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quarta-feira, março 05, 2025

De que são feitos os dias? | Cecília Meireles

De que são feitos os dias?
– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…

 

Acredito que este seja um dos poemas que mais concentram o mistério de que é feita a vida. Cecília consegue criar paralelos, oscilações, fluxos antitéticos, que englobam o conteúdo da existência. Camus diz em "O mito de Sísifo" que só 'vive quem toma consciência do absurdo'. Sim. Vive quem consegue lidar com o absurdo das perdas proporcionadas pelo tempo; que consegue administrar as "vagarosas saudades" e as "silenciosas lembranças"; que se escancara - incompreensível - diante de si.

A existência só se torna plena para quem reconhece ser um vulcão gerador de "mágoas sombrias", mas que é capaz de "pequenos lampejos", de "vagas felicidades" e de "inatuais esperanças". Somos feitos de contradições, de movimentos inconscientes, gestados da cumplicidade daquilo que, muitas vezes, não controlamos e não sabemos da sua textura. A vida absurda é feita "de loucuras", "de crimes", "de pecados", "de glórias", de fracassos, de avanços... e retrocessos. Somos feitos "de medo". Misturamos muitas substâncias em nosso ser. Distraímo-nos a maior parte do tempo. Dentro dessa realidade "vivemos", avançamos, "choramos" com as resoluções desencontradas e, com isso, forjamos "sinistras alianças".



segunda-feira, março 20, 2023

"Caminhos Cruzados", de Erico Veríssimo

 


                A década de 30 do século XX foi uma das mais ricas para a literatura brasileira. Viveu-se o que se convencionou chamar de Segunda Geração Modernista (1930-1945). A literatura produzida por aqui desenvolveu o seu engajamento. Liberdade para criar e reconhecer as contradições brasileiras ganharam forma. Tanto a poesia quanto a prosa assumiram uma posição de denúncia. Há nomes importantes na poesia – Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Murilo Mendes. Na prosa, também se observa a força, a pujança das narrativas, uma preocupação com a crítica à condição do homem numa sociedade repleta de duros antagonismos.

                No Nordeste, há nomes que impressionam pelo aspecto prolífico da produção. As questões regionais passaram a ganhar visibilidade. A seca, as desigualdades, o jogo político que fazia com o poder pertencesse a certas famílias – as velhas oligarquias, fruto da formação social e econômica do país -, são expostos por Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Amando Fontes, entre outros.

                Pode-se observar ainda um movimento que tende a revelar os dramas do homem urbano. Os escritores apontavam as lutas do homem da cidade. Suas dissonâncias. Seu mal-estar psicológico. A urbe capitalista é o espaço em que o ser humano encontra-se exposto às ambivalências; à solidão; ao aparente; à angustia. Os gestos não definem um ensaio de definição.

                Erico Veríssimo foi certamente um mestre nesse sentido. “Caminhos cruzados” foi o seu segundo romance, escrito no ano de 1935. Veríssimo à sua maneira, com uma prosa ágil, despojada, dedica atenção aos homens e mulheres da Porto Alegre da primeira metade do século XX. Erico descreve com inconformismo a realidade das vidas humanas embrutecidas ou vulnerabilizadas pela luta no palco social. Ninguém está livre da crise. Seu texto é imensamente humano.

Erico Veríssimo. 

                A paisagem urbana esconde os dilemas. O romance possui vários nichos narrativos, que funcionam como uma novela. Cada capítulo dedica-se a uma personagem. Vamos conhecendo um a um; solidarizamo-nos com um; tomamos aversão a outros. O autor parece apresentar um prédio para alguém que passa pela rua. Ele aponta o seu dedo e vai descrevendo as histórias que povoam cada apartamento. Em alguns deles, notam-se a exuberância, o luxo, a vaidade. Em outros, a singeleza, a humildade, o despojamento. Como diz Antonio Cândido, é como se o escritor dividisse as personagens em dois grupos: o grupo “A”, formado pelos ricos; e o grupo “B”, formado eminentemente pelos pobres.

                Veríssimo denuncia as desigualdades sociais e a indiferença. Em um período sensível da história nacional, que estava na iminência do golpe de Estado de Vargas, não faltou quem visse intenções revolucionárias na pena do escritor.

                O gaúcho, também autor de “Incidente em Antares”, utiliza a técnica do contraponto, segundo ele, apropriada da obra do inglês Aldous Huxley. É curioso perceber como essas personagens diversas e contrastantes se aproximam e se cruzam pela urdidura da vida social. É nesse ponto, que Veríssimo realiza o movimento primoroso do acerto, pois, ao estabelecer essas conexões, ele captura a imagem de uma sociedade inteira.

                O romance gerou escândalos e protestos. Os conservadores ciosos dos valores da família, enxergaram imoralidades. Moacyr Scliar afirma que, quando adolescente, a leitura do livro era terminantemente proibida. Despertou também furor político, pois a obra foi acusada de disseminar o comunismo. Sim. Essa palavra tão incompreendida; tão onipresente no imaginário da classe média brasileira; essa palavra cujo conceito é desconhecido por muitos. 

                 Ao lermos o romance, não notamos nada disso. Observa-se que Erico é habilidoso em realizar uma crítica firme contra um país que invizibiliza parte de sua população. Se Erico suscitou debates, é pelo fato de sua obra está entretecida pelos limites impostos pelo mundo material. As personagens do livro são motivadas pelo sonho, pela esperança, mas têm suas intenções estilhaçadas pelo mundo real. Nada mais atual que isso. E nesse sentido, este romance do autor gaúcho ainda continua dizendo muito.


segunda-feira, junho 14, 2021

"Escolha o seu sonho", de Cecília Meireles



“Ir pensando em coisas cada vez mais distantes: a rua, a cidade, a estrada, o país, o mundo, o espaço, a eternidade...”
Cecília Meireles in “Escolha o seu sonho”, p. 95.


Em meu processo de leitor amador e incipiente, sempre que imagino a poetisa Cecília Meireles, me vem à mente uma delicada imagem de uma fada a fazer arranjos suaves com as palavras. Mas, deixemos de lado essa construção banal e piegas. Essa impressão ganhou contornos mais sólidos, pois terminei a leitura de um dos textos da autora do “Romanceiro da Inconfidência”.

A leitura realizada não é de uma das dezenas de livros poéticos que escreveu. Trata-se de uma compilação de crônicas escritas sobre os mais variados assuntos, denominado apropriadamente de “Escolha o seu sonho”. “Sonho” é uma palavra com poderes intrínsecos nos textos de Cecília. Considerada uma das grandes poetisas da Língua Portuguesa, a escritora carioca recebeu inúmeros prêmios nos países os quais visitou.

Cecília é considerada uma autora modernista. Todavia, o seu modernismo não se preocupa com os jogos herméticos de sintaxe; com a manipulação de estruturas vernáculas para criar efeitos mirabolantes de linguagem, como característico em certos escritores modernistas. Não. O texto de Clarice é límpido como um riacho alpino. É singelo. É claro. Seus textos são considerados, do ponto de vista do enquadramento técnico, como neossimbolistas. Clarice transcende a realidade com poucas imagens. De repente, mergulhamos em um sonho e nos vemos desnudos diante de um espelho, abraçados pelas delicadezas e sublimidades da Via-Láctea. Quase sempre somos impelidos à contemplação; a eflúvios brandos; com a textura de nuvens brancas, brandas, macias.

“Escolha o seu sonho”, mesmo sendo um conjunto de textos em prosa, não deixa passar desapercebido essa delicadeza repleta de simplicidade da escritora. Os textos curtos partem de situações banais do dia a dia e que, de repente, são transcendidas por uma linguagem singela como uma pincelada certeira que colore um quadro. Quando menos se percebe somos impelidos a uma paisagem que se descola do corriqueiro. O olhar privilegiado e sensível de Cecília é capaz de transformar qualquer fato cotidiano em uma joia para uma reflexão irresistível. 




O livro reúne 45 crônicas. Busquei ler uma por dia; às vezes, duas ou três. A ideia era refletir, meditar, ruminar as ideias expressas em cada texto. Apesar de serem textos simples, são densos de conteúdo. Como por exemplo, a crônica que descreve uma ida à feira numa tarde de sábado. Ou ainda, sobre quando a escritora se encontrou com nobelino escritor americano William Faulkner. O texto límpido como um regato, o qual conseguimos enxergar o fundo, deixou-me impressionado. Li-o duas vezes seguidas para me deixar encharcar pela sua prosa superior. Em certo momento do texto ela diz, referindo-se às falas enunciadas por Faulkner: “Foi um breve discurso em que afirmava a fé no espírito humano. Sua voz ainda parecia mais desaparecida ao estrugir dos aplausos. Lera, com simplicidade, pareceu-me que sem nenhuma ênfase. Pareceu-me que até com displicência. Mas o que dissera tinha eternidade” (destaque intencional). p. 56

Em suas deliciosas crônicas como se fosse uma manhã ensolarada, de vento fresco e céu azul, Cecília foge dos hermetismos. Ela possui uma fórmula capaz de transformar qualquer coisa em sagrado. Impressiona o quanto ela conseguia descomplicar o mundo. Parecia possuir uma chave que escancarava uma realidade elevada, alta, sem as peias do medíocre, do afetado, do banal.

Como o mundo precisa da singeleza, da delicadeza e da simplicidade do texto ceciliano!

segunda-feira, dezembro 05, 2016

Ferreira Gullar (1930-2016)

Buenos Aires, 1975 (no exílio)
(...) Numa noite há muitas noites
mas de modo diferente
de como há dias
no dia
(especialmente nos bairros
onde a luz é pouca)
porque de noite
todos os fatos são pardos (...)
(Trecho de Poema Sujo)

Ontem, morreu José Ribamar Ferreira ou, simplesmente, Ferreira Gullar, um dos grandes mestres da moderna poesia brasileira. Ao lado de Carlos Drummond, Manuel de Barros, João Cabral de Melo Neto, Cecília Meirelles e Manoel Bandeira, Gullar constitui, ao meu modo de ver, aquilo que de melhor produzimos em matéria de poesia. Sua carreira foi atravessada por muitos eventos importantes. 

Nascido em São Luis do Maranhão, Gullar foi um intelectual que assumiu posições polêmicas, principalmente a partir dos anos 80. Lendo uma entrevista que ele deu ao jornal espanhol El País, há dois anos atrás, nota-se o nível de "entorpecimento político" do grande poeta. É importante salientar que como cidadão, Gullar poderia emitir as opiniões que bem entendesse. Todavia, o grande problema é defender um político como Aécio Neves e chamá-lo de "bom gestor"; de que ele "atendia às expectativas políticas do momento" por ter feito um bom governo em Minas Gerais, algo bastante dubitável do ponto de vista objetivo. Para alguém como ele que escreveu algo tão denso como o Poema Sujo, um texto que destroça por dentro todo aquele que o ler, tal postura é negar a dialeticidade da própria obra. 

Outra questão é o fato de ter aceitado a nomeação para a Academia Brasileira de Letras, algo que ele sempre negou que faria.  Mas é importante salientar, que os intelectuais são criaturas humanas, por isso, passíveis ao erro. São como as divindades gregas, que possuíam apenas a imortalidade como realidade que as distanciavam dos humanos mortais. Por outro lado, eram acometidas por todo tipo de paixões e intrigas levianas.

Deixando de lado essa "licença poética" dos fatos da vida, Gullar foi um intelectual bastante atraente. É bom escutá-lo. Beber suas palavras, como no vídeo abaixo. É uma entrevista em que ele conta um pouco de sua vida em São Luis; a incursão no Partido Comunista Brasileiro (PCB); o exílio (Argentina, Chile e União Soviética) e as lutas diárias em país que vivenciava uma Ditadura.  Desde ontem que estou lendo o Poema Sujo. Peguei ainda Todo Poesia, lançado pela Civilização Brasileira, e que traz tudo aquilo que ele havia escrito até 1980 - inclusive o Poema Sujo. Abaixo, segue um dos poemas de que mais gosto do poeta: O açúcar. É uma verdadeira do ponto de vista do movimento dialético e da relação do trabalho que não se enxerga, mas que está latente na substância "branca", "pura", "afável ao paladar", "como beijo de moça".

O açúcar

O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.

Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.

Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem de fome
aos 27 anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.

Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.  


Um trecho do Poema Sujo pelo próprio Gullar.