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quinta-feira, setembro 03, 2026

Devaneios kiekergaardianos

O Sacrifício de Isaac (Caravaggio) - 1603. 

Certa vez, ao ler uma obra do filósofo dinamarquês Sören Kiekergaard, esbarrei na desassossegada afirmação: “Não consigo entender Abraão”. Essa frase tem feito eco em minha cabeça. Desde que a li, fico a pensar em seu significado. Ela reflete em espelhos côncavos de minha interioridade – “Não consigo entender Abraão”. O que o filósofo existencialista não entendia exatamente? Que detalhe específico da personalidade do patriarca bíblico criava essa inquietante incógnita? 

Em primeiro lugar é importante situar o contexto de onde a sentença é oriunda. Kiekergaard abordava o pedido feito por Deus a Abraão para que Isaque, o filho da velhice do patriarca, fosse oferecido como holocausto no monte Moriá (Gn 22.3). Esse episódio representa o ápice de uma prova imposta a um indivíduo. Biblicamente, Abraão é conhecido como “o pai da fé” (Hb 11.17-19). Kierkegaard o chama de “o cavaleiro da fé”.

O velho patriarca ao manifestar, silenciosamente, a intenção de sacrificar o filho da promessa, revela a incondicionalidade de um problema – os preceitos de uma ética horizontal, portanto, terrena, são substituídos por uma dimensão do singular. Vale mencionar que Isaque era aquele a quem foi feita a promessa. Era, portanto, o filho da velhice, aquele cuja concepção por si só fora um milagre. 

Há aqui uma suspensão dos preceitos das convenções da ética, conforme a conhecemos. Ela suplanta os enquadramentos racionais. Qual pai em sã consciência sacrificaria o próprio filho a fim de satisfazer a um pedido que parecia duvidoso? Na relação com Deus, há uma impossibilidade de tornar essa mesma relação em algo comunicável pela razão. Por isso, a fé ganha um contorno paradoxal. Somente uma fé inquebrantável, assumidamente compromissada com a paixão seria capaz de tal feito. Conforme expressa o próprio Kierkegaard, a fé é o que fica quando todas as outras realidades se esgotam. Ter fé é assumir uma postura radical diante da existência. É um gesto que faz transcender a própria vida. A fé passa a ser uma maneira radical de existir diante de Deus.

A fé carrega um paradoxo, pois Abraão, ao mesmo tempo que obedece a Deus, levando o próprio filho para ser sacrificado, acredita que Isaque, de algum modo, continua a ser o filho da promessa. Diante disso, ela se afasta dos cálculos e previsões à medida que tentamos aprisioná-la. Voa mais alto, enquanto desenhamos asas para apanhá-la. Ela é frágil e potente. Diante da fé, o que resta é o silêncio. Uma decisão que torna o universo um mero espectador. Um palco onde o jogo da própria existência será observado.

Abraão é “o pai da fé”, “o pai de todos aqueles que creem” (Rm. 4.11). Ele é assim denominado, pois carregava a esperança, uma certeza inabalável, uma convicção robusta sobre quem havia feito o pedido.

Também não compreendemos Abraão. A razão não o compreende. É a disposição mais geral sobre o seu procedimento. Não compreendemos, pois não conseguimos medir a dimensão mais radical de sua fé. Isso apenas sugere o quanto resistimos a viver esse compromisso de uma decisão radical. Olhando sob esse ponto de vista, também custa-me entender Abraão. 

 

terça-feira, março 26, 2024

"A hora da estrela", de Clarice Lispector, algumas palavras

Cena do filme "A hora da estrela" (1985), de Suzana Amaral

 

“...ela era café frio”.

“Você sabe mesmo é chover”

 

                Realizei a terceira leitura – embasbacado – de “A hora da estrela”, o último romance de Clarice Lispector. Nessa última leitura, prestei atenção ao movimento e ao efeito das palavras e, sem qualquer apelo hiperbólico, resta a impressão de que se trata de um texto que beira à perfeição. Enquanto prestava atenção à condução da história pelo narrador Rodrigo S.M., fazia a seguinte pergunta: afinal, o que tinha Macábea?

               "A hora da estrela" foi publicada em 1977, mesmo ano em que morreu a autora. Talvez, seja seu romance de leitura mais fácil. Todavia, a palavra “fácil” nunca quer dizer “tranquilo” em Clarice. A autora emprega o fluxo de consciência, como técnica tão costumeira como, por exemplo, em “A Paixão segundo G.H.”, o que torna o texto em uma massa psicológica densa. Há descrições singulares que misturam o mundo simples de Macábea à voz emulante e meticulosa do narrador.

                O texto prescindiria de um narrador, talvez. Rodrigo S.M. é um alter ego de Clarice, certamente. Todavia, perderia em análise; perderia em força, pois o narrador estabelece um diálogo tácito com o leitor. Ele faz a promessa de que vai entregar algo. A maneira como que ele despe Macábea e coloca um facho de luminosidade na modesta existência da personagem é um movimento de crueldade. Como Macábea há milhões de pessoas que passam pelo mundo sem atentar para o ato complexo que é existir. A personagem ignora os elementos mais complicados da vida. Existe uma beatitude em sua ignorância. Ela não consegue observar o trânsito caótico em sua vida. Sua avassaladora ignorância sobre si e sobre o mundo a torna em um ser caricato.  

                O que tinha Macábea? Ao tentar responder essa pergunta, é inevitável não pensar no estranho paradoxo presente no título da obra. Por que “estrela”, se não havia nenhum brilho em Macábea? A alagoana era “café frio”; “era capim”. Não havia qualidades ou vantagens a serem destacadas; uma nesga de relevo em sua existência achatada; uma dignidade a ser ostentada. Tanto física quanto existencialmente, o que se percebe na personagem é um conteúdo opaco, sem força e com potência insignificante.

                O que tinha Macábea? Em certa altura da narrativa, encontra-se essa pérola que revela a ignorância de si e a ignorância do mundo presentes na personagem: “Quero afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à toa. Se tivesse a tolice de perguntar “quem sou eu?” cairia estatelada e em cheio no chão”. Ou esta: “Quanto à moça, ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior nem o melhor. Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando”.

                “A hora da estrela” é a reflexão sobre o insignificante. Enquanto os outros personagens – Olímpico de Jesus e Glória – ostentam (até mesmo no nome) uma grandiloquência no modo de ser e no nome, Macábea é pequena e indefesa. Olímpico possui um nome que ostenta força, além do sobrenome que sugere uma ideia de redenção, de sacralidade. Glória exprime a semântica do triunfo. Enquanto Macábea sugere o nome dos Macabeus, povo que conseguiu criar uma resistência contra o domínio de Antíoco IV, no século II antes da era comum, e acabou sendo conquistado de forma tácita pelos romanos. Há imensas ironias e sugestões sutis na obra. Nada é gratuito.

                Macábea representa aquele tipo de indivíduo que passa pelo mundo sem que seja dada conta da sua vida. A ignorância de si impõe o anonimato dela para com ela e para com o mundo. Seu mundo apoucado, colocado em um território cinzento sem qualquer fato expressivo, é a síntese da miséria e da ignorância. Analisar a vida da personagem sugere imediatamente um quadro de advertência, pois é preciso ter uma noção mínima sobre aquilo que somos. Nietzsche em “Para além do bem e do mal” afirma que “Quando adestramos a nossa consciência, ela beija-nos ao mesmo tempo que nos morde”. Macábea, coitada, não percebia nem o adestramento nem a mordida.


segunda-feira, setembro 18, 2023

Devaneios sobre Santo Agostinho

 

                Retorno ao belo e dramático texto de “As Confissões”, de Santo Agostinho. A primeira vez que o li, em 2005, eu era um ardoroso cristão. Frequentava a Igreja Presbiteriana. Estudava teologia em um seminário. Derramava-me em preces. Procurava aquecer a minha alma com a luz emanada da fé. Agostinho ajudou-me nisso. Foi um mestre profundo a quem eu li com o coração em chamas.

                Regresso a Agostinho. Dessa vez, já não há crença profusa, mas há respeito. Não há ilusões, mas escuto-o com atenção. Bebo as suas palavras vagarosamente para sentir os efeitos. O grande bispo continua a falar com a típica beleza inegável. Com o jogo retórico. Com as imagens que suscitam uma comovente admiração.

                Agostinho é um dos pensadores que me define. Sua paixão pelo mistério, pela verdade, pela coerência, sempre foi uma orientação e uma paixão para mim. Conecto-me com a resplandecência que deriva do seu pensamento. Leio as suas palavras e sou visitado por uma buliçosa centelha de paixão. O grande teólogo é um mestre da elegância e dono de uma intuição filosófica invejáveis.  Era daquelas pessoas que sempre questionava aquilo que fazia e procurava um propósito pelo qual deveria viver.

Quando analisamos a sua vida, percebemos o quanto, desde pequeno, Agostinho demonstrava uma potência inevitável. A criança que procurava apanhar as goiabas do vizinho por achá-las mais vistosas, o jovem vaidoso, o adulto arrogante, mestre respeitado da retórica, demonstrou ao longo de sua caminhada que algo estava a faltar. Agostinho realizou uma carreira primando pela satisfação dos próprios desejos, até que esbarrou na nulidade, que é o resultado daquele que obedece apenas a si mesmo. A vida de Agostinho pode ser sintetizada na passagem de Eclesiastes 3.11: “Também pôs [Deus] no coração do homem o anseio pela eternidade”.

                Mais tarde, ele proferiria em “As Confissões”: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava fora”. Essa noção de que a vida equivocada é aquela que se vive fora da verdade do Deus cristão é a grande máxima de Agostinho. O homem, enquanto caminha, deve estar bem atento, pois a caminhada pode conduzi-lo à verdade e, portanto, à fruição de Deus (a Cidade de Deus) ou ao caminho do equívoco, do mal – a cidade dos homens.

                A caminhada errada leva sempre ao engano, ao choro, à angústia. Sofremos, agonizamos e não experimentamos a verdadeira paz enquanto não repousamos em Deus. E é, justamente nesse ponto, que repousa um dos mais sofisticados e elaborados entendimentos filosóficos do Mundo Ocidental: a noção do mal e do bem. O bem permite folgar, fruir, experimentar Deus. Quem assim o faz, acha a verdadeira felicidade. Tudo o que existe é bom. Não existem verdades que não sejam divinas. Dessa forma, o mal não é uma antítese, uma força contrária como algo em si. O mal não tem substância.  Foge-se, assim, de um maniqueísmo, corrente teológico-filosófica da qual Agostinho fizera parte. Observando de uma força bem superficial, pode-se afirmar que o princípio elementar do maniqueísmo é que mal e bem são forças antagônicas, com a mesma potência – Deus (o bem) e Diabo (o mal).

                Para Agostinho, o mal é a ausência de bem. O mal é um desvio na rota de qualquer indivíduo. Ser mal ou viver no mal é estar longe de Deus; ignorar os seus princípios e, consequentemente, não experimentar a felicidade Dele oriunda. Pode-se comparar a existência do mal como uma escuridão que acomete uma sala quando a porta é fechada. A escuridão está ali, mas pode ser desfeita, uma vez que a posta seja aberta. A escuridão existe onde houve privação da luz. O mundo e todas as coisas que o compõem existem para a luz.

                Esse pensamento é coerente com a sua própria vida. Agostinho entende que no período em que “fechou a porta” experimentou o mal. Somente quando foi redirecionado pela graça divina para o próprio Deus, pôde conhecer o bem para o qual havia sido criado. A compreensão de Agostinho é a de que, enquanto não chegamos à graça, a vida de todo ser humano é acompanhada por uma insofismável sucessão de infelicidades.

                Como o bispo de Hipona revigora. Como seu pensamento é delicado e comovente. Hoje, não me oriento pela sua divindade. Todavia, percebo que há em mim uma sede pelo mistério. E é possível transformar esse seu desejo em contemplação; e a contemplação em matéria para poesia.

“As Confissões” é um texto em que Agostinho se analisa, perscruta os próprios pensamentos e intenções.  Ler “As Confissões” é realizar um exercício de autoconhecimento. Enquanto lemos o texto agostiniano e observamos a maneira como seu autor se enxerga, passamos a nos compreender também. “As Confissões” é uma antropologia; um espelho do próprio ser humano à procura da eternidade; um trabalho arqueológico e ontológico.


quarta-feira, fevereiro 08, 2023

Heráclito - nada permanece

 


                Heráclito de Éfeso é o pensador que cunhou a noção de um movimento incessante em todas as coisas. É atribuído a ele o termo “panta rei” (“tudo flui”), embora essa expressão não seja encontrada nos fragmentos deixados por ele.

                O filósofo teria identificado – em oposição a Parmênides – uma “buliçosa” atividade dos elementos que estruturam a realidade e o cosmos. Nada permanece. Tudo é grande ou faz parte de um grande fluxo. Enquanto para Parmênides a realidade é o ser – e o ser é -, Heráclito estabelece um importante fundamento sobre todas as coisas – a dialética é o elemento central da vida.

                Sofre quem espera que tudo permaneça como pensava Parmênides. Não se está a insinuar que o pensamento de Parmênides conduza à infelicidade. O que se afirma é que, quando se espera que algo permaneça para sempre, o resultado é o sofrimento. Bom seria que as pessoas as quais amamos não morressem, que elas permanecessem ao nosso lado para sempre; que o amor nunca acabasse; que a morte nunca chegasse; que a alegria fosse eterna.

                A noção de Deus para o filósofo também era bastante diferente. Deus não é o criador. Não é o ser capaz de fazer todas as coisas. Não é imanente. Não interfere na vida dos homens. Deus é o fogo que se mistura em pares antagônicos – dia/noite; luz/escuridão; verão/inverno; belo/feio; guerra/paz. O elemento constitutivo da realidade é a contradição. É preciso está preparado para essa oposição.

                O rio que ondula os seus movimentos, não o faz da mesma forma. O rio muda e impele o movimento em todos os momentos do seu curso. A água muda; assume formas variadas incessantemente. Sendo assim, ninguém pode banhar nas mesmas águas duas vezes.

                Todo encontro é desencontro. Todo amor é desamor. Todo nascimento é também morte. Toda chegada é também partida. Todo abraço é também separação. A oposição ao som é o silêncio; mas a oposição ao silêncio é o som. A oposição à ausência é a presença. Resta o instante. Fica o lapso temporal entre aquilo que foi e aquilo que está vindo a ser.

                Para Heráclito o tempo (aion) é o elemento buliçoso que cria o novo. O tempo brinca. É a criança traquinas. É caprichoso. Construtor de eventos. Responsável pelo movimento das águas do rio.

segunda-feira, novembro 21, 2022

Algumas palavras sobre "A filosofia na era trágica dos gregos".

 



                Terminada a leitura de “A filosofia na era trágica dos gregos”, resta-me a sensação de idílio. Para os padrões de Nietzsche, trata-se de um texto aparentemente simples. Todavia, o escrito apresenta grandeza, eloquência e a apaixonada retórica poética tão costumeira na obra do filósofo alemão.

                O texto é resultado de uma série de ensaios escritos quando ocupava a cátedra de filologia na Universidade da Basileia. Trabalhar os gregos o empolgou. Observa-se pelo espírito da obra. Pela força que evoca. Nota-se uma energia vital. Um entusiasmo incontrastável em cada palavra. Escolher os pré-socráticos para servir de motor ao seu pensamento, sempre foi um projeto ontológico para o filósofo.

                Nietzsche chama a atenção para o fato de que os pré-socráticos foram os responsáveis por tirar o mundo ocidental do pensamento mítico. Eles ajudaram os gregos a tirarem os olhos do céu e colocarem na natureza (“physis”). O homem grego, simplesmente, baixou a cabeça para terra. As respostas que davam sentido à vida poderiam ser compreendidas a partir daqui, fundando uma nova perspectiva. Ou seja, na natureza, por seus elementos e processos regidos por leis, era possível entender o significado da própria vida.

                Esses filósofos foram responsáveis por criarem sistemas; buscaram respostas para indagações; procuraram encontrar um elemento capaz de sintetizar o vórtice causador do mundo, das coisas, da realidade. Fica nítida a predileção de Nietzsche por Heráclito, a quem chama de “filósofo do vir a ser”. Para ele, o filósofo Heráclito não consegue enxergar outra coisa a não ser o fluxo do devir. E, acerca disso, todo aquele que olha para a vida não deve se amedrontar; deve encontrar o sentido trágico por excelência.

                A tragédia é a força que rompe a mediocridade do mundo. Ela permite que se olhe para a vida como um combustível para transformar a existência numa obra de arte. Nota-se aqui, que mesmo sendo um texto de juventude, traz alguns supostos que serão indissociáveis do pensamento de Nietzsche. “O mel é, segundo Heráclito, a um só tempo doce e amargo, e o próprio mundo é um caldeirão que precisa ser constantemente mexido” (p.60). Ou seja, o filósofo grego com isso demonstra que a própria realidade não deve ser encarada como uma leitura acabada, estática. Aqui se coloca uma resposta a Parmênides.

                Segundo Nietzsche, Parmênides é um “profeta de verdade”; “uma luz fria e ofuscante”. Ele foi “esculpido em gelo”. Seu mundo é frio. É como a superfície de um lago congelado. Enquanto em Heráclito a vida salta, dança, acumula a potência do trágico; brinca, olha para a realidade como se fosse a primeira vez. É um rio de águas buliçosas que flui. Em Parmênides, há uma necessidade de afirmar que “o ser é”. Ele é indivisível, pois, se assim não fosse, ele não teria como ser.

                O livro apresenta o jovem Nieztsche. À época, ele tinha pouco mais de 24 anos de idade. Sua mente inquieta estava sendo agitada por ondas wagnerianas. Nota-se uma interpretação artística daquilo que que foi pensado pelos primeiros filósofos gregos que vieram antes de Sócrates. A mensagem que fica é que todo sujeito que se diz filósofo precisa treinar o olhar. Deve aprender a saborear a própria vida. Afinal, é isso que o sábio faz quando percebe e aceita a novidade que pulsa no real. E desse material sempre renovado pela inexorabilidade do devir que vamos melhorando a própria vida.

               

terça-feira, janeiro 26, 2021

Franco Berardi - uma entrevista

 


“Minha resposta é devagar com o andor: a vitória da esquerda na Bolívia e o referendo no Chile são acontecimentos políticos pequenos diante da extrema-direita. Trump pode não ganhar, mas está ganhando ainda assim: o fato de um monstro, fascista e racista, ter milhões de votos nas eleições estadunidenses significa que a extrema-direita ainda é forte e significa que a esquerda não está forte o bastante para realmente representar interesses dos jovens, latinos e negros. Esta é a realidade”.

 

“Na década de 2000, com a ascensão de governos como [Michelle] Bachelet no Chile, Lula no Brasil, [Evo] Morales na Bolívia, a América Latina estava mudando. Fiquei feliz, obviamente – melhor um Lula do que um Bolsonaro. Mas, sinceramente, não esperava muito da esquerda no poder, porque penso que estamos partindo de conceitos datados de mais de 200 anos, esquerda, extrema esquerda, social democratas… Na verdade, não acredito que um governo possa mudar radicalmente as coisas, pois está debaixo das regras do mercado financeiro internacional, uma ditadura global. Um governante pode mudar um pouco no nível nacional, mas há tantas limitações que, cedo ou tarde, vai desapontar”.

“O que quero dizer é que não é a política tradicional que vai equilibrar a relação entre tempo, trabalho e dinheiro a partir de regras arbitrárias de um macroprojeto de totalidade, mas os milhões de corpos que têm necessidades concretas para viver, respirar, comer, enfim, que essencialmente não deveriam ter nada a ver com ter dinheiro ou não”.

“Precisamos de comida, carinho, prazer, sensibilidade, solidariedade, tudo o que nos torna humanos. Precisamos sobreviver à pandemia para rever, beijar e abraçar as pessoas. Foi a lição mais importante que aprendi nos últimos tempos”.

 

Estes são alguns trechos interessantes da entrevista realizada com o filósofo italiano Franco Berardi, disponível no portal do The Intercept. Berardi que se classifica como um marxista não-dogmático, propõe importantes reflexões sobre a atual condição do ser humano sob o neoliberalismo – e os efeitos deletérios disso – e o desafio de pensar uma outra proposta de mundo, caso a espécie humana não queira sucumbir diante da barbárie. Essas ideias estão precisamente delineadas no livro “Extremo”, lançado por ocasião da pandemia do novo coronavírus.

             Berardi entende que o dramático cenário atual permitiu a realização de importantes reflexões. O modo como a economia global é conduzida, o modelo de sociedade que é construída a partir disso, cria antagonismos que serão insolúveis e que levarão o planeta ao colapso. O capitalismo está morto como modelo civilizatório, mas ainda produz efeitos danosos. A sua ética é pensada e reproduzida, o que só gera desigualdade, pobreza, dominação e o esgarçamento dos recursos naturais. 

            A alternativa seria a refundação de uma nova proposta civilizatória. E, nesse sentido, nada mais necessário do que o socialismo. Não aquele socialismo maquinal experimentado pelo regime soviético. Um socialismo criativo, que repense o que é o consumo, o que é a exploração da natureza; o que são as relações humanas; a administração do tempo.

            Dois outros livros do filósofo são citados: “Asfixia” e “Depois do futuro”.

            Excelente.

 

 

sábado, maio 02, 2020

"Cavalo de Turim", de Béla Tarr - algumas impressões

 
Assisti ao filme Cavalo de Turim, do húngaro Béla Tarr, patrício do grande compositor Béla Bartók,. Era um projeto antigo. Passei mais de uma semana vendo nacos do filme ( dez, quinze, vinte minutos). Foi nesse ritmo lento que consegui vencer as mais de duas horas e meia de uma experiência inigualável, que é realizar a imersão nessa obra magnífica. É o primeiro filme que vejo de Tarr. O diretor austríaco é considerado um dos maiores da atualidade. Já consegui Satantango, considerada a sua melhor obra, de 1994. Cavalo de Turim é do ano de 2011. 

A obra de Tarr inicia com um plano escuro e uma voz igualmente soturna, que narra:

"Em Turim, em 03 de Janeiro de 1889, Friedrich Nietzsche saiu pela porta do número 6 da Via Carlo Alberto, para caminhar, ou talvez para ir ao correio pegar sua correspondência. Não muito longe, aliás, bastante longe dele, um cocheiro estava tendo problemas com seu teimoso cavalo. Apesar de todos os seus esforços, ele se recusava a mover-se, e portanto o cocheiro  - Giuseppe? Carlo? Ettore?  - perdeu a paciência e chicoteou-o. Nietzsche surge do meio da multidão e coloca um fim na brutal atitude do cocheiro, que agora espumava de raiva. O grande e bigodudo Nietzsche, de repente saltou sobre a carroça e jogou seus braços em torno do pescoço do cavalo, soluçando. Seu vizinho o levou para casa, onde ele ficou calmo e silencioso por dois dias no sofá até que murmurou as obrigatórias últimas palavras: "Mãe, eu sou um tolo" e viveu mais dez anos, calmo e louco, aos cuidados de sua mãe e irmãs. Sobre o cavalo... não sabemos nada".


De repente, o espectador é lançado numa estrada poeirenta. A imagem lenta segue por quase dois minutos. O cavalo caminha lentamente, puxando a carroça onde se encontra aboletado o seu condutor. Somos conduzidos a uma habitação rústica em meio a uma planície desolada. O vento é uma personagem constante. Sopra de forma inclemente. As árvores são esparsas e nuas. Os galhos finos dançam com as lufadas de vento. Escuta-se o assobio fino do vento. As folhas secas que dançam freneticamente no ar. A música poderosa  Mihály Vig, também presente em outras obras do diretor, imprime uma solenidade grave. O órgão impõe um aspecto fúnebre, confundindo-se com as belas, atordoantes, imagens do filme. 

Nesse casebre conjugado com uma estrebaria, em que fica o cavalo, pai e filha residem. E, logo em seguida, um encadeamento circular de eventos acontecem - acordar, colocar a roupa, tirar água do poço, dar ração ao cavalo, ocupar-se com as tarefas miúdas da casa, comer batata cozida - o único alimento disponível nessa escassez cinzenta. 

Ou seja, o filme de Tarr é um retrato duro da existência. A bela fotografia em preto em branco possui uma força filosoficamente aterradora. A existência seria esse cansaço. A repetição. A sucessão monótona desse movimento que sempre leva ao mesmo lugar. Dentro de casa, há momentos em que as personagens olham por uma janela. Nesses instantes, o barulho rascante do vento cessa. Enxerga-se, no silêncio momentâneo, o voo incontrolável das folhas secas sendo conduzidas pelo vento que não cessa. O vento duro e inclemente representaria a contingência que é viver. Mas, também pode representar os instantes negativos, a desconcertante e inexorável cadeia de sucessões para a qual não se tem controle. Enquanto vivemos, somos arrastados em meio à tempestade. E poucos são os instantes de calmaria. 

Cavalo de Turim é uma obra cuja beleza transcendente não permite que o espectador fique tranquilo. Ele desestrutura. Faz-nos emudecer. Respirar fundo. E pensar sobre o que é viver; o que é existir. A existência humana estaria cercada desses e-ventos cansativos. Desse ramerrão diário. De um roteiro repetitivo, extenuante, para qual não se pode escapar. Em determinado momento, aturdidos, cansados, pois o poço de onde tiravam água havia secado, as personagens tentam ir embora. Todavia, são obrigados a regressarem, carregando os mesmos fardos; são forçados a experimentarem a mesma condição - acordar, alimentar o cavalo, cuidar das atividades pequenas, comer batatas. 

O filme exige paciência para ser visto, pois o que conta não são os diálogos. Estes ficam num segundo plano. O diretor deseja tornar a experiência do espectador embriagante. Estupefaciente. O mais importante é o movimento da vida e os seres humanos dentro dessa contingência. 

Obra poderosa e obrigatória. 

Está disponível aqui

domingo, abril 19, 2020

O deus de Spinoza


Você sabia que quando Einstein deu uma conferência em várias universidades a pergunta recorrente que os alunos fizeram foi:

- Você acredita em Deus?

E ele sempre respondia:

Eu acredito no Deus de Spinoza.

Quem não leu Spinoza não entendia a resposta.

Baruch De Spinoza foi um filósofo holandês considerado um dos três grandes racionalistas do século da filosofia, junto com o francês Descartes.

Este é o Deus ou a natureza de Spinoza:

Deus teria dito:

“Pare de ficar rezando e batendo no peito! O que quero que faça é que saia pelo mundo e desfrute a vida. Quero que goze, cante, divirta-se e aproveite tudo o que fiz pra você.Pare de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que você mesmo construiu e acredita ser a minha casa! Minha casa são as montanhas, os bosques, os rios, os lagos, as praias, onde vivo e expresso Amor por você.

Pare de me culpar pela sua vida miserável! Eu nunca disse que há algo mau em você, que é um pecador ou que sua sexualidade seja algo ruim. O sexo é um presente que lhe dei e com o qual você pode expressar amor, êxtase, alegria. Assim, não me culpe por tudo o que o fizeram crer.

Pare de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo! Se não pode me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de seus amigos, nos olhos de seu filhinho, não me encontrará em nenhum livro.

Confie em mim e deixe de me dirigir pedidos! Você vai me dizer como fazer meu trabalho?
Pare de ter medo de mim! Eu não o julgo, nem o critico, nem me irrito, nem o incomodo, nem o castigo. Eu sou puro Amor.

Pare de me pedir perdão! Não há nada a perdoar. Se eu o fiz, eu é que o enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso culpá-lo se responde a algo que eu pus em você? Como posso castigá-lo por ser como é, se eu o fiz?

Crê que eu poderia criar um lugar para queimar todos os meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que Deus faria isso? Esqueça qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei, que são artimanhas para manipulá-lo, para controlá-lo, que só geram culpa em você!

Respeite seu próximo e não faça ao outro o que não queira para você! Preste atenção na sua vida, que seu estado de alerta seja seu guia!

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é só o que há aqui e agora, e só de que você precisa.

Eu o fiz absolutamente livre. Não há prêmios, nem castigos. Não há pecados, nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Você é absolutamente livre para fazer da sua vida um céu ou um inferno.

Não lhe poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso lhe dar um conselho: Viva como se não o houvesse, como se esta fosse sua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não houver nada, você terá usufruído da oportunidade que lhe dei.

E, se houver, tenha certeza de que não vou perguntar se você foi comportado ou não. Vou perguntar se você gostou, se se divertiu, do que mais gostou, o que aprendeu.

Pare de crer em mim! Crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que você acredite em mim, quero que me sinta em você. Quero que me sinta em você quando beija sua amada, quando agasalha sua filhinha, quando acaricia seu cachorro, quando toma banho de mar.

Pare de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra você acredita que eu seja? Aborrece-me que me louvem. Cansa-me que me agradeçam. Você se sente grato? Demonstre-o cuidando de você, da sua saúde, das suas relações, do mundo. Sente-se olhado, surpreendido? Expresse sua alegria! Esse é um jeito de me louvar.

Pare de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que o ensinaram sobre mim! A única certeza é que você está aqui, que está vivo e que este mundo está cheio de maravilhas.

Para que precisa de mais milagres? Para que tantas explicações? Não me procure fora. Não me achará. Procure-me dentro de você. É aí que estou, batendo em você.”

O texto acima, peguei de um compartilhamento do Charlles Campos, feito pelo Facebook

Esse texto pode ser encontrado em um bonito vídeo no Youtube.

sábado, abril 18, 2020

Três textos e uma ideia





V - Há metafísica bastante em não pensar em nada.

V

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do Mundo?
Sei lá o que penso do Mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do Sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

«Constituição íntima das coisas»...
«Sentido íntimo do Universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Alberto Caiero, um dos heterônimos de Fernando Pessoa. Daqui

terça-feira, fevereiro 11, 2020

"O Parasita" e a crítica às verticalidades


 
Sou um crítico do festival do Oscar. Todo início de ano, há uma imensa propalação do evento, como se este referendasse o que foi produzido em matéria de cinema. As produções indicadas são alçadas ao panteão insofismável das obras definitivas. Na minha limitada maneira de ver, apenas alguns dos filmes indicados podem ser colocados no rol das grandes obras. Há muito Hollywood e, em muitos casos, pouco cinema nessas obras. Resumindo: o Oscar é um festival feito para as produções estadunidenses. O objetivo é robustecer o imperialismo daquela sociedade, ou seja, sua indústria cultural.

Há cinema de qualidade sendo produzido em outros locais do Globo. Mas, num aceno de máxima sensatez, até mesmo os enfunados norte-americanos parecem reconhecer isso. Essa tese pode ser fortalecida com a concessão que foi feita ao excelente filme sul-coreano O Parasita (do diretor Bong Joon-ho), uma obra provocante e de grande qualidade; rica em metáforas; em possibilidades temáticas; repleta de simbolismos; e detalhes psicológicos, sociológicos, filosóficos, econômicos, urbanísticos etc.

Primeiramente, é preciso dizer que O Parasita é uma experiência perturbadora. O filme nos passa a ideia inicial de uma comédia de mal gosto. Aos poucos, vai ganhando contornos dramáticos. Até ganhar cintilações trágicas. À medida que as cenas se desenrolam, há uma mal-estar provocado pela esperteza da família. São verdadeiros “parasitas” no sentido mais elementar. Aproveitam-se de um hospedeiro para extrair-lhe os nutrientes. Alimentam-se do organismo alheio, fazendo disso uma ação necessária, fundamental. Ignoram a condição do hospedeiro. Pensam apenas na satisfação de suas necessidades. Parasita é um nome forte, repleto de efeitos.

Um pai de família pobre, juntamente com a esposa e dois filhos (um casal), se equilibram financeiramente. Nesse sentido, há uma crítica sendo feita ao modo de organização social da, aparentemente, rica Coreia – ao contrária de sua irmã do Norte. A família vive em um espaço, como se fosse inseto, abaixo da superfície da rua, em Seul, capital da rica Coreia do Sul. A alimentação é irregular. Na luminosa e tecnológica Coreia, eles não têm serviço de wi-fi. Precisam capturar a senha dos estabelecimentos que oferecem o serviço gratuitamente aos clientes. Recebem os dejetos dos bêbados que urinam na rua.

Surge uma oportunidade para que um dos filhos da família desse aulas de inglês para a filha de uma família rica. É justamente nesse ponto que acontece o salto imaginativo e malandragem da família. Todos os integrantes da família assumem funções na casa da rica família após eliminarem os obstáculos de forma insensível. Os desdobramentos são os mais inusitados possíveis, tornando O Parasita uma obra cujas possibilidades da fantasia e do inverossímil são usados em doses certas.

É possível afirmar que as escadas possuem uma função fundamental na produção de Bong. Há um trabalho constante com a verticalidade. Há uma cena emblemática no filme que nos remete à metáfora da estruturação das sociedades capitalistas. Após uma chuva terrível que causa prejuízos inestimáveis para os pobres moradores das periferias da capital sul-coreana, o pai e os dois filhos descem uma escadaria. A cena sugere que eles sempre descem: do bairro rico para o bairro pobre; do ponto alto para o ponto baixo; do limite da rua, para a caserna onde moram. Trata-se da representação do esquematismo das classes sociais sob o capitalismo, fazendo lembrar a música do Chico Sciense e Nação Zumbi, A cidade.  “A cidade não para/ a cidade só cresce/ o de cima sobe/ e o debaixo desce”.

O Parasita ganhou o Oscar de melhor filme do ano de 2019. Até mesmo a autossuficiente Hollywood se dobrou diante da beleza e do emblematismo da obra.  Os americanos sempre defensores de que estão no ponto mais alto entre todas as sociedades globais, tiveram que descer à superfície e perceber que há outros olhares, além dos deles.

quarta-feira, janeiro 01, 2020

"Ética e moral - a busca dos fundamentos", de Leonardo Boff

"Tudo no mundo é dialético...", p. 94

Este foi o último livro que li no ano de 2019, portanto, o último da década. A leitura iniciou na metade do ano. Foi concluída apenas no último dia do ano. Resultado do muito trabalho e das poucas horas de que dispus para ler e contemplar as ideias, desvelando as intenções dos pensamentos. O que me levou ao livro foi uma intrigante vontade de entender o conceito filosófico de ética e moral tão comuns em debates; palavras repletas de menções, mas desconhecidas por boa parte daqueles que as proferem. 

O título do livro sugere isso - Ética e moral: a busca dos fundamentos, mas, Leonardo Boff não se ocupa em abordar filosoficamente esses dois conceitos. As referências são bem superficiais. Ele até busca fazê-lo. Há uma singela explicação etimológica para as duas palavras. Segundo Boff, as duas palavras gregas - ethos e daimon - são importantes para compreender o conceito de ética e moral. A primeira significa "morada humana"; já a segunda significa "anjo bom, gênio protetor". O conceito de "morada" extrapola o sentido do físico. É algo existencial. É o reconhecimento do bem-estar e possui uma relação globalizante consigo e com o cosmos. Já o "anjo protetor" tem a ver com a boa consciência, "com o sentimento do conveniente e do justo". Sendo assim, essa boa consciência nos permitirá morar bem na casa em que habitamos - seja o sujeito individual, a cidade, o país, o Planeta, o Universo em que habitamos. Tudo que se faça permitirá, munido desse "boa consciência", será ético e bom. Fora disso, tudo será antiético e mau. 

Ética é, então, o ramo da filosofia preocupado em orientar os homens a estabelecer os princípios e valores que tornam a vida possível em sociedade.  Já a moral é parte da vida concreta. Uma pessoa é moral quando age de acordo com os princípios e valores consagrados. Portanto, ela pode ser moral sem ser ética.

É a partir desse pensamento que Boff faz a sua reflexão, estabelecendo a relação do sujeito consigo e com o outro para a existência de uma ética que conduza o homem a uma mudança. Segundo ele, o modelo construído pela sociedade capitalista não tem permitido a formação dessa boa consciência, conduzindo o homem do nosso tempo a uma ignorância, que se não for observada, será fatal a manuntenção de todos os seres no Planeta. Para reverter isso, é preciso que haja (1) um ethos que procura; (2) um ethos que ama, pois "quando o outro irrompe à minha frente, nasce a ética"; (3) um ethos que cuida, porquanto o cuidado é anterior, "é o a priori ontológico", aquilo que deve existir antes para que a vida e as coisas se tornem possíveis; (4) o ethos que se responsabiliza, porque "responsabilidade surge quando nos damos conta das consequências de nossos atos sobre os outros e a natureza"; (5) o ethos que se solidariza, "pois somos todos interdependentes uns dos outros"; (6) o ethos que se compadece, porquanto necessitamos incorporar a compaixão; (7) o ethos que integra, pois procura ser sensível às demandas do mundo, às suas necessidades. 

Como em outras leituras que fiz de Leonardo Boff, há um forte apelo para o despertar de uma nova consciência, que fuja do tecnicismo da modernidade, com suas respostas prontas, com as suas demandas desumanizantes. Boff está preocupado com a agenda ética de Francisco de Assis, de Jesus Cristo, de Gandhi, de Dalai Lama; com ética dos povos originais e suas tradições ancestrais. A espiritualidade é um elemento importante para a existência do daimon. Sem ela, não se pode desenvolver a boa consciência, a sensibilidade para as boas práticas. 

É preciso desconstruir a cultura da satanização do outro, pois ela só produz tragédias - guerras, preconceitos, xenofobias, misoginias, racismos. "O caminho da paz é a própria paz". Essas preocupações devem ser o debate atual, caso queiramos que nossa espécie tenha sobrevida neste planeta. A cultura da violência contra tudo e contra todos, por meio da agressão ao meio ambiente; a imposição da ideologia do capitalismo, o neoliberalismo, devem ser detidos. E isso só é possível colocando um outro fundamento, numa prática (moral) condizente com valores verdadeiros e princípios humanísticos (ética). 


domingo, junho 23, 2019

Reflexões esparsas sobre a leitura de "Deus - uma história humana", de Reza Aslan II

Fiquei quase dois meses lendo o livro "Deus - uma história humana", de Reza Aslan. A demora se deu (1) pelo fato de que li nas brechas de tempo que encontrei em meus dias povoados por muito trabalho; (2) pelo fato de que o livro de Aslan é de uma densidade estonteante. Bebi cada frase como um naufrago que bebe água doce pela primeira vez. Posso afirmar que é um dos livros mais importantes sobre a ideia de deus que já li. À medida que realizava a leitura, fiz alguns comentários sobre as partes que mais me chamaram a atenção, utilizando também algumas compreensões que já possuía sobre o tema. Abaixo, a segunda reflexão. 

A teoria da mente é uma importante ferramenta para explicar a origem da religião. "Minha percepção dos estados internos de outros seres humanos baseia-se no meu próprio estado interno". É o eu-consciente que consegue diferenciar o eu do tu. Esse fenômeno se dá com relação às coisas inanimadas e animadas. Qualquer coisa que medianamente possua qualquer relação com os meus atributos, receberá da minha parte uma afirmação: "Esse ser se parece comigo!" 

Para os primeiros humanos da nossa espécie, quando os recursos eram necessariamente conquistados por meio de estratégias que deveriam resultar em boas caças, havia uma maior suscetibilidade para impressões extraordinárias. Por exemplo, caso um indivíduo, no momento da caça, encontrasse esculpido em uma árvore um rosto, uma feição minimamente parecida com o ser humano, aquilo poderia deflagrar uma relação de admiração. E, caso fosse bem sucedido na caça, é possível que começasse a levar oferendas para aquele suposto ente. As religiões, no geral, são fenômenos neurológicos. São o resultado da nossa capacidade de moldar os nossos desejos e transferi-los a um ser que se parece comigo, todavia, com poderes absolutos, soberanos. No fundo, a religião é um fenômeno em que o ser humano projeta num ser onipotente aquilo que não encontra em si.

As religiões, assim, tornam-se hegemônicas a partir do momento que são adotadas por um número extraordinário de pessoas, ela se torna inquestionável e, portanto, criará uma percepção totalizante. É, por isso, que há tantas pessoas que acreditam no cristianismo, no islamismo, no judaísmo, no hinduísmo etc.

A teoria da mente explica, por exemplo, certas falas: "Deus falou comigo".  A religião lida com fatos que subvertem a ordem lógica do universo. O milagre é uma categoria que não encontra plausibilidade em um universo regido por leis lógicas. Por exemplo, um objeto nunca vai cair para cima. A percepção é sempre individual. Por que deus falaria com uns em detrimento dos outros? Aquilo que adoramos é o que nos controla. Todas as forças, a consciência psíquica, a organização do mundo e as ações mais triviais passam a ter uma relação com o extraordinário. Entenda-se "extraordinário" como uma linguagem capaz de ressignificar o eu em relação àquilo que existe fora do sujeito. Não se escuta deus. Escuta-se o desejo, que é força, energia canalizada da emoção, da confiança, da certeza inquebratável. No mundo do religioso, a emoção precisa se transformar em racionalidade. 

(Continua...)

segunda-feira, maio 13, 2019

Reflexões esparsas sobre a leitura de "Deus - uma história humana", de Reza Aslan I

Existe no ser humano um dispositivo de crença. Uma capacidade para se maravilhar com o mistério. Milhares e milhares de anos de evolução permitiram que o ser humano tomasse consciência de si e do outro. Permitiu-lhe acumular informações e ter noções sobre o passado, sobre o presente e sobre o futuro. Essa noção sobre eventos psicológicos e como esses se alteram ao longo do tempo, criou certas condições para que a noção do sagrado se efetivasse. É muito comum imaginarmos que a religião sempre existiu; que ela sempre esteve presente na história.

Dizem os estudiosos, que até 150 mil anos atrás, por exemplo, não havia indícios claros de enterros. Foi no Paleolítico, que os seres humanos começaram a enterrar os seus parentes. Essa prática indica como passou a existir essa necessidade por uma questão de respeito ao ente querido. Às vezes, em posição fetal voltado para o nascente; ou simplesmente, numa posição que definisse a crença.

A grande questão é que existem situações para as quais os seres humanos não possuem respostas. Essa “ignorância” promove inquietação e um premente desejo de resposta. O que acontecerá após a morte? Quem criou esse mundo imenso, suas leis e contradições? Qual o destino de todos após a morte? O mistério intriga. Induz o sujeito a determinadas reflexões e, acima de tudo, a uma resposta que seja totalizante; que seja capaz de satisfazer as inquietações mais febris. Isso ecoa na clássica frase de Ludwig Feuerbach: “apenas um ser que compreende em si o homem todo pode satisfazer o homem todo”. A consciência do sagrado suaviza as inquietações do homem em um universo em que as contradições existem por toda a parte. Deus é uma resposta conveniente para uma inquietação inconveniente.

O medo e a insegurança sobre o próprio destino força o sujeito à crença. Geralmente, ao se falar em nomes como deus, inferno ou diabo, o sujeito teme, persigna-se, pois, em sua alma, existe o temor inconsciente do próprio destino. Como tergiversar ou prevaricar sobre alguém que pode decidir o seu destino pela eternidade?

A religião surgiu inicialmente como “um esquema” capaz de responder por completo as inquietações do ser humano sobre ele mesmo e sua relação com o mundo e com a natureza. O animismo foi a primeira tentativa de explicar o mundo: o sol, os rios, a lua, as pedras, as árvores, a chuva etc passam a ser elementos que ganham poderes diante dos homens. Seria preciso realizar certos rituais para aplacar a vontade de certos elementos. Por exemplo, se em determinado momento houvesse uma seca ou o excesso de chuva, influenciando o destino e a vida dos homens, certamente, havia sobre isso uma percepção de desconfiança. Aquilo para a qual não existe uma resposta imediata, transforma-se em tabu, em evento sagrado.

Crê é uma decisão que o homem realiza todas as vezes que ele se vê diante de algo maior do que ele. A fé possui uma perspectiva de susto, de mistério, de entrega, de confissão dos desejos mais íntimos. Essa relação profunda é existencialmente capaz de promover uma transformação psicológica. A religião precisa de uma linguagem; a fé precisa de uma narrativa; de elementos que sejam capazes de subsumir numa totalidade. Dentro dessa narrativa cabem todas as coisas. A religião deu ao homem os primeiros mitos fundadores. Viver em mundo em que não fosse possível explicá-lo seria, para o homem, caótico e desagregador. A narrativa criadora organiza o caos. Cria muros contra os inimigos inquietos do irracionalismo. Ordena o universo; põe limites; espalha âncoras pelo oceano imenso das perguntas inquietantes, que deslocam o ser e o coloca “sobre a face do abismo”.

Na Bíblia, o livro judaico-cristão que busca organizar o caos e cria uma narrativa tida como sagrada no mundo ocidental, sugere que Paulo disse: “Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas”. (2 Co 5.17). Essa referência ao texto de Paulo serve para ilustrar o quanto a relação com o numinoso envolve uma profunda catarse psicológica. Se a religião é linguagem, deus é semântica. As narrativas institucionalizadas (e institucionalizadoras) e, portanto, hegemônicas, criam condições inquestionáveis. Sedimenta certas seguranças. A afirmação de Paulo sugere pelo menos quatro importantes questões: (1) “está em Cristo”, sugere está subsumido numa realidade encapsuladora. “Está em Cristo” é pertencer a uma estrutura que possui efeitos psicológicos, que possui um conjunto de regras, leis; em que há uma linguagem conexa, que absorve o sujeito. É um processo de entrega. (2) “é nova criação”, indica uma transformação da consciência de si, do outro e do mundo. Não significa que haja um ser transcendente, superior, sensível e que interfira na história. O homem é capaz de intervir na história, modificar a natureza e a si mesmo. (3) “As coisas antigas passaram” – o “antigas” aqui significa meramente que o próprio sujeito ao estabelecer contato com “a linguagem transformadora” instaura uma delimitação cronológico-existencial. É o desejo, associado ao dispositivo de crença e credibilidade que confere a mudança. Os marcos são sempre psicológicos e existenciais. (4) “...surgiram coisas novas” – ‘nova’ é a percepção do marco, do limite, da delimitação estabelecida pela vontade daquele que entrou em contato com a “narrativa transformadora”. Denomina-se de “novo” o referencial estabelecido pelo encontro. A transformação é induzida pela própria disposição mental daquele que diz ter experimentado uma experiência nova, transformadora.

Reinaldo José Lopes em “Deus – como ele nasceu”, afirma: “Por mais que as pessoas acreditem estar na presença de Deus numa igreja, numa sinagoga ou numa mesquita, qualquer sensação especial que venham a sentir em contextos religiosos não passa do resultado de mensageiros químicos e impulsos elétricos pulando de um neurônio para outro em algum canto da cabeça delas”.

(Continua...)

quinta-feira, janeiro 24, 2019

Matrix e o mundo real

"O que é "real"? Como você define o "real"? Se está falando do que consegue sentir, do que pode cheirar, provar, ver, então "real" são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo cérebro".
 Morpheus, personagem do filme Matrix

O que é a realidade? Tudo o que vemos é real? Como sei que existo e que aquilo que vejo e penso encontra ressonâncias com a materialidade? A nossa percepção do mundo não é fruto de um sonho? Essas perguntas perturbam e inquietam o ser humano há milênios. Os gregos foram os primeiros a tentarem responder essas perguntas.  

Em 1999, as irmãs Wachowski deram ao mundo uma obra-prima, o filme Matrix. Eles lançariam ainda outros dois, constituindo uma trilogia. A obra se fixa no rol daquelas distopias imortais como o são “2001: uma odisseia no espaço” (1969) e “Blade Runner – o caçador de androides” (1983). Matrix é uma distopia repleta de referências à filosofia, à mitologia, à teologia e a toda uma parafernália derivada da cibercultura. Particularmente, já devo ter assistido ao filme umas oito vezes. Cada vez que vejo a obra, atento para um detalhe ignorado. 

“O que é Matrix?” Essa pergunta encontra eco no questionamento fundamental: “o que é realidade?” Entendemos que a realidade abarca tudo aquilo que vemos, experimentamos, sentimos. Somos mediados pelos sentidos, que criam em nós, uma estrutura sólida da realidade. É a partir dessa referência que sedimentamos a nossa relação com o mundo que nos cerca. Mas, e se descobríssemos que aquilo que vemos, sentimos e experimentamos não é real?  

É justamente o personagem Thomas Anderson que começa a fazer esse questionamento. Anderson é um hacker. Trabalha numa empresa que desenvolve softwares. À noite, Anderson, que se assume como Neo no mundo cibernético, acessa os códigos da Matrix. E, assim, começa a desconfiar do mundo em que vive. Não consegue dormir. É perturbado por inquietações variadas. Neo, por fim, entra em contato com a personagem Morpheus, uma lenda do mundo virtual. Na mitologia grega, Morfeu é o deus dos sonhos. A entidade, cujo nome em grego “morpheu” significa a forma”, que possui a capacidade de se transformar em qualquer coisa e aparecer nos sonhos das pessoas. Morfeu é entidade sorrateira. Possui asas que não emitem som enquanto ruflam e deslizam suavemente. 

Em Matrix, Anderson  é despertado por Morpheus. É Morpheus quem o tira do mundo do sono, da ilusão, da virtualidade. Anderson vivia em mundo de fantasia, antes de se tornar Neo (o novo), “o escolhido”. Vivia dentro da Matrix. Seguindo esse entendimento, Matrix é uma realidade ilusória, uma realidade programada pelas máquinas. 

Segundo Morpheus, os homens iniciaram uma guerra contra as máquinas e perderam. Foram, por isso, evacuados do mundo. Passaram a viver em Zion (Sião), uma espécie de referência à Terra Santa, ao monte Sinai, onde supostamente, segundo o Velho Testamento, Javé apareceu para Moisés. Desde a guerra, o céu tornou-se escuro. Nuvens grossas e pesadas impedem que a luz do sol incida sobre a superfície. Sem luz solar, as máquinas não conseguem extrair energia necessária para alimentarem os sistemas existentes. Elas precisam de uma fonte alternativa de energia térmica. Passaram, pois, a cultivar seres humanos em série para que estes produzissem, por meio do calor corporal, bioeletricidade. Milhões de corpos são mantidos em sono perpétuo, sem que tenham exata consciência de sua real condição. 

Em uma das cenas do filme, Morpheus mostra para Neo duas pílulas - uma azul e outra vermelha. A azul permitiria a Neo continuar vivendo na escuridão, na ilusão; conduzia a sua vida normalmente na Matrix. Casaria. Teria filhos caso desejasse. Tocaria a sua vida. Desenvolveria suas atividades, sem qualquer preocupação. Já a pílula vermelho daria a ele a percepção do mundo real. Ele seria tirado do mundo das aparências. Despertaria para o mundo que o cerca. Perceberia a grande ilusão que o ladeava. Neo escolheu a pílula vermelha.

A grande questão é que há referências claras à “Alegoria da Caverna”, de Platão.  No livro 7, de A República, Platão narra a história de alguns prisioneiros que foram amarrados desde o nascimento no fundo de uma caverna. A condição dos prisioneiros é de tão grande passividade, que tudo que chega a eles, vem por intermédio de sombras e sonoridades confusas. Atrás deles, fica a saída da caverna em um plano inclinado. Há ainda uma fogueira acesa que projeta as sombras. Do lado de fora, as pessoas passam. A vida acontece em toda a sua plenitude. O sol brilha. As pessoas transitam desimpedidas. Dentro da caverna, a realidade é deformada. Chegam sombras tortas. O fogo bruxuleia por causa do vento. E, ao passo que isso ocorre, a projeção ganha contornos estranhos. A luz do sol não chega. Se essas pessoas estão ali desde que adquiriram consciência, é natural que elas entendam que toda a realidade que existe se limite ao que elas veem e escutam. 

Provocativamente, Platão diz que, após muito esforço, um dos prisioneiros consegue se libertar. Seu primeiro ato é se acostumar com a nova posição. Seus músculos e articulações estão atrofiados. Mal consegue se equilibrar. Caminha trôpego até o plano inclinado da caverna. Olha para trás, visualiza a fogueira, os companheiros manietados, as sombras fantasmagóricas que dançam nas paredes nuas da caverna. Faz um esforço. Galga a rampa. Um facho impetuoso de luz inunda-lhe os olhos. Quase fica cego. A luminosidade parece possuir espetos. Verruma-lhe os olhos. Em uma das cenas do filme, após sair da Matrix, Neo diz para Morpheus: “Os meus olhos doem”, ao que Morpheus retruca: “É por que você nunca os usou”.

Após enxergar o mundo e sua diversidade; perceber os parques; a força e a grandeza magnânima do mar; escutar os sons múltiplos da natureza, o homem decide voltar para contar tudo aos seus antigos companheiros. É sua obrigação, entende. Fora da caverna está o mundo real com sua diversidade e complexidade. Precisa voltar e explanar as sempiternas novidades. 

Ele assim o faz. Narra cada pormenor. Descreve o mundo e suas cores. As vozes. A dança frenética da realidade, banhada pela luminosidade do sol. Mas, grande foi o seu susto. Os antigos companheiros se recusam a aceitar tão aberrante e destoante notícia. Aquilo era um embuste. Uma mentira. Não existia nada daquilo. Tratava-se de uma invenção. A realidade, conforme eles entendiam de forma absoluta, resumia-se cabalmente àquilo que eles viam refletido no fundo da caverna. Em um dos diálogos do filme, Morpheus leva Neo a um grande centro metropolitano e diz: 

“A Matrix é um sistema, Neo. Esse sistema é nosso inimigo. Mas, quando estamos dentro dele, o que vemos? Homens de negócio, professores, advogados, marceneiros. As mesmas pessoas que queremos salvar. Mas até conseguimos, essas pessoas fazem parte desse sistema e isso faz delas nossas inimigas. Você precisa entender que a maior parte dessas pessoas não estão prontas para acordar. E muitos estão tão inertes, tão dependentes do sistema, que vão lutar para protegê-lo”. 
Os códigos que estruturam a realidade e fazem Matrix

Nota-se com isso, a estreita intertextualidade do filme com a alegoria escrita por Platão. Vale ressaltar que a alegoria pretende, por meio de simbolismos, retratar uma metáfora que acaba ganhando materialidade. Ou seja, cada elemento da alegoria estabelece conexão com o mundo material. Matrix aponta para esse intricado debate: até que ponto sabemos que aquilo que vemos, percebemos e ouvimos é verdadeiro? Outra questão é a defesa de determinadas premissas. As convicções surgem da experiência. Acostumamo-nos com a realidade que nos é apresentada. Entendemos que toda ela é inquestionável. O menor questionamento, a mais insignificante relativização, já é vista como motivo para provocação. E se nós, à semelhança dos prisioneiros, estivermos acorrentados, contaminados pela sonoridade falha; e se apreendermos um tipo de mundo, sem que este seja necessariamente a realidade que achamos que é?

O ser humano precisa de estabilidade. É, por isso, que se faz a defesa intransigente de certas convicções. Para aquele que possui, nada é tão verdadeiro, nada faz tanto sentido. Mas, e se essas convicções forem apenas sombras? O papel do filósofo ou daquele que foge da tirania do olhar único é sempre transgressor. O papel daquele reflete, que pensa, que desconfia, que procura sair da caverna dos preconceitos e da aparência é sempre de transgressão. Lênin costumava dizer que “a verdade é revolucionária”. 

Existem outros elementos no filme suficientes para produzir teses. O fato é que fico impressionado todas às vezes que assisto ao filme. Por exemplo, no campo da religião há referências a dogmas cristãos. Neo é “o messias”, o salvador, aquele que traria redenção à raça humana condenada. Ele é o libertador. Arrancaria os homens de um mundo em que eles nada são a fim de se tornarem aquilo que devem ser. Paulo, o apóstolo, diz na sua segunda carta aos coríntios diz que “se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas velhas passaram e tudo se fez novo”. Percebe-se aqui o quanto o filme procura estabelecer a mudança perpetrada pela relação com o messias. 

Outra referência curiosa é o dogma da Trindade. A personagem “Trinity” possui relação. A primeira vez que ela se encontra com Neo, ele diz: “Achei que você fosse um homem”. Ela responde: “Todos acham isso”. Quando da morte de Neo, ela o ressuscita. Pai, Filho e Espírito Santo são um. Se o filho ressuscita, o Pai e o Espírito ressuscitam, ou seja, a própria trindade ressuscita. 

Em suma: o filme é uma obra bastante incomum. Os irmãos Wachowski conseguiram trabalhar conceitos extremamente complexos e inovaram bastante no campo visual. O filme é um grande acontecimento. É um prato feito para aqueles que admiram filmes polifônicos, ou seja, que conseguem perturbar por aquilo que insinuam, seja de maneira direta ou indireta.