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sexta-feira, abril 22, 2022

Impressões sobre a releitura de "A metamorfose" de Franz Kafka



 “ – A senhora não precisa se preocupar com o jeito de jogar fora a coisa aí ao lado. Já está tudo em ordem.” Kafka em “A metamorfose”.

 

                Franz Kafka é um dos nomes literários mais importantes da história. É curioso observar que boa parte de sua obra não teria ficado para a posteridade, caso seu amigo Max Brod não tivesse levado à frente o projeto de divulgar os escritos do autor de A metamorfose. O autor nasceu em uma família de classe média. Cursou direito. Trabalhou em uma empresa que negociava seguros. Mas a sua grande paixão era a literatura; a escrita. Levava esse ato tão a sério que se comunicava com os seus amigos e familiares por meio de cartas.

                A literatura do escritor tcheco possui um imenso horizonte de interpretações. Quando analisamos sua não extensa produção, a impressão que fica é de pessimismo e niilismo. Kafka parece apontar para um aspecto da sociedade contemporânea e capitalista: existe uma mal-estar; um senso de asfixia que impede o homem de viver plenamente. Em seu texto, nota-se a presença de algo grandioso que possui uma força aterradora, que açambarca o indivíduo. O sistema é totalizante. É burocrático. Despersonalizado. Em O Processo, Joseph K.  não consegue localizar, tornar materializável, a entidade que engendrou o dispositivo judicial contra ele. A acusação surge de forma virtual. Sente-se a sua força, mas não se consegue identificá-la. O mecanismo é sempre ausente. Em O Castelo, o viajante chega ao limiar de um castelo, mas não consegue falar pessoalmente com o senhor que mora na propriedade. É o símbolo da burocracia fria, do sistema com a sua força opressora, totalizante. Essa força arquetípica é o que torna os seus textos desconcertantemente envolventes.

                A metamorfose é um dos poucos livros publicados com o escritor ainda vivo. Chegou a ter uma segunda edição, enquanto Kafka ainda vivia. Escrito em 1912 e publicado em 1915, o livro é um dos grandes acontecimentos literários do século XX. A obra tornou-se uma referência para várias áreas do conhecimento. Estudos variados foram realizados – e continuam a serem realizados.

                O livro é uma novela, aparentemente, singela. Mas, basta abrir a primeira página para que sejamos tomados pelo ímpeto das clássicas palavras: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. É curioso observar o quanto a história já inicia em um clímax. A desdita da personagem principal já é enunciada nos primeiros lances do romance. A partir desse ponto, questiona-se: o que aconteceu? O que levou Gregor a se tornar nesse “inseto monstruoso”? À medida que a leitura avança, não encontramos essas respostas. Pelo contrário, o que fica evidente é o quanto Gregor se torna alguém que incomoda. Sua distinta posição social de caixeiro viajante é esquecida. Enquanto era trabalhador, arrimo financeiro da família, Gregor era benquisto. Os seus pais o tratavam com respeito. Mas ao ser despido de sua posição de mantenedor e de uma pessoa produtiva, observa-se o quanto os papéis são trocados. Gregor não é tido mais como um membro condigno da família. Torna-se algo indesejado. Quando da sua morte, a irmã (aquela que parecia ter uma simpatia pelo irmão) diz: “Precisamos tentar nos livrar disso”. Ou o pai que diz após a morte de Samsa: “...agora podemos agradecer a Deus”.

                A desumanização da personagem é descrita com bastante frieza, como se alguém estivesse a dissecar um cadáver.  E, nesse sentido, é importante salientar a maneira como a história é contada. Há um aspecto de asfixia, como se o mundo de Gregor fosse se fechando. A maior parte do tempo Gregor está dentro do seu quarto, o espaço de seu confinamento, local este em que busca se esconder ou se proteger dos familiares ou de pessoas circunstantes – patrão, empregadas, inquilinos.

                Aos poucos, é possível observar como a metamorfose de Gregor é um evento que produz um imenso mal-estar. E, baseado nisso, é importante perguntar: o que é Gregor ou que representa Gregor? A sociedade capitalista com todas as suas técnicas, procura criar padrões, arquétipos. Esses padrões precisam criar um senso de conformação. Fugir desses padrões é experimentar o estranhamento dessa mesma sociedade. O julgamento da sociedade é implacável. Sanciona o expurgo. As comunidades humanas, geralmente, procuram eliminar a diferença. Nota-se que a uniformidade de comportamento é regra para convivência. A intolerância com o diferente é a regra do jogo.

                Kafka denuncia o exacerbamento dessa cultura da eliminação e do incômodo que o outro provoca, pelo simples fato, de possuir características destoantes dos padrões estabelecidos. É assim quando se dá a “metamorfose” para o fato de ter uma opção política ou religiosa diferente; quando se é idoso; quando se é estrangeiro; quando se é um morador de rua; quando se é alguém que pratica um crime e, mesmo tendo garantias jurídicas estabelecidas nos códigos jurídicos, há uma exigência pelo justiçamento.  As sociedades não toleram os seus metamorfoseados.

                A metamorfose é um livro rico de possibilidades. É de leitura desconcertante. Kafka o escreveu em pouca mais de vinte dias. Seu texto continua a gerar impressões variadas. Renova-se em sua potência, pois descreve de maneira magistral certo aspecto das relações humanas.  

segunda-feira, julho 18, 2016

"A felicidade só é plena quando compartilhada" - Christopher McCandlles

Pintura do artista realista estadunidense Tom Sierak
Minha esposa viajou para Goiânia. Foi visitar os familiares. Fiquei sozinho, desfrutando minha semana sabática de recesso. Por isso, ontem, domingo à tarde, assisti ao filme Na natureza selvagem pela segunda vez. Não pude deixar de me emocionar como da primeira vez. Nas cenas finais do filme, o jovem Christopher McCandlles chega a uma conclusão bela e emblemática ao mesmo tempo: "A felicidade só é plena quando compartilhada". Ele que passara boa parte da vida em um conflito com os pais que desejavam domesticá-lo para as convenções do mundo capitalista, entendeu na solidão gelada do Extremo Norte, que é no encontro com o outro, que a vida se torna plena e existencialmente ensolarada. 

A felicidade não é determinada por aquilo que tenho em sentido financeiro. Ela está ligada ao encontro. Faz-se nova e satisfatória quando enxergo ao final dos meus passos a dádiva que é o outro. O mundo moderno espicaçou esse valor. Nossa sociedade assentada no individualismo esconde-se do outro. Queremos cada vez mais o individualismo, pois temos medo do encontro. O outro é sempre uma incógnita. Um mundo enorme de possibilidades. Exige diálogo, energia, desprendimento, um mergulho existencial para que eu possa desvelá-lo. 

Atomizados em nossos mundos. Encerrados em uma rede social. De cabeça baixa, flertando um espelho que reflete nós mesmos, as telas coloridas dos celulares ou computadores, somos narcisos sem faces. Não usamos mais a palavra falada, verbalizada. Ao emitirmos sons, balbuciamos um "kkkkkkk", que denuncia o lado primitivo e vazio de nossas conversas, de nossas relações. Se o assunto é sério, fazemos silêncio. Mas se é uma piada, uma imagem que existe no grotesco cotidiano, soltamos o gutural "kkkkkkk", a finalidade última de nossas "conversações epiteliais". 

Toda essa crise apenas revela o quanto estamos mais distantes de nós mesmos e dos outros. Nós "nunca nos comunicamos tanto" como ultimamente, mas nunca dissemos tão pouco. E é nesse fluxo paradoxal que assentamos o nosso individualismo meticuloso, casmurro, grávido de inalteridade. 

Escrevo essas coisas, pois a frase de McCandlles, fez-me pensar na relação que tive com o meu pai, morto há quinze anos; e no medo que tenho da paternidade. Sobre o primeiro fato é importante mencionar que minha relação com meu pai foi estranha e alicerçada em um receio que surgia da indiferença. Até hoje tenho a imagem dele como um sujeito irresponsável. Não me relacionei bem com ele. Geralmente cercado por amigos dissipadores, meu pai fazia o papel de um sujeito dado aos rompentes de alegrias gratuitas. Embriagava-se com frequência. Para mim, sua presença consistia em um fator negativo. Quando estávamos sozinhos e, ele não se encontrava enfronhado nas emanações etílicas, o silêncio era um sacerdote que sacramentava nossa relação. A fala embargava quando me dirigia a ele. Escorria como um fio fino e intermitente, equilibrando-se a custo no trilho delgado das emoções. Morreu cedo - aos 46 anos de idade. 

Muitas foram as vezes em que pensei: "Se um dia eu constituir uma família, não serei como meu pai". Essa relação kafkafiana (não escrevi nenhuma carta a ele), tornou-me um sujeito introspectivo. Tímido. Não afeito às relações. Talvez, tenha sido isso que me levou a procurar no mundo da leitura o apoio das palavras. Elas criavam estruturas sólidas. Nelas eu me sustentava. Agarrava-me. Protegia-me dos ventos fortes das instabilidades relacionais. Até hoje tenho dificuldades de conversar com pessoas com quais estabeleço relação pela primeira vez.

Necessariamente, isso afeta minha disposição para a paternidade. Eu minha esposa temos conversado bastante sobre isso. Ela que chega ao limite da idade fértil, preocupa-se - e preocupa-me. Eu, por meu lado, cercado por receios variados, isolo-me numa planície de pessimismo. Olho para trás e compreendo o significado de tudo. Há casais que optam por não terem filhos. Vivem bem com isso. Conseguem separar as coisas. Não existe um mandamento universal para a paternidade ou para maternidade. Nascemos e, ao virmos ao mundo, é dado o dispositivo biológico para a reprodução. É a cultura que constrói significados para isso. 

Todavia, pensando sob a perspectiva do filme, de quê é feita a vida senão de encontros? Tudo flui. Vai. Evola-se. Dissipa-se. Mas, a felicidade contida no encontro e no compartilhamento não se pode medir. Há uma outra cena muito bonita e significativa na obra de Sean Penn. O jovem McCandlles encontra um senhor chamado Ron Franz. A personagem vive sozinha. É um militar aposentado. Não constituiu família. Ele diz uma das frases mais bonitas do filme: "Quando você perdoa, você ama; e quando você ama, a luz divina brilha em você". No momento em que as duas personagens se despedem, Ron faz um pedido a McCandlles: queria adotar este como seu neto. Ele não tinha pai, mãe, nem filhos. Quando ele morresse, a história de sua família teria fim. McCandlles estava tão firme em seu propósito de chegar ao Alaska, que apenas diz: "Quando eu voltar, conversaremos sobre isso, Ron". 

O que é certo é que a vida, em alguns momentos, não espera pelas nossas decisões. O silêncio de suas ações se mostra maior do que nossas vaidades. Assim, há duas frentes: aquela que estabelecemos, como resultado da nossa vontade, e um devir convergente, que atua como fluxo. É justamente essa dialética que faz vida. Quem souber tirar proveito desse encontro ao lado das pessoas que ama, certamente encontrará a felicidade. É o outro que me revela. Nele encontro os meus limites. Em sua face está estampado o meu orgulho e minha capacidade de não amar. As pontes que me separaram do outro, também impedem que eu me conheça. Mas, no encontro, também, está capacidade de me tornar mais solidário, mais manso, mais sábio, desde que eu saiba compartilhar a minha existência.

sexta-feira, abril 01, 2016

"O Castelo" de Kafka e a anunciação: "algo falta"

"O Castelo, cujos contornos começavam já a diluir-se, continuava silencioso como sempre; K. ainda não tinha visto o menor sinal de vida; talvez fosse absolutamente impossível reconhecer qualquer coisa a distância, e no entanto os olhos o exigiam e não podiam suportar aquela atitude. Quando K. olhava para o castelo, frequentemente lhe parecia estar observando alguém, sentado tranquilamente lá, olhando para ele, não perdido em pensamentos e esquecido de tudo, mas livre e despreocupado, como se estivesse só, sem ninguém a observá-lo; e no entanto não podia deixar de perceber que estava sendo observado" Franz Kafka, in O Castelo, p. 144

Passei mais de um mês lendo O Castelo, de Kafka. A leitura seguiu lenta. Em alguns momentos larguei o livro e me fiei por outro texto. Não é que estivesse achando a história "chata". Havia em mim uma tentativa de tentar assimilá-la, degluti-la, processá-la; desejo de penetrar em seu tema; não me perder em seus labirintos. O fato é que O Castelo não é uma obra para leitores neófitos. Quem deseja gostar de ler, não comece por essa obra do escritor tcheco. Haverá abismos enormes pelo caminho. E, certamente, indisposições compulsórias surgirão. 

Novamente, Kafka flerta com a inverossimilhança. Se em A Metamorfose Gregor Samsa se transforma em um inseto asqueroso e acaba sendo repelido pela família, passando a ser uma espécie de câncer social; em O Processo, Joseph K. recebe dois misteriosos visitantes que avisam haver um processo inexplicável contra ele, em O Castelo, Kafka trabalha com uma redução ainda mais gravosa. A personagem chama-se apenas K. É o suficiente. Uma letra seca, mínima; um código tentando burlar os obstáculos para entrar no Castelo. A construção fica na distância como gigante intransponível. Ele está presente em todo canto por meio dos seus subordinados - secretários, chefes de gabinetes, autoridades várias, que impedem K. de ter acesso ao Castelo. O conde West-West, dono do castelo, ramifica-se por meio do espectro de subordinados que dificultam a existência de K. 

Franz Kafka
Nesse sentido, é importante dizer que Kafka foi um visionário, alguém que criou narrativas grotescas a fim de revelar a modernidade. Walter Benjamin, que escreveu um importante ensaio sobre o escritor tcheco (Franz Kafka - a propósito do décimo aniversário de sua morte), diz que "o mundo das chancelarias e dos arquivos, das salas mofadas, escuras, decadentes, é o mundo de Kafka" (2012, p.148). Kafka constrói cenários absurdos para exemplificar o quanto a vida do homem nas grandes cidades, metido dentro do labirinto das burocracias estatais, perdido nas incongruências de uma rede invisível, que possui o controle do olhar; um deus que é ubíquo, mas que não é alcançado. Ele se faz presente, pois vemos aqueles que agem em seu nome, mas não podemos enxergar-lhe o rosto. É nesse sentido que a obra de Kafka ganha dimensões insondáveis. 

Em O Castelo a narrativa é permeada pelo caos, pelas digressões impossíveis que quebram o fluxo narrativo; vemo-nos perdidos em meio a personagens que surgem do nada. Todos eles parecem ser cúmplices das autoridades do Castelo. Dos três romances que li do escritor, ficou a sensação de que as ações narradas por Kafka sempre insinuam algo que falta. As personagens estão numa grande busca. Samsa não entende o porquê de ter se metamorfoseado em um inseto; Joseph K. procura encontrar uma resposta para o processo e K. procura romper os muros invisíveis que impedem a sua entrada no castelo do conde. O escritor parece direcionar o seu olhar para a existência asfixiada dos homens modernos, controlados, medidos, contidos, premidos pelo poder invisível. As enormes estruturas dos aparelho estatal. O controle com mãos habilidosas. A força que coage, que reprime e aplica sanções, quando o sujeito não atende aos reclames dos tentáculos burocráticos.

Curiosamente, o livro termina do nada. A história é interrompida sem que a personagem consiga ingressar no castelo. Leandro Konder em seu "Kafka - vida e obra", diz que que Thomas Mann premeditou um final para o livro. 

"Ao se interromper o original d'O Castelo, vemos o seu herói, o agrimensor K., sozinho, cansado, obrigado a executar tarefas domésticas para a criadagem do hotel, a fim de não morrer de fome. Segundo afirma o escritor alemão Thomas Mann, o romance deveria terminar com a morte de K. e, minutos após o seu falecimento, a chegada de uma mensagem autorizando-o a se apresentar no Castelo para a tão ansiada entrevista pessoal com um dos inacessíveis comparsas do conde West-West" (1974, p. 175).

Sei que isso seria uma digressão ou, talvez, uma comparação esdrúxula, mas o esdrúxulo é a
argamassa que Kafka utilizava para erguer os seus monumentos literários. Imagine um paciente que precisa de um transplante de rim ou que esteja com uma doença que demanda cuidados urgentes. Não tendo dinheiro para pagar um tratamento em um serviço particular, a pobre criatura recorre ao serviço público. Dorme na fila a fim de conseguir uma consulta. Na primeira vez não consegue o que pretendia. Recebe apenas a indiferença de servidores públicos acostumados com a insensibilidade da máquina emperrada da burocracia estatal. Tenta mais uma, duas, três... cinco vezes até conseguir. Ele quer o hospital (o castelo?). Ele precisa entrar ali. Entrevistar-se com um médico de cara dura. Consegue marcar a consulta. Precisará esperar quatro meses para ser atendido. Todavia, nesse espaço, a sua saúde complica e o infeliz paciente acaba falecendo a um dia da consulta. 

Outra situação é um preso que acabou sendo condenado injustamente. Ele é de periferia. É pobre. Sabe que o Estado está em dívida com ele. O único advogado que consegue é da Defensoria Pública. Mas, nas idas e vindas, o seu caso acaba passando pela mão de cinco defensores. Cada defensor que analisa o caso, precisa voltar a estaca zero. O réu precisa de uma apelação. Ele deseja um novo julgamento. Não tem êxito. Sua solicitação é indeferida por juízes frios, entricheirados no regulamento. Os anos vão passando - cinco, dez, quinzes anos. A única coisa que o condenado deseja é provar a sua inocência. Quer um novo julgamento. Estar diante do juiz e da promotoria (o castelo?) com um advogado honesto, probo, comprometido. Finalmente, consegue. A audiência é marcada. Mas, uma rebelião explode em seu pavilhão. Os presos amotinam-se. Fazem reféns. A polícia tenta negociar. O charivari aumenta. E no meio do ensadecimento, dois dos reféns são mortos. Um deles é o condenado, que morre a um dia do seu julgamento. 

Por mais que sejam excêntricas essas histórias, elas são kafkianas. Penso que essa monumental obra que é o Castelo, aponte para esses casos. Kafka olhava para o mundo e ele estava  vestido pelo grotesco.

Livros citados:

BENJAMIN.Walter, Magia e Técnica, Arte e Política - ensaios sobre literatura e história da cultura - Obras Escolhidas I, Brasiliense, 2012, 271 pp.

KAFKA.Franz, O Castelo, Nova Cultural, 2003. 446 pp.

KONDER.Leandro. Kafka - vida e obra, José Alvaro/Paz e Terra, 1974, 217 pp.

terça-feira, novembro 18, 2014

Um adorável marxista: Leandro Konder (1935-2014) - por José Paulo Neto

Li o texto abaixo hoje à noite e senti uma vontade enorme de compartilhá-lo. Foi escrito por José Paulo Neto, um dos mais profundos estudiosos de Marx em nosso país. José Paulo Neto presta uma singela homenagem a Leandro Konder, morto a semana passada. Konder é um escritor que aprendi a admirar. Devo ter quase dez ou mais livros dele em minha biblioteca. Sua epistemologia está fincada no materialismo histórico dialético, apesar disso não é um ortodoxo duro. Consegue dialogar com a ciência histórica marxista, mas consegue imergir em temas da literatura e da estética, por exemplo. Recordo-me que tenho aqui em casa livros sobre Benjamin, sobre Kafka e sobre Brecht escritos por ele. Apenas para exemplificar, um dos livros expressivos que li este ano foi dele: "Os sofrimentos do homem burguês", que, no título, já faz uma referência explícita aos Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. Além disso, há um outro livro dele que julgo essencial: "O marxismo na batalha das ideias". 

Abaixo, o texto de José Paulo Neto, extraído do site da Boitempo.

As lutas de classes, especialmente nas conjunturas sociais tensas e mais crispadas, afetam diretamente os comportamentos das mulheres e dos homens que estão na linha de frente dos confrontos políticos. Quem deles participa sabe como é difícil manter a firmeza de princípios e de posições ao mesmo tempo em que se conservam a serenidade pessoal e o trato urbano – seja com inimigos, adversários e mesmo companheiros. Sem paixão não há combate revolucionário pelo socialismo, mas a paixão, tomada em si mesma, não é qualidade revolucionária: só o é quando dirigida por uma racionalidade (envolvente de meios e fins) que implica, necessariamente, a mediação da cortesia e – tomemos a palavra tão desusada hoje – gentileza.
Pois bem: o falecimento de Leandro Konder, cerca de um mês e meio antes de completar 79 anos, vitimado há mais de uma década por uma enfermidade cruel (a qual resistiu com inenarrável estoicismo, graças também à dedicação de Cristina, sua extraordinária companheira), empobrece substantivamente o marxismo e a esquerda brasileiros: com ele se foi um homem que soube, como muito poucos, combinar a firmeza de princípios e de posições com a gentileza, a polidez e a generosidade em todos os níveis das relações humanas. Morreu um adorável marxista.

Não me cabe, nesta hora triste, deter-me na sua obra – tema de outras intervenções minhas em oportunidades anteriores[*]. O decurso do tempo permitirá, estou certo, avaliar a relevância efetiva de suas várias dezenas de livros e ensaios (e centenas de artigos, numa carreira de escritor iniciada precocemente no final dos anos 1950) com rigor e justiça. Mas há três planos da sua atuação sobre os quais o juízo dos contemporâneos parece-me conclusivamente estabelecido.

O primeiro diz respeito ao seu papel agregador na frente cultural democrática que se articulou na imediata sequência ao golpe de 1º de abril de 1964: militante do PCB (ao qual esteve ligado até os inícios da década de 1980) desde adolescente, Leandro foi protagonista daquela paradoxal hegemonia (estudada por R. Schwarz em texto antológico de 1969) de que a esquerda brasileira desfrutou na cultura brasileira entre 1964 e 1968.
O segundo é relativo ao seu desempenho no magistério universitário, no qual ingressou em 1982; por mais de vinte anos, foi professor literalmente adorado por estudantes, querido pelos pares e respeitado pelos adversários.

E o terceiro está vinculado à sua atividade de publicista: foi notável o seu trabalho como competente tradutor de expressivos autores marxistas (especialmente de G. Lukács, de cujo pensamento foi um dos introdutores no Brasil, além de ter vertido ao português textos de Marx e Engels  e ainda, entre muitos, de E. Fischer, R. Garaudy), como informado divulgador de temas palpitantes da tradição marxista clássica (alienação, estética) e como didático analista de autores/obras de grande complexidade (Marx, Hegel, F. Kafka, W. Benjamin, B. Brecht).   

Penso mesmo que é precisamente na sua publicística que Leandro, em uma atividade cuja característica central foi a de um verdadeiro pedagogo, ocupa um espaço absolutamente indisputado. Como publicista, no trato dos marxistas, exercitou a divulgação com um espírito aberto, avesso a qualquer tom dogmático; com os não-marxistas, estabeleceu uma interlocução compreensiva, despida de preconceitos, não doutrinária. E sempre se expressando numa escrita cristalina, fresca, bem-humorada, acessível ao comum dos leitores – uma linguagem para transcender os círculos dos “iniciados”. Neste campo, Leandro rompeu com um viés de polêmica que falsamente identificava firmeza teórica com argumentação grosseira e agressiva. Aqui, antes que uma lição, Leandro lega aos  pósteros um exemplo.

Redijo esta brevíssima nota em meio ao desconsolo e à tristeza. Aqueles que, como eu, ainda na adolescência quando eclodiu o golpe de 1964 e então se voltaram para atividades de natureza político-cultural, todos tivemos – sem prejuízo de outros intelectuais e pensadores brasileiros de peso – em Leandro, e em figuras como Carlos Nelson Coutinho (nome tão ligado ao dele!), Fernando Peixoto e Aloísio Teixeira homens que nos influenciaram decisivamente. Perdemos os quatro em dois anos.

No meu caso particular, vínculos para além dos políticos e intelectuais acabaram por me vincular a estes quatro extraordinários brasileiros. O desconsolo deve-se a que são insubstituíveis num panorama cultural que reclama imperiosamente protagonistas do seu quilate. E a tristeza porque, com  eles, se foi parte significativa da minha vida – a juventude – , aquela em que eles me ajudaram, e muito, a construir o meu (pobre) jeito de estar no mundo.



sexta-feira, outubro 24, 2014

Sobre a cartada desesperada da Veja

Uma tentativa de golpe político como o aplicado pela revista Veja demonstra o perfil de nossas elites e a conivência criminosa dos seus apoiadores ocultos. Durante o período a partir da República (1889), o país nunca ficou mais de 30 sem que houvesse um golpe ou uma mudança política realizada por intermédio do jogo de cartas das velhas oligarquias. O último intento da Veja é a tentativa desenfreada e desesperada de confundir milhões de brasileiros. Isso tem acontecido com uma regularidade científica. Já daria para formular uma lei com todos os elementos do processo científico - ou seja, período das eleições, o PT está na frente. O candidato da Veja está atrás numericamente nas pesquisas, então, a consequência: arma-se ou se constrói uma reportagem supostamente bombástica para tentar reverter o cenário. Somente uma pessoa desguarnecida de inteligência e discernimento não consegue perceber o quanto essas notícias possuem fins eleitorais. 

Em um segundo turno que parecia que não haveria reversão para a candidata do PT. Os debates se iniciam e o povo percebe que a candidatura de Dilma está assentada em dados sólidos, de mudanças reais, como afirma o jornal espanhol El País. De repente, há uma mudança no jogo. Dilma avança, abre uma vantagem considerável em relação ao candidato do PSDB. E no dia em que ela chega a abrir 6 pontos, segundo o Datafolha e, 8, segundo o Ibope, a Veja solta o factoide, como se fosse uma dinamite criminosa que não poupa nem respeita o direito do povo brasileiro de escolher. Isso apenas atesta a minha tese de que com uma imprensa como essa que temos, retrocedemos aos piores dias da história. A Veja e seus associados, que não se manifestam, mas que aplaudem essa iniciativa, prestam um desserviço ao povo brasileiro. Aniquila a inteligência de muita gente. Amarre a ponta dos fatos e você perceberá como os perdedores somos nós, os trabalhadores. 

Essa "narrativa absurda" da Revista, faz-me lembrar o livro "O Processo", de Franz Kafka. No livro, K., personagem central, dorme e acorda pela manhã em uma cela. Ele não sabe o que acontece com ele. A única coisa que ele fica sabendo é que há um processo, uma acusação sem rosto, sem matéria, sem substância, contra a sua pessoa. Apenas uma acusação impessoal, vinda das entranhas da burocracia de um ente invisível. No livro, K. tenta descobrir quem fez aquilo com ele, mas acaba não descobrindo. O que fica é um absurdo de uma acusação que se mostra surreal, não fática, mas que domina e provoca estragos. Da mesma forma, desenha-se um contexto absurdo, quase onírico, pela Revista a 72 horas das eleições. Aqueles que são defensores do bom senso e da verdade; que lidam com a lógica e com o argumento coerentes, acabam ficando insatisfeitos e decepcionados com tão grande leviandade - meu caso!. Não se trata de jornalismo. Trata-se obviamente de golpe baixo. De vilania. De maucaratismo radical. De picaretagem estrutural. 


sábado, maio 05, 2012

Letras esparsas sobre Monsieur Pain de Roberto Bolaño

Roberto Bolaño é a sensação literária do momento. Todos aqueles que se intitulam bons leitores ou curiosos vorazes da literatura já o leram, estão lendo ou fazem projetos para lê-lo; ou também aqueles leitores diletantes e curiosos (meu caso), que tendo uma dívida enorme com o conhecimento da literatura, vão se apropriando tardiamente das novidades do universos mágico do texto literário. Não é para menos. Bolaño é viciante. Diga-se de passagem que ele resgata o lado selvagem da literatura. O lado underground de uma boa narrativa. O chileno consegue fazer um belo coquetel com o estilo borgeano e com Poe, com aquele tipo de texto eivado de mágica onírica e habilidade lancinante para descrever episódios.

Em Monsieur Pain, primeiro livro a que tenho acesso do escritor de 2666 (Raquel de Queiroz o chamaria de cartapácio) e Detetives Selvagens, reparei na beleza dos diálogos. Bolaño parece subverter aquela imagem de Paris como a "cidade das luzes", a cidade da arte; a sempre bela Paris, arrebatadora de gestos apaixonados. O livro escritor por Bolaño como um ensaio literário ainda no início da década de 80, possui uma atmosfera noturna, com becos asfixiantes, uma trama policialesca digna dos grandes escritores ingleses. Pain, o personagem principal da obra, é vítima de uma conspiração e acaba oscilando entre pensamentos filósoficos e terrores aziagos.

A Paris de Pain é aquela do final da década de 30. É Paris de chuvas intermitentes, de noctívagos contumazes. A narrativa nos apresenta ruas estranhas, perseguições, personagens enigmáticos, caminhos tortuososos e bares incidentais onde os personagens se enveredam por conversas habitadas por mistérios, sendo que logo em seguida após o sono da personagem Pain, segue-se o despertamento sempre permeado por uma atmosfera de suspeita de sonho. O clima de perseguição psicológica me faz lembrar de Kafka em O Processo.

Em suma: Bolaño constrói uma narrativa visceral, como na descrição da cena de um galpão abandonado, uma das melhores passagens do livro. A descrição apurada oscila entre o real e o inversossímil. Simplesmente fantástico. Faz suspender a respiração. As pitadas velozes da descrição, mete-nos a impressão de que estamos ali com a personagem.

No dia em que comprei Monsieur Pain na Livraria Cultura, também adquiri Chamadas Telefônicas. Minha intenção era comprar Detetives Selvagens. O vendedor disse-me que na loja não havia nenhum exemplar.  Mas não faz mal. Não foi de todo ruim. Próximas aquisições de livros do mestre chileno: 2666, Putas Assassinas e Detetives Selvagens


Indico ainda como suplemento para que se conheça um pouco mais sobre Monsieur Pain, o comentário escrito por Charlles Campos, sujeito que conhece literatura de maneira profunda. Cada texto que leio do Charlles percebo o quanto preciso me apronfundar nesse universo mágico, no qual Bolaño é um mestre incontestável. Outro leitor voraz de Roberto Bolaño é Cassionei Petry.


segunda-feira, março 05, 2012

Segunda sessão do sábado movie

Minha semana é bastante cheia. Trabalho como professor e a vida de quem ensina não é fácil. Quando não estamos em sala de aula, geralmente estamos preparando aulas ou corrigindo provas ou trabalhos. Minha mulher diz com certa recorrência que trabalho de professor "nunca acaba". E eu confirmo com todas as letras essa realidade em minha vida.

Com tanto tempo comprometido nessa atividade, sobra-me pouco espaço para fazer o que eu gosto. Ou seja, ler, ouvir música (embora quando estou em casa, sempre estou ouvindo alguma coisa) e assistir aos filmes de que gosto. Sendo sabedor dessa realidade de aperto, resolvi me munir de uma estratégia - os sábados vespertinos serão, doravante, chamados de "sábado movie". Em outras palavras: nas tardes de sábado, por volta das duas da tarde, terá início a minha sessão cinematográfica. Isso já me aconteceu por dois sábados seguidos.

No dia 25 de fevereiro, eu assisti ao filme Morangos Silvestres e, no último sábado, eu vi Amnésia (Memento), de 2000 - que havia sido indicado por um colega professor há algum tempo atrás. O filme do diretor Christopher Nolan, deixou-me com uma sensação de absurdo. Guy Pearce faz o papel de um sujeito que não consegue gravar as informações recentes em por causa de uma pancada que levou na cabeça. Ele fica impossibilitado de gravar as memórias mais distantes. Sabe do aqui e agora, mas rapidamente esquece aquilo que vivenciou em pouco tempo. O filme é constituído por um mosaico de acontecimentos que vão se encaixando e costurando os fatos fragmentados da vida do personagem vivido por Pearce. Apesar de o filme ser colorido, fez-me pensar naqueles noirs policiais no qual o fato nunca é solucionado.

Ou num romance kafkaniano, no qual percebemos o sofrimento do personagem, sem que este saia da "arapuca" que parecem ter armado para ele. E que por mais que ele faça movimentos, sua sina é estar preso em um cipoal de fatos viscosos e irracionais. A história é boa. O filme é bem contado. Tecnicamente, não aprsenta problemas. A atuação de Pearce é convicente. E ao final da película, proferimos em tom mofino: "O que foi isso que eu acabei de ver?" É assim que me sinto desde a última sessão do meu sábado movie.


domingo, fevereiro 19, 2012

Se não pode ficar com os livros, leve-os com você

Não queria ter saído de casa neste carnaval. Gostaria de ter ficado me refestelando com obras fílmicas programadas, muita música (do rock setentista do Sabbath, passando pelo jazz, ao clássico, que são verdadeiramente os estilos que me apetecem); além disso queria colocar as leituras atrasadas em dia. Nas últimas duas semanas eu trabalhei de maneira operosa. Cansei. Fatiguei-me com as exigências da profissão que exerço: professor. Estando posto nestas condições, quando surge um desses feriados que se assemelham a um oásis, ficamos imensamente ansiosos. A gente vem numa caminhada alucinante, angustiante, e, de repente, encontramos essas ilhas de possibilidades. E o resultado é que grandes expectativas são grassadas.

Mas a minha mulher acabou me convencendo a sair de casa. Arrancou-me da minha ilha imaginária. E penso que isso seja uma característica da espécie. Acredito que num tempo primal, os homens por viverem fora de casa (as mulheres, por sua vez, por estarem sempre recolhidas no antro doméstico a cuidar da prole e dos afazeres do lar), num momento ou outro queriam, quando voltavam das caçadas e do trabalho agrícola, recolherem-se pachorrentamente, sem serem incomodados. As mulheres por viverem numa condição inversa, sentiam uma necessidade de saírem, de socializarem, de verem as novidades do mundo. Claro, vivemos em um outro tempo, mas isso ainda continua inscrito num código invisível, em alguma região adormecida do vulcânico cérebro feminino.

Ao sair de casa, trouxe comigo o volume maravilhoso - Karl Marx - ou o espírito do mundo - de Jacques Atalli. A leitura das primeiras páginas causaram uma funda impressão poética. Attali faz uma análise 'secular' de Marx, alguém que parece ter se constituído numa entidade hagiográfica. As análises, geralmente, sobre Marx ou são apaixonadas e sacralizantes ou rasteiras e criminalizantes; ou o amam ou o odeiam. Pelo que que pareceu, Attali decinge-se de uma visão acachapante e unilateral de Marx, como tantos têm feito. O filósofo alemão é uma das mentes mais engenhosas e influentes da história. Poucos filósofos falaram tanto nos últimos quinhentos anos quanto o pensador nascido em Trier. Nenhum filósofo provocou tanta especulação quanto ele. Enormes disputas - militares, ideológicas, estratégicas - surgiram por causa de supostas interpretações exegéticas feitas dos seus escritos que abarcam a economia - o modo de produção e a vida dos homens. E até os dias de hoje, o mundo se "re-arranja" após a Guerra Fria, resultado de uma nação que se levantou para fazer óbice ao capital, personalizado na figura dos Estados Unidos da América. As crises cíclicas do capitalismo já eram apontadas pelo informado jornalista Marx.

Marx disse que as nossas lutas acontecem na história. Não há outro mundo possível. A não ser aquele que nascerá como resultado da luta dos trabalhadores, sobrepujando as contradições da sociedade capitalista. Nesse sentido, como dizia Nietzsche, a doutrina de Marx se assemelha ao cristianismo, por ser proponente de um mundo balizado no idealismo. Continuarei a leitura. Conaterei as novidades.

Ontem à tarde, após ter chegado à capital goiana fui a um shopping da cidade e após ter entrado na Livraria Saraiva, acabei cometendo algumas extravagâncias. Não gosto de ir a lojas de livros. Isso me faz sofrer. Olhar aquelas volumes indeléveis e deixá-los intactos, sem poder levar para casa, me é muito difícil. Adio ao máximo esse fato. Mas acabei cedendo. Comprei quatro livros - On the Road - Pé na estrada, livro de Jack Kerouac ao qual eu estava há muito tempo com o intento de comprar; Por que não sou cristão - Bertrand Russell, este talvez por ter sido influenciado pelo Charlles Campos (embora eu goste bastente do estilo frugal e elegante de Russell); Um artista da fome e outros contos, de Kafka (ando na minha fase Franz Kafka. Tenho tetando lê-lo ao máximo). O estilo do escitor polonês me deixa com a impressão de que um louco resolveu fazer literatura, criando metáforas incríveis e sofisticadas; e o último foi A origem da família, da propriedade privada e do Estado, de Friedrich Engels, um clássico do amigo de Marx. Possuo este livro em casa, todavia numa edição ordinária. Resolvi comprá-lo pela surpreendente editora Expressão Popular, que tem realizado um trabalho extraodinário no sentido de publicar os grandes clássicos do marxismo.

Sendo assim, a minha viagem não está sendo de todo ruim. Estou hospedado em um hotel numa cidade do interior, com vários livros sobre a minha cama. Ouço o Duplo Concerto para cello e orquestra de Brahms em meu notebook. Faz um calor terrível, o que é amenizado pelo ar condiocionado. E a certeza de que muitas vozes falam comigo está comigo. Sendo assim, se você não pode ficar em casa com os seus livros, leve-os com você.


Goiânia/Pontalina - GO
19/02/2012


quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Confissão apaixonada!

A literatura é uma vitamina que fortalece as percepções do espiríto. Esta frase canhestra, quase que saída de um protocolo de auto-ajuda me veio gratuita. Não encontro outra para descrever o sentimento que me balança. Lembro de outra mais séria e segura do crítico brasileiro Afrânio Coutinho: "A literatura é transfiguração do mundo". Descobri a literatura muito tarde em minha vida. Queria ter nascido com ela. Gostaria que ela fizesse parte do meu código genético. Que se misturasse aos fluídos do meu corpo. Mas somos resultado de uma interação. E geralmente as coisas se aproximam de nós por causa, na maioria das vezes, de uma confluência sócio-histórica. Ainda bem que ela veio a mim, mesmo que tarde.

Em matéria de conhecimento literário eu não passo de um pedante. Um diletante raso, sem matéria, sem nervos fortes. Sou estreito como um regato em tempo de seca. Não li ainda a maioria dos clássicos universais. Aqueles livros que entraram na categoria de imortais. E quando lemos um livro como O Processo, vem a nós uma sensação de estupidez, de questionamento aniquilador: "Por que você perdeu tanto tempo antes de chegar até este livro?". Apesar de ter lido A Metamorfose há dois anos atrás mais ou menos, somente agora estou lendo O Processo. Este ano ainda quero ler O Castelo e Carta ao Meu Pai, textos célebres de Kafka.

E fica-nos a pergunta: "O que foi Franz Kafka?". Um ateu religioso, criador de mundos repletos de si mesmo? Uma mente complexa que parece antever (no dizer de Lukács) a decadência do mundo burguês? O escritor, nos seus textos, descreve a esquizofrenia do nosso tempo. O absurdo de nossos processos existenciais, ordenado por um poder burocrático invísivel. Somos baratas asquerosas e os outros homens fingem nos aceitar. Gregor Samsa é uma metáfora.

Continuemos a nossa leitura exultando esta descoberta. Ah! a literatura... musa de corpo excitante e intangível.

domingo, fevereiro 05, 2012

Início de leitura - O Processo, de Franz Kafka


Apesar da semana corrida, tive a oportunidade de iniciar a leitura de O Processo de Franz Kafka. Leitura visceral. Texto atordoante e eivado pelo absurdo. Como um sujeito reagiria se percebesse que foi preso por motivos não explicados? Pois esta é a tortuosa e tensa história de Joseph K. A narrativa asfixiante e tortuosa nos dá a sensação dolorosa das impressões advindas ao personagem. A prisão é um absurdo e a não explicação desta é o que atormenta. Continuemos a leitura.