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quinta-feira, setembro 04, 2014

Mafalda, a sopa e Karl Marx


A tirinha acima é uma das mais geniais da Mafalda, do cartunista argentino Quino, que já tive oportunidade de ler. Ela vai ao centro da questão fundamental: como estaríamos hoje, se Marx não tivesse colocado "a contradição" como elemento necessário de interpretação da história, ou seja, se ele não tivesse "tomado a sopa"? Lênin vai explicar isso muito bem o que é "a sopa" de Marx em seu belo texto "As três partes e as três fontes constitutivas do marxismo". Como seriam os movimentos sociais? Como seriam os direitos trabalhistas? Até hoje, suas ideias não foram trazidas plenamente à luz. Aquilo que escutamos como regimes marxistas nos mais variados cantos, não passam, na verdade, de caricaturas, de tentativas cinzentas e pobres do pensamento do alemão.

Acredito que com a frase "Os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas maneiras; o que importa é modificá-lo", o pensador sintetize muito bem quais suas perspectivas em relação á história. Marx reuniu em seu pensamento aquilo que de mais alto, mais célebre, as ciências e o saber humano haviam conquistado. E nos deu um desafio enquanto seres humanos: é preciso que repensemos que tipo de mundo queremos construir, enquanto projeto que transforma, modifica e dá dignidade ao ser humano. O pensamento marxiano é um desafio em favor da manutenção da vida e do ser humano. Nunca estudá-lo e lêlo foi tão necessário.


domingo, fevereiro 02, 2014

Rosa Luxemburgo - algumas palavras

"Ser humano significa lançar, se for preciso, toda sua vida, alegremente, 'sobre grande balança do destino' [Goethe], mas, ao mesmo tempo, alegrar-se com cada dia de sol, com cada bela nuvem". 
Rosa Luxembugo, in Carta a Mathilde Wurm, Wronke, 28 de dezembro de 1916

Rosa Luxemburgo ainda é pouco conhecida em nosso país. A efervescência elétrica de suas ideias e sua atuação militante são ainda desconhecidas por muitas pessoas interessadas no pensamento político do século XX. Rosa tem um importância capital para as ações, principalmente, que começaram a ser gestadas a partir de sua morte, em 1919, na Alemanha. Caso tivesse obtido resultado positivo a Revolução Alemã, de 1918, talvez o mundo não tivesse conhecido um flagelo demente como Hitler.

Analisando a vida de Rosa a partir da leitura do livro Rosa Luxemburgo - Vida e obra, de Isabel Maria Loureiro - uma das grandes autoridades brasileiras no pensamento da filósofa e revolucionária -, é possível atestar o dinamismo revolucionário da polonesa, que se tornou doutora aos dezenove anos de idade; casou-se com um alemão como estratégia para conseguir a cidadania alemã para participar dos embates do momento histórico daquele país completamente esfacelado, humilhado e dilacerado pela guerra ; que não fugia de participar ativamente dos embates da luta pelo comunismo na Europa nas duas primeiras décadas do século XX. 

Rosa era uma mulher de uma sensibilidade profunda. Lendo uma de suas cartas, encontradas no livro de Isabel Loureiro, pude perceber o quanto a fundadora do Partido Comunista Alemão possuía uma intuição poética rara. A carta foi escrita à sua amiga Sonia Liebknecht, pela ocasião do Natal de 1917. Rosa estava presa. Todavia, os seus sentidos estavam despertos e livres: ela nota o pigarro do guarda, que "dá alguns passos lentos para desentorpecer as pernas". Ela diz que o momento era singular, estando "deitada", "sozinha", "enrolada nos véus negros das trevas", "do tédio", "da falta de liberdade", "do inverno". Todavia, ela sentia uma alegria incomensurável; e ficava perscrutando, à cata de explicações para aquilo que sentia; e não encontrava nada; o sorriso tinha que ser dirigido para algum lugar e ela acabava rindo de si mesma.

Outra descrição de lhana beleza é reflexão que ela faz dos sofrimentos de alguns búfalos que foram trazidos da Romênia e que perderam a liberdade, assim como ela. Ela escreve assim: 

"Outro dia, chegou uma dessas carroças, puxada não por cavalos, mas por búfalos. Era a primeira vez que via esses animais de perto. São mais fortes e maiores que nossos bois, têm cabeça chata, chifres recurvados e baixos, o que faz com que sua cabeça, inteiramente negra, de grandes olhos meigos, se pareça com as dos nossos carneiros. Originários da Romênia são um troféu de guerra... Os soldados que conduziam a carroça diziam ser muito difícil capturar esses animais selvagens e ainda mais difícil utilizá-los para carregar fardos, pois estavam acostumados à liberdade. [...] Há alguns dias, portanto, entrou no pátio uma dessas carroças cheias de sacos. A carga era tão alta que os búfalos não conseguiam transpor a soleira do portão. O soldado que os acompanhava, um tipo brutal, pôs-se a bater-lhes de tal maneira com grosso cabo do seu chicote que a vigia da prisão, indignada, perguntou-lhe se não tinha pena dos animais. [...] Os animais deram finalmente um puxão e conseguiram transpor o obstáculo, mas um deles sangrava... [...] Durante o descarregamento, os animais permaneciam imóveis, esgotados, e um deles, o que sangrava, olhava em frente com uma expressão no rosto negro e nos meigos olhos de criança em prantos. Era exatamente a expressão de uma criança que foi severamente punida e que não sabe por qual motivo nem porque, que não sabe como escapar ao sofrimento e a essa força brutal... Eu estava diante dele, o animal me olhava, as lágrimas saltaram-me dos olhos, eram as suas lágrimas. Ninguém pode ficar mais mais dolorosamente amargurado com a dor de um irmão querido do que eu, na minha impotência, com esse sofrimento mudo. Quão longe, inatingíveis, perdidas as pastagens da Romênia, suculentas e verdades, belas e livres! Como tudo era diferente, o Sol que brilhava, o vento soprando, os belos cantos dos pássaros e o melodioso chamado do pastor. E aqui, esta cidade estrangeira, horrível, o estábulo sombrio, o feno mofado, repugnante, misturado com a palha apodrecida, os homens desconhecidos, assustadores, e as pancadas, o sangue que corre da ferida aberta... Oh! meu pobre irmão querido, aqui estamos os dois impotentes e mudos, unidos na dor, na impotência, na saudade".
Rosa discursando para operários

Talvez, aqui, Rosa pressagiasse em dimensões mais atordoantes os sofrimentos as quais os nazistas impingiriam aos judeus nos campos de concentração. Talvez, o búfalo sirva de metáfora para todos aqueles que padeceram com os vários e diabólicos totalitarismos inexplicáveis e injustificados. Penso que percepção de Rosa no contemplar desse evento com o búfalo, declare aquilo que foi a sua vida. Hannah Arendt em seu livro Homens em tempos sombrios, cuja finalidade é estudar a personalidade de homens notórios, diz que existem inúmeros "mitos" e "lendas" em torno da figura emblemática de Rosa Luxemburgo. "Entretanto, o que não cresceu foi uma outra lenda - a imagem sentimentalizada da observadora de pássaros e amantes de flores, uma mulher de quem os carcereiros se despediam com lágrimas nos olhos, ao deixar a prisão como se não pudessem continuar a existir sem se entreterem com essa estranha prisioneira que insistira em tratá-los como seres humanos".

O socialismo de Rosa primava pela autogestão das massas. Para ela, a experiência histórica é o único mestre a que se deve prestar atenção. E esse mestre nunca falha. Ou seja, as massas aprendem com seus próprios equívocos, avanços e recuos; o movimento dialético dita a ação a ser tomada. Rosa, nesse sentido, destoa do centralismo leninista, que entendia que as decisões da ditadura do proletariado brotavam do núcleo duro do partido. Rosa, por sua vez, defendia um "socialismo conselhista". A burocracia do partido criava uma torre de prepotência por parte de alguns líderes metidos a supostos revolucionários. E aqui cabe uma pergunta: o que ela diria do stalinismo? 

Todavia, a luta pelo socialismo na Alemanha não foi fácil. Grupos paramilitares e reacionários brotavam como erva daninha. Entre eles se sobressaíam os ultranacionalistas e clandestinos Freikorps, cujos principais líderes foram cooptados por Hitler para formar sua tropa canina particular, a SS. Rosa foi detida e covardemente assassinada em janeiro de 1919, juntamente com o seu companheiro de luta Karl Libknecht. Seu corpo foi jogado em um rio das proximidades. Todavia, os restos mortais de Rosa foram encontrados somente em julho daquele mesmo ano. A morte Rosa e a impossibilidade de construção do socialismo na Alemanha, representa a vitória do nazismo de Hitler.

Analisando a epígrafe com a qual abri este texto magro, entendo, a partir da leitura que fiz do texto de Hannah Arendt e Isabel Loureiro, que Rosa Luxemburgo era uma mulher de espírito livre. Ela poderia ter abraçado qualquer causa. Costumava dizer sobre si mesma, como quem dá um sorriso meio sério, meio de brincadeira, que nascera para "cuidar dos gansos". Ela mesma era uma "águia", como Lênin a denominava. E assim, sentiu-se atraída pelo socialismo que, segundo ela, criava a necessidade de "autodisciplina interior, maturidade intelectual, seriedade moral, senso de dignidade e de responsabilidade, todo renascimento interior do proletário". Ainda dando continuidade a esse pensamento, ela entendia que "com homens preguiçosos, levianos, egoístas, irrefletidos e indiferentes não se pode realizar o socialismo". Refletindo sobre essas palavras - e analisando a situação atual do nosso país - quão aquém estamos dessa realidade A existência sob o capitalismo, tal qual vivemos, embrutece-nos, cerceia a capacidade da solidariedade; fragmenta o nosso zelo moral e nos torna em cínicos individualistas. Os movimentos que vemos se arrastando pateticamente pelas ruas desde junho do ano passado são, na verdade" caricaturas de revolução. Uma coletividade cínica, individualista, sem conteúdo, sem programa ideológico, gera apenas ativismo inconsequente, sem sequer, fazer cócegas sistema que se mostra cada vez mais sólido.

terça-feira, junho 18, 2013

Para quem os protestos? O Brasil muda com o voto?

A bíblia, tida por sagrada pelos cristãos, é um livro notável. Gosto de sua profundidade espiritual. De sua profusão de temas literários. De seus conselhos altos. De suas sentenças proverbiais. Como em uma passagem da qual me lembrei hoje à noite. Recordei-me da passagem por está lendo algumas frases, amontadoados de sentenças, textos de opinião, jaculatórias insensatas de leigos, via Facebook, afirmando que o melhor protesto é saber votar em 2014. Rapidamente me veio à mente um texto bíblico. O texto está em um dos evangelhos. Jesus diz que é, simplesmente, impensado colocar vinho novo em odres velhos. Acho essa passagem fantástica. Aqui Jesus diz que o velho não comporta o processo novo. É inapropriado por causa da natureza daquilo que é velho e a natureza daquilo que é novo.

É bom ver a população brasileira saindo às ruas para exigir um país mais justo, menos corrupto, com lideranças comprometidas com justiça social, ética e honestidade. Todavia, penso que falte foco a essas manifestações. É  mais ou menos assim: chegamos até aqui. E agora, José? O que fazer? Seria interessante que se estudasse um texto de Vladimir Lênin - "Que fazer?" - que é bem oportuno ao momento. Fico receoso que após todas essas marchas o otimismo arrefeça e cada um volte para sua casa como naquela parábola de "Os gansos", de Kierkegaard, que outro dia aludi. E essas páginas belas que têm sido escritas não sejam apagadas pelo tempo.

Esses movimentos itinerantes que surgiram pelo Brasil indicam que o povo está cansando dos desmandos de um Estado, que nos últimos quinhentos anos, continua o mesmo. Quando analisamos a história brasileira notamos que não houve mudanças, rupturas significativas. O processo de Independência, de Proclamação da República, de Abolição da Escravatura, que teve uma participação popular bastante tímida, não afugentou o drama do rompimento com um estágio anterior. Ou seja, as mudanças mais importantes da história do nosso país foram realizadas por aqueles que estão no poder. O povo sempre viu tudo de longe. Quem foi "rei" continua como "rei"; e quem foi "vassalo" continua como "vassalo". Apesar de não vivermos na Índia, o nosso país possui um regime de castas. Talvez, seja por causa do povo não está envolvido nos processos, revoluções (se é que houve alguma!), que tenhamos um dos modelos de formação social mais árbitrários do mundo. 

O Estado brasileiro é violento. A chamada "democracia" existe só de fachada, pois as oligarquias dominaram no passado e continuam dominando no presente por meio dos diversos aparelhos do Estado. Essa mesma oligarquia está instalada nos vários escalões de poder e possui a seu favor o conservadorismo e o poder simbólico das mídias. Os grandes monopólios desse país estão construídos no campo das ideias. A televisão, infelizmente, ainda continua sendo a escola de muitos brasileiros. O que o William Bonner, esse grande ventríloquo global diz no "Jornal Nacional"(o jornal da ignorância nacional), ainda é tido como verdade irrefutável. Diante de um poder tão grande, essa entidade chamada Globo, aliançada com a Folha de São Paulo, Veja e todo a imprensa conservadora, constrói um muro de falsidades e reacionarismos, que busca crimizalizar os movimentos sociais e tudo aquilo que sugira a contradição.

É formidável ver o povo nas ruas, mas penso que as metas e objetivos dessas passeatas se tornem mais claros, transparentes e substantivos para que a mobilização não feneça. Está equivocado quem pensa que é votando que se melhora o país. Já tentamos de todas as formas fazer isso. Mas o que falta não é um candidato, mas um projeto que dê uma cara de Brasil ao Brasil. Erra quem acha que é determinado candidato que vai mudar o país. Esse messianismo é uma grande falácia. Esse ainda é o discurso da mídia que quer fazer todos acreditarem que determinada pessoa mudará o país. A história não feita por um homem, mas por homens que, juntos, constroem a história. 

Por isso, penso que a frase bíblica citada acima tenha tudo a ver com essa expectativa. O modelo novo que desejamos para o país não pode ser contido nessa estrutura arruinada que temos no presente. O cerne da alma brasileira está contaminado pela corrupção, pelo jeitinho, pelos desmandos e megalomanias vindos da casa-grande. Essas passeatas para terem um resultado profícuo precisam continuar pelos próximos anos, décadas. A monta de problemas é gigante. É preciso estabelecer uma agenda de atuação e lutar por isso - educação, saúde, transporte, transparência, salários de parlamentares pagos, fugindo da realidade do trabalhador assalariado, gastos com mancebias estranhas entre o público e o privado, etc. Ou seja, fazendo isso e realizando marchas reivindicatórias constantes, talvez mudemos esse país.

Euclides da Cunha diz algo fabuloso em "Os Sertões": "O que separa o litoral do interior não são quilômetros, são séculos". E essa frase é evocativa para que profiramos neste instante: "O que falta para transformar o Brasil em país decente não é uma marcha, duas marchas; são séculos de marchas. Pois não estamos atrasados cinquenta anos, mas talvez  trezentos". Continuemos a marchar com consciência.

quarta-feira, dezembro 19, 2012

Lima Barreto e sua crítica ao país dos bruzundangas


 Ao ler o trecho abaixo do livro Os Bruzundangas, de Lima Barreto, não pude deixar de pensar no Brasil que foi e no Brasil que é; percebi que o Brasil que é não mudou a sua face, a sua estrutura corrupta e parasitária.

"Não há lá homem influente que não tenha, pelo menos, trinta parentes ocupando cargos do Estado; não há lá político influente que não se julgue com direito a deixar para os seus filhos, netos, sobrinhos, primos, gordas pensões pagas pelo Tesouro da República. 

No entanto, a terra vive na pobreza; os latifúndios abandonados e indivisos; a população rural, que é a base de todas as nações, oprimida por chefões políticos, inúteis, incapazes de dirigir a cousa mas fácil desta vida. 

Vive sugada; esfomeada, maltrapilha, macilenta, amarela, para que, na sua capital, algumas centenas de parvos, com títulos altissonantes disso ou daquilo, gozem vencimentos, subsídios, duplicados e triplicados, afora rendimentos que vêm de outra e qualquer origem, empregando um grande palavreado de quem vai fazer milagres". ( Lima Barreto, Os Bruzundangas, p. 31)

Lima Barreto viveu em um período singular da história do Brasil - durante a nossa Primeira República, também conhecida como República Velha, um período viciado e atrasado economicamente da história nativa. Era o período dos grandes latifúndios. A burguesia, com dois cavalos, alguns militares e um grito, derrubara um Império e instituira a República. Isso era o ano de 1889. A elites agrárias, dona dos grandes latifúndios, como os barões do café, já estavam instalados nas metrópoles regionais. Deixamos a casa-grande para trás, mas a tradição oligárquica de concetração da terra e do poder político permaneceu entre nós. 

Os velhos fazendeiros do passado se converteram nos empresários e nos banqueiros dos dias de hoje, mas os costumes da gênese rural se processam desde aqueles tempos. Essa "fauna nativa" está nos sucessivos revezes pelas quais a vida política brasileira atravessou: aplica golpes, faz pactos para manuntenção do poder, passeatas reacionárias, criminaliza os movimentos sociais e voluntariamente se rebaixa aos interesses dos países centrais. 

A evolução do capitalismo no Brasil é o de uma modernização sem ruptura, como diria Lênin. A nossa história não registra nenhuma revolução que engendrou uma interrupção na forma de domínio político, que se inseriu verdadeiramente no imaginário da coletividade nacional. Não temos uma tradição revolucionária. Somos um país de coiós, de atoleimados que espera o carnaval e a final do campeonato. 

É justamente em um país como esse, descrito aqui que Lima Barreto viveu. Talvez a diferença do ontem para o hoje repouse no nível de urbanização e na mudança interna do modo de produção: saímos de capitalismo agrário e exportador para um capitalismo corporativista e monopolista a serviço do deus mercado.

Se formos elencar a importância política da prosa dos literatos tupiniquins, veremos que Lima Barreto, Graciliano Ramos e Machado de Assis, tenham realizado os discursos mais contudentes. Dos três, penso que Machado tenha sido aquele que se aburguesou. O mulato, gago e epiléptico fundou uma Academia para escritor conservador e reacionário. Vale mencionar que enquanto esteve vivo, Lima tentou ingressar por duas vezes na fatídica Academia e foi recusado. Bloqueram-lhe o acesso. Todavia, em sua história teve figuras dantescas como Getúlio Vargas e Roberto Marinho e até quixotescas, como por exemplo, os atuais José Sarney e Paulo Coelho.

Lima Barreto era um sujeito maldito. Morador de subúrbio. Mulato. Filho de pais alforriados. Funcionário de repartição pública. Uma função pequena, ordinária. Viciado em álcool. Considerado como dono de uma prosa ruim. Picaresco em suas abordagens. Cínico em demasia. Leitor de Voltaire. Amante de Nietzsche. Amigo de Monteiro Lobato. Anarquista e simpatizante da Revolução Russa. Conhecedor da angústia de Dostoiévsky. Cético. E no final da vida, abandonado e louco. Esse curriculum não agradava à Academia, que desejava figuras de prosa ensaboada e escovada como os parnasianos. 

O autor de O Triste fim de Policarpo Quaresma, sua tese pintada de maneira sarcástica contra o convencionalismo político e cultural, precisa ser lido para que conheçamos o Brasil "deitado em berço explêndido". O Brasil que é a antítese de si mesmo. O Brasil que não acredita no Brasil. O Brasil que se orgulha de patacas; dos sonhos adormecidos; dos rompentes de dois palmos. O Brasil que sonha em ser uma potência cosmopolitista. O Brasil das utopias estranhas e infantis. O Brasil que se vê, identifica-se, que se resigna com as novelas globais.

A nossa superestrutura (política, cultural, econômica) é pintada com as cores daquilo que foi, mas que ainda insiste em permanecer. O país dos bruzundangas não conhece a sua história e ostenta sonhos não velados.

segunda-feira, novembro 19, 2012

Livros e uma sensação de pequenez II

Um viciado em algo sempre faz promessas de que não vai voltar a cometer o vício que o oprime. Ao perceber que errou, que voltou ao vício, escadaliza-se. Perscruta sua figura mofina e, no fundo, sente-se impotente. É assim que me vejo. O vício pelos livros me coloca numa ciranda. Em um carrossel que sempre me leva ao mesmo lugar: novas compras. 

Há alguns dias atrás, enquanto observava alguns títulos na Livraria Saraiva (virtual), acabei comprando nove livros. Algumas dessas indicações são do Charlles Campos. O sujeito anda a me mostrar cenários literários amplos e aquilo me confunde. Deixa-me aturdido. Fico a falar para mim mesmo: "Cacete! Não é possível...". E acabo fazendo listas escrupulosas. Somas imensas. Disciplinas metódicas. Afundo-me numa azáfama enorme. Embruteço.

As exigências do dia. O trabalho. As provas que tenho que preparar e corrigir. As aulas que tenho que organizar me afasta de minhas intenções. O feriado, o recesso ou o final de semana se constituem em oásis necessários e as horas acabam sendo disputadas. A mulher deseja contatos sociais. Em uma dessas exigências, quer que eu vá à igreja. Que eu me enverede pela crença desarrazoada e cacete. E, eu, misantropo, silencio num gesto atrabiliário.

Hoje, ao chegar à minha casa, encontrei uma caixa com os nove títulos. Tentei esconder. Discretiei de minha esposa. Ela anda a direcionar invectivas contra os meus hábitos de bibliófilo. Repreende-me pela desorganização. Livros próximo ao sofá; em cima de bancos; sobre a mesa. O apartamento de um quarto mostra-se exíguo como o meu peito diante dessa infinidade impossível. O meu sonho fáustico gera uma sina terrível. Amofino-me numa estupidez acabrunhante.

A caixa ainda está lacrada. Dentro dela, os títulos: Viagem ao fim da noite, Celine; O primeiro homem, Camus; Herzog, Saul Bellow; O rinoceronte, Ionesco; A história da morte no Ocidente, Ariès; dois tomos de A cidade de Deus, Santo Agostinho, livros que tenciono ler há muito tempo; A Câmara Clara, Barthes; e Com a morte na alma, Sartre.

Recordo-me ainda que comprei, ontem, três outros títulos. Todos do esloveno Slavoj Zizek: Às portas da revolução: escritos de Lênin de 1917; A Visão em Paralaxe; e Lacrimae Rerum.

Cabe lembrar, ainda, de uma biografia sobre James Joyce e o livro A montanha da alma, de Gao Xingjian. E uma sensação estranha me acomete. Deve ser aquilo que Fausto sentiu no final da vida ou aquilo que Camus escreve em o Mito de Sísifo. Subi com a pedra até o alto da montanha, mas a pedra voltou a correr morro abaixo. Desçamos e tentemos subir mais uma vez. Lutemos enquanto caminhamos montanha acima.

segunda-feira, abril 09, 2012

Uma leitura sobre Marx

Capa do livro de Attali
Terminei a leitura do livro de Jascques Attali - Karl Marx: ou o espiríto do mundo. O título é bastante feliz para aquilo que Attali se propõe a debater e expor em sua obra. Marx é um dos nomes mais comentados e pleno de significações, radicalismos e achismos peremptórios. Aqueles que o refutam, acham que sua teoria é uma contradição, um mal, razão de desmazelos, ditaduras trágicas e a opressão de uma classe privilegiada sobre uma maioria padecente. Associam à pessoa de Karl Marx, figuras como Béria, Stálin, Pol Pot ou Ramón Mercader, o assassino de Trotsky. Ou, ainda, ambiguidades sistemáticas, contradições cômicas ou trágicas.

Já aqueles que o defendem, agarram-se a uma militância deificadora; numa espécie de entedimento quase que messiânico sob a figura do filósofo de Trier. Essa dicotomia apenas serve para dimensionar a importância desse que, de fato, é responsável pelo "espiríto do mundo". 

Marx e Engels
Umas das reflexões aludidas por Attali é sobre as várias interpretações que foram dadas à pessoa do escritor de O Capital. Como acontece aos grandes homens respresantivos, Marx é uma das figuras que mais passaram por adaptações caricaturescas. Attali afirma que até mesmo Engels foi responsável por uma "vulgarização" da pessoa de Marx. Outros nomes vieram em seguida, encetando este trabalho de adaptação do espiríto da teoria de Marx: Kautsky, Bernstein, Lênin, Stálin etc.

Curiosa é a citação que Attali faz sobre um espisódio, uma declaração de M. B. Mitin sobre Stálin: "Stálin desenvolveu mais, elevou a um nível mais alto o ensinamento do materialismo dialético e histórico. Ele se alinha com os trabalhos dos clássicos do marxismo-leninismo como O Capital de Marx, o Anti-Dühring de Engels e Materialismo e empirio-materialismo dialético e histórico de maneira extremamente compacta. O camarada Stálin procedeu nesse trabalho a uma generalização das constribuições de Marx, Emgels e Lênin sobre o ensinamento do método dialético e da teoria materialista. [...] Jospeh Vissarionovitch Stalin, continuador do imortal trabalho de Marx e Emgels, amigo e companheiro de Vladimir Ilitch Lênin e continuador dos seus trabalhos geniais, é o pensador de nossa época moderna, um tesouro da ciência marxista-leninista" (sic.) [ATTALI, 2005, pp.410-11]. 
Joseph V. Stálin
Afora o aspecto propagandístico da afirmação de Mitin, o tom que se ressalta é de semelhança ao acontece na Igreja, Marx passou a ser uma entidade que precisa de determinadas pessoas supostamente iluminadas para interpretar e dar sentidos aos seus textos. Ou seja, muito daquilo que foi feito em nome de Marx, o próprio Marx não defendeu em seus escritos. Por exemplo, o conceito de ditadura do proletariado foi deturpado; chega-se ao comunismo pela via democrática ou pela revolução. A experiência soviética não deve ser entendida como o marxismo em sua vasão e clímax. 

Apontei aqui apenas um aspecto sobre o livro do Attali. A obra é boa. O estilo possui uma fluência gostosa. A leitura escorre fácil. Apropriamo-nos com bastante facilidade dos conceitos e eventos históricos mais importantes que envolveram o comunismo, o socialismo e as ideias de Marx nos últimos 170 anos.

Marx nunca esteve tão vivo. E a melhor forma de descobri-lo não é por intermédio dos seus epígonos - unicamente. É preciso ir à própria fonte e se abeberar das águas puras e doces do rio caudaloso que é esse filósofo - "o espírito do mundo".