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domingo, janeiro 28, 2018

"Quem escreveu a Bíblia?", de Bart D. Erhman

A Bíblia é considerada por bilhões de pessoas em todo o mundo como um livro sagrado, de autoridade inquestionável. Ela é a expressão exata daquilo que Deus falou. É a verbalização, a materialização de sua voz. O inequívoco sopro de Sua boca, tornado em evento por meio dos profetas, evangelistas e outros sujeitos anônimos que, ao longo de mais de mil e quinhentos anos, foram responsáveis por essa construção. 

Analisando por essa perspectiva meramente de fé, os cristãos dizem que não há um equívoco sequer em seu texto. Está de acordo com a vontade da soberana de vontade do Criador. A própria Bíblia utiliza uma metalinguagem para justificar a sua autoridade. Na segunda carta, supostamente escrita por Pedro, encontramos uma afirmação categórica: "E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações. Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo". (2 Pedro 1:19-21).

Quem lê a Bíblia em nossos dias, não relaciona o fato de que sua escrita seja o resultado de disputas. Essa tese está no livro do professor Bart D. Erhman  "Quem escreveu a Bíblia?", que acabei de ler. Ehrman, um renomado estudioso do Novo Testamento, mostra que boa parte da redação atribuída a determinados autores não se sustenta. Ou seja, a menção a esses autores está equivocada. 

Tomemos como exemplo as duas epístolas de Pedro. Sempre percebi nas leituras que já fiz das duas cartas que havia elementos distintos da personalidade do apóstolo daqueles encontrados nos evangelhos. Pedro era um indivíduo bronco, dado a rompentes; de personalidade forte, impulsivo. Em um dos episódios narrados nos evangelhos, Pedro corta a orelha de Malco, um dos soldados romanos que vieram prender Jesus. Ainda segundo os evangelistas é ele que quer que desça um raio do céu para fulminar aqueles que não creram em Cristo. Todavia, quando lemos as duas epístolas, notamos um Pedro diferente  - articulado, conhecedor dos textos Antigo Testamento; conselheiro, de sabedoria  proverbialmente paulina. 

Possivelmente, Pedro fosse um analfabeto. Segundo o próprio Erhman, apenas 3% das pessoas nos tempos de Jesus sabiam ler ou escrever. A grande massa de pessoas viviam numa profunda ignorância. É estranho que, de repente, Pedro se levante como uma autoridade intelectual. Outro elemento destoante é a qualidade do grego utilizado para escrever a carta, que é de boa qualidade. Pedro, certamente, não sabia grego. Sua língua era o aramaico, como um palestino humilde que era; habitante do norte de Israel. 

Utilizo a epístola de Pedro como exemplo citado por Erhman, mas, nos supostos textos de Paulo, também encontramos atribuições indevidas. A tradição entende que quase metade dos textos do Novo Testamento foi escrito por Paulo. Esse fato não se sustenta para Erhman. Para ele, não são paulinas as cartas de: I e II Timóteo, Tito (chamadas de cartas pastorais); Efésios, II Tessalonicenses e Hebreus. 

Durante os primórdios da Igreja, não havia um cânon (o conjunto de livros ditos "sagrados" como convencionamos hoje). Havia uma tradição oral. As pessoas que haviam convivido com Jesus transmitiam as narrativas. Aos poucos essas histórias começaram a ser coligidas, reunidas. O primeiro evangelho a surgir foi o de Marcos. Logo em seguida vieram Mateus e Lucas. O Evangelho de João foi último. A grande questão é saber quem de fato eram essas pessoas. Os nomes foram atribuídos. Não significam que pessoas com esses nomes e personalidades escreveram esses textos. Há dezenas de outros evangelhos escritos, mas, por que somente esses foram considerados sagrados? Existem livros atribuídos a Pilatos, a Nicodemos, a Maria Madalena, a Tomé, a Pedro etc; há livros de sujeitos que viveram próximos aos apóstolos como Clemente. 

Ao longo dos séculos, foram os concílios os responsáveis por fixar o que cabia e o que não cabia no chamado cânon. É possível que muita coisa que "não era" passou a ser considerado como sagrado; e muita coisa que "era", que também deixou de ser. O fato, é que "o uso" e a repetição de determinado entendimento cria a consolidação daquilo que é sagrado assim como conhecemos. Hoje, por uma questão que se tornou inquestionável, colocar em dúvida esses textos é cometer um crime mortal.  

Não se trata de uma implicação com a Bíblia. Erhman é um debatedor honesto. Sua função não é atacar a Bíblia, destratar a fé alheia. Suas argumentações são acadêmicas e honestas.  Vale a leitura!

quarta-feira, dezembro 26, 2012

Devaneios ou como se aplica um golpe na consciência II

Na noite de Natal, do dia 24 para 25, como de praxe, eu e a minha esposa fomos a uma reunião de família. Como acontece todos os anos, muitas músicas cristãs alimentam o momento com uma aura rala de felicidade e paz. Logo após as músicas, foi feita uma pregação por um dos pastores da família. Foi lido o texto do evangelho segundo São Lucas: 

"A uma virgem desposada com um homem, cujo nome era José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria. E, entrando o anjo aonde ela estava, disse: Salve, agraciada; o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres. E, vendo-o ela, turbou-se muito com aquelas palavras, e considerava que saudação seria esta. Disse-lhe, então, o anjo: Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus. E eis que em teu ventre conceberás e darás à luz um filho, e por-lhe-ás o nome de Jesus. Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; E reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim". (Lucas 1:27-33).

Uma explicação bastante emotiva se consumou após a leitura do excerto. O discurso se fiou pelos caminhos da missão de Jesus. E qual a Sua missão? A resposta surgiu fáicl: livrar o homem do pecado. E o que é o pecado? Tudo aquilo que separa o homem de Cristo. Não deixei de observar que o sermão estava cheio de termos teológicos: queda, pecado original, justificação, redenção, predestinação, graça etc. 

O que é curioso nesse sentido é que Jesus não pronunciou nenhuma dessas palavras. Todas fazem parte da plêiade do universo paulino. O sermão ficou repleto de um discurso afetado pelo "mau humor" do apóstolo. Diferente daquilo que se vê nos evangelhos, linguagem grávida de bondade, de expectativa pelo reino de deus, tornou-se numa sentença condenatória - a típica verve de Paulo

Enquanto ouvia o sermão, fiquei pensando que acontecera a leitura do evangelho, mas o discurso proferido se conciliava com a força agressiva, bárbara e ressentida do corolário de Paulo.

Não é preciso ser um estudioso profundo para perceber a diferença nítida que existe entre os quatro evangelhos - narrativas sobre a vida de Jesus - e as cartas paulinas. Não é necessário fazer um estudo das fontes, das lacunas, do "documento Q"; estudar teologia, filologia, teoria do discurso, hermenêutica, para perceber que existe uma inflexão estilística nos textos paulinos. É como se dobrassêmos a esquina. A teologia de Paulo é uma esquina. Um leitor experiente e acostumado às nuances estilísticas de um bom texto literário, consegue perceber o antogonismo que se perpetra no Novo Testamento a partir da carta aos romanos. 

Por exemplo, um leitor treinado conseguirá perceber o estilo de Machado de Assis, de Graciliano Ramos ou Guimarães Rosa com muita facilidade. Se lhe vendassem os olhos e lessem os textos de um dos três autores, perceber-se-ia de maneira clara as diferenças - o desenvolvimento de ideias, a muicalidade, a jogo linguístico, as perorações, a fluência verbal etc. Ou seja, cada autor possui elementos idiossincráticos. Peculiares. Com o texto paulino não é diferente.

Dos 27 livros do Novo Testamento, a tradição ("a lenda dos santos", no dizer de Nietzsche) da igreja atribui 13 a Paulo. Existe ainda uma controvérsia em torno da Carta aos Hebreus. Para muitos, esse documento também teria sido escrito por Paulo. Todavia, não é algo assegurado e sustentado por muitos téologos conservadores.

O certo é que mesmo sem a carta aos Hebreus, o efeito do pensamento de Paulo se faz sentir no Novo Testamento  - e, consequentemente, na história do cristianismo. Sem o chamado "apóstolo dos gentios", a configuração do cristianismo não seria a mesma que temos hoje.

Somente um homem como ele, com uma personalidade que conjugava o bairrismo de um rabino e a força, a energia de um soldado romano, poderia ter tido a a criatividade para elaborar um conjunto de pensamento tão atraente e tão bem articulado como o pensamento paulino. Paulo tira o foco dos demais díscipulos em projeta-se como centro do discurso. Vislumbra-se aqui a necessidade de auto-afirmação. 

Mesmo dentro do judaísmo Paulo não era alguém benquisto. Ele mesmo afirma em uma das suas cartas (Galátas) que ficou quatorze anos se preparando para a missão que empreendeu. E daí nos surge um questionamento: não teria sido esse o momento em que Paulo sistematizou o seu pensamento? É possível que tenha ouvido os relatos dos evangelhos; tenha feito consulta a possíveis testetmunhas e tenha coligido o arcabouço daquilo que é a sua teologia. 

Paulo transformou a morte de Cristo num discurso triunfalista. Aqui é importante dizer que os evangelhos também não são narrativas fidedignas da vida de Cristo. Há muito de triunfalismo e a forja de eventos miraculos com a finalidade de transformar a existência de Jesus em algo miraculoso. Assim, no meio da narrativa evangélica é necessário encontrar as verdadeiras palavaras e ensinamentos de Cristo - um mestre por excelência. Os evangelhos não são relatos neutros e objetivos, o que lhes deformam a intenção. Foram escritos pela comunidade de crentes, logo, são viciados e parciais. Mas, nada impede que lá dentro encontremos "algumas" palavras de Jesus.