A década de 30 do século XX foi
uma das mais ricas para a literatura brasileira. Viveu-se o que se convencionou
chamar de Segunda Geração Modernista (1930-1945). A literatura produzida por
aqui desenvolveu o seu engajamento. Liberdade para criar e reconhecer as
contradições brasileiras ganharam forma. Tanto a poesia quanto a prosa assumiram
uma posição de denúncia. Há nomes importantes na poesia – Carlos Drummond de
Andrade, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Murilo Mendes. Na prosa, também se
observa a força, a pujança das narrativas, uma preocupação com a crítica à
condição do homem numa sociedade repleta de duros antagonismos.
No Nordeste, há nomes que
impressionam pelo aspecto prolífico da produção. As questões regionais passaram a ganhar visibilidade. A seca, as desigualdades, o jogo político que fazia com o poder
pertencesse a certas famílias – as velhas oligarquias, fruto da formação social
e econômica do país -, são expostos por Graciliano Ramos, José Lins do Rego,
Jorge Amado, Amando Fontes, entre outros.
Pode-se observar ainda um
movimento que tende a revelar os dramas do homem urbano. Os escritores
apontavam as lutas do homem da cidade. Suas dissonâncias. Seu mal-estar
psicológico. A urbe capitalista é o espaço em que o ser humano encontra-se
exposto às ambivalências; à solidão; ao aparente; à angustia. Os gestos não definem um
ensaio de definição.
Erico Veríssimo foi certamente
um mestre nesse sentido. “Caminhos cruzados” foi o seu segundo romance, escrito
no ano de 1935. Veríssimo à sua maneira, com uma prosa ágil, despojada, dedica
atenção aos homens e mulheres da Porto Alegre da primeira metade do século XX. Erico
descreve com inconformismo a realidade das vidas humanas embrutecidas ou
vulnerabilizadas pela luta no palco social. Ninguém está livre da crise. Seu texto
é imensamente humano.
Erico Veríssimo.
A paisagem urbana esconde os
dilemas. O romance possui vários nichos narrativos, que funcionam como uma
novela. Cada capítulo dedica-se a uma personagem. Vamos conhecendo um a um;
solidarizamo-nos com um; tomamos aversão a outros. O autor parece apresentar um
prédio para alguém que passa pela rua. Ele aponta o seu dedo e vai descrevendo
as histórias que povoam cada apartamento. Em alguns deles, notam-se a
exuberância, o luxo, a vaidade. Em outros, a singeleza, a humildade, o despojamento.
Como diz Antonio Cândido, é como se o escritor dividisse as personagens em dois
grupos: o grupo “A”, formado pelos ricos; e o grupo “B”, formado eminentemente
pelos pobres.
Veríssimo denuncia as
desigualdades sociais e a indiferença. Em um período sensível da história
nacional, que estava na iminência do golpe de Estado de Vargas, não faltou quem
visse intenções revolucionárias na pena do escritor.
O gaúcho, também autor de
“Incidente em Antares”, utiliza a técnica do contraponto, segundo ele,
apropriada da obra do inglês Aldous Huxley. É curioso perceber como essas
personagens diversas e contrastantes se aproximam e se cruzam pela urdidura da
vida social. É nesse ponto, que Veríssimo realiza o movimento primoroso do
acerto, pois, ao estabelecer essas conexões, ele captura a imagem de uma
sociedade inteira.
O romance gerou escândalos e
protestos. Os conservadores ciosos dos valores da família, enxergaram
imoralidades. Moacyr Scliar afirma que, quando adolescente, a leitura do livro
era terminantemente proibida. Despertou também furor político, pois a obra foi
acusada de disseminar o comunismo. Sim. Essa palavra tão incompreendida; tão onipresente no imaginário da classe média brasileira; essa palavra cujo conceito é desconhecido por muitos.
Ao lermos o romance, não notamos nada disso.
Observa-se que Erico é habilidoso em realizar uma crítica firme contra um país
que invizibiliza parte de sua população. Se Erico suscitou debates, é pelo fato
de sua obra está entretecida pelos limites impostos pelo mundo material. As
personagens do livro são motivadas pelo sonho, pela esperança, mas têm suas
intenções estilhaçadas pelo mundo real. Nada mais atual que isso. E nesse
sentido, este romance do autor gaúcho ainda continua dizendo muito.
Os dias começaram intensos em 2023. Essa postagem era para ter sido feita nos primeiros dias de janeiro ou no final de dezembro. O trabalho e o excesso de atividade não deixaram. De qualquer forma, o mais importante é que ela sairá.
O objetivo dela é apontar as dez leituras mais importantes que fiz ao longo do ano de 2022. Um ano difícil. Repleto de tensionamentos e cansaços. De perdas e danos que deixaram arranhões. Por sua vez, não largamos as leituras. As leituras aconteceram a conta gotas. Nos intervalos. Nas caminhadas. No embalo do ônibus. Nos cochilos assustados do metrô. À noite, enquanto punha o meu filho pra dormir. Difícil. Mas seguimos com um senso de dever cumprido.
Como afirmo todos os anos, gostaria de ter lido mais do que li. Todavia, consegui ler aquilo que me foi possível. Sendo assim, seguem as dez leituras mais importantes que li ao longo do ano que passou.
01 - "Os Sertões" - Euclides da Cunha;
02 - "Antes do baile verde" - Lygia Fagundes Telles;
03 - "1984" - George Orwell;
04 - "O milagre de Espinosa" - Frédéric Lenoir;
05 - "O ventre" - Carlos Heitor Cony;
06 - "A metamorfose" - Franz Kafka;
07 - "Fascismo à brasileira" - Pedro Doria;
08 - "Lula - uma biografia - vol. 1 - Fernando Morais;
Terminei a leitura da aclamada biografia sobre Clarice Lispector, escrita pelo laureado estudioso estadunidense Benjamin Moser. O calhamaço com mais de setecentas páginas chegou por aqui nos idos de 2013. Foi um sucesso imediato. Moser fez um trabalho à altura da magnitude da escritora brasileira, nascida na Ucrânia no início da década de 1920. O trabalho apresentou Clarice para o mundo. Em locais onde ela ainda não era conhecida com os encômios devidos, ela gerou, no mínimo, uma curiosidade. Certamente, como aconteceu ao longo da vida da escritora, houve a indagação: quem é essa escritora de nome tão minimalista – Clarice – digna de ganhar uma biografia tão volumosa?
Moser explica que chegou aos textos de Clarice Lispector por um lance inopinado. Era estudante de línguas. Tinha a intenção de estudar uma língua pouco vulgar. Pensou no russo. Mas acabou optando pelo português do Brasil. Como um processo natural de aprofundamento da língua, teve como tarefa a leitura de escritores brasileiros contemporâneos que produziram textos curtos. Entrou em contato com “A hora da estrela”, o último texto escrito por Clarice. Foi uma paixão inconteste no primeiro encontro. Quem era aquela escritora densa, de texto com uma carga epifânica que beirava o atordoamento? É o que ele tenta descrever ao longo de sua deliciosa prosa.
Clarice Lispector nasceu em Tchecenilk, uma pequena cidade da Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920. Seu nome de nascimento era Chaya Pinkhasovna Lispector. Nascida em uma família judia, os Lispector tiveram que sair do país em decorrência de uma Guerra Civil. Estudaram vários destinos como possibilidade de uma nova morada. Os dois últimos destinos foram os Estados Unidos e o Brasil. Como possuíam parentes já estabelecidos no Brasil, optaram pelo distante e singular país da América do Sul. De forma ainda mais emblemática, foi o estabelecimento em Maceió, uma cidade pequena, de clima peculiar e que não abrigava uma comunidade judaica. Os parentes ali estabelecidos haviam chegado anos antes e haviam conseguido se estabelecer junto ao comércio. Na ocasião da chegada, Clarice tinha apenas dois anos de vida.
A família de Clarice acabou indo, após algumas dificuldades na capital alagoana, para uma das mais importantes econômica, política e culturalmente capitais nordestinas, o Recife. A família ficou ali por praticamente dez anos. Moraram no bairro da Boa Vista, que possuía uma sólida comunidade judaica. Ali as irmãs Clarice, Tânia e Elisa viveram anos tranquilos. Clarice era a mais nova das três irmãs. Moser registra que, mais tarde, Clarice foi interpelada sobre a sua nacionalidade. Ela afirmou sem embaraços que era brasileira e pernambucana. Nutria uma grande admiração pelo estado nordestino onde passara boa parte de sua adolescência. Gostava da culinária, do sotaque característico, do clima da cidade; do caldo cultural tão próprio da capital pernambucana. Alguns dos seus contos são ambientados em Recife; algumas de suas memórias afetivas estavam carregadas pelos acontecimentos nos dez anos em que viveu no bairro da Boa Vista. Na capital pernambucana foi alfabetizada. Iniciou as primeiras leituras. Encontrou-se com os russos; com Herman Hesse, cuja livro “O lobo da estepe” foi tão significativo.
Benjamin Moser
Mais tarde, muda-se para o Rio de Janeiro com o pai e as irmãs. No Rio, notam-se os eventos que foram fundamentais para a formação profissional e o pleno amadurecimento da carreira de escritora. Quando morou no Recife, Clarice já escrevera algumas singelas histórias. Envia-as para o jornal Diário de Pernambuco. Todavia, os seus textos nunca foram escolhidos. A preterição ocorria com frequência. Ela mesma explicou aquilo talvez tenha ocorrido por causa do intimismo dos textos que escrevia. As pessoas estavam acostumadas a lerem coisas do tipo: “Era uma vez...”. Seus textos não traziam nada dessa marca previsível.
Muda-se com a família de Recife para a Capital do país, o Rio de Janeiro. Iniciou o curso de Direito na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro. E ao concluir o curso, escreve “Perto do Coração Selvagem”, que causou uma sensação enorme. Acabou por chamar atenção de críticos e intelectuais. À época, ela tinha pouco mais de vinte anos. Quem seria aquela mulher com sobrenome estranho? Seria um pseudônimo, alguém que buscava permanecer anônimo? Afinal, quem era a dona daquele texto tão impregnado de psicologismo; de uma estar consigo? Quem era aquela mulher que não ligava para as paisagens externas, que tinha como material para os seus romances as “estepes” interiores?
Procurou conciliar o Direito com a prática do jornalismo. Publica alguns contos. A produção desse material ajuda-lhe a consolidar o manejo do gênero o qual dominou com grande maestria. Ao lado de Lygia Fagundes Telles, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Osman Lins entre outros nomes, Clarice se estabeleceu como uma das mais importantes contistas da literatura brasileira.
Por essa época, entra em contato com Lúcio Cardoso, um dândi, um boêmio, um intelectual inquieto, por quem ela se apaixona. Ela veio, mais tarde, a descobrir que Lúcio era homossexual. Havia uma impossibilidade de levar à frente um relacionamento com Lúcio. Ao longo de sua vida, pelo que se sabe, Clarice envolveu-se emocionalmente somente com três homens – Lúcio Cardoso, Mauri (pai dos seus filhos) e Paulo Mendes Campos.
Mais tarde se casaria com Mauri. O relacionamento consolidou-se enquanto ela ainda cursava Direito. Mauri passou em um concurso para o Itamarati. Foi por conta disso, que Clarice morou por alguns anos fora do Brasil – Itália, Suíça, Estados Unidos.
Enquanto estava morando na Suíça, Clarice ganhou primeiro filho. Escreveu seu segundo romance – “O Lustre”. A escritora era uma jovem recém-entrada na casa dos vinte anos. Uma das marcas que mais incutiram força em Clarice, foi a solidão e a saudade do Brasil. Apesar dos amigos, apesar das oportunidades de conviver com eventos diferentes, Clarice era povoada por grande inquietação. Aliás, esta foi uma característica que a perseguiu por todos os anos de sua vida.
Essa inquietação foi responsável pelo questionamento sobre as condições do seu casamento. Estar casada – e longe do Brasil – gestava questionamentos. Nesse sentido, Clarice oscilava em reflexões à semelhança de Joana, personagem central do seu romance de estreia, “Perto do coração selvagem”. A escritora escavava suas emoções; fazia perquirições sobre suas intenções mais íntimas. Por fim, decidiu voltar para o Brasil com os filhos. Mauri ficou nos Estados Unidos. Ele, ainda apaixonado; buscando reatar o relacionamento. Ela, esquiva. Tentaram uma última vez a aproximação, mas não foi possível. Clarice era imensa, possuía sentimentos indefiníveis e incógnitos. Novamente, pode-se evocar a célebre frase da personagem de “Perto do coração selvagem”: “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome”. O inominável sempre foi o desejo das personagens criadas pela escritora. A vida de Clarice também foi repleta por uma tentativa de entender o indefinível.
Clarice Lispector.
De acordo com os depoimentos de Moser, Clarice era uma mulher que despertava paixão à primeira vista. Fisicamente ela era bastante atraente. Dos seus olhos emanava uma energia envolvente, misteriosa, capaz de criar uma funda impressão em quem, por muito tempo, ficasse próximo a ela. Sua voz possuía um sotaque carregado. Mas este não era resultado da dificuldade de pronunciar os verbetes da língua portuguesa. Ela viera, afinal, para cá, com dois anos. Fora alfabetizada em português. Tratava-se de uma anomalia que ela possuía na língua – e que poderia ser resolvida com uma cirurgia – mas que ela se negou a fazer.
Ao longo de sua vida, Clarice construiu amizades que duraram a vida toda. Mencionam-se, por exemplo, a íntima correspondência que estabeleceu com Fernando Sabino. A amizade construída com Érico Veríssimo, principalmente, com Mafalda, esposa de Érico. E, nos anos finais, com Olga Borelli, que organizou o seu espólio e foi fundamental como amiga e companheira.
A grande questão que se sobressai sobre Clarice é que ala foi uma mulher inquieta, dona de uma alma selvagem; de uma vontade indômita. Sua literatura é fruto de sua personalidade misteriosa e inquieta. À medida que a biografia avança, chegando aos anos finais da vida da escritora, nota-se o quanto ela se tornou uma mulher depressiva e excessivamente pessimista. Ou, talvez, aquilo representasse uma forma de estar consigo.
Na famosa entrevista que concedeu Júlio Lerner, no ano em que morreu, 1977, fica claro o quanto ela se tornara excessivamente dura – com a vida e com ela mesma. O entrevistador pergunta por quem ela sentia raiva. Ela responde indefectivelmente: “Comigo mesma!” Ele vai mais a fundo e questiona: “Por que Clarice?” Ela responde meio displicente: “Sei lá... eu tô meio cansada”. Júlio estica a pergunta um pouco mais: “De quê, Clarice!” Ela volta à carga: “De mim!” É um pebolim existencial. Num último questionamento, que buscava conciliar a inspiração da escritora com a própria vida, Júlio pergunta: “Mas você não nasce e se renova a cada trabalho novo?” Clarice responde de forma enigmática: “Bom... agora eu morri. Vamos ver se eu renasço de novo; por enquanto, eu estou morta. Estou falando do meu túmulo”. Uma pessoa que se revela de forma tão pungente, não poderia escrever outra coisa senão aquilo - e do modo - que ela escreveu.
A impressão que transmite é de uma pessoa que alcançara os cumes da amargura. Em outro momento da entrevista, ela diz que era uma pessoa “alegre”. Se deixava entrever, naquele momento, uma postura negativa era pelo fato de estar cansada. Talvez, como diz Olga Borelli em uma entrevista, fosse o resultado da doença que a mataria – o câncer nos ovários.
O livro de Moser é excelente. O texto possui clareza jornalística. Não enfada. Há uma excelente contextualização histórica. O escritor procura conciliar os dados biográficos da vida de Clarice, mas relaciona os fatos históricos com a habilidade incomum de um bom pesquisador.
Abaixo, a última entrevista concedida pela escritora.
Santiago e seu inseparável cobertor de gases ao fundo
Na terça-feira, dia 14 de julho, por volta de meia noite e meia, cheguei à cidade de Santiago. Enquanto o motorista, um senhor de pouco mais de sessenta anos, conduzia-me para o lugar onde eu ficaria, tentei recolher de forma superficial, no meio do tecido escuro da noite, as primeiras impressões da cidade. Enxerguei alguns prédios com feições clássicas na distância. Tentei dialogar com o motorista, fazendo uma exaltação à cidade. Recolhi da fala simples e amistosa uma lição.
- Não existem cidades feias. Existem cidades distintas! - externou peremptório.
Fiquei pensando sobre aquela fala. A maior parte dos nossos juízos tentam se adequar àquilo que estabelecemos como certo, belo ou coerente. Temos uma grande dificuldade em aceitar o novo, o diferente e suas possibilidades convidativas. O problema não está necessariamente na coisa, mas naquele que julga afoita ou relaxadamente a coisa. Perguntou ainda de onde eu era. Disse que era do Brasil, ao que ele mencionou personagens e lugares - São Paulo, Rio de Janeiro, Romário etc.
A "distinção" de Santiago se define pela sua história. Ela está situada em um vale. Pablo Neruda, um dos maiores poetas do século XX - chileno - em um dos seus livros afirma construindo uma imagem dramaticamente bela: "Santiago es una ciudad prisionera, cercada por sus muros de nieve". De fato, Santiago geograficamente está presa, cercada por muros altos, a Cordilheira dos Andes, que ora a admira, ora a arrosta com seu hálito gelado. Ainda seguindo essa imagem de Neruda, podemos dizer que ela está sitiada por um exército de pedras, que a espreita vinte quatro horas por dia. É justamente esse fenômeno que torna Santiago uma das cidades mais cinzentas das Américas. Os gases produzidos pelas fábricas e pelos automóveis ficam retidos, criam uma espécie de cobertor cinza que cobre a cidade com uma gaze de monóxido de carbono.
Em frente ao Palacio de la Moneda
Quando deixei Buenos Aires, fiquei com uma impressão singular. Mas, ao chegar à capital chilena, a afirmação do motorista me salvou dos juízos apressados. Buenos Aires é uma cidade de avenidas amplas; de prédios com aspectos modernos e europeizados. Santiago, pelo contrário, mostrou-se com um aspecto mais antigo. Sua arquitetura fornida por belos prédios, por igrejas suntuosas; por avenidas apinhadas por carros e pessoas nas calçadas estreitas. Nos momentos mais movimentados do dia, as rodovias ficam paradas. O trânsito é intenso e torna Santiago uma cidade complicada para se locomover de carro.
O que funciona muito bem é o seu metropolitano. As primeiras estações foram construídas nos anos 70. E, de lá para cá, eles não deixaram de ampliar esse eficiente serviço. Existem pelos menos cinco linhas de metrô. Olhando o mapa, fica-se com a ideia de que estamos diante de um cipoal de cores (cada linha possui uma cor - vermelha, azul, verde, roxa etc). Nas estações, os trens passam de dois em dois minutos. É possível se locomover por toda a cidade andando de metrô.
A cidade é repleta de museus (escreverei sobre eles em outro momento) e praças. Uma das mais famosas é a Plaza das Armas. É um lugar amplo, povoado por artistas de rua e construções belas. Próximo dali fica o Palacio de la Moneda, sede do governo chileno. É um lugar histórico. Foi construído primeiramente para ser a casa da moeda do Chile. Por isso, não tem o nome "de palácio do governo". Durante o golpe militar, ocorrido em 1973, foi bombardeado pelos militares, a mando de Augusto Pinochet, um dos algozes mais terríveis da ditadura daquela país. A intenção dos militares golpistas era fazer com que o governo socialista e popular de Salvador Allende viesse abaixo. Como aconteceu no restante dos países da América Latina, que sofreram golpes, esses arranjos totalitários foram orquestrados pelo governo americano.
Os Andes, simplesmente
Um aspecto positivo da cidade é a educação do povo. São prestativos e simpáticos. Não se olvidam em ajudar, em oferecer préstimos quando solicitados. É possível enxergar o quão diferentes são fisicamente dos argentinos, revelando o quanto a presença indígena foi importante para a formação do país. Não encontrei tantos leitores quanto em Buenos Aires, embora no metrô tenha visto pessoas lendo. Há ainda em algumas estações, bibliotecas públicas. Quem quiser é só se cadastrar e pegar os livros. O preço dos livros segue a mesma tendência argentina. Namorei vários. Trouxe apenas dois - Confieso que he vivido e Odas Elementales, ambos de Pablo Neruda.
Fui a três ou quatro livrarias chilenas. E sempre que visitava, como se deu também na Argentina, tentava perceber a presença de escritores brasileiros. Na Argentina, não tive muito sucesso. Vi apenas dois - Jorge Amado e Paulo Coelho. No Chile, o acintoso Paulo Coelho ainda se fazia presente, todavia, a coisa ganhou contornos mais favoráveis quando enxerguei Chico Buarque (O irmão alemão), Jorge Amado (Tenda dos milagres) e Erico Veríssimo (O tempo e o vento).
Uma experiência que me deixou bastante satisfeito foi a possibilidade visitar a Cordilheira. Não me recordo a última vez que vi algo tão desconcertante e belo como a imagem de uma montanha gelada. Apesar de Santiago está cercado por montanhas, a cinza brumosa cria o efeito de uma cortina e acaba privando a possibilidade de se avistar o cume branco. O caminho até o cimo da montanha é amedrontador. É serpenteante, coleante pelo corpo da montanha; a subida vai se construindo pouco a pouco. As curvas do caminho são desafiadoras. Ao olhar para os abismos, ficamos com uma noção de imprevisibilidade. Mas à medida que subia, lembrava de uma afirmação de Nietzsche. O filósofo alemão disse certa vez, que há sujeitos que têm a oportunidade de subir o monte e contemplar o vale profundo com toda a sua constelação de belezas, mas desistem em saber que lá, também, há um vulcão que pode entrar em atividade. Não havia vulcão lá no alto, mas havia um perigo em cada curva como um aviso medonho que se desenhava em cada cotovelo da estrada. Apesar do medo, à medida que se sobe, a beleza se irradia como a luminosidade embasbacante.
No próximo post, vou escrever sobre duas importantes cidades chilenas - Viña del Mar e Valparaiso.
"Poesia é uma qualidade do olhar"/ "O mundo para mim é um instrumento cósmico onde dormem as mais belas melodias". - Rubem Alves
O tempo como agente
Diz Agostinho que "o tempo produz efeitos admiráveis dentro de nós". O tempo possui um cinzel invisível que vai nos esculpindo tanto física quanto espiritualmente. Recordo-me das frases iniciais de Erico Veríssimo em Solo de Clarineta, quando ele diz que "as marcas do tempo estavam impressas no pergaminho do seu rosto". Uma metáfora que define os enunciados do tempo escritos em nós. É trivial. É natural. Mas todos morrem. Já perdi tantas pessoas queridas - meu pai, meu avô materno, minha avó paterna, conhecidos, amigos. E cada novo dia, o movimento irrefreável do rio da vida dobra mais uma curva em sua viagem. O tempo é aliado da morte. É seu companheiro. Os dois caminham de mãos dadas como no filme de Ingmar Bergman. A morte aparece para jogar com a sua vítima. Ele tenta enganá-la. Tenta negociar, mas bastou o tempo para fulminá-lo. Quando ele menos esperava, ela apareceu com sua face fria e o tragou.
A morte nos machuca, pois aqueles a quem ela faz de vítima, sabemos, nunca mais se verá. É um "sequestro", uma violência abrupta, um laceração nas emoções. Uma cisão, um corte, um passar a esponja na existência de cada um de nós. Quem vai não volta. Quando se morre, tudo termina. A expectativa da morte é a realidade mais trágica para o ser humano.
Hoje, o tempo trouxe consigo a sua companheira e ceifou a vida de uma das figuras responsáveis por um pouco de minha formação ontológica - Rubem Alves. Fiquei sabendo da morte de Rubem Alves no início da tarde de hoje. Há dias eu acompanhava o sofrimento pelo qual ele passava. Enquanto corria hoje no final da tarde, eu ouvia a End of the Road, de Eddie Vedder, que faz parte da trilha sonora do filme Dentro da Natureza Selvagem, pensei sobre esse "fim da estrada" a qual todos nós chegaremos, enquanto olhava para as nuvens alaranjadas, com feições sanguinolentas. A aragem fria do início da noite produziu reverberações poderosas. Acabei ficando triste.
O tempo da descoberta
Descobri Rubem Alves nos idos de 2002. Estudava em um seminário. E ao conhecer as suas crônicas, impressionei-me com sua sensibilidade. De repente, passei a procurar para ler tudo que dizia respeito a ele. Contudo, percebia que quando falava de Rubem Alves, alguns dos meus colegas seminaristas me encaravam com certa desconfiança. Afinal, entendi o porquê de tanto medo dos meus colegas. Rubem havia sido um seminarista, assim como eu o era; chegou a ser pastor, mas sua liberdade de pensamento e sua forma de "caminhar" acabaram por criar problemas. Em plena Ditadura Militar, a Igreja Presbiteriana do Brasil o denunciou ao serviço de repressão do Regime. Se ele ficasse por aqui, certamente seria preso, torturado e teria um destino incerto. Enfim viajou para os Estados Unidos e lá fez mestrado e doutorado, contribuindo proficuamente para lançar as bases daquilo que se tornou conhecido como Teologia da Libertação. Sua Teologia da Esperança é o embrião que deu feições ao movimento que teria nomes como o peruano Gustavo Gutierrez e o brasileiro Leonardo Boff como ícones.
O pensamento teológico de Rubem Alves, de certa forma, acabou por me influenciar. Desvinculei-me do dogmatismo da fé quando li Protestantimo e Repressão e Dogmatismo e Tolerância. Estes, acredito, são livros que me marcaram e que inscreveram em mim o discernimento filosófico e estético que tenho sobre a espiritualidade; me tiraram o"cabresto religioso" que estava em meu pescoço e me fazia olhar somente para o chão. Quando li Rubem Alves, pude olhar para o céu e me maravilhar com as cintilações de um azul que nunca enxergara. Os dois livros estão guardados carinhosamente em minha biblioteca e, de vez em quando, pego-os, admiro-os, folhe-os e termino tudo com um grande sorriso.
Passei a perceber que em Rubem Alves se torna fato aquela frase dele: "As palavras têm o poder de fazer acordar os desejos adormecidos dentro do corpo". É como se o corpo fosse uma lápide, um jazigo, onde estão congelados os rios simbólicos. As palavras são sóis capazes para dar vida a esse mundo inóspito. São elas, tão próprias do mundo humano, elementos capazes de fazer morar em nós a faculdade da alegria. A palavra é capaz de fazer ressuscitar o corpo. Ela é a eucaristia vivificadora. O corpo é uma realidade biológica, orgânica, mas o que nos torna humanos é a capacidade de criação dos símbolos. Criamos, pois isso é inerente aos seres humanos. Portanto, esse corpo é o espaço gerador de novas ideias, da capacidade de apreensão do mundo. Ou seja, tudo mora no corpo. A vida e a morte. Os abismos e as montanhas. Os jardins e os pântanos. O céu e o inferno. Os dias e as noites. E para subverter a logicidade da matéria, é necessário treinar o olhar. Rubem costumava repetir uma frase do poeta inglês William Blake: "O tolo ao ver uma árvore, enxerga somente uma árvore; o sábio, por sua vez, ao ver uma árvore, enxerga uma poesia".
Após entender que existe um jogo simbólico por traz das coisas, transformei isso em uma realidade para os meus devaneios teológicos e espirituais. Rubem costumava apontar para o ritual cristão da santa ceia, dizendo que ali estava "o símbolo de uma ausência" - o pão e o vinho. Observem como ele conseguia fazer poesia com as mínimas coisas. E que o mundo estava repleto de metáforas. "E toda metáfora é um salto sobre o abismo". É esse jogo com a palavra que torna o universo de Rubem Alves tão encantador. Flertar com o seu pensamento é passar a viver com os arco-íris, com os arrebóis mais encarnados, com os jardins mais coloridos, com a sensação de que estamos saboreando as carnes delicadas de um caqui.
O pensamento de Rubem Alves se funde com um dos seus mestres - Nietzsche. Diz o alemão: "Estou convencido de que a arte representa a tarefa realmente metafísica do homem... A existência do muno só se justifica como um fenômeno estético". Acredito que estas palavras definam o que foi e como deve ser compreendido Rubem Alves.
O tempo do real (tempus fugit)
Ao saber da notícia nefanda, fez-se uma noite escura dentro de mim. Fiquei com um mal-estar horrível. É como se eu tivesse perdido alguém muito querido e que vivia comigo todos os dias. Fiquei triste por saber que não teremos textos inéditos; as palestras sempre encantadoras; as palavras embriagadas pelo cheiro de capim gordura, pelos ipês floridos, pelo barulho dos carros de boi, dos mistérios da terra de Riobaldo - Minas Gerais. Rubem nunca se afastou completamente de suas origens. Apesar de viver boa parte de sua vida em Campinas, interior de São Paulo, trazia em sua alma as aprendizagens iniciadas em Boa Esperança-MG - sua cidade natal. É como aquele poema ontológico de Carlos Drummond de Andrade, Confidência do itabirano.
Seu corpo, onde morou tantas poesias, será cremado e possivelmente as cinzas serão atirados ao vento, para que possam polinizar as flores a fim de que elas se tornem mais belas; para que as pintagueiras surjam mais vermelhas e atraentes; para que os flamboyants e ipês surjam como cabeleiras inflamadas a produzir beleza; para que os jardins sejam fecundados e possam se fortalecer.
Em um país e em um tempo como o nosso, perder Rubem Alves é algo de muita seriedade. Mas ficarão as suas palavras, que virão como revoadas de pássaros e farão morada em mim, em nós... Marcharão numa procissão em direção ao interior de catedrais secretas. Proferirão discursos, declamarão poesias e atestarão com um verso de Manuel de Barros - repetido tantas vezes por ele: "É mais presença em mim aquilo que me falta".
Obrigado, Rubem! Se eu não tivesse encontrado os seus textos, talvez eu não fosse aquilo que sou. O rio continua a correr e suas águas são sempre novas. Olhemos para as árvores e encontremos poemas.
Terminei na última sexta-feira, a leitura de mais um dos romances do escritor paraibano José Lins do Rego. Minha intenção é ler toda a obra do autor de Menino de Engenho. Talvez, faltem uns quatro ou cinco livros. Tenho tido um êxito considerável. Não tenho seguido um script cronológico. Olho para os volumes disponíveis em minha biblioteca, saco-os e inicio a leitura. Muito simples. Seguindo essa lógica randomizante, o próximo livro a qual lerei será Cangaceiros, de 1953, um dos últimos romances escritos por José Lins; em seguida, pretendo ler Pureza, de 1937, primeiro romance escrito após o término do Ciclo da cana-de-açucar.
A cada livro que termino do escritor paraibano, surge-me uma pergunta: "O que me atrai a José Lins do Rego?". As suas produções são de cunho memorialístico. É estranho a Zé Lins a capacidade de criar a partir de elementos do não vivido, de inovar. As temáticas são recorrentes. Ou seja, aquilo que experimentou, que seus olhos captaram enquanto era moço na Paraíba, nos engenhos de açúcar, transformou-se em bagagem existencial que o seguiu pelo resto da vida. José Lins era um Balzac rural, um descritivista da vida do sertão nordestino.
Quando penso essas coisas, talvez, encontre um pouco dos motivos que me prendem à sua narrativa. Cresci na zona da mata pernambucana. Vivi lá até os nove anos de idade. E ainda aprisiono dentro de mim as rutilâncias febris da infância: a autoridade dos mais velhos, principalmente do meu pai e do meu avô materno; as brincadeiras com objetos primitivos forjados pela necessidade; os imensos canaviais das terras dos meus avôs; os riachos para as quais eu ia me banhar, ficar horas e horas a fio na água poluta; as árvores variadas e suas estações frutíferas (jaqueiras, mangueiras, jenipapeiros, jambeiros, saputizeiros, cajueiros, ingazeiros, larajeiras etc); os cheiros variados nos invernos imensos; a água que escorria feroz nos meses de maio e junho de cada ano, alargando os fios anêmicos dos regatos; as biqueiras dos telhados que faziam despencar veios arteriais profusos; a sensação de espanto quando ia à cidade; os trabalhadores no corte da cana; a fragrância inconfundível da cana queimada; o barulho do vento na palha dos coqueiros.
Graciliano Ramos e José Lins do Rego
Ou seja, toda aquela planície ensolarada descortinada no texto de José Lins do Rego faz parte de mim. Está contida em galáxias interiores, neste vasto universo do meu ser. Esse cenário abrangente toma conta de mim. Cria conexões. Portas dimensionais são escancaradas e me fio por elas. Posso estabelecer um paralelo comparativo entre Graciliano Ramos e José Lins do Rego. Com relação ao primeiro, entendo que se trata de um dos nossos maiores escritores de todos os tempos. Com relação ao texto, Graciliano era um depurador de palavras. Seu estilo é inconfundível. Seu texto possui as gradações corretas. A pontuação precisa com a finalidade de criar efeitos estéticos únicos. É um texto que caminha com os pés na terra, medindo cada passo para chegar a determinado lugar com bastante precisão e estudo. Admiro isso. Já José Lins é dono de uma prosa "descuidada". Comete atropelos quanto à regência. Em alguns momentos se delonga em excesso em descrições. Em outros, passa-me a impressão de que está cometendo divagações. Todavia, "os pedaços" dessa prosa singular são conectados e temos um texto que produz sensações elétricas. José Lins sabia contar uma história como ninguém. Talvez, em nossa literatura o caso mais parecido seja o escritor gaúcho Erico Veríssimo.
Terminei a leitura de Pedra Bonita, livro escrito em 1938.Trata-se de um livro de temática religiosa. Aborda um elemento vital do imaginário do povo nordestino: a superstição. A história se passa em algum lugar do estado de Pernambuco, pois as referências aludem a isso. Há a citação de cidades como Garanhuns, Limoeiro, Goiana e Recife, cidades pernambucanas. O vilarejo de Açu reconstitui a arquitetura tão rotineira nas cidades interioranas do Brasil: a vida pacata do povo que se reúne embaixo de uma árvore para especular sobre a vida dos outros; a paróquia no centro da cidade; os coronéis que mandam na cidade; os comerciantes; e a gente comum; a devoção exagerada à tradição erguida pela Igreja Católica.
Como protagonistas temos o padre Amâncio e Antônio Bento, cuja história se ligava a ecos de acontecimentos espetaculosos com a cidade de Pedra Bonita.O jovem Antônio Bento havia sido adotado pelo padre. Era intenção do sacerdote torná-lo padre, mas o sacerdote teve suas intenções inviabilizadas em decorrência das dificuldades econômicas. Antônio Bento, assim, torna-se coroinha da paróquia. Passa a assistir o padre nos trabalhos da igreja. Todavia, a maior parte do povo de Açu não gostava do jovem. Ele era discriminado. Sofria com os debiques dos moradores da cidade.
O fato é que ao final da história, Antonio Bento se ver dividido entre ajudar o padre Amâncio, que estava em seu leito de morte, aguardando outro padre para fazer a confissão; ou se juntar aos seus patrícios de Pedra Bonita, que seriam vitimados pelas tropas do Estado que vinham com fúria para alijar do tumulto gerado por mais um frenesi messiânico.
O livro possui um realismo duro. O Estado parece como força tirana. Os militares batem sumariamente nas pessoas sem que estas possuam direito ao contraditório. Espancam velhos. Buscam à toda força, lançar por terra os cangaceiros que, também, surgem na história como força antitética aos desmandos do governo. Todavia, acabam se constituindo em mais um "flagelo" do sertão, pois defloravam moças, saqueavam os moradores da terra, alastravam pânico e a especulação de medo por onde quer que passassem.
Em dados momentos do texto, os infortúnio do tempo parecem acometer ao personagem Antonio Bento. A realidade parece sufocar a sua existência. Não há saídas. Existe uma espécie de fado do tempo histórico que é maior do que ele. Antonio Bento não tem saídas. Ele parece ser um joguete do destino. O céu está contra ele; os homens estão contra ele; a história está contra ele. Esse neorrealismo com pitadas de naturalismo, liga Pedra Bonita a Zola ou Aluísio de Azevedo, escritores do século XIX.
Muito bom o livro, embora não seja um dos melhores de José Lins do Rego.
"Eu quisera acreditar em Deus e na vida eterna. Mas não posso. Nunca pude. Mas acredito na vida. E como! Tenho esperança num futuro melhor para nossa terra, para o mundo. Quero que meu filho nasça, cresça e viva para participar desse mundo"
Érico Veríssimo, in Incidente em Antares
Incidente em Antares foi o último romance escrito pelo gaúcho Érico Veríssimo. Dos cinco ou seis romances que li de Érico, com certeza, Incidente em Antares é aquele que provocou um efeito maior pelo nível de maturidade, profundidade e elegância. O livro está dentro daquele ciclo de romances com foco universal, que ainda podem ser colocados O prisioneiro, O senhor embaixador, construindo um paralelo ao lado de dois outros grupos - os romances urbanos (Clarissa, Olhai os lírios do campo, Caminhos cruzados etc) e os romances épicos (na qual se encaixa a monumental trilogia O tempo e o vento, que remonta boa parte da história do Rio Grande do Sul).
Érico Veríssimo sabia contar uma história como ninguém. Possuía uma simplicidade para construir um enredo como somente os grandes escritores possuem. Era um sujeito baixo, de fala mansa e de grande sensibilidade. Foi com essa característica que o gaúcho de Cruz Alta, construiu uma das mais importantes obras da história da literatura brasileira.
Em Incidente em Antares, Veríssimo constrói um romance em que o Realismo Fantástico dita a tônica da história. E é, sob vários aspectos, uma história a qual percebermos uma forte crítica às oligarquias, ao conservadorismo burguês e (por quê não?) uma "cutucada" no Governo Militar - já que o livro é de 1971.
A obra é dividida em duas partes:
Érico Veríssimo
Na primeira parte, Érico preocupa-se em remontar o cenário histórico de onde surge Antares; a luta hercúlea entre o clã dos Vacarianos e dos Campolargos, que se digladiarão com golpes, ódio mortal e atrocidades inimagináveis em mais de setenta anos. Aos poucos Érico nos insere no século XX e mostra quanto Antares passa a fazer parte do cenário político brasileiro. O escritor, como isso, coloca o leitor a par do que acontece a partir do Governo Vargas. As vicissitudes e as habilidades políticas do gaúcho de São Borja. Figuras reais são colocadas na história - João Goulart, Jânio Quadros, Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda. A a partir da descrição dessas personagens históricas reais, o enredo assume um forte tom político, o que faz com que a história ganhe em realismo e verdade. Os acontecimentos políticos, do suicídio de Getúlio à renúncia de Jânio Quadros e o drama que envolveu a posse do seu vice João Goulart, tudo é acompanhado com máxima atenção pelos antarenses - principalmente pelos Campolargos e Vacarianos, senhores da cidade, que essa altura da história já fizeram as pazes.
Na segunda parte do livro, Veríssimo se preocupa em narrar o "incidente" aludido no título da história. A cidade de Antares, também invadida pelo forte clamor trabalhista e progressista que tomava conta do país, é vitimada por uma greve geral. Os coveiros também aderem à greve e a confusão se alastra. Com isso, sete pessoas morrem. O fato de serem sete pessoas, talvez, seja resultado das intenções de Érico, posto que o número "sete" é considerado o número da perfeição. E como os defuntos são impedidos de serem sepultados, acabam acordando de seu "sono mortal" e vão tirar "satisfações" com os vivos. Os sete constituem um exemplo do tecido social. Tem-se um advogado, uma religiosa, um comerciante anarquista, um líder sindical, um artista, uma prostituta e um beberrão. Tais personagens ajustam as contas com a sociedade e denunciam os desatinos, a hiprocrisia e toda sordidez dos setores mais nobres de Antares. Tal evento se dá numa sexta-feira, 13 de dezembro de 1963.
Personagens da minissérie exibida pela Rede Globo em 1994
A história, na segunda parte, centra a atenção na sociedade de Antares, fazendo dos eventos um microcosmos da sociedade brasileira. Notamos como as estruturas corrompidas da sociedade são constituídas pelos conchavos entre as forças políticas. Érico também insere a Igreja Católica na história. Temos assim, duas representações da história: a primeira realizada pelo padre Gerôncio, mais velho, preocupado com a instituição, representando uma velha ordem; e o padre Pedro-Paulo, que possui o nome de dois dos principais apóstolos de Cristo, representando o lado mais progressista da Igreja. Este último representa a Igreja atenta as movimentos da história. Padre-Paulo questiona os principais dogmas da Igreja e está ao lado dos grevistas e dos pobres.
É importante frisar que o livro possui uma tendência para firmar oposições, o que realça o forte tom político. Por exemplo, tem-se duas famílias rivais, dois clubes de futebol, dois padres (sendo que um Pedro-Paulo) que revelam forças contrárias dentro de uma mesma instituição, forças conservadoras da sociedade e forças progressistas; a oposição entre os homens e as mulheres (que à exceção de Dona Quitéria Campolargo) são submissas aos seus maridos; o submundo da favela Babilônia e o centro requintado representado pela aristocracia de Antares. Toda essa trama de teias de poder que leva o médico ser vendido ao prefeito, que é vendido ao coronel, que é vendido ao advogado em um efeito dominó, é descrito por um narrador que conta a história em terceira pessoa e que está presente oniscientemente em todos os fatos.
Érico, o extraordinário escritor!
Érico se utiliza da ironia e do sarcasmo. Em alguns momentos, certos excertos me fizeram lembrar de Machado de Assis, mestre neste quesito. O livro é denso e comporta uma abordagem mais profunda do painel sócio-político da sociedade gaúcha e a bem dizer brasileira. E nesse sentido, é interessante notar a habilidade do escritor para remontar o cenário político brasileiro e construir uma ficção da mais lata distinção.
Incidente em Antares é daqueles livros que terminda a leitura, ficamos a pensar em sua teia complexa. Pensamos na sociedade de aparências; no jogo de poder; na força irracional das oligarquias que se perpetuam; no desejo por melhores dias; na práxis que leva à luta e à aspiração por justiça e verdade. Pensamos, finalmente, no Brasil que é e no Brasil que sonhamos. Viva Érico Veríssimo!
O romance Usina, de José Lins do Rego, finaliza de forma brilhante o Ciclo da cana-de-açucar, como ficaram conhecidos os cinco primeiros livros do paraibano - Menino de Engenho, Doidinho, Bangüe, O moleque Ricardo e Usina. É um livro repleto de polifonias e ressonâncias. Zé Lins conduz a história do livro com um arrojo e com uma capacidade elétrica que torna a leitura dessa obra do regionalismo em algo prazeroso.
Não pretendo recontar todos os detalhes da história, mas especular sobre alguns pontos relevantes observados por mim. A história se passa no antigo Engenho Santa Rosa do coronel José Paulino, com a volta de Ricardo ao engenho de onde saíra no quarto romance do Ciclo ("O moleque Ricardo"). Dessa vez, o engenho sai de cena e entra a usina Bom Jesus do Dr. Juca, filho do ex-senhor de engenho José Paulino. Juca monta a usina graças à cooperação dos parentes que ajudam com o capital para financiar o empreendimento. Nos primeiros anos, a Bom Jesus não conhece dificuldades. O tino administrativo e o entusiasmo de Juca torna o negócio rentável. O açucar é vendido a um preço alto - 60 contos a saca. Mais tarde, no tempo de dificuldades, cai para um terço do valor.
Tal sucesso permite ao Dr. Juca viver como um dândi em Pernambuco e na Paraíba. Ignora a prudência; ignora a esposa - Dona Dondom; ignora os filhos. Financia a vida das amantes. Compra carros caríssimos. Esbanja. A derrocada da Bom Jesus se deu quando Juca tenta reformar, tecnologizando-a, colocando-a na esteira do tempo. Assume, assim, um grande número de dívidas, que somado ao baixo preço do açucar, faz com que tudo vá por água abaixo.
A vida torna-se impossível na Bom Jesus. Dr. Luis, o inimigo de Juca e da Bom Jesus, é dono da usina São Félix. É rico, bem-sucedido. Possui a prudência e a ardilosidade das serpentes. É ele quem vai fazer a Bom Jesus desfalecer nos momentos finais, quando percebe que o inimigo não tem mais como resistir.
Diferente dos demais livros, Usina não foca em um personagem como se dá com os três primeiros livros, que centra sua atenção em Carlos de Melo; e o quarto, que torna o centro da narrativa, o personagem Ricardo como operário no Recife. Usina possui vários focos narrativos, todos alinhavados por uma ideia de grandeza. Todas as personagens estão ligadas pelo poder conferido pelo dinheiro. A propriedade se torna no romance a única coisa que se projeta. E a ganância que alimenta os sonhos dos poderosos, em contraposição à bondade dos simples, personificado por dona Dondom e pelo povo humildade.
A propriedade e ânsia pelo ganho se tornam o desejo daqueles que possuem o capital. Já aqueles que não possuem os meios de produção são "amansados" pela superstição religiosa e pela impotência conferida pela miséria. Usina nos põe diante da decadência da ideia de patriarcado oligárquico, na qual a força que sustentava essa estrutura social é solapada no simbolismo da derrocada da Bom Jesus. Curiosa é a ideia de "dilúvio" no final da obra. Não sei qual era a finalidade - talvez isso desse matéria para uma boa discussão - de José Lins ao terminar o Ciclo com uma enchente do Rio Paraíba. Não há como negar que Zé Lins estabelece uma relação com o Guarani, de José de Alencar, e a enchente que funciona neste livro como um mito de fundação da população brasileira. Em Usina, ao contrário, o dilúvio do rio Paraíba funciona como um agente causador de ruína, fomentando inevitavelmente um processo dialético, a mudança que dá início a um novo tempo.
Usina não é o melhor dos cinco romances do Ciclo. Em minha opinião, penso que o melhor dos cinco romances seja Bangüe. Todavia, Usina é uma obra fundamental para consulta. Talvez, o que faça a obra perder em energia seja o descritivismo insistente do leitor. Os lapsos incompreensíveis. A narrativa inicial trata sobre a vida de Ricardo em Fernando de Noronha. Mais tarde descobrimos que toda aquela descrição não possui relação direta com o restante do livro. A personagem Ricardo apaga-se completamente e acaba sendo assassinado. Zé Lins permeia o romance com muitos eventos, embora seu estilo não torne a história enfadonha. Sua habilidade para narrar era incomum e é justamente esse trunfo que torna José Lins do Rego um escritor relevante para quem quer ler uma boa história, assim como o é, também, Erico Veríssimo, por exemplo.
Poucos escritores possuem essa capacidade. Ainda tenho 5 romances do escritor paraibano em minha biblioteca para serem lidos - Pureza, Pedra Bonita, Fogo Morto, Eurídice e Cangaceiros. Sigamos!
Ontem, 17 de dezembro de 2011, se vivo, Érico Veríssimo completaria 106 anos de idade. Absurdo alguém viver 106 anos? Não! Dia 15 de dezembro, Oscar Niemeyer completou 104 anos, com margem de voo para mais uns dez! O fato é que Érico era cardíaco e foi isso que fê-lo deixar este mundo em 1975. O escritor é dono de uma obra sólida e respeitada. Recordo-me que ainda era um adolescente quando entrei em contato com a sua literatura. Era um volume de Olhai os Lírios do Campo, um dos seus manifestos humanizantes e políticos.
O livro me deixou com uma visão do belo. Depois vieram outros - O Resto é Silêncio, Clarissa, O prisioneiro, Solo de Clarineta I etc. Existe uma fluência, uma cadência gostosa no estilo do Érico. Para alguns críticos, tal fluência beira o simples, o que resulta numa obra sem profundidade. Embora, a minha opinião não interfira em tal juízo sobre o escritor, discordo plenamente. Obras como a Trilogia de O Tempo e o Vento (que possui mais e duas mil páginas) ou Incidente em Antares, são suficientes para atestar a competência e profundidade de Érico. O crítico é sempre o chato que nada faz e sempre dá pitacos desnecessários para "enlamear" a virtude alheia.
Algo que sempre me chamou a atenção é que a obra de Érico sempre foi atual em sua temática. E por conta desse aspecto relevantíssimo, penso que o Ministério da Educação, as escolas e os professores de Língua Portuguesa e Literatura deveriam enfatizar a importância da obra do gaúcho para as novas gerações. Que os adolescentes ao invés de lerem aquelas mitologias vampirescas sem nexo, com abordagens artificiais, lessem o bom e velho Érico - sempre gentil, sempre amoroso, sempre sensível. Em 2003, após ler sua autografia - Solo de Clarineta - bateu-me um profundo senso de respeito à obra do autor de O Senhor Embaixador. Recordando a sua vida, Érico cita a importância da música de Brahms, Bach e Mozart para a sua existência. O quanto, por exemplo, Brahms lhe fazia bem. Impingia sensações boas, prazerosas.
Em minha biblioteca particular, devo ter mais vinte livros do escritor, algo que muito me orgulho. Em alguns momentos, olho para a trilogia de O Tempo e o Vento e suspiro. Nenhum escritor brasileiro é tão honesto quanto Érico Veríssimo. As mais de 2 mil páginas da trilogia ainda são um grande desafio. Penso em lê-las futuramente. Há livros que são imprescidíveis e que devem ser lidos antes da morte de qualquer indivíduo. Nesta lista encontram-se Os Miseráveis de Victor Hugo, Guerra e Paz de Tolstoi, A Divina Comédia de Dante, Dom Quixote de Cervantes, Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, Os irmãos Karamazov de Dostorivéski, entre tantos outros; e penso que a trologia de O Tempo e o Vento se inscreve necessariamente nesta lista.
Abaixo, indico o texto do literato e profundo conhecedor da obra e de muitos aspectos pessoais da obra de Veríssimo Milton Ribeiro. O texto saiu ontem no site do jornal gaúcho Sul 21. No texto, Milton resslta os aspectos mais importantes da vida do escritor nascido em Cruz Alta.
O vídeo abaixo possui a direção do escritor mineiro Fernando Sabino, que era metido a cineasta. A sua Bem-Te-Vi filmes produziu alguns filmes curiosos, de escritores como Manuel Bandeira, Carlos Drummond, Vinícius de Morais, entre outros. Sabino também produziu um belo filme sobre Érico Veríssimo. Algumas curiosas caractéristicas podem ser ressaltadas - a música de Brahms (terceiro movimento da Terceira Sinfonia de Brahms), o homem de família - com os netos e com sua esposa Mafalda) e o seu "porão liberdade", como ouvi certa vez o seu filho Luís Fernando dizer que o pai chamava o seu local de trabalho.