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segunda-feira, agosto 08, 2016

Contos de Kolimá - livro 2 - "A margem esquerda"

Voltei ao texto de Varlam Chalámov. Como afirmei há algum tempo atrás, pretendo ler os seis livros que serão lançados pela Editora 34. Até agora saíram três. Vou para o segundo. Não há como ler Chalámov e não sair com uma experiência amarga e realista sobre os limites da natureza humana. Em Chalámov passamos a entender que escrever é um forma de resistência, de manter-se vivo, de suportar a facticidade da história, mesmo quando ela nos marca e deixa em nós o seu gosto amargo.

O russo foi levado ao inferno duas vezes, ou seja, foi preso duas vezes e enviado para Kolimá - região afastada da Sibéria - acusado de atividade contrarrevolucionária. Esteve no mundo subterrâneo, na casa dos mortos, dos degredados. São memórias que revelam como o homem pode se tornar o lobo do próprio homem. Poucas coisas na história da humanidade podem ser comparadas às experiências vivenciadas nos campos gelados de Kolimá. Vê-lo narrar com frieza e ataraxia, mostra-nos o quanto ele resistiu e manteve-se sóbrio. 

O escritor foi uma daquelas existências afeitas às grandes tragédias, aos grandes infortúnios que seguem determinadas figuras. Ao regressar após vinte anos em degredo, é enxotado pela esposa que manda que ele pegue os badulaques pessoais e siga para o outro lugar. Sou capaz de enxergá-lo escrevendo, sozinho, os seis tomos de Os Contos de Kolimá. Sua memória privilegiada foi capaz de esponjar os fatos, as dores lancinantes provocadas pelo infortúnio de uma existência condenada ao trabalho forçado, à má alimentação, ao frio, aos insetos, à sujeira, ao escorbuto, à infâmia, ao olhar torto e desconfiado dos lacaios do regime soviético. 

O conto de abertura - O procurador da Judeia - é uma aula de serenidade, de quem aprendeu a conviver com o sofrimento; de quem já se acostumou com todo o espectro de desgraças; de quem já viu aquilo que seres médios não imaginam. A narrativa conta de um navio que transporta três mil prisioneiros que são tratados como monturo. Milhares já haviam morrido e são jogados em valas-comuns, sem que se preocupe com suas histórias pessoais. Chalámov escreve assim:

"... Em cinco de dezembro de 1947, o vapor KIM entrou na baía de Nagáievo com uma carga humana - três mil presos. Durante a viagem os presos fizeram um motim, e as autoridades, para enfrentá-los, decidiram inundar de água todos os porões. E tudo a um frio de quarenta graus negativos. O que é uma queimadura de gelo de terceiro, quarto grau..."

São por meio desses enxertos de acontecimentos com feições de surrealidade, que encontramos o resultado do trabalho narrativo de Chalámov. A leitura do seu texto nos cura. E isso é paradoxal. Coloca-nos diante de uma maturidade, de uma serenidade que nos instrumentaliza para resistir aos grandes reveses. Em Chalámov, aprendemos que "o medo", como ele mesmo falou, "é um sentimento vergonhoso e depravador, que humilha o homem". Assim, existe uma beleza silenciosa, graciosa, mesmo em meio à tragédia e ao horror. Chalámov consegue destilar equilíbrio mesmo em meio à loucura; consegue a sobriedade quando os homens desvairavam. Seu texto é um sopro de vida em meio ao asfixiamento físico e moral de uma época e serve como reflexão, como um daqueles ensaios de Montaigne. Em Chalámov, ainda, vemos quando a vida perde completamente o seu valor e se passa a conviver com a banalidade do mal. 

terça-feira, julho 15, 2008

A problemática do humano

O Livro de Michel de Montaigne Ensaios é uma obra prima profunda, necessária. O filósofo francês discorre sobre as vicissitudes humanas. Nada escapa à ótica de Montaigne. Os Ensaios são uma coleção de reflexões sobre as panacéias e os costumes humanos – a moral humana, os vícios humanos, sobre as organizações humanas, sobre as vaidades, variabilidades e futilidades humanas. Trata-se de uma bíblia filosófica que deve ser lida com exagerada reflexão atenta. Nessa época onde se vende livros de auto-ajuda. O mercado que procura títulos sobre o self, acredito que todos deveriam se debruçar sobre o conteúdo extraordinário de os Ensaios.
Para Montaigne os homens são iguais em nesciandades. O que ocorre a um homem ocorre a outro. Todos estão subjugados às mesmas forças naturais. Tanto o rei como o servo defecam. A se julgar a priori, alguns diriam que isso não é um pensamento filosófico profundo. Todavia, nisso repousa a mais profunda cadência daquilo que é essencial no humano. Não há vantagens, apenas aparências, que em sentido estrito, não conservam nenhuma diferença para ninguém. Todos morrem inexoravelmente. No fundo todos são iguais e as diferenças meras ilusões. A quem diga que Montaigne é um ceticista, um indivíduo com um senso extremos do negativo. Quem o lê assim não percebeu a crítica fina, cortante, profunda aos desmazelos humanos; às contradições humanas. Dentro de seu Castelo, albergado na torre, em sua biblioteca, Montaigne pensava o mundo (o humano).
Há uma passagem nos Ensaios profundamente emblemática que serve como eixo de gravitação da obra: “Esses escritos não têm outra orientação senão revelar-me”. Revelar diz respeito a desvelar a si mesmo, mostrar a si mesmo. Ele diz ainda: “Os que se dedicam à crítica das ações humanas jamais se sentem tão embaraçados como quando procuram agrupar harmonizar sob uma mesma luz todos os atos dos homens, pois estes se contradizem comumente e a tal ponto que não parecem provir de um mesmo indivíduo”. É dessa problemática em torno do humano que o pensamento de Montaigne se assenta e se estrutura. E quão extraordinária e difícil tarefa é essa.
Um tema da obra do filósofo é justamente sobre as metamorfoses por que passam os homens. A inconstância humana, a variabilidade, é um assunto complexo. “A constância é a qualidade mais difícil de encontrar no homem”. É por sua vez, “a mais fácil é a inconstância” – diz ele. “Não vamos, somos levados e impelidos como objetos que flutuam, ora devagar ora com violência segundo o vento”. O argumento é de que essa é uma condição humana. Pois, “valente será efetivamente quem o for em todas as ocasiões”. Ou seja, o homem é um descontínuo constante. É não é ao mesmo tempo. Se alguém diz ser algo, deve sê-lo em todo tempo.
Ser sendo é algo que não condiz com o humano. Ao humano resta o devir. Conforme diz Cícero: “Nada pode ser estável se não parte de um princípio sólido”. Não nascemos com uma previsibilidade que nos permita antever os desafios e perigos. Construímos as pontes necessárias à medida que as exigências dos abismos se mostram. “Ninguém determina do princípio ao fim o caminho que pretende seguir na vida; só nos decidimos por trechos, na medida em que vamos avançando. O archeiro precisa antes escolher o alvo, só então prepara o arco e a flecha e executa os movimentos necessários. Nossas resoluções se perdem porque não temos um objetivo predeterminado. O vento nunca é favorável a quem não tem um porto de chegada previsto”.
Para aqueles que se deparam com o dilema de ser muitos em um, Montaigne é sincero e solidário. Dirijo-me a mim e a todos os homens: “Crede-me, não é coisa fácil conduzir-me como um só homem”. Não sou um, sou vários e por isso a inconstância, os atos impensados. As sentenças que borbulham dos meus lábios revelam os muitos eus que tenho em mim mesmo. Paulo na sua carta ao romanos via-se nessa angústia, nessa dança desencontrada, nessa ciranda amalucada: “De maneira que eu mesmo não compreendo o meu modo de agir, pois não faço aquilo que quero; mas, sim, aquilo que não quero, isso sim faço”.
Somos seres inacabados construindo diariamente a possibilidade de sermos humanos. Os desafios surgem a todo instante e eis que o dilema da construção se faz. A cada momento construo uma nova ponte e isso vai me fazendo pela vida afora. Sou nesse momento a versão mais nova de mim mesmo. E amanhã a mais nova em relação a hoje. E: “Crede-me, não é coisa fácil conduzir-me como um único homem, quando tenho muitos duelando dentro de mim”. Viva o gênio profundo e perspicaz do homem Michel de Montaigne.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: Terça-feira, 15 de julho de 2008, 10:58:37.

sábado, julho 12, 2008

Da incoerência de nossas ações - Montaigne

Os que se dedicam à crítica das ações humanas jamais se sentem tão embaraçados como quando procuram agrupar e harmonizar sob uma mesma luz todos os atos dos homens, pois estes se contradizem comumente e a tal ponto que não parecem provir de um mesmo indivíduo. Mário, o Jovem, ora parece filho de Marte ora filho de Vênus. Dizem que o papa Bonifácio VII assumiu o papado como uma raposa, conduziu-se como um leão e morreu como um cão. E quem diria que Nero, essa verdadeira imagem da crueldade, como lhe apresentassem para ser assinada, de acordo com a lei, a sentença contra um criminoso, observou: – Prouvera a Deus que eu não soubesse escrever! – tanto lhe apertava o coração condenar um homem à morte. Há tantos exemplos semelhantes, e tão facilmente os encontrará sozinho quem quiser, que estranho ver por vezes gente de bom senso procurando juntar tais contradições, mesmo porque a irresolução me parece ser o vício mais comum e evidente de nossa natureza, como o atesta este verso de Públio, o satírico: “Má opinião, a de que não se pode mais mudar”.
É aparentemente possível julgar um homem pelos fatos mais comuns de sua vida; mas, dada a instabilidade natural de nossos costumes e opiniões, pareceu-me muitas vezes que os melhores autores erravam em se obstinar a dar de alguém uma idéia bem-assentada e lógica. Adotam um princípio geral e de acordo com este ordenam e interpretam as ações, tomando o partido de as dissimular quando não as deformam para que entrem dentro do molde preconcebido. O imperador Augusto escapou-lhes; deparamos nesse homem com tal flagrante diversidade de ações, tão inesperada e contínua no decurso de sua existência, que os mais ousados juízes, renunciando a julgá-lo em seu conjunto, tiveram de deixá-lo assim indefinido. Acredito que a constância seja a qualidade mais difícil de se encontrar no homem, e a mais fácil a inconstância. Quem os julgasse pormenorizadamente de acordo com seus atos, um por um, estaria mais apto a dizer a verdade a seu respeito.
Fora difícil encontrar em toda a Antigüidade uma dúzia de homens que tenham orientado sua vida em obediência a determinado princípio, o que é o fim principal da sabedoria – a qual, segundo um autor antigo [Sêneca], se resume em uma frase que enfeixa, em uma só, todas as regras da vida: “Querer e não querer são sempre a mesma e a única coisa”. E poderia acrescentar: à condição de que o que queremos ou não queremos seja justo, pois, se não o é, impossível se faz que permaneça constantemente a mesma coisa. Efetivamente, sei de há muito que o vício nada mais é senão desregramento e falta de medida; e, por conseguinte, não o podemos imaginar constante. Atribui-se a Demóstenes a seguinte máxima: a virtude, qualquer que seja, consiste de início em recolhimento e deliberação; a constância, a seguir, comprova-lhe a perfeição. Em refletindo seguimos sempre o melhor caminho, mas ninguém pensa antes de agir. “Desdenha o que pediu, volta ao que largou e, sempre hesitante, contradiz-se sem cessar” (Horácio).
Nossa maneira habitual de fazer está em seguir os nossos impulsos instintivos para a direita ou para a esquerda, para cima ou para baixo, segundo as circunstâncias. Só pensamos no que queremos no próprio instante em que o queremos, e mudamos de vontade como muda de cor o camaleão. O que nos propomos em dado momento, mudamos em seguida e voltamos atrás, e tudo não passa de oscilação e inconstância. “Somos conduzidos como títeres que o fio manobra” (Horácio).
Não vamos, somos levados como objetos que flutuam, ora devagar, ora com violência, segundo o vento: “Acaso não vemos todo mundo indeciso; uns procurando sem descontinuar, outros mudando de lugar, como para largar uma carga pesada demais?” (Lucrécio). Cada dia nova fantasia, e movem-se as nossas paixões de acordo com o tempo: “O pensamento dos homens assemelha-se na terra aos cambiantes raios de luz com que Júpiter a fecunda” (Cícero).
Hesitamos em tomar partido; nada decidimos livremente, de maneira absoluta, coerente. Se alguém traçasse e estabelecesse determinadas leis de conduta e regime político de vida, veríamos brilhar em seus atos e atitudes uma harmonia cabal e em seus costumes uma ordem e uma correlação evidentes. Empédocles observa a seguinte contradição entre os agrigentinos: alguns se entregam aos prazeres como se devessem morrer no dia seguinte e outros edificam como se a vida não tivesse de acabar jamais. O plano de vida fora, entretanto, fácil de se estabelecer, como se vê em Catão, o Jovem: quem nele toca uma tecla, toca todas, pois há nele uma harmonia de sons bem-afinados que nunca se entrechocam. Não seguimos, nós outros, tão sábio exemplo e cada uma de nossas ações decorre de um juízo específico. E, em minha opinião, seria melhor procurar-lhes as causas nas circunstâncias do momento sem mais aprofundada pesquisa e sem tirar delas quaisquer conseqüências.
Durante as desordens que agitaram nosso pobre país, disseram-me que uma jovem, bem perto do local onde eu me encontrava, se jogara pela janela a fim de escapar à brutalidade de um soldado que hospedava. Não teve morte instantânea e para se acabar tentou cortar o pescoço com uma faca, o que não a deixaram fazer. Nesse triste estado, confessou que o soldado nada mais fizera do que lhe declarar seu amor, solicitá-la e presenteá-la, mas ela temera que chegasse a violentá-la. Daí seus gritos, sua atitude, o sangue derramado, como se se tratasse de uma nova Lucrécia. Entretanto, eu soube que antes e depois dessa ocorrência sempre se mostrou muito menos arisca. Como dizem por aí, “por mais belo e decente que sejas, se não és aceito pela tua amada, não concluas, sem mais amplas informações, ser ela de uma castidade a toda prova; isso não impede que o arrieiro tenha a sua possibilidade”.
Antígono, que se afeiçoara a um de seus soldados por causa de sua valentia e coragem, mandou que o médico tratasse de uma doença que o atormentava havia muito. Observando, após a cura, que o homem se expunha muito menos nos combates, perguntou qual a razão dessa mudança que o tornara poltrão: “Vós mesmo, Sire, porquanto me libertastes dos males que faziam com que eu não apreciasse a vida”.
Um soldado de Luculo fora roubado pelo inimigo. Para se vingar executou contra ele um golpe de mão notável, amplamente compensador de seus prejuízos. Luculo, que ficara com excelente opinião dele, quis empregá-lo em uma arriscada expedição e, a fim de decidi-lo, usava todos os meios de persuasão, “com palavras capazes de entusiasmar os mais tímidos” (Horácio). Mas o soldado atalhou: “Mandai algum soldado miserável que tenha sido roubado”. E recusou peremptoriamente. Como diz Horácio: “Irá quem tiver perdido a bolsa”.
Maomé II admoestara violentamente Chasan, chefe de seus janízaros cuja tropa fora desfeita pelos húngaros, sendo que se conduzira ele próprio covardemente durante o combate. Como única resposta, Chasan, sozinho, sem precisar de ninguém, precipitou-se furioso, espada na mão, contra o primeiro pelotão inimigo que percebeu e desapareceu em poucos instantes como se fora por ele tragado. Nesse ato, parece que foi movido menos pelo desejo de se reabilitar do que em virtude de uma reviravolta em seus sentimentos: Não agia sob o impulso da coragem moral e sim por despeito. Quem ontem vistes tão temerário, não vos espanteis em vê-lo poltrão no dia seguinte. A cólera, a necessidade, a companhia ou o vinho, ou o som de uma trombeta, terão feito de suas tripas coração. Não foi o raciocínio que lhe deu coragem: foram as circunstâncias. Não nos espantemos, pois, de ver que mudou ao mudarem elas. Essa variação e essa contradição, tão comuns em nós, levaram muitas pessoas a pensar que possuímos duas almas, ou duas forças que atuam cada qual num sentido, uma no sentido do bem e outra no do mal. Uma só alma e uma só força não poderiam conciliar-se com tão repentinas variações de sentimentos.
Não somente o vento dos acontecimentos me agita conforme o rumo de onde vem, como eu mesmo me agito e perturbo em conseqüência da instabilidade da posição em que esteja. Quem se examina de perto raramente se vê duas vezes no mesmo estado. Dou à minha alma ora um aspecto, ora outro, segundo o lado para o qual me volto. Se falo de mim de diversas maneiras é porque me olho de diferentes modos. Todas as contradições em mim se deparam, no fundo como na forma. Envergonhado, insolente, casto, libidinoso, tagarela, taciturno, trabalhador, requintado, engenhoso, tolo, aborrecido, complacente, mentiroso, sincero, sábio, ignorante, liberal e avarento, e pródigo, assim me vejo de acordo com cada mudança que se opera em mim. E quem quer que se estude atentamente reconhecerá igualmente em si, e até em seu julgamento, essa mesma volubilidade, essa mesma discordância. Não posso aplicar a mim um juízo completo, sólido, sem confusão nem mistura, nem o exprimir com uma só palavra. “Distingo” é o termo mais encontradiço em meu raciocínio.
Embora acredite sempre que é preciso falar bem do que é justo e interpretar com simpatia o que a tal juízo se presta, nossa condição é tão singular que não raro o próprio vício nos impele a bem fazer (se o bem não se julgasse unicamente pela intenção que o determina). Daí não se dever tirar de um ato corajoso a conclusão de que um valente o praticou. Valente será efetivamente quem o for sempre, em todas as ocasiões. Se fosse um hábito e não um gesto imprevisto, a virtude faria que um homem mostrasse sempre igual resolução; seria o mesmo, só ou acompanhado, na justa como no campo de batalha. Suportaria esse homem, com igual atitude, uma enfermidade em seu leito e um ferimento na guerra; e não temeria mais a morte em seu lar do que em um assalto. Não o veríamos lançar-se através de uma brecha com insopitável bravura e em seguida chorar como uma mulher a perda de um processo ou de um filho; ser covarde diante da infâmia e resoluto na miséria, ter medo da navalha do barbeiro e desafiar a espada do adversário. Em tais casos, a ação é louvável, não o homem. Há gregos, diz Cícero, que tremem à vista do inimigo e se mostram tenazes quando enfermos, e tem-se o inverso nos cimbros e nos celtiberos: “Nada pode ser estável se não parte de um princípio sólido” (Cícero).
Não há maior valentia, no gênero, do que a de Alexandre, o Grande; e, no entanto, não se verifica em tudo. Por incomparável que seja, tem suas falhas, o que o faz perturbar-se a mais insignificante suspeita de conjuras e o leva a incrível e absurda crueldade na repressão e a temores em nada compatíveis com sua apreciação habitual das coisas. A superstição que lhe era peculiar participa também da pusilanimidade, e a exagerada penitência que se impõe a si mesmo após o assassínio de Clito prova igualmente a desigualdade de sua coragem. Somos um amontoado de peças juntadas inarmonicamente e queremos que nos honrem quando não o merecemos. A virtude vale por si mesma; se para outro fim tomamos a sua máscara, logo ela no-la arranca da cara. Quando nossa alma se impregna dela, forma ela uma espécie de verniz fortemente adesivo que só se tira com a própria pele. Eis por que para julgar um homem é preciso seguir suas pegadas, penetrar sua vida; e, se não deparamos com a constância alicerçando seus atos, “com um plano de vida bem ponderado e previsto” (Cícero), se sua marcha, ou antes, seu caminho (pois é lícito acelerar ou diminuir o passo) se modifica segundo as circunstâncias, abandonemo-lo. Como a ventoinha gira de acordo com o vento, assim reza a divisa de nosso Talbot.
Não é de espantar, diz um autor antigo, que o acaso tenha tanta força sobre nós, pois por causa dele é que existimos. Quem não orientou sua vida, de um modo geral, em determinado sentido, não pode tampouco dirigir suas ações. Não tendo tido nunca uma linha de conduta, não lhe será possível coordenar e ligar uns aos outros os atos de sua existência. De que serve fazer provisão de tintas se não se sabe que pintar? Ninguém determina do princípio ao fim o caminho que pretende seguir na vida; só nos decidimos por trechos, na medida em que vamos avançando. O arqueiro precisa antes escolher o alvo; só então prepara o arco e a flecha e executa os movimentos necessários; nossas resoluções se perdem porque não temos um objetivo determinado. O vento nunca é favorável a quem não tem um porto de chegada previsto. Não estou de acordo com o juízo que se fez, ao assistir a uma tragédia de Sófocles, declarando-o, contra a opinião de seu filho, capaz de administrar seus bens. Não acho tampouco muito mais lógico o que fizeram os párias enviados com missão de reformar o governo dos milésios. Depois de visitar a ilha, observando o cultivo cuidadoso da terra, a boa ordem das propriedades, e registrando os nomes dos proprietários, considerando que a atenção e a eficiência demonstradas na administração de seus negócios particulares eram uma garantia de que de igual modo iam gerir os negócios do Estado.
Somos todos constituídos de peças e pedaços juntados de maneira casual e diversa, e cada peça funciona independentemente das demais. Daí ser tão grande a diferença entre nós mesmos quanto entre nós e outrem: “Crede-me, não é coisa fácil conduzir-se como um só homem” (Sêneca). Se a ambição pode impelir o homem a ser valente, sóbrio, liberal e mesmo justo; se a avareza pode dar coragem a um caixeiro criado no ócio e na indolência e infundir-lhe bastante confiança para que se lance à aventura em frágil navio, à mercê de Netuno, e lhe ensina a discrição e a prudência; se a própria Vênus arma de resolução e audácia o jovem ainda sob a autoridade paterna, e faz com que se mostre impudica a virgem de coração terno ainda sob a égide de sua mãe – “Passando furtivamente entre os guardas que dormem, protegida por Vênus, vai a jovem sozinha, dentro da noite, juntar-se a seu amante” (Tibulo) –; se assim é, não deve um espírito refletido julgar-nos pelos nossos atos exteriores; cumpre-lhe sondar as nossas consciências e ver os móveis a que obedecemos. É uma tarefa elevada e difícil e desejaria por isso mesmo que menor número de pessoas se dedicasse a ela.

Autor: Michel de Montaigne
Tradução: Sérgio Milliet
Original: Ensaios; 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1980, pp. 159-162