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quarta-feira, novembro 27, 2024

A história da confusão das línguas em Gênesis 11

 

Uma representação da torre. 

                No livro bíblico de Gênesis, há muitas passagens em que se percebe a existência de etiologias. Entendem-se as etiologias como mitos de fundação. Esses mitos existem com o intuito de justificar a existência do mundo ou de uma estrutura social. Por exemplo, os primeiros capítulos do Gênesis são manifestas etiologias. Observa-se, por exemplo, a descrição que o autor – ou que os autores -  dessa porção do texto realiza(m) ao descrever(em) a forma como supostamente Javé teria criado o mundo numa operação ex nihilo.  A ideia de mito fundador pode ser observada na forma como ocorre a suposta criação do mundo – os mares, as estrelas, o céu, a terra, os animais, etc. O movimento de como as ações são narradas é uma forma de explicação que justifica a realidade e tudo o que existe.

                No capítulo 11.1-9, do mesmo livro de Gênesis, há a descrição do conhecido episódio da Torre de Babel. Ao longo do tempo, já ocorreram inúmeras tentativas de explicação dessa passagem. Nessa descrição, é possível observar outra etiologia que procura explicar a existência das variedades linguísticas existentes no mundo. Certamente, o autor dessa parte do Pentateuco, ao olhar para a polifonia de vozes existentes ao redor de Israel, deve ter se baseado em alguma lenda para produzir o texto.

                O texto afirma que, após terem sobrevivido ao Dilúvio (outra etiologia), alguns homens marcharam para o leste e se estabeleceram na terra de Senaar (v.2)[1]. Em seguida, puseram-se a construir uma “cidade e uma torre cujo ápice penetre os céus” (v.3). O texto, logo em seguida, afirma o seguinte: “Ora, Iahweh desceu para ver a cidade e a torre que os homens tinham construído”. (v.5). O uso da partícula expletiva de realce “ora”, serve para introduzir a figura da divindade judaica na história. Funciona do ponto de vista retórico como a segunda parte do raciocínio que justifica o motivo pelo qual algo passou a ser de determinada forma. Iahweh “desce” de sua morada para realizar duas ações: (1) ver a cidade; e (2) a torre que os homens tinham construído. É importante dizer que a cidade e a torre já estavam construídas, mas, em algum momento, teria reprovado os eventos que ocorriam naquela inventiva comunidade. Seu olhar moralizante condena a ousadia dos homens. Ora, por que os homens não poderiam construir a cidade e a erguer a torre?

O autor dessa porção do texto bíblico aproxima Iahweh das divindades dos povos vizinhos aos israelitas. A ação de “descer” aproxima a divindade judaica aos deuses que habitavam o Olimpo, por exemplo. Zeus de tempos em tempos descia da sua morada para interferir ou mudar determinado aspecto da realidade. Segundo alguns estudiosos, essa é uma evidência da fonte javista[2]. Os registros da fonte javista ou fonte J, sugerem Iahweh como uma divindade antropomórfica. Por exemplo, em Gn 3.8 há a afirmação de que “Iahweh Deus (...) passeava no jardim à brisa do dia”, uma evidente antropormorfização da divindade.  Ao longo do Velho Testamento, principalmente nos livros proféticos, a figura de Iahweh vai ganhando aspectos transcendentes e perdendo a característica antropomórfica.

No versículo seguinte, após ter constatado os empreendimentos humanos, Iahweh afirma que nada seria “irrealizável” para os homens. Percebe uma potência incontrolável na humanidade. Não gosta do que vê. A Nova Tradução Internacional (NVI) está assim traduzida na parte B do versículo 6: “Em breve nada poderá impedir o que planejam fazer”.  Ou seja, depreende-se que nem mesmo Javé seria capaz de controlar essa expansão de poder.

A partir dessa constatação, a divindade suprema do povo judeu decidiu “confundir a linguagem” a fim de que aqueles que empreendiam o projeto desistissem da ação. Curiosamente, no versículo 7 – tanto na NVI quanto na Bíblia de Jerusalém (duas excelentes traduções) – os verbos que exprimem a ação de Javé  estão no plural, deixando implícito que a ação que baratinou a construção foi feita em concílio, ou seja, com mais de uma divindade[3]. Esse é um fenômeno que se repete em passagens do Gênesis. É conhecida a passagem dos capítulos iniciais do livro, em que pode ser lido: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. Pode ser percebido ainda que a Bíblia de Jerusalém mostra que Iahweh – no versículo 7 - utiliza praticamente os mesmos verbos usados pelos homens no versículo[4]. Há uma ação contrária àquela realizada pelos homens. Enquanto os homens procuram construir, Iahweh procura des-construir, colocar freios à ação humana.

Neste quesito, aponta-se outra característica da fonte javista, ou seja, a procura de distinção do homem e da divindade. A fonte J procura impor limite entre a falibilidade humana e a grandeza de Iahweh, que deve assinalar sua posição como divindade suprema acima do mundo. Ele governa e, se necessário, andará no meio dos homens para mostrar que eles não prevalecem.

Iahweh censura o empreendimento realizado pelos homens. A multiplicação de línguas teria se constituído em um fator de impedimento para que o projeto de expansão da “cidade” e da “torre” continuasse o seu curso. Javé põe freios à ousadia humana. Sua ação é deliberadamente melindrosa; sua interferência, ressentida.  Vale mencionar que os homens que decidiram construir a cidade e a torre faziam parte da geração pós-diluviana. Há ainda uma desconfiança de Iahweh nesses homens. Certamente, havia o entendimento de que a maldade deles era um fator que gerava insatisfação em Iahweh. Reside neste fato outra característica da fonte javista – ou seja, a descrição do crescimento da maldade entre os homens. Iahweh teria feito os homens de forma perfeita, mas eles foram alcançando escalas de ensandecimento cada vez mais acentuadas.

Representação de um zigurate. 

Nos versículos finais que retratam o mito, Iahweh “dispersa” aqueles obstinados homens “por toda a face da terra”. Aquele incidente ficou conhecido como “Babel”. Os judeus se reportavam a Babilônia como Babel, cujo significado é “confusão” ou “mistura”. A escrita dessa etiologia, certamente, procurava, a partir de uma lenda existente, fazer um revisionismo histórico, criando um mito fundador. Alguns estudiosos, indicam que a fonte javista foi redigida nos séculos VI e V a.C.

É importante dizer ainda que essa revisão histórica procurava obumbrar a grandiosidade da civilização apontada no texto. Como indicam as pistas do texto, é possível que os substratos da referência histórica remetam à Babilônia. Afirmar a supremacia de Iahweh sobre essa “torre” e essa “cidade” sugere que há uma animosidade contra o crescimento e a pujança daquela civilização. Alguns intérpretes apontam que, quando o texto fala de “torre”, talvez, estejam a sugerir os famosos zigurates. Essas construções eram comuns entre os assírios, babilônicos e sumérios. Elas possuíam a forma de uma pirâmide terraplanada e ostentavam uma função religiosa. Aos serem construídos, buscava-se colocar os homens mais próximos das divindades. Além da função religiosa, serviam de biblioteca, espaço de observação das estrelas e local para guardar grãos, o que indica uma importante função para aquelas civilizações. O registro dos primeiros zigurates remontam dois milênios antes de Cristo.

Em suma, ao escreverem o mito fundador da conhecida história da confusão das línguas, buscava-se produzir uma reinterpretação da história: (1) para rebaixar a grandiosidade da civilização babilônica; (2) para delimitar a soberania de Iahweh como divindade suprema; (3) para desacreditar a estrutura religiosa dos povos vizinhos; (4) para criar uma narrativa com objetivos doutrinários, com finalidade de formação identitária. Ou seja, e, a partir disso, neutralizar o reconhecimento da grandiosidade das outras nações vizinhas a Israel.

 

[1] Realizei a minha leitura na Bíblia de Jerusalém, por isso emprego o termo “Iahweh” conforme aprece na tradução. 

[2] A teoria das fontes ou críticas das fontes é uma hipótese desenvolvida por Julius Welhausen. Segundo esse estudioso alemão, o Pentateuco é o resultado da estruturação de quatro fontes principais: a eloísta, a javista, a sacerdotal e deuteronomista.

[3] (1) A Bíblia de Jesuralém diz: “Vinde! Desçamos! Confundamos a sua linguagem para que não mais se entendam uns aos outros”.  (2) A NVI afirma: “Venham, desçamos e confundamos a língua que falam, para que não entendam mais uns aos outros".

[4] No versículo 4 – os homens afirmam: “Vinde! Construamos uma cidade e uma torre cujo ápice penetre os céus!” No versículo 7 – Iahweh diz: “Vinde! Desçamos! Confundamos a sua linguagem para que não mais se entendam”.

segunda-feira, dezembro 11, 2023

Inadequação

 

“Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia”

Trecho da música "Não vou me adaptar", do grupo Titãs. Letra de Arnaldo Antunes

 

No sábado, após alguns anos, estive em um culto protestante. Visitei a Igreja Presbiteriana Nacional (IPN). Seria o dia da colação de grau do meu cunhado. Ele bacharelou-se em teologia. Sendo assim, fui à IPN por causa desse fato. Meu cunhado estudou teologia por quatro anos no Seminário Presbiteriano de Brasília, onde também estudei entre os anos de 2002 e 2005.

                Desejei ir para resgatar da memória a experiência que lá vivi. Encontrar algumas fisionomias. Perceber como a vida nos apresenta paisagens diversas. E, por fim, praticar a bonomia com alguns sorrisos. A pergunta mais intrigante da noite foi feita a mim por um colega chamado Wesley, que estudou no período em que lá estive:

                - Que bom te ver! Onde você está? – Para quem é de fora do mundo protestante, quiçá, não perceba a força semântica da inquirição. A indagação é feita para interpelar o interlocutor a respeito da igreja que ele frequenta. Ele queria saber a respeito do meu nível de envolvimento com o mundo eclesiástico. Respondi a sua indagação entre um esgar e a consciência de que aquele tipo de pergunta era comum.  Certamente, minha resposta o surpreendeu, gerando decepção.

                Observei toda condução do ritual tentando encontrar em mim mesmo uma dimensão que me conectasse com o seu sentido. Eu frequentei os cultos presbiterianos. Estudei na mesma instituição que estava declarando publicamente o curso de teologia do meu cunhado.  No dia 10 de dezembro de 2005, eu também recebi o mesmo título. Fui responsável por fazer o voto para a minha turma. Havia gestos apaixonados e uma motivação sincera em minha credulidade. Passados dezoito anos, julguei-me anômalo, indiferente a tudo o que aconteceu.

                A pregação de um reverendo chamado Marcelo, foi uma verdadeira declaração de chauvinismos e sensaborias egoicas. Prontificou-se a falar do texto do livro de Atos, que trata sobre Estevão, considerado pela tradição cristã como o primeiro mártir. Seu discurso foi pouco claro. Houve enormes digressões. Um discurso gabola típico dos líderes cristãos, criando dicotomias entre o mundo que se diz cristão e aquele que não é. Segundo ele, o mundo persegue os cristãos. Isso aconteceu em toda a história e acontece ainda hoje. Mencionou países africanos; falou a respeito da China. Para ele e sua mente colonizada, os Estados Unidos são um tipo de modelo missionário, pois os cristãos pioneiros que foram responsáveis pela formação da Igreja daquele país, foram fortes e sonharam com uma terra que seguisse, no dizer do pregador, “um país que segue o evangelho”. Ou seja, velhos bordões para arregimentar engajamento.

                É curioso como os presbiterianos valorizam aquilo que Rubem Alves chamou de “protestantismo da reta doutrina”. Por intermédio dessa fórmula, é possível perceber o quanto o desejo pelo saber teológico sedimenta ostentação. As falas no culto presbiteriano manifestam duas questões:

 (1) Há uma enorme preocupação com a teologia. A compreensão de deus passa, necessariamente, pelo rigor teológico. O saber teológico dessa forma é a régua de medir a divindade. Caso haja uma compreensão que não se harmoniza com a teologia, questiona-se essa compreensão. A teologia é a chave de interpretação dos fenômenos religiosos. Somente indivíduos treinados e moldados pelo saber teológico são capazes de adquirirem uma plausível respeitabilidade. O desejo de distinção e reconhecimento talvez explique o porquê desse fenômeno nos púlpitos e na prática dos condutores da denominação.  

(2) E, a segunda, que talvez, seja um desdobramento da primeira é a exaltação a uma fé pautada na construção de um discurso que se estrutura na fala. O discurso deve ser pomposo. Isso pôde ser verificado na fala do paraninfo da turma. Seu texto pareceu-me demasiado pernóstico. A estrutura sintática primou pela escolha de palavras pouco usuais. Havia ainda um enfeito pouco natural na leitura. Nota-se, assim, que há uma evidente preocupação com “a forma”. Pode-se dizer que, caso fossem enviar uma carta, os presbiterianos teriam mais preocupação com a aparência do envelope do que com o conteúdo que a carta abriga.

                Quando deixei o espaço, fiquei pensando no quanto o ser humano se preocupa em erguer muros discursivos para se sentir protegido. Todo aquele ritual somente confirmou o quanto nesses espaços de manifestação religiosa, a antropologia fale com tanta força. As manifestações trazem mais conteúdos sobre aqueles que o fazem do que sobre aquilo que eles alegam pregar. Há mais a respeito dos homens no pretenso discurso sobre deus, do que deus no discurso erguido pelos homens.


sexta-feira, setembro 10, 2021

"Ressurreição - história e mito", de Geza Vermes. Algumas considerações

 


                Terminei a leitura de “Ressurreição – história e mito”, de Geza Vermes. Estudei teologia. É um assunto que surge, em alguns momentos, com certas nuances de interesse. Cursei  teologia reformada, conservadora, ciosa de certos pressupostos doutrinários; não capaz de relativizar conceitos por que calvinista. Todo aquele conjunto de elementos inegociáveis – soberania divina, as duas naturezas de Cristo, a ressurreição, a justificação pela fé; a predestinação e a eleição; a glorificação dos fiéis numa apoteótica segunda volta de Cristo. São temas caros e, portanto, basilares para os fiéis dessa religião. Aqueles que acreditam fazem disso um dos fundamentos da vida.

                Todavia, o conjunto dessas doutrinas é resultado de uma formação paulatina da Igreja. A consolidação desses entendimentos doutrinários passou por muitas disputas. Afinal, um conceito não resulta de uma consolidação estanque – ainda mais quando se trata de uma narrativa. Não coaduno mais com esse entendimento conservador, que sacraliza certas compreensões e as tornam inamovíveis. A religião é um fenômeno necessariamente humano. Religião é antropologia. É o resultado dos sonhos, dos anseios mais recônditos do ser humano. Ela foi criada para justificar certos elementos da realidade e que, sem ela, o ser humano teria dificuldades para lidar e aceitar. 

                O que convencionamos chamar de cristianismo não era o mesmo há dois mil anos. A história é construída por um constante jogo dialético. Os evangelhos, conforme os lemos, são bem distintos dos textos paulinos, pois estes são o resultado do entendimento, da sistematização daquilo que ele entendia ser o cerne dos ensinamentos de Jesus. É possível falar que aquilo que Jesus não disse foi consolidado por meio de uma interpretação. Paulo é um grande revisionista; um estruturador de fundamentos teológicos. Do mesmo modo, de acordo com o excelente livro de Geza Vermes, o conceito de ressurreição também levou tempo para ser uma doutrina plenamente aceitável dentro do judaísmo e, mais tarde, tornar-se um tema da teologia cristã.  

                Do ponto de vista histórico, o cristianismo é uma vertente religiosa derivada do judaísmo. Sendo assim, boa parte dos elementos estruturais do cristianismo foram herdados da religião dos judeus. Por exemplo, a divindade do chamado Antigo Testamento, Javé, é a mesma divindade do Novo Testamento. É o mesmo que profere uma sentença de aprovação à Jesus no ato do batismo, conforme Mateus 4. Alguns conceitos teológicos também foram herdados do judaísmo. A ideia de aliança é algo que perpassa todo o texto bíblico. O amor, a proteção, a predileção divina também é algo que faz parte desse conjunto.

                No Antigo Testamento, conforme diz Vermes, não se encontra a ideia de ressurreição como passou a ser acreditada no cristianismo. Paulo eleva esse entendimento, tornando esse um dos signos de sua pregação. Como teria ocorrido essa mudança de compreensão ao longo dos séculos? É sobre isso  que o autor procura discorrer ao longo de sua didática obra.

                Para ele, - e isso pode ser comprovado pela experiência -, a teologia existente no Antigo Testamento afirma que a vida no mundo físico é a única oportunidade que o fiel possui para se deleitar, para fruir, para se regozijar. O autor de Eclesiastes escreve: “Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde vais, não há obra nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma”. (Ec 9.10). No livro de Jó, há ainda uma descrição mais dramática sobre esse silêncio a que todos os seres vivos serão submetidos após a morte. “Antes que eu vá para o lugar de que não voltarei, à terra da escuridão e da sombra da morte; Terra escuríssima, como a própria escuridão, terra de sombra da morte e sem ordem alguma, e onde a luz é como a escuridão”. (Jó 10.20-21). Esse lugar silencioso, escuro, fechado, recôndito, de onde nada emanava, tinha o nome de Xeol ou Sheol – em hebraico, “mundo” ou “morada dos mortos”. Nesse mundo não seria possível adorar a deus. Isso só se torna possível do lado de cá da existência (Sl 6.5).

                Segundo Geza Vermes a mudança de compreensão se deu por volta do segundo século antes de Cristo, no período Asmoneu com os Macabeus. Esse período foi marcado por uma forte resistência religiosa. As violações cometidas por Antíoco IV contra a fé dos judeus teria feito surgir uma quantidade enorme de pessoas dispostas a proteger as tradições da religião. Muitas pessoas teriam dado a própria vida para garantir a pureza da fé. Há relatos de que Antíoco IV tenha sacrificado uma porca no altar do templo sagrado dos judeus, algo que os ofendeu profundamente. Esse mesmo soberano da dinastia selêucida procurou helenizar à força a cidade de Jerusalém, instalando contra a vontade dos judeus, uma estátua de Zeus; além disso, proibiu o culto judeu e a circuncisão. Foi o suficiente para um movimento de resistência.

                Aqueles que resistiram, entregando a própria vida, precisavam de um prêmio. Não era justo para com eles a morte e o confinamento frio e eterno do Sheol. Vermes cita o esclarecedor texto do Testamento de Judá, escrito nesse período: “aqueles que foram mortos em nome do Senhor despertarão para a vida” (25.4). Percebe-se, claramente, uma mudança de compreensão. Do silêncio do Sheol, alguém poderia ressurgir. Era uma mudança radical de compreensão.

                Nos dias de Jesus, a ressurreição era uma doutrina digna de certas disputas. Os fariseus, por exemplo, (partido surgido à época dos Macabeus, diga-se de passagem), acreditavam que haveria ressurreição. Já os saduceus, constitutivos da elite sacerdotal, não acreditavam nessa doutrina. Todavia, há algo importante de ser observado. Os fariseus eram o grupo mais proeminente e com maior capilaridade na sociedade judaica da época. Eles possuíam um amplo grupo de adeptos. As doutrinas defendidas pelos fariseus tinham uma maior penetração social. Os grupos moderadamente abastados eram fariseus, o que dava a eles uma maior densidade, uma maior penetração em vários estratos da sociedade. Eram criadores de consenso.

                Os evangelhos são escritos posteriores à vida de Jesus. Foram escritos por pessoas que tinham o objetivo de provar que Jesus era o Cristo, o Messias. Sendo assim, há um esquema presente em todos: Jesus nasce miraculosamente, vive miraculosamente, morre; e ressuscita miraculosamente. Como diz Vermes, quando se ler atentamente os evangelhos é possível perceber que os apóstolos não tinham ideia do que aconteceria. Ou seja, não contavam com a morte de Jesus. O próprio Jesus se esforça o tempo todo para narrar com plena ênfase a chegada do reino de deus. Muitos dos seguidores de Jesus e – talvez o próprio Jesus - entendessem que não veriam a morte. O reino de deus havia chegado. Um exemplo disso está na passagem em que Jesus diz que “muitos não provariam a morte até que vissem o reino de deus” (Lc 9.27); ou na esclarecedora passagem: “Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, respondeu-lhes: ‘A vinda do Reino de Deus não é observável. Não se poderia dizer: ‘Ei-lo aqui! Ei-lo ali!’, pois eis que o Reino de Deus está no meio de vós’” (Lc 17. 20-21). O “reino de deus” havia chegado; era uma realidade incontrastável. 

                Entre a sua chegada, o estabelecimento do reino de deus e o final dos tempos, havia o entendimento para o próprio Jesus, que não haveria morte. Tanto é assim, afirma Geza Vermes, que o ensinamento sobre a vida após a morte nos evangelhos é algo vago. A sentença que emula a doutrina evangélica é a chegada do reino de deus.

                Desse modo, a morte de Jesus foi um verdadeiro “balde de água fria” nas intenções dos seus seguidores. Aquilo os aturdiu profundamente. Ficaram confusos. Sem entender o evento. Alguns, talvez, até decepcionados. Afinal, Jesus havia feito a promessa de uma redenção, de uma transformação por meio da chegada de seu reino.  Os quatro evangelhos, de acordo com a redação encontrada na bíblia nos nossos dias, aparentemente, conservam uma narrativa coesa. Todavia, analisada em detalhes, deixam algumas pistas. Diz Vermes:

“O tema da ressurreição ganha importância através do tratamento de dois aspectos da vida de Jesus nos Evangelhos. Para servir às necessidades apologéticas da Igreja explicando a cruz e a subsequente ressuscitação do Messias, os evangelistas sentiram-se obrigados a inserir, nas suas narrativas da fase final da vide de Jesus predições reiteradas da sua morte e ressurreição iminentes. Essas profecias visavam, aparentemente, preparar seus companheiros mais próximos para a sua queda e exaltação imprevistas ao final de sua carreira. É óbvio que ao tentar relatar a ressurreição de Jesus os evangelistas enfrentaram uma laboriosa tarefa. Seus relatos exibem numerosas incoerências. Contudo, as sete ou oito décadas – entre 30 d.C. e 100-110 d.C., os anos que separam a morte de Jesus da conclusão do Evangelho de João – testemunharam uma certeza constantemente crescente na Igreja Primitiva quanto à ressurreição de Jesus e sua presença espiritual entre os seus seguidores”. (pp. 135,136)

                Sendo assim, a ressurreição é um tema que ganha relevância, pois a morte de Jesus quebrou o fluxo de expectativa dos seus seguidores. Os evangelhos procuram direcionar a narrativa, deixando a entender que aquilo estava no horizonte da pregação de Jesus. Todavia, as contradições internas atestam uma tentativa de inserção do tema. Há a busca de relacionar a morte de Jesus com predições do Antigo Testamento que se harmonizassem com a vida de Jesus. Um exemplo disso se encontra em Mateus 12.40. Nesta passagem Jesus faz supostamente uma analogia da sua morte com o fato do profeta Jonas ter ficado ‘três dias no ventre de um monstro marinho’. Do mesmo modo, ele ficaria três dias no ‘ventre da terra’, até ressurgir dos mortos.

                Como nos alega Vermes, essa afirmação possivelmente seja fruto de uma organização pessoal do escritor do Evangelho segundo Mateus. É a “laboriosa tarefa” de que fala o escritor. Diante do evento da morte de Jesus, foi necessário criar um enredo capaz de criar  esperança. A ressurreição não era o fim. Paulo, mais tarde, falaria que “Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram” (1 Co 15.20).

                Uma outra questão importante levantada por Vermes diz respeito a como cada evangelista narra o evento da ressurreição, o que atesta um desencontro de perspectivas. Ou seja, cada evangelista se muniu de material diverso. Isso gerou desencontros nos detalhes da suposta ressurreição.

 Mateus diz que Maria Madalena e a outra Maria foram ao túmulo, no primeiro dia da semana, e um anjo removeu a pedra e sentou-se sobre ela. O anjo possuía o brilho de um relâmpago. Os guardas tremeram de medo e ficaram como mortos. As mulheres são aconselhadas pelo anjo a contarem para os discípulos que Jesus havia ressuscitado e que iria para a Galileia. Jesus aparece para as mulheres e reitera o que havia sido anunciado pelo anjo. Os guardas são subornados pelas autoridades para não confessarem o que havia acontecido. Era preciso falar que os discípulos roubaram o corpo de Jesus enquanto os guardas dormiam. Na Galileia, Jesus se encontra com os onze discípulos. Anima-os e encoraja para que eles levem a mensagem ensinada até os confins do mundo. (Mt 28).

Em Marcos, diz-se que José de Arimatéia pediu o corpo de Jesus a Pôncio Pilatos (sic.). José tirou Cristo da cruz. Enrolou-o em um lençol e o pôs num túmulo que fora talhado na rocha. Em seguida, fechou a entrada do túmulo com uma pedra. Maria Madalena e Maria, mãe de Joset, observavam onde Ele (Jesus) fora posto. Tendo passado o sábado, elas voltaram para aplicar aromas ao corpo de Jesus. Afinal, os preparativos não foram feitos por causa do final da sexta-feira, quando foi morto, e o início do sábado. Elas especulavam entre si como removeriam a pedra.  Dessa vez, diferente de Mateus, havia pelo menos três mulheres – Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé. Em Mateus não consta, Salomé. Outro detalhe, de Mateus para Marcos é que, em Mateus, o anjo senta-se na pedra à entrada do túmulo; em Marcos, elas entram para o túmulo e encontram o anjo sentado. Nos manuscritos mais antigos, o capítulo 16 de Marcos termina abruptamente no versículo 8. Nota-se, quando se inicia o versículo 9, que o texto tenta retomar um assunto, mas há uma clara mudança no foco narrativo. É como se alguém tivesse pegado um texto inacabado e fizesse um fecho para delimitar o seu fim.

Nesse sentido, é preciso perceber que o enxerto insere outras aparições. A narrativa retilínea de Mateus é bem diferente do emaranhado de aparições de Marcos. Por exemplo, Mateus diz que ele reapareceu para os onze no alto de um morro. Em Marcos, Jesus se manifesta quando os discípulos estão á mesa. O texto chega ao seu cabo com a seguinte sentença: “Ora, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi arrebatado ao céu e sentou-se à direita de Deus” (Mc 16.18). E diz o texto que eles saíram dali decididos a pregar.

Em Lucas, há um detalhamento maior. Enquanto Marcos é frugal com o seu texto, o autor de Lucas procura ser meticuloso. Repete alguns eventos encontrados nos dois textos. Fala de José de Arimatéia. Descreve a intervenção dele junto a Pilatos. O depósito do corpo de Cristo em um túmulo.  As mulheres que ficam observando à distância onde o corpo havia sido colocado. Quando elas voltam, encontram o túmulo aberto. E, dessa vez, não é mais um único anjo: são dois com vestes fulgurantes. Outra diferença é o nome daquelas que vão ao túmulo: Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago. Novamente, não há referência a Salomé. Em compensação, surge alguém denominada de Joana. De acordo com Lucas, ainda havia outras mulheres. (Lc 24.10). Outro detalhe que exibe a contradição sobre o tema diz respeito ao modo como Jesus aparece para os onze. Após o episódio do caminho de Emaús, Jesus aparece para os onze, dessa vez, em Jerusalém. Em Mateus e Marcos, afirma-se que esse encontro se deu na Galiléia. (lC.24.33-36). Em Marcos, é dito que a ascensão de Jesus se deu forma abrupta, quando eles estavam comendo. Em Lucas, os discípulos vão com Jesus até Betânia. E nessa localidade, Jesus foi “elevado ao céu”.

                Em João, a figura de José de Arimatéia reaparece, acompanhado, dessa vez, por Nicodemos. Observa-se que os preparativos para o sepultamento acontecem ainda na sexta-feira. Segundo narra o autor de João, Jesus foi colocado em uma espécie de jardim, em um sepulcro novo. João insere outros elementos, o que sugere que houve uma tentativa por parte dos evangelistas de criar uma narrativa que correspondesse à nova situação que se estabelecera, a saber, a morte de Jesus. Diz João que Maria Madalena foi sozinha ao túmulo (sic). Tendo chegado lá e percebido que o túmulo estava aberto e vazio, voltou e foi avisar a Simão, ou seja, a Pedro, e, possivelmente, a João, o discípulo que Jesus amava. Os dois correram até o túmulo e comprovaram aquilo que havia sido dito por Maria.

                Maria fica – sozinha – chorando “junto ao sepulcro”, “de fora”. E aparecem dois anjos. Mas, junto com os anjos, Jesus também aparece para ela. Ela não o reconhece. Após tê-lo confundido com um jardineiro, ela o identifica. Ele pede para que ela vá contar a novidade aos discípulos. Estando todos trancafiados, ele aparece no meio deles. Apresenta-se e sopra sobre eles o espírito santo. Nesse ponto, há uma divergência para os escritos de Lucas – o evangelho e Atos dos Apóstolos -, pois nos dois textos eles são aconselhados a ficarem em Jerusalém até que do alto fossem revestidos de poder. Oito dias depois, estando os discípulos juntos, ele reaparece – aparentemente – para dar uma prova de vida a Tomé. João termina dizendo que Jesus fez inúmeros outros prodígios que não estão escritos no seu texto. Na parte final, há uma espécie de epílogo. Funciona como se fosse um evento deslocado do texto principal, mas que traz algumas informações curiosas. O fato que chama a atenção é a pescaria frustrada de alguns discípulos. Jesus faz um outro milagre: o milagre da pesca abundante. Pedro e os seus companheiros recolhem 153 peixes grandes. Diz João que essa foi a terceira vez que ele apareceu para os discípulos, depois que havia ressuscitado dos mortos. Há uma série de falas repletas de um mistério que se projeta de forma aleatória. E o texto de João termina dizendo que Jesus realizou tantas ações que, se elas fossem descritas, não caberiam nos livros do mundo.

                Em Atos dos apóstolos, o autor – supostamente Lucas – diz que Jesus ficou com os discípulos durante quarenta dias. Jesus diz, “no decurso de uma refeição”, que eles deveriam permanecer em Jerusalém. Nota-se que diferente de João, eles ainda receberiam o espírito santo. De repente, o texto afirma de maneira estranha que ele “foi elevado à vista deles, e uma nuvem o ocultou a seus olhos”. Todavia, a continuidade do texto nos faz crer que eles estavam “no monte chamado das Oliveiras”. Nota-se que aqui já é o terceiro lugar de onde se fala que Jesus estava ou ascendeu aos céus – Galiléia, Betânia e Monte das Oliveiras.  Essas evidências contrastantes atestam aquilo que Vermes afirma sobre a tarefa que os discípulos tiveram a fim de criar um “esquema” capaz de dar significado à ressurreição. Era preciso tornar crível a existência de Jesus como o Messias; que sua mensagem não fracassou com a morte. A ressurreição de Jesus se tornou um emblema poderoso. É a esperança daqueles que nele esperam.

                No final do livro de Vermes, há uma referência a uma expressão usada pelo teólogo alemão Rudolf Butmann. Segundo ele, “o túmulo vazio é uma lenda apologética”. Sim. Lenda, pois passou a fazer do imaginário e dos desejos extraordinários dos discípulos. E “apologética”, pois se transformou em uma sentença teológica fundamental para o cristianismo. Na verdade, é uma marca dessa religião. Não há como dissociar esse elemento da fé. Excelente livro! Enriqueceu a minha percepção sobre esse aspecto mitológico da fé cristã.  

segunda-feira, abril 05, 2021

A metáfora da ressurreição

 




“Em verdade, em verdade, vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto”. Jo 12.24

Ontem, a cristandade comemorou a Páscoa, que tem a sua origem no judaísmo. Para os judeus, a instituição da Páscoa está relacionada com a saída do Egito, conforme se narra no Antigo Testamento. Páscoa é a festa do Pesach, cujo significado é “passar adiante”. O rito alicerça-se em duas ações: comer pão ázimo e imolar o cordeiro. Quando da saída do povo de Israel do Egito, conforme descreve o livro de Êxodo, foi necessário derramar esse sangue sobre o umbral da porta para que a família fosse poupada pelo anjo exterminador.

No cristianismo, a Páscoa está ligada à ressurreição de Jesus. Para os cristãos, trata-se do dia em que Jesus abandonou o túmulo, após o terceiro dia da sua morte. Este é um fato que intriga. Não existem provas materiais desse evento. Apenas a Bíblia o descreve como sendo um fato histórico. Todavia, não há indícios antropológicos de que isso tenha se dado com o grau de facticidade narrado pelos evangelhos. A Bíblia não é um livro de ciências ou de história; e até mesmo os fatos históricos, estão eivados de erros e incertezas.

Segundo o escritor e estudioso do Novo Testamento Bart D. Ehrman, um dos grandes críticos dos dogmas cristãos, o que torna vida Jesus um fato singular para os seus primeiros seguidores foi a crença de que ele tenha ressuscitado. Sua mensagem em um primeiro momento não chamou atenção de muitos judeus. Afinal, havia inúmeros pregadores com mensagens apocalípticas. Todos eles denunciavam o descalabro moral de Israel, a dominação romana e uma possível chegada de um domínio divino a fim de libertar Israel do julgo e da humilhação. Segundo Ehrman diz em seu excelente livro “Como Jesus se tornou Deus”, sobre nenhum deles pode se afirmar que houve ressurreição. Essa crença singular dá a Jesus um atributo particular.

E aqui reside o problema, pois, os escritores da Bíblia – muitos deles viveram 50, 60, 70 anos após os supostos eventos narrados – e, assim, não testemunharam os fatos descritos. Houve um movimento, inicialmente, estruturado numa tradição oral sendo transmitida pelos primeiros seguidores de Cristo. Alguém pode dizer, mas Mateus e João foram discípulos. Não se sabe ao certo se os dois evangelhos foram escritos por essas pessoas. É possível que o Evangelho segundo Mateus tenha sido escrito entre os anos de 70 e 115 d.C. por um autor anônimo de origem judaica, que utilizou uma narrativa já existente. Já o Evangelho segundo João, também, foi escrito por autor anônimo, provavelmente numa data entre 90 e 110 d.C. Em seu estilo é o mais distinto dos evangelhos, constituindo um evento à parte. As frases estão carregadas de uma forte intencionalidade teológica. Os outros evangelhos se pautam nos exemplos, nas ações de Jesus. João, por sua vez, é fortemente verbal; chancelado por afirmações mistificadoras.

O que quero enunciar após essa digressão é que a ressurreição de Jesus é um registro da fé, mas não da história. Fé e história nem sempre estão conectadas. Eu posso ter fé sem, necessariamente, conectá-la a eventos materiais. Em muitas situações, quando a história não cabe ou não se harmoniza com as categorias da religião, aquela acaba sendo preterida e subjugada pela fé.

A ressurreição de Jesus – não falo Cristo, pois Cristo é uma categoria teológica – deve ser compreendida como um evento metafórico, mitológico. Desse suposto evento, deve-se estruturar esperança em melhores dias; a busca pela afirmação da vida; uma crença inabalável na existência. Todavia, isso não deve acontecer pelo fato de ter havido uma ressurreição física – esta não existiu – mas, na certeza simbólica de que algo com esses termos, faz brotar dentro de cada um de nós um apego pela vida. A ressurreição é uma aposta na esperança. Em dias tão turbulentos como os nossos, a metáfora da ressurreição nos anima a caminhar, a “passar adiante”. É uma posta de que a vida pode vender a morte – e isso nunca foi tão necessário no Brasil como agora.

segunda-feira, maio 13, 2019

Reflexões esparsas sobre a leitura de "Deus - uma história humana", de Reza Aslan I

Existe no ser humano um dispositivo de crença. Uma capacidade para se maravilhar com o mistério. Milhares e milhares de anos de evolução permitiram que o ser humano tomasse consciência de si e do outro. Permitiu-lhe acumular informações e ter noções sobre o passado, sobre o presente e sobre o futuro. Essa noção sobre eventos psicológicos e como esses se alteram ao longo do tempo, criou certas condições para que a noção do sagrado se efetivasse. É muito comum imaginarmos que a religião sempre existiu; que ela sempre esteve presente na história.

Dizem os estudiosos, que até 150 mil anos atrás, por exemplo, não havia indícios claros de enterros. Foi no Paleolítico, que os seres humanos começaram a enterrar os seus parentes. Essa prática indica como passou a existir essa necessidade por uma questão de respeito ao ente querido. Às vezes, em posição fetal voltado para o nascente; ou simplesmente, numa posição que definisse a crença.

A grande questão é que existem situações para as quais os seres humanos não possuem respostas. Essa “ignorância” promove inquietação e um premente desejo de resposta. O que acontecerá após a morte? Quem criou esse mundo imenso, suas leis e contradições? Qual o destino de todos após a morte? O mistério intriga. Induz o sujeito a determinadas reflexões e, acima de tudo, a uma resposta que seja totalizante; que seja capaz de satisfazer as inquietações mais febris. Isso ecoa na clássica frase de Ludwig Feuerbach: “apenas um ser que compreende em si o homem todo pode satisfazer o homem todo”. A consciência do sagrado suaviza as inquietações do homem em um universo em que as contradições existem por toda a parte. Deus é uma resposta conveniente para uma inquietação inconveniente.

O medo e a insegurança sobre o próprio destino força o sujeito à crença. Geralmente, ao se falar em nomes como deus, inferno ou diabo, o sujeito teme, persigna-se, pois, em sua alma, existe o temor inconsciente do próprio destino. Como tergiversar ou prevaricar sobre alguém que pode decidir o seu destino pela eternidade?

A religião surgiu inicialmente como “um esquema” capaz de responder por completo as inquietações do ser humano sobre ele mesmo e sua relação com o mundo e com a natureza. O animismo foi a primeira tentativa de explicar o mundo: o sol, os rios, a lua, as pedras, as árvores, a chuva etc passam a ser elementos que ganham poderes diante dos homens. Seria preciso realizar certos rituais para aplacar a vontade de certos elementos. Por exemplo, se em determinado momento houvesse uma seca ou o excesso de chuva, influenciando o destino e a vida dos homens, certamente, havia sobre isso uma percepção de desconfiança. Aquilo para a qual não existe uma resposta imediata, transforma-se em tabu, em evento sagrado.

Crê é uma decisão que o homem realiza todas as vezes que ele se vê diante de algo maior do que ele. A fé possui uma perspectiva de susto, de mistério, de entrega, de confissão dos desejos mais íntimos. Essa relação profunda é existencialmente capaz de promover uma transformação psicológica. A religião precisa de uma linguagem; a fé precisa de uma narrativa; de elementos que sejam capazes de subsumir numa totalidade. Dentro dessa narrativa cabem todas as coisas. A religião deu ao homem os primeiros mitos fundadores. Viver em mundo em que não fosse possível explicá-lo seria, para o homem, caótico e desagregador. A narrativa criadora organiza o caos. Cria muros contra os inimigos inquietos do irracionalismo. Ordena o universo; põe limites; espalha âncoras pelo oceano imenso das perguntas inquietantes, que deslocam o ser e o coloca “sobre a face do abismo”.

Na Bíblia, o livro judaico-cristão que busca organizar o caos e cria uma narrativa tida como sagrada no mundo ocidental, sugere que Paulo disse: “Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas”. (2 Co 5.17). Essa referência ao texto de Paulo serve para ilustrar o quanto a relação com o numinoso envolve uma profunda catarse psicológica. Se a religião é linguagem, deus é semântica. As narrativas institucionalizadas (e institucionalizadoras) e, portanto, hegemônicas, criam condições inquestionáveis. Sedimenta certas seguranças. A afirmação de Paulo sugere pelo menos quatro importantes questões: (1) “está em Cristo”, sugere está subsumido numa realidade encapsuladora. “Está em Cristo” é pertencer a uma estrutura que possui efeitos psicológicos, que possui um conjunto de regras, leis; em que há uma linguagem conexa, que absorve o sujeito. É um processo de entrega. (2) “é nova criação”, indica uma transformação da consciência de si, do outro e do mundo. Não significa que haja um ser transcendente, superior, sensível e que interfira na história. O homem é capaz de intervir na história, modificar a natureza e a si mesmo. (3) “As coisas antigas passaram” – o “antigas” aqui significa meramente que o próprio sujeito ao estabelecer contato com “a linguagem transformadora” instaura uma delimitação cronológico-existencial. É o desejo, associado ao dispositivo de crença e credibilidade que confere a mudança. Os marcos são sempre psicológicos e existenciais. (4) “...surgiram coisas novas” – ‘nova’ é a percepção do marco, do limite, da delimitação estabelecida pela vontade daquele que entrou em contato com a “narrativa transformadora”. Denomina-se de “novo” o referencial estabelecido pelo encontro. A transformação é induzida pela própria disposição mental daquele que diz ter experimentado uma experiência nova, transformadora.

Reinaldo José Lopes em “Deus – como ele nasceu”, afirma: “Por mais que as pessoas acreditem estar na presença de Deus numa igreja, numa sinagoga ou numa mesquita, qualquer sensação especial que venham a sentir em contextos religiosos não passa do resultado de mensageiros químicos e impulsos elétricos pulando de um neurônio para outro em algum canto da cabeça delas”.

(Continua...)

segunda-feira, fevereiro 11, 2019

Notas sobre “Zelota - a vida e a época de Jesus de Nazaré", de Reza Aslam. III


A leitura de “Zelota” tem permitido a realização de inúmeras reflexões pertinentes. O livro coleciona polêmicas, pois desafia a credulidade de muitas pessoas; abala a veracidade e aquilo que a teologia tradicional chama de “inerrância das escrituras”. Segundo essa doutrina, não há erros na Bíblia por ser toda ela inspirada por Deus. As partes obscuras, as sentenças pouco claras, podem ser explicadas pelo próprio texto. Como se pode questionar algo “sagrado”?

Lendo “Zelota”, do iraniano Reza Aslam, luzes lógicas foram lançadas sobre passagens que o leitor desatento e que desconhece a geografia, a história e o ambiente onde se passa a narrativa, ignora ou, simplesmente, não questiona.  Um exemplo: no evangelho de Lucas, os moradores de Nazaré, após terem escutado os comentários de Jesus, “se encheram de ira” “e o levaram até o cume do monte em que a cidade deles estava edificada, para dali o precipitarem” (Lc 4.28-29). De acordo com Aslam, não há montes, cumes ou precipitações elevadas em Nazaré, o que constitui um problema para a doutrina da inerrância. 

Reza Aslam dedica um dos capítulos do livro para falar de Paulo. É importante entender que, passados quase dois anos mil anos, a percepção que se adquire de uma crença consolidada é de não questionamento. Há igrejas; há fiéis que replicam a versão; há uma estrutura psicológica, uma cosmologia ajustada aos interesses daquele que crer. Se existe um grande número de fiéis e, e esses fiéis estão certos sobre aquilo que dizem acreditar, não sobra muito espaço para a dúvida. Outro aspecto é a distância histórica. A cultura do Oriente Médio, os costumes, o modo de produção, a organização era bastante diversa daquela que temos hoje. Havia um número grandioso de analfabetos. Estima-se que nos tempos bíblicos, apenas 3% da população era capaz de ler e produzir textos. A miséria era grassante. A vida estava estruturada na agricultura ou na criação de animais. Havia um pequeno número de afortunados; de servidores públicos e comerciantes.

Outro fato importante é saber quem escreveu os livros e em que ano essas narrativas, cartas ou profecias foram constituídas. Muito daquilo que se encontra coligido no cânon não possui fidelidade com o que é pregado e ensinado. Se alguém tivesse o poder de voltar no tempo ficaria assustado e, certamente, a forma como se processa a fé sofreria uma significativa mudança. 

Um dos personagens mais importantes e emblemáticos é o “autodenominado” apóstolo Paulo. Existem duas fontes a seu respeito – a narrativa de Lucas, em Atos dos apóstolos e aquelas escritas por Paulo - e outras atribuídas a ele. É possível que a escrita do livro de Atos tenha ocorrido uns trinta anos após a morte do apóstolo. Curiosamente, Lucas era um admirador do chamado 13° apóstolo e dedica mais de 70% do livro a ele.

Após a morte de Jesus como um criminoso comum, os seus seguidores experimentaram um dilema – o que deveriam fazer? Deram continuidade à pregação iniciada por Jesus. Um corpo de narrativas e eventos extraordinários começou a ser transmitido. Uma espécie de telefone sem fio foi passado. Os ensinamentos de Cristo estavam mesclados aos ensinamentos do Antigo Testamento. Isso fica evidente, por exemplo, no estranhamento inicial que a pregação de Paulo despertou nos discípulos que estavam em Jerusalém. Tiago, Pedro e João são denominados por Paulo como “colunas”. Em outra ocasião Paulo diz que discutiu com Pedro de forma acalorada.  Pedro não queria desconectar os ensinamentos do judaísmo, no caso a circuncisão, dos ensinamentos da fé cristã. Paulo é chamado a Jerusalém para se entrevistar com Tiago, conforme é explicitado em Atos 21. Logo em seguida, vai fazer uma purificação no templo a pedido de Tiago. Ora, por que ele precisou fazer essa purificação?

É curioso, pois Paulo funda uma nova fé. Não há descrições sobre a vida de Jesus em seus escritos. Enquanto os evangelhos são narrativas calcadas na história, os ensinamentos de Paulo celebram um Jesus cósmico. Com exceção de João, Paulo é o primeiro a denominar Jesus de “Cristo”. A palavra “Cristo” significa “o ungido”, “o Messias”, “o escolhido”, ou seja, percebe-se uma sentença teológica nessa afirmação. Paulo não se preocupa com a historicidade de Jesus. Sua grande preocupação é fundar uma cristologia sobre Jesus. As únicas duas referências a eventos históricos de acordo com a fórmula dos evangelhos e se encontram na carta escrita à igreja que fundara em Corinto. O apóstolo faz referência à eucaristia (santa ceia) e à ressurreição. Todavia, quando Paulo cita esses eventos, cria sentenças teológicas ou litúrgicas.

O fato de se autodenominar apóstolo é outro ponto curioso de sua trajetória. Paulo era um judeu com cidadania romana. Era um fariseu zeloso. Vinha dos estratos médios da cidade portuária, economicamente importante de Tarso. O partido dos fariseus era constituído pela “classe média” da época. Paulo sabia o grego. Por ser oriundo de um importante centro helenístico, certamente conhecia os movimentos filosóficos e religiosos do mundo grego-romano. 

Ele se distanciava da característica dos demais apóstolos. Os outros discípulos eram iletrados. Ele, por sua vez, possuía uma sólida educação. Para ser apóstolo era necessário ter caminhado com Jesus. Os doze apóstolos eram nessa quantidade por uma questão fundamental – dizia respeito ao número das tribos de Israel. Após a morte de Judas, os onze escolheram Matias. Assim, torna-se evidente que o número estava fechado. Paulo reivindica o apostolado. Muitos questionavam a sua autoridade. Ele não se fazia de rogado. Segundo ele próprio, Jesus surgiu para ele. A sua autoridade foi demandada pelo próprio Cristo. Quem o contestaria? Muitos o contestaram. Escrevendo aos cristãos que estavam em Corinto, ele diz: “Se eu não sou apóstolo para os outros, ao menos o sou para vós”. E diz ainda: “Os sinais do meu apostolado foram manifestados entre vós” (1 Co 9.2; 2 Co 12.12). 

Sendo um grande conhecedor da lei mosaica, dos rudimentos da tradição rabínica e de todo o corpo de doutrinas do judaísmo oficial, Paulo constrói uma sistematização, a partir da relativização daquilo que conhecia na religião judaica para fundar o que conhecemos hoje como fé cristã. O apóstolo universaliza a pessoa de Jesus, criando sentenças dogmáticas; uma teologia assentada em termos ricos em significação – justificação, redenção, graça, predestinação, novo Adão, velho Adão. O Jesus histórico é substituído pelo Jesus cósmico, que cumpriu a lei. O ritual mosaico, na compreensão de Paulo, deixou de ser necessário. O fim da lei é Cristo. A teologia fundada pelo heterodoxo apóstolo dos gentios possui uma forte demanda jurídica. 

O universalismo de Paulo estava de acordo com a compreensão do helenismo. Uma fé circunscrita a um povo pequeno, afastado, como dizia Cícero – “o povo do canto” – não teria impacto. Paulo é o fundador cristianismo. Seu ímpeto, sua energia; sua defesa intransigente de certos pressupostos torna o chamado “apóstolo dos gentios” em um dos maiores patrocinadores de ideia da história da humanidade.

Sem Paulo, a fé cristã teria sucumbido. Seria apenas mais uma seita judaica sem futuro. Jesus teria o seu destino alijado ao de Simão, filho de Kochba; ou Teudas; Judas, o Galileu; ou ainda de Simão de Giora, que foram caudilhos zelosos, capazes de realizar prodígios, mas que acabaram mortos pelos romanos. Como se pode observar, baseado no livro de Reza Aslam, o sucesso de uma ideia  depende da narrativa e do patrocínio que ela recebe. No que tange a isso, o humilde carpinteiro, camponês como os nazarenos, tornou-se uma potência espiritual capaz de julgar a história e salvar os homens.