terça-feira, julho 15, 2008

A problemática do humano

O Livro de Michel de Montaigne Ensaios é uma obra prima profunda, necessária. O filósofo francês discorre sobre as vicissitudes humanas. Nada escapa à ótica de Montaigne. Os Ensaios são uma coleção de reflexões sobre as panacéias e os costumes humanos – a moral humana, os vícios humanos, sobre as organizações humanas, sobre as vaidades, variabilidades e futilidades humanas. Trata-se de uma bíblia filosófica que deve ser lida com exagerada reflexão atenta. Nessa época onde se vende livros de auto-ajuda. O mercado que procura títulos sobre o self, acredito que todos deveriam se debruçar sobre o conteúdo extraordinário de os Ensaios.
Para Montaigne os homens são iguais em nesciandades. O que ocorre a um homem ocorre a outro. Todos estão subjugados às mesmas forças naturais. Tanto o rei como o servo defecam. A se julgar a priori, alguns diriam que isso não é um pensamento filosófico profundo. Todavia, nisso repousa a mais profunda cadência daquilo que é essencial no humano. Não há vantagens, apenas aparências, que em sentido estrito, não conservam nenhuma diferença para ninguém. Todos morrem inexoravelmente. No fundo todos são iguais e as diferenças meras ilusões. A quem diga que Montaigne é um ceticista, um indivíduo com um senso extremos do negativo. Quem o lê assim não percebeu a crítica fina, cortante, profunda aos desmazelos humanos; às contradições humanas. Dentro de seu Castelo, albergado na torre, em sua biblioteca, Montaigne pensava o mundo (o humano).
Há uma passagem nos Ensaios profundamente emblemática que serve como eixo de gravitação da obra: “Esses escritos não têm outra orientação senão revelar-me”. Revelar diz respeito a desvelar a si mesmo, mostrar a si mesmo. Ele diz ainda: “Os que se dedicam à crítica das ações humanas jamais se sentem tão embaraçados como quando procuram agrupar harmonizar sob uma mesma luz todos os atos dos homens, pois estes se contradizem comumente e a tal ponto que não parecem provir de um mesmo indivíduo”. É dessa problemática em torno do humano que o pensamento de Montaigne se assenta e se estrutura. E quão extraordinária e difícil tarefa é essa.
Um tema da obra do filósofo é justamente sobre as metamorfoses por que passam os homens. A inconstância humana, a variabilidade, é um assunto complexo. “A constância é a qualidade mais difícil de encontrar no homem”. É por sua vez, “a mais fácil é a inconstância” – diz ele. “Não vamos, somos levados e impelidos como objetos que flutuam, ora devagar ora com violência segundo o vento”. O argumento é de que essa é uma condição humana. Pois, “valente será efetivamente quem o for em todas as ocasiões”. Ou seja, o homem é um descontínuo constante. É não é ao mesmo tempo. Se alguém diz ser algo, deve sê-lo em todo tempo.
Ser sendo é algo que não condiz com o humano. Ao humano resta o devir. Conforme diz Cícero: “Nada pode ser estável se não parte de um princípio sólido”. Não nascemos com uma previsibilidade que nos permita antever os desafios e perigos. Construímos as pontes necessárias à medida que as exigências dos abismos se mostram. “Ninguém determina do princípio ao fim o caminho que pretende seguir na vida; só nos decidimos por trechos, na medida em que vamos avançando. O archeiro precisa antes escolher o alvo, só então prepara o arco e a flecha e executa os movimentos necessários. Nossas resoluções se perdem porque não temos um objetivo predeterminado. O vento nunca é favorável a quem não tem um porto de chegada previsto”.
Para aqueles que se deparam com o dilema de ser muitos em um, Montaigne é sincero e solidário. Dirijo-me a mim e a todos os homens: “Crede-me, não é coisa fácil conduzir-me como um só homem”. Não sou um, sou vários e por isso a inconstância, os atos impensados. As sentenças que borbulham dos meus lábios revelam os muitos eus que tenho em mim mesmo. Paulo na sua carta ao romanos via-se nessa angústia, nessa dança desencontrada, nessa ciranda amalucada: “De maneira que eu mesmo não compreendo o meu modo de agir, pois não faço aquilo que quero; mas, sim, aquilo que não quero, isso sim faço”.
Somos seres inacabados construindo diariamente a possibilidade de sermos humanos. Os desafios surgem a todo instante e eis que o dilema da construção se faz. A cada momento construo uma nova ponte e isso vai me fazendo pela vida afora. Sou nesse momento a versão mais nova de mim mesmo. E amanhã a mais nova em relação a hoje. E: “Crede-me, não é coisa fácil conduzir-me como um único homem, quando tenho muitos duelando dentro de mim”. Viva o gênio profundo e perspicaz do homem Michel de Montaigne.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: Terça-feira, 15 de julho de 2008, 10:58:37.

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