, a administração dos setores estratégicos nacionais, como a energia elétrica, as telecomunicações, as rodovias, as ferrovias e os portos – isso sem falar na saúde, com a Anvisa.

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

sábado, junho 02, 2012

O estilo de vida e "a bárbarie"

No ano 1 depois de Cristo, a população da Terra era de 300 milhões de habitantes. Mil anos após, a população do Planeta Terra havia chegado a 310 milhões de habitantes. Ou seja, em mil anos a população do mundo havia aumentado em 10 milhões de pessoas. Em 1600, a população havia dobrado para 600 milhões de habitantes. Em 2000, a estimativa era de que a população estivesse em 6 bilhões. E no ano passado o número de habitantes pulou para 7 bilhões. Algo realmente assustador. Crescemos em 10 anos o que não se cresceu em mil anos.

Oscilo entre o otimismo e o pessismismo e, por fim, permito que este último ganhe quando penso no futuro da humanidade e do Planeta. Em meados século XX, Rosa Luxemburgo gritava: "Socialismo ou bárbarie!". Não quero fazer uma defesa do socialismo ou repudiar peremptoriamente o capitalismo. Quero apenas refletir no fato de que o grande problema do mundo não é em si um sistema econômico, mas o próprio homem. O homem é o autor do colapso do Planeta e de si mesmo.

O que o Capitalismo faz é realçar esse egoísmo intrínseco. Adensar uma perspectiva que faz parte da essência do ser humano. O estilo de vida defendido pelo homem é parasitário e faz com que sobre pouco espaço para a manuntenção da vida. Quantas já não foram as espécies extintas por causa do homem? Quantas já não foram as florestas destruídas para que cidades fossem construídas? Quantos não foram os rios e córregos completamente assolados de maneira irresponsável. Já vivemos a "bárbarie" propugnada por Rosa Luxemburgo. 

Quase 1 bilhão de pessoas passam fome em todo mundo. Mais de 1,3 bilhão não têm sequer uma lâmpada em casa. O grande desafio do homem é manter-se vivo à depredação protagonizada por ele mesmo. Criamos um modelo de civilização e acreditamos que ele seja perfeito. Não queremos abrir mão de tudo aquilo que temos. O nosso estilo de vida parece irreversível. Nossas telas de computadores, de celulares, cospem o brilho irrefugável do orgulho; os carros velozes e cada vez mais sofisticados aguçam a velocidade de nossas fantasias. A necessidade de destruição das florestas para plantar, para construir casas, prédios, é cada vez mais premente. O espaço outrora reivindicado por todos os outros seres vivos, tornou-se do homem. 

Somente o homem é capaz de dizer: "Eu sou o dono disso aqui". "Isso é meu!" E com isso, todo o Planeta Terra está sitiado e medido pela ganância. Caminhamos a passos largos para o abismo. A estimativa é que em 2030, a população do mundo chegue a 9 bilhões de pessoas. E algumas perguntas nos surgem: Como vestir essas pessoas? Como alimentar essas pessoas? Como conseguir água? Como será a vida nas grandes cidades?

O Planeta oferece um limite e nós estamos demorando muito para perceber isso. Os economistas anseiam pelo progresso. Falam em "crescimento virtuoso", quando presenciam uma homogeneidade no desenvolvimento. Para eles, progresso é permitir que todos os sujeitos de uma determinada sociedade possam consumir a fim de gerar divisas e capital para uns poucos ficarem mais ricos. Mas para que o abismo civilizacional não chegue cada vez mais próximo, o que devemos fazer? Apostar num estilo de vida mais coerente? Pautar nossa vida num estilo mais responsável? As respostas são pouco otimistas.

O que notamos é que quanto mais o tempo passa, mais percebemos que a velocidade do trem que construímos é louca e inconsequente. Estamos numa ladeira enorme e não queremos enxergar a curva à frente. Enquanto isso, uma festa continua sem que nos preocupemos com as irregularidades do caminho. Os próximos mil anos podem não aparecer.

Música da banda Dave Matthews Band (Don't Drink Water). Belas e perturbadoras imagens.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

O dia do juízo sobre nossa cultura? - Por Leonardo Boff

Extraordinário texto. O Boff é uma poeta com profundo senso profético. Uma voz que merece/deve ser ouvida.

O final do ano oferece a ocasião para um balanço sobre a nossa situação humana neste planeta. O que podemos esperar e que rumo tomará a história? São perguntas preocupantes pois os cenários globais apresentam-se sombrios. Estourou uma crise de magnitude estrutural no coração do sistema econômico-social dominante (Europa e USA), com reflexos sobre o resto do mundo. A Bíblia tem uma categoria recorrente na tradição profética: o dia do juízo se avizinha. É o dia da revelação: a verdade vem à tona e nossos erros e pecados são denunciados como inimigos da vida. Grandes historiadores como Toynbee e von Ranke falam também do juízo sobre inteiras culturas. Estimo que, de fato, estamos face a um juízo global sobre nossa forma de viver na Terra e sobre o tipo de relação para com ela.

Considerando a situação num nível mais profundo que vai além das análises econômicas que predominam nos governos, nas empresas, nos foros mundiais e nos meios de comunicação, notamos, com crescente clareza, a contradição existente entre a lógica de nossa cultura moderna, com sua economia política, seu individualismo e consumismo e entre a lógica dos processos naturais de nosso planeta vivo, a Terra. Elas são incompatíveis. A primeira é competitiva, a segunda, cooperativa. A primeira é excludente; a segunda, includente. A primeira coloca o valor principal no indivíduo, a segunda no bem de todos. A primeira dá centralidade à mercadoria, a segunda, à vida em todas as suas formas. Se nada fizermos, esta incompatibilidade pode nos levar a um gravíssimo impasse.

O que agrava esta incompatibilidade são as premissas subjacentes ao nosso processo social: que podemos crescer ilimitadamente, que os recursos são inesgotáveis e que a prosperidade material e individual nos traz a tão ansiada felicidade. Tais premissas são ilusórias: os recursos são limitados e uma Terra finita não agüenta um projeto infinito. A prosperidade e o individualismo não estão trazendo felicidade; mas, altos níveis de solidão, depressão, violência e suicídio.

Há dois problemas que se entrelaçam e que podem turvar nosso futuro: o aquecimento global e a superpopulação humana. O aquecimento global é um código que engloba os impactos que nossa civilização produz na natureza, ameaçando a sustentabilidade da vida e da Terra. A conseqüência é a emissão de bilhões de toneladas/ano de dióxido de carbono e de metano, 23 vezes mais agressivo que o primeiro. Na medida em que se acelera o degelo do solo congelado da tundra siberiana (permafrost), há o risco, nos próximos decênios, de um aquecimento abrupto de 4-5 graus Celsius, devastando grande parte da vida sobre a Terra. O problema do crescimento da população humana faz com que se explorem mais bens e serviços naturais, se gaste mais energia e se lancem na atmosfera mais gases produtores do aquecimento global.

As estratégias para controlar esta situação ameaçadora praticamente são ignoradas pelos governos e pelos tomadores de decisões. Nosso individualismo arraigado tem impedido que nos encontros da ONU sobre o aquecimento global se tenha chegado a algum consenso. Cada pais vê apenas seu interesse e é cego ao interesse coletivo e ao planeta como um todo. E assim vamos, gaiamente, nos acercando de um abismo.

Mas a mãe de todas as distorções referidas é nosso antropocentrismo, a conviccção de que nós, seres humanos, somos o centro de tudo e que as coisas foram feitas só para nós, esquecidos de nossa completa dependência do que está à nossa volta. Aqui radica nossa destrutividade que nos leva a devastar a natureza para satisfazer nossos desejos.

Faz-se urgente um pouco de humildade e vermo-nos em perspectiva. O universo possui 13,7 bilhões de anos; a Terra, 4,45 bilhões; a vida, 3,8 bilhões; a vida humana, 5-7 milhões; e o homo sapiens cerca de 130-140 mil anos. Portanto, nascemos apenas há alguns minutos, fruto de toda a história anterior. E de sapiens estamos nos tornando demens, ameaçadores de nossos companheiros na comunidade de vida. Chegamos no ápice do processo da evolução não para destruir mas para guardar e cuidar este legado sagrado. Só então o dia do juízo será a revelação de nossa verdade e missão aqui na Terra.

DAQUI


quarta-feira, novembro 02, 2011

Dia dos Mortos, 7 bilhões de humanos, Bach e o BWV 232

Aproveitando o ensejo da data, estou ouvindo algo profundamente "santificante" - o BWV 232 do "grande pai". Esta semana tive a oportunidade de conversar com um professor, colega de trabalho, sobre a informação veiculada pela mídia acerca dos 7 bilhões de humanos que agora habitam a terra. Falamos sobre Malthus e ele me explicou sobre as deficiências da teoria do inglês. Mas não deixamos comentar sobre o estágio avançado de agonia da civilização ocidental, gestora de um modo de vida que nos leva inevitavelmente para o buraco. A sociedade capitalista com toda a sua parafernália tecnológica possui uma finalidade - nos conduzir ao prazer. Mas à medida em que somos conduzidos ao prazer, recai sobre nós a maldição do niilismo.

A terra já não é um lugar que promove espantos contemplativos. O que regala os olhos do homem do nosso tempo são as superfícies vítreas. Nelas o indivíduo do nosso tempo encontra a redenção narcísica de que tanto a sua alma vazia precisa. O capitalismo e o estilo de vida acabou criando aquilo que os especialistas vão chamar de "não-lugar". Ou seja, não há um lugar que promove encantos, novidade, fascinação, pois o que há são as mesmas lojas, as mesmas lanchonetes, as mesmas marcas, as mesmas fragrâncias, como se as nossas percepções tivessem sido uniformizadas.

O meu colega contou uma experiência curiosa. Disse ele que uma amiga fora fazer um cruzeiro marítimo, mas ficou decepcionada. Ela queria novidades. Todavia, no navio em que estava, as lojas, os pubs, os cafés, eram os mesmos que ela estava acostumada a frequentar em terra firme. Ou seja, ela teve mais do mesmo, pois não existe um lugar de novidade. Existe um "não lugar" que está em toda parte. É por isso que o homem do nosso tempo viaja tanto. Ele está atrás de novidades. Ele quer encontrar um regalo para a sua fome insaciável. Perdemos o encantamento pela "nossa casa", pela mãe sábia, a natureza.

Mas o que tudo isso tem a ver com a missa de Bach? Muita coisa. É que o meu colega disse a certa a altura de nossa conversa que a única forma de brecar o calapso de nossa civilização está na formação de valores sadios, num processo a qual poderíamos dizer que se dá de dentro para fora. E para ele, um dos resposáveis para que isso ocorra é a religião. Não deixei de pensar na afirmação dele. Possuo uma visão crítica em relação a religião. Afinal, a religião é tão antiga quanto a própria humanidade. Se a religião fosse capaz de redimir, ela já teria redimido, transformado o nosso mundo num local de paz. Pois o que não falta é religião.

Gostaria de mudar a afirmação do meu colega e dizer que o que pode salvar o homem é a metafísica, a espiritualidade que se encontra na beleza. E para se chegar à capacidade de apreciação e percepção dessa beleza é preciso educar os sentidos. É preciso direcionar os olhos para aquilo que nos torna maiores do que somos, deixando de lado os anseios vis da materialidade, que promete felicidade, mas não é capaz de gerar beleza, de fazer brotar um jardim no coração. Lembro aqui as palavras de Cristo: "O que adianta o homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?" Ou seja, a capacidade de ser humano, de sensibizar-se com a natureza, com a simplicidade dos elementos silenciosos que foram gerados pelo silêncio do universo.

Olhando do ponto de vista da objetividade, penso não haver chances para o homem. Em pouco mais de cem anos, as condições para a vida na terra tornar-se-ão insustentáveis. Para reverter isso é preciso de espiritualidade, da metafísica, que habita a obra de arte, os sonhos, a inocência, os silêncios gravitacionais das palavras, do rio que corre e não se cansa, nas amizades, na música, em Bach... Afinal, a natureza é um instrumento tocado pelo universo onde estão adormecidas as mais belas canções. Enquanto escuto essa extraordinária missa de Bach, vou pensando nisso tudo - e fico estarrecido e beatificado no dia dos mortos.

Abaixo um pequeno trecho do BWV 232 de Bach - regência de Herbert Blomstedt.

quinta-feira, outubro 13, 2011

A natureza e a sua voz silenciosa

Hoje pela manhã, enquanto caminhava para o trabalho, observei que uma mudança se perpetrou nos canteiros e jardins de Brasília. Uma mudança suave, branda, quase imperceptível, que aos poucos vai tomando conta de tudo - a revolução persistente da natureza. Há alguns dias atrás, Brasília era uma braseiro no Planalto Central do Brasil. As gramíneas estavam ressecadas. O calor era insurportável, asfixiante. Uma emanação morna e sufocante brotava do asfalto quente. A umidade do ar dava à Capital Federal características de um deserto.

As feições se contraíam. Reclamações engrossavam o caldo de descontentamento dos brasilienses. Tudo seco. A paisagem era feia. A vida havia se escondido. As árvores nuas, muniam-se com a estratégia que a evolução havia dado a elas - perder as folhas, como se estivessem dizendo: "É necessário polpar energia e água". Curioso.

Mas bastou que as primeiras chuvas surgissem para que uma transformação silenciosa acontecesse. De repente, o verde sai da alcova, tímido, sonolento, e se insinua gracioso. Isso me faz lembrar de uma frase de Victor Hugo: "É triste pensar que a natureza fala e que o gênero humano não a escuta". Assim, como Victor Hugo, eu acredito que a natureza possua uma voz delicada. É uma voz murmurante, quase inaudível, mas que pode ser percebida se prestarmos atenção. Os desastres ambientais e catástrofes naturais que têm se dado a nível mundial, são o resultado da incapacidade do homem de ouvir a natureza.

Não se trata de um pessimismo, mas penso que o erro fatal do homem será continuar com sua gana predadora, desconsiderando todos os gritos, gestos e avisos da natureza. Mas, enquanto ainda posso caminhar, vejo um parto natural sendo gestado e isso enche os meus olhos de alegria.


sexta-feira, março 26, 2010

Pessimismo capitalista e Darwinismo social

Que fazer quando uma crise como a nossa se transforma em sistêmica, atingindo todas as áreas e mostra mais traços destrutivos que construtivos? É notório que o modelo social montado já nos primórdios da modernidade, assentado na magnificação do eu e em sua conquista do mundo em vista da acumulação privada de riqueza não pode mais ser levado avante. Apenas os deslumbrados do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo Lula, acreditam ainda neste projeto que é a racionalização do irracional. Hoje percebemos claramente que não podemos crescer indefinidamente porque a Terra não suporta mais nem há demanda suficiente. Este modelo não deu certo, pelas perversidades sociais e ambientais que produziu. Por isso, é intolerável que nos seja imposto como a única forma de produzir como ainda querem os membros do G-20 e do PAC.

A situação emerge mais grave ainda quando este sistema vem apontado como o principal causador da crise ambiental generalizada, culminando com o aquecimento global. A perpetuação deste paradigma de produção e de consumo pode, no limite, comprometer o futuro da biosfera e a existência da espécie humana sobre o planeta.

Como mudar de rumo? É tarefa complexíssima. Mas devemos começar. Antes de tudo, com a mudança de nosso olhar sobre a realidade, olhar este subjacente à atual sociedade de marcado: o pessimismo capitalista e o darwinismo social.
O pessimismo capitalista foi bem expresso pelo pai fundador da economia moderna Adam Smith (1723-1790), professor de ética em Glasgow. Observando a sociedade, dizia que ela é um conjunto de indivíduos egoístas, cada qual procurando para si o melhor. Pessimista, acreditava que esse dado é tão arraigado que não pode ser mudado. Só nos resta moderá-lo. A forma é criar o mercado no qual todos competem com seus produtos, equilibrando assim os impulsos egoístas.
O outro dado é o darwinismo social raso. Assume-se a tese de Darwin, hoje vastamente questionada, de que no processo da evolução das espécies sobrevive apenas o mais forte e o mais apto a adaptar-se. Por exemplo, no mercado, se diz, os fracos serão sempre engolidos pelos mais fortes. É bom que assim seja, dizem, senão a fluidez das trocas fica prejudicada. Há que se entender corretamente a teoria de Smith. Ele não a tirou das nuvens. Viu-a na prática selvagem do capitalismo inglês nascente. O que ele fez, foi traduzi-la teoricamente no seu famoso livro: "Uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações"(1776) e assim justificá-la. Havia, na época, um processo perverso de acumulação individual e de exploração desumana da mão de obra.
Hoje não é diferente. Repito os dados já conhecidos: os três pessoas mais ricas do mundo possuem ativos superiores à toda riqueza de 48 países mais pobres onde vivem 600 milhões de pessoas; 257 pessoas sozinhas acumulam mais riqueza que 2,8 bilhões de pessoas o que equivale a 45% da humanidade; o resultado é que mais de um bilhão passa fome e 2,5 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza; no Brasil 5 mil famílias possuem 46% da riqueza nacional. Que dizem esses dados se não expressar um aterrador egoísmo? Smith, preocupado com esta barbárie e como professor de ética, acreditava que o mercado, qual mão invisível, poderia controlar os egoísmos e garantir o bem estar de todos. Pura ilusão, sempre desmentida pelos fatos.

Smith falhou porque foi reducionista: ficou só no egoísmo. Este existe, mas pode ser limitado, por aquilo que ele omitiu: a cooperação, essencial ao ser humano. Este é fruto da cooperação de seu país e comparece como um nó-de-relações sociais. Somente sobrevive dentro de relações de reciprocidade que limitam o egoísmo. É verdade que egoísmo e altruísmo convivem. Mas se o altruísmo não prevalecer, surgem perversões como se nota nas sociedades modernas assentadas na inflação do "eu" e no enfraquecimento da cooperação. Esse egoísmo coletivo faz todos serem inimigos uns dos outros. Mudar de rumo? Sim, na direção do "nós", da cooperação de todos com todos e na solidariedade universal e não do "eu" que exclui. Se tivermos altruísmo e compaixão não deixaremos que os fracos sejam vítimas da seleção natural. Interferiremos cuidando-os, criando-lhes condições para que vivam e continuem entre nós. Pois cada um é mais que um produtor e um consumidor. É único no universo, portador de uma mensagem a ser ouvida e é membro da grande família humana. Isso não é uma questão apenas de política, mas de ética humanitária, feita de solidariedade e de compaixão.

Por Leonardo Boff

Extraído DAQUI

segunda-feira, novembro 19, 2007

Responsabilidades Humanas

6. O consumo dos recursos naturais para responder às necessidades humanas deve estar integrado em procedimentos mais amplos de proteção ativa e de gestão prudente do meio ambiente.

Fonte: Carta de Responsabilidades Humanas - http://www.redemundialdeartistas.org.br/Alianca/CartaDeResponsabilidade


1. Introdução para uma História:

O homem é um dos principais agentes transformadores da natureza. Ele sempre utilizou os recursos naturais como objetos para a manutenção da sua própria existência. Desde a sua origem, o gênero humano sempre buscou subjugar as hostilidades e as intempéries da natureza. A sua presença no planeta é responsável pela construção de “sentidos”. São estes “sentidos” que identificam as características que determinam as diferentes sociedades e culturas. Em cada momento da História, o homem, por meio de uma ação transformadora, construiu “tendências”, que são responsáveis pela sua existência e que dão identidade ao que ele é. Para isso, várias instituições, formas religiosas, compreensões e ciências explicativas foram desenvolvidas para dar resposta à realidade que o envolve.
Nesse sentido, a forma como está organizada o mundo ocidental é recente, resultado de um processo histórico, de evolução da cultura, do modo de produção econômico (consolidação do capitalismo) e de valores que se cristalizaram como verdadeiros arquétipos. Inicio fazendo observações a partir do Renascimento Cultural da Europa no século XVI, pois ele é um ponto fundamental para falarmos em natureza como entendemos hoje. Foi a partir do Renascimento que o homem passou compreender que a natureza poderia ser usada a seu favor de maneira mais eficaz e complexa. Ele poderia compreendê-la e usá-la como resultado de seu progresso econômico e científico.
O Renascimento proporcionou uma nova forma de se ler o mundo. A partir dele, o homem passou a tomar uma nova consciência de si mesmo. Deixou basicamente de ver a natureza como resultado de uma criação deturpada pelo laivo do pecado como entendia o homem medieval, para vê-la como um objeto a ser conquistado pela ciência que se desenvolvia. Isto, por exemplo, pode ser visto na obra de Francis Bacon o Novo Organon que entendia a natureza como algo a ser dominado em favor do ser humano. Houve assim a desmistificação da natureza. Ela deixava de ser vista como resultado da criação divina, ou seja, uma co-irmã com os homens, para ser uma serva a ser utilizada em benefício do progresso humano.
Com o Iluminismo filosófico, esta leitura se intensificou. A natureza passou a ser vista como uma máquina feita de leis e lógica regulares que seguiam ciclos perfeitos e que podiam ser conhecidos pelo engenho humano. A revolução Industrial pôs um assento agudo de intensidade nesse quesito, pois ela pode ser vista como o resultado do progresso nascedouro. A produção deixou de ser manufaturada e passou ser totalmente industrializada. Os recursos necessários para manter a produção constante foram extraídos diretamente da natureza. Desta forma, o progresso dos homens (a industrialização), significou a espoliação dos bens da biosfera. Extração sem critérios de recursos naturais, para alimentar um entusiasmo industrial/capitalista megalomaníaco. O positivismo que pregava a consolidação da ciência como a grande mãe do progresso humano via na manipulação da natureza a chave para um novo tempo desenvolvimentista para a humanidade.
Assim, desde a Revolução Industrial iniciada na Europa no século XVII, o planeta vem passando por uma séria, grave e preocupante deterioração do meio ambiente. O século XX representou um agravante, pois um contingente novo de tecnologias foi responsável pela degradação de zonas inteiras do planeta, pela poluição de rios e mares, pela extinção de animais, pela excessiva emissão de gases tóxicos na camada de ozônio, causando desequilíbrio climático em todo o planeta.
James Hansem, diretor da Goddard Institute for Space Studies da Nasa e pesquisador do Earth Institute, da Columbia University, diz que “em consonância com evidências históricas, a Terra começou a se aquecer em décadas recentes a uma taxa prevista pelos modelos climáticos que levam em consideração a acumulação de gases produzidos pelo homem. O aquecimento está causando impactos observáveis com o recuo de geleiras em todo o mundo. O gelo marinho do Ártico está mais fino e a primavera chega cerca de uma semana mais cedo que nos anos 50”.[1] De modo que hoje, em pleno século XXI, uma das principais lutas que deve ser travada é a luta pela preservação do meio ambiente. Não há como falar em progresso humano sem se pensar responsavelmente em meio ambiente e ecologia.
Durante muito tempo se pensou que as fontes dos recursos naturais fossem inesgotáveis. Todavia, tem-se visto que esta premissa estava assentado num equívoco caricato. Pois, a degradação porque passa a natureza tem gerado uma preocupação para ambientalistas e entidades responsáveis por um discurso alternativo – vale mencionar nesse sentido o papel das ONGs.
Para dar continuidade a estes argumentos reflexivos, gostaria de tentar explicar e provocar uma ponderação a fim de que se entenda como é complexo o papel de se colocar em prática os princípios do artigo das responsabilidades que debato. Como existe uma estrutura que desrespeita a natureza e está pouco preocupada com a conservação da mesma, essa questão torna-se ainda mais inextricável.


2. Produção: esposa fiel do capitalismo:

O capitalismo se consolida no Ocidente como resultado das revoluções burguesas, também fortalecida no Renascimento. Esse modelo econômico tem como principal característica o acúmulo de bens e a busca constante do lucro. A principal receita para a efetivação desse modelo econômico é a produção e o consumo. Produz-se para se consumir. Há uma necessidade em se produzir sempre mais e cada vez melhor para um mercado consumidor sequioso por novidades. Para isso, a tecnologia está atrelada ao progresso, e, o progresso, à produção, pois não há progresso se não há produção com tecnologias cada vez mais aprimoradas.
Um exemplo disso seria os telefones celulares que há dez anos atrás eram aparelhos grandes, desguarnecidos de acessórios como os de hoje – GPS, câmara fotográfica, com acesso direto à internet... etc. O que determina a moda é a sofisticação cada vez mais apurada. De modo, que os consumidores do capitalismo, sentem-se pressionados pelo próprio sistema a consumirem aquilo que é produzido cada mais vez mais e melhor. Ao se comprar um celular não se pensa na cadeia processual que o levou até à prateleira da loja. Ali estão mecanismos, substâncias, materiais e uma bateria que possui substâncias altamente pesadas do ponto de vista da química, que foram transformados a partir da combinação de elementos naturais. A indústria tem que produzir mais e melhor; e para isso, não respeita os limites da natureza. O que demorou milhões de anos para ser produzido pelo planeta, o homem tem destruído em séculos.
A garganta do capitalismo é gulosa. Ela precisa de mais e mais nutrientes para a sua sobrevivência. Para isso, é preciso produzir, pois quem não produz no mundo capitalista estar completamente fadado ao desaparecimento. É preciso tirar de algum lugar para que esse ciclo produtivo tenha movimento em sua cadência. O que faz com que o mercado permaneça vivo é a produção. Não se trata de uma simples produção como mencionei acima. É uma produção que segue uma determinada lógica – a lógica da tecnologia.
O capitalismo é como uma bexiga. Ele precisa estar sempre recebendo ar para permanecer cheio, bonito e luzidio. Olhando por esta perspectiva, o capitalismo é um sistema autodestrutivo. Rubem Alves diz que “para existir e gozar saúde[o capitalismo], tem de estar num processo de crescimento constante: mais empregos, mais trabalho, mais devastação da natureza, mais monóxido de carbono no ar, mais lixo – seis bilhões de quilos de lixo por dia! – mais exploração dos recursos naturais, mais florestas cortadas, mais poluição dos mananciais... Até quando a frágil bolha suportará?” O capitalismo se expande sem fronteiras. E aonde chega instala as suas bandeiras que deixam marcas profundas na história e na saúde do planeta.

3. Capitalismo: fábrica produtora de desigualdade:

O capitalismo consagra a desigualdade, pois está eminentemente dividido em duas esferas eqüidistantes: de um lado temos aqueles que vendem a sua força de trabalho e, do outro lado, os detentores dos meios de produção. São duas entidades distintas, separadas por um fosso profundo. Aqueles que possuem os meios de produção compram a força de trabalho por baixos salários daqueles que não têm como produzir. Já estes não tendo os meios de produção são forçados a venderem aquilo que de mais preciosos eles têm: a força do seu trabalho.
Olhando desta perspectiva, aqueles que não têm condições mínimas de venderem a sua força de trabalho são excluídos, pois há no capitalismo, uma coisificação, objetização do ser humano. Não se valoriza o ser que é humano, mas quanto o ser humano pode contribuir com a sua força e inteligência à manutenção do sistema. Assim, o sistema torna-se um fim em si mesmo. Aqueles que não servem para preencher os interesses dos donos dos meios de produção acabam por serem completamente postos à margem. Cria-se desta forma, uma classe de excluídos.
O sistema capitalista não visa o bem dos seres humanos, nem possui um interesse de conservar a natureza. O capitalismo transforma seres humanos em mão de obra e degrada o meio ambiente, pois na sua gana utilitária, pouco importa para o capitalista a preservação e conservação do meio ambiente. Não é minha intenção nesse sentido fazer uma crítica ao capitalismo que o torne em algo imprestável, o responsável por toda a degradação do planeta, mas fazer uma leitura de como se dão as relações no mundo ocidental, que gera tanto desigualdade entre os homens, quanto uma degradação do meio natural e tem a sua base motora no capitalismo.
À frente tentarei demonstrar que uma “Nova História” pode ser escrita com ética e responsabilidade. Será possível utilizar os recursos naturais sem degradar os recursos naturais? Como estes recursos podem responder as necessidades humanas de maneira integrada com procedimentos mais amplos de proteção ativa e de gestão prudente do meio ambiente? Estas são questões que devem ser respondidas.

4. Ideário para construção de uma Nova História:

O escritor britânico Oscar Wilde disse certa vez que "um mapa do mundo em que não aparece o país Utopia não merece ser guardado." Nesse sentido, é importante sonhar as melhores utopias em favor do futuro da humanidade e do planeta terra. Um progresso responsável deve estar ao lado de um desenvolvimento sustentável. Nesse sentido, o consumo de recursos naturais deve estar sendo usado em prol das necessidades humanas, todavia este consumo deve ser realizado com amplas estratégias de proteção ativa e responsável, de uma gerência comedida e sensata da natureza.
É interessante notar que todos os candidatos a presidente, todos, indistintamente, de direita e de esquerda, prometem “progresso”. Mas nenhum deles promete preservar a natureza. Por que existe tamanho relaxamento, quando o que está em jogo é o futuro da humanidade? Se esta pergunta não for respondida com responsabilidade, uma afirmação impreterivelmente deve ser feita: o homem é o único animal a produzir a sua própria destruição. A ausência de uma consciência ecológica para a humanidade é o principal responsável pela atual situação de ameaça global.
Diante de um desafio tão grande como este que está à nossa frente configurado, algumas medidas importantes devem ser adotadas por todas as nações, pois se trata de um problema de dimensão global e que diz respeito a todo ser humano. Ignorar tamanho desafio é pôr em risco as próximas gerações. Para isso, é necessário criar redes de solidariedade global e de uma consciência ativa que age em favor da manutenção dos recursos não renováveis.

5. Por uma política que vise o natural:

A principal política que deve ser feito no século 21 é aquela que inclui a natureza no homem e o homem na natureza, sem que este último haja predatoriamente como fez nos últimos 500 anos de História. Os esforços devem ser envidados de todas as partes. Não se trata de uma ação das grandes instituições apenas, mas dos homens comuns também. Um dos fatores mais importantes é a adoção de medidas alternativas. Se os homens comuns deixarem de jogar garrafas de plástico nas praias e no mar, jogar latas de cerveja na mata, por exemplo, o planeta agradecerá. Se as matas ciliares forem respeitadas, o curso das águas poderão se manter vivos. Para isso é necessária uma ação governamental que priorize políticas sociais sérias a fim de diminuir os lapsos da desigualdade social e econômica. Uma vez que isso seja resolvido, loteamentos irregulares não serão criados próximos a áreas de proteção ecológica ativa, provocando o desaparecimento das nascentes de água.
Outro importante aspecto está vinculado ao consumo. O mundo não deve deixar de consumir, todavia o consumo deve ser feito com responsabilidade. Para isso é necessária a reciclagem. Todos devem ter consciência de que todos os bens de consumo são artefatos feitos a partir da transformação do natural e nada melhor do que ter uma consciência cidadã que busque priorizar a responsabilidade para com o meio natural. Entidades de proteção à natureza deveriam ser melhor visibilizadas como, por exemplo, a WWF, o Greenpeace e outros grupos que atuam em favor da manutenção da saúde do planeta.
Outro fator importante deve ser a descoberta de meios facilitadores para que o progresso da ciência e da tecnologia permaneçam como fatores que visam beneficiar a humanidade, sem comprometer os recursos que a natureza levou milhões de anos para criar. Que os países desenvolvidos entendam que é possível continuar a ser uma grande potência sem utilitarismo ou pragmatismo. Porque o pragmatismo e o utilitarismo nem sempre levam em conta a justiça e a ação que beneficia a maior parte. Pragmática do ponto de vista filosófico é a ação que não está preocupada com os meios – se serão éticos, se obstruirão a ordem, se “destruirão” a ética – mas unicamente com os fins.
A adoção de medidas que diminuísse o despejo de toneladas de gases venenosos na atmosfera deveria ser outra questão das questões mais urgentes. Combustíveis fósseis, materiais pesados como os derivados de petróleo deveriam passar por um processo de tratamento mais eficaz. O diesel deveria ser queimado de maneira mais limpa com tecnologias melhoradas. James Hansem diz que medidas simples e criativas seriam significantes para o melhoramento das condições de vida no planeta:

Reduzindo a fuligem também teríamos benefícios econômicos, tanto pelo decréscimo das perdas de vida como em trabalho-anos (partículas minúsculas de fuligem levam compostos orgânicos tóxicos e metais para os pulmões) e aumento da produtividade agrícola em certas partes do mundo. As fontes primárias de fuligem são o diesel e biocombustíveis (madeira e esterco de vaca, por exemplo). Estas fontes precisam ser consideradas por razões de saúde. Deve haver soluções ainda melhores, tais como combustível de hidrogênio, que eliminaria precursores de ozônio, bem como fuligem[2].

Muitas das importantes medidas a serem adotadas para melhoria da existência do planeta, deve ter como principal base o encadeamento de políticas que vise o natural como principal elemento para a sustentação da vida no futuro. Se tais medidas não forem adotadas e incentivadas por governos, igrejas, Organizações não Governamentais, associações de moradores, partidos políticos, universitários conscientes, agremiações estudantis, políticos, professores, pais responsáveis, o futuro do planeta será tenebroso. Trata-se de um esforço conjunto e necessário. O que está em jogo são dois sujeitos: o homem para continuar existindo e a natureza para manter a sua saúde em bom estado. Isso será de importância vital para as próximas gerações.

[1] James Hansen, Scientific Americam Brasil, A bomba-relógio do aquecimento global – Deter o processo requer cooperação internacional urgente e sem precedentes, Edição N.º 23 – abril de 2004 – www.scientificamericanbrasil.com.br
[2] Idem.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque