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domingo, janeiro 06, 2019

Os dez livros de que mais gostei em 2018

Decidi (de uma forma meio que ousada) tornar pública uma lista com as leituras mais significativas que realizei em 2018. Foi um ano em que gostaria de ter lido mais. Todavia, trabalhando mais de onze horas por dia, sem mencionar os deslocamentos de carro, que em alguns dias chegava à casa do cem quilômetros, li a metade daquilo que gostaria. Mesmo diante de cenário tão adverso, realizei leituras importantes. Abaixo surgem aquelas que foram responsáveis por um impacto ao meu modo de ser e estar no mundo. Cada leitura é responsável por nos arrancar do lugar-comum. Ajuda-nos a entender os fenômenos que nos cercam - sejam eles humanos, naturais ou sociais. Coloca-nos diante do pensamento complexo. Calibra o nosso olhar. Treina o nosso raciocínio a trabalhar de forma afiada. Alguns dos livros são releituras. É o caso, por exemplo, de São Bernardo e Banguê.  Para alguns desses livros, eu escrevi breves e inexpressivos comentários. Coloquei os links. Em alguns casos, ainda pretendo rabiscar alguns. É o caso do livro de Andreiev e do livro de Nabokov. Seguem os livros:


1. A guerra do fim do mundo, Mario Vargas-Llosa




















2. Enclausurado, Ian McEwan



















3. Banguê, José Lins do Rego




















4. A invenção do Nordeste, Durval Muniz de Albuquerque




















5. Lolita, Vladimir Nabokov


















6. São Bernardo, Graciliano Ramos








































8. O ódio como política, Esther Solano




















9. Os sete enforcados, Leonid Andreiev




















10. O dono do morro - um homem e batalha pelo Rio, Misha Glenny




















quinta-feira, março 29, 2018

"A Guerra do fim do mundo", de Mário Vargas Llosa

Ruína da antiga cidade de Canudos-BA
Uma das primeiras coisas que li em português foi Os Sertões, de Euclides da Cunha. Para mim, foi uma das grandes experiências da minha vida de leitor. Foi como ter lido, quando garoto, Os Três Mosqueteiros, ou, já adulto, Guerra e Paz, Madame Bovary ou Moby Dick. Foi realmente o encontro com um livro muito importante, uma experiência fundamental. Um deslumbramento, realmente, um dos grandes livros que já se escreveram na América Latina. Mario Vargas Llosa

Canudos é um dos pontos mais controvertidos da história do Brasil. Até hoje, o debate em torno da ação do Estado em relação ao genocídio promovido pelas forças armadas no nordeste da Bahia é um fato pouco explorado ou refletido, como tantos outros no Brasil. Acertar contas com a história é uma questão essencial para um país que deseja corrigir injustiças promovidas para que elas não se repitam. 

Muitos já escreveram sobre Canudos. O relato mais conhecido é o de Euclides da Cunha, o jornalista de formação militar e positivista que esteve na região cobrindo os combates sangrentos e que mais tarde levaria ao papel as suas afiadas memórias. O relato de Euclides é tão fascinante que, para além de história, ganhou conotações de grandiosidade literária. 

Já separei Os Sertões para realizar a leitura. Acredito que todo brasileiro possui, obrigatoriamente, o dever de ler a obra de Euclides da Cunha. Ela revela um pouco da violência com que as oligarquias do país tratam os pobres. Um pretenso orgulho republicano, de uma das sociedades mais atrasadas da América Latina à época, vitimou quase trinta mil vidas. Eram sertanejos que fugiam da miséria. Ancoravam-se na fé. Esperavam uma espécie de redenção histórica. Acreditavam que Antônio Conselheiro era um enviado de Deus; um profeta poderoso. Um mensageiro de Dom Sebastião. Canudos constituía-se em um grande oásis. Ela possuía suas próprias regras. Conselheiro um propalado republicano era um inimigo da República. Possuía posições obscurantistas.

Pois essa história extraordinária fascinou Mario Vargas Llosa. Após ter lido Os Sertões (imagino que não deve ter sido fácil para ele, já que o texto de Euclides oferece bastantes obstáculos. Seja por sua formação militar do escritor, seja pelas habilidades técnicas como engenheiro, o texto de Euclides é denso, repleto de uma linguagem provocadora), o escritor peruano ficou enfeitiçado pela narrativa euclideana. Aquilo enche-o de otimismo. Isso eram os idos dos anos 70. Resolveu, pois, visitar a região onde ficava situada a cidade. Sentiu as emanações quentes do clima agreste. Visualizou as elevações, o terreno, as pedras, aspectos estes pormenorizados na primeira parte do livro de Euclides da Cunha; esteve ainda nas cidades circunvizinhas a Canudos. Estas cidades são fartamente citadas no romance A guerra do fim do mundo.  

A tarefa de campo demandou alguns meses. Foi necessário colher as informações. Ouvir depoimentos. Deixar-se inundar pelos aspectos humanos da região. Ouvir a voz do povo. O fato é que Vargas Llosa, como ele mesmo disse, teve muito trabalho para escrever a obra. É a obra que demandou mais trabalho em sua longa jornada como escritor. O resultado é fascinante. Diferentemente de Euclides, Vargas Llosa insere elementos fictícios com caricaturas grotescas. Ao lado do combate que se desenrola em longas páginas, nota-se também a presença de personagens histriônicos e quase carnavalizados como é o caso do Leão de Natuba. 

Existem muitos elementos na obra que devem ser ressaltados. Um livro de quase oitocentas páginas não deve ser caricaturado em tão magras linhas como as minhas. Mas acredito que um dos principais aspectos que saltam do livro é o fanatismo. Há um fé inabalável; uma crença que fortalece os miseráveis sertanejos que moravam no arraial. Uma vez que passavam a morar no arraial, uma força irresistível brotava do espírito coletivo e da fé. Se não fosse isso, eles teriam sucumbido na primeira campanha armada que se levantou contra eles. Não teriam matado o arrogante oficial Moreira César, um dos algozes mais temidos no Exército durante a República Velha. César era um homem impiedoso. Ele lutara no Sul do país na Revolta Federalista. Fizera fama por lá. Chegou a Canudos com respeito e com a alcunha de grande matador. 

A Guerra do fim do mundo é um livro épico. É fascinante. Não deve ser comparado ao livro de Euclides da Cunha por possuírem abordagens completamente diferentes para um mesmo evento. Vargas Llosa sabia isso. Ele tinha consciência de que seria um tarefa perigosa escrever sobre Canudos. Como estrangeiro, falante de uma outra língua, seria complicado fazer algo que se equiparasse ao livro Os Sertões. Mas o fato é que estamos nos referindo a um dos maiores escritores americanos de todos os tempos; estamos nos referindo a um ganhador de Prêmio Nobel. Vargas Llosa é um conservador esclarecido. Desses com os quais discordamos, mas damos a ele o direito de resposta por sabermos que há um sólido embasamento naquilo que está dizendo. 

Como um homem da literatura, Mario Vargas Llosa é imbatível. Certamente, para mim, foi uma das mais ricas e agraciadoras experiências  da minha vida ler A Guerra do fim do mundo.

sábado, março 10, 2018

Ainda José Lins do Rego - "Banguê"

Apesar de ter terminado a leitura de Banguê há bastante tempo, o terceiro romance de José Lins do Rêgo, somente agora me decidi por realizar alguns comentários. Do ponto de vista da escrita, Banguê é o que possui a melhor redação dos três primeiros romances. Como foi comentado anteriormente, Menino de Engenho, o primeiro, é uma narrativa centrada na nostalgia. Não há dramas psicológicos. É a infância verbalizando suas impressões. Carlos de Melo é uma criança órfã que decide contar alguns fatos sob uma perspectiva altamente saudosista. 

Apesar da ficção, ouvimos a partir dele, quiçá, a própria voz do romancista José Lins do Rego, que experimentou a sua infância também em um engenho. Ele empresta a sua história a Carlos de Melo. No segundo livro, Doidinho, percebe-se que "o ciclo" começa a ganhar contornos sólidos. A narrativa se avoluma. José Lins continua a sua incansável saga memorialística. Carlos de Melo ainda está no centro. Enquanto em Menino de Engenho, temos-lo criança, em Doidinho ele é o adolescente que vai para escola e experimenta os rigores da disciplina. 

Carlos tem o futuro à frente, mas insiste em olhar para o Santa Rosa. Os acontecimentos são quase inexistentes no engenho Santa Rosa na narrativa. O engenho é visto como o Éden; como o espaço privilegiado da pureza inconteste; da felicidade inquebrantável; dos acontecimentos grávidos de liberdade. Há uma polarização entre o Liceu em Itabaiana e o Engenho Santa Rosa - aquele, o espaço claustrofóbico, do confinamento, do medo, do susto, da violência repressora; já este é o jardim das delícias; da fauna e da flora privilegiadas; em suma, de um mundo sem porteiras nem muros.

Banguê, por sua vez, escrito em 1934, é o mais denso livro da trilogia de Carlos de Melo. Fica-nos a impressão de que José Lins tenha desenvolvido a técnica que o conduziria a Fogo Morto, sua obra máxima. O livro foca a atenção em um Carlos de Melo já adulto, formado e herdeiro do espólio do Santa Rosa. O avô José Paulino, figura emblemática do patriarca, aquele que ergueu o grande feudo, morrera. Ela era o inexpugnável dono de terras, animais e "gentes". Carlos de Melo, bacharel em Direito, formado no Recife - assim como José Lins, um herdeiro das famílias tradicionais do Nordeste - após a formatura, volta para o Engenho. Sua indolência para com as coisas do Santa Rosa colocam-no em crise. Percebe-se claramente a sua falta de habilidade para gerir, para tocar as terras antigas do avô. 

As safras não são as mesmas. Um medo profundo de ser morto o abate. Desconfia dos parentes. Nota que há moradores mais habilidosos do que ele na condução das lavouras. Por fim, percebe que está na iminência de perder o Engenho para uma usina. Não consegue pagar uma carta de crédito. Se isso acontecer, ele liquidará a história do imortal Engenho Santa Rosa, que é uma extensão da memória do avô José Paulino.

Minhas palavras soam meio inexpressivas na tentativa de fermentar o interesse pela história, mas o fato é que o ritmo da prosa de José Lins deixa a impressão de um escritor que ia escrevendo à medida que memória fazia o seu trabalho. A narrativa pode ser comparada a uma mina que brota incessante. É delicioso ler José Lins do Rego! Percebe-se que ele não se preocupa com as grandes construções gramaticais. O fluxo de sua narrativa parece ser resultado de uma conversa, uma confissão privilegiada à imaginação dos leitores. 

Estou terminando dois livros atualmente - A guerra do fim do mundo (Mario Vargas-Llosa) e A invenção do Nordeste e outras artes (Durval Muniz de Albuquerque Junior). Assim que concluí-los, emplacarei a leitura de O moleque Ricardo. Quero perfazer toda a obra do escritor paraibano este ano. Sigamos. 

domingo, fevereiro 25, 2018

A guerra do fim do mundo

O ano passado, comecei a leitura de A guerra do fim do mundo, livro fundamental para se compreender o Brasil atual à luz dos eventos históricos ocorridos durante a Primeira República, também chamada de República Velha. Mario Vargas Llosa, escritor peruano e um dos poucos escritores latino-americanos a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, passou alguns meses no sertão baiano, colhendo informações; observando a paisagem; assinalando as características dos moradores do lugar; catalogando documentos históricos a fim de entender a épica história de Antonio Conselheiro e do arraial de Canudos. 

Estou na metade do livro. Devo confessar que se trata de uma obra extraordinária em todos os sentidos. Em outro momento farei uma breve reflexão sobre ela. Por enquanto, fica um vídeo do programa Direito e Literatura. Vale a pena assistir ao vídeo que possui pouco mais de 25 minutos.

Direito e Literatura - A Guerra do Fim do Mundo from Unisinos on Vimeo.

sábado, março 14, 2015

Algumas considerações sobre "Os sertões", de Euclides da Cunha. Uma leitura futura


Nunca li Os Sertões, de Euclides da Cunha. Tenho um exemplar adquirido no ano de 2003. A assinatura impressa na página diz 14-05-2003. É assim que faço com os livros que compro: ponho a data com objetivos cronológicos exatificados. Lá pelos idos do ano 2000, tentei ler o livro. Era um jovem pouco afeito à leitura. Aquilo me custou um trauma. Quando iniciei o trajeto pelas sendas duras da prosa de Os Sertões, na parte primeira, que trata da geografia da terra, acabei caindo nos buracos, lacerações surgiram por extensões amplas; escoriações enormes se tatuaram em meu otimismo, o que me fez desistir da leitura. O fluxo dos fatos me proibiu de voltar ao livro. 

Hoje cedo, senti-me premido a revisitá-lo. Os Sertões não é um livro fácil. A erudição de Euclides da Cunha é intimidante. Trata-se de uma das mais bem-sucedidas exemplificações de como se faz uma reportagem. O autor foi enviado como adido do Jornal O Estado de São Paulo, para cobrir uma das expedições do estado brasileiro contra o Arraial de Canudos, uma aglomeração que surgira com gente pobre, miserável, supersticiosa e povoada pela esperança redentora oriunda da prédica de Antônio Gomes Maciel, alcunhado de Antonio Conselheiro. 

Os Sertões é uma obra imponente, de linguagem austera, rica em polifonias e ressonâncias. Tais características fizeram com que um escritor do calibre de Mario Vargas-Llosa se apaixonasse pela história e quisesse, ele mesmo, escrever a sua versão da história do Arraial de Canudos. Claro, sem prescindir do valor da obra de Euclides da Cunha. O livro do peruano está aqui comigo. Chama-se A guerra do fim do mundo. Penso que "fim do mundo" possua uma ambiguidade fecunda, pois: (1) pode representar a distante localização geográfica; (2) a narração de "um Brasil esquecido" pelo "Brasil civilizado", focalizando a contradição entre o Brasil litorâneo e "o Brasil profundo", o Brasil preterido pelas elites, pelo progresso; e (3) simplesmente fazer emular a ideia de um fim biblicamente apocalíptico, já que Conselheiro era dado a pregar o fim do mundo. 

O fato é que Euclides por ser engenheiro de formação militar, republicano, positivista e evolucionista, consegue fazer um "tipo de leitura" sobre esse Brasil esquecido. Os preconceitos científicos e as ideias eugênicas estão inscritas em seu texto, seguindo à risca a vanguarda intelectual da época. Termos como "tabaréu ingênuo", "caipira simplório"; ou simplesmente chamar o nordestino de "neurastênico" evidenciam o tipo de visão sustentada pelo escritor baiano. 

O fato é que Canudos é um dos exemplos de como o estado brasileiro açambarcado pelas elites, tratou historicamente os mais humildes ou como dizia Florestan Fernandes: "os de baixo". A violência que a cidade sofreu é uma vergonha histórica para o estado brasileiro. Trata-se de um caso de guerra civil do Brasil litorâneo contra o Brasil miserável do interior. É violência do otimismo bambo contra a simplicidade supersticiosa de um Brasil relegado pelos ciclos históricos. Canudos serviu de "bode expiatório" para a crença republicana do progresso propagandeado pelas elites subalternas. Um exemplo claro é a lobby criado pela intelligensia da época, que dizia que Canudos era um obstáculo, um mácula contra o "republicanismo revolucionário". Não há algo mais risível e patético. Com um pensamento como esses, chegamos a um veredicto: nossas elites são burras, cegas, criminosas, preconceituosas, xenófobas.

Fica uma certeza: lerei "Os sertões" nos próximos meses.

P.S. Hoje cedo, procurei alguns vídeos no Youtube e encontrei um material considerável sobre Canudos. Entre eles, encontrei quatro belas reportagens sobre a cidade e sobre o Nordeste. 

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

A literatura é um denominador comum da experiência humana, por Mario Vargas Llosa

Baita texto! Sintetiza a finalidade e a dignidade da literatura como construtora que exatifica a experiência humana. 

Em feiras de livros ou mesmo livrarias, frequentemente alguém se aproxima pedindo-me autógrafo. “É para minha mulher, filha ou mãe”, explica. “Ela adora ler!” De pronto pergunto: “E o senhor? Não gosta de ler?” E a resposta é quase sempre a mesma: “Gosto, mas sou muito ocupado.”

Já ouvi essa explicação dezenas de vezes. Esse homem – e milhares outros como ele – tem tantos afazeres importantes, tantas obrigações e responsabilidades, que não pode perder seu precioso tempo mergulhado num romance.

Segundo esse raciocínio, a literatura seria uma atividade dispensável, uma diversão que somente pessoas com muito tempo livre poderiam se permitir.

Gostaria de apresentar alguns argumentos contra a ideia da literatura como passatempo e em prol de considerá-la, além de uma das ocupações mais estimulantes e enriquecedoras do espírito humano, uma atividade insubstituível para a formação de cidadãos na sociedade moderna e democrática. Por essa razão, ela deveria ser semeada nas famílias desde a infância e fazer parte de todos os programas educacionais.

Vivemos numa era de especialização em virtude do extraordinário desenvolvimento da ciência e da tecnologia, e da conseqüente fragmentação do conhecimento em incontáveis avenidas e compartimentos.
A especialização traz benefícios. Possibilita pesquisa e experimentos, e é a força motriz do progresso. Mas também destrói os denominadores comuns culturais que permitem a coexistência, a comunicação e a solidariedade. E leva à separação dos seres humanos em guetos culturais de especialistas, confinados – pela linguagem, por códigos de conduta e pelo conhecimento particularizado – a uma especificidade contra a qual um antigo provérbio já nos advertia: não se concentre tanto na folha, a ponto de esquecer que ela é parte da árvore e esta, da floresta.

Em grande medida, a noção da existência dessa floresta depende do senso de conjunto que une a sociedade e não a deixa se desintegrar numa centena de especificidades. A ciência e a tecnologia, portanto, já não podem desempenhar esse papel unificador da cultura.

A literatura, por sua vez, foi e, enquanto existir, continuará sendo um denominador comum da experiência humana. Aqueles de nós que leram Cervantes, Shakespeare, Dante ou Tolstoi entendem uns aos outros e se sentem indivíduos da mesma espécie porque, nas obras desses escritores, aprenderam o que partilhamos com seres humanos, independentemente de posição social, geografia, situação financeira e período histórico.
Nada nos protege melhor da estupidez do preconceito, do racismo, da xenofobia, do sectarismo religioso ou político e do nacionalismo excludente do que esta verdade que sempre surge na grande literatura: todos são essencialmente iguais. Nada nos ensina melhor do que os bons romances a ver nas diferenças étnicas e culturais a riqueza do legado humano e a estimá-las como manifestação da multifacetada criatividade humana.

Ler boa literatura é ainda aprender o que e como somos – em toda a nossa humanidade, com nossas ações, nossos sonhos e nossos fantasmas -, tanto no espaço público como na privacidade de nossa consciência. Esse conhecimento se encontra apenas na literatura. Nem mesmo os outros ramos das ciências humanas – a filosofia, a história ou as artes – conseguiram preservar essa visão integradora e um discurso acessível ao leigo, pois também eles sucumbiram ao domínio da especialização.

O elo fraternal que a literatura estabelece entre os seres humanos transcende todas as barreiras temporais. A sensação de ser parte da experiência coletiva através do tempo e do espaço é a maior conquista da cultura, e nada contribui mais para renová-la a cada geração do que a literatura.

O que a literatura deu à humanidade, então?

Um de seus primeiros efeitos benéficos ocorre no plano da linguagem. Uma sociedade sem literatura escrita se exprime com menos precisão, riqueza de nuances, clareza, correção e profundidade do que a que cultivou os textos literários.

Uma humanidade sem romances seria muito parecida com uma comunidade de gagos e afásicos. Isso também vale para o indivíduo. As pessoas que nunca lê, lê pouco ou lê apenas lixo pode falar muito, mas vai sem dizer pouco, porque dispõe de um repertório mínimo de palavras para se expressar.

Não se trata de uma limitação somente verbal, mas também intelectual, uma indigência de idéias e conhecimento, porque os conceitos pelos quais assimilamos a realidade não são dissociados das palavras que nossa consciência usa para reconhecê-los e defini-los.

Nenhuma disciplina substitui a literatura na formação da linguagem. O conhecimento transmitido por manuais técnicos e tratados científicos é fundamental, mas eles não nos ensinam a nos exprimir corretamente. Ao contrário, com freqüência são mal escritos porque os autores, às vezes expoentes indiscutíveis em sua profissão, não sabem transmitir seus tesouros conceituais.

Outro motivo para se conferir à literatura um lugar de destaque na vida das nações é que, sem ela, a mente crítica – verdadeiro motor das mudanças históricas e melhor escudo da liberdade – sofreria uma perda irreparável. Porque toda boa literatura é um questionamento radical do mundo em que vivemos. Qualquer texto literário de valor transpira uma atitude rebelde, insubmissa, provocadora e inconformista.

A literatura apazígua essa insatisfação existencial apenas por um momento, mas nesse instante milagroso, nessa suspensão temporária da vida, somos diferentes: mais ricos, mais felizes, mais intensos, mais complexos e mais lúcidos. A literatura nos permite viver num mundo onde as regras inflexíveis da vida real podem ser quebradas, onde nos libertamos do cárcere do tempo e do espaço, onde podemos cometer excessos sem castigo e desfrutar de uma soberania sem limites. Como não nos sentirmos enganados depois de ler “Guerra e Paz” ou “Em Busca do Tempo Perdido” e voltar a este mundo de detalhes insignificantes, obstáculos, limitações, barreiras e proibições que nos espreitam de todo canto e em cada esquina corrompem nossas ilusões?
Nada nos protege melhor da estupidez do preconceito, do racismo, da xenofobia, do sectarismo religioso ou político e do nacionalismo excludente do que esta verdade que sempre surge na grande literatura: todos são essencialmente iguais.
Quer dizer, a vida imaginada dos romances é melhor: mais bonita e diversa, mais compreensível e perfeita. Talvez seja esta a maior contribuição da literatura ao progresso: lembrar que o mundo é malfeito, e que poderia ser melhor, mais parecido com o que a imaginação é capaz de criar.

A sociedade livre e democrática requer cidadãos responsáveis, críticos, independentes, difíceis de manipular, em constante efervescência espiritual e cientes da necessidade de examinar continuamente o mundo em que vivemos, para tentar aproximá-lo do mundo em que gostaríamos de viver.

Sem insatisfação e rebeldia, ainda viveríamos em estado primitivo, a história teria parado, o indivíduo não teria nascido, a ciência não teria alçado vôo, os direitos humanos não teriam sido reconhecidos e a liberdade não existiria. Tudo isso nasce dos atos de desafio a uma vida que se mostra insuficiente ou intolerável. Para esse espírito que despreza a vida como ela é – e, com a insensatez de Dom Quixote, tenta tornar o sonho realidade -, a literatura serve de magnífica espora. A verdade é que o desenvolvimento da mídia audiovisual – que ao mesmo tempo que revoluciona as comunicações monopoliza cada vez mais o tempo que dedicamos ao lazer, relegando a leitura a segundo plano – permite-nos imaginar para um futuro próximo uma sociedade moderníssima, repleta de computadores, telas e microfones, mas sem livros.

Temo que esse mundo cibernético seja profundamente incivilizado, sem espírito, apático – uma resignada humanidade de robôs.

Evidentemente , é muito improvável que essa terrível perspectiva venha algum dia a se concretizar. Não existe um destino que decida por nós o que vamos ser. Depende de nosso discernimento e de nossa vontade que essa utopia macabra se realize ou se apague.

Se queremos evitar o desaparecimento dos romances – ou sua restrição ao sótão dos objetos inúteis – e com isso o desaparecimento da própria fonte que estimula a imaginação e a insatisfação, que refina nossa sensibilidade e nos ensina a falar com eloquência e precisão, que nos torna livres e nos garante uma vida mais rica e intensa, então devemos agir. Precisamos ler bons livros e incitar à leitura os que vêm depois de nós.

segunda-feira, abril 21, 2014

Quando se é estreito...

Não tinha a intenção de escrever esta reflexão, mas após ler dois textos vindos de fontes bem distintas, abordando o mesmo assunto, percebi como idiossincrasias religiosas podem levar a uma miopia; ou a uma sensibilidade além do comum.  O segundo caso é mais raro, todavia pode ser encontrado. O primeiro está vestido pela arrogância e por uma "teimosa" perspectiva de medir todas as coisas pelos valores que se cristalizaram no tempo e não acompanharam evolução da história.

Refiro-me à reflexão feita por Ricardo Gondim sobre Gabriel García Márquez, que faz aumentar o respeito que tenho por ele, um dos religiosos mais veneráveis deste país. Lúcido. Simpático. De bem com a vida. Cheio de poesia. E o outro texto pode ser lido aqui, escrito por Solano Portela, pretenso arauto da doutrina, defensor ardoroso da causa reformada. Solano também pretende falar sobre García Márquez. Mas decide estender sua análise para dois outros nomes importantes da literatura latino-americano - Mario Vargas-Llosa e Jorge Amado. Faz a pergunta: "O que Gabriel Garcia Marquez, Mario Vargas Llosa e Jorge Amado têm em comum?" Critica García Márquez e Jorge por serem de esquerda. Defenestra o primeiro por que era amigo de Fidel e aguilhoa o outro por ter sido militante comunista. Os intelectuais têm direito a ser aquilo que bem entendem. Afinal, impossível falar em intelectual, ainda mais no século XX, sem que este estivesse comprometido com uma causa política. Elogia Llosa por ser de direita, mas decide em seguida apupá-lo, também, por este ter enaltecido o presidente do Uruguai pelas medidas progressistas que não temos condições de debater dada a nossa menoridade intelectual. 

A exiguidade do pensamento de Solano fica claro quando comparamos com o texto de Gondim - mais largo, arejado, sem espinhos inquisidores. Sem sentenças judiciosas a favor de um dogma. Como se pode ver no texto de Gondim o seu dogma é a vida. A busca por compreender a sua própria condição de sujeito humano. 

Condenar a literatura de três nomes extremamente relevantes para a história do continente latino-americano pelo simples fato de a literatura fazer menção a temas repudiados pelo mundinho religioso de A ou B é um ato de ignorância. O dia em que esses indivíduos de mentes estreitas, fechadas, conseguirem escrever um romance como Jubiabá, Pastores da Noite, Tenda dos Milagres (Jorge Amado); Conversa na Catedral, A festa do bode, A guerra do fim do mundo, que é a retratação da Guerra de Canudos, sendo que para escrever o livro Vargas-Llosa morou por cinco anos no interior da Bahia; ou Cem anos de solidão, O amor nos tempos do cólera, Ninguém escreve ao coronel (Gabriel García Márquez), eu farei um silêncio e admitirei seus ideais congelados.

A literatura não está preocupada com os moralismos. E podemos contar o número de escritores com inclinações religiosas que produziram literatura de alto nível. São exceções Chesterton, C.S. Lewis ou Tolkien. A literatura é, simplesmente, a transfiguração do mundo. O que os homens não conseguem expressar por meio de teorias, criam por meio da ficção. A literatura melhora o mundo. Desconstrói para poder construí-lo. Não podemos falar em moralidade ou amoralidade nesse sentido.


terça-feira, dezembro 10, 2013

Mosaicos

Minhas férias começam oficialmente na sexta-feira. Mas, já começo a sentir os seus eflúvios soprando suavemente nos vales mais interiores de mim mesmo. Foi um ano cheio. Trabalhei muito. Excessivamente. Ainda estou vivo. O blog - esse espaço para minhas garatujas descompromissadas - anda às moscas. Voltarei a ler. Livros não faltam. Existe uma montanha me esperando: biografias (Tolstói, Malcom X, Hobsbawn, Marx etc); romances (Mario Vargas-Llosa, Swift - que já estou lendo -, José Lins do Rego, Brontë, etc); poesia (João Cabral de Melo Neto); história (Hobsbawn, Darcy Ribeiro, Boris Fausto) etc. Não sei se dará tempo de ler tudo isso. Sinto-me como uma criança numa loja de brinquedos. É muito estímulo, muitas possibilidades. 

Para tirar as teias de aranha deste espaço, resolvi colar um comentário que fiz lá no Facebook no dia de ontem, sobre uma reportagem que li sobre o resultado que o Brasil alcançou na prova do Pisa.

"Este texto assusta! E serve como ecplicação para uma série de problemas com os quais convivemos. O Brasil é um país firmado na desigualdade. E essa desigualdade acaba provocando consequências drásticas no processo formador de nossas escolas. Se por uma lado temos uma escola pública deficitária, com alunos pouco interessados ou mais preocupados com o percentual mínimo para passar de ano, temos por outro lado os filhos da classe média, que sofrem com os mesmos problemas de nossa educação deficitária - só que em escolas privadas(sic). Os mais privilegiados financeiramente buscam garantir por meio de mensalidades estratosféricas, em uma suposta instituição privada "decente", a vaga do filho nos estabelecimentos superiores públicos de educação, quando este terminar a educação básica. Todavia, tal fato não é uma garantia eficaz, pois temos um gargalo sócio-histórico que gera consequências alarmantes. E tais problemas vão desde o processo de formação dos professores, às avaliações que são aplicadas nas escolas. A profissão docente, no Brasil, tornou-se proletarizada; multiplicam-se as instituições de ensino que formam pessimamente os professores; a relação do professor com o aluno ainda é desarmoniosa; quando esta não está fundada na indiferença, está fundada no medo do aluno (cliente) "mandar" no professor (empregado, pois aquele paga o salário deste); ou mesmo de nossos currículos baseados no decoreba e que desestimulam o conhecimento historicamente produzido pela sociedade; ou ainda, problemas sociais sérios que acabam criando a evasão escolar, gerando como consequência uma horda de sujeitos que não entenderam a relevância histórico-cultural da escola. Assim, entendo que quando as políticas públicas são ineficazes no que tange à educação, o Estado se torna responsável por consagrar as desigualdades sociais. Ou seja, o Estado se torna criminoso, porquanto acaba jogando de forma acintosa os mais pobres na ignorância da inoperança histórica. A escola ainda é, para os mais pobres, a única forma de se conseguir a emancipação social. Como dizia Gramsci, é lá que deve atuar a figura do intelectual orgânico, capaz de fazer convergir forças para tornar pública e explícita uma "práxis" contra-hegemônica.

O texto abaixo serve para que reflitamos um pouco. Serve para mostrar o quanto a burguesia brasileira sempre tenta/tentou imitar os modelos estrangeiros. Todavia, essa empresa nunca foi bem-sucedida, pois a sociedade desigual baseada no modelo defendido por ela cria um processo de equidistância e retro-alimentação, colocando-nos numa roda-viva histórica.

O Brasil foi o país que mais evoluiu desde 2003 - período do governo do PT -, mas é preciso caminhar com compromisso e responsabilidade".

domingo, novembro 03, 2013

Mario Vargas-Llosa, um cidadão cosmopolita

Final de semana apenas de trabalho. Corrigindo provas. Elaborando testes para serem realizados nesta próxima semana que se inicia. Sem tempo para ler; para escrever. Apenas operando cálculos e sentenças que aturdem. Desemaranhando sentenças textuais. Acordando muito cedo. Dormindo muito tarde. O cansaço como companheiro infatigável. O mau humor como ferramenta de execução. Penso que esteja estressado. O que me salva é a música, que vou ouvindo para me des-alienar, para me desaturdir. Ai se não fosse ela, evocando Nietzsche e Schubert!!

Mas o fato de comparecer por aqui numa noite de domingo(sic.) é para falar sobre a entrevista que o escritor peruano Mario Vargas-Llosa realizou em maio último ao programa Roda Viva. Já tive a oportunidade de vê-la por duas vezes. E essa experiência me deixou impressionado. Separei duas vertentes do homem Vargas-Llosa após assistir à entrevista: 

(1) o político de posição liberal, crente na democracia como ela se apresenta. Nesse sentido, fiquei desconfiado dele. Não se trata de rechaçar completamente a sua posição; ou excluir completamente as suas ideias. Percebi a sua ojeriza a Hugo Chavez (e a Maduro, sucessor do líder bolivariano) e a Fidel Castro. A crítica aos regimes socialistas. Mas apesar de sua postura clara e honesta quanto a essas questões, o que me deixou impressionado foi a sua transparência, a capacidade de não esconder o seu pensamento político. Outro elemento importante no que diz respeito a isso, é o seu profundo conhecimento da América Latina. Quando menciona algo sobre o continente, fala na perspectiva da irmandade e do conjunto. Enxerga o continente latino-americano como um território que possui muitos elementos em comum.

(2) e o homem da literatura e é justamente esse homem que me fascinou. Apesar de possuir alguns livros dele: Batismo de Fogo, Pantaleão e as visitadoras, Os cadernos de Dom Rigoberto, Peixe na Água - memórias e A Guerra do fim do mundo. Este último é uma das minhas pretensões a futura leitura. O fato é que no próximo mês entrarei de férias e há uma programação com muitos livros a serem lidos: As viagens de Gulliver, umas três ou quatro biografias (Marx, Malcom X, Eric Hobsbawn, Rosa Luxemburgo, Gramsci etc) e muitos outros romances com o mesmo fim - espero que assim seja. Incluí nesta lista, comprei lá na Estante Virtual, Conversa na Catedral. Para muitos, esse é o maior romance escrito pelo peruano ganhador do Prêmio Nobel, em 2010.  Cada frase enunciada por Vargas-Llosa me encheu de admiração e prazer. É gostoso ouvi-lo falar. Suas enunciações revelam um amor profundo pela literatura.

Outra questão importante é o seu amor e conhecimento dos escritores latino-americanos. Falou de Cortázar, Garcia Marques, Neruda - são os que eu consigo lembrar. Cito de cabeça uma das suas frases sobre Borges: "Se existe um escritor latino-americano que, com certeza continuará a ser lido daqui a trezentos anos, este é Jorge Luis Borges". Vale mencionar ainda a sua paixão por escritores brasileiros. Citou pelo menos dois: Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, a quem teve a oportunidade de conhecer. Vargas-Llosa é dono de uma bonomia incrível. É um cosmopolita a serviço do bom senso e da literatura. Mesmo quando não concordamos com ele, baixamos a cabeça em sinal de respeito às suas afirmações claras, polidas, envoltas no mais puro requinte literário. 

Intenções de leitura a fim de conhecer um pouco mais sobre Mario Vargas-Llosa: A guerra do fim do mundo e Conversa na catedral. Oxalá venha a dar certo!

sexta-feira, julho 26, 2013

Livros - mais livros... II

Parece ser um evento novelístico ou quem sabe a atestação do mito de sísifo; ou ainda uma ciranda louca e contumaz de um rio que deságua no mesmo oceano infindo de prazer marginal. A promessa não cumprida. O desafio feito como evento para apaziguar o fetiche brutal que habita as listas e as linhas da agenda. O rabiscar. O "ok" que é dado diligentemente quando o objeto é conquistado como a liberdade desejada pelo cativo. A sensação de meta realizada. De mais um plano alcançado. De mais um exercício consumado.

Fiz uma promessa no início da semana, mas ela não se sustentou por muito tempo. Simplesmente, vacilei em minha pusilanimidade de vontade, em minha indisciplina. A sensação de culpa. A consciência cônscia do desatino.

Afirmo tais coisas, pois hoje fui à Livraria Cultura aqui em Brasília. Saí do trabalho às quatro da tarde e fui com a minha esposa àquela loja capaz de criar mitologias. De fazer escancarar uma planície de ânsias indomáveis. Fizera a promessa de que não iria a espaços onde houvesse livrarias. Minha esposa procurava algum tipo de literatura que fosse ou que tratasse do filósofo Antonio Gramsci. Inconscientemente, eu sabia da potencialização do pecado. Mas fui. Acabei sendo fisgado, inevitavelmente, pela disposição da necessidade. Voltei da loja com cinco livros. Eis as materializações dos meus pecados: 

Tratava-se de um projeto de compra antigo. Ganhou corpo depois que li o texto que pode ser encontrado aqui. O livro, conforme se pode ler na nota explicativa, foi publicado em 1859. É o livro que marcou a volta de Dostoiésvki ao mundo da literatura após quase dez anos de exílio na Sibéria. Obra da Editora 34 e traduzido por Lucas Simone, direto do russo.
 O outro livro que, na verdade, é um conto, foi escrito em 1873. É um texto que surge com o espírito sardônico, por exemplo, como O alienista, de Machado de Assis, criando cintilações ácidas em torno dos costumes aristocráticos viciosos da Rússia do final do século XIX. Outro livro da magistral Editora 34 com tradução de Paulo Bezerra.











Já o livro O duplo eu conheci quando fazia o curso de Letras. Não cheguei a lê-lo. Apenas li referências à obra. É a segunda obra escrita pelo russo. No ano de 1846, Dostoiévski publicou Gente Pobre e, duas semanas depois, soltaria O Duplo. A obra vai revelar ao mundo a viagem dostoievskiana ao abismo escuro e caótico da consciência humana. Nesta obra está o gérmen para os personagens complexos e multifacetados como Raskolnikov ou o príncipe Michkin. Essa abordagem acontece com aquela mestria típica do russo, que sempre mergulha nas profundezas da alma humana, com finalidades perscrutatórias. Novamente, a excelente Editora 34 e tradução de Paulo Bezerra.
 O primeiro livro do escritor norueguês, Karl Ove Knausgärd, a aparecer por aqui - Minha Luta 1 - A morte do Pai - eu conheci pelo blog do Charlles. Ao entrar na Livraria Cultura, pude ver na sessão de lançamentos o livro de Knausgärd e, imediatamente, fui fisgado. A começar pela capa que traz uma bela e evocativa paisagem de uma estepe. As estepes sempre foram uma espécie de porta dimensional que me leva a mundos inóspitos e carregados de mistério. Leio a seguinte informação na orelha do livro: "No presente da narrativa, com 39 anos e três filhos, Knausgärd deve se ajustar à rotina da família, trocar fraldas e apartar brigas, tudo isso enquanto tenta escrever seu novo romance, numa luta diária. É esse homem que busca se haver com a morte do pai e com o próprio passado, lançando-se em uma investigação minuciosa que resulta nesta obra aliciante híbrido de ficção e memória. Não é à toa, entre variadas referências literárias a Proust aparece como a inspiração mais evidente de seu ousado projeto, que se estende por mais de 3 mil páginas e seis volumes, sem abandonar a matéria autobiográfica".

 A temática desse livro eu vi na entrevista que Mário Vargas-Llosa, um dos mais eminentes escritores latino-americanos da atualidade, deu ao programa Roda Viva no mês de maio. Llosa é um liberal franco, profundo e de fala fácil. É bom ouvi-lo. Em A civilização do espetáculo (uma evocação do livro homônimo de Guy Debord?), o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura do ano de 2010, desfere golpes contra "a banalização das artes e da literatura". Trata-se de um livro que se coloca no campo da crítica cultural. O escritor peruano entende, neste livro, que a cultura não deve se esquivar da realidade, gerando inclinações unicamente para a diversão e o entretenimento. O livro gerou algumas críticas a Vargas-Llosa como, por exemplo, a de que ele faz a defesa de uma cultura "eurocêntrica". Penso em minha simplicidade que a sua crítica seja contundente e séria.