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quinta-feira, julho 16, 2026

Algumas impressões sobre o romance "Jubiabá", de Jorge Amado

 

“[Antônio Balduíno] Andava pelos dezoito anos mas parecia ter vinte. Era forte e alto como uma árvore, livre como um animal e possuía a gargalhada mais clara da cidade”.

Jorge Amado, in “Jubiabá”

 

Tenho por meta ler integralmente a obra do escritor baiano Jorge Amado. Tenho tentado ler os seus romances em ordem cronológica.  “Jubiabá” é o quarto livro do escritor baiano. Desde os tempos da escola, Amado sempre se mostrou para mim como um escritor que provoca uma relativa sensação de intriga. Sou afeito ao estilo seco e duro de Graciliano Ramos; ou à prosa caudalosa, com cintilações psicológicas bem desenhadas de José Lins do Rego – para mencionar dois outros importantes escritores nordestinos, também pertencentes à Segunda Fase do Modernismo.

O autor de “Jubiabá”, diferentemente dos dois escritores mencionados, escreveu uma literatura muito mais popular. O texto de Graciliano próximo do texto de Amado é “parnasiano”. Graciliano era meticuloso na revisão gramatical e sintática, o que se faz notar no efeito de sua literatura. Amado, por sua vez, utiliza uma lexicografia extraída das camadas mais populares do povo baiano. Isso está de acordo com as intenções que o habitavam na primeira fase de sua literatura, voltada de maneira candente aos temas sociais. Importa ainda mencionar a aproximação com as teses comunistas e ao engajamento assumido pelo escritor.

O próprio Jorge Amado viajou por alguns estados nordestinos, pelo Recôncavo Baiano – e sendo ele ligado às questões da terra (sua família era proprietária de terras onde se plantava cacau) – e um profundo conhecedor das ambivalências pelas quais passava o povo negro soteropolitano. Jorge procura na tradição africana os elementos necessários para compreender a brasilidade.  Jorge Amado projetou as suas lentes para o povo negro, radicado em Salvador, o local do país onde mais se recebeu escravos trazidos da África e, com isso, escancarou uma das faces mais profundas da nossa história. O projeto antropológico de Jorge Amado, emanado de sua literatura, depositado em personagens memoráveis e fortes, é dos mais relevantes para um olhar mais profundo sobre a cultura do Brasil.

Antes de “Jubiabá”, Amado havia escrito “O país do carnaval”, “Cacau” e “Suor”. São livros de enredos ligeiros que, quando comparados a “Jubiabá”, funcionam como exercícios iniciais de escrita. Quando da publicação de “Jubiabá”, Graciliano escreveu para o seu amigo José Lins do Rego sobre o livro de Jorge e disse: “Eu queria saber com que cara o Otávio de Faria (jornalista e escritor) leu aquilo. Há pouco tempo ele disse que Jorge era um literatinho e que não devia meter-se a escrever romance… Enfim, o livro é ótimo. Tão bom, que aqueles documentos inúteis, anúncios de circo etc.…, não o prejudicam. Mesmo com a preocupação de fazer romance de classe, não penso que o livro do Jorge deforme a realidade, como lhe parece”.  O termo “literatinho” talvez tenha sido empregado por causa da ausência de profundidade das personagens criadas por Jorge até aquele momento. Antônio Balduíno, o Baldo, o protagonista do romance é um “Odisseu baiano”. Assim como o herói da obra de Homero, a trajetória transforma-os em sujeitos errantes, ambos são transformados pela viagem e chegam ao final da travessia completamente modificados. Essa é a impressão que fica ao concluir leitura da obra. Sua trajetória faz lembrar aquela explanada por José Lins do Rego em “O moleque Ricardo”, ambientado no Recife. Ricardo saído da bagaceira, procura a cidade grande; enfrenta as agruras, entra na luta sindical e é conduzido à prisão Fernando de Noronha. O Baldo, por sua vez, um moleque negro vive mil vidas no romance e acaba, assim como Ricardo, envolvido na luta coletiva.

O título “Jubiabá” não é dado ao personagem central da obra como poderia ocorrer de maneira intuitiva. “Jubiabá” é o nome que se emprega ao babolirixá, uma espécie de mestre, de conselheiro transcendental de Baldo. Pode-se depreender também que o título certamente é uma homenagem à cultura popular, às religiões de matriz africana, à sabedoria herdada do povo negro. Cheguei a procurar o significado dessa palavra, mas não encontrei. O que se sabe é que personagem teria existido na Bahia. Ou seja, ela é resultado da homenagem do escritor às grandes figuras populares do povo baiano.

O romance possui imagens quase cinematográficas como, por exemplo, quando a personagem se embrenha pelo mato, sendo perseguido de maneira animalesca por sujeitos que procuram a vindita. Outra cena importante é a luta com o boxeador alemão.

“Jubiabá” é um romance com muitas ações do seu personagem principal. Existem questões que surgem em uma primeira leitura. Podem-se citar a título de exemplo:

(1) A luta racial e a identidade negra: Antônio Balduíno é uma figura encantadora. É um herói com mil faces. Ele possui a sina do homem negro. Nascido em um morro. Órfão ainda muito pequeno. Adotado por uma família. Hostilizado pela família por essa mesma família que o adotou.  O mergulho profundo na rotina da rua. Guindado à condição de boxeador. A honra e a derrota. Tudo isso torna-o uma figura sobre a qual estão colocadas as vicissitudes do destino. Sua luta passa pela afirmação de sua identidade de homem negro e marginalizado. Recai sobre ele a insubmissão. Baldo é uma figura múltipla e repleto de habilidades – é um malandro nato; é boxeador; é poeta; é apaixonado; é cangaceiro; é religioso; é órfão; é um homem do povo; é preto; é sindicalista. Desfere golpes contra a  própria vida e contra o próprio destino a fim de continuar a ser quem é. Baldo é um dos primeiros e únicos heróis negros de nossa literatura.  Amaro, personagem homossexual e negro, do romance naturalista “O Bom Crioulo”, de Adolfo Caminha, não pode ser esquecido.   

(2) A desigualdade e a luta de classes: “Jubiabá” é o romance que se insere na fase social ou proletária de Jorge Amado. É patente a tese de que o herói precisa ascender a fim de se envolver no movimento social. O desfecho da existência de Balduíno é o ingresso no movimento sindical. Fica explícito no romance o quanto sua vida é pautada pela exploração. Em todas as relações que ele estabeleceu, há uma força estrutural que o explora, que nega a ele a dignidade para ser. A saída para alguém nessa condição é lutar, é se insurgir; é organizar a resistência contra os donos dos meios de produção. Vale mencionar que, nesse período, Jorge Amado encontrava-se cada vez mais alicerçado no movimento comunista. Outra questão importante a ser mencionada é que “Jubiabá” foi um dos livros de Jorge Amado que mais fizeram sucesso na União Soviética. Lia-se o livro como uma tese em que se pode notar as etapas da ascensão da luta do proletariado. A luta do herói da sociedade de classes ascende até que ele se organize com outros explorados para empunhar a bandeira da revolução.

(3) A forte presença da religiosidade do povo: Estive em Salvador em 2023. Fiquei impressionado com a cidade. Salvador é uma cidade que possui uma energia bem diferente das outras cidades brasileiras. A presença do povo negro se faz por todos os lados. Ou seja, Salvador é um pedaço da África no Brasil. A presença da cultura africana derrama-se pelos vários bairros e pode ser percebida na culinária, nos monumentos, no corpo dos soteropolitanos, nas vestimentas, na ginga do baiano, na religiosidade. Recordo-me que o guia que nos conduziu ao Centro Histórico da cidade afirmou que há mais de mil terreiros em Salvador. Fiquei impressionado com o número. Há mais terreiros do que igrejas católicas. É muito comum, em Salvador, você encontrar alguém que possua um orixá como guia. Essas divindades estão presentes na umbanda e no candomblé. Elas são extraídas da mitologia do povo iorubá (África Ocidental), de onde vieram boa parte dos escravos africanos trazidos ao Brasil. As divindades representam e controlam forças da natureza.   

(4) A formação da consciência político do sujeito histórico: Observa-se que Baldo possui uma trajetória ascendente. A personagem amadurece à medida que a trama se desenvolve. Há nessa estratégia a estrutura de um romance de formação. Balduíno parte da luta pessoal e individual em busca de resistir às intempéries de uma rotina de privações e obstáculos. Todavia, o herói somente conseguirá resolver o seu problema, se entender que os seus problemas e obstáculos são decorrentes de uma estrutura social injusta. O destino do sujeito opresso em uma sociedade desigual e injusta é a formação da consciência de classe. A emancipação passa, necessariamente, pelo entendimento de sua condição. A busca individual dificilmente debela a exploração e desigualdade na sociedade capitalista.

(5) A infância como elemento de reflexão: É relevante afirmar que “Jubiabá” faz lembrar em alguns momentos outro romance amadiano – “Capitães de areia”, de 1937. Alguns dos temas deste romance parecem já esquematizados em “Juabiabá”. O grupo de amigos de Antônio Balduíno que perambula pelas ruas de Salvador faz lembrar o grupo chefiado por Pedro Bala, personagem principal de “Capitães de Areia”. Nesse sentido, Amado reflete sobre o abandono da infância, a paisagem urbana e suas contradições e a solidariedade estruturada entre os marginalizados.

“Jubiabá” é um romance que surpreende pela trama envolvente, pela personagem encantadora, pela forma como retrata os grupos marginalizados, como retrata algumas manifestações do povo – o samba, a capoeira, as festas, a religiosidade, a sensualidade, a oralidade, a valorização da cultura negra. Trata-se de uma obra neorrealista, mas carregada de elementos envolventes. Antônio Balduíno poderia ser o que quisesse, caso não pesasse sobre sobre ele a sina de ser pobre, preto e marginalizado. Era um sujeito com múltiplos talentos.

 

 

 

 

segunda-feira, dezembro 11, 2023

Inadequação

 

“Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia”

Trecho da música "Não vou me adaptar", do grupo Titãs. Letra de Arnaldo Antunes

 

No sábado, após alguns anos, estive em um culto protestante. Visitei a Igreja Presbiteriana Nacional (IPN). Seria o dia da colação de grau do meu cunhado. Ele bacharelou-se em teologia. Sendo assim, fui à IPN por causa desse fato. Meu cunhado estudou teologia por quatro anos no Seminário Presbiteriano de Brasília, onde também estudei entre os anos de 2002 e 2005.

                Desejei ir para resgatar da memória a experiência que lá vivi. Encontrar algumas fisionomias. Perceber como a vida nos apresenta paisagens diversas. E, por fim, praticar a bonomia com alguns sorrisos. A pergunta mais intrigante da noite foi feita a mim por um colega chamado Wesley, que estudou no período em que lá estive:

                - Que bom te ver! Onde você está? – Para quem é de fora do mundo protestante, quiçá, não perceba a força semântica da inquirição. A indagação é feita para interpelar o interlocutor a respeito da igreja que ele frequenta. Ele queria saber a respeito do meu nível de envolvimento com o mundo eclesiástico. Respondi a sua indagação entre um esgar e a consciência de que aquele tipo de pergunta era comum.  Certamente, minha resposta o surpreendeu, gerando decepção.

                Observei toda condução do ritual tentando encontrar em mim mesmo uma dimensão que me conectasse com o seu sentido. Eu frequentei os cultos presbiterianos. Estudei na mesma instituição que estava declarando publicamente o curso de teologia do meu cunhado.  No dia 10 de dezembro de 2005, eu também recebi o mesmo título. Fui responsável por fazer o voto para a minha turma. Havia gestos apaixonados e uma motivação sincera em minha credulidade. Passados dezoito anos, julguei-me anômalo, indiferente a tudo o que aconteceu.

                A pregação de um reverendo chamado Marcelo, foi uma verdadeira declaração de chauvinismos e sensaborias egoicas. Prontificou-se a falar do texto do livro de Atos, que trata sobre Estevão, considerado pela tradição cristã como o primeiro mártir. Seu discurso foi pouco claro. Houve enormes digressões. Um discurso gabola típico dos líderes cristãos, criando dicotomias entre o mundo que se diz cristão e aquele que não é. Segundo ele, o mundo persegue os cristãos. Isso aconteceu em toda a história e acontece ainda hoje. Mencionou países africanos; falou a respeito da China. Para ele e sua mente colonizada, os Estados Unidos são um tipo de modelo missionário, pois os cristãos pioneiros que foram responsáveis pela formação da Igreja daquele país, foram fortes e sonharam com uma terra que seguisse, no dizer do pregador, “um país que segue o evangelho”. Ou seja, velhos bordões para arregimentar engajamento.

                É curioso como os presbiterianos valorizam aquilo que Rubem Alves chamou de “protestantismo da reta doutrina”. Por intermédio dessa fórmula, é possível perceber o quanto o desejo pelo saber teológico sedimenta ostentação. As falas no culto presbiteriano manifestam duas questões:

 (1) Há uma enorme preocupação com a teologia. A compreensão de deus passa, necessariamente, pelo rigor teológico. O saber teológico dessa forma é a régua de medir a divindade. Caso haja uma compreensão que não se harmoniza com a teologia, questiona-se essa compreensão. A teologia é a chave de interpretação dos fenômenos religiosos. Somente indivíduos treinados e moldados pelo saber teológico são capazes de adquirirem uma plausível respeitabilidade. O desejo de distinção e reconhecimento talvez explique o porquê desse fenômeno nos púlpitos e na prática dos condutores da denominação.  

(2) E, a segunda, que talvez, seja um desdobramento da primeira é a exaltação a uma fé pautada na construção de um discurso que se estrutura na fala. O discurso deve ser pomposo. Isso pôde ser verificado na fala do paraninfo da turma. Seu texto pareceu-me demasiado pernóstico. A estrutura sintática primou pela escolha de palavras pouco usuais. Havia ainda um enfeito pouco natural na leitura. Nota-se, assim, que há uma evidente preocupação com “a forma”. Pode-se dizer que, caso fossem enviar uma carta, os presbiterianos teriam mais preocupação com a aparência do envelope do que com o conteúdo que a carta abriga.

                Quando deixei o espaço, fiquei pensando no quanto o ser humano se preocupa em erguer muros discursivos para se sentir protegido. Todo aquele ritual somente confirmou o quanto nesses espaços de manifestação religiosa, a antropologia fale com tanta força. As manifestações trazem mais conteúdos sobre aqueles que o fazem do que sobre aquilo que eles alegam pregar. Há mais a respeito dos homens no pretenso discurso sobre deus, do que deus no discurso erguido pelos homens.


terça-feira, novembro 28, 2023

A filosofia da história dos judeus

 


O atual massacre desfechado por Israel contra os palestinos possui uma justificativa semântica: há um entendimento, uma maneira de ser e existir para esse povo nômade. Ao passear de forma panorâmica pelas páginas do Antigo Testamento, encontrei ao menos três passagens bastante representativas de como os judeus apreendem e se impõem no mundo.

A primeira dessas passagens encontra-se em Números 31.17. Nela notamos a orientação de um líder militar ordenando que não houvesse piedade para com mulheres, crianças e animais que seriam conquistados. Na ocasião, os judeus peregrinavam pelo deserto, conforme descreve o Pentateuco. Receberam uma ordenança por parte de Javé para que o povo midianita fosse aniquilado. As meninas ainda virgens deveriam ser apropriadas, certamente para serem escravas sexuais.

Outra passagem bastante singular encontra-se em Josué 6.21. De acordo com esse livro, os judeus estavam num processo de disputa territorial com os povos que habitavam Canaã, a Terra Prometida. Diz o autor do livro, fazendo ecoar as palavras já expressas em Números que “homens, mulheres, crianças e velhos, assim como bois, ovelhas e jumentos, foram passados a fio de espada. Novamente, Javé, que pode ser definido como uma divindade guerreira, ordenou que não houvesse clemência. Afinal, o cerco à cidade de Jericó seria apenas uma etapa de algo que ele já havia determinado. A cidade e os seus homens já haviam sido conquistados (Js 6.2).

Mais representativo ainda é aquilo que se pode ler em 1 Sm 15. O texto enuncia explicitamente uma vingança da parte de Javé. Nota-se que a ordem que Samuel deu a Saul era resultado de um acerto de contas, uma revanche, uma vingança da divindade guerreira: “Resolvi punir o que Amalec fez a Israel cortando-lhe o caminho quando subia do Egito” (1 Sm 15.2; Dt 25.17-19; Ex 17.8-16). Os amalequitas ou amalecitas eram povos que viviam na parte Sul, próximo à fronteira com o Egito, nas imediações do Sinai. Esse povo geralmente pilhava tribos mais fracas. Raptavam mulheres, capturavam homens e vendiam-nos como escravos. Realizavam ataques oportunistas. Javé decide se vingar do povo de Amalec, conforme se nota no texto de Samuel. A ordem é dada de maneira meticulosa a Saul, aquele que é considerado o primeiro rei de Israel.

"Vai, pois, agora, e investe contra Amalec, condena-o ao anátema com o que lhe pertence, não tenhas piedade dele, mata homens e mulheres, crianças e recém-nascidos, bois e ovelhas, camelos e jumentos” (1 Sm 15.3). É importante notar que Saul poupou “Agag e tudo o que havia de melhor do gado miúdo e graúdo” (15.9). E nesse ponto residiu o seu equívoco, segundo nos aponta o texto bíblico. Javé se “arrependeu” (sic) de ter dado a Israel a realeza de Israel (15.11).

Salienta-se aqui que os escritos dos dois livros de Samuel têm por objetivo firmar um conceito de identidade nacional. Nota-se que os textos retratam um período em que os judeus já haviam se estabelecido no território de Israel. Era necessário consolidar uma ideia de reino como acontecia com os assírios. A crítica moderna entende que o texto surgiu no período entre 630 e 540 antes da era comum, ou seja, entre o período do exílio ou do período pós-exílico. Quando o texto foi escrito, buscava-se construir um discurso de conquista, fortalecendo um senso identitário de nação. Ou seja, ao longo de sua história Israel sempre precisou existir em torno de uma disputa. A batalha, o cisma e o exílio sempre fizeram parte da noção de judaicização. Ser judeu é também um conceito existencial. A própria criação de Javé como divindade que aglutina e organiza o povo para a conquista passa por essa compreensão.

Atualmente, quando se notam os ataques violentos e impiedosos contra o povo palestino  - embora não se aceite a violência desferida pelo Hamas contra a população civil de Israel -, depreende-se que para o seguimento mais radical de Israel não existe nenhuma anormalidade. Há base histórica no discurso criado por eles mesmos. Aquilo que eles denominam de Tanak (Torá ou Pentateuco – os cinco primeiros livros do Antigo Testamento – o Neviim – os profetas; e o Kentouvim – os escritos que compreendem os textos sapienciais) é misto de mitos, fabulações e construtos políticos a fim de legitimar um tipo de concertação para justificar a própria existência. Trata-se de textos altamente parciais, de visão tendenciosa, escritos por indivíduos que possuíam uma intencionalidade, textos estes transformados em sagrados.

Israel sempre utilizou de disputas para ser o que é. Aliás, é compreensível que assim o seja, pois estamos a falar de povo que possui quase quatro mil anos de história. É necessário reconhecer que os judeus foram vítimas de enormes injustiças ao longo da história como aconteceu ao longo da Idade Média ou o morticínio orquestrado pela máquina assassina de Hitler. Todavia, esperar do governo de extrema direita de Benjamin Netanyahu que haja compreensão e piedade para com mulheres e crianças é impensado.

O ministro da Defesa de Israel – Yoav Gallant – proferiu uma sentença que faz ecoar a mensagem de Javé enunciada por Moisés e por Samuel: “Estamos impondo cerco total à Gaza. Nem eletricidade, nem comida, nem água, nem gás, tudo bloqueado” (09/10/2023). Gallant sentencia como que fazendo ecoar o que encontramos nas páginas do Antigo Testamento: “Estamos lutando contra animais e agimos em conformidade”.

A fala do líder político israelita revela de maneira inesitante como Israel compreende o mundo, seja cercando Jericó, seja aniquilando os amalequitas ou exterminando os palestinos em pleno século XXI. Israel percebe-se como o povo escolhido por Javé, a divindade arrancada do panteão cananeu e eleita à força como a sua divindade única. Para fazer isso, os judeus possuem uma filosofia da história, estruturada em uma narrativa que mescla lendas, fabulações e revisionismos históricos. Por ser um povo que construiu a noção de deidade e espiritualidade do mundo Ocidental, possui a simpatia e a tolerância de boa parte da comunidade internacional. Eis aí a sua grande astúcia.

 

Salvador-BA, 15/10/2023.

               

terça-feira, novembro 14, 2023

"A via-crucis do corpo", de Clarice Lispector. Algumas palavras.

 


A escrita clariceana não é fácil. O leitor desavisado não conseguirá avançar para além da quinta página de alguns dos seus textos. Um exemplo é “O lustre” ou “Perto do coração selvagem”.  Por sua vez, Clarice não é uma escritora difícil. Ora, como se situar nesse aparente paradoxo? O que acontece com os seus textos é que eles lidam com uma matéria de difícil tradução, com o indefinível que é a interioridade humana. Falam sobre os desvãos, sobre o que existe quando não há a palavra. A escritora faz uma autópsia na alma humana. Cada um dos períodos escritos por ela preocupa-se em auscultar as emoções ambivalentes do complexo mundo humano. 

Essa noção sobre a criação clariceana é importante para que alcancemos o exato sentido de suas palavras. É preciso persignar-se para ler os seus textos. Clarice possui método: seu trabalho é desnudar a alma, as entranhas, os segredos escondidos nos interstícios do corpo. 

Peguei o magro volume de “A via crucis do corpo”. É preciso atentar para o título. Há um imediato chamado religioso. Um convite para que se reflita sobre o sofrimento. Afinal, a “via-crucis” é uma expressão latina, cujo significado é “caminho da cruz”. Faz referência ao percurso palmilhado por Jesus da sala do procurador romano ao Calvário. Ou seja, do lugar do julgamento ao lugar da morte.

O corpo é aquele que padece. Ele também carrega a sua cruz. À guisa de explicação, no texto que abre o volume, Clarice adverte os leitores como se algo muito arriscado estivesse pronto a eclodir – “Todas as histórias desse volume são contundentes”. Conforme ainda essa advertência inicial, as histórias nasceram em jorro febril; estavam dentro da autora, a reclamar a vinda ao mundo.

O livro foi escrito por encomenda. São treze curtas histórias. Algumas com no máximo duas páginas. Transmitem a ideia de que foram escritas de forma apressada, o que confirma a tese do “jorro”. Coloca em evidência uma Clarice menos misteriosa. Não há jogos de palavras. Sentenças tartamudeadoras; que deslocam o leitor como em “A paixão segundo G.H”. As epifanias cessam. A metafísica e o mistério são colocados num plano secundário. O elemento que fala é o corpo. O reclamante é o corpo. O desejante é o corpo, com a sua fome, com os seus maneirismos.

As histórias falam sobre sexualidade, mas não há insinuações pornográficas. O corpo possui a sua própria linguagem e, às vezes, fala mais quando está em silêncio. Há uma singularidade em sua semântica. É no interstício entre o que se diz e o que se cala, que reside o desejo. As personagens são femininas. Clarice procura dar voz ao desejo feminino. Talvez, isso tenha chocado muitos leitores dos anos 70 em plena Ditadura Militar.

Clarice deixa uma mensagem com esse pequeno, mas revelador livro: tudo está no corpo. Nele moramos; por meio dele acessamos o mundo; ele cansa; ele sente fome e sede; e é habitado por reclames primitivos. Em momentos de solidão, como lidar com esses reclames? A maior parte dos personagens de cada uma das histórias se ver diante desse dilema. É a “via-crucis”. É o movimento que se realiza do nascimento até à morte.

 

               

terça-feira, maio 02, 2023

As origens da religião e do deus judaico-cristão

 

                
O fenômeno religioso me interessa em muitos aspectos. O homem é em essência religioso. A religião representa um esforço do homem para organizar e entender o mundo. Ela nos remete a um período da história do gênero “homo” em que era necessário entender a natureza e os seus movimentos. Sem conhecimento científico, sem ferramentas para realizar uma sistematização do conhecimento de forma racional, os homens precisaram criar histórias míticas para que a realidade fosse ordenada. Viver em um meio adverso, sem ter uma âncora explicativa para os movimentos da natureza levaria o ser humano a não suportar a própria existência. E daí que surge a religião como um fenômeno humano, como uma dimensão essencial da vida.

Houve um período em que não havia nem deuses nem religião. Havia apenas a natureza com as suas leis. A consciência de si e do mundo permitiu ao homem a elaboração de sofisticados símbolos. O símbolo (significante) cria uma mediação entre o mundo e o próprio homem, pois carrega um significado (conteúdo virtual do significante). As religiões precisam de símbolos, assim como as demais manifestações humanas. Ao criar símbolos, o homem passou a criar cultura. As religiões são manifestações da cultura e das condições materiais de certa época e lugar.

A religião judaico-cristã como qualquer religião está repleta de disputas e influências. Analisá-la hoje como um fenômeno monolítico é desprezar algumas importantes situações que foram responsáveis pela sua formação. É como, se diante de um trem, observássemos apenas um dos vagões, desprezando as demais composições. Um vagão apenas não é o trem. A religião dos antigos judeus era politeísta. Como era comum aos antigos povos do Oriente Médio, Israel possuía inúmeras divindades. Isso pode ser notado nos vários relatos bíblicos do Antigo Testamento. Javé era apenas uma das divindades. Fazia parte do panteão dos cananeus. O panteão cananeu era constituído por setenta deuses e deusas. Javé era mais uma das divindades, cujo patrono era o amoroso deus EL. Sua consorte era Aserá. EL significa “senhor”. No Pentateuco, aparecem inúmeras referências a EL – “El Shaday” (El ou “senhor da montanha”); El Elyon (el ou “deus altíssimo”); EL Olam (El ou “senhor altíssimo”); ou a designação majestática Elohim, que significa “Elvadíssimo”, “Altíssimo”.

O fato é que há um momento na história em que os isra-el-itas decidiram abolir o politeísmo e cultuar Javé como a sua divindade suprema. Os outros cultos foram proibidos. Um dos cultos mais praticados no Israel antigo era o culto a Baal, um jovem e viril guerreiro. A abolição de outros cultos não foi tranquila. Vários séculos foram necessários. É possível que o culto a Javé só tenha sido consolidado no período dos Macabeus, pois havia uma forte questão nacional envolvida.

No vídeo que pode ser encontrado no link a seguir, o professor Emerson Borges explica como se deu “a origem do deus bíblico”. Um excelente vídeo.

1. Indicação de leitura: https://g1.globo.com/Noticias/0,,MUL652419-9982,00-DEUS+BIBLICO+PODE+SER+FUSAO+DE+VARIOS+DEUSES+PAGAOS+DIZEM+ESPECIALISTAS.html