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sexta-feira, setembro 10, 2021

"Ressurreição - história e mito", de Geza Vermes. Algumas considerações

 


                Terminei a leitura de “Ressurreição – história e mito”, de Geza Vermes. Estudei teologia. É um assunto que surge, em alguns momentos, com certas nuances de interesse. Cursei  teologia reformada, conservadora, ciosa de certos pressupostos doutrinários; não capaz de relativizar conceitos por que calvinista. Todo aquele conjunto de elementos inegociáveis – soberania divina, as duas naturezas de Cristo, a ressurreição, a justificação pela fé; a predestinação e a eleição; a glorificação dos fiéis numa apoteótica segunda volta de Cristo. São temas caros e, portanto, basilares para os fiéis dessa religião. Aqueles que acreditam fazem disso um dos fundamentos da vida.

                Todavia, o conjunto dessas doutrinas é resultado de uma formação paulatina da Igreja. A consolidação desses entendimentos doutrinários passou por muitas disputas. Afinal, um conceito não resulta de uma consolidação estanque – ainda mais quando se trata de uma narrativa. Não coaduno mais com esse entendimento conservador, que sacraliza certas compreensões e as tornam inamovíveis. A religião é um fenômeno necessariamente humano. Religião é antropologia. É o resultado dos sonhos, dos anseios mais recônditos do ser humano. Ela foi criada para justificar certos elementos da realidade e que, sem ela, o ser humano teria dificuldades para lidar e aceitar. 

                O que convencionamos chamar de cristianismo não era o mesmo há dois mil anos. A história é construída por um constante jogo dialético. Os evangelhos, conforme os lemos, são bem distintos dos textos paulinos, pois estes são o resultado do entendimento, da sistematização daquilo que ele entendia ser o cerne dos ensinamentos de Jesus. É possível falar que aquilo que Jesus não disse foi consolidado por meio de uma interpretação. Paulo é um grande revisionista; um estruturador de fundamentos teológicos. Do mesmo modo, de acordo com o excelente livro de Geza Vermes, o conceito de ressurreição também levou tempo para ser uma doutrina plenamente aceitável dentro do judaísmo e, mais tarde, tornar-se um tema da teologia cristã.  

                Do ponto de vista histórico, o cristianismo é uma vertente religiosa derivada do judaísmo. Sendo assim, boa parte dos elementos estruturais do cristianismo foram herdados da religião dos judeus. Por exemplo, a divindade do chamado Antigo Testamento, Javé, é a mesma divindade do Novo Testamento. É o mesmo que profere uma sentença de aprovação à Jesus no ato do batismo, conforme Mateus 4. Alguns conceitos teológicos também foram herdados do judaísmo. A ideia de aliança é algo que perpassa todo o texto bíblico. O amor, a proteção, a predileção divina também é algo que faz parte desse conjunto.

                No Antigo Testamento, conforme diz Vermes, não se encontra a ideia de ressurreição como passou a ser acreditada no cristianismo. Paulo eleva esse entendimento, tornando esse um dos signos de sua pregação. Como teria ocorrido essa mudança de compreensão ao longo dos séculos? É sobre isso  que o autor procura discorrer ao longo de sua didática obra.

                Para ele, - e isso pode ser comprovado pela experiência -, a teologia existente no Antigo Testamento afirma que a vida no mundo físico é a única oportunidade que o fiel possui para se deleitar, para fruir, para se regozijar. O autor de Eclesiastes escreve: “Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde vais, não há obra nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma”. (Ec 9.10). No livro de Jó, há ainda uma descrição mais dramática sobre esse silêncio a que todos os seres vivos serão submetidos após a morte. “Antes que eu vá para o lugar de que não voltarei, à terra da escuridão e da sombra da morte; Terra escuríssima, como a própria escuridão, terra de sombra da morte e sem ordem alguma, e onde a luz é como a escuridão”. (Jó 10.20-21). Esse lugar silencioso, escuro, fechado, recôndito, de onde nada emanava, tinha o nome de Xeol ou Sheol – em hebraico, “mundo” ou “morada dos mortos”. Nesse mundo não seria possível adorar a deus. Isso só se torna possível do lado de cá da existência (Sl 6.5).

                Segundo Geza Vermes a mudança de compreensão se deu por volta do segundo século antes de Cristo, no período Asmoneu com os Macabeus. Esse período foi marcado por uma forte resistência religiosa. As violações cometidas por Antíoco IV contra a fé dos judeus teria feito surgir uma quantidade enorme de pessoas dispostas a proteger as tradições da religião. Muitas pessoas teriam dado a própria vida para garantir a pureza da fé. Há relatos de que Antíoco IV tenha sacrificado uma porca no altar do templo sagrado dos judeus, algo que os ofendeu profundamente. Esse mesmo soberano da dinastia selêucida procurou helenizar à força a cidade de Jerusalém, instalando contra a vontade dos judeus, uma estátua de Zeus; além disso, proibiu o culto judeu e a circuncisão. Foi o suficiente para um movimento de resistência.

                Aqueles que resistiram, entregando a própria vida, precisavam de um prêmio. Não era justo para com eles a morte e o confinamento frio e eterno do Sheol. Vermes cita o esclarecedor texto do Testamento de Judá, escrito nesse período: “aqueles que foram mortos em nome do Senhor despertarão para a vida” (25.4). Percebe-se, claramente, uma mudança de compreensão. Do silêncio do Sheol, alguém poderia ressurgir. Era uma mudança radical de compreensão.

                Nos dias de Jesus, a ressurreição era uma doutrina digna de certas disputas. Os fariseus, por exemplo, (partido surgido à época dos Macabeus, diga-se de passagem), acreditavam que haveria ressurreição. Já os saduceus, constitutivos da elite sacerdotal, não acreditavam nessa doutrina. Todavia, há algo importante de ser observado. Os fariseus eram o grupo mais proeminente e com maior capilaridade na sociedade judaica da época. Eles possuíam um amplo grupo de adeptos. As doutrinas defendidas pelos fariseus tinham uma maior penetração social. Os grupos moderadamente abastados eram fariseus, o que dava a eles uma maior densidade, uma maior penetração em vários estratos da sociedade. Eram criadores de consenso.

                Os evangelhos são escritos posteriores à vida de Jesus. Foram escritos por pessoas que tinham o objetivo de provar que Jesus era o Cristo, o Messias. Sendo assim, há um esquema presente em todos: Jesus nasce miraculosamente, vive miraculosamente, morre; e ressuscita miraculosamente. Como diz Vermes, quando se ler atentamente os evangelhos é possível perceber que os apóstolos não tinham ideia do que aconteceria. Ou seja, não contavam com a morte de Jesus. O próprio Jesus se esforça o tempo todo para narrar com plena ênfase a chegada do reino de deus. Muitos dos seguidores de Jesus e – talvez o próprio Jesus - entendessem que não veriam a morte. O reino de deus havia chegado. Um exemplo disso está na passagem em que Jesus diz que “muitos não provariam a morte até que vissem o reino de deus” (Lc 9.27); ou na esclarecedora passagem: “Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, respondeu-lhes: ‘A vinda do Reino de Deus não é observável. Não se poderia dizer: ‘Ei-lo aqui! Ei-lo ali!’, pois eis que o Reino de Deus está no meio de vós’” (Lc 17. 20-21). O “reino de deus” havia chegado; era uma realidade incontrastável. 

                Entre a sua chegada, o estabelecimento do reino de deus e o final dos tempos, havia o entendimento para o próprio Jesus, que não haveria morte. Tanto é assim, afirma Geza Vermes, que o ensinamento sobre a vida após a morte nos evangelhos é algo vago. A sentença que emula a doutrina evangélica é a chegada do reino de deus.

                Desse modo, a morte de Jesus foi um verdadeiro “balde de água fria” nas intenções dos seus seguidores. Aquilo os aturdiu profundamente. Ficaram confusos. Sem entender o evento. Alguns, talvez, até decepcionados. Afinal, Jesus havia feito a promessa de uma redenção, de uma transformação por meio da chegada de seu reino.  Os quatro evangelhos, de acordo com a redação encontrada na bíblia nos nossos dias, aparentemente, conservam uma narrativa coesa. Todavia, analisada em detalhes, deixam algumas pistas. Diz Vermes:

“O tema da ressurreição ganha importância através do tratamento de dois aspectos da vida de Jesus nos Evangelhos. Para servir às necessidades apologéticas da Igreja explicando a cruz e a subsequente ressuscitação do Messias, os evangelistas sentiram-se obrigados a inserir, nas suas narrativas da fase final da vide de Jesus predições reiteradas da sua morte e ressurreição iminentes. Essas profecias visavam, aparentemente, preparar seus companheiros mais próximos para a sua queda e exaltação imprevistas ao final de sua carreira. É óbvio que ao tentar relatar a ressurreição de Jesus os evangelistas enfrentaram uma laboriosa tarefa. Seus relatos exibem numerosas incoerências. Contudo, as sete ou oito décadas – entre 30 d.C. e 100-110 d.C., os anos que separam a morte de Jesus da conclusão do Evangelho de João – testemunharam uma certeza constantemente crescente na Igreja Primitiva quanto à ressurreição de Jesus e sua presença espiritual entre os seus seguidores”. (pp. 135,136)

                Sendo assim, a ressurreição é um tema que ganha relevância, pois a morte de Jesus quebrou o fluxo de expectativa dos seus seguidores. Os evangelhos procuram direcionar a narrativa, deixando a entender que aquilo estava no horizonte da pregação de Jesus. Todavia, as contradições internas atestam uma tentativa de inserção do tema. Há a busca de relacionar a morte de Jesus com predições do Antigo Testamento que se harmonizassem com a vida de Jesus. Um exemplo disso se encontra em Mateus 12.40. Nesta passagem Jesus faz supostamente uma analogia da sua morte com o fato do profeta Jonas ter ficado ‘três dias no ventre de um monstro marinho’. Do mesmo modo, ele ficaria três dias no ‘ventre da terra’, até ressurgir dos mortos.

                Como nos alega Vermes, essa afirmação possivelmente seja fruto de uma organização pessoal do escritor do Evangelho segundo Mateus. É a “laboriosa tarefa” de que fala o escritor. Diante do evento da morte de Jesus, foi necessário criar um enredo capaz de criar  esperança. A ressurreição não era o fim. Paulo, mais tarde, falaria que “Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram” (1 Co 15.20).

                Uma outra questão importante levantada por Vermes diz respeito a como cada evangelista narra o evento da ressurreição, o que atesta um desencontro de perspectivas. Ou seja, cada evangelista se muniu de material diverso. Isso gerou desencontros nos detalhes da suposta ressurreição.

 Mateus diz que Maria Madalena e a outra Maria foram ao túmulo, no primeiro dia da semana, e um anjo removeu a pedra e sentou-se sobre ela. O anjo possuía o brilho de um relâmpago. Os guardas tremeram de medo e ficaram como mortos. As mulheres são aconselhadas pelo anjo a contarem para os discípulos que Jesus havia ressuscitado e que iria para a Galileia. Jesus aparece para as mulheres e reitera o que havia sido anunciado pelo anjo. Os guardas são subornados pelas autoridades para não confessarem o que havia acontecido. Era preciso falar que os discípulos roubaram o corpo de Jesus enquanto os guardas dormiam. Na Galileia, Jesus se encontra com os onze discípulos. Anima-os e encoraja para que eles levem a mensagem ensinada até os confins do mundo. (Mt 28).

Em Marcos, diz-se que José de Arimatéia pediu o corpo de Jesus a Pôncio Pilatos (sic.). José tirou Cristo da cruz. Enrolou-o em um lençol e o pôs num túmulo que fora talhado na rocha. Em seguida, fechou a entrada do túmulo com uma pedra. Maria Madalena e Maria, mãe de Joset, observavam onde Ele (Jesus) fora posto. Tendo passado o sábado, elas voltaram para aplicar aromas ao corpo de Jesus. Afinal, os preparativos não foram feitos por causa do final da sexta-feira, quando foi morto, e o início do sábado. Elas especulavam entre si como removeriam a pedra.  Dessa vez, diferente de Mateus, havia pelo menos três mulheres – Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé. Em Mateus não consta, Salomé. Outro detalhe, de Mateus para Marcos é que, em Mateus, o anjo senta-se na pedra à entrada do túmulo; em Marcos, elas entram para o túmulo e encontram o anjo sentado. Nos manuscritos mais antigos, o capítulo 16 de Marcos termina abruptamente no versículo 8. Nota-se, quando se inicia o versículo 9, que o texto tenta retomar um assunto, mas há uma clara mudança no foco narrativo. É como se alguém tivesse pegado um texto inacabado e fizesse um fecho para delimitar o seu fim.

Nesse sentido, é preciso perceber que o enxerto insere outras aparições. A narrativa retilínea de Mateus é bem diferente do emaranhado de aparições de Marcos. Por exemplo, Mateus diz que ele reapareceu para os onze no alto de um morro. Em Marcos, Jesus se manifesta quando os discípulos estão á mesa. O texto chega ao seu cabo com a seguinte sentença: “Ora, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi arrebatado ao céu e sentou-se à direita de Deus” (Mc 16.18). E diz o texto que eles saíram dali decididos a pregar.

Em Lucas, há um detalhamento maior. Enquanto Marcos é frugal com o seu texto, o autor de Lucas procura ser meticuloso. Repete alguns eventos encontrados nos dois textos. Fala de José de Arimatéia. Descreve a intervenção dele junto a Pilatos. O depósito do corpo de Cristo em um túmulo.  As mulheres que ficam observando à distância onde o corpo havia sido colocado. Quando elas voltam, encontram o túmulo aberto. E, dessa vez, não é mais um único anjo: são dois com vestes fulgurantes. Outra diferença é o nome daquelas que vão ao túmulo: Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago. Novamente, não há referência a Salomé. Em compensação, surge alguém denominada de Joana. De acordo com Lucas, ainda havia outras mulheres. (Lc 24.10). Outro detalhe que exibe a contradição sobre o tema diz respeito ao modo como Jesus aparece para os onze. Após o episódio do caminho de Emaús, Jesus aparece para os onze, dessa vez, em Jerusalém. Em Mateus e Marcos, afirma-se que esse encontro se deu na Galiléia. (lC.24.33-36). Em Marcos, é dito que a ascensão de Jesus se deu forma abrupta, quando eles estavam comendo. Em Lucas, os discípulos vão com Jesus até Betânia. E nessa localidade, Jesus foi “elevado ao céu”.

                Em João, a figura de José de Arimatéia reaparece, acompanhado, dessa vez, por Nicodemos. Observa-se que os preparativos para o sepultamento acontecem ainda na sexta-feira. Segundo narra o autor de João, Jesus foi colocado em uma espécie de jardim, em um sepulcro novo. João insere outros elementos, o que sugere que houve uma tentativa por parte dos evangelistas de criar uma narrativa que correspondesse à nova situação que se estabelecera, a saber, a morte de Jesus. Diz João que Maria Madalena foi sozinha ao túmulo (sic). Tendo chegado lá e percebido que o túmulo estava aberto e vazio, voltou e foi avisar a Simão, ou seja, a Pedro, e, possivelmente, a João, o discípulo que Jesus amava. Os dois correram até o túmulo e comprovaram aquilo que havia sido dito por Maria.

                Maria fica – sozinha – chorando “junto ao sepulcro”, “de fora”. E aparecem dois anjos. Mas, junto com os anjos, Jesus também aparece para ela. Ela não o reconhece. Após tê-lo confundido com um jardineiro, ela o identifica. Ele pede para que ela vá contar a novidade aos discípulos. Estando todos trancafiados, ele aparece no meio deles. Apresenta-se e sopra sobre eles o espírito santo. Nesse ponto, há uma divergência para os escritos de Lucas – o evangelho e Atos dos Apóstolos -, pois nos dois textos eles são aconselhados a ficarem em Jerusalém até que do alto fossem revestidos de poder. Oito dias depois, estando os discípulos juntos, ele reaparece – aparentemente – para dar uma prova de vida a Tomé. João termina dizendo que Jesus fez inúmeros outros prodígios que não estão escritos no seu texto. Na parte final, há uma espécie de epílogo. Funciona como se fosse um evento deslocado do texto principal, mas que traz algumas informações curiosas. O fato que chama a atenção é a pescaria frustrada de alguns discípulos. Jesus faz um outro milagre: o milagre da pesca abundante. Pedro e os seus companheiros recolhem 153 peixes grandes. Diz João que essa foi a terceira vez que ele apareceu para os discípulos, depois que havia ressuscitado dos mortos. Há uma série de falas repletas de um mistério que se projeta de forma aleatória. E o texto de João termina dizendo que Jesus realizou tantas ações que, se elas fossem descritas, não caberiam nos livros do mundo.

                Em Atos dos apóstolos, o autor – supostamente Lucas – diz que Jesus ficou com os discípulos durante quarenta dias. Jesus diz, “no decurso de uma refeição”, que eles deveriam permanecer em Jerusalém. Nota-se que diferente de João, eles ainda receberiam o espírito santo. De repente, o texto afirma de maneira estranha que ele “foi elevado à vista deles, e uma nuvem o ocultou a seus olhos”. Todavia, a continuidade do texto nos faz crer que eles estavam “no monte chamado das Oliveiras”. Nota-se que aqui já é o terceiro lugar de onde se fala que Jesus estava ou ascendeu aos céus – Galiléia, Betânia e Monte das Oliveiras.  Essas evidências contrastantes atestam aquilo que Vermes afirma sobre a tarefa que os discípulos tiveram a fim de criar um “esquema” capaz de dar significado à ressurreição. Era preciso tornar crível a existência de Jesus como o Messias; que sua mensagem não fracassou com a morte. A ressurreição de Jesus se tornou um emblema poderoso. É a esperança daqueles que nele esperam.

                No final do livro de Vermes, há uma referência a uma expressão usada pelo teólogo alemão Rudolf Butmann. Segundo ele, “o túmulo vazio é uma lenda apologética”. Sim. Lenda, pois passou a fazer do imaginário e dos desejos extraordinários dos discípulos. E “apologética”, pois se transformou em uma sentença teológica fundamental para o cristianismo. Na verdade, é uma marca dessa religião. Não há como dissociar esse elemento da fé. Excelente livro! Enriqueceu a minha percepção sobre esse aspecto mitológico da fé cristã.  

sexta-feira, junho 02, 2017

Um livro há muito desejado

Quando estudei em um seminário teológico, sempre busquei ler o que me vinha à mão. Li principalmente os autores de teologia dogmática. Ou seja, aqueles autores que possuem uma preocupação apologética, que trilham pelos caminhos seguros do não questionamento; que não divergem com o pensamento teológico legado pela tradição - inerrância das escrituras, Cristo como salvador absoluto; divino e humano; Salvador, Messias; somente a graça é capaz de salvar, a trindade etc. São temas basilares, estruturais, que firmam a fé da igreja. Esses dogmas foram consolidados ao longo dos séculos por meio de debates acalorados. 

Por outro lado, havia aqueles autores "perigosos". Se lêssemos, passávamos a sermos olhados pelos colegas e pelos professores com certa preocupação. Estaríamos alimentando questionamentos e indiferença para com a fé ortodoxa? O ateísmo ter-nos-ia tomado de assalto? Estaríamos "esfriando", termo este que significa perder a paixão, até se tornar indiferente para com a fé.

Téologos como Rudolf Bultmann, Karl Barth, Paul Tillich, Emil Brunner, Jürgen Moltmann, Renan, Niebuhr ou Albert Schweitzer se pronunciados poderiam trazer um mal presságio. Tanto é assim que, enquanto estava no seminário, li apenas um opúsculo de Bultmann e outra pequena obra de Tillich. Ler o brasileiro Rubem Alves era tóxico também. Vale fazer uma pequena digressão aqui, pois muitos desses teólogos foram introduzidos no pensamento teológico brasileiro por intermédio de Rubem Alves, quando este estudou nos Estados Unidos nos anos 60 e 70 do século passado. Livros como Teologia de Esperança, Protestantismo e Repressão, O enigma da religião, O que é religião? e Dogmatismo e Tolerância, do grande filósofo e teólogo mineiro foram fundamentais para que eu criasse uma lastro crítico necessário para relativizar algumas construções teológicas tidas como inquebráveis e fundamentais. 

Recordo-me que certa vez encontrei um colega lendo A busca do Jesus Histórico, do alemão Albert Schweitzer. Inquiri o colega sobre o livro. Falou-me do que tratava. Fiquei interessado. Eu já ouvira falar sobre Albert Schweitzer pela caneta de Rubem Alves. Trata-se de um grande humanista, extraordinário organista e amante da música de Johann Sebastian Bach; um intelectual refinado; um homem com uma alma apaixonante; erudito que se radicou na África para cuidar de homens e mulheres doentes. Era um sujeito que conseguia conciliar a erudição do pensamento filosófico-teológico e ao mesmo tempo arregaçar a manga para cuidar do corpo moribundo de sujeitos padecentes. Este fato deu a Albert Schweitzer o Nobel da Paz, em 1953.  A busca do Jesus Histórico é a sua tese de doutoramento escrita no ano de 1899. 

   Albert Schweitzer (1875-1965)

Sempre procurei o livro para ler, mas nunca havia obtido sucesso. Até que no início do mês passado, ao fazer uma busca na internet, encontrei-o no sítio da Saraiva. Não hesitei. Comprei imediatamente. Hoje, demorados mais de vinte dias, recebi-o quando cheguei do trabalho. Fui imediatamente movido pela curiosidade e já bebi algumas páginas da obra de Albert Schweitzer.

O autor alemão nesta obra, centra a sua atenção, por meio de uma espécie de busca arqueológica, do Jesus histórico. Ou seja, o homem real, que talvez tenha vivido na Palestina há dois mil anos atrás. A Igreja sempre se preocupou em retratar o Cristo da fé, divinizado, celestializado e confirmado pela construção do dogma. O dogma cria muros. Suplanta relativizações. Impede os questionamentos. As informações que temos sobre a sua existência são rarefeitas. Não estão solidamente confirmadas em documentos relevantes. E o resultado da investigação de Schweitzer. é acachapante: o Jesus histórico não existe. O que existe é uma figura alimentada pela psicologia, projetada pela nossa própria auto-imagem. O Jesus da fé é diferente do Jesus histórico, pois este é inócuo em sua materialidade, mas aquele é agigantado pela fé, fazendo crescer naquele que crer, um sentimento que renova e transforma a sociedade e a história. 

É começar a leitura imediatamente.


quinta-feira, janeiro 02, 2014

Alguns devaneios e um livro de Paul Tillich - "História do pensamento cristão"

Paul Tillich
Sempre fui religioso. Durante muito tempo, o medo e a culpa foram as minhas principais religiões. Fiz minhas preces. Li a Bíblia quatro ou cinco vezes. Frequentei igreja. Elaborei prédicas. Semeei esperanças e julgamentos. Tudo em nome de um dogma. Estudei em um seminário. Formei-me em teologia. Perscrutei como são as entranhas da religião. Senti o cheiro de seus órgãos. Como são estruturados os seus tecidos. A régua de cálculo é a teologia. É com ela que se mede os espaços; que se estabelece aquilo que é certo ou errado. A religião é, por natureza, dicotômica. Ela não existe sem um "sim" e sem um "não". Ou seja, ela não consegue existir sem a ideia de "bem" e sem a ideia de "mal". De "bem" se chama aquilo que está harmonizado com os ditames do dogma; de "mal" se chama aquilo que não está de acordo com as sentenças do dogma.

Analisando friamente a história da evolução do homem, chegamos a conclusões desconcertantes. Tudo está na história. Ela explica o presente. A questão essencial passa a existir quando negligenciamos a análise dos processos históricos. O mundo sempre foi o mesmo? Os antigos não estruturaram as nossas consciências? A resposta para as certezas do presente não estariam no passado? 

Hoje temos a tecnologia por todos os lados. Ela nos pervade. Estamos tão acostumados a ela, que achamos estranho quando ficamos sem nosso celular ou sem acessar a rede mundial de computadores; ou quando a energia elétrica tem o fornecimento prejudicado. Acostuma-nos às informações. Quando queremos saber algo vamos ao Google. Lá encontramos todas as respostas. Tudo é tão óbvio. A medicina caminha a passos largos. Conseguimos coibir boa parte da enfermidades que eram capazes de dizimar populações inteiras.  Temos ressonâncias computadorizadas sofisticadíssimas. Enxergamos, hoje, o núcleo essencial da vida. Mapeamos geneticamente o DNA. Vimos que não estamos distantes dos outros seres do ponto de vista genético. Existe um nível de parentesco muito grande - principalmente, com os primatas. Podemos escolher o sexo, a cor dos olhos, do cabelo das crianças.

Sören Kierkegaard

Mas tudo foi assim? E quando queríamos entender essas coisas e não tínhamos um aparato científico tão desenvolvido? É, justamente, aí que entra a religião. Ela foi a primeira forma de explicação. Os mitos surgiram como forma de explicar a materialidade. Os antigos, simplesmente, disseram: "É vontade dos deuses!" Era a forma de construir diques contra o caos de uma existência fincada no nada. Em momentos de solidão, de agonia, de dor, o melhor remédio é saber que não se está sozinho. Daí, ao se criar um "ser invisível", "onipotente", "onipresente", que vigia e guarda os nossos desejos, passamos a experimentar uma estabilidade psicológica. Feuerbach, filósofo alemão do século XIX, costumava dizer que religião é "antropologia". Eu diria, também, que religião é "psicologia". Tudo é resultado de uma consciência depositada em receptáculo onipotente (deus), que passa a guardar, salvar, premiar, privilegiar e explicar a totalidade do universo. 

O crente encontra tudo o que ele procura em sua fé. Ela explica tudo. Tire-se a fé e ele tem as suas estruturas psicológicas abaladas. Todavia, ele não sabe que tudo está em nós. Ou seja, a religião revela intimidade do próprio homem. Seus medos. Inseguranças. Seus desejos velados. Sua necessidade de justiça ante a injustiça. Sua vingança contra os cataclismos de um mundo desordenado. É a saudade sentida por algo que ele nunca experimentou, que se transforma em torrente psicológica quando ele verbaliza para um ente invisível. Deus é o próprio homem querendo achar a si mesmo na noite escura da alma. 

Ocorreram-me esses devaneios, depois que li o livro História do Pensamento Cristão, de Paul Tillich, um dos maiores teólogos da história do cristianismo protestante. Tillich era polonês e após ter participado da Primeira Guerra Mundial teve as suas percepções sobre o ser humano e a história completamente alterados. Por ter vivenciado as agruras da guerra como capelão, observou o quanto o ser humano é habitado por uma torpeza absurda. Abraçou uma epistemologia existencialista. Kierkegaard é um dos progenitores do seu pensamento. Leciounou teologia em um seminário que tinha nomes como Heidegger e Rudolf Bulltmann. E a partir desse entendimento buscou trazer lampejos de esperança ao homem do século XX. A desolação de uma época fundada na desesperança fez com que Tillich construísse uma teologia que respondia a um questionamento: "Onde está Deus em meio a tudo isso? Onde achar esperança?" E Tillich respondia: "A mensagem de esperança está escondida em ti. Deus é um evento relativo que está escondido em ti mesmo, ó homem do caos". 
 
A mensagem, necessarimente relevante, é aquela que responde a uma necessidade pessoal. A religião fica nua, sem os seus dogmas, sem as suas folhagens; sem seus códigos construídos pelos "eminentes" teólogos. Ou seja, a filosofia passa a está à frente da fé. Não é a fé que, agostianamente, dita o que é certo ou errado em matéria de crença, mas a existência que determina o ser ou não-ser.  Poderia dizer que é um quase tomismo sem o método escolástico. 

O livro de Tillich solidificou uma desconfiança que há muito me acompanhava. Vi como os dogmas do cristianismo, as polêmicas e o pensamento hegemônico se consolidaram. O mundo que está aí foi montado por alguém. E essa deve ser a premissa. Ora, quem "construiu" os dogmas do cristianismo? Por que se crer desse jeito e não de outro? Por que o mundo ocidental é cristão e não politeísta ou não se tem uma fé gnóstica? Por que se crer na trindade? Esse conceito sempre existiu? A dupla natureza de Cristo é algo que sempre foi acreditado dessa forma? E os livros bíblicos ditos sagrados, quem os tornou "santos"? E o dogma do pecado original? 

São questões que devem ser respondidas com máxima urgência. Quando se olha para a história, nota-se que determinados sujeitos construíram esses conceitos. Os concílios fomentaram aquilo que se deveria crer e aquilo que não se deveria crer. Ou seja, o mundo ocidental acredita naquilo que foi construído pela institucionalização de um movimento. A cultura hegemônica de um povo tornou-se a referência absoluta incomparável. Gramsci afirma de forma lapidar sobre esse tema: 

Antonio Gramsci
"(...) A história da filosofia, como é comumente entendida, isto é, como história das filosofias e dos filósofos, é a história das tentativas e das iniciativas ideológicas de uma determinada classe de pessoas para mudar, corrigir e aperfeiçoar as concepções do mundo existentes em todas as épocas determinadas e para mudar, portanto, as normas de conduta que lhes são relativas e adequadas, ou seja, para mudar a atividade prática em seu conjunto"
"A filosofia de uma época não é filosofia deste ou daquele filósofo, deste ou daquele grupo de intelectuais, desta ou daquela grande parcela das massas populares: é uma combinação de todos estes elementos, culminando em uma determinada direção, na qual sua culminação torna-se norma de ação coletiva, isto é, torna-se "história" concreta e completa (integral)". 
"A filosofia de uma época histórica, portanto, não é senão a história desta mesma época, não é senão a massa de variações que o grupo dirigente conseguiu determinar na realidade precedente: neste sentido, história e filosofia são inseparáveis, formam um "bloco". (GRAMSCI, 1981, p.32).

Assim, nota-se que a construção de determinada massa ideológica ou determinado força filosófica hegemônica se dá em determinado momento histórico pelo grupo majoritário, pelo jogo de interesses do grupo dominante. Os dogmas ou os sentidos da fé são resultado da força da Igreja que açambarcou a estrutura do Estado romano e se tornou a força ideológica totalizante. Os filósofos, teólogos, são, simplesmente, debatedores de uma dogma criado superestrutura que tinha a Igreja como força oficial. Ou seja, debatiam o status quo filosófico.

O livro do Tillich é relevante. Ele faz um passeio pela história. Discute o pensamento de cada filósofo e as querelas suscitadas pelas filosofias de cada um deles. Boa parte do livro é dedicado a discutir o pensamento teológico e filosófico dos primeiros séculos da era cristã. Explica os principais movimentos filosóficos religiosos que faziam parte do background dos mundos grego e romano e que foram extirpados pelo cristianismo. Teólogos importantes como Pelágio, Orígenes, Filo de Alexandria, Ário, Sabélio, tiveram seus pensamentos colocados na marginalidade pela força oficial da Igreja. As cidades importantes que fomentaram importantes debates - Alexandria, Antioquia, Bizâncio, Calcedônia.

Discute os principais nomes da filosofia e da teologia medieval - Tomás de Aquino, Abelardo, Bernardo de Claraval, Joaquin de Fiori, Anselmo, Guilherme de Ockham, Meister Eckhart. Discute os principais dogmas da Reforma e da Contra-Reforma. Discute, em seguida, o movimento escolástico protestante e o iluminismo. O livro é excelente para quem quiser conhecer profunda e filosoficamente como a fé ocidental está estruturada. O livro, na verdade, é resultado das aulas de Tillich dadas no período em que ele morou nos Estados Unidos.

Tinha o livro desde 2007 e li no final de dezembro último. O interesse foi tão salutar que comprei o outro livro do teólogo (Perspectivas da Teologia Protestante nos séculos XIX e XX), em que Tillich aborda a filosofia e a teologia dos séculos XIX e XX. Consegui-o em um sebo de Goiânia pela bagatela de vinte e um reais. Está novinho em folha.

GRAMSCI, Antonio. Concepção Dialética da História. Civilização Brasileira. trad. Carlos Nelson Coutinho, São Paulo. 1981, pp. 341

TILLICH, Paul. História do pensamento cristão. ASTE. São Paulo. 2004, pp. 293

terça-feira, agosto 13, 2013

Um comentário sobre (D)(d)eus...

 Comentário escrito no blog do Charlles

"Bonita a sua confissão sobre (D)deus, Charlles. Aproxima-se bastante daquilo que creio, também, sobre espiritualidade. Há muito frequentei uma igreja presbiteriana. Contaram-me a história de um deus institucional, zangado, cheio de caprichos e caricaturado à imagem e semelhança dos judeus. Deixei de lado, ri sardonicamente na cara desse deus. Disse que ele era uma mentira. Uma fraude cosmológica. Alguém recalcado. Disse ainda que a mitologia grega era mais bonita do que tudo aquilo que me falaram sobre ele.

Solidarizo-me com as suas palavras. Existe no ser humano uma voz lancinante que clama por espiritualidade. Uma espécie de necessidade do belo. E aí encontro a ideia de deus. É, por isso, que passei a me relacionar com a ideia de deus melhor quando dessacralizei a bíblia e passei a lê-la como um livro de literatura, evocando um grande teólogo alemão chamado Rudolf Bulltmann de espistemologia kierkegaardiana e heideggeriana. Um personagem como Jesus certamente se assemelha a um Dom Quixote em sua sede pela verdade; ou um príncipe Michkin com sua necessidade de justiça. E aí encontro um apaziguamento necessário às minhas necessidades. Existem hinos mais bonitos que as sonatas de Beethoven ou de Mozart; ou a obra espiritual de Bach?

Ser espiritual é encontrar poesia em cada átomo da existência, em cada centelha da vida. Nesse sentido, encontro a espiritualidade da afirmação da vida, sempre - como diria Nietzsche. Julgo o movimento ateísta essencialmente radical. É um fundamentalismo sem deus. Ou seja, uma religião radical que prega a ausência de algo, mas que torna essa mesma ausência em uma entidade que se sobrepõe a tudo.

Abraços cordiais, Charlles!"