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domingo, agosto 09, 2026

Reflexão sobre o tempo

Fotografia de 2004. 2ª casa onde morei. 


"Caminhar é ir ao oeste".
Henry David Thoreau

Há 47 anos, às 11h15, segundo relatos maternos, eu chorava pela primeira vez. Após ter atravessado uma madrugada transida de dores, minha mãe, finalmente, serenou - eu aportava no mundo. A casinhola onde nasci era rústica. Hoje, já não existe. Ficou apenas o espaço ontológico em minha lembrança. As paredes de reboco de barro cobriam o madeiramento conseguido nas matas adjacentes. A parteira - Dona Bil - segurou-me com mãos prestimosas e experientes.

Há 47 anos, a realidade material surgiu para mim com a sua luz; o ar invadiu-me os pulmões. Fui banhado pelos eventos da matéria. Hoje, encontro-me, praticamente, na metade da travessia. Não há tempo para distrações. Quanto mais caminho, mais me sinto compelido a me entender a partir daquilo que fui ou que deixei de ser, sendo. 

Há 47 anos, experimento o sabor e as implicações daqueles versos céticos de Fernando Pessoa: "Não sou nada / Nunca serei nada/ Não posso querer ser nada / À parte disso, tenho em mim todos os / sonhos do mundo". 

domingo, dezembro 21, 2014

Surpreendido mais uma vez

C.S. Lewis (1898-1963)
O tempo é uma entidade curiosa. Parece que hoje eu tenho uma noção de que ele se pulveriza bem mais rapidamente do que em outras épocas. Dormimos. Acordamos. Realizamos meia dúzia de atividades com completa desconexão, apenas seguindo aquela força maquinal do cotidiano e, de repente, temos que dormir novamente para acordar e reiniciar todo evento circular. 

Constato que tenho lido numa velocidade cada vez menor. Fazendo isso, sigo uma via paradoxal em relação à consciência que tenho do tempo. Estou lendo três livros ao mesmo tempo. No passado, eu já cheguei ler cinco ou seis. Era um frenesi constante. Chegava a vencer nove ou dez em um único mês. Atualmente, tenho lido muito pouco. E isso acaba gerando em mim uma indignação silenciosa, dessas que se alastram como fumaça e deixa a gente com os seus efeitos duradouros. A despeito disso, resolvi iniciar a leitura de um livro que há muito eu procurava. 

Enquanto eu era um estudante de teologia, lá pelos idos de 2003, li Surpreendido pela Alegria, de C.S. Lewis. E, a primeira vez que o li, fui como sugerido pelo título, "surpreendido" por uma estilo agradável e por uma narrativa autobiográfica de grande qualidade. Lewis diz no início da obra que não pretendia escrever um tipo de livro que se assemelhasse às Confissões de Santo Agostinho ou às Confissões de Rousseau. Penso que neste ponto resida uma humildade fingida da parte do inglês, posto que o livro possui uma leveza poética e uma qualidade que nos faz desconfiar que por trás daquelas letras do autor, há alguém saturado dos aromas da literatura. 

Já estava procurando o livro há uns seis anos. Entrei em contato com a Livraria Mundo Cristão, responsável pela publicação em 1998, mas eles me informaram que não havia nenhuma previsão de reimpressão da obra nos próximos anos. O exemplar que li pertencia à biblioteca do Seminário Presbiteriano de Brasília. 

Todavia, os ventos venturosos trazidos pelos deuses vieram até mim e eu o achei na rede. O livro inteiro em uma versão em PDF. Sei. Não é a mesma coisa que o objeto físico. Ler no computador não é uma das melhores coisas. Já li livros na tela, seguindo aquele fluxo de letras miúdas e luminosas - O crime do padre Amaro (Eça de Queirós), A peste (Camus), O Anticristo (Nietzsche) entre outros - e a experiência não é a mesma que ter em mãos o livro. Atualmente, ando lendo O homem desenraizado, de Todorov, também na tela do meu notebook. E tenho planos de ler O descobrimento da América do mesmo autor. É cacete ler no computador. Mas vamos lá...

Li, hoje à noite, as primeiras vinte páginas do livro de Lewis (assim que terminar pretendo fazer uma pequena resenha) e me detive nas palavras abaixo. Ao ler essas palavras, embarquei em uma viagem que me levou ao passado. Recordo-me de que quando li cada uma delas pela primeira vez, tomei as palavras como um valor quintessencial que me seguiria pela vida a fora.  Sempre desejei, desde o dia que li isso, tornar em uma verdade inseparável, inarredável. Ou seja, jurei nunca me afastar dos livros. E, hoje, lendo essas palavras, não deixo abrir os lábios em um sorriso de satisfação por algo que vivi, que descobri - e que foi bom. Ah! o tempo...

"[...] Meu pai comprava todos os livros que lia e jamais se livrou de nenhum deles. Havia livros no escritório, livros na sala de estar, livros no guarda-roupa, livros (duas fileiras) na grande estante ao pé da escada, livros num dos quartos, livros empilhados até a altura do meu ombro no sótão da caixa-d'água, livros de todos os tipos, que refletiam cada efêmero estágio dos interesses dos meus pais-legíveis ou não, uns apropriados para crianças e outros absolutamente não. Nada me era proibido. Nas tardes aparentemente intermináveis de chuva, eu tirava das estantes volume atrás de volume. Encontrar um livro novo era para mim tão certo quanto, para um homem que caminha num campo, é certo encontrar uma nova folha na relva.". (C.S. LEWIS, 1998, 20).


segunda-feira, dezembro 31, 2012

Último post do ano! Na encruzilhada do tempo!

Que 2013 seja um ano bom, repleto de paisagens belas, já que "a beleza está nos olhos de quem vê" (Sartre); que seja regado a muitos sorrisos, música e literatura; que as amizades sinceras frutifiquem e as anêmicas se obliteram como badulaques imprestáveis; que meus olhos se fixem na bondade, na sinceridade e que eu saiba sorrir com os que riem e me solidarizar com os que choram; que eu esteja pronto para enfrentar os fatos positivos e os negativos com justeza de julgamento, pois o mundo existe como vontade e representação; que eu não desista quando os meus pés vacilarem e quando os meus olhos insisterem em se fecharem por causa do cansaço; que as águas imensas do tempo lavem a minha alma e limpem a sujeira que os dias trazem; que eu esteja pronto a me levantar quando tropeçar em algum fato; que a vontade de poder e desejo de ser bom sejam bússolas que me orientem em um mundo cada vez mais repleto de cínicos. Não sou suspeticioso e sei que determinadas coisas estão aquém do nosso controle, mas desejo a todos um extraordinário 2013.

domingo, setembro 30, 2012

As marcas do tempo - setembro

O mês de setembro termina repleto de efeitos. Foi um mês denso, espesso. Foi longo. Demorou a passar. Trabalhei muito. Ainda sinto dentro de mim os ecos do cansaço nesse momento em que as curvas do tempo começam a findá-lo. Quase não sobrou tempo para fazer aquilo que mais gosto que é ler, mergulhar numa boa narrativa; quase não me sobrou tempo para escrever. Este espaço que é uma passagem acidental para visitantes incidentais, ficou parado, hemiplégico. Olhá-lo assim causa-me desconforto. 

Começou a primavera e eu nada disse. Nos interregnos entre um compromisso e outro, terminei a leitura do cortante livro do Richard Dawkins, Deus - um delírio, uma análise feita a navalha. Capaz de provocar efeitos retóricos, científicos e filósoficos incríveis. Dawkins, um dos cientistas mais renomados do mundo, neodarwinista, partiu para o ataque impiedosamente contra a religião e o conceito de Deus. Após a conclusão da leitura de Dawkins, iniciei com certa suspeição O Delírio de Dawkins, de Alister McGrath & Joanna McGrath, dois cientistas cristãos da Inglaterra. Até onde li, percebi uma retórica "repleta de humildade" com uma finalidade implícita: derrubar os argumentos de Dawkins ou tentar desqualificá-lo; chamá-lo de fundamentalista, de religioso em sua crença científica. Mas, depois pretendo fazer um pequeno comentário ao livro de Dawkins e ao livro dos McGraths. 

Setembro se vai, mas ficou em mim as marcas de seus dedos nodosos. Sigamos. Sempre atuando, atualizando.

sexta-feira, agosto 10, 2012

Reflexões natalícias III - o tempo como grande artífice

O astrofísico brasileiro Marcelo Gleiser diz algo belíssimo em seu livro  O fim da terra e do céu sobre o tempo. Segundo ele, "um mundo sem movimento é um mundo triste, fadado a jamais se reinventar. O tempo é a ausência de perfeição". Ou seja, o tempo nos lança em um dinamismo, em uma ciranda; em um cipoal de movimento e é a consciência do tempo o artífice que nos molda. Para ele, a eternidade é a ausência do movimento. Agostinho afirmou certa vez que "a eternidade é o eterno presente". O estático. A ausência de movimento; de um fluxo dinâmico que atualize e se posicione entre o que passou e o que será.

Quando penso sobre o tempo, penso em coisas admiráveis - ainda evocando Santo Agostinho. Ao contrário da expectativa de Agostinho que viveu boa parte da vida pensando na eternidade, penso na terra, penso na dialética da história, que me trouxe até à casa dos 33 anos. Há 33 anos eu nasci, num dia de quinta-feira como este, às 11:15 hs da manhã, no Engenho Cacimba, município de Vitória de Santo Antão, Pernambuco. Quando pensava em minha idade há algum tempo atrás, achava o momento natalício um grande martírio. Curei-me disso. Hoje, aos 33 anos, aceito a vida, aceito o fatum como diria Nietzsche. Tudo se movimenta. É a razão por que estamos aqui. Abraçar o destino. A vida. Assumi-la. Não esquivar-se dela. Aceitar cada movimento como se este fosse uma escola multifacetada - que ora mostra um pântano, mas em outros momentos nos apresenta um belo jardim.

Passamos a ser no tempo. Sofremos no tempo. Choramos no tempo. Despedimo-nos de nossos entes e amigos no tempo. Mas amamos, sobretudo, no tempo. Rimos no tempo. Ou seja, a vida brota, floresce e morre no tempo. Eis o campo de batalha. O combate. Zaratustra, o herói nietzscheano afirma algo extraordinário sobre isso:

Tudo vai, tudo volta; a roda da vida gira sem cessar. Tudo morre; tudo volta  a florescer; correm eternamente as estações da vida. Tudo se destrói, tudo se reconstrói, eternamente se edifica a mesma casa da existência. Tudo se desagrega, tudo se saúda outra vez; o anel da vida conserva-se eternamente leal a si mesmo. A todos os momentos a vida principia; ao redor de cada aqui, gira a bola acolá. O centro está em toda parte. O caminho da eternidade é tortuoso. 

Sigamos no fluxo rumo aos 34, pois é o tempo que define o ritmo da nossa existência. É ele que nos conecta com a percepção de tudo aquilo que existe cosmologicamente. Tudo flui. E fecho com Glaiser: "A cada batida de nossos corações, incontáveis insetos saem de seus ovos enquanto incontáveis outros morrem, ondas quebram em todas as praias do planeta e galáxias se distanciam um pouco mais, e estrelas espalhadas pelo Universo nascem e morrem". E eu serei sendo enquanto no tempo estiver.

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Viagens - a ausência-presença das obras do tempo

A visita que fiz ao estado de Pernambuco - minha "pátria" (levando em conta que a palavra "pátria" significa "terra dos pais") - me deixou com uma sensação de que o tempo é uma força descomunal. Enquanto estava por lá, lembrei de uma frase de Karl Marx - "Tudo o que é sólido, desmancha no ar".

Havia ficado oito anos sem visitar aquele estado. Sem visitar parentes. Rever amigos. Apreciar paisagens. Envolver os meus sentidos com as feições da terra. Foi estranho não ter visto o meu avô materno. Não ouvir a sua voz grossa, envolvida pelo arrojo da autoridade. Esse fato causou uma sensação de ausência. Não visualizar os seus beiços enrugados à maneira dos velhos coronéis provocou um impacto. A casa de farinha, o seu lugar de praxe, ficou abandonada. Era nesse ambiente que ele fazia as suas reflexões. Comentava casos. Desferia críticas contra as injustiças. Comentava a política dos governos estadual e federal. Vociferava contra as bestuntices dos trabalhadores, dos vizinhos, dos filhos, dos netos... do mundo.

O tempo, como diz Agostinho em suas Confissões, provoca "efeitos admiráveis". Diria que ele causa um duplo efeito: (1) um a nível externo. Ou seja, aquele que se processa no mundo físico, alterando ambientes, provocando alterações contigentes; e (2) outro a nível existencial. Ou seja, efeitos de ordem psicológica. Enquanto caminhamos vamos sendo afetados por essa força que é como a água do mar - movimenta-se num dinamismo incessante. Não o percebemos, mas os seus efeitos vão "desmanchando" as obras da realidade e infundido, no ser, "efeitos admiráveis". E tudo se encerra na afirmação do poeta Manuel de Barros - "uma ausência que é só presença".

P.S. A obra fantasmagórica acima é de Francisco de Goya, um dos pilares da pintura espanhola. O quadro retrata o deus romano Saturno (Cronos no grego), devorando um dos seus filhos. Segundo a mitologia, Saturno fora advertido de que um dos seus filhos o destronaria. A partir daí, ele passa a devorar um por um os seus filhos. Até que um deles - Júpiter (Zeus no grego) - conseguiu escapar e viver. A cena é uma das mais terrificadoras já pintadas na história da arte. Mostra Saturno, símbolo do tempo, bestializado, consumindo implacavelmente um dos seus rebentos - os cabelos esvoaçados, os olhos fora das órbitas, o esforço para abrir a boca e convertê-la numa enorme cavidade negra que morde o braço esquerdo de um corpo humano, ao qual já não tem nem cabeça nem braço, provoca impacto. O corpo encurvado; o braço direito como um coto de uma árvore; as pernas como se estivessem amputadas a sumirem na treva espessa. Apesar das várias possibilidades de leitura da obra, a que mais gosto é aquela que mostra que o tempo é aquela força que devora tudo, que é implacável. Quem seria o "Júpiter"("Zeus") capaz de destronar o seu poder acachapante?


sábado, dezembro 31, 2011

Eu, Jorge Luis Borges, Santo Agostinho e o tempo

Neste instante, em que nossa caminhada nos faz chegar aos portões de uma zona imaginária, paro e reflito sobre tal efeito simbólico - 31 de dezembro, último dia do ano. Amanhã, o hoje não mis será. Penso em Janus, deidade mítica romana, capaz de olhar para frente e para trás simultaneamente. Considera o futuro, mas ainda está preso ao passado - é presente. Janus, porteiro do Monte Olimpo, também era o deus da dúvida, pois uma cabeça considerava o passado e, a outra, o futuro. Eu, de forma semelhante, estou com os pés fincados no presente, mas os meus olhos vislumbram as colinas afastadas do futuro; a minha mente é uma porta dimensional, condutora dos fatos e eventos acontecidos - alguns que já se gastaram e foram esquecidos; outros, que ainda persistem e já se tatuaram no meu, deixando os seus efeitos. Sou o intervalo entre o ontem e o manhã no tempo, essa força invísivel, criada para nos fatigar e determinar a nossa finitude. O tempo é consciência do que se espera no hoje, sendo que no ontem eu já esperava pelo hoje, e é no hoje que se espera pelo amanhã, tendo a consciência de que se é neste momento chamado hoje e projetando uma expectativa para aquilo que ainda não é e chamamos de futuro.

"O tempo é um problema para nós, um terrível e exigente problema, talvez o mais vital da metafísica; a eternidade, um jogo ou uma fatigada esperança"

(Jorge Luis Borges, in História da Eternidade, p. 6)


"Rubayat

Volte em minha voz a métrica do persa
A recordar que o tempo é a diversa
Trama de sonhos ávidos que somos
E que o secreto Sonhador dispersa.

Volte a afirmar que é a cinza o fogo,
A carne o pó, o rio o fugidio
Reflexo de tua vida e de minha vida
Que lentamente se nos esvai logo.

Volte a afirmar que o árduo monumento
Que constrói a soberba é como o vento
Que passa e que, à luz inconcebível
De Quem perdura, um século é um momento.

Volte a advertir que o rouxinol de ouro
Canta uma única vez no sonoro
Ápice da noite e que os astros
Avaros não prodigam seu tesouro.

Volte a lua ao verso que tua mão
Escreve como transforma no temporão
Azul o teu jardim. A mesma lua
Desse jardim há de procurar-te em vão.

Sejam sob a lua das ternas
Tardes teu humilde exemplo as cisternas,
Em cujo espelho de água se repetem
Umas poucas imagens eternas.

Que a lua do persa e os incertos
Ouros dos crepúsculos desertos
Voltem. Hoje é ontem. És os outros
Cujo rosto é o pó. És os mortos".

(Jorges Luis-Borges, in Elogio da Sombra, p. 24)

"Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem o pergunta, já não sei. Porém, atrevo-me a declarar, sem receio de constatação, que, se nada sobreviesse, não haveria tempo futuro, e se agora nada houvesse, não existiria tempo presente".

(Santo Agostinho, in As Confissões p. 322)