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quarta-feira, março 01, 2023

30 anos de um regresso

 


Minha família migrou para a Capital Federal em 1989. Eu recém completara nove anos de idade. Foi um evento grandioso, capaz de sugerir mudanças e descobertas. Eu era um sujeito matuto – e de certa forma ainda sou. Essa palavra deriva do latim “matto” (‘floresta’, ‘arbusto’), acrescida do sufixo “–uto”, cujo significado exprime ‘aquilo que se liga a algo’. Verifica-se assim que matuto é aquele que veio da zona rural, do mato; ou aquilo que faz referência ao mato. No Brasil, essa palavra ganhou acepções para indicar, de forma depreciativa, aquele que é rústico, acanhado, tímido.

                No Nordeste, a palavra possui grande resplandecência. Ser chamado de matuto indica objetivamente aquele que possui dificuldades para, como diz o antropólogo Roberto DaMatta, realizar a “navegação social”.

                Ser criança na periferia do Distrito federal no início dos anos 90 foi algo curioso. Fiquei quatro anos sem voltar ao meu Pernambuco. Esperei três anos para realizar o épico caminho da volta. Dessa vez, eu, meu irmão e minha mãe íamos na condição de visitantes. Para um sujeito recém-entrado na adolescência como eu, aquilo possuía uma inebriante fragrância. Fomentava imagens, ficções; assinalava enredos.

                Recordo precisamente o dia que saímos. Possivelmente, tenha sido numa sexta-feira à noite. Era o costume. Dessa forma, chegava-se ao Recife no domingo pela manhã. Não consigo esquecer os efeitos daquela saga. A primeira noite forneceu-nos uma acomodação ignominiosa. O ônibus ziguezagueava em meio à estrada calamitosa. A BR-020 era um queijo suíço. Os solavancos recorriam com abreviada recorrência. A suspensão mole do ônibus fazia-me crer que estava em uma gangorra. Em dados momentos, o motorista direcionava o veículo para uma estrada clandestina que se formara paralela à rodovia. Era o resultado da peleja dos outros motoristas tentando fugir da estrada com aspectos lunares.

                Tudo me parecia grandioso: o mundo, as paisagens, as paradas que aconteciam em intervalos irregulares – 15 minutos, 20 minutos, 30 minutos. O motorista da vez verbalizava: “Esta é cidade tal. Pararemos aqui por 15 minutos”. Era o tempo que os assustados, atarantados passageiros teriam para ir ao banheiro; ou espicharem o corpo cansado pela refrega contínua da viagem. Ficava de olhos arregalados. O ônibus não possuía ar condicionado. Viajávamos com as janelas abertas. Recebíamos o bafo quente, mesclado pelas partículas do tempo.

                Minha mãe com duas criaturas que não foram iniciadas no traquejo social – eu e meu irmão -  fazia advertências. Espavorido, eu arregalava os olhos. Memorizava, como se estivesse verbalizando um credo forçado, os números de registro do ônibus. Movia-me com metódico cálculo. O medo de ficar para trás era um fantasma que revoluteava como uma sacola agitada pelo vento ao meu redor. Ficávamos com os olhos grudados no ônibus da Itapemirim. Íamos assim até o nosso destino final. Toda parada envidava uma operação com estratégias estudadas com esforço.

                Transposta a tumultuada primeira noite, os passageiros gestavam uma curiosa solidariedade.  Conversavam. Pareciam velhos amigos. Entravam em minudências. Segredavam os destinos para onde iam. Compartilhavam – em certos momentos – os tímidos repastos. Minha mãe se munira com biscoitos, maçãs e farofa para realizar a heroica travessia e saciar a fome de sua prole.

                Aquela viagem me ensinou a entender o movimento de volta, o regresso. Ao voltar, nota-se o efeito do tempo. O regresso permite a gestação de expectativas. Passa-se a compreender certas coisas. Olha-se com desvelo o corriqueiro. É a saudade que nos empurra para trás. E como diz Guimarães Rosa: “Toda saudade é uma espécie de velhice”. Mais tarde, eu compreendi que por estar voltando, eu era um Ulisses com a expectativa de reencontrar a minha Ítaca.  

quinta-feira, abril 14, 2022

"Sargento Getúlio", de João Ubaldo Ribeiro

 

                “Eu sou Getúlio Santos Bezerra e meu nome é um verso e meu avô era brabo e todo mundo na minha raça era brabo e minha mãe se chamava Justa e era braba e no sertão daqui não tem ninguém mais brabo do que eu, todas as coisas eu sou melhor”.

João Ubaldo Ribeiro, em “O Sargento Getúlio”

 

                O livro “O Sargento Getúlio” é uma obra moderna, escrita no ano de 1971, pelo baiano com espírito sergipano, João Ubaldo Ribeiro. O livro foi reconhecido imediatamente como uma obra de fôlego, recebendo encômios de grandes autoridades literárias como, por exemplo, Jorge Amado. Morto em 2014, João Ubaldo Ribeiro é uma das grandes figuras literárias da literatura brasileira contemporânea. Ao longo de sua trajetória, atuou em diversas áreas – foi advogado, jornalista, professor. Em 2008, ganhou o Prêmio Camões, o maior para um escritor em língua portuguesa.

                Ubaldo era um escritor que procurava fugir dos rituais. Era possível encontrá-lo na Ilha de Itaparica, na Bahia. Caminhava pela rua despretensiosamente. Conversar com ele era sempre um evento prazeroso. Assistindo à entrevista ao Roda Viva, gravada em 2012, é possível perceber o despojamento de sua linguagem e as idiossincrasias que o tornaram uma pessoa sempre de conversa agradável.   

                Ubaldo era uma figura, no mínimo, engraçada. Dono de uma voz grave, de um sotaque delicioso, ouvir João Ubaldo falando sobre qualquer tema gerava uma enorme satisfação.  Sua fala estava repleta por uma baianidade graciosa. Tenho buscado assistir aos vídeos disponíveis no Youtube que trazem palestras, entrevistas etc.

                “Sargento Getúlio” é um livro curto, aparentemente sucinto, que não impressiona em um primeiro olhar. Todavia, trata-se de um livro com enormes sutilezas e de leitura difícil. A dificuldade se expressa pelo fluxo de consciência de como a história é contada. Outro aspecto de bastante importância no livro são alguns termos regionalistas empregados pela personagem principal do romance. Alguns desses termos são de criação do próprio João Ubaldo.  Dessa forma, a leitura do pequeno livro não se torna fácil. Somos acertados por certo estranhamento no início. Mas, à medida que a leitura toma fôlego, realizamos um movimento para dentro da cabeça do personagem. Assimilamos os seus trejeitos; os aspectos mais cruentos e primitivos de sua personalidade agreste. Ele é um Paulo Honório acentuado pelo rigor moral.

                O romance é grandioso. Repleto de significados. Do ponto de vista do regionalismo, aproxima-se da linguagem de Guimarães Rosa. Do ponto de vista do enredo, aproxima-se do realismo mágico praticado por grandes escritores latino-americanos. 

                O livro inicia com uma epígrafe estranha – “Essa é uma história de aretê”. De início julguei, que fosse um termo indígena. Mais tarde, descobri que “aretê” é uma palavra grega, que designa a “excelência”, qualidade daquilo que se liga à honra. Liga-se essencialmente “a “virtude moral”, de cumprimento de um objetivo, de um propósito ou da função a que o indivíduo se destina. A epígrafe não poderia ter sido melhor escolhida, pois é ela que vai nortear todos os eventos da vida da personagem Getúlio.

                O enredo da história é bastante simples. Getúlio deve conduzir um prisioneiro de Paulo Afonso, na Bahia, a Aracaju, capital do estado de Sergipe. Ele vai acompanhada por um chofer, que dirige um Hudson, carro produzido na década de 1950, pela Hudson Motor Car Company, uma empresa automobilística estadunidense. Ao longo dessa jornada do interior para o litoral, a personagem se faz conhecer. Notamos o seu rígido código moral. Getúlio é um homem primitivo. Ele é um símbolo de um tipo de Brasil violento, desumano, afeito apenas a uma forma de existir; Getúlio é cruel. Ostenta a quantidade de pessoas que matou. Arranca alguns dos dentes do prisioneiro com um alicate. Não chama o prisioneiro pelo nome. Emprega nomes que buscam desumanizá-lo – “traste”, “coisa”, “peste”, além de outros termos.

                Um outro aspecto que deve ser pensado é a relação com “Os Sertões” de Euclides da Cunha. Na obra que descreve o conflito ocorrido, na Bahia, no final do século XIX, nota-se que o Brasil do litoral entranha o Brasil profundo do interior. No caso em questão, o Estado brasileiro leva a morte, a violência, aquilo que se convencionava chamar de modernidade para o interior do país, aniquilando os rudes sertanejos do interior. Já em “Sargento Getúlio”, a personagem leva a violência do interior para o litoral. Getúlio não se desvencilha da missão. Ele é a força indômita e bravia que revela o lado mais hostil de um país atrasado e que encontra na violência sua única linguagem e força de expressão, mesmo diante da ordem de não mais levar o prisioneiro a Aracaju.

                O romance é considerado o maior do ponto de vista da densidade entre aqueles escritos por Ubaldo. Há ressonâncias variadas que vão do campo estético, histórico e político. O autor não inova, não é criador de nada. De certa forma, tudo o que há de mais sensacional no romance, já estava disseminado na literatura brasileira. A paisagem romanesca é pintada por cores encontradas em uma Clarice, em um Graciliano ou em um Guimarães Rosa. Todavia, há uma urdidura com a fórmula que cria uma força impressionável no texto de Ubaldo.

               

 

domingo, novembro 03, 2013

Mario Vargas-Llosa, um cidadão cosmopolita

Final de semana apenas de trabalho. Corrigindo provas. Elaborando testes para serem realizados nesta próxima semana que se inicia. Sem tempo para ler; para escrever. Apenas operando cálculos e sentenças que aturdem. Desemaranhando sentenças textuais. Acordando muito cedo. Dormindo muito tarde. O cansaço como companheiro infatigável. O mau humor como ferramenta de execução. Penso que esteja estressado. O que me salva é a música, que vou ouvindo para me des-alienar, para me desaturdir. Ai se não fosse ela, evocando Nietzsche e Schubert!!

Mas o fato de comparecer por aqui numa noite de domingo(sic.) é para falar sobre a entrevista que o escritor peruano Mario Vargas-Llosa realizou em maio último ao programa Roda Viva. Já tive a oportunidade de vê-la por duas vezes. E essa experiência me deixou impressionado. Separei duas vertentes do homem Vargas-Llosa após assistir à entrevista: 

(1) o político de posição liberal, crente na democracia como ela se apresenta. Nesse sentido, fiquei desconfiado dele. Não se trata de rechaçar completamente a sua posição; ou excluir completamente as suas ideias. Percebi a sua ojeriza a Hugo Chavez (e a Maduro, sucessor do líder bolivariano) e a Fidel Castro. A crítica aos regimes socialistas. Mas apesar de sua postura clara e honesta quanto a essas questões, o que me deixou impressionado foi a sua transparência, a capacidade de não esconder o seu pensamento político. Outro elemento importante no que diz respeito a isso, é o seu profundo conhecimento da América Latina. Quando menciona algo sobre o continente, fala na perspectiva da irmandade e do conjunto. Enxerga o continente latino-americano como um território que possui muitos elementos em comum.

(2) e o homem da literatura e é justamente esse homem que me fascinou. Apesar de possuir alguns livros dele: Batismo de Fogo, Pantaleão e as visitadoras, Os cadernos de Dom Rigoberto, Peixe na Água - memórias e A Guerra do fim do mundo. Este último é uma das minhas pretensões a futura leitura. O fato é que no próximo mês entrarei de férias e há uma programação com muitos livros a serem lidos: As viagens de Gulliver, umas três ou quatro biografias (Marx, Malcom X, Eric Hobsbawn, Rosa Luxemburgo, Gramsci etc) e muitos outros romances com o mesmo fim - espero que assim seja. Incluí nesta lista, comprei lá na Estante Virtual, Conversa na Catedral. Para muitos, esse é o maior romance escrito pelo peruano ganhador do Prêmio Nobel, em 2010.  Cada frase enunciada por Vargas-Llosa me encheu de admiração e prazer. É gostoso ouvi-lo falar. Suas enunciações revelam um amor profundo pela literatura.

Outra questão importante é o seu amor e conhecimento dos escritores latino-americanos. Falou de Cortázar, Garcia Marques, Neruda - são os que eu consigo lembrar. Cito de cabeça uma das suas frases sobre Borges: "Se existe um escritor latino-americano que, com certeza continuará a ser lido daqui a trezentos anos, este é Jorge Luis Borges". Vale mencionar ainda a sua paixão por escritores brasileiros. Citou pelo menos dois: Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, a quem teve a oportunidade de conhecer. Vargas-Llosa é dono de uma bonomia incrível. É um cosmopolita a serviço do bom senso e da literatura. Mesmo quando não concordamos com ele, baixamos a cabeça em sinal de respeito às suas afirmações claras, polidas, envoltas no mais puro requinte literário. 

Intenções de leitura a fim de conhecer um pouco mais sobre Mario Vargas-Llosa: A guerra do fim do mundo e Conversa na catedral. Oxalá venha a dar certo!

sábado, agosto 03, 2013

Brasil, um país que precisa ser amado por todos nós

O Brasil é um país múltiplo - de cultura, de identidade e de sentidos próprios. Darcy Ribeiro em seu fabuloso livro O Povo Brasileiro, que deveria ser de leitura obrigatória em toda escola do nosso país, sabendo dessa complexidade, dividiu a obra em "brasis": "o Brasil Caipira", "o Brasil Crioulo", "o Brasil Caboclo" etc. Claro, deve ser levando em conta que o livro analisa, também, a gestação histórica do Brasil e o processo de formação sociocultural da terra brasileira antes de se deter nessas especificidades.

Mas, o nosso país é identitariamente variado. Sua história é trágica. Dolorosa. De opressão. Exploração. Espertezas prevaleceram. Em suma: seu processo de formação se deu por meio de reveses. Quando escuto determinadas afirmações que são resultado de nossa "síndrome de vira-latas" (a capacidade que temos de não nos levarmos a sério), entendo o quanto fomos vitimados pela violência colonizadora de Portugal. Quando viajo pelo Brasil vejo o quanto o país é lindo e negligenciado, entendo o quanto precisamos mudar nossa consciência sobre nós mesmos. Um exemplo disso foi a viagem que fiz no início do mês passado à Santa Catarina. Lá tive a oportunidade de visitar a cidade de Pomerode, de matriz alemã. As casas, a culinária, as vestimentas, a cor dos olhos, dos cabelos, as marcas linguísticas são bem singulares. Uma semana depois, após ter voltado de Santa Catarina, fui ao interior do Goiás e ouvi uma pergunta feita a mim por um adolescente.

Eu estava sobre a mesa assistindo a documentário na casa da avó da minha esposa em meu computador. O rapaz, que é morador de uma sítio próximo à cidade de Pontalina, perguntou-me: "Seu Windows é 8?". Eu disse: "Não! É 7" Mas a pergunta do jovem saiu com uma musicalidade muita peculiar, muito própria. O "r" retroflexo criou uma canção agradável. Naquela fala estava a ontologia da minha terra. Aquilo era um pedaço da história, aquilo era um pedaço do meu país. Ou seja, uma semana antes eu ouvira a fala marcadamente singular dos sulistas. E uma semana depois eu ouvi um jovem goiano falando "um português" completamente diferente daquele que eu ouvira. Dei uma boa gargalhada interna. Não de mofa do rapaz. A risada estava cheia de felicidade. Pensei comigo: "Esse é o meu país!"

Essas variações ocorrerão, por exemplo, se eu for para o Nordeste ou para a região Norte; ou para o interior de Minas Gerais ou do Mato Grosso. Muitos bons escritores brasileiros entenderam isso. Guimarães Rosa com sua prosa de marca essencialmente popular, universalizou determinado sentido de nossa cultura. A ideia de que "o sertão está em toda parte, o sertão está dentro da gente". Na semana que se passou estive em Pirenopólis, município goiano situado a 150 quilômetros de Brasília, e fiquei impressionado com a cidade. Fiquei refletindo como somos tão propensos a cultuarmos tudo aquilo que diga respeito ao que é dos outros - novamente a síndrome de vira-latas. Nós brasileiros não aprendemos a valorizar o nosso país. Não damos importância às nossas belezas naturais; à nossa música que é riquíssima; à nossa literatura popular; à nossa religiosidade, marca tão característica de nossa identidade; à nossa história que é tão marcante. Quando vamos fazer comparações sempre as fazemos com os países desenvolvidos do Norte. Todavia, esses países tiveram processos de formação completamente diferentes. Em sua maioria, foram países que colonizaram outros países e extraíram a riqueza de outras nações, sejam elas latino-americanas, africanas ou asiáticas. O imperialismo opressivo europeu e americano criou o atual sistema de coisas. Essas comparações estão fundadas em falácias, posto que nossa história é outra. Nunca dominamos ou oprimimos nenhuma outra nação como se deu historicamente com os países europeus ou com os Estados Unidos. Em nossas escolas a história sempre contada na perspectiva do dominador.Nunca chamaram os índios, por exemplo, para contar a sua história.

Um exemplo disso é a cultura nordestina e aquilo que nos acostumamos a chamar de cultura sertaneja. Quando falamos em Nordeste, já existe em nossa mente uma percepção da miséria e do atraso. O homem nordestino é resultado de uma complexa miscelânea cultural. Vive em um dos espaços mais hostis do território brasileiro. O tom agreste da paisagem, as dificuldades naturais, ligada a um forte instilamento sincretista moldaram o homem nordestino. É possível encontrar no Nordeste elementos medievais em meio da cultura popular. O cordel é um desses casos; a visão religiosa e que se amalgama com as mais variadas crenças, produziu um sujeito amedrontado. O medo é forjado em sociedades nas quais existe um imaginário carregado do senso da morte. Jean Delumeau em "História do Medo no Ocidente", vai dizer que a insegurança acerca da vida leva ao medo. Ou seja, o medo é resultado de uma ambiguidade. Enquanto os homens acham que são fortes, o medo torna-se um elemento desconhecido. O contrário não é possível. É, por isso, que em momentos de guerra ou de grandes catástrofes, o medo se torna palpável em sua ação.

Assim, o que existe em mim é um desejo enorme de conhecer o Brasil em sua inteireza. De ouvir os sons da nossa fauna e as belezas coloridas da nossa flora; a voz que emana dos subúrbios e dos interiores. A cultura produzida pelo homem simples. As construções importantes que resgatam a nossa história. As palavras que surgiram de situações particulares e que revelam em seu sentido mais primitivo o processo de dominação a que fomos submetidos. Amo as paisagens do Brasil. Gosto de viajar de ônibus para poder observar nossas florestas, nossas campinas; nossos rios, nossas chapadas; as flores das nossas matas. O "jeito" alegre e festeiro do povo brasileiro. 

Afinal tudo aquilo que gosto está no trecho daquela música "Estrada de Canindé", de Luiz Gonzaga, que pode ser lida abaixo: 

(...) "Artomove lá nem sabe se é home ou se é muié
Quem é rico anda em burrico
Quem é pobre anda a pé
Mas o pobre vê nas estrada
O orvaio beijando as flô
Vê de perto o galo campina
Que quando canta muda de cor
Vai moiando os pés no riacho
Que água fresca, nosso Senhor
Vai oiando coisa a grané
Coisas qui, pra mode vê
O cristão tem que andá a pé""

quarta-feira, dezembro 26, 2012

Devaneios ou como se aplica um golpe na consciência II

Na noite de Natal, do dia 24 para 25, como de praxe, eu e a minha esposa fomos a uma reunião de família. Como acontece todos os anos, muitas músicas cristãs alimentam o momento com uma aura rala de felicidade e paz. Logo após as músicas, foi feita uma pregação por um dos pastores da família. Foi lido o texto do evangelho segundo São Lucas: 

"A uma virgem desposada com um homem, cujo nome era José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria. E, entrando o anjo aonde ela estava, disse: Salve, agraciada; o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres. E, vendo-o ela, turbou-se muito com aquelas palavras, e considerava que saudação seria esta. Disse-lhe, então, o anjo: Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus. E eis que em teu ventre conceberás e darás à luz um filho, e por-lhe-ás o nome de Jesus. Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; E reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim". (Lucas 1:27-33).

Uma explicação bastante emotiva se consumou após a leitura do excerto. O discurso se fiou pelos caminhos da missão de Jesus. E qual a Sua missão? A resposta surgiu fáicl: livrar o homem do pecado. E o que é o pecado? Tudo aquilo que separa o homem de Cristo. Não deixei de observar que o sermão estava cheio de termos teológicos: queda, pecado original, justificação, redenção, predestinação, graça etc. 

O que é curioso nesse sentido é que Jesus não pronunciou nenhuma dessas palavras. Todas fazem parte da plêiade do universo paulino. O sermão ficou repleto de um discurso afetado pelo "mau humor" do apóstolo. Diferente daquilo que se vê nos evangelhos, linguagem grávida de bondade, de expectativa pelo reino de deus, tornou-se numa sentença condenatória - a típica verve de Paulo

Enquanto ouvia o sermão, fiquei pensando que acontecera a leitura do evangelho, mas o discurso proferido se conciliava com a força agressiva, bárbara e ressentida do corolário de Paulo.

Não é preciso ser um estudioso profundo para perceber a diferença nítida que existe entre os quatro evangelhos - narrativas sobre a vida de Jesus - e as cartas paulinas. Não é necessário fazer um estudo das fontes, das lacunas, do "documento Q"; estudar teologia, filologia, teoria do discurso, hermenêutica, para perceber que existe uma inflexão estilística nos textos paulinos. É como se dobrassêmos a esquina. A teologia de Paulo é uma esquina. Um leitor experiente e acostumado às nuances estilísticas de um bom texto literário, consegue perceber o antogonismo que se perpetra no Novo Testamento a partir da carta aos romanos. 

Por exemplo, um leitor treinado conseguirá perceber o estilo de Machado de Assis, de Graciliano Ramos ou Guimarães Rosa com muita facilidade. Se lhe vendassem os olhos e lessem os textos de um dos três autores, perceber-se-ia de maneira clara as diferenças - o desenvolvimento de ideias, a muicalidade, a jogo linguístico, as perorações, a fluência verbal etc. Ou seja, cada autor possui elementos idiossincráticos. Peculiares. Com o texto paulino não é diferente.

Dos 27 livros do Novo Testamento, a tradição ("a lenda dos santos", no dizer de Nietzsche) da igreja atribui 13 a Paulo. Existe ainda uma controvérsia em torno da Carta aos Hebreus. Para muitos, esse documento também teria sido escrito por Paulo. Todavia, não é algo assegurado e sustentado por muitos téologos conservadores.

O certo é que mesmo sem a carta aos Hebreus, o efeito do pensamento de Paulo se faz sentir no Novo Testamento  - e, consequentemente, na história do cristianismo. Sem o chamado "apóstolo dos gentios", a configuração do cristianismo não seria a mesma que temos hoje.

Somente um homem como ele, com uma personalidade que conjugava o bairrismo de um rabino e a força, a energia de um soldado romano, poderia ter tido a a criatividade para elaborar um conjunto de pensamento tão atraente e tão bem articulado como o pensamento paulino. Paulo tira o foco dos demais díscipulos em projeta-se como centro do discurso. Vislumbra-se aqui a necessidade de auto-afirmação. 

Mesmo dentro do judaísmo Paulo não era alguém benquisto. Ele mesmo afirma em uma das suas cartas (Galátas) que ficou quatorze anos se preparando para a missão que empreendeu. E daí nos surge um questionamento: não teria sido esse o momento em que Paulo sistematizou o seu pensamento? É possível que tenha ouvido os relatos dos evangelhos; tenha feito consulta a possíveis testetmunhas e tenha coligido o arcabouço daquilo que é a sua teologia. 

Paulo transformou a morte de Cristo num discurso triunfalista. Aqui é importante dizer que os evangelhos também não são narrativas fidedignas da vida de Cristo. Há muito de triunfalismo e a forja de eventos miraculos com a finalidade de transformar a existência de Jesus em algo miraculoso. Assim, no meio da narrativa evangélica é necessário encontrar as verdadeiras palavaras e ensinamentos de Cristo - um mestre por excelência. Os evangelhos não são relatos neutros e objetivos, o que lhes deformam a intenção. Foram escritos pela comunidade de crentes, logo, são viciados e parciais. Mas, nada impede que lá dentro encontremos "algumas" palavras de Jesus. 

terça-feira, maio 01, 2012

Graciliano Ramos e o "valor enorme das palavras"



Graciliano Ramos é um mundo vasto, mas medido pelas palavras. Da afirmação encontrada em Infância, autobiografia mesclada com elementos fictícios, de que o autor percebeu "o valor enorme das palavras", resta uma explicação para a sua obra tão ajustada, tão arrojada, como aquelas prensas utilizadas pelos nordestinos para tirar o veneno da mandioca e preparar farinha. Graça, como era conhecido pelos mais íntimos, coseu cada vócabulo como estivesse produzindo um tecido raro, medido, para o baile perfeito da literatura. Cada palavra é um tijolo de sustenção, capaz de estruturar magicamente cada um dos seus livros. Se uma palavra for extraída dessa grande estrutura, todo o restante vem abaixo. Nada se torna prescindível. Tudo está lá, posto. A argamassa de Graciliano é a literatura.

Descobri Graciliano Ramos quando estava no final do ensino médio. Ainda lembro do primeiro livro que li: São Bernardo, para mim, a sua obra mais visceral. A introspecção-reflexão de Paulo Honório no último capítulo, não perde para nenhum autor de qualquer lugar do mundo. Aquilo é de fazer chorar. Logo em seguida veio Vidas Secas, o popular tornado em elegante e erudito; e, Memórias do Cárcere, livro que me abriu olhos, deixou-me com uma impressão de que precisava daquele mundo. Em Memórias do Cárcere, percebi o peso de cada uma das palavras. Se em Vidas Secas e São Bernardo houve a preocupação com o sentido da leveza de cada uma das palavras que, juntas, constroem o peso de uma literatura capaz de aturdir, em Memórias do Cárcere a crueza e o ceticismo-realista úmido de cada palavra, lança-nos num mundo de injustiças, caos e na bárbarie dos bichos acossados pela insânia do governo getulista. Em logo em seguida, ainda no ensino médio, li Angústia. O romance me fisgou por completo. O retrato do mofino Luis da Silva dá a Graciliano, o epíteto de "dostoiévski do sertão". Crime e Castigo à brasileira.

A despeito de não ter lido apenas Viagem, conheço o restante das obras do escritor alagoano. Graciliano é uma paixão. Na minha humilde concepção, um dos maiores escritores do século XX aqui no Brasil. Citaria ainda Clarice Lispector e Guimarães Rosa para formular a tríade perfeita da literatura brasileira. O homem do sertão e de alma com impressões agrestes; de fala parca; de gestos sóbrios. Ateu. Indiferente à música. Fumante inveterado marcou a literatura. O filho biógrafo Ricardo Ramos uso o termo "rompante" para descrever esse fenômeno. Ou "diapsão alagoano". O filho privilegiado, que conviveu com o escritor durante pouco mais de vinte anos, afirma que viu o pai chorar apenas em dois episódios: (1) quando do suicídio do filho Márcio; e (2) e a outra foi na ocasião da morte de Stálin, no ano de 1953. 

Este ano, o mundo comemora 120 anos dos nascimento de Graciliano Ramos. Um dos escritores brasileiros mais respeitados do mundo.

Depois comentarei o livro Graciliano - Retrato Fragmentado, de Ricardo Ramos, que chegou à sua nova edição.

quarta-feira, abril 25, 2012

Graciliano Ramos, a literatura feita com cipó

Após ter lido as memórias biográficas de Ricardo Ramos ("Graciliano - Retrato Fragmentado", Editora Globo) sobre o pai Graciliano Ramos, bateu-me um senso de proximidade com o escritor alagoano, o maior escritor brasileiro do século XX, junto com Guimarães Rosa. Estou cogitando há alguns dias escrever alguma coisa sobre o autor de Vidas Secas. Mas enquanto início a redação dessas parcas palavras, minha mulher me chama para um compromisso social-familiar. Lamento. Embora tenha que sair, fica-me a certeza de que em Graciliano Ramos, no meio do caminho tinha uma estilo pedra, estilo cipó, estilo sertão.