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segunda-feira, maio 23, 2022

Os Sertões, de Euclides da Cunha, algumas breves palavras

 “Tinha nos braços finos uma menina, neta, bisneta, tataraneta talvez. E essa criança horrorizava. A sua face esquerda fora arrancada, havia tempos, por um estilhaço de granada; de sorte que os ossos dos maxilares se destacavam alvíssimos, entre os bordos vermelhos da ferida já cicatrizada. A face direita sorria. E era apavorante aquele riso incompleto e dolorosíssimo aformoseando uma face e extinguindo-se repentinamente na outra, no vácuo de uma gilvaz”.

 

                “Os Sertões” é um colossal livro produzido por circunstâncias extremadas e pela genialidade de um brasileiro que conseguiu enxergar o nosso atraso e as nossas injustiças. Concluí, embasbacado, a leitura do desafiante livro no mês de fevereiro. Somente agora consegui escrever algumas magras linhas para assinalar as minhas impressões. Havia tentado em duas ocasiões realizar a leitura da obra; reunir esforços para finalizar o projeto. Não consegui. Desisti nas primeiras páginas. O livro escrito por Euclides Cunha exige paciência, disciplina e uma vontade indômita para vencê-lo. É preciso ficar de pé, com a espinha ereta para encará-lo. Quem se intimida nas primeiras páginas, acaba por se amofinar e acaba colocando a obra a um canto.

                A sua divisão interna – A terra, O homem e A luta, respectivamente – parece surgir para impor obstáculos.  A primeira parte é repleta por uma linguagem pejada por dificuldades; por termos técnicos – da geologia, da botânica, da climatologia. Euclides faz uma escrutinadora varredura pela região nordestina e, de forma pormenorizada, pela região agreste da Bahia, onde se deu o conflito entre os rudes sertanejos contra as forças da recém-criada República. Parece um teste de resistência. Todavia, algo curioso acontece: após nos acostumarmos à paisagem dura, empertigada, da estética euclidiana, ganhamos um vasto mundo de belezas, de sinuosidades.

                Euclides ao escrever o seu livro segue um rigoroso método. Formado pelo arrojo acadêmico das ciências do século XIX, Euclides segue o determinismo taineano.  Segundo o filósofo francês Hippolyte Taine, para se fazer história, era necessário entender o homem à luz de três fatores: o meio ambiente, a raça e o momento histórico. O método taineano foi revolucionário. Na França, escritores como Maupassant e Zola foram impregnados pelo seu pensamento.

                Euclides da Cunha teve formação militar. Era um engenheiro. Seu rigor científico-matemático era imensamente aguçado. O escritor fazia parte de uma corrente de jovens intelectuais republicanos. Um agudo observador das transformações políticas do país, mas assentado numa sólida formação positivista. Euclides também se enveredou pelo jornalismo. Acompanhou à distância o conflito. Havia, no Centro-Sul, uma série de miragens sobre o que estava acontecendo no interior do país. Preconceitos. Caricaturas. Os jornais noticiavam que o grupo de Antonio Conselheiro procurava reinstalar a Monarquia, o que constituía uma afronta à República; às lideranças políticas e aristocráticas que haviam destituído o imperador.

Euclides da Cunha

                Por sua vez, no interior da Bahia surgira o mal-arranjado arraial, liderado pela misteriosa figura de Antônio Conselheiro, um andarilho que havia conseguido aglutinar em torno de si uma massa de sertanejos supersticiosos e necessitados. Nascido no Ceará, Conselheiro possuía as prerrogativas de profeta para o povo. Sua vida tinha sido até o estabelecimento em Canudos, uma ciranda de eventos de desencontrados. Havia exercido diversas profissões. Até que, após descobrir a traição da sua companheira, decide começar uma marcha messiânica pelos sertões. Peregrina pelo interior; passa por pequenas e desassistidas cidades. Prega para as populações incultas. Procura embelezar os cemitérios. Sua mensagem estava repleta por um messianismo escatológico. Até que se estabelece na fazenda Monte Santo, às margens do rio Vaza-Barris, na região caatingosa do sertão baiano.  Uma massa considerável segue seus enigmáticos ensinamentos. Euclides afirma em estilo seco como lhe é tão peculiar sobre o Conselheiro: “E surgia na Bahia o anacoreta sombrio, cabelos crescidos até os ombros, barba inculta e longa; face escaveirada; olhar fulgurante; monstruoso, dentro de um hábito azul de brim americano; abordoado ao clássico bastão em que se apoia o passado tardo dos peregrinos...”

                Euclides descreve a biografia de Conselheiro na segunda parte do livro. É nessa sessão do livro que ele procura apresentar o sertanejo. É nela que encontramos a famosa frase: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Na segunda parte, Euclides procura levar à frente o empreendimento taineano abordando a perspectiva de raça, aplicando os conhecimentos da ciência da época. Segundo ele, o sertanejo estava fadado ao desaparecimento.

Acontece que o sucesso do arraial contrariou muitos interesses. Afinal de contas, muitos sertanejos abandonaram fazendas de coronéis mandonistas da região para acreditar nessa nova Canaã que havia surgido no meio do inclemente sol da região tórrida. Se não há ninguém para trabalhar, para explorar, o que fazer? O medo infundado era disseminado. As notícias tumultuadas por uma cortina de desencontros informativos, criavam especulações variadas tanto local, como nacionalmente. Havia um solerte perigo naquela chusma de sertanejos maltrapilhos. Certamente, que poderiam trazer perigo à jovem e promissora República – era o que diziam com a finalidade de criar um factoide contra os conselheiristas.

Vista do Arraial

Três expedições haviam, desde o final do ano de 1896, tentado debelar de uma vez por todas o Arraial de Canudos. De forma inexplicável, os nordestinos resistiram bravamente.  A tenacidade com que lutavam demonstrava que os sertanejos estavam dispostos a qualquer custo defender Canudos. Havia uma crença de que estavam lutando por algo que era sagrado. Caso não fossem perturbados ou acossados, certamente teriam impelido suas vidas; plantado suas roças; criado seus filhos e filhas sem nenhuma preocupação com os destinos da vida política do país. A famosa questão do Conselheiro acerca do casamento e das novas leis da República, eram mais uma superstição do que uma causa militante pelos quais se tornava possível lutar.

Acontece que isso serviu de estopim para criar uma comoção nacional em torno da questão Canudos. Após a derrota da Terceira Expedição e a morte do generalíssimo Moreira César, o corta cabeças, famoso pela personalidade sanguínea e a humilhação pela qual passara os soldados, foi responsável por alargar ainda mais o preconceito da opinião pública do Centro-Sul contra os mais de vinte mil sertanejos que formavam o tecido humano de Canudos. Os jornais veiculavam especulações dia e noite. Disseminam preconceitos e desinformações. O próprio Euclides enquanto estava à distância, tinha a percepção de que aqueles rudes sertanejos precisavam aprender uma lição dada pela República. Não era possível que beatos ignorantes comprometessem o progresso. Como o próprio Euclides afirma: “O sertanejo defendia o lar invadido, nada mais”.

Euclides segue para Canudos junto com a Quarta Expedição, capitaneada pelo ardiloso general Arthur Oscar, um veterano de guerra, que fora incumbido pelo ministro da guerra e pelo presidente da República a fim de que pusesse fim à cidade “monstruosa”. Euclides chega à Canudos em agosto de 1897, momento em que o conflito ganhava contornos dramáticos. Os sobreviventes do massacre estavam esfaimados, feridos, mutilados ou mortos dentro das casas, que haviam se tornado em jazigos de barro. O escritor ficou por pouco mais de um mês no ambiente do conflito. Assusta saber que nesse espaço de tempo, ele tenha se apropriado de impressões tão fundas ao ponto de derramá-las em um livro como “Os Sertões”, que somente seria escrito cinco anos após o conflito, no interior de São Paulo.

O cronista enviado pelo O Estado de São Paulo deixou o espaço da guerra em 3 de outubro de 1897, dois dias antes da derrocada completa de Canudos. Ele mesmo havia conseguido transitar pelas ruelas estreitas e mal planejadas da cidade.  Um “dédalo desesperador de becos estreitíssimos”, foi a categórica descrição utilizada por ele após ter caminhado em meio ao caos de destruição aos quais cidade havia sido submetida.

O escritor presenciou um quadro completamente diferente daquele que era mostrado pelos órgãos oficiais e pela imprensa da época. Não havia revolucionários revoltos; um exército disposto a pôr abaixo a República. Muito pelo contrário. Euclides estava diante de velhos carcomidos pela necessidade. Crianças feridas. Homens gastos que se equilibravam sofrivelmente, trôpegos, espreitados pelas tropas federais e pelas aves carniceiras. Nas palavras de Euclides: “Os feridos chegavam em estado miserando. Prolongavam pelas ruas da cidade aquela onda repulsiva de trapos e carcaças, que vinham rolando pelas veredas sertanejas o refluxo repugnante da campanha”.

Na visão de Euclides, a Campanha de Canudos havia mostrado uma face injusta e covarde da chamada civilização contra os ditos incivilizados, contra os inviabilizados. No trecho de abertura da obra ele enuncia em três reveladores parágrafos:

“Aquela campanha lembra um refluxo para o passado.

E, foi, na significação integral da palavra, um crime.

Denunciemo-lo”.

O escritor apresenta assim, no início, a sua posição. Esclarece o que o leitor vai encontrar pela frente no seu caudaloso e denso texto. Sim. Houve um crime. Uma das páginas mais bárbaras da história do país. As forças Estado exterminaram mais de 25 mil brasileiros sob a conivência da letargia de uma sociedade cega e preconceituosa. De um país que não se conhecia e que continua a não se conhecer.

“Os Sertões” é uma obra que possui muitos ecos. Pode ser enquadrado, por causa de seu estilo duro e torrencial sob vários pontos de vista – estudo historiográfico, antropológico, sociológico etc. É importante apontar que ele possui a força de uma epopeia. Constitui, assim, a epopeia trágica que representa as relações que o Estado Brasileiro estabelece com parcelas consideráveis de seus pobres e desassistidos.  O texto euclidiano é um libelo contra um país violento e ignorante; um país imenso, miscigenado, conduzido por uma das elites mais mesquinhas do mundo. Um país cujas lideranças são subservientes aos interesses internacionais, mas que possui um apetite voraz contra “os de baixo”.  Um país que não se entende; que não ressignifica a própria história.

“Os Sertões” é um livro obrigatório. Certamente, uma das leituras mais importantes da minha vida.

domingo, dezembro 27, 2020

Um pequeno balanço livresco


 Acredito que tenha conseguido ler o meu último livro do ano de 2020. Uso a palavra "acredito", pois penso que não terei condições de terminar nenhuma outra leitura, entre aqueles que estou fazendo, ao longo da última semana do ano. Pais e filhos, de Ivan Turgueniev, era um projeto antigo de leitura - como tantos que possuo. Terminei-o ontem.

Não foi um ano fácil. Li menos do que eu queria, todavia, mais do que eu podia. Para leitores com uma compulsão megalomaníaca como eu, que ficam esmorecidos quando não conseguem ler, perceber a existência de obstáculos para a consecução da leitura é sempre uma tragédia. 

O ato de ler é uma atividade curiosa. Esse ano difícil em vários cenários, serviu para mostrar para mim que livros são como montanhas - algumas, quando olhamos debaixo, parecem intransponíveis. Mas elas são e continuam assim até que nos decidamos a subir. 

Há livros que, ao olharmos a sua lombada, a sua espessura extensa, assustamo-nos. Um retraimento covarde nos convence a não enfrentá-los. Isso é uma advertência enganosa. Arrumamos tempo para fazer tantas coisas, por que não organizamos o tempo para realizar algumas necessárias leituras? 2020 permitiu que eu realizasse alguns desejos. Por exemplo, consegui ler A besta humana, do escritor francês Émile Zola. Li ainda o delicioso O lobo do mar, do Jack London. Outro livro lido - e esse ficou entre os grandes que já li - foi O senhor da moscas, do nobelino William Golding. 

Outro livro de fundamental leitura foi o extraordinário Nada de novo no front, do alemão Erich Maria Remarque. O livro é uma aula sobre as transformações ocorridas no interior de um combatente durante a Primeira Guerra Mundial. O brilhantismo da narrativa aproxima-o de Os contos de Kolimá, do russo Varlam Chalámov.

Acredito que o maior desafio do ano tenha sido a leitura da extraordinária biografia sobre o chefe da propaganda nazista - Joseph Goebbels - escrito por Peter Longerich. A leitura aconteceu de forma lenta. Arrastada. Em alguns momentos, pensei realizar uma tarefa que nunca teria fim. O livro aproxima-se das novecentas páginas. Ao terminá-lo, fiquei com um senso de dever cumprido e uma sensação gratificante de que eu era capaz de enfrentar desafios aparentemente assustadores. 

É baseado nessa experiência que, no ano de 2021, tenho três grandes montanhas para galgar: (1) Brasil - uma biografia, da Lilia Moritz Schwarcz; (2) Os demônios, de Dostoiévski; (3) Jane Eyre, da Charlotte Brontë (a belíssima edição da Zahar). 

Penso ainda em ler de maneira mais detida (pelo menos uns cinco livros de cada) Clarice Lispector - por causa de seu centenário - e Lygia Fagundes Telles, para quem as apresentações são dispensáveis. Pretendo ainda ler três ou quatro obras de Jorge Amado, projeto que iniciei em 2020.

Claro, em 2020 houve outras leituras. Mas, acredito que o mais significativo tenha sido isso. 

No próximo ano, o horizonte (observando à distância) apresenta as mesmas tinturas melancólicas - filho, dois empregos, acordar cedo, grandes deslocamentos diários; tempo escasso etc. Mas, é importante continuar fazendo menos do que eu queria, todavia, mais do que eu podia.

sábado, outubro 14, 2017

"A vida de Émile Zola" e o ódio como força social

"Devemos conquistar o mundo... ...mas não pela força das armas, mas sim por meio de ideias liberadoras". Émile Zola

"A verdade está em marcha... e nada a deterá". Émile Zola

Existem forças que parecem ser maiores do que aquelas que possuem os indivíduos. Há situações em que os rumos dos fatos sugerem a desistência. Mas, e quando o que está em jogo é a verdade, a justiça, a vida de alguém? É sobre este fato que o filme A vida de Émile Zola, de 1937, direção de William Dieterle, mira os seus holofotes. 

Um terço do filme aborda a vida difícil do famoso escritor de Germinal antes de alcançar a glória literária. Vivia humildemente, carregando o fardo pesado da pobreza. De repente, uma enxurrada de obras que sacudiram as letras na França e na Europa - Nana, Germinal, A besta humana, entre outras, surgiram e trouxeram fama ao escritor. 

A parte final do filme, põe em foco Alfred Dreyfus, oficial do exército francês, acusado injustamente pelo crime de traição e espionagem. Foi condenado por uma sentença questionável. Um tribunal de exceção, montado pelo próprio Exército, o condenou ao banimento e à prisão perpétua na Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. 

É neste posto que entra a pessoa de Zola. A esposa de Dreyfus recorre a ele. Solicita por ajuda. Zola se nega. Não quer sair da comodidade. Afinal, era um sujeito reconhecido e respeitado. Arregaçar as mangas, cerrar os punhos e sair para a briga exigiria que ele saísse de seu divã de comodidades; do lugar conveniente a que havia alcançado. 

Após entender o caso, Zola não hesita e resolve escrever o famoso documento Eu acuso, que caiu como uma bomba no território francês. De repente, a sociedade francesa estava dividida por aqueles que pediam a manutenção da prisão de Dreyfus e aqueles que exigiam uma reconsideração da sentença. Zola transforma-se em inimigo público. Seus livros são queimados. Corre para não ser linchado. Percebe um cerco em torno de sua pessoa. É condenado a prisão e a pagar uma multa de três mil francos, também, por uma tribunal parcial. Foge para a Inglaterra. De lá, continua a escrever, protestar, a usar a razão.

É curioso como um turbilhão negativo de ódio e raiva toma as pessoas. Para isso acontecer, há uma força invisível, ardilosa, a influenciar, a colocar sentenças nas cabeças das pessoas. A sociedade parece se transformar numa tromba d'água poderosa, capaz de arrastar tudo que está à sua frente. Não há barreiras capazes de impedir o seu avanço. A sua força destruidora ganha dimensões assustadoras. Parece-se muito com aquilo que aconteceu no Brasil a partir de 2013. 

Os últimos acontecimentos com o Partido dos Trabalhadores provam isso. O caso é bem diferente, claro. O PT não é inocente como Dreyfus o era. Tomemos como exemplo a deposição de Dilma Rousseff, a primeira mulher impeachmentmada da história do Brasil.  Em alguns momentos, pronunciar o nome dela era como emitir um palavrão. Semana passada, estava em sala de aula trabalhando alguns exercícios sobre pronomes com os meus alunos de ensino fundamental; crianças com apenas onze ou doze anos. Surgiu uma foto da Dilma. De repente, notei as falas indignadas dos meus alunos. Xingamentos. Afirmações hostis. Ironias. Não retruquei. Apenas observei. Devem ter escutado dos pais. Dos parentes. Dos vizinhos. Visto na televisão. Passado mais de um ano de seu impeachment, o ódio coletivo parece ainda envenenar as mentes e bloquear a razão - até mesmo das crianças.

O que o Caso Dreyfus prova é o quanto as pessoas podem ser acometidas por doenças coletivas. Como é necessário manter a razão, o discernimento, o bom senso funcionando. Deixar de lado as falas apressadas, precipitadas. Não ter a sua inteligência suspensa. Não permitir que o rio impetuoso da ignorância nos afogue. Indagar. Manter aquele olhar de sobriedade e desconfiança. Todos aqueles que alegam possuir a verdade estão condenados a se tornarem inquisidores. As inquisições matam, esfolam, praticam atos bárbaros, desumanos. 

A luta de Zola o leva a provar a inocência de Dreyfus. Triunfa, finalmente, a verdade. Dreyfus é restabelecido ao posto. Não entrou com uma ação contra o estado francês. Todavia, o estrago estava feito. O filme nos faz pensar sobre como a parcialidade dos homens pode induzir a situações em que indivíduos têm as suas vidas públicas e privadas estraçalhadas pela vilania e pela traição. A verdade é forte, cristalina, luminosa. Se ela prevalecesse em todos os casos, não haveria tantas injustiças e desumanidades no mundo. 


terça-feira, dezembro 24, 2013

Pedra Bonita, de José Lins do Rego; e algumas memórias

 Terminei na última sexta-feira, a leitura de mais um dos romances do escritor paraibano José Lins do Rego. Minha intenção é ler toda a obra do autor de Menino de Engenho. Talvez, faltem uns quatro ou cinco livros. Tenho tido um êxito considerável. Não tenho seguido um script cronológico. Olho para os volumes disponíveis em minha biblioteca, saco-os e inicio a leitura. Muito simples. Seguindo essa lógica randomizante, o próximo livro a qual lerei será Cangaceiros, de 1953, um dos últimos romances escritos por José Lins; em seguida, pretendo ler Pureza, de 1937, primeiro romance escrito após o término do Ciclo da cana-de-açucar.

A cada livro que termino do escritor paraibano, surge-me uma pergunta: "O que me atrai a José Lins do Rego?". As suas produções são de cunho memorialístico. É estranho a Zé Lins a capacidade de criar a partir de elementos do não vivido, de inovar. As temáticas são recorrentes. Ou seja, aquilo que experimentou, que seus olhos captaram enquanto era moço na Paraíba, nos engenhos de açúcar, transformou-se em bagagem existencial que o seguiu pelo resto da vida. José Lins era um Balzac rural, um descritivista da vida do sertão nordestino. 

Quando penso essas coisas, talvez, encontre um pouco dos motivos que me prendem à sua narrativa. Cresci na zona da mata pernambucana. Vivi lá até os nove anos de idade. E ainda aprisiono dentro de mim as rutilâncias febris da infância: a autoridade dos mais velhos, principalmente do meu pai e do meu avô materno; as brincadeiras com objetos primitivos forjados pela necessidade; os imensos canaviais das terras dos meus avôs; os riachos para as quais eu ia me banhar, ficar horas e horas a fio na água poluta; as árvores variadas e suas estações frutíferas (jaqueiras, mangueiras, jenipapeiros, jambeiros, saputizeiros, cajueiros, ingazeiros, larajeiras etc); os cheiros variados nos invernos imensos; a água que escorria feroz nos meses de maio e junho de cada ano, alargando os fios anêmicos dos regatos; as biqueiras dos telhados que faziam despencar veios arteriais profusos; a sensação de espanto quando ia à cidade; os trabalhadores no corte da cana; a fragrância inconfundível da cana queimada; o barulho do vento na palha dos coqueiros.

Graciliano Ramos e José Lins do Rego
Ou seja, toda aquela planície ensolarada descortinada no texto de José Lins do Rego faz parte de mim. Está contida em galáxias interiores, neste vasto universo do meu ser. Esse cenário abrangente toma conta de mim. Cria conexões. Portas dimensionais são escancaradas e me fio por elas. Posso estabelecer um paralelo comparativo entre Graciliano Ramos e José Lins do Rego. Com relação ao primeiro, entendo que se trata de um dos nossos maiores escritores de todos os tempos. Com relação ao texto, Graciliano era um depurador de palavras. Seu estilo é inconfundível. Seu texto possui as gradações corretas. A pontuação precisa com a finalidade de criar efeitos estéticos únicos. É um texto que caminha com os pés na terra, medindo cada passo para chegar a determinado lugar com bastante precisão e estudo. Admiro isso. Já José Lins é dono de uma prosa "descuidada". Comete atropelos quanto à regência. Em alguns momentos se delonga em excesso em descrições. Em outros, passa-me a impressão de que está cometendo divagações. Todavia, "os pedaços" dessa prosa singular são conectados e temos um texto que produz sensações elétricas. José Lins sabia contar uma história como ninguém. Talvez, em nossa literatura o caso mais parecido seja o escritor gaúcho Erico Veríssimo.

Terminei a leitura de Pedra Bonita, livro escrito em 1938.Trata-se de um livro de temática religiosa. Aborda um elemento vital do imaginário do povo nordestino: a superstição. A história se passa em algum lugar do estado de Pernambuco, pois as referências aludem a isso. Há a citação de cidades como Garanhuns, Limoeiro, Goiana e Recife, cidades pernambucanas. O vilarejo de Açu reconstitui a arquitetura tão rotineira nas cidades interioranas do Brasil: a vida pacata do povo que se reúne embaixo de uma árvore para especular sobre a vida dos outros; a paróquia no centro da cidade; os coronéis que mandam na cidade; os comerciantes; e a gente comum; a devoção exagerada à tradição erguida pela Igreja Católica.

Como protagonistas temos o padre Amâncio e Antônio Bento, cuja história se ligava a ecos de acontecimentos espetaculosos com a cidade de Pedra Bonita.O jovem Antônio Bento havia sido adotado pelo padre. Era intenção do sacerdote torná-lo padre, mas o sacerdote teve suas intenções inviabilizadas em decorrência das dificuldades econômicas. Antônio Bento, assim, torna-se coroinha da paróquia. Passa a assistir o padre nos trabalhos da igreja. Todavia, a maior parte do povo de Açu não gostava do jovem. Ele era discriminado. Sofria com os debiques dos moradores da cidade.

O fato é que ao final da história, Antonio Bento se ver dividido entre ajudar o padre Amâncio, que estava em seu leito de morte, aguardando outro padre para fazer a confissão; ou se juntar aos seus patrícios de Pedra Bonita, que seriam vitimados pelas tropas do Estado que vinham com fúria para alijar do tumulto gerado por mais um frenesi messiânico. 

O livro possui um realismo duro. O Estado parece como força tirana. Os militares batem sumariamente nas pessoas sem que estas possuam direito ao contraditório. Espancam velhos. Buscam à toda força, lançar por terra os cangaceiros que, também, surgem na história como força antitética aos desmandos do governo. Todavia, acabam se constituindo em mais um "flagelo" do sertão, pois defloravam moças, saqueavam os moradores da terra, alastravam pânico e a especulação de medo por onde quer que passassem.

Em dados momentos do texto, os infortúnio do tempo parecem acometer ao personagem Antonio Bento. A realidade parece sufocar a sua existência. Não há saídas. Existe uma espécie de fado do tempo histórico que é maior do que ele. Antonio Bento não tem saídas. Ele parece ser um joguete do destino. O céu está contra ele; os homens estão contra ele; a história está contra ele. Esse neorrealismo com pitadas de naturalismo, liga Pedra Bonita a Zola ou Aluísio de Azevedo, escritores do século XIX. 

Muito bom o livro, embora não seja um dos melhores de José Lins do Rego.

sábado, novembro 17, 2012

Germinal, de Émile Zola, algumas reflexões

"A alegria de viver desaparece quando não há mais esperança"
Émile Zola, Germinal, p. 371
 

Pode se afirmar que o século XIX é a idade de ouro do liberalismo. A premissa básica do liberalismo estava fundada na seguinte ideia: "A iniciativa individual é o motor, a mola de toda a atividade válida". Esse entendimento era derivado dos movimentos pró-burguesia fecundados no século XVIII, principalmente com a Revolução Francesa. E o liberalismo (surgido no século XVII) como sistema filósofico representou o sonho de consumação dos intentos da burguesia. Na corrida pela efetivação da "iniciativa individual", havia aqueles que podiam competir, por possuírem os meios de produção, e aqueles que possuíam apenas a força braçal e os instintos de sobrevivência. 

 O Estado como organizador do sistema social como sonhado pelos Iluministas, principalmente por Hobbes, deveria ter a sua presença minimizada. A Segunda Revolução Industrial estava a pleno curso. A invenção da máquina a vapor, as várias ideologias - positivismo, o socialismo, o existencialismo, o darwinismo, o monismo, por exmplo - estavam assentadas num ideal materialista. Ou seja, a ideia de que o mundo e a natureza eram os pontos determinantes a serem conhecidos pelo homem. 

Mas e a literatura possui alguma relação com isso? E respondemos de forma peremptória que sim. A literatura é a transfiguração do mundo. Ela por si se constitui a mistura do mundo real e o mundo possível. Quando o sujeito da literatura cria, não deixa de coniderar a realidade. Mas ele o faz criando uma imitação que gera tensionamentos. Essa imitação é um fundamental para compreender determinados momentos históricos. É por isso que Marx disse em certo momento que aprendeu mais sobre a sociedade francesa do século XIX com Balzac do que com livros técnicos de historiadores e economistas. 

Sendo assim, a complexa e ebuliente sociedade do século XIX pode ser compreendido de maneira "transfigurada" pela literatura. É importante mencionar que além de Zola, outros escritores também se preocuparam em retratar materialmente as desigualdades gestadas pelo capitalismo naquele século. Na Inglaterra, Charles Dickens, foi um importante cronista da vida citadina da Inglaterra industrializada. As ruas repletas de lama; os prostíbulos; a exploração; a infância perdida. Na França, Victor Hugo com Os Miseráveis, pintou um quadro fantástico das relações dos pobres numa sociedade dominada pelos interesses da burguesia. Em Portugal, Eça de Queirós, não se preocupou em retratar o mundo material como Dickens ou Hugo. Preferiu mostrar a hipocrisia que habitava o seio do mundo burguês. E aqui no Brasil, Aluísio Azevedo escreveu dois livros fundamentais,  inspirado por esse movimento vivo então na Europa - O mulato e O cortiço. Ambos os livros são extraordinários. O primeiro por mostrar como o preconceito se constituía em modo de navegação social numa sociedade escravocrata como a nossa; e, o segundo, retratava as condições sub-humanas na qual vivia o povo pobre do Brasil, com todas aquelas doses naturalistas: a promiscuidade, a ausência de educação, os instintos aflorados, a exploração econômica, a dança do corpo. O cortiço está mais próximo de Germinal.

Após essa divagação, queria afirmar que Germinal cuja leitura se concretiza de forma elétrica, é um grande tratado, um documento social. Um libelo contra a sociedade burguesa, assentada na desigualdade. Após ter lido a obra, resolvi assitir ao filme homônimo, lançado em 1993, por Claude Berri. Achei-o convicente. Todavia, o jogo linguístico e a fluência literária como de um cientista de Zola torna Germinal uma leitura indispensável. Em alguns momentos de leitura, eu me vi passeando ao lado de Etienne Lantier, personagem central da obra, pelas ruas feias e cobertas de lama de Montsou.

Germinal foi escrito em 1885 e tornou Émile Zola numa das personalidades mais importantes da literatura universal. De família pobre, Zola passou por muitas dificuldades antes de se estabelecer como um habilidoso cronista. Para escrever Germinal, Zola morou numa comunidade de mineiros durante quase três meses, tempo este em que pode experimentar todas as vicissitudes do triste cotidiano nas regiões interioranas da França. Comeu a comida pobre daqueles homens que viviam como bichos; bebeu água contaminda; percebeu a promiscuidade dos jovens como um apelo ao instinto; dormiu nas casas desadornadas de conforto e sem calefação; desceu aos buracos infames a centenas de metros de profundidade para trabalhar na semi-escudridão, em um ambiente insalubre, pegajoso e que deteriorava a saúde e a vida do trabalhador, como é retratado, por exemplo, na pessoa da personagem Boa-Morte, que vivera cinquenta anos no trabalho inglório. O resultado foi vomitar uma substância preta e a imobilidade demente no final da vida.
Zola ao viver na comunidade dos mineiros colocou em voga o pressuposto básico do naturalista - viver próximo ao fato para narrá-lo com insenção e imparcialidade. Sua função era retratar anatomicamente os eventos sem qualquer moralismo. Era é importante realçar os instintos. Adelgaçar a necessidade da funcionalidade da vida. 

As condições materiais de existência dos mineiros era degradante. Por conta disso, iniciam um movimento grevista sob a liderança de Etienne Lantier. Apoiam-se numa resistência grossa. Organizam-se. Falam na Internacional que era naquele momento uma importante organização internaicional de trabalhadores. Desconhecem as teorias socialistas. O único intento e o desejo de justiça. Queriam fugir da degradação e da opressão. Queriam apenas comer dignamente. Todavia, esse anseio é ocultado pela resistência em atender às aspirações dos mineiros por parte do dono da mina. Zola parece querer mostrar que existem instâncias no sistema. Que todos estão presos, enredados, na teia medonha que aprisiona os envolvidos - dominador e dominados - no jogo de interesse. 

Outro importante recurso utilizado por Zola é colocar em paralelo a burguesia, representado pela comida fácil, o riso mole, a futilidade dos grandes saraus e a situação de desespero do mineiro. Cabe a este viver em condição de penúria. Esse paralelo pode ser verificado na reflexão feita por Etienne: "[...] por que havia tanta miséria de um lado e tanta riqueza de outro? Por que estes [os mineiros] tinham de viver escravizados àqueles [os burgueses], sem a menor esperança de um dia mudar de posição?".

De certa forma essa tese, segue no triste curso da narrativa. A greve iniciada pelos mineiros naufraga. Eles são forçados a voltarem ao trabalho. As necessidades vitais os premem. Submentem-se voluntariamente à tirania. Não conseguem resistir, apesar do ódio. As várias mortes perpetradas pela polícia, braço direito daqueles que estão no poder, desmancha o movimento. A polícia que em sua essência é também formada por homens pobres e comuns, existe para proteger o patrimônio do capitalista. Ou seja, o capitalista, segundo Zola, é cruel em sua sanha, pois alimenta-se do sangue do povo quando explora e blinda-se com o aparelho formado pelo Estado Liberal que protege a propriedade. Todavia, essa proteção é feita pelo povo. 

Etienne vai embora de Montsou. Os mineiros são obrigados a se resignarem com as condições vis de trabalho. E aí não deixei de perceber a tese niilista do livro. Por mais que se tente lutar contra o monstro da opressão, ele possui tentáculos asfixiantes, capazes de dilacerar com sua força qualquer resistência. Resta ao homem pequeno, de existência sofrida resignar-se à indigência até que chegue a morte. O sonho de igualdade é um vislumbre utópico. A ignorância dos pequenos é a arma do ricos. Embora essa tese esteja na obra, o final do livro nos traz uam mensagem de esperança. Enquanto Etienne caminhava pela planície de Montsou, Zola despeja sua pena literária: "Do flanco nutriz brotava a vida, os rebentos desabrochavam em folhas verdes, os campos estremeciam com o brotar da relva. Por todos os lados as sementes cresciam, alongavam-se, furavam a planície, em seu caminho para o calor e a luz. Um transbordamento de seiva escorria sussurrante, o ruído dos germes expandia-se num grane beijo. E ainda, cada vez mais distintamente, como se estivesse mais próximos da superfície, os caompanheiros cavavam. [...] Homens brotavam, um exército negro, vingador, que germinava lentamente nos sulcos da terra, crescendo para as colheitas do século futuro, cuja germinação não tardaria em fazer rebentar a terra".

Fica clara a construção de uma belíssima metáfora, já que o nome germinal estava associado ao calendário da primavera na Revolução Francesa, quando a semente das plantas germinavam. Em um sentido mais lato, germinal é a fecundação, o rebentar de uma transformação social que estava em curso. Zola parece prever os conflitos que estavam sendo fecundados no seio do capitalismo. As desigualdades sociais trariam resultados claros, numa espécie de salto dialético.

O fato é que Germinal é um dos mais importantes livros a tratar de questões sociais. Sua temática ainda está viva. Nas periferias das grandes cidades brasileiras, por exemplo, é possível encontrar famílias como a dos Maheau. Pessoas pobres. Sem instrução; não contempladas por políticas públicas efetivas. Cerceadas do jogo do poder. Iludidas com o ideial de democracia. Democracia e liberdade são termos que aquecem o espírito e geram consolo no Estado burguês. Cria uma ideia de povo que participa das decisões do Estado no suposto jogo democrático. As sementes nunca tiveram tão adormecidas e estéreis.