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segunda-feira, abril 28, 2025

Cruz e Sousa - impressões após uma leitura

 

“Por que estradas caminhei, monge hirto das desilusões, conhecendo os gelos e os fundamentos da Dor, dessa Dor estranha, formidável, terrível, que canta e chora Réquiem nas árvores, nos mares, nos ventos, nas tempestades, só e taciturnamente ouvindo: Esperar! Esperar! Esperar!” 

Cruz e Sousa

 Passei quase três meses lendo a biografia sobre o poeta catarinense Cruz e Sousa, escrita por Uelinton Farias Alves. O livro é sem sombras de dúvidas um dos melhores já produzidos sobre o autor simbolista. É fruto de uma pesquisa exaustiva, sóbria, profunda, crítica, honesta. Acredito que faça jus à importância do poeta. Há ainda inúmeros fatos enevoados sobre o “Dante Negro” como ficou conhecido pelo brilhantismo com que manejava a palavra.

Cruz e Sousa é um dos poetas mais marginais da história da literatura brasileira. Ao longo de sua curta existência, buscou incansavelmente o reconhecimento, que somente veio após a sua morte. Destinado a ser mais um negro em um país de escravos, Cruz e Sousa viola o determinismo histórico. Nascido em Santa Catarina, na cidade de Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis (homenagem dada ao marechal Floriano Peixoto), de pais alforriados, Cruz e Sousa conseguiu, graças a uma boa educação patrocinada pelo ex-senhor dos seus pais, o marechal Guilherme Xavier de Sousa, um lugar de honra entre os intelectuais brasileiros. O militar lutara no Paraguai. O poeta também herdou dele o sobrenome Sousa.

O garoto João estudou no Liceu Catarinense, a melhor escola da província. Recebeu esmerada educação em latim, grego e francês. Além disso, estudou com alemão Fritz Müller, um botânico e entusiasta das ideias de Charles Darwin. É possível observar o quanto essa formação foi fundamental para o poeta. Sem isso ele não teria chegado tão longe na máquina de moer gente que era a sociedade escravista do século XIX, cujos índices de analfabetismo eram altos. As escolas eram frequentadas pelos filhos das elites – barões, militares graduados, donos de terra, políticos etc. Poucos negros conseguiam um lugar ao sol.

Um fato, por exemplo, execrável ocorreu em 1883. Recomendado como promotor para o município de Laguna, foi recusado por ser negro. Esses episódios se repetiriam ao longo de sua vida. É possível que tenha se dado mesmo com a sua literatura. Em um país de negros, mulatos e miscigenados, o preconceito era uma realidade experimentada em diversos setores da sociedade. Como conceber um negro culto, capaz de dominar francês e latim em país que experimenta um apagão nas letras?

Participou de diversos periódicos. Chegou a fundar um, mas que não teve vida longeva. Foi preciso sair de sua cidade natal e viver o desterro. Migrou para o Rio de Janeiro, capital do Império e, mais tarde, da República. Procurou participar do centro convulsivo da intelectualidade Brasileira. Afinal, no Rio de Janeiro viviam Machado de Assis, um mulato reservado e que, apesar da fama e da origem, prefere o indiferente silêncio a manifestar publicamente qualquer simpatia a Cruz e Sousa, mesmo nos momentos mais críticos da vida do poeta. No Rio, vivia Olavo Bilac, que“limava” os seus versos como parnasiano que vivia em torre de marfim. Os críticos José Veríssimo, Silvio Romero e Araripe Junior. Mesmo José do Patrocínio, é-lhe indiferente.

Todavia, não estava sozinho. Nestor Vitor e Oscar Rosa são figuras fundamentais. Eles sempre estão presentes dos momentos mais complexos da vida do poeta. Até mesmo na hora da morte, os dois acorrem para que o reconhecimento devido do poeta ocorra. No Rio de Janeiro, o poeta escreve incansavelmente. Sua produção era quase que industrial. Produzia textos em prosa e poemas. Era-lhe fácil, quase que corriqueiro sentar e escrever sonetos carregados de lirismo, de individualismo, de uma musicalidade incomum. Como nos famosos versos: 

Ah! plangentes violões dormentes, mornos,

Soluços ao luar, choros ao vento…

Tristes perfis, os mais vagos contornos,

Bocas murmurejantes de lamento.


Noites de além, remotas, que eu recordo,

Noites da solidão, noites remotas

Que nos azuis da Fantasia bordo,

Vou constelando de visões ignotas.


Sutis palpitações à luz da lua,

Anseio dos momentos mais saudosos,

Quando lá choram na deserta rua

As cordas vivas dos violões chorosos.


Quando os sons dos violões vão soluçando,

Quando os sons dos violões nas cordas gemem,

E vão dilacerando e deliciando,

Rasgando as almas que nas sombras tremem.



Harmonias que pungem, que laceram,

Dedos nervosos e ágeis que percorrem

Cordas e um mundo de dolências geram

Gemidos, prantos, que no espaço morrem…


E sons soturnos, suspiradas mágoas,

Mágoas amargas e melancolias,

No sussurro monótono das águas,

Noturnamente, entre ramagens frias.


Vozes veladas, veludosas vozes,

Volúpias dos violões, vozes veladas,

Vagam nos velhos vórtices velozes

Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.


Tudo nas cordas dos violões ecoa

E vibra e se contorce no ar, convulso…

Tudo na noite, tudo clama e voa

Sob a febril agitação de um pulso.


Que esses violões nevoentos e tristonhos

São ilhas de degredo atroz, funéreo,

Para onde vão, fatigadas do sonho,

Almas que se abismaram no mistério. […] 
 
Era notável a capacidade do poeta para criar sinestesias. Ele consegue isso por meio de aliterações, recurso que costumava usar em seus poemas. A aliteração é um recurso fônico que intensifica a musicalidade.

Mais tarde, o antropólogo francês Roger Bastide diria que Cruz e Sousa foi um dos grandes simbolistas do mundo. E a grande questão é: como Cruz e Sousa conseguiu tão grande proeza? Como já afirmado, o poeta só conseguiu o reconhecimento após a sua morte, aos 36 anos de idade. Tuberculoso, em um gesto de desespero procurou as serras de Minas Gerais, junto com a sua esposa Gavita, grávida de quatro meses, a fim de procurar uma melhora para o seu estado deplorável de saúda. Hospedou-se em uma pensão, mas veio a óbito. Foi transladado em um vagão de trem que transportava animais. No cubículo fechado, sem janelas, o chão conspurcado pelas ejeções dos animais, o corpo violado pela tuberculose pesava cerca de 40 quilos. Apenas coberto por tecido ordinário, o trem descia tal qual uma serpente trazendo os restos mortais de um dos mais geniais poetas da língua portuguesa. Recebeu a alcunha de Dante Negro, de Cisne Negro, Diamante Negro, Magoado Eleito, Tedioso e Torturado Sonhador, Grandiosos e Imaculado Cenobita, Arcanjo Rebelado. 
O livro de Uelinton Farias Alves

Conhecendo a sua vida, entendemos a afirmação de Bastide. A afirmação de que Cruz e Sousa fazia referências à cor branca por ser preto é uma grande aberração. Uso da palavra para o poeta seguia um método. Como diz Alfredo Bosi, o poeta era esquemático. Costumava usar “substantivos abstratos” e “processos sinestésicos” e o encadeamento de construções que mais o aproximava dos parnasianos. Cruz e Sousa não é parnasiano no conteúdo, mas o é na forma. Seus poemas são rigorosos. Se fazia poemas rigorosos e quase parnasianos, por que o poeta não logrou sucesso em vida? Responder essa pergunta não é tão fácil, mas existem algumas pistas:

(1)    A questão racial. Cruz e Sousa era um homem negro. É possível que esse aspecto tenha chamado atenção e a barreira da cor tenha sido um elemento que criou um inevitável impedimento.

(2)    O fato de o poeta não ser do Rio de Janeiro. Era um tipo de forasteiro. O julgamento talvez surgisse em forma de pergunta: “Quem é esse negro que veio de longe?” “Chegou ao nosso meio querendo causar”. A intelectualidade que domina também é formada por panelinhas.

(3)    O fato de os poemas simbolistas não encontrarem lugar em um meio eivado de parnasianismo. À época de Cruz e Sousa, além do parnasianismo na poesia, o realismo e o naturalismo eram concepções estéticas que estavam em voga. O simbolismo era um tipo marginal de expressão estética. Enquanto na França havia capturado os intelectuais, no Brasil, ele ficou como elemento estético periférico. Além disso, os intelectuais brasileiros flertavam filosoficamente com o positivismo, rechaçado pelos simbolistas. O simbolismo procurava enfatizar o irracionalismo, a morte, o misticismo, a religiosidade, o satanismo, a sensualidade, a subjetividade acentuada (individualismo), a musicalidade, as sinestesias. Enquanto o naturalismo e o realismo fincavam o pé no mundo real, o simbolismo era transcendentalista à procura da forma, da intuição, do vago, do impreciso. Apalpava-se o vazio, um vazio repleto de elementos intangíveis, impermeáveis. Cruz e Sousa manifesta-se assim em seus famosos versos:

"Ó Formas alvas, brancas, Formas claras

De luares, de neves, de neblinas!...

Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...

Incensos dos turíbulos das aras..."

Ou seja, filosófica e esteticamente o poeta não atendia aos requisitos para entrar no clube dos intelectuais cariocas. É preterido quando da formação da Academia Brasileira de Letras. Machado, o grande idealizador da confraria, imitando a Academia Francesa, não realiza nenhuma distinção ao poeta. Desse modo, a vida do poeta foi marcada pela preterição. Ao longo do tempo, sua obra ganhou visibilidade graças aos esforços dos amigos.

Após sua morte, houve uma espécie de conversão de alguns intelectuais à sua obra, embora outros permanecessem indiferentes e solenes, como é o caso de Machado de Assis. Sua alma angustiada e solitária alçava voos imaculados à procura da indizível forma. Em um mundo maculado pela indiferença, pela injustiça, pelo orgulho, sua rebelião se fazia por meio de seus versos trabalhados com disciplina e paixão.

sexta-feira, janeiro 10, 2025

"Iaiá Garcia", de Machado de Assis.

 


                “O que ele tinha diante de si eram os campos infinitos da esperança”.

 

“Iaiá Garcia” é o quarto romance escrito por Machado de Assis. Pertence à fase conhecida como romântica. Ao longo desse período, além de “Iaiá Garcia”, Machado havia escrito “Ressurreição”, “A mão e luva” e “Helena”. O escritor conciliava a produção romanesca e a poética.  “Crisálidas” e “Americanas” são dois dos seus livros de poesia desse período. Além disso, o escritor buscava administrar uma vida bastante agitada, de muito trabalho; e enfrentava sensíveis problemas de saúde, que se complicavam por causa dos efeitos colaterais das incipientes medicações do século XIX. No final dos anos 70 daquele século, Machado completaria quarenta anos. Entraria na sua fase madura, ou seja, quando as grandes obras começariam a ser escritas.

Dos quatro romances iniciais do autor, “Iaiá Garcia”, certamente, é aquele em que já se percebe o grande escritor que surgiria a partir de 1881, quando da publicação de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. O romance “Iaiá Garcia” foi escrito ao longo do ano de 1877; todavia, só foi publicado no início de 1878, na Revista Cruzeiro para a qual Machado passou a escrever. Ou seja, trata-se de um romance folhetinesco.

Sua recepção foi morna. O livro é bem construído, há boas análises psicológicas; há aquele rigor machadiano. Sua arquitetura é boa. Pode-se dizer que é perfeita. Machado havia dominado a escrita texto romanesco. Já havia ali cintilações do Machado maduro. O triângulo amoroso entre Iaiá, Jorge e Estela possui aquelas reviravoltas típicas do romantismo. Os textos eram publicados em porções – capítulo a capítulo. Tinham uma ampla constelação de leitores, principalmente do sexo feminino. As moças casadoiras ficavam enlevadas com as reviravoltas; com as intrigas oriundas dos conflitos entre as personagens. Os conflitos eram amorosos. Sobressaíam os vícios escondidos nas aparências sociais – ciúmes, ganância, interesse, orgulho etc. 

No Machado da segunda fase – também conhecida como fase realista -, nota-se um aprofundamento da caracterização das personagens. E como diz Daniel Piza, isso “significa maior rede de implicações aos assuntos, tanto sociais e econômicos como morais e filosóficas”.  Três anos pós a publicação de “Iaiá Garcia”, o escritor carioca publicaria o livro que seria o marco divisor da literatura brasileira – “Memórias Póstumas”. O livro tira o autor dos esquematismos e lança no terreno das grandes questões humanas. Machado passa a ser o senhor das sutis ironias. Cada um dos seus textos que saem após o lançamento de “Iaiá”, funcionam como estudos sobre a condição do psicológica e filosófica do ser humano, bem como assume uma postura crítica e sardônica às questões nacionais. Brás Cubas é o retrato da burguesia nacional. 

Machado aos 68 anos de idade

No livro de 1878, observa-se o quanto Machado estava preso aos esquemas edulcorados. Nesse mesmo ano, em Portugal, Eça de Queirós publicou o demolidor O primo Basílio, uma obra cuja contundência fez a burguesia urbana olhar para os próprios pecados, para as próprias feiuras. O realismo ganhava forma. Não seria possível, após três anos repetir a mesma fórmula dos quatro primeiros romances. As várias contribuições em periódicos com contos, crônicas, resenhas e outras publicações, funcionaram como exercício para aquilo que ele seria depois.

“Iaiá Garcia” é um bom livro. Os personagens são previsíveis. Há aquele movimento típico das moças sonhadoras com o casamento, que funciona como mecanismo de ascensão social. Há o indivíduo macho (o herói), que enfrenta vicissitudes e agruras impensáveis até ficar com a moça que se mostra como uma estrela distante e inatingível; e após as voltas que o mundo dá, ela acaba por encontrar aquele que a perseguia. Trata-se de movimento circular que acaba por criar certa indisposição à medida que se vai lendo.

Apesar de ser Machado de Assis, sabe-se aonde aquilo vai chegar. Na fase madura, o escritor passou a conduzir os textos romanescos de outra forma. Quase sempre, a condução leva a caminhos inopinados. O herói não possui mais o esquematismo previsível. O que passa a vigorar é o devir, pois, afinal, a vida é feita de movimentos incertos e contraditórios. Essa é a mais fina ironia; e Machado capturou como ninguém essa máxima do universo.

quarta-feira, novembro 20, 2024

Uma crônica de Machado de Assis que cai muito bem neste dia

O texto a seguir é parte de uma crônica de Machado de Assis, publicada, em 19 de maio de 1888. A Abolição se dera 6 dias antes daquele mesmo mês. No texto, Machado desfere golpes de fina ironia. O texto é repleto de camadas que escancara como se estrutura a sociabilidade brasileira. Reflete sobre a sociedade de relações verticalizadas e sem a devida consideração humana a respeito de quem é o outro. Serve como alegoria para explicar como "os de cima" - para usar uma expressão de Florestan Fernandes - tratam aqueles que estão embaixo. Apesar de haver uma consolidação de um "Dia da Consciência Negra", ainda há muito para se caminhar, muito para se refletir, muito a se fazer.

 Segue o texto:


"Abolição

 
[...]
No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
– Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que…
– Oh! meu senhô! fico.
– …Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho dêste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos…
– Artura não qué dizê nada, não, senhô…
– Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
– Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.
Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Êle continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe bêsta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas tôdas que êle recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.
O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a tôda a gente que dêle teve notícia [...]."

segunda-feira, setembro 30, 2024

Uma conversa em um grupo do WhatsApp.

 


Participo de um grupo de WhatsApp com dois outros colegas de trabalho. Debatemos questões políticas quase todos os dias. Um dos membros deles possui posições assumidamente antipetistas e antilulistas. Acabei respondendo algo assim. 

Essa notícia veiculada pelo Metrópoles é daquelas que fermentam a indignação da classe média contra o Lula. Assolado pela raiva, pela indignação, pela incapacidade de reconhecer ou assumir qualquer medida positiva do governo, resta ao indivíduo iracundo de classe média, mover turbilhões de indignação contra o presidente perdulário.

Isso me faz lembrar aquela passagem do livro “Dom Casmurro”, do Machado de Assis. Diz o narrador que, após fazer uma pergunta para um verme gordo que encontrou em um texto, obteve a seguinte resposta:

“- Meu senhor - respondeu-me um longo verme gordo - nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos”.

Esse texto é uma metáfora da disposição que existe contra o Lula. Não se tem absolutamente noção sobre os fundamentos do mundo real. O que existe é apenas a raiva, a indisposição contra o governo. Apenas se odeia. Caso esse tipo de notícia ocorresse com outro nome, não haveria problemas. O problema é que é o Lula. Um presidente nordestino, operário, sindicalista, de origem popular. Sua imagem está sempre associada ao “não pode”, ao “não deveria”. Ou será que, em um Palácio Presidencial, deveriam apenas servir costela ou acém; ou apenas moela de frango? Ou que não há cozinheiros versados nas magias da culinária refinada em uma cozinha de Palácio Presidencial?

São apenas sensaborias argumentativas o que nos sugere essa notícia. Serve apenas para gerar ódio seletivo. Pensa o indignado indivíduo de classe média, assentado sobre a raiva, que se coisas como essas forem abolidas, o mundo será um local mais justo e, como diz o livro de Gênesis, “o espírito de deus vai pairar sobre a face do abismo”.

Meu caro #####, sei que você discorda de tudo que escrevi. Mas é o que penso. Pode dizer que incorri em um “ad hominem”.

terça-feira, julho 30, 2024

"Esaú e Jacó", de Machado de Assis - algumas observações


“Paulo gostava mais de conversa que de piano; Flora conversava. Pedro ia mais com piano que com a conversa, Flora tocava. Ou então fazia ambas as coisas, e tocava falando, soltava a rédea aos dedos e à língua”.

Capítulo XXXV

“Todos os contrastes estão no homem”.

Capítulo XXXV

Terminada a releitura de “Esaú e Jacó”, restou a impressão de que essa é uma das obras que melhor desvelam o seu autor. Revela um escritor maduro, que oscila entre a sátira, o niilismo e um estoicismo recolhido, personificado na pessoa do personagem do Conselheiro Aires. Vale lembrar que o ataráxico Aires seria o personagem principal que levaria o nome do último romance escrito por Machado – “Memorial de Aires”. No de caso de “Esaú e Jacó”, o escrito emprega o pessimismo e o faz por meio daquilo que ele sabia fazer melhor – a ironia fina, escorregadia, urdida em uma arquitetura textual primorosa. 

O livro foi publicado no ano de 1904, mesmo ano em que faleceu a sua inseparável companheira de 35 anos – Carolina Xavier. Machado contava com 65 anos de idade. Era um sujeito experimentado e habilidoso. Havia acumulado uma carreira de muito trabalho e consequente sucesso. Até aquele momento, escrevera obras que estão colocadas no panteão definitivo das produções literárias nacionais – “Memórias Póstumas”, “Dom Casmurro”, “Quincas Borba”, além de inauditos contos como “O alienista”, “A igreja do diabo”, “O espelho” e “A teoria do medalhão” entre outros. O seu realismo havia se escancarado, como lhe era comum; todavia, pode-se notar um ceticismo medido e mais acentuado em “Esaú e Jacó”.

As camadas de ironia do texto construído em torno dos antípodas Paulo e Pedro, encobrem, numa camada profunda, o entendimento de que a realidade pode ser diversa; que a história dos homens pode se alternar; que o elemento preponderante da realidade é a impermanência. Na parte final da obra, o narrador afirma: “Enfim, a morte chega, por muito que se demore, e arranca a pessoa ao pranto ou ao silêncio”. Em um dos capítulos da obra, naquelas incursões típicas do narrador que dialoga com o leitor (tão próprias de Machado de Assis), encontramos: “Não envelheças, amiga minha, por mais que os anos te convidem a deixar a primavera; quando muito aceita o estio”. Verifica-se que há uma acentuada preocupação com a questão do “tempo”. Ele aparece como motivo de reflexões ou envolve a vida dos personagens, traduzindo em acontecimentos em que se nota o quanto as personagens são atravessadas por esses efeitos. Ninguém pode se conduzir pela existência, simplesmente, ignorando-o; ou desconsiderando os seus sinais.

Machado de Assis

Fato curioso reside – de início – no nome da obra. Esaú e Jacó são os nomes dos dois filhos de Isaque – e este, filho de Abraão, de acordo com o texto bíblico. Os dois irmãos são criados de forma distinta. Esaú é caçador e tem a predileção do pai; Jacó, por sua vez, é benquisto pela sua mãe Rebeca. Os dois são concebidos em disputa. Esaú nasce primeiro, mas Jacó segura-lhe o calcanhar. O nome Jacó deriva de uma expressão hebraica que significa “ele agarra o calcanhar” e serve para designar uma pessoa de comportamento enganoso. Esaú é o mais velho e, portanto, todas as prerrogativas jurídicas da herança caíam sobre ele.  Jacó e sua mãe conseguiram usar um estratagema para fazer com que o irmão mais velho trocasse o direito de primogenitura por um prato de lentilha. Mais tarde, todos os efeitos da primogenitura recaem no colo de Jacó e ele passa a ser chamado de Israel. Esse confronto manifesto é explicado por meio de uma profecia dirigida a Rebeca pelo próprio Javé: “O mais velho servirá ao mais novo”. Os dois fundariam dois povos poderosos, mas essas nações seriam inimigas.

Apesar desse pano de fundo, os dois personagens de “Esaú e Jacó” não são chamados dessa forma. Um se chama Paulo e, outro, Pedro. Aquele era um entusiasta republicano e este um calejado monarquista. São completamente distintos em várias questões. Parecem existir para se confrontarem. Paulo e Pedro também são nomes extraídos Bíblia. Todavia, são nomes ligados à fundação do cristianismo. Enquanto Pedro estava ligado à Igreja de Jerusalém, Paulo é o apóstolo onipresente que estrutura um discurso e o leva aos confins do Império Romano. Ele é o pregador da diáspora, seu “ethos” é o da integração, do universalismo, da difusão plural, pois pregava aos romanos, gregos e demais povos da Antiguidade. Dominava a língua grega, a língua da cultura sistematizada da época. Além disso, é possível que soubesse o latim, a língua do Império e responsável por organizar as questões políticas e militares. Pedro, por sua vez, estava circunscrito ao ambiente judaico de Jerusalém e dominava, possivelmente, o aramaico. Nota-se, assim, que Machado genialmente une Antigo e Velho Testamento para construir o enredo da obra. Estica-se um fio que se apropria de elementos judaicos e elementos cristãos.

O Rio de Janeiro, em 1889, ano da Proclamação da República
 

Outro importante aspecto diz respeito ao momento histórico que a obra retrata. Nesse sentido, é um importante texto para estabelecer conexões com a fundação da chamada República Velha. Lima Barreto também a retrataria, mais tarde, em “O triste fim de Policarpo Quaresma”. Pedro torna-se médico; forma-se no Rio de Janeiro, sede da capital do Império. Paulo, torna-se advogado; estuda em São Paulo, um dos centros irradiadores das ideias republicanas. Vale mencionar que em São Paulo fica a prestigiada Faculdade de Direito do Largo do São Francisco. Lá estudaram boa parte dos intelectuais que alimentaram a chama do republicanismo no final do século XIX.

A única questão que une os dois personagens é a paixão pela linda Flora, que ora se decide por um; ora se inclina para outro, sem tomar qualquer decisão. Observa-se que ela morre sem se decidir nem por um nem por outro. Em “Esaú e Jacó” o jogo muda, ganha novos contornos, pois a vida é repleta do efêmero. O ser humano também o é. Em tempos de mudanças, o que fica é a força da falta de estabilidade. Para algumas pessoas, essa característica gera inseguranças. No geral, as pessoas não lidam muito bem com a impermanência. Todavia, a realidade se constitui pela transformação, pela contradição.

A obra faz referência a alguns dos eventos que foram responsáveis pela organização política e econômica do país no século XX. Um dos principais eventos foi a Proclamação da República, arrancando o país da condição de Império, o último das Américas. Menciona-se ainda a Abolição da escravatura, um dos eventos que mudaria em definitivo a relação do capital com as forças produtivas. Além dessas questões, a mudança do Império para República deflagrou uma crise econômica denominada de Encilhamento. 

Sendo assim, observa-se que Machado se utiliza de personagens complexos para realizar uma análise das contradições existentes no ser humano, bem como refletir sobre os eventos políticos do seu tempo. Machado lança mão da ambiguidade para apontar que a vida pode ser conduzida por mares diversos. Tanto Paulo quanto Pedro são faces da mesma verdade, que é a vida. As indecisões presentes em Flora também fazem parte da existência. As paixões exacerbadas apenas fazem sofrer, pois como diz o próprio narrador “todos os contrastes estão no homem”.