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sexta-feira, maio 31, 2024

Mozart, explorador da alma humana para além dos clichês

 


Excelente reportagem do jornal alemão D.W. sobre o gênio austríaco de Mozart.

A Flauta Mágica é uma das óperas mais adoradas do mundo; o Rondó a la turca, Uma pequena serenata musical KV 525 são famosos até como toque de celular. Costuma-se apresentar seu compositor, Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), como popstar da música clássica: criatividade transbordante, luminoso, despreocupado.

Contudo mesmo suas obras mais leves geralmente abrigam um nível de profundidade, muitas vezes são testemunhos de conflitos psíquicos. E, como lembra a especialista mozartiana Evelyn Meining, "ele era uma criatura que trabalhava duro, compunha noite e dia".

Como diretora artística do Festival Mozart de Würzburg, na Baviera, ela quer promover uma nova imagem do compositor, liberta dos clichês, pois "Mozart é mais do que um bombom de Salzburg [a Mozartkugel] e mais do que um toque de celular". E certamente mais do que uma peruca empoada.

Em seus poucos anos de vida, o músico austríaco compôs cerca de 600 obras, entre as quais 41 sinfonias e 21 óperas, além de concertos, missas, peças de câmara e canções. "Contemplando a dimensão de sua obra gigantesca, numa vida tão breve, tem-se uma ideia de quantas horas e anos ele passou solitário, compondo", aponta Meining.

Menino-prodígio, rebelde, morte como indigente e posteridade

 
Desde pequenos, Wolfgang e sua irmã igualmente talentosa Anna Maria, "Nannerl", eram exibidos nas cortes como crianças-prodígio. O pai, Leopold, viajava com ambos por toda a Europa, numa sacolejante carruagem puxada a cavalos. Mais tarde Wolfgang desenvolveu uma ojeriza às figuras de autoridade, acabando por abandonar o serviço do arcebispo de Salzburgo a fim de seguir a carreira como autônomo em Viena.

Para os parâmetros da época, ele ganhava bem, mas os gastos sempre superavam o faturamento. Pouco antes da estreia da Flauta Mágica, adoeceu gravemente e, em dezembro de 1791, morreu, com pouco mais de 35 anos e, sem dúvida, uma multidão de composições inéditas na cabeça.

Ao contrário de outras figuras máximas da arte mundial, sua última morada nunca se transformou em local de peregrinação, pois foi sepultado como indigente, em meio a uma tempestade, numa vala comum cuja localização exata logo se perdeu.

"Mozart era diferente, não era como a média de seus contemporâneos", afirma Evelyn Meining, que também é professora de gestão cultural. Seu talento o impelia a criar sem parar, um gênio sem botão de desligar, que não sabia fazer uma pausa. E sua música vive de contrastes: luz e sombra, solidão e alegria plena.

Você conhece a "Mozartkugel", o bombom do Mozart?


Ele descreveu seus estados de espírito paradoxais em numerosas cartas à esposa, Konstanze. Em 1790, escreve: "Se a gente pudesse ver dentro do meu coração, me daria quase vergonha. Tudo é frio para mim, frio como gelo."

Entre as numerosas obras sacras do católico Amadeus Mozart, a última é o Réquiem KV 626, que ficou inacabado. No cristianismo, culpa e redenção ocupam um papel importante, e o compositor também se ocupou intensamente desses temas em suas óperas: no fim de Don Giovanni, o libertino protagonista, incapaz de remorso ou contrição, é arrastado para o inferno pela estátua do comendador que ele assassinara, após seduzir sua filha.

"Ninguém sabe traduzir a alma em sons tão bem quanto Mozart", afirma a especialista Meining. Assim ele continua ressoando na posteridade. E como a voz é o melhor espelho da alma, em 2024 o foco do festival de Würzburg são as óperas, canções e obras corais mozartianas.

"Assim fazem todas": jogo de desilusão e perdão


Grande exemplo de culpa e redenção transformada em teatro e música é a ópera Così fan tutte (Assim fazem todas), composta sobre um libreto do poeta italiano Lorenzo da Ponte e estreada em 1790: dois casais se enredam num caos de sentimentos quando o abastado – e cínico – Don Alfonso desafia os jovens amigos Ferrando e Guglielmo a testarem a fidelidade e devoção de suas noivas, as irmãs Dorabella e Fiordiligi.

A quinta – e essencial – engrenagem desse mecanismo de equívocos e ardis é a esperta e amoral criada Despina. Na superfície, é uma comédia irreverente em torno da quebra de votos – mas também uma exploração do caminho até a resignação filosófica que se sucede à perda dos ideais, a desilusão.

O terceto de despedida de Don Alfonso com as protagonistas femininas trata de desejos e anseios. Através de dissonâncias, Mozart carrega justamente a palavra "desir" (desejo) com uma grande tensão.

O musicólogo Ulrich Konrad, especialista em Mozart, descreve esse momento como um "incomparável símbolo sonoro". Para o jornalista musical e autor Wolfgang Stähr, as "contradições do sentimento humano nunca foram expressas dessa forma em música, antes".

Até fins do século 18, o perdão era um tema central da opera seria: os poderosos perdoavam os pecadores contritos, honra e fama eram atributo dos nobres. Così fan tutte parodia tais noções: todos os participantes, não importa de que classe social, têm sua parcela de culpa. E no fim todos se perdoam mutuamente – ou será que não?

"É preciso não se deixar enganar por essa superfície, que aparentemente desemboca num final feliz", alerta Meining. "Mozart mergulha por baixo dela, nas camadas profundas da condição humana." Para o grande maestro Nikolaus Harnoncourt (1929-2016), Così fan tutte era a ópera mais triste da história da música.

Da culpa alemã até uma sociedade de paz


Em suas óperas, Mozart retrata seres humanos que fracassam, expondo suas culpas sem, no entanto, condená-los. E não por acaso, em 2024 o slogan do Festival Mozart de Würzburg é Culpa e perdão, Mozart explorador de almas (Schuld und Vergebung, Seelenforscher Mozart). "Anticonvencional e aberto a experimentos", o maior evento da Alemanha dedicado ao compositor explora facetas sempre novas. E também procura pontos de contato com o presente.

Nesse espírito foi criado o projeto "Hell ist die Nacht" ("Clara é a noite"), que trata da culpa dos alemães no nazismo. Em 16 de março de 1945, portanto já no fim da Segunda Guerra Mundial, num intervalo de 20 minutos uma chuva de bombas da Força Aérea Real britânica destruiu 90% de Würzburg.

Cerca de 500 pessoas encontraram proteção no abrigo aéreo do Convento das Irmãs do Santo Redentor. Quase 80 anos depois, o local é palco de uma instalação músico-teatral: com poesia, relatos de testemunhas da época e, naturalmente, também música de Mozart, a culpa dos alemães é tematizada.

"Mesmo depois da Segunda Guerra, muitos alemães afirmavam que nada sabiam da perseguição dos judeus. E, claro, uma guerra também não é coisa de poucos", questiona Evelyn Meining. Perante o recrudescimento do extremismo de direita e das guerras em curso, esse tema volta a ser dolorosamente atual.

A instalação no convento também trata do caminho para uma nova vida, como sociedade pacífica. Assim, "aqui, partindo da culpa, pode começar um novo caminho para o futuro, com uma conduta responsável como sociedade e como indivíduos", exorta a diretora Evelyn Meining. A responsabilidade cabe a cada um.


Disponível AQUI.

 

sábado, outubro 21, 2017

Alguns veem o infinito


Há homens que viram o infinito. Sim! Há homens que viram o infinito - não há outra explicação. Fiquei a pensar nesta proposição após assistir ao filme O homem que viu o infinito, baseado na vida do brilhante matemático indiano Sirinivasa Ramanujan. A obra conta a história do genial autodidata da cidade pobre de Madras. 

Ramanujan é um sujeito humilde. Casa-se, mas não dispões de muitos meios para sustentar esposa e a mãe.  Arruma um emprego em uma empresa de contabilidade. Sente na pele o preconceito e a hostilidade pela falta de formação acadêmica. Altamente religioso, sua paixão são os números para os quais possui um nível de intimidade profundo. As fórmulas e cálculos parecem brotar em sua mente privilegiada. Mais tarde, no filme, ele diz que "as fórmulas para ele são uma expressão exata da mente de Deus". O segredo de sua originalidade estava justamente neste ponto. 

Após ter enviado uma carta e algumas de suas descobertas para o grande matemático britânico G. H. Hardy, Ramanujan vai estudar em Londres. Lá ele sente o sabor amargo do preconceito por conta da sua origem. A academia é um espaço para vaidades e não há lugar para intuições. Apesar de sua genialidade, ele sente o peso da discriminação por conta de sua cor e de sua origem - um país pobre e, segundo o entendimento dos enfunados ingleses, um lugar do qual não poderia surgir nada significativo. 

O professor Hardy sabe que está diante de um gênio comparado a Newton. Visualiza o potencial do hindu. Sua habilidade para lidar com temas complexos. Alguém capaz de destravar as portas pesadas e herméticas do conhecimento matemático. Há algo muito valioso ali. Por isso, resolve firmar uma parceria com ele. Nesse espaço, Ramanujan desenvolve tuberculose. Sua disciplina religiosa o impede de comer carne ou qualquer outro gênero alimentício de origem animal. Não tendo condições de conseguir verduras e legumes - pois o filme se passa no período da Primeira Guerra - Ramanujan definha. 

Seu trabalho continua. É com o trabalho sobre partições matemáticas que ele, finalmente, faz os acadêmicos se dobrarem diante de sua genialidade. Torna-se membro da Sociedade Acadêmica Real Inglesa, um feito inigualável para alguém de sua origem. 

Mas o que está em jogo com relação a Ramanujan estende-se, por exemplo, a alguns gênios que já passaram por este planeta. Pessoas que possuíam um nível de iluminação incomum. Há um diálogo no filme de Ramanujan com a sua esposa. Ela indaga algo como "para quê isso serve?". Ele responde: "Imagine que há cores que não consegue ver". Sim! Os homens comuns vivem em uma realidade em que faltam cores para tornar o mundo mais vivo. A pátina que utilizam para dar significado à realidade possuem, no máximo, duas, três, quatro cores. 

Todavia, há sujeitos iluminados; com os olhos repletos de cores. Um espectro bastante rico se evidencia. Eles enxergam a realidade de forma especial. Veem sinfonias majestosas, poemas; fórmulas matemáticas que apontam para o infinito. Ramanujan morreu aos 32 anos de idade, bem próximo da idade de outro gênio, Wolfgang Amadeus Mozart, que morreu aos 36. Quando penso em Mozart sempre me vem o questionamento: quantas coisas maravilhosas - sinfonias, sonatas, concertos, obras de câmara - morreram com Mozart? Se ele tivesse vivido mais alguns anos, haveria mais cores no mundo. Mais alegria. Não haveria tanta cinza como há agora. Algumas delas teriam sido dissipadas. Se Nietzsche não tivesse sido acometido por um mutismo absoluto, quantos "amigos "de Zaratustra não teriam gritado em praça pública? Se Bach tivesse vivido mais cinco anos, quantas obras religiosas não teriam sido concebidas para tornar o mundo em um jardim multicolorido?

Há sujeitos que nos privam de sua visão muito precocemente. Enquanto caminhamos a tatear coisas pequenas, ignóbeis, assustadoramente comuns, esses sujeitos utilizam a capacidade de enxergar para nos mostrar o que está oculto, querendo ser revelado; ou seja, tornando clara a mente de Deus. Ramanujan diz que cada fórmula aponta para beleza que há em Deus. Neste instante, por exemplo, eu escuto a Quarta Sinfonia, de Bruckner, chamada de "Romântica". O que Bruckner deve ter visto para escrever algo assim? Ela é religiosa em sua essência. Aponta para reflexões perfeitas - divinas. Bruckner deve ter visto o infinito para concebê-la. Os grandes gênios que já passaram por esta terra, possuíam intuições especiais. São profetas. Concebem coisas grandiosas por terem um acesso privilegiado ao infinito. Após o término do filme, fiquei com esta impressão. 

Àqueles que não possuem essa qualidade no olhar está reservada a função de reconhecer a miopia de que são detentores. 

sábado, agosto 09, 2014

Uma reflexão de aniversário

João Pessoa - PB - janeiro de 2013
"E, ao final de nossa longa exploração, chegaremos finalmente ao lugar de onde partimos e o conheceremos então pela primeira vez". T.S. Eliot.

Há alguns dias, vi pela décima vez, o filme Sociedade dos poetas mortos, uma das produções mais encantadoras que conheço sobre o verdadeiro sentido da vida. E existe aquela cena em que o professor leva os alunos até o pátio da escola e mostra aqueles que haviam estudado em tempos passados. O professor pede para que os alunos olhem aquelas fisionomias cristalizadas pelo tempo. Aqueles sorrisos despreocupados e saudáveis como se a vida seguisse um fluxo contínuo e que nunca teria fim; como se nunca fôssemos deixar de viver esse ritmo, essa energia luminosa. Ao dar continuidade à sua lição, ele pede para que os alunos se aproximem da fotografia para ouvir o cada um daqueles seres que "fermentavam narcisos", naquele momento, estariam a dizer. Eles obedecem e escutam um sussurro sendo pronunciado pelo professor: "Carpe diem, meninos! Tornem as suas vidas extraordinárias!"

E é pensando justamente nessa afirmação que completo mais um ano de vida. Chego aos trinta e cinco anos e analiso a longa trilha por onde caminhei. As marcas da poeira ainda estão em meus pés. Tantas paisagens já ficaram presas na memória; e tantas outras já se descolaram, sendo abandonadas pelo artifício falho da mente. Carpe diem é um termo latino que significa "colha o fruto". Ou seja, colha as coisas que estão maduras. Não desperdice aquilo que se mostra. E diante de afirmação tão bela e trágica, surge a indagação: "O que é essencial?" Sim! O que é essencial na vida? Com qual matéria ou assunto eu devo gastar o meu tempo? Quais frutos eu devo colher? 

Nada como o dia do aniversário para pensar nessas coisas. Não tenho todo o tempo do mundo. É curiosa a percepção de que tudo passou muito rapidamente. Recordo-me de que ontem eu era uma criança, que corria descalça; que jogava bola com os colegas; que tomava banho em riachos; que subia em pés de manga e quando achava um fruto maduro, devorava as carnes amarelas até que o caldo escorresse pelos cotovelos; era uma criança que tentava jogar com as ordens e comandos dados pela minha mãe. E com a minha carapinha e roupas ordinárias seguia para a escola, com os livros debaixo do braço. Tudo passou tão rápido! E é como se houvesse uma fumaça se mexendo lá no fundo dos cômodos do tempo.

Não tenho todo o tempo, pois não poderei visitar todos os lugares que quero. Não poderei abraçar a todas as pessoas. Beber todos os vinhos. Experimentar todas as culinárias. Ouvir todas as músicas. Ler todos os livros. Acumular tudo o quero. Ter o tempo que quero. É essa angústia diante do finito, que acometeu Fausto, alongado pela reflexão de Goethe. Vendo-se incapaz de aprender, de conhecer, de aprofundar-se além dos limites daquilo que é capaz o ser humano, Fausto resolve fazer um pacto com o demônio. Essa metáfora representa justamente a inquietação que gravita no interior do homem. Somos pequenos, mas dentro de nós existe a consciência da eternidade e isso nos aniquila. A poetisa Adélia Prado diz assim: "Meu Deus, me dá cinco anos, me cura de ser grande...". Queremos viver, pois existe um gesto de grandiosidade, uma vontade de continuidade, uma força impulsiva que nos lança de encontro aos nossos limites. 

Num dia como esse eu paro para pensar, para refletir, para ficar em silêncio, para ficar sozinho. E "a solidão", como diz o Henri Nouwen, "é a fornalha da transformação". Sei que daqui para frente o meu corpo passará por mudanças profundas. Mas é justamente nesse "instrumento" que a minha consciência e a minha percepção do mundo permanecerão vivas. Por isso, nesta data, quero fazer um pacto comigo mesmo: quero ser mais humano. Quero ler mais poesia. Quero viajar mais. Quero repelir o tédio e rir das responsabilidades. Quero ouvir mais MPB e continuar a amar a música clássica. Ouvir mais as missas de Bach e Palestrina; as sonatas de Beethoven e Brahms; os concertos para piano de Mozart. Quero conversar mais com a minha esposa, fazendo ecoar aquela frase de Nietzsche: "todos os casais que pretendem casar deveriam fazer a seguinte pergunta: 'terei eu prazer em conversar com essa pessoa o resto de minha vida?'" 

Quero ver mais filmes; observar mais os pequenos detalhes das mudanças perpetradas na natureza. Rir a cada nova manhã e agradecer a cada pôr-do-sol. Brincar com o "Jesus menino", como o fez Fernando Pessoa. O Jesus que se cansou da seriedade da eternidade; que veio morar com os homens; brincar nas poças de água; que dorme dentro da minha alma e, às vezes, acorda de noite e brinca com os meus sonhos. Quero todos os dias ouvir a voz da minha mãe e dos meus parentes. Quero visitar sempre que puder o meu lugar de nascimento. Perceber as árvores; o vento com suas fragrâncias curtidas e trazidas de longe; embriagar-me com o cheiro de terra molhada quando das primeiras chuvas. Gastar tempo com as coisas "inúteis", que como diz o Manuel de Barros têm o poder de fazer "milagrar violetas". Quero fazer de cada reencontro uma primeira vez e cada despedida um réquiem de beleza. Quero ouvir mais e falar menos. Fugir da ditadura que diz que para que eu vença é necessário calar o outro "no grito". Quero serenar diante do caos e ouvir o som das cachoeiras nos dias de tempestade. Quero me entusiasmar com o silêncio e fazer da solidão uma poesia que ensina. Quero ver o mar mais vezes. Quero caminhar mais vezes só por caminhar - com as mãos no bolso. Quero correr mais vezes. Correr como o Forrest Gump, que quando quis correr, correu; e quando quis parar, parou. Quero fugir das agendas fixas; dos almoços contabilizados; do amor com hora marcada; do encontro com agendamento e cadastro para ser analisado. Em suma: quero ser singelo como aquele lírio que nem mesmo Salomão foi capaz de se vestir como ele (Mt. 6. 28,29)

Vi uma das últimas entrevistas feitas pelo Ariano Suassuna, que faleceu mês passado. Uma das afirmações feitas por ele me deixou gravitando por dias em cima de mares de reflexões. Disse ele: "É muito bom viver! É um privilégio ter passado por esse universo". É e assim que devo olhar sempre, mesmo não sabendo quais são as trilhas, as planícies e montanhas que encontrarei em minha caminhada finita. Mas o quanto eu puder, quero levar comigo a lembrança daquilo que fui e vivi; e o agradecimento por aquilo que terei tempo de ser. As nossas buscas sempre terminam no lugar onde começamos a procurar.

terça-feira, agosto 13, 2013

Um comentário sobre (D)(d)eus...

 Comentário escrito no blog do Charlles

"Bonita a sua confissão sobre (D)deus, Charlles. Aproxima-se bastante daquilo que creio, também, sobre espiritualidade. Há muito frequentei uma igreja presbiteriana. Contaram-me a história de um deus institucional, zangado, cheio de caprichos e caricaturado à imagem e semelhança dos judeus. Deixei de lado, ri sardonicamente na cara desse deus. Disse que ele era uma mentira. Uma fraude cosmológica. Alguém recalcado. Disse ainda que a mitologia grega era mais bonita do que tudo aquilo que me falaram sobre ele.

Solidarizo-me com as suas palavras. Existe no ser humano uma voz lancinante que clama por espiritualidade. Uma espécie de necessidade do belo. E aí encontro a ideia de deus. É, por isso, que passei a me relacionar com a ideia de deus melhor quando dessacralizei a bíblia e passei a lê-la como um livro de literatura, evocando um grande teólogo alemão chamado Rudolf Bulltmann de espistemologia kierkegaardiana e heideggeriana. Um personagem como Jesus certamente se assemelha a um Dom Quixote em sua sede pela verdade; ou um príncipe Michkin com sua necessidade de justiça. E aí encontro um apaziguamento necessário às minhas necessidades. Existem hinos mais bonitos que as sonatas de Beethoven ou de Mozart; ou a obra espiritual de Bach?

Ser espiritual é encontrar poesia em cada átomo da existência, em cada centelha da vida. Nesse sentido, encontro a espiritualidade da afirmação da vida, sempre - como diria Nietzsche. Julgo o movimento ateísta essencialmente radical. É um fundamentalismo sem deus. Ou seja, uma religião radical que prega a ausência de algo, mas que torna essa mesma ausência em uma entidade que se sobrepõe a tudo.

Abraços cordiais, Charlles!"

terça-feira, janeiro 01, 2013

"Pálido ponto azul", uma reflexão de início de ano a partir de um vídeo de Carl Sagan

Não quero parecer pedante com este post. Não quero parecer leviano; nem ostentar aquilo que não posso ser. Este é o primeiro post para o ano de 2013. E este blog nunca foi um espaço assediado por visitantes. Insisto em escrever garatujas, pois acho que isso é um exercício catártico. E se alguém passa os olhos por aquilo que escrevo, já me sinto feliz e realizado. Obrigado.

Ontem, assisti a um vídeo de Carl Sagan, o famoso entusiasta da ciência e uma das descobertas mais caras e graciosas do ano de 2012. Li e especialmente vi muita coisa sobre Sagan disponível na internet ano passado. "Pálido ponto azul" é o nome de um dos seus livros mais famosos. No vídeo, que também possui o nome do livro, Sagan faz uma bela reflexão a partir de um evento: A sonda Voyager fora enviada para além de Saturno e de lá tirou uma foto do nosso planeta. Aquela foto acabou impressionando Sagan. Ele viu, na foto, uma mancha pouco interessante. Que não chamava atenção. Não possuía atrativos. Um pequeno ponto pálido, com uma luz bruxuleante, no meio de um universo pontilhado de estrelas.

Naquele ponto tênue, aparentemente sem interesse, estava o centro de sua reflexão. Aquilo era o nosso planeta. A Terra é a nossa casa e fora dela (até agora) não temos notícias de vidas tão complexas como as nossas. Desse modo, Sagan nos propõe uma bela mensagem, afirmando que: apesar desse ponto sem atrativos ser tão inexpressivo no palco amplo e infinito do universo, ele possui uma relevância fora de qualquer especulação para nós. Não somos nada sem ele.

Pois tudo o que conhecemos e desejamos conhecer, fazemo-lo por causa dele. É nesse palco que estão as pessoas que amamos; onde nascemos, crescemos e morremos; é nesse palco que sentimos as nossas dores; é nesse palco de luz trêmula que guerras são travadas para satisfazer a megalomania de alguns e que numa geração seguinte o triunfo conquistado se fragmenta; é nesse mundo, que não possui vantagens em relação a qualquer outro lugar do universo, que fazemos germinar as nossas vaidades, nossos pretensos conhecimentos e inteelctualidade, que nada é senão vento e cinza e que o tempo se encarrega de apagar com suas areias operárias; é nesse palco que grassam as religiões, as ideologias, os combates; é nele que não aprendemos a viver em paz uns com outros, mesmo tendo a mesma origem e possivelmente o mesmo destino, já que não somos eternos - somos transitórios como o pequeno ponto pálido azul; é nesse mundo que vivemos que julgamos as coisas conforme a nossa vontade e não somos capazes de abrir mão daquilo que pensamos como centro de toda a verdade em algumas ocasiões. 

Mas é nesse palco, também, que estão fecundados os grandes atos que nos tornam tão especiais. É aqui que mostramos que somos uma espécie nova, curiosa e com grande potencial criativo. Afinal, foi aqui que viveu uma criatura como Sagan, como Mozart, Beethoven, Bach ou Shakespeare; como eu ou como você: Em suma: é aqui que estão as nossas misérias e as nossas poesias criativas.

E isso me fez pensar: o que vale a pena na vida? O que devo fazer para que a minha vida tenha sentido e seja feliz? Talvez a tentativa de encontrar respostas para essas perguntas seja de fato o grande fundamento da vida. A vida feliz não é baseada na quantidade de respostas que damos, mas na quantidade de perguntas que fazemos. Então, o que devemos fazer para que a nossa vida tenha sentido nesse pequeno ponto pálido azul? 

Conversando com a minha esposa hoje cedo, falávamos justamente sobre isso. E chegamos a um acordo em um ponto: ter um coração receptivo à bondade e ao cultivo de amizade é, talvez, o antídoto mais eficaz a tornar a nossa vida positiva nos 70, 80 ou 90 anos que viveremos. O que torna a nossa vida realmente feliz não é quantidade de conquistas individuais, mas a quantidade de realizações capazes de beneficiar outras pessoas. É isso que dura. Nossa vida é passageira, mas os nossos gestos podem durar mais do que nós. De certa forma, quando praticamos o bem, começamos a nos eternizar. É o amor, a tolerância e a capacidade de nos solidarizar que nos torna a nossa existência com sentido nesse pequeno ponto azul.

Que 2013 seja um ano de bondades explícitas e sorrisos de bondade!

Abaixo, o vídeo de Sagan. Se você não deseja ler o texto, pelo menos assista ao vídeo. Será uma bela reflexão-provocação para o ano de 2013
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