sábado, outubro 21, 2017

Alguns veem o infinito


Há homens que viram o infinito. Sim! Há homens que viram o infinito - não há outra explicação. Fiquei a pensar nesta proposição após assistir ao filme O homem que viu o infinito, baseado na vida do brilhante matemático indiano Sirinivasa Ramanujan. A obra conta a história do genial autodidata da cidade pobre de Madras. 

Ramanujan é um sujeito humilde. Casa-se, mas não dispões de muitos meios para sustentar esposa e a mãe.  Arruma um emprego em uma empresa de contabilidade. Sente na pele o preconceito e a hostilidade pela falta de formação acadêmica. Altamente religioso, sua paixão são os números para os quais possui um nível de intimidade profundo. As fórmulas e cálculos parecem brotar em sua mente privilegiada. Mais tarde, no filme, ele diz que "as fórmulas para ele são uma expressão exata da mente de Deus". O segredo de sua originalidade estava justamente neste ponto. 

Após ter enviado uma carta e algumas de suas descobertas para o grande matemático britânico G. H. Hardy, Ramanujan vai estudar em Londres. Lá ele sente o sabor amargo do preconceito por conta da sua origem. A academia é um espaço para vaidades e não há lugar para intuições. Apesar de sua genialidade, ele sente o peso da discriminação por conta de sua cor e de sua origem - um país pobre e, segundo o entendimento dos enfunados ingleses, um lugar do qual não poderia surgir nada significativo. 

O professor Hardy sabe que está diante de um gênio comparado a Newton. Visualiza o potencial do hindu. Sua habilidade para lidar com temas complexos. Alguém capaz de destravar as portas pesadas e herméticas do conhecimento matemático. Há algo muito valioso ali. Por isso, resolve firmar uma parceria com ele. Nesse espaço, Ramanujan desenvolve tuberculose. Sua disciplina religiosa o impede de comer carne ou qualquer outro gênero alimentício de origem animal. Não tendo condições de conseguir verduras e legumes - pois o filme se passa no período da Primeira Guerra - Ramanujan definha. 

Seu trabalho continua. É com o trabalho sobre partições matemáticas que ele, finalmente, faz os acadêmicos se dobrarem diante de sua genialidade. Torna-se membro da Sociedade Acadêmica Real Inglesa, um feito inigualável para alguém de sua origem. 

Mas o que está em jogo com relação a Ramanujan estende-se, por exemplo, a alguns gênios que já passaram por este planeta. Pessoas que possuíam um nível de iluminação incomum. Há um diálogo no filme de Ramanujan com a sua esposa. Ela indaga algo como "para quê isso serve?". Ele responde: "Imagine que há cores que não consegue ver". Sim! Os homens comuns vivem em uma realidade em que faltam cores para tornar o mundo mais vivo. A pátina que utilizam para dar significado à realidade possuem, no máximo, duas, três, quatro cores. 

Todavia, há sujeitos iluminados; com os olhos repletos de cores. Um espectro bastante rico se evidencia. Eles enxergam a realidade de forma especial. Veem sinfonias majestosas, poemas; fórmulas matemáticas que apontam para o infinito. Ramanujan morreu aos 32 anos de idade, bem próximo da idade de outro gênio, Wolfgang Amadeus Mozart, que morreu aos 36. Quando penso em Mozart sempre me vem o questionamento: quantas coisas maravilhosas - sinfonias, sonatas, concertos, obras de câmara - morreram com Mozart? Se ele tivesse vivido mais alguns anos, haveria mais cores no mundo. Mais alegria. Não haveria tanta cinza como há agora. Algumas delas teriam sido dissipadas. Se Nietzsche não tivesse sido acometido por um mutismo absoluto, quantos "amigos "de Zaratustra não teriam gritado em praça pública? Se Bach tivesse vivido mais cinco anos, quantas obras religiosas não teriam sido concebidas para tornar o mundo em um jardim multicolorido?

Há sujeitos que nos privam de sua visão muito precocemente. Enquanto caminhamos a tatear coisas pequenas, ignóbeis, assustadoramente comuns, esses sujeitos utilizam a capacidade de enxergar para nos mostrar o que está oculto, querendo ser revelado; ou seja, tornando clara a mente de Deus. Ramanujan diz que cada fórmula aponta para beleza que há em Deus. Neste instante, por exemplo, eu escuto a Quarta Sinfonia, de Bruckner, chamada de "Romântica". O que Bruckner deve ter visto para escrever algo assim? Ela é religiosa em sua essência. Aponta para reflexões perfeitas - divinas. Bruckner deve ter visto o infinito para concebê-la. Os grandes gênios que já passaram por esta terra, possuíam intuições especiais. São profetas. Concebem coisas grandiosas por terem um acesso privilegiado ao infinito. Após o término do filme, fiquei com esta impressão. 

Àqueles que não possuem essa qualidade no olhar está reservada a função de reconhecer a miopia de que são detentores. 

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