| Fotografia de 2004. 2ª casa onde morei. |
Henry David Thoreau
Há 47 anos, às 11h15, segundo relatos maternos, eu chorava pela primeira vez. Após ter atravessado uma madrugada transida de dores, minha mãe, finalmente, serenou - eu aportava no mundo. A casinhola onde nasci era rústica. Hoje, já não existe. Ficou apenas o espaço ontológico em minha lembrança. As paredes de reboco de barro cobriam o madeiramento conseguido nas matas adjacentes. A parteira - Dona Bil - segurou-me com mãos prestimosas e experientes.
Há 47 anos, a realidade material surgiu para mim com a sua luz; o ar invadiu-me os pulmões. Fui banhado pelos eventos da matéria. Hoje, encontro-me, praticamente, na metade da travessia. Não há tempo para distrações. Quanto mais caminho, mais me sinto compelido a me entender a partir daquilo que fui ou que deixei de ser, sendo.
Há 47 anos, experimento o sabor e as implicações daqueles versos céticos de Fernando Pessoa: "Não sou nada / Nunca serei nada/ Não posso querer ser nada / À parte disso, tenho em mim todos os / sonhos do mundo".