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quarta-feira, dezembro 07, 2016

"O último tango em Paris" - uma pequena reflexão

Muitas pessoas mais gabaritadas do que eu já emitiram suas opiniões sobre este fato. Não será este espaço minúsculo e anônimo que ampliará qualquer entendimento acerca da polêmica. Mas vamos lá! Os amantes do cinema, sempre debateram sobre o aspecto "selvagem" da nudez explicitada no filme O último tango em Paris, de 1972. Para a época em que foi produzido, cenas de nudez, felação, masturbação, sexo anal, palavrões, e a atmosfera niilista vivida pelo personagem de Marlon Brando, talvez criasse caos e um consequente celeuma por onde quer que tenha sido visto. De fato, o filme foi censurado em diversos países - inclusive no Brasil. Esse fato só serviu para alimentar uma "mística" em torno da produção franco-italiana. É um filme erótico? A resposta: Não. 

Na segunda-feira (após duas outras tentativas baldadas), eu vi o filme. Nas vezes em que tentei e não consegui, acabei sendo vencido pelo encadeamento das cenas. Dormi. A sucessão da história é lenta. Aspectos meio que improvisados são desfechados. As falas de Brando, principalmente, quando ele fala da mãe, demonstram um nível profundo de uma simplicidade angustiante. Palavras como "fezes", a "a mãe nua e bêbada", "porco" (e outras coisas que não lembro) estão ali. Vemos quão grande era o ator.  Brando está medonho no filme. "Asqueroso". "Repulsivo". Um anti-homem. Um tipo indomável. Como na cena em que ele pede para que a personagem de Maria Schneider coloque o dedo em seu ânus (do personagem de Brando).

Pois esta semana, uma polêmica veio à tona: a confissão do consagrado diretor italiano Bernardo Bertolucci de que a famosa cena em que Maria Schneider contracena com Marlon Brando ("a famosa cena da manteiga") não tenha sido combinada com a atriz. Bertolucci, que hoje tem 75 anos de idade, confessou em 2013 que o acontecimento foi resultado de um estratagema entre ele e Brando, sem que Schneider soubesse. Palavras do diretor: "Não contei (a Schneider) o que ia acontecer porque queria que a sua reação fosse a de uma garota, não a de uma atriz". À época, Schneider era uma jovem com 19 anos de idade. Alguém que ainda não se firmara no mundo do cinema. Contracenar com Brando (que no mesmo ano faria o primeiro filme de O Poderoso Chefão, sob a direção de Francis Ford Copolla; e que já havia trabalhado em filmes clássicos como Sindicato de Ladrões e Uma Rua chamada pecado, ambos de Elia Kazan) certamente daria a ela uma espécie de senha para que se tornasse conhecida. 

A grande pergunta é: se fosse outra atriz, com um nome mais poderoso do que Schneider como Catherine Deneuve (Repulsa ao Sexo e A bela da tarde) ou  Brigitte Bardot (O desprezo e Masculino-Feminino), a dupla Bertolucci/Brando teria a mesma ousadia que teve com a jovem neófita? Mas isso não explica ou atenua a situação.
A cena funesta 

Analisando a cena, não se tem uma ideia muito precisa para definir se houve ou não penetração. O problema está no cálculo, na gestação da ideia de se passar manteiga no ânus da atriz sem que existisse consentimento. Além da funda problemática de cunho ético, fica subentendido a coisificação do outro. A vulgarização, a falta de respeito para com a jovem atriz. E, por fim, a ideia de "estupro". Aliás, atitudes aparentemente sádicas são comuns a muitos diretores como, por exemplo,  Stanley Kubrick ou Lars von Trier.

A famigerada cena durante muito tempo alimentou o imaginário masculino, pois ali há um acontecimento de clara dominação masculina. O sujeito que se posiciona à força, que subjuga, que não abre espaço para o debate, para a contradição. A cena do coito anal choca pela repulsa que gera - e não se trata de um moralismo barato. Bertolucci quis fazer um filme que chocasse. Queria deixar uma mensagem implícita para os telespectadores - que não havia limites para a arte. Faz lembrar O Anticristo (e a cena da mutilação genital), de Lars von Trier, que causa um impacto pelo aspecto negativo; ou a crítica destrutiva de Saló: ou 120 dias de Sodoma, de Pasolini. 

No livro Feminismo e Política, de Flávia Birolli e Luis Felipe Miguel, encontramos a seguinte a afirmação que serve para fortalecer o que tento afirmar:

Representações das relações de gênero nas quais a mulher é humilhada e objetificada, isto é, tratada como menos que humana porque é definida como instrumento para a satisfação dos desejos de outros, podem contribuir, ainda que de maneira difusa, para a violência contra as mulheres e para a aceitação dessa violência. 

Acredito que à época do filme, não havia esse debate consolidado de maneira tão substantiva como temos hoje. Entretanto, acredito que Bertolucci e Brando foram misóginos em suas intenções. Submeteram a jovem Schneider a uma situação constrangedora, subserviente, pelo fato dela ser ainda desconhecida. Sentiram-se verdadeiros garanhões próximos a uma vítima indefesa. Ajudaram a alimentar a sanha de muitos sujeitos que veem as mulheres como criaturas unicamente "para o coito" - e quanto mais expropriador da dignidade, melhor. 

domingo, março 08, 2015

O cinema em janeiro de 2015

Serge, interpretado por Fabrici Luchini, em Pedalando com Molière
Somente agora, tendo chegado ao mês de março, que farei o meu relatório dos filmes que vi no mês de janeiro. No mês de janeiro eu viajei para o Nordeste. Lá fiquei por quinze dias. Período de descanso. Momento de rever amigos, parentes; de visitar locais que foram abandonados, mas que moram aqui dentro como paisagens recorrentes e apaixonadas. Sou um homem habitado por paisagens e fragrâncias. No meu corpo estão tatuadas as memórias que funcionam como espelhos. Elas são portas por onde entro e me vejo como criança, imergindo em um passado que se faz sempre presente. As imagens são bandeiras tremulantes, sempre a indicarem a vitória de um exército chamado saudade (sei, no fundo, é piegas). Visitei o Rio Grande do Norte, a Paraíba e o meu Pernambuco querido.

Mesmo com esse período de viagem, ainda consegui assistir a oito filmes. Os destaques ficam por conta de Pedalando com Molière (2013), Efeito Borboleta (2004), Segunda-feira ao sol (2002), Festa de família (1998) e o Filho da Noiva (2001). Numa segunda renque, ficam Trotski, a revolução começa na escola (2009), O mesmo amor, a mesma chuva (2000) e Tatuagem (2013). 

Principio falando daqueles que ficaram secundarizados. Trotski, a revolução começa na escola é uma produção canadense. É uma comédia incipiente. Busca retratar a história de um jovem que se acha a encarnação do revolucionário russo. Achei-o meio bobo. Em O mesmo amor, a mesma chuva,  produção argentina, o onipresente Darín encena um romance com Soledad Villamil. Dos filmes argentinos vistos por mim recentemente, achei que esse ficou bem aquém da boa e sólida filmografia do país. Já Tatuagem é uma produção ousada do cinema pernambucano e traz o polivalente Irandhir dos Santos, uma das grandes revelações do cinema brasileiro dos últimos anos. O filme é visceral e cru em sua proposta. Somente vendo para entender o que digo.

Penso que o filme que mais me chamou a atenção no mês de janeiro foi Efeito Borboleta, embora a maviosidade de O filho da noiva, tenha me tocando fundo. Efeito Borboleta, dos irmãos Eric Bress, J. Mackye Gruber, cuja fama eu havia escutado apenas por comentários esparsos, é daqueles filmes que deixam a gente impressionado pela sua proposta filosófica. O filme aborda em linhas gerais a seguinte questão: por que eu tenho esta vida e não outra? E se eu tivesse feito outras escolhas, como seria a minha vida, aonde eu estaria? E se naquele dia eu não estivesse naquele lugar? E se eu não tivesse me decidido por realizar determinadas ações e não as que realizei e tenho realizado? A obra é rica em reflexões filosóficas, sendo que o seu fulcro epistemológico é a teoria do caos. A outra obra, como aludi acima, é o sensível O filho da noiva, um filme que mostra um Darín fantástico. Um dos grandes filmes argentinos realizados até hoje. 

Vale mencionar ainda Festa de família, do dinamarquês Thomas Vintenberg, uma das primeiras realizações do manifesto chamado de Dogma 95, que teve também Lars von Trier como signatário. O filme possui uma revelação espetacular. A família se reúne para uma comemoração. Quando todos seus fartos ramos familiares se reúnem com amigos, filhos, netos, o primogênito revela que foi abusado sexualmente pelo pai. Um mal-estar coletivo toma proporções impensadas. Excelente filme. 

Segunda-feira ao sol, do diretor espanhol Fernando León de Aranoa, é outra boa película. A obra, que traz Javier Bardem no papel principal, faz uma reflexão amarga sobre a crise econômica europeia e como esta traz os seus efeitos deletérios sobre a estima de um grupo de desempregados espanhois. Numa sociedade de consumo, quanto vale um homem que não pode consumir, que não pode vender a sua força de trabalho? O capitalismo gera crises profundas na alma daqueles que não podem participar da sua dança. E não poder dançar, significa sofrer a estigmatização social e uma auto-mutilação psicológica. Aranoa também fez Nos guetos de Madri (1998), outra película que quero ver.

A comédia amarga Pedalando com Molière é uma delícia. Recordo-me que vi esse filme no cinema, quando da sua estreia em 2013. Resolvi vê-lo novamente por conta da atuação de Fabrici Luchini que, no filme, faz o personagem Serge. O filme é estudo sobre a alma humana. Ou seja, até que ponto a vaidade humana pode crescer em um sujeito. Além de ser muito divertido, tendo fortes doses de simulação teatral, Serge é o alter-ego de O Misantropo, do dramaturgo Molière. O personagem funciona como uma metáfora metalinguística para a obra. Muito bom esse filme francês.

quarta-feira, março 26, 2014

Uma resposta brilhante!

O esloveno Slavoj Sizek é um dos grandes críticos, polemistas, entusiastas do marxismo, "desferidor" de golpes nos mais variados exageros, contradições e paradoxos da sociedade do nosso tempo. Hoje, li uma entrevista dele, publicada na edição de janeiro da Revista Cult. Na verdade, trata-se de uma edição especial com as mais celebradas e relevantes entrevistas realizadas pela revista. Há nomes como José Saramago, Patativa do Assaré, Lars Von Trier, Marilena Chauí, Lévi-Strauss, Zygmunt Bauman, Chomsky, entre outros.

Uma das perguntas feitas pela jornalista ao grande filósofo me chamou a atenção pelo fato de ser uma daquelas perguntas que são realizadas com o objetivo claro de gerar polêmicas; levantar a poeira dos fatos a fim de que, no outro dia, a manchete venha ao mundo com letras garrafais: "Famoso filósofo fala isso e isso do político tal". É uma faceta pobre e de um malcaratismo infame de certo tipo de jornalismo. E isso me faz lembrar uma afirmação de Chesterton: "o jornalismo é hoje gerido como qualquer outro negócio". 

O sensacional nisso tudo foi a resposta de Zizek, demonstrando a sua lucidez enciclopédica e a sua capacidade de fazer conexões brilhantes. Eis a pergunta da jornalista e a resposta de Zizek: 

Jornalista - Quando surgiram suspeitas sobre o enriquecimento do atual ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, a presidente Dilma Rousseff foi criticada por não comentar o assunto. Como podemos ler essa manifestação da negação?

Zizek - Há situações em que a única atitude é não dar opinião. Não conheço esse caso específico. Se dar uma opinião é aceitar toda maneira como problema é colocado, o melhor é não dar opinião. Não tenho nada contra a punição. Mas a corrupção individual não me interessa tanto como a questão geral, por exemplo: "Como foi possível que tal pessoa fosse corrupta?" Gosto das variações daquela frase brechtiana: " O que é um roubo a banco comparado com a fundação de um banco?" A mídia burguesa gosta desse tipo de escândalo porque reafirma o sistema.

terça-feira, janeiro 21, 2014

"Ninfomaníaca, Volume I" - de Trier - ainda penso...

Na sexta-feira, dia 10 de janeiro, quando fiquei sabendo da estreia do mais novo filme de Lars Von Trier - Ninfomaníaca  - Volume I (2013) - fiquei com uma vontade imensa de ir ao cinema. Infelizmente, não pude ir naquele dia, pois chegara de Pirenópolis-GO e estava arrumando as malas para partir, no outro dia, para o Nordeste. Cheguei de Pernambuco no domingo, dia 19, e fomentei para o outro dia a possibilidade de ir ver o filme. E assim fiz numa sofreguidão incrível.

Tratava-se de um filme de Trier. O diretor dinamarquês é daqueles sujeitos talentosos e sabem vender bem a imagem que possui. Megalomaníaco em excesso, Trier já foi responsável por afirmações que, no final, sabemos, resulta em ganhos mercadológicos. Em 2009, por exemplo, no Festival de Cannes, afirmou ser o melhor diretor do mundo. E, talvez, até o seja! Estamos em uma época em que o cinema anda em um marasmo terrível com aquelas porcarias vindas de Hollywood.

Trier é um sujeito que sabe usar explorar bem isso. Tem sido assim com seus últimos dois filmes - O Anticristo (2009) e Melancolia (2011). O simples fato de ser um filme de Trier já desperta a curiosidade e aí temos a tese confirmada. Não sabemos ao certo se Trier é um artista erguido pelas qualidades geniais ou pelo mero marketing. Suas pretensões são, quiçá, de deixar o seu nome na história como um Bergman ou Tarkovsky. Mas, claro, trata-se de especulação. 

Após ter visto Ninfomaníaca, ainda continuo pensando que sua grande obra é Dogville (2003), cuja análise sobre a natureza humana e beleza estética estão longe de serem superadas por qualquer filme lançado neste século XXI. Em Ninfomaníaca, o diretor busca criar uma tese moral e usa como ingrediente o sexo, assim como alguém usa açúcar para atrair formigas. Falar sobre sexo na sociedade judaico-cristã ocidental é gerar dois sentimentos, no mínimo: (1) ou de interesse voyeurista; (2) condenação afetada pelo julgamento moralista.

Trier é sabedor dessa estratégia e busca com isso gerar estupefação na audiência. Percebi isso enquanto via o filme. Pelos menos três casais saíram da sala do cinema. Quero crer que se trate de uma fenômeno isolado. Todavia, analisando os recursos cinematográficos utilizados pelo diretor, notei que em dados momentos as cenas vão gerando uma "agonia", um "enjoo" filosófico. É como se ele tivesse por intenção provocar o espectador; mexer com suas veleidades morais; afrontá-lo em suas convenções de burguês-cristão.

Ninfomaníca - Volume I, pelo menos para mim, não causou impacto profundo como causou o já aludido Dogville ou Dançando no Escuro (2000), ambos de grande beleza plástica. O que Trier buscou insinuar com a Ninfomaníaca? O sexo é mau? Buscou criar sofisticação com um tema-tabu para a sociedade ocidental e com isso aumentar a audiência para a sua obra? Quis justificar seus próprios problemas pessoais? O filme confirma a tese de que Trier é alguém com ideias muito bem definidas do ponto de vista das especulações.

Penso que Ninfomaníca, desde 2000, tenha sido o filme mais fraco de Trier. A tentativa de fazer um estudo (psicanalítico? moralista? metafísico?) sobre a vida da personagem Joe, vivida por Charlotte Gainsbourg (sempre presente nos filmes do diretor) e a estreante Stacy Martin (que faz Joe ainda jovem), não se mostrou convicente. Percebi algo cuja finalidade é uma tentativa de pirotecnia com um tema sempre polêmico quando vem à baila - sexo. Outro fato é a tentativa de associar a "catedral numérica" na tentativa de encontrar a perfeição de Deus da música de Bach, a fatos relacionados com a vida da personagem. Isso é corriqueiro em Trier.

Talvez, aquilo que ainda não foi revelado em sua efetividade fique claro na segunda parte do filme, já que a obra foi separada em duas partes. Originalmente possui mais de cinco horas, mas essa extensão será exibida somente nas salas de festivais.

Tratam-se de impressões pessoais e aqui estão as minhas: rápidas e descuidadas!

quarta-feira, março 28, 2012

O dogmatismo de Dogville

Como sou obcecado por esse filme de Lars Von Trier, senti necessidade de postar esta bela resenha:

Por Alexandre Busko Valim

Um dos primeiros signatários do manifesto denominado “Dogma 95” surgido em Copenhague em 1995, foi Lars Von Trier. O manifesto procurava contrariar algumas tendências do “cinema comercial” e recuperar um cinema que consideravam estar morto. O Dogma 95 opunha-se ao conceito de autor, de cinema individual e efeitos especiais. Segundo tal manifesto “A tarefa ‘suprema’ dos realizadores decadentes é enganar a audiência. É disso que estão tão orgulhosos? Foi isso que ‘100 anos’ nos deram? Ilusões a partir das quais as emoções podem ser comunicadas? (…) Uma ilusão da dor e uma ilusão do amor”. Se observarmos as regras do “voto de castidade”[1] contido no manifesto assinado por Von Trier, veremos que Dogville não pode ser considerado como uma produção tardia do Dogma 95. No entanto, o radicalismo formal e de conteúdo em Dogville lembra, ao menos, as ousadas experiências feitas pelo movimento dinamarquês.
Dogville é uma pequena cidade, com pouco mais de uma dezena de residentes, situada em algum lugar entre as montanhas do meio-oeste estadunidense. A história se passa durante a Grande Recessão Americana na década de 1930 e gira em torno de Grace (Nicole Kidman), uma jovem que, fugindo de perigosos gangsteres, acaba encontrando refúgio em Dogville. Encantado com a moça, o introspectivo Tom (Paul Bettany) propõe que a cidade ofereça abrigo a Grace que, em troca, faria pequenos serviços para seus moradores. Aos poucos, porém, os aparentemente amáveis habitantes de Dogville, ao descobrirem que ela está sendo procurada pela polícia, vão exibindo um lado sombrio e passam a explorar a garota, a impedindo de abandonar o lugar.
 

Von Trier criou um espaço cinematográfico simples e despojado incorporando elementos teatrais e literários; utilizando vários elementos do teatro de Bertolt Brecht. Minimalista, o diretor utilizou alguns objetos de cena mas nenhum cenário; apenas linhas pintadas no chão demarcando duas ou três ruas e algumas casas. O cenário invisível (sem paredes, janelas ou portas) permite que o espectador veja os coadjuvantes em seus afazeres longe do foco principal da ação. Além de servir como metáfora do filme, não desviando a atenção do espectador para nada além da narrativa, o artifício ressalta a dramaticidade através da encenação. Desse modo, Von Trier consegue estender a profundidade de campo e sublinhar as conseqüências de cada ação individual em relação à comunidade como, por exemplo, nas seqüências em que Grace é estuprada.
Ao abdicar dos cenários e dos adereços, o diretor procurou valorizar o âmago de cada personagem para que o espectador, despojado do “supérfluo” e do “superficial”, pudesse olhar apenas para o que verdadeiramente interessa em seu filme: a desumanidade que “emana” da humanidade.
Embora o filme seja composto por um prólogo, que apresenta os personagens, e nove capítulos, sua argumentação pode ser divida em três partes: 1 – Grace é aceita na cidade ao se tornar útil a cada um dos moradores – oferecendo sua companhia a um homem cego que não admite a cegueira (Ben Gazzara), colhendo maçãs para um sitiante (Stellan Skaarsgard) ou cuidando do pomar de Ma Ginger (Lauren Bacall). 2 – Quando a polícia e os gangsteres intensificam a procura por Grace e os moradores tornam-se cruéis. 3 – O desfecho da trama, com uma mudança de atitude de Grace.
Dentre as leituras possíveis de Dogville, a que trata o filme como uma parábola moral me parece ser a mais interessante. Nessa perspectiva, Dogville é uma “novela exemplar” sobre o comportamento humano, a vida em comunidade e a tensão que se estabelece entre a escolha individual e a norma coletiva. Na segunda parte do filme, de maneira completamente oposta à primeira impressão que Grace tem quando conhece os residentes da pequena cidade, os moradores revelam a sua vilania, representada através de pecados da natureza humana como: a vaidade (Chloe Sevigny), o orgulho (Ben Gazarra), a ira (Patrícia Clarkson), a luxúria (Jean-Marc Barr), a avareza (Lauren Bacall) e a inveja (Stellan Skarsgard). Desse modo, por trás do gesto de tolerância e compreensão coletiva, só haveria torpes interesses individuais.
Em algumas seqüências existem motivos que estão relacionados a uma crítica do diretor à sociedade estadunidense como, por exemplo, no escritor pragmático que tenta transformar o vilarejo em um laboratório para testar suas teorias moralistas e obter material para um “grande livro”; o hábito de discutir as questões da comunidade em assembléias paroquiais – uma atividade coletiva, mas que no filme é uma máscara que esconde um individualismo conservador e possessivo, além do ódio ao forasteiro; quando Grace ensina o estoicismo aos filhos de Vera (Patricia Clarkson) lhes mostrando como suportar a pobreza e as frustrações sem revoltas. Entretanto, apesar destes pontos, talvez o filme seja mais uma crítica à sociedade de classes do que à sociedade estadunidense.

De maneira bastante moralista o filme afirma repetidamente, e de forma agressiva, que todos somos responsáveis pelos nossos atos, e se temos problemas é porque não fazemos o suficiente para resolvê-los. Assim, nossa ignorância e ausência de um verdadeiro interesse pelo coletivo, ilustrado em várias passagens, é a alavanca que causa dor e sofrimento a nós mesmos; como, por exemplo, na seqüência em que um morador é reprimido verbalmente pelos outros dentro da igreja, ao lembrar que eles nunca se ajudam.
Após oito kafkianas e angustiantes partes, Grace[2] se encontra com o pai gangster (James Caan) dentro do carro e iniciam uma conversa sobre o destino de Dogville. O gangster, na perspectiva que apontamos anteriormente, é um Deus severo e vingativo assim como no Antigo Testamento. Nesse momento, ela e o pai dialogam sobre a soberbia: Ela quer o perdão para os habitantes da cidade, como se dissesse “eles não sabem o que fazem”. Deus a acusa de soberbia por fazer a concessão de perdoar quem lhe é inferior e lhe impingiu tanto sofrimento. Grace diz que o pai é soberbo devido à sua vontade de vingança e pede poder, que lhe é concedido, para salvar Dogville. Entretanto, ao sair do carro, e ouvir Tom “o intelectual” dizer que escreveria sobre o que se passou, que aquilo seria passível de análise, ela se desilude com a humanidade e purga Dogville com o aniquilamento – houve aplausos entusiásticos na sessão em que eu o assisti.
Uma leitura possível do personagem Tom é que ele representa tão somente a parte da sociedade intelectualizada que, no filme, sempre repete as mesmas coisas, confunde os outros com seus discursos vagos; mente para dar coerência às suas teorias e tem medo de uma inserção mais incisiva nos problemas sociais; os exemplos estão presentes em várias seqüências, como por exemplo, quando ela é estuprada próximo dele. A esperança que Grace tinha na humanidade se perde quando os que realmente poderiam fazer algo, o titubeante Tom, não fazem e reafirmam sua hesitação e passividade; uma crítica ao papel dos intelectuais como operadores sociais, que reforça a opinião do diretor: a humanidade não tem salvação.
A mensagem na seqüência final, quando Grace ouve os latidos do cachorro chamado “Moisés”, é que o animal tinha um motivo para não gostar dela, afinal ela havia roubado seu osso. Ela permite que o cachorro fique vivo pois nele há algo que não havia nos habitantes de Dogville, o que era? Nesse momento, o narrador em off diz: “será que alguém terá coragem de perguntar? e se isso for feito, será que alguém terá coragem de responder?”. A resposta soa um tanto quanto óbvia e reafirma Grace como uma mártir destinada a limpar tais impurezas como um Cristo redivivo e altivo; No entanto, no encontro imaginado por Lars Von Trier ante a desumanidade de Dogville, a divina Grace, sem nenhum desejo de conceder o perdão, desencadeia o “Dia do Juízo Final”.
As quase três horas de filme terminam com fotografias tiradas nos EUA na década de 1930 e com um fundo musical de “Young Americans”, de David Bowie, reafirmando a crítica do diretor à política estadunidense. Juntamente com Dogville, foi produzido um documentário com os relatos – em forma de confessionário – dos participantes do filme, intitulado “Dogville Confessions”. Dogville será o primeiro de uma trilogia centrada nos Estados Unidos e chamada USA: The land of opportunities. O segundo filme, que começa a ser rodado em março de 2004, chama-se Manderlay – sobre a escravidão no sul dos Estados Unidos – e o terceiro Washington.
Em Dogville, Lars von Trier apresenta uma percepção pessimista da humanidade, onde impera o cinismo, a hipocrisia, a chantagem, a vingança, a mentira, e uma visão dogmática que, além de rejeitar qualquer alternativa, simplifica e naturaliza a maldade.

Ficha técnica
Dogville
Dinamarca / Suécia / França /Noruega / Holanda / Finlândia / Alemanha / Itália / Japão / Estados Unidos / Inglaterra. 2003.
Duração 177 min.
Direção: Lars Von Trier.
Roteiro: Lars Von Trier.
Distribuição: Imovision.
Elenco: Nicole Kidman – Grace; Harriet Andersson – Gloria; Lauren Bacall – Ma Ginger; Paul Bettany – Tom Edison, filho; Blair Brown – Sr. Henson; James Caan – O pai; Patricia Clarkson – Vera; Jeremy Davies – Bill Henson; Ben Gazzara – Jack McKay; Philip Baker Hall – Tom Edison, pai; John Hurt: Narrador off; Zeljko Ivanek: Ben

domingo, março 18, 2012

Sábado Movie - Trier, Wagner e a "Melancolia" do fim do mundo

Fica-me uma sensação dúbia todas as vezes que assisto a um filme de Lars Von Trier. Inicialmente, fico pensando naquela abordagem simbolicamente excessiva. Penso que se trata de exagero, de megalomania. Mas, acabo tendo que concordar que Trier é um dos grandes diretores atuais. Não pretendo fazer uma reflexão contundente sobre o último filme que vi ontem (Melancolia, de 2011) - até por que me falta paciência e cabedal técnico para isso. Mas, ao ver os filmes de Trier fico refletindo que, no diretor dinamarquês, a superfície não é "aquilo" que ele quer que pensemos, que nos incomodemos.

O mar de Trier é vasto, imenso. Olhamos para a superfície e vemos o aparente. É no fundo, no símbolo, que está a sua reflexão mais refinada. Observando os seus dois últimos filmes - O Anticristo e Melancolia - vemos que este é mais simples do que aquele. O primeiro é um mergulho nos símbolos. É tão estereotipado que chega a irritar. Trier já criou uma marca - suas obras são reflexões duras, pungentes e de dores lancinantes. Em O Anticristo a fotografia vai do etéreo-poético da cena inicial, ao inferno telúrico da floresta. Da cena de amor embaixo da água, no qual vemos um pênis penetrar uma vagina como se aquilo fosse poesia da natureza, à agonia de um bloco de concreto amarrado à perna do personagem. Do abraço dos corpos abandonados ao prazer, à dor de perder o filho. Ou seja, o filme é uma tentativa de nos fazer silenciar. De ser convincente sob o ponto de vista psicanalítico. Trier quer nos atacar em todo tempo. O grande problema é que Trier ao fazer isso, não o faz com a naturalidade de um Bergman ou de um Tarkovski, cineastas cujas obras o dinamarquês se inspira.

Em Melancolia, uma obra de ficção científica, mas com requintes profundos de agonia, dor, depressão; e o cético e estóico sobrepondo-se à inocência e ao otimismo que, no fim, não nos leva a lugar nenhum, pois a vida na terra não vale a pena. Tese dura e cortante de Trier. Como aquele tese anti-humana de Dogville. Seguindo os pressupostos do Dogma 95, Trier não insere trilha sonora em Melancolia. A única sonoridade que surge é a Abertura da ópera Tristão e Isolda, uma das peças mais viscerais da história da música. Wagner torce a possibiliadade de fazer uma obra musical. Nunca vi o início de uma obra falar tão cética, negativa e tragicamente quanto aquela de Wagner. Melancolia insere a obra de Wagner, como se a obra do compositor alemão fosse uma leitmotiv (grande ironia de Trier), que nos leva a repisar a dor antes já sugerida na abertura do filme. O início do filme já nos sugere o fim. O planeta Melancolia colidirá com a Terra. Não restará nada.

Ninguém sentirá falta desse planeta insignificante da Via-Láctea. A vida na terra é um equívoco. Não existe saída. Estamos abandonados em um universo frio. Para que não sucumbamos, criamos linguagens, símbolos, explicações mirabolantes. Casamo-nos. Viajamos. Temos filhos. Acreditamos que deixaremos um mundo mais justo e digno para as próximas gerações. Acreditamos nos imperativos categóricos. Mas não passamos de um planeta cuja grandeza é o nosso próprio desvalor. No fundo, a tese que sobra é que as leis universais não cedem às nossas poesias e explicações religiosas. Nem mesmo a ciência é capaz de explicar e trazer otimismo, estabilidade e segurança às nossas consciências. O otimismo da ciência sucumbe ante ao poder enorme das forças incontroláveis. Nossos saberes são anêmicos e não fazem cócegas no grande, no imponderável.

O final do filme é de uma beleza extraordinária. O planeta Melancolia, cresce, agiganta-se, aproxima-se da Terra, as personagens Claire (Charlotte Gainsbourg), Justine (Kirsten Dunst) e Leo (Cameron Spurr) amparam-se embaixo de uma construção de gravetos. Seria a "caverna mágica", uma tentativa de construir um síbolo contra o caos, ou seja, contra a catástrofe apocalíptica iminente? O fato é que, por mais que enxerguemos exageros em Trier, ao final, sempre aquiescemos que suas produções nos tiram do lugar comum.


segunda-feira, janeiro 23, 2012

Dogville, uma obra magnífica

Fiquei com uma sensação de espanto após ter terminado de assistir ao filme Dogville de Lars von Trier. Tive que fazer uma concessão - Trier é "o cara"! Fiquei afrontado com o Anticristo. Julguei que o diretor dinarmarquês havia desferido golpes demasiados no juízo do espectador. Havia feito um filme para chocar; chamar a atenção para si; propalar que ele era/é "o melhor" e fazia o que bem queria. Mas após assistir a Dançando no Escuro e a Dogville, percebi uma dimensão religiosa nos filmes de Trier; aquiesci que Trier é muito bom. Talvez lhe falte apenas um pouco de humildade.

Em Dançando no Escuro, filme de 2000, protagonizado pela islandesa Björk, Trier consegue produzir uma das obras mais belas dos últimos tempos. Um musical repleto de uma linguagem sensível, terna, angélica. Selma, a personagem de Björk, é um anjo encarnado. Sua bondade é tão extrema que nos atinge. Deixa-nos enraivecidos. Trier consegue transferir emoções fortes, instigando o espectador a sentir-se dentro do filme. Sofremos com a personagem. Reunimos argumentos internos para afirmar: "Não faça isso, Selma! Não é necessário se entregar dessa forma. Seja autêntica!". Mas a obra caminha para outro rumo. O final é surpreendente.

Já em Dogville, Trier propõe uma tese anti-humana. Seu dogmatismo nos deixa de queixo caído, exemplificando em mais um caso a sua religiosidade. A obra chega a ser quase uma metáfora bíblica da história de Sodoma e Gomorra. Segundo o livro de Gênesis, estas duas cidades foram alvo da ira divina por causa da maldade dos seus moradores. Em Dogville, Grace (Nicole Kidman) chega à cidade de Dogville e pede abrigo. Ela chegara à cidade porque estava sendo perseguida por gângsteres. Os moradores da estranha cidade reúnem-se em conselho e decidem deixá-la entre eles. Talvez aqui o diretor queira fazer uma crítica contundente à ideia de democracia. O nome Grace ("graça" em português) é outro elemento que nos chama a atenção. Segundo os teólogos, graça é uma bondade oferecida pelas mãos divinas. Ou seja, é aquilo que se recebe sem que se mereça. A personagem Grace começa a oferecer a sua ajuda imaculada aos moradores. Não pede nada em troca. Queria apenas ser aceita pelos cidadãos de Dogville. Eles acham por bem remunerá-la pelos trabalhos.

O que nos impressiona é a fotografia do filme. Trier monta os cenários como Brecht em seu cinema político, naquilo que ficou conhecido como "o teatro do absurdo". Lembrei de Mãe Coragem, peça do dramaturgo alemão que vi há algum tempo atrás. Os planos nos dão uma experiência de totalidade teatral. Enquanto uma cena se passa no primeiro plano, vemos no transfundo, o que acontece com os demais personagens e com a cotidianidade da cidade. Desse modo, a estrutura do filme possui nove capítulos e um prólogo. Um narrador onisciente nos conta a história, como se tudo fosse uma faz de conta.

O dogmatismo da tese de Trier começa a se acentuar quando a polícia começa a fazer visitas à cidade à procura de Grace. A partir desse momento, os moradores revelam o seu lado cruel. Resolvem duplicar o trabalho e tratar Grace, "a graça", de uma maneira insensível. É repreendida por muitos daqueles que outrora a tratavam bem. Passa a ser alvo da lascívia dos homens da cidade, tornando-se numa espécie de Geni da música cantada por Chico Buarque. A comunidade passa a "jogar pedra na Grace". As injustiças revelam o lado asqueroso da "cidade dos cães". O nome Dogville passa a fazer jus à cidade. O intelectual e reflexivo Thomas Edison Jr. tenta ajudá-la, mas por sua vez, suas iniciativas são patéticas e infaustas. Talvez, resida nesse sentido, uma crítica ao papel ineficiente dos intelectuais. A falta de eficácia. As teorias rebuscadas e que grassam poucos resultados na realidade efetiva. O discurso vago e desarticulado. A falta de coerência com o mundo prático.

Como uma grande obra que é, o filme permite inúmeras leituras - teológica, histórica, sociológica, filósofica. Por exemplo, para alguns críticos, Dogville é uma metáfora da sociedade americana e sua aversão ao estrangeiro. A visão estagnada para o outro. Ou seja, para aquilo que vem de fora. Outra leitura mais globalizante, seria aquela que fala da condição humana. Nesse sentido, Trier caminha na direção contrária do "bom selvagem" de Rousseau. No fundo, a obra nos passa a mensagem de que os homens são deliberadamente arrogantes, gananciosos, lascivos, egoístas e grávidos pelos próprios interesses. Segundo, o filme não há salvação para a humanidade.

Fiquei verdadeiramente impressionado com as cenas finais do filme. O pai de Grace, o gângester (que queria partilhar o seu poder com a filha), acha-a. E os diálogos são de uma visceralidade filósófico-teológica que beiram o absurdo. Ao chegar à cidade, o gângster indaga a Grace se ela deseja que a cidade seja aniquilada. Curiosamente, ninguém vê o rosto do pai, como se este fosse um poder invisível que decide o destino dos homens. A personagem de Nicole Kidman, conversa com o todo onipotente pai sobre o poder e sobre o destino da cidade. E, por final, Grace resolve solicitar ao pai que reduza a nada a cidade. O diálogo de Grace com o pai nos faz lembrar a conversa do texto bíblico entre o patriarca Abrãao e a divindade de Israel quando da destruição das cidades já mencionadas - Sodoma e Gomorra.

O próximo filme que eu verei será Melancholia (2011). Quando vemos filmes como este nos indagamos: "Será que o cinema americano terá condições de produzir algo assim?" Mas não sejamos dogmáticos!

quarta-feira, dezembro 21, 2011

Anticristo, de Lars von Trier

Na última segunda-feira, fui à locadora aqui perto de casa e loquei Anticristo de Lars von Trier. Relutei ao máximo em vê-lo. Adiei o quanto pude a tarefa de assistir à película. Não gosto de filmes de terror nem de suspense. O estresse proporcionado por aquelas cenas tensas; as surpresas que são maquinalmente feitas para chocar o telespectador para mim são cacetes; a taquicardia, ao meu modo de ver, é desnecessária. Mas o filme de Trier me assediou por dois dias. Até que na manhã de hoje, eu resolvi vê-lo em meu notebook. Quis evitar maiores dissabores. E que surpresa me esperava. Descobri que o filme não é um terror. Poderia classicá-lo como um drama com fortes doses de suspense. Mas há apenas a utilização deste último artíficio para causar os efeitos possíveis, desejados pelo diretor.

O filme proporciona uma experiência tão densa que, após tê-lo visto, tenta-se reorganizar o caos mental, a experiência dorida a qual se enfrentou. De certa forma, ainda estou tentando ordenar os vários elementos, ou seja, cada peça que constitui a obra. Trier prende o telespectador, machuca-o, fere-o com cenas de violência, de uma eroticidade acachapante, de uma uma plasticidade quase que desnecessária. Mas como disse, nada no filme é desnecessário.

A príncipio, a história está colocada entre dois espaços, conectados a um "Prólogo" e um "Epílogo", momentos da mais intensa beleza surgida nos últimos tempos no cinema. O "Prólogo" e o "Epílogo" representam os dois espaços lumisos do filme. No intervalo desses dois espaços, está o escuro, o agonizante, o desespero e a depressão (“Luto", "Dor (Caos Reina)", "Desespero (Genocídio)" e "Os Três Mendigos"). Os cinco minutos iniciais do filme é de uma beleza e pureza enlevantes. O casal, representado pelo extraordinário Willem Dafoe e pela extraordinária Charlotte Gainsbourg, está fazendo sexo no banheiro. Trier busca ser realista. Mostra a genitália dos amantes - o pênis penetrando a vagina - talvez para sugerir o natural, o primitivo, a união profunda do homem e da mulher. As cenas se sucedem em câmera lenta. Tudo em preto e branco. Uma ária de Handel (Lascia Ch’io Pianga, com interpretação da soprano norueguesa Tuva Semmingsen) embala as emoções. A água do chuveiro cai. Fora da casa onde o casal está, a névoa despenca do céu em flocos suaves, como se fosse uma farinha celestial. O pequeno filho do casal sai do berço e ver a mãe e o pai realizando o gesto amoroso. Vira as costas. Faz uma cadeira de apoio e sobe até a janela. Brinca com a neve. E despenca. A queda parece ser uma poesia. Os pais não veem a queda do filho. Uma cena do filme, mais à frente, sugere que a mãe viu o filho caindo. Mas nada no filme de Trier é demasiadamente lógico.

Do evento trágico da morte do filho, desencadea-se o sofrimento para o casal. A mãe se ver aturdida pela dor e pelo desespero. É acometida por distúrbios psicológicos. E aqui começa de fato a viagem bíblica e psicanalítica proporcionada pela obra. Os personagens não possuem nome. Estão presente no filme a força do homem (a inteligência), contra o impulso da mulher (a demência). O marido mostra-se no filme como a energia racional, capaz de pensar os processos, de organizar o caos. É quem conduz, do ponto de vista da psicanálise, o tratamento psicológico da esposa. E é curioso o fato do casal se refugiar no interior de uma cabana chamada Éden, no coração de uma floresta. Éden segundo a Bíblia significa "paraíso" ou "jardim das delícias" e foi o local criado por Deus para que nele morasse e vivesse o primeiro casal humano - Adão e Eva. É somente após a queda, acepção bíblica, que a mulher recebe o nome de Eva. Ou seja, antes da queda ela não possuía nome. Já o homem é considerado "o pai de todos os homens" - Adão, do hebraico "adamar" ou "aquele que foi tirado da terra".

Éden, no filme de Trier, é o lugar da tentativa de cura, da busca pelas lembranças prazerosas e remidoras. Mas é em meio à natureza que os medos e reações mais intempestivas da esposa se voluntarizam. Cena curiosa e instigante é aquela que a esposa escuta um choro de uma criança. Ela procura em toda parte, mas não encontra nenhum personagem para protagonizar aquele vagido. De repente, a câmeta foca a netureza. A imensidão é mostrada. É a pópria natureza que chora. Uma agonia cósmica, metafísica, se insinua. A dor, então, é uma faceta natural do cosmos. Uma frase enunciada pelo marido no início do filme parece corroborar com esta ideia: "O sofrimento não é uma doença. É uma reação saudável e natural".

Na floresta, em meio à natureza, os instintos mais tenebrosos da esposa se avivam. Ela um ser frágil, vai adquirindo uma energia animalesca, pornográfica. Sua ânsia por sexo é um retrato curioso. Numa cena, ela atinge o falo do esposo com um objeto e este, com a dor, acaba desmaiando. E o que se sucede até o final é de uma audácia incrível. Numa cena de demasiada crueza, a esposa mutila o próprio clítoris com uma tesoura e tenta matar o marido. O marido como para se libertar da pulsão de destruição da esposa, acaba por enforcá-la e matá-la. Esse ato representa a liberdade. Ele fica livre da dor, da agonia, do selvagem que habita o feminino.

No "Prólogo", após ter matado a esposa: ele caminha cambaleante. Alimenta-se de frutas silvestres. É a harmonia com a natureza. Enquanto caminha, dezenas de fêmeas vêm ao seu encontro. Sobem o monte. O que seria esse monte? O Gólgota? - lugar da crucificação de Cristo. Mas essas mulheres não possuem rosto. E de repente, a película termina e por dois segundos, num fundo escuro, aparecem os dizeres: "Dedicado a Andrei Tarkovski (1932 a 1986)”. Tarkovski, nascido na antiga Uniãpo Soviética, foi um dos maiores diretores da história.

Lars von Trier tem gerado as mais distintas reações com os seus filmes. Polemista, "arengueiro", como se diz no Nordeste do Brasil, o diretor dimarquês tem arrancado uma beleza descomunal de suas obras. Os filmes de Trier possuem o poder de nos fazer pensar por dias. É daquelas obras que encerram efeitos densos. Deixando de lado maiores polêmicas quanto às suas afirmações sobre posicionamento político ou postura pessoal (o diretor se intitulou como o melhor do mundo e, em outro momento, disse admirar Hitler), Trier é um dos nomes mais importantes da arte cinematográfica da atualidade. Incensado por uns, odiado por outros, o diretor alimenta aquele tipo de sentimento que reside em torno dos grandes artistas.