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quinta-feira, julho 10, 2014

Um país de nomes e fatos contraditórios

"O povo-massa, sofrido e perplexo, vê a ordem social como um sistema sagrado que privilegia uma minoria contemplada por Deus, à qual tudo é consentido e concedido"
Darcy Ribeiro, in O povo brasileiro.

No início do ano, quando fui ao Nordeste, tive a oportunidade de atravessar o estado do Piauí. Foi algo premeditado e prazeroso. Queria ver o Brasil por dentro; enxergar as vísceras de um país esquecido e que está separado do outro do litoral por séculos - evocando Euclides da Cunha. O que me chamou a atenção foi como muitas cidades e monumentos públicos foram "batizados" com nomes de políticos ou antigos oligarcas que dominaram o estado e que passaram o cetro para familiares conservadores, que se beneficiam do amasiamento com a coisa pública, um caso de "fornicação" descarada.

Mas esse não é um problema unicamente do Piauí. Há no Brasil inteiro casos de como os figurões da política deixaram os seus nomes estampados em ruas, construções, cidades, escolas, etc. Em São Paulo, por exemplo, existe a Rua Dr. Sérgio Fleury, um dos delegados mais emperdenidos dos tempos da Ditadura e chefe do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), responsável por torturar e matar uma quantidade enorme de pessoas. Há ainda a Avenida Castelo Branco, um dos generais-presidentes da Ditadura e responsável por um dos momentos de maior repressão do governo militar. Ou ainda, a Escola Dr. Garrastazu Médici, no Rio de Janeiro. Em Brasília, existe a Ponte Costa e Silva. Fico a me perguntar como é admissível tais casos. Em meu simplismo, pergunto: "Por que não se faz uma lei a fim de modificar tais nomes ou então se proibir de colocar nomes de políticos em algo público?" Ainda mais quando tais pessoas estão ligadas ao crime, à tortura e ao genocídio.

Esses casos ilustram um dos grandes e gritantes problemas do Brasil, que é falta de conhecimento da sua própria história. Ontem, por exemplo, foi feriado em São Paulo, que comemorou a chamada Revolução Paulista ou Revolução Constitucionalista, de 1932. O que não se conta é que a data de 9 julho marca a tentativa das oligarquias paulistas da República Velha voltar ao poder, após a sua derrocada em 1930. O início da Era Vargas pôs fim a certo tipo de liberalismo conveniente, que dava a São Paulo e Minas Gerais o comando do país. Para isso, as elites mobilizaram a população, que iniciou um movimento contra o restante do país. Havia uma imagem criada e repetida, que dizia que São Paulo era uma locomotiva que puxava vinte trens vazios. Ou seja, os demais estados do país e muitos intelectuais conservadores como Monteiro Lobato também encabeçaram o movimento. Segundo Boris Fausto: "Muitas pessoas doaram joias e outros bens de família, atendendo ao apelo da campanha "Ouro para o bem de São Paulo"".

A finalidade do movimento orquestrado pelo grupo conservador paulista era retomar o poder e lançar, refundar, a hegemonia que tivera. Hoje, os nomes utilizados representam uma contradição de termos. E isso explica, talvez, o conservadorismo tão visível no estado mais rico do Brasil e como certos grupos políticos (vide o PSDB, o sucessor direto dessa burguesia ressentida) permanecem vivos e encabeçam um movimento pelo atraso. 


segunda-feira, abril 21, 2014

Qual Brasília faz 54 anos?

Brasília é uma miragem no meio do cerrado. Ainda possui lendas a seu respeito. Boa parte do Brasil ainda conserva a opinião de que, quem mora na Capital, dialoga com o Presidente da República quando quiser. É só acenar com um piparote que a coisa acontece. Depois de 25 anos morando em Brasília cheguei a algumas conclusões - talvez inamistosas - sobre a cidade. Como eu disse certa vez, as melhores palavras que expressam o que é Brasília foram pronunciadas por Marshall Bergmann, na introdução do seu livro Tudo o que é sólido desmancha no ar.

Ainda recordo as primeiras visões que tive da cidade, quando cheguei à Brasília em 1989. Ainda dentro do ônibus da Viação Itapemirim, com direção à antiga Rodoferroviária, avistei o Eixo Monumental. Vi a Torre de TV, suposto cartão postal da cidade. A impressão que tive foi de um descampado enorme com uma vegetação pródiga cobrindo todas as coisas. Os ônibus amarelos da Viação Pioneira passavam apressados. Tudo se consumia em meio à poeira do mês de agosto. A secura abria sucos nos lábios. Enfeiava a pele. Eu, animal acanhado, vindo da Zona da Mata de Pernambuco, pouco afeito a esses rebuliços citadinos, fiquei "bestificado" com a cidade. Cresci na cidade satélite de Ceilândia e poucas foram as vezes que visitei o Plano Piloto. O Plano Piloto se constituía apenas naquilo que via no itinerário dos ônibus.

Mesmo tendo morado por muito tempo, somente alguns anos depois fui visitar a Esplanada dos Ministérios, lugar do orgulho e da jactância modernista do ufanismo brasileiro. É ali que se espraia, que se derrama, que o poder semeia os seus ovos valiosos no coração Brasil. 

Há dois anos atrás, quando visitei João Pessoa, capital da Paraíba, tive a oportunidade de conhecer um mosteiro construído em 1589. Fiquei impressionado com o que vi. Era, simplesmente, o monumento mais antigo que eu havia visitado. Minhas referências eram pequenas. Quando olhei aquelas pedras; o altar da igreja; os bancos que já abrigaram tanta gente; o chão impregnado pela poeira do tempo, não deixei de pensar na exiguidade temporal que é Brasília. Ela não passa de uma senhora concebida do desvario "modernista" do entreguismo brasileiro. Juscelino, Niemayer e Lúcio Costa calcularam mal. Fundaram uma cidade sobre um sonho, sobre uma aspiração incipiente. Hoje Brasília é uma senhora manca. 

E não se deve deixar de mencionar que existem várias Brasílias. Consigo divisar duas pelo menos. A Brasília "resplandecente", orgulho dos "civilizados" moradores do Plano Piloto e dos Lagos Sul e Norte; do Sudoeste e Noroeste; do Park Way e dos medievais condomínios que escondem o medo e o individualismo burguês. A Brasília daqueles que vão de carro e que transformam as ruas da Capital em um inferno de buzinas e holofotes vermelhos quais olhos satânicos. E quando olhamos, avistamos apenas o condutor dentro de sua armadura, de sua máquina, que lhe protege das intempéries, do outro, da necessidade, do pedinte do semáforo. 

O sonho chamado Brasília é vendido para aqueles que consomem arte. Que têm a possibilidade de estudar na Universidade de Brasília, que fica afastada do povo, distante das cidades satélites. Desfrutada pelos filhos dos trabalhadores, que ficam no caminho da competição: (1) por estudarem em escolas públicas e serem apartados na refrega do vestibular; (2) por estarem distante fisicamente do campus; (3) pelas condições socio-econômicas que impedem o sujeito morador das cidades satélites gastarem além das possibilidades para chegarem até lá.

A outra Brasília que diviso é Brasília das cidades-satélites - atualmente, quase quarenta. Elas foram criadas como alternativas para aqueles que vieram construir Brasília. Muitas delas conseguiram se estabelecer economicamente. Elas não são municípios propriamente ditos. São descentralizações burocráticas ou administrativas. Existem para tornar mais fácil a governabilidade. Todavia, ganharam vida própria. Possuem personalidade. Gravitam em torno de Brasília. Assistem à distância o espetáculo da Casa-Grande, que é Brasília, sendo apenas Senzala. Possuem uma vida cultural apagada. A população precisa trabalhar, a maior parte, no Plano Piloto. As opções de lazer são escassas. Os jovens, geralmente filhos de trabalhadores, ficam sozinhos e expostos à marginalidade. Refiro-me aqui a cidades como Ceilândia, Samambaia, Planaltina, Santa Maria, Recanto das Emas, Paranoá, São Sebastião, Sobradinho II etc. É Brasília mostrada por Vladimir de Carvalho e seu fantástico documentário Conterrâneos Velhos de Guerra.

Brasília não me apetece. Do mármore não brota graça. Não nasce a vida. Apenas o sonho bambo e febril de que nos alinhamos com o progresso por termos construído uma cidade ex-nihilo. É uma cidade fria. Seus monumentos são desvetidos de sensibilidade. Leva-nos a uma escadaria íngreme de convencimentos instáveis. Faz brotar um sorriso molesto no canto dos lábios como se os nossos trilhos levassem a um futuro promissor, no qual a esperança, cantada no seu hino, fizesse nascer uma terra onde mana leite e mel. Brasília é a capital dos amadorismos. Mas, também, das especulações gananciosas que alimentam o ventre de plutocratas senis e insaciáveis.

Os filhos de Brasília, como são chamados aqueles que nasceram após a fundação da cidade, aprenderam a se inebriar, pois o nosso cérebro tem uma facilidade para se adaptar com aquilo que vivenciamos rotineiramente. Platão provou isso de forma genial na alegoria do Mito da Caverna, dizendo que aqueles que convivem com as sombras, acostumam-se com as mesmas sombras. 

Minhas palavras talvez revelem um amargor e uma falta de docilidade profunda. Mas é o que penso. São as impressões que fui colhendo nesses vinte cinco anos de convívio com a cidade. E corroboro com Marshall Bergmann: "Vista do ar, Brasília parecia dinâmica e fascinante de fato, a cidade foi feita de modo a assemelhar-se a um avião a jato tal como aquele do qual eu (e quase todas as outras pessoas que lá vão) a vemos pela primeira vez. Vista do nível do chão, porém, do lugar onde as pessoas moram e trabalham, é uma das cidades mais inóspitas do mundo". Ou seja, vê-la de longe, como os brasileiros a veem parece interessante, estimulante, todavia, está com ela é outra história. Por isso, a tese inicial de que Brasília é uma miragem. 

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

A violência nossa de cada dia e o processo de desumanização em nossas cidades

"As condições de vida na cidade grande e moderna criam condições que e necessidades específicas de sensibilidade e comportamento". Georg Simmel

Esta semana aconteceu um fato que me deixou perplexo. Viver em uma grande cidade como Brasília ou outra capital brasileira, com tantos problemas sociais, vai nos insensibilizando. Lamento isso todos os dias. Tanto é assim que tenho conversado com a minha esposa sobre a possibilidade de mudarmos da cidade projetada para ser a Capital do Brasil. Trata-se de uma possibilidade que pode vir a grassar com o tempo. As grandes cidades tornaram-se em espaços geradores de apartação do outro. De desconhecimento daquilo que nos faz humanos. É um processo em que os indivíduos, que partilham da mesma sociedade com outros indivíduos, ignoram os direitos de seus semelhantes. Nessa sociedade causadora de patologias e, que vive sob o signo da violência, o outro, se necessário, não deve ser considerado enquanto sujeito. O que vale é a truculência. Assistimos a tudo isso no trânsito, quando caminhamos pela rua ou quando estamos no metrô, como testemunhei outro dia. 

Pego o metrô todos os dias para ir trabalhar e voltar para casa. A qualidade do metrô aqui em Brasília é bem incipiente e amadora. Às seis da tarde, tentar entrar em um dos vagões da composição é uma luta, dependendo da estação em que se estiver. Pois aconteceu que o vagão em que eu estava, se encontrava com a lotação máxima. Era praticamente impossível entrar ali. Um brutamontes retesou os músculos e tentou abrir caminho a força para tentar entrar. Quando fez isso, ele acabou pisando no pé de um rapazote, que admoestou o "pitiboy". Imediatamente este disse, não medindo as palavras nem levando em conta as pessoas que estavam ali: senhoras, mulheres, crianças. "Vai tomar no c*! Tá maluco, filho da p*!" Os demais passageiros ficaram a olhar, estapafúrdios. O interlocutor do esquizóide antropófobo murchou no mesmo instante. Recolheu-se. Entrou em si. Talvez tenha até se sentido culpado por ter feito uma reclamação branda. Ao ouvir e ver aquilo fiquei a mirar o troglodita com cara de lutador de MMA. Rapidamente, larguei o Chesterton que estava lendo e fiquei pensando como a vida em sociedade é capaz de gerar cenas medonhas como aquela. Como os homens estão bestializados. Não se trata apenas de falta de educação. É mais que isso. É fenômeno que está para além da escola. Trata-se de uma força pujante e invisível que gera esse processo de animalização xenófoba, como se fosse um gás venenoso e embriagador.

E esta semana (para voltar àquilo que deu início a esta reflexão apressada), outra cena de barbárie - e esta com resultados mais trágicos - aconteceu por aqui. Em certo shopping de Brasília, dois sujeitos com comportamento canino decidiram urinar em uma parede externa do estabelecimento. Foram admoestados por um professor de educação física, de 27 anos de idade, que acabou sendo espancado covardemente pelos dois desleais calhordas - um com 20 e outro com 21 anos de idade. Segundo informações, o professor está em estado grave em um hospital da cidade, com um dos lados do corpo paralisado. Esse fato não me deixou de fazer pensar sobre como vivemos um processo avançado de selvageria e barbárie. De fato, já experimentamos um processo profundo e preocupante de desumanização. Ser homem não implica, consequentemente, ser humanizado. A grande missão do nosso tempo é buscar a humanização. E ser humanizado é levar em conta, necessariamente, os direitos e a condição do outro como ser humano.

Leandro Konder fazendo referência a Walter Benjamin, diz que "os habitantes das grandes cidades vivem bombardeados por 'choques', sob o impacto de experiências mais ou menos violentas, e acabam ficando um tanto 'anestesiados' ou 'insensíveis'(...)". É justamente contra essa insensibilidade que temos que lutar todos os dias. Existe um descarte agressivo contra a vida humana. Contra o direito do outro. Contra a possibilidade de solidariedade e respeito àquilo que é do outro.Mantenhamo-nos humanizados - ou pelo menos, busquemos nos humanizar.

domingo, julho 28, 2013

Ceilândia "confronta" Brasília - e vice-versa

Foto da Caixa d´Água, Ceilândia Centro
Ontem, consegui correr 15 quilômetros. Foi um momento de bastante satisfação. Já estava há certo tempo querendo atingir essa meta. Coloquei a seguinte frase no Facebook: "15 quilômetros de corrida pelas ruas de Ceilândia. Que beleza! Sigamos..." Entre os vários comentários que surgiram, um me chamou a atenção, talvez, pelo nível de crítica contra a escolha de correr pelas ruas de Ceilândia, uma das cidades-satélites mais violentas do Distrito Federal: "fala sério pela ceilândia meu deus" (ipsis litteris), disse um dos comentaristas, professor e colega de trabalho da escola onde leciono.

Não que esteja criticando o meu colega, mas fiquei pensando sobre as posturas que tomamos a respeito de alguns fatos. Respondi para o meu colega da seguinte forma: 

"Minha mãe mora lá. Fui visitá-la e, como sempre faço, aproveitei para correr. Fui da Ceilândia Sul à BR-070. Fiz alguns volteios pelo Setor-"O" e retornei à Ceilândia Sul, chegando até à Via Estádio. É uma delícia! A administração construiu aquelas pistas para ciclistas e a coisa ficou "simpática". É bom correr por lá. Além do quê, eu fui criado em Ceilândia. Conheço bem a cidade. Saiba que Ceilândia já foi matéria de poema para Carlos Drummond de Andrade. O nome do poema é "Confronto". A exata expressão crítica drummondiana que expressa o orgulho da "suntuosa Brasília", com o seu pasto verdejante de empáfia marmórea e a ressequida e "esquálida Ceilândia", todavia com muita gente séria e trabalhadora, a se mirarem num conflito social muito sério: Olhe que beleza o poema do Drummond: 

"A suntuosa Brasília, a esquálida Ceilândia
contemplam-se.
Qual delas falará primeiro?
Que tem a dizer ou a esconder uma em face da outra?
Que mágoas, que ressentimentos prestes a saltar
da goela coletiva e não se exprimem?
Por que Ceilândia fere o majestoso orgulho da flórea Capital?
Por que Brasília resplandece
ante a pobreza exposta dos casebres de Ceilândia,
filhos da majestade de Brasília?
E pensam-se, remiram-se em silêncio
as gêmeas criações do gênio brasileiro"
Foto do Centro de Ceilândia, ainda na década de 1970. Ao fundo, o barracão onde hoje é Feira Central

Esse fato me levou refletir como os conceitos enviesados são formados. Algo assim está lá na Bíblia. Diz um dos evangelhos que quando Jesus chegou a Jerusalém e começou a ensinar às multidões, os líderes religiosos, que constituíam a elite da época, passaram a questionar o lugar de nascimento de Jesus. Quando souberam que ele era do Norte de Israel (Galileia), pergutaram: "E por acaso daquele lugar pode sair algumas coisa boa?". Ou seja, uma afirmação que atrela o lugar de nascimento ao fato de ser "bom" ou "mal"; como se uma metafísica se estabelecesse como código moral formador do sujeito.

Como diz o poema do Drummond, Brasília é uma cidade em "confronto". É uma cidade na qual a sua delimitação cria uma cinturão de antagonismos. A arquitetura moderna é contrastante em relação às muitas cidades-cidades. Ceilândia é uma dessas cidades. Formada na década de 70, recebeu o nome augural de "Centro de erradicação de invasões" (daí o epíteto "CI" e o posterior nome "Ceilândia, que nos passa a ideia daquilo que o próprio nome preconiza - "terra das invasões"). A cidade é constituída por migrantes e filhos de migrantes vindos de muitos locais do Brasil para construir e ser construído pelo "sonho" chamado Brasília, sendo os nordestinos sua massa motriz. Essa influência nordestina está na fala, nas músicas, nos comportamentos, nas vestimentas e, principalmente, na Feira Central de Ceilândia, que ainda conserva a tradição gastronômica - buchada, mocotó, dobradinha, etc. É, atualmente, a cidade mais populosa do Distrito Federal e uma daquelas que apresenta o maior número necessitados da Capital Federal.

Foto da atual Ceilândia a partir de Ceilândia Sul
Ceilândia é um desses casos de nosso país, como diz o poema do Drummond, em que mostra a capacidade do "gênio brasileiro" de criar paradoxos. Encontramos o suntuoso, o nababesco, o babélico, mas ao mesmo tempo, retrato de nossos abismos sociais, criamos voluntariamente o inesoto, o esquálido.

Fui criado em Ceilândia. Morei lá boa parte da minha vida. Gosto da cidade. Quando passo pelos locais onde fui criado, onde brinquei, uma porta dimensional se abre no tempo e me vejo ainda criança. Impossível esquecer. Ou seja, um pouco de minha ontologia está lá colocada, plasmada, tatuada.

Então, o fato de correr em Ceilândia se estabelece como algo poético e revitalizador. O sujeito nascido no centro de Brasília corre no Parque da Cidade, lugar feito para a fauna aburguesada exercitar-se, e julga isso como sendo natural. Ou seja, naturalizamos algumas coisas e estranhamos aquelas para as quais não estamos acostumados, sem percebermos que tudo é parte de um jogo de discursos. 

domingo, junho 16, 2013

Comentário abrasivo sobre Brasília


Comentário sobre Brasília, extraído do site Viomundo. Sentença ácida e crítica de um dos visitantes do sítio. Apesar de ter alguns erros de digitação, creio, deixei como está no endereço eletrônico. O comentário foi feito em um post sobre as vaias dirigidas à presidenta Dilma. 

"Brasília é a invenção mais diabólica que o Brasil urdiu. É a Casa Grande estlizada, enfeitada, sonho desvairado de um lunático de que se travestiu de estadista, é o gueto da corrupção, da malandragem sofisticada, mas tão amestrada quanto o cão mais dócil, dos arranjos escatológicos e pornográficos, é um Brasil de brasileiros de outra raça, assentados em um planalto de onde se divisa todo o resto da Nação, que é olhado com desdém, escárnio, polo de atração de tudo quanto o Brasil tem de pior, de degradado, de degenerado, mas que quando se descobre, quando se revela, não passa de um charco imundo, cheio de podridão, pântano de atoleiros que consome toda e qualquer decência, boa intenção, todo e qualquer gesto de solidariedade, de respeito, de cidadania, de amor à Pátria. Coroando essa obra que enebria os menos avisados, qual Colosso de Rodes, maravilha das maravilhas, o estadista de araque faz o arremate final e tras para entre nós a indústria que é a “locomotiva do mundo”, a que constroi os monstros sorvedoros do óleo das entranhas da terra, definindo, de forma inexorável, o destino dos brasileiros: consagrar suas vidas, imolando-se qual Cristo na cruz, aos rebentos do monstro, o automóvel, os ônibos, os caminhões, bi-trens, tri-trens, seus novos e perenes guias, conduzindo-os ao longo das estradas, das avenidas, dos viadutos, dos túneis, dos becos, para um dia alcançar mais cedo o lugar do repouso eterno".

quinta-feira, maio 30, 2013

Algumas impressões sobre o filme "Somos tão jovens", que conta os anos iniciais da carreira de Renato Russo

O filme "Somos tão jovens", do diretor Antonio Carlos Fontoura, deixou-me impressionado com a atuação do ator Thiago Mendonça. Ficou claro que o ator estudou com bastante atenção os trejeitos, os cacoetes e todo o mundo existencial de Renato Russo, vocalista e principal nome da Legião Urbana. O longa mostra a cena política e cultural de Brasília no final dos anos 70 e início da década de 80. 

O filme foca a atenção no espaço do Plano Piloto, região da Capital Federal onde mora a burguesia da cidade - servidores públicos do auto-escalão do Estado, políticos, diplomatas etc. Renato Russo, por exemplo, era filho de um economista do Banco do Brasil. O jovem Renato morara nos Estados Unidos e, na Capital Federal, estudou no Colégio Marista, uma das escolas mais tradicionais e influentes, ainda hoje, aqui em Brasília.

A obra não busca mostrar toda a vida do líder da Legião Urbana. Foca no curto espaço de 16 aos 22 anos. E é, por isso, que deixa a impressão de obra inacabada. Quando menos se espera, o filme acaba. Mas, a produção de Antonio Carlos Fontoura é convicente.

De 1964 a 1985, o Brasil experimentou um dos períodos mais escuros da sua história. Esse período que ficou conhecido como Ditadura Militar, trouxe repressão e censura. Vale mencionar que no final da década de 1970 e início dos anos de 1980, o capitalismo vivia um período de crise. O movimento punk surgira na Inglaterra nos bairros operários e se espalhara pelo mundo. Bandas como The Sex Pistols ou The Clash haviam surgido na Inglaterra com uma atitude panfletária e rebelde. Nos Estados Unidos bandas como The New York Dolls e Ramones também marcaram o compasso. As roupas rasgadas, a música distorcida e gritada com poucos acordes, o visual provocativo e a atitude rebelde eram as principais marcas do movimento punk. O protesto tinha uma direção: a sociedade capitalista moralista e religiosa, geradora de desigualdade e de um projeto burguês que visava docilizar as ações do homem comum.

Nessa mesma época, outra banda importante, o Joy Division, de duração efêmera, também possui a sua relevância. O Joy Division, apesar de ser citado em "Somos tão jovens" de forma superficial, imprimiu uma nova linguagem ao rock, que pode ser chamada de pós-punk, posto que trazia influências do punk, mas amalgamada às influências de uma melancolia intensa, que desembocaria na new age.  O genial vocalista do Joy Division, Ian Curtis, que se matou ainda muito jovem, creio, foi uma influência para o líder da Legião Urbana. Músicas como Ainda é cedo mostra a influência do pós-punk e uma textura muito similar à banda de Curtis. Um importante filme sobre a vida do problemático Curtis é Control (aqui também) de 2008, do diretor Anton Corbijn. Mas o Renato era a mistura de muitas coisas.


Após a digressão, vale afirmar que tais características serviram de inspiração para os filhos da burguesia - os rebeldes sem causa. A expectativa de estabilidade gerada pelo mundo burguês e uma sociedade que vivia a realidade da Ditadura, levou essa juventude a protestar, a construir ideais. Curiosa é uma das passagens da música Química escrita pelo Renato Russo: "Ter carro do ano, TV a cores, pagar imposto, ter pistolão/ Ter filho na escola, férias na Europa, conta bancária, comprar feijão /Ser responsável, cristão convicto, cidadão modelo, burguês padrão".

É nesse contexto que aparece a figura de Renato Russo, que ainda no final dos anos 70, forma o Aborto Elétrico e o nome já um escracho ou uma tentativa de cooptar a atenção. A banda do ponto de vista sonoro era péssima, mas havia um sujeito habilidoso com as palavras. As letras eram de alto nível. Era como se colocasse um diamante em um recipiente de palha. A banda consegue, com apresentações tacanhas, se firmar no cenário cultural da Capital.

É dessa época também o surgimento de duas outras bandas - a Plebe Rude e o Capital Inicial (esta última dos escombros do Aborto Elétrico). Outro músico indiretamente surge do cenário musical de Brasília, Herbert Vianna, líder e fundador de Os Paralamas do Sucesso.

Todavia, o que me chamou a atenção no filme foi a tentativa acertada de reproduzir a personalidade complexa de Renato Russo, que acreditava em astrologia e possuía uma sensibilidade poética incomum. E o quanto gostava de literatura. O nome Russo é uma homenagem, como mostra o filme, a Bertrand Russel, filósofo inglês, e o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau. Pouca coisa já era suficiente para mover-lhe as emoções. Uma cena em que isso fica patente é quando da morte de John Lennon. O filme mostra o quanto aquilo que mexeu com o Renato Russo. 

Tais complexidades foram responsáveis pelo fim do Aborto Elétrico. Os dois outros músicos Fê Lemos (baterista) e Flávio Lemos (baixista) - ambos fundadores, com Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial - viviam às turras com o futuro líder da Legião. Após essa cisão, Renato muda a postura rebelde e investe num estilo mais folk. Deixa a barba crescer e faz apresentações solitários, auto-proclamando-se 'O trovador solitário'. E aos poucos essa expressividade vai crescendo até a formação da Legião Urbana, com os dois parceiros de toda a carreira - Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos. O filme termina justamente nesse ponto, quando os músicos após terem feito um show em Patos de Minas, são convidados a irem ao Rio de Janeiro. Como afirmei acima, o filme é bom. O ponto mais forte da obra é a atuação de Thiago Mendonça, que travestiu-se de Renato Russo. Thiago conseguiu transmitir o jeito teatralizante e performático do líder da Legião. As músicas cantadas também mostram uma qualidade positiva. 

Um dos principais objetivos que me levou a assistir ao filme foi entender um pouco mais sobre o cenário político e cultural da Brasília da época da Ditadura. E penso que o filme conseguiu me passar uma impressão positivo sobre este fato. Muito bom!

quarta-feira, setembro 12, 2012

A beleza mesmo em meio ao agreste

Em determinadas épocas do ano, o Distrito Federal se desertifica. O clima chega a níveis de pouca suportabilidade. A temperatura sobe. A umidade do ar chega índices alarmantes. O calor asfixiante nos deixa com uma forte sensação de irritabilidade. Tornamo-nos suscetíveis a problemas respiratórios com esse clima pouco "civilizável". A cidade inteira sofre. As crianças agonizam. Um colchão de fumaça encobre os quatro cantos da desse pedaço do Centro-Oeste. O céu límpido e alto que pode ser avistado com muita facilidade em outras épocas, torna-se indistiguível. 


Para piorar, os focos de incêndio se multiplicam. É corriqueiro constatarmos ao caminhar, um corpo cinzento se esgueirando para alcançar as alturas - o resultado das queimadas no cerrado. Em outras palavras: essa visão terrível já passou a fazer parte do período que se estende do final de agosto ao início de outubro. Setembro é o mês do "apocalipse" por aqui.

Mas a natureza é sábia e misteriosa. Ela oferece compensações. Presenteia-nos com revelações impressionantes. O que é curioso (e já se tornou notório em todo país) é o fato de que, nessa época, Brasília ganha cores de vida em meio à secura agreste. Ontem, por exemplo, ao voltar do trabalho para casa, pude presenciar vários ipês floridos. E, claro, acabei tirando algumas fotos com o meu celular. A qualidade não é das melhores, mas nos dá uma noção da beleza.

Abaixo, algumas imagens.