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terça-feira, julho 30, 2024

"Esaú e Jacó", de Machado de Assis - algumas observações


“Paulo gostava mais de conversa que de piano; Flora conversava. Pedro ia mais com piano que com a conversa, Flora tocava. Ou então fazia ambas as coisas, e tocava falando, soltava a rédea aos dedos e à língua”.

Capítulo XXXV

“Todos os contrastes estão no homem”.

Capítulo XXXV

Terminada a releitura de “Esaú e Jacó”, restou a impressão de que essa é uma das obras que melhor desvelam o seu autor. Revela um escritor maduro, que oscila entre a sátira, o niilismo e um estoicismo recolhido, personificado na pessoa do personagem do Conselheiro Aires. Vale lembrar que o ataráxico Aires seria o personagem principal que levaria o nome do último romance escrito por Machado – “Memorial de Aires”. No de caso de “Esaú e Jacó”, o escrito emprega o pessimismo e o faz por meio daquilo que ele sabia fazer melhor – a ironia fina, escorregadia, urdida em uma arquitetura textual primorosa. 

O livro foi publicado no ano de 1904, mesmo ano em que faleceu a sua inseparável companheira de 35 anos – Carolina Xavier. Machado contava com 65 anos de idade. Era um sujeito experimentado e habilidoso. Havia acumulado uma carreira de muito trabalho e consequente sucesso. Até aquele momento, escrevera obras que estão colocadas no panteão definitivo das produções literárias nacionais – “Memórias Póstumas”, “Dom Casmurro”, “Quincas Borba”, além de inauditos contos como “O alienista”, “A igreja do diabo”, “O espelho” e “A teoria do medalhão” entre outros. O seu realismo havia se escancarado, como lhe era comum; todavia, pode-se notar um ceticismo medido e mais acentuado em “Esaú e Jacó”.

As camadas de ironia do texto construído em torno dos antípodas Paulo e Pedro, encobrem, numa camada profunda, o entendimento de que a realidade pode ser diversa; que a história dos homens pode se alternar; que o elemento preponderante da realidade é a impermanência. Na parte final da obra, o narrador afirma: “Enfim, a morte chega, por muito que se demore, e arranca a pessoa ao pranto ou ao silêncio”. Em um dos capítulos da obra, naquelas incursões típicas do narrador que dialoga com o leitor (tão próprias de Machado de Assis), encontramos: “Não envelheças, amiga minha, por mais que os anos te convidem a deixar a primavera; quando muito aceita o estio”. Verifica-se que há uma acentuada preocupação com a questão do “tempo”. Ele aparece como motivo de reflexões ou envolve a vida dos personagens, traduzindo em acontecimentos em que se nota o quanto as personagens são atravessadas por esses efeitos. Ninguém pode se conduzir pela existência, simplesmente, ignorando-o; ou desconsiderando os seus sinais.

Machado de Assis

Fato curioso reside – de início – no nome da obra. Esaú e Jacó são os nomes dos dois filhos de Isaque – e este, filho de Abraão, de acordo com o texto bíblico. Os dois irmãos são criados de forma distinta. Esaú é caçador e tem a predileção do pai; Jacó, por sua vez, é benquisto pela sua mãe Rebeca. Os dois são concebidos em disputa. Esaú nasce primeiro, mas Jacó segura-lhe o calcanhar. O nome Jacó deriva de uma expressão hebraica que significa “ele agarra o calcanhar” e serve para designar uma pessoa de comportamento enganoso. Esaú é o mais velho e, portanto, todas as prerrogativas jurídicas da herança caíam sobre ele.  Jacó e sua mãe conseguiram usar um estratagema para fazer com que o irmão mais velho trocasse o direito de primogenitura por um prato de lentilha. Mais tarde, todos os efeitos da primogenitura recaem no colo de Jacó e ele passa a ser chamado de Israel. Esse confronto manifesto é explicado por meio de uma profecia dirigida a Rebeca pelo próprio Javé: “O mais velho servirá ao mais novo”. Os dois fundariam dois povos poderosos, mas essas nações seriam inimigas.

Apesar desse pano de fundo, os dois personagens de “Esaú e Jacó” não são chamados dessa forma. Um se chama Paulo e, outro, Pedro. Aquele era um entusiasta republicano e este um calejado monarquista. São completamente distintos em várias questões. Parecem existir para se confrontarem. Paulo e Pedro também são nomes extraídos Bíblia. Todavia, são nomes ligados à fundação do cristianismo. Enquanto Pedro estava ligado à Igreja de Jerusalém, Paulo é o apóstolo onipresente que estrutura um discurso e o leva aos confins do Império Romano. Ele é o pregador da diáspora, seu “ethos” é o da integração, do universalismo, da difusão plural, pois pregava aos romanos, gregos e demais povos da Antiguidade. Dominava a língua grega, a língua da cultura sistematizada da época. Além disso, é possível que soubesse o latim, a língua do Império e responsável por organizar as questões políticas e militares. Pedro, por sua vez, estava circunscrito ao ambiente judaico de Jerusalém e dominava, possivelmente, o aramaico. Nota-se, assim, que Machado genialmente une Antigo e Velho Testamento para construir o enredo da obra. Estica-se um fio que se apropria de elementos judaicos e elementos cristãos.

O Rio de Janeiro, em 1889, ano da Proclamação da República
 

Outro importante aspecto diz respeito ao momento histórico que a obra retrata. Nesse sentido, é um importante texto para estabelecer conexões com a fundação da chamada República Velha. Lima Barreto também a retrataria, mais tarde, em “O triste fim de Policarpo Quaresma”. Pedro torna-se médico; forma-se no Rio de Janeiro, sede da capital do Império. Paulo, torna-se advogado; estuda em São Paulo, um dos centros irradiadores das ideias republicanas. Vale mencionar que em São Paulo fica a prestigiada Faculdade de Direito do Largo do São Francisco. Lá estudaram boa parte dos intelectuais que alimentaram a chama do republicanismo no final do século XIX.

A única questão que une os dois personagens é a paixão pela linda Flora, que ora se decide por um; ora se inclina para outro, sem tomar qualquer decisão. Observa-se que ela morre sem se decidir nem por um nem por outro. Em “Esaú e Jacó” o jogo muda, ganha novos contornos, pois a vida é repleta do efêmero. O ser humano também o é. Em tempos de mudanças, o que fica é a força da falta de estabilidade. Para algumas pessoas, essa característica gera inseguranças. No geral, as pessoas não lidam muito bem com a impermanência. Todavia, a realidade se constitui pela transformação, pela contradição.

A obra faz referência a alguns dos eventos que foram responsáveis pela organização política e econômica do país no século XX. Um dos principais eventos foi a Proclamação da República, arrancando o país da condição de Império, o último das Américas. Menciona-se ainda a Abolição da escravatura, um dos eventos que mudaria em definitivo a relação do capital com as forças produtivas. Além dessas questões, a mudança do Império para República deflagrou uma crise econômica denominada de Encilhamento. 

Sendo assim, observa-se que Machado se utiliza de personagens complexos para realizar uma análise das contradições existentes no ser humano, bem como refletir sobre os eventos políticos do seu tempo. Machado lança mão da ambiguidade para apontar que a vida pode ser conduzida por mares diversos. Tanto Paulo quanto Pedro são faces da mesma verdade, que é a vida. As indecisões presentes em Flora também fazem parte da existência. As paixões exacerbadas apenas fazem sofrer, pois como diz o próprio narrador “todos os contrastes estão no homem”.  

segunda-feira, setembro 18, 2023

Devaneios sobre Santo Agostinho

 

                Retorno ao belo e dramático texto de “As Confissões”, de Santo Agostinho. A primeira vez que o li, em 2005, eu era um ardoroso cristão. Frequentava a Igreja Presbiteriana. Estudava teologia em um seminário. Derramava-me em preces. Procurava aquecer a minha alma com a luz emanada da fé. Agostinho ajudou-me nisso. Foi um mestre profundo a quem eu li com o coração em chamas.

                Regresso a Agostinho. Dessa vez, já não há crença profusa, mas há respeito. Não há ilusões, mas escuto-o com atenção. Bebo as suas palavras vagarosamente para sentir os efeitos. O grande bispo continua a falar com a típica beleza inegável. Com o jogo retórico. Com as imagens que suscitam uma comovente admiração.

                Agostinho é um dos pensadores que me define. Sua paixão pelo mistério, pela verdade, pela coerência, sempre foi uma orientação e uma paixão para mim. Conecto-me com a resplandecência que deriva do seu pensamento. Leio as suas palavras e sou visitado por uma buliçosa centelha de paixão. O grande teólogo é um mestre da elegância e dono de uma intuição filosófica invejáveis.  Era daquelas pessoas que sempre questionava aquilo que fazia e procurava um propósito pelo qual deveria viver.

Quando analisamos a sua vida, percebemos o quanto, desde pequeno, Agostinho demonstrava uma potência inevitável. A criança que procurava apanhar as goiabas do vizinho por achá-las mais vistosas, o jovem vaidoso, o adulto arrogante, mestre respeitado da retórica, demonstrou ao longo de sua caminhada que algo estava a faltar. Agostinho realizou uma carreira primando pela satisfação dos próprios desejos, até que esbarrou na nulidade, que é o resultado daquele que obedece apenas a si mesmo. A vida de Agostinho pode ser sintetizada na passagem de Eclesiastes 3.11: “Também pôs [Deus] no coração do homem o anseio pela eternidade”.

                Mais tarde, ele proferiria em “As Confissões”: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava fora”. Essa noção de que a vida equivocada é aquela que se vive fora da verdade do Deus cristão é a grande máxima de Agostinho. O homem, enquanto caminha, deve estar bem atento, pois a caminhada pode conduzi-lo à verdade e, portanto, à fruição de Deus (a Cidade de Deus) ou ao caminho do equívoco, do mal – a cidade dos homens.

                A caminhada errada leva sempre ao engano, ao choro, à angústia. Sofremos, agonizamos e não experimentamos a verdadeira paz enquanto não repousamos em Deus. E é, justamente nesse ponto, que repousa um dos mais sofisticados e elaborados entendimentos filosóficos do Mundo Ocidental: a noção do mal e do bem. O bem permite folgar, fruir, experimentar Deus. Quem assim o faz, acha a verdadeira felicidade. Tudo o que existe é bom. Não existem verdades que não sejam divinas. Dessa forma, o mal não é uma antítese, uma força contrária como algo em si. O mal não tem substância.  Foge-se, assim, de um maniqueísmo, corrente teológico-filosófica da qual Agostinho fizera parte. Observando de uma força bem superficial, pode-se afirmar que o princípio elementar do maniqueísmo é que mal e bem são forças antagônicas, com a mesma potência – Deus (o bem) e Diabo (o mal).

                Para Agostinho, o mal é a ausência de bem. O mal é um desvio na rota de qualquer indivíduo. Ser mal ou viver no mal é estar longe de Deus; ignorar os seus princípios e, consequentemente, não experimentar a felicidade Dele oriunda. Pode-se comparar a existência do mal como uma escuridão que acomete uma sala quando a porta é fechada. A escuridão está ali, mas pode ser desfeita, uma vez que a posta seja aberta. A escuridão existe onde houve privação da luz. O mundo e todas as coisas que o compõem existem para a luz.

                Esse pensamento é coerente com a sua própria vida. Agostinho entende que no período em que “fechou a porta” experimentou o mal. Somente quando foi redirecionado pela graça divina para o próprio Deus, pôde conhecer o bem para o qual havia sido criado. A compreensão de Agostinho é a de que, enquanto não chegamos à graça, a vida de todo ser humano é acompanhada por uma insofismável sucessão de infelicidades.

                Como o bispo de Hipona revigora. Como seu pensamento é delicado e comovente. Hoje, não me oriento pela sua divindade. Todavia, percebo que há em mim uma sede pelo mistério. E é possível transformar esse seu desejo em contemplação; e a contemplação em matéria para poesia.

“As Confissões” é um texto em que Agostinho se analisa, perscruta os próprios pensamentos e intenções.  Ler “As Confissões” é realizar um exercício de autoconhecimento. Enquanto lemos o texto agostiniano e observamos a maneira como seu autor se enxerga, passamos a nos compreender também. “As Confissões” é uma antropologia; um espelho do próprio ser humano à procura da eternidade; um trabalho arqueológico e ontológico.


terça-feira, maio 02, 2023

As origens da religião e do deus judaico-cristão

 

                
O fenômeno religioso me interessa em muitos aspectos. O homem é em essência religioso. A religião representa um esforço do homem para organizar e entender o mundo. Ela nos remete a um período da história do gênero “homo” em que era necessário entender a natureza e os seus movimentos. Sem conhecimento científico, sem ferramentas para realizar uma sistematização do conhecimento de forma racional, os homens precisaram criar histórias míticas para que a realidade fosse ordenada. Viver em um meio adverso, sem ter uma âncora explicativa para os movimentos da natureza levaria o ser humano a não suportar a própria existência. E daí que surge a religião como um fenômeno humano, como uma dimensão essencial da vida.

Houve um período em que não havia nem deuses nem religião. Havia apenas a natureza com as suas leis. A consciência de si e do mundo permitiu ao homem a elaboração de sofisticados símbolos. O símbolo (significante) cria uma mediação entre o mundo e o próprio homem, pois carrega um significado (conteúdo virtual do significante). As religiões precisam de símbolos, assim como as demais manifestações humanas. Ao criar símbolos, o homem passou a criar cultura. As religiões são manifestações da cultura e das condições materiais de certa época e lugar.

A religião judaico-cristã como qualquer religião está repleta de disputas e influências. Analisá-la hoje como um fenômeno monolítico é desprezar algumas importantes situações que foram responsáveis pela sua formação. É como, se diante de um trem, observássemos apenas um dos vagões, desprezando as demais composições. Um vagão apenas não é o trem. A religião dos antigos judeus era politeísta. Como era comum aos antigos povos do Oriente Médio, Israel possuía inúmeras divindades. Isso pode ser notado nos vários relatos bíblicos do Antigo Testamento. Javé era apenas uma das divindades. Fazia parte do panteão dos cananeus. O panteão cananeu era constituído por setenta deuses e deusas. Javé era mais uma das divindades, cujo patrono era o amoroso deus EL. Sua consorte era Aserá. EL significa “senhor”. No Pentateuco, aparecem inúmeras referências a EL – “El Shaday” (El ou “senhor da montanha”); El Elyon (el ou “deus altíssimo”); EL Olam (El ou “senhor altíssimo”); ou a designação majestática Elohim, que significa “Elvadíssimo”, “Altíssimo”.

O fato é que há um momento na história em que os isra-el-itas decidiram abolir o politeísmo e cultuar Javé como a sua divindade suprema. Os outros cultos foram proibidos. Um dos cultos mais praticados no Israel antigo era o culto a Baal, um jovem e viril guerreiro. A abolição de outros cultos não foi tranquila. Vários séculos foram necessários. É possível que o culto a Javé só tenha sido consolidado no período dos Macabeus, pois havia uma forte questão nacional envolvida.

No vídeo que pode ser encontrado no link a seguir, o professor Emerson Borges explica como se deu “a origem do deus bíblico”. Um excelente vídeo.

1. Indicação de leitura: https://g1.globo.com/Noticias/0,,MUL652419-9982,00-DEUS+BIBLICO+PODE+SER+FUSAO+DE+VARIOS+DEUSES+PAGAOS+DIZEM+ESPECIALISTAS.html

sexta-feira, setembro 10, 2021

"Ressurreição - história e mito", de Geza Vermes. Algumas considerações

 


                Terminei a leitura de “Ressurreição – história e mito”, de Geza Vermes. Estudei teologia. É um assunto que surge, em alguns momentos, com certas nuances de interesse. Cursei  teologia reformada, conservadora, ciosa de certos pressupostos doutrinários; não capaz de relativizar conceitos por que calvinista. Todo aquele conjunto de elementos inegociáveis – soberania divina, as duas naturezas de Cristo, a ressurreição, a justificação pela fé; a predestinação e a eleição; a glorificação dos fiéis numa apoteótica segunda volta de Cristo. São temas caros e, portanto, basilares para os fiéis dessa religião. Aqueles que acreditam fazem disso um dos fundamentos da vida.

                Todavia, o conjunto dessas doutrinas é resultado de uma formação paulatina da Igreja. A consolidação desses entendimentos doutrinários passou por muitas disputas. Afinal, um conceito não resulta de uma consolidação estanque – ainda mais quando se trata de uma narrativa. Não coaduno mais com esse entendimento conservador, que sacraliza certas compreensões e as tornam inamovíveis. A religião é um fenômeno necessariamente humano. Religião é antropologia. É o resultado dos sonhos, dos anseios mais recônditos do ser humano. Ela foi criada para justificar certos elementos da realidade e que, sem ela, o ser humano teria dificuldades para lidar e aceitar. 

                O que convencionamos chamar de cristianismo não era o mesmo há dois mil anos. A história é construída por um constante jogo dialético. Os evangelhos, conforme os lemos, são bem distintos dos textos paulinos, pois estes são o resultado do entendimento, da sistematização daquilo que ele entendia ser o cerne dos ensinamentos de Jesus. É possível falar que aquilo que Jesus não disse foi consolidado por meio de uma interpretação. Paulo é um grande revisionista; um estruturador de fundamentos teológicos. Do mesmo modo, de acordo com o excelente livro de Geza Vermes, o conceito de ressurreição também levou tempo para ser uma doutrina plenamente aceitável dentro do judaísmo e, mais tarde, tornar-se um tema da teologia cristã.  

                Do ponto de vista histórico, o cristianismo é uma vertente religiosa derivada do judaísmo. Sendo assim, boa parte dos elementos estruturais do cristianismo foram herdados da religião dos judeus. Por exemplo, a divindade do chamado Antigo Testamento, Javé, é a mesma divindade do Novo Testamento. É o mesmo que profere uma sentença de aprovação à Jesus no ato do batismo, conforme Mateus 4. Alguns conceitos teológicos também foram herdados do judaísmo. A ideia de aliança é algo que perpassa todo o texto bíblico. O amor, a proteção, a predileção divina também é algo que faz parte desse conjunto.

                No Antigo Testamento, conforme diz Vermes, não se encontra a ideia de ressurreição como passou a ser acreditada no cristianismo. Paulo eleva esse entendimento, tornando esse um dos signos de sua pregação. Como teria ocorrido essa mudança de compreensão ao longo dos séculos? É sobre isso  que o autor procura discorrer ao longo de sua didática obra.

                Para ele, - e isso pode ser comprovado pela experiência -, a teologia existente no Antigo Testamento afirma que a vida no mundo físico é a única oportunidade que o fiel possui para se deleitar, para fruir, para se regozijar. O autor de Eclesiastes escreve: “Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde vais, não há obra nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma”. (Ec 9.10). No livro de Jó, há ainda uma descrição mais dramática sobre esse silêncio a que todos os seres vivos serão submetidos após a morte. “Antes que eu vá para o lugar de que não voltarei, à terra da escuridão e da sombra da morte; Terra escuríssima, como a própria escuridão, terra de sombra da morte e sem ordem alguma, e onde a luz é como a escuridão”. (Jó 10.20-21). Esse lugar silencioso, escuro, fechado, recôndito, de onde nada emanava, tinha o nome de Xeol ou Sheol – em hebraico, “mundo” ou “morada dos mortos”. Nesse mundo não seria possível adorar a deus. Isso só se torna possível do lado de cá da existência (Sl 6.5).

                Segundo Geza Vermes a mudança de compreensão se deu por volta do segundo século antes de Cristo, no período Asmoneu com os Macabeus. Esse período foi marcado por uma forte resistência religiosa. As violações cometidas por Antíoco IV contra a fé dos judeus teria feito surgir uma quantidade enorme de pessoas dispostas a proteger as tradições da religião. Muitas pessoas teriam dado a própria vida para garantir a pureza da fé. Há relatos de que Antíoco IV tenha sacrificado uma porca no altar do templo sagrado dos judeus, algo que os ofendeu profundamente. Esse mesmo soberano da dinastia selêucida procurou helenizar à força a cidade de Jerusalém, instalando contra a vontade dos judeus, uma estátua de Zeus; além disso, proibiu o culto judeu e a circuncisão. Foi o suficiente para um movimento de resistência.

                Aqueles que resistiram, entregando a própria vida, precisavam de um prêmio. Não era justo para com eles a morte e o confinamento frio e eterno do Sheol. Vermes cita o esclarecedor texto do Testamento de Judá, escrito nesse período: “aqueles que foram mortos em nome do Senhor despertarão para a vida” (25.4). Percebe-se, claramente, uma mudança de compreensão. Do silêncio do Sheol, alguém poderia ressurgir. Era uma mudança radical de compreensão.

                Nos dias de Jesus, a ressurreição era uma doutrina digna de certas disputas. Os fariseus, por exemplo, (partido surgido à época dos Macabeus, diga-se de passagem), acreditavam que haveria ressurreição. Já os saduceus, constitutivos da elite sacerdotal, não acreditavam nessa doutrina. Todavia, há algo importante de ser observado. Os fariseus eram o grupo mais proeminente e com maior capilaridade na sociedade judaica da época. Eles possuíam um amplo grupo de adeptos. As doutrinas defendidas pelos fariseus tinham uma maior penetração social. Os grupos moderadamente abastados eram fariseus, o que dava a eles uma maior densidade, uma maior penetração em vários estratos da sociedade. Eram criadores de consenso.

                Os evangelhos são escritos posteriores à vida de Jesus. Foram escritos por pessoas que tinham o objetivo de provar que Jesus era o Cristo, o Messias. Sendo assim, há um esquema presente em todos: Jesus nasce miraculosamente, vive miraculosamente, morre; e ressuscita miraculosamente. Como diz Vermes, quando se ler atentamente os evangelhos é possível perceber que os apóstolos não tinham ideia do que aconteceria. Ou seja, não contavam com a morte de Jesus. O próprio Jesus se esforça o tempo todo para narrar com plena ênfase a chegada do reino de deus. Muitos dos seguidores de Jesus e – talvez o próprio Jesus - entendessem que não veriam a morte. O reino de deus havia chegado. Um exemplo disso está na passagem em que Jesus diz que “muitos não provariam a morte até que vissem o reino de deus” (Lc 9.27); ou na esclarecedora passagem: “Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, respondeu-lhes: ‘A vinda do Reino de Deus não é observável. Não se poderia dizer: ‘Ei-lo aqui! Ei-lo ali!’, pois eis que o Reino de Deus está no meio de vós’” (Lc 17. 20-21). O “reino de deus” havia chegado; era uma realidade incontrastável. 

                Entre a sua chegada, o estabelecimento do reino de deus e o final dos tempos, havia o entendimento para o próprio Jesus, que não haveria morte. Tanto é assim, afirma Geza Vermes, que o ensinamento sobre a vida após a morte nos evangelhos é algo vago. A sentença que emula a doutrina evangélica é a chegada do reino de deus.

                Desse modo, a morte de Jesus foi um verdadeiro “balde de água fria” nas intenções dos seus seguidores. Aquilo os aturdiu profundamente. Ficaram confusos. Sem entender o evento. Alguns, talvez, até decepcionados. Afinal, Jesus havia feito a promessa de uma redenção, de uma transformação por meio da chegada de seu reino.  Os quatro evangelhos, de acordo com a redação encontrada na bíblia nos nossos dias, aparentemente, conservam uma narrativa coesa. Todavia, analisada em detalhes, deixam algumas pistas. Diz Vermes:

“O tema da ressurreição ganha importância através do tratamento de dois aspectos da vida de Jesus nos Evangelhos. Para servir às necessidades apologéticas da Igreja explicando a cruz e a subsequente ressuscitação do Messias, os evangelistas sentiram-se obrigados a inserir, nas suas narrativas da fase final da vide de Jesus predições reiteradas da sua morte e ressurreição iminentes. Essas profecias visavam, aparentemente, preparar seus companheiros mais próximos para a sua queda e exaltação imprevistas ao final de sua carreira. É óbvio que ao tentar relatar a ressurreição de Jesus os evangelistas enfrentaram uma laboriosa tarefa. Seus relatos exibem numerosas incoerências. Contudo, as sete ou oito décadas – entre 30 d.C. e 100-110 d.C., os anos que separam a morte de Jesus da conclusão do Evangelho de João – testemunharam uma certeza constantemente crescente na Igreja Primitiva quanto à ressurreição de Jesus e sua presença espiritual entre os seus seguidores”. (pp. 135,136)

                Sendo assim, a ressurreição é um tema que ganha relevância, pois a morte de Jesus quebrou o fluxo de expectativa dos seus seguidores. Os evangelhos procuram direcionar a narrativa, deixando a entender que aquilo estava no horizonte da pregação de Jesus. Todavia, as contradições internas atestam uma tentativa de inserção do tema. Há a busca de relacionar a morte de Jesus com predições do Antigo Testamento que se harmonizassem com a vida de Jesus. Um exemplo disso se encontra em Mateus 12.40. Nesta passagem Jesus faz supostamente uma analogia da sua morte com o fato do profeta Jonas ter ficado ‘três dias no ventre de um monstro marinho’. Do mesmo modo, ele ficaria três dias no ‘ventre da terra’, até ressurgir dos mortos.

                Como nos alega Vermes, essa afirmação possivelmente seja fruto de uma organização pessoal do escritor do Evangelho segundo Mateus. É a “laboriosa tarefa” de que fala o escritor. Diante do evento da morte de Jesus, foi necessário criar um enredo capaz de criar  esperança. A ressurreição não era o fim. Paulo, mais tarde, falaria que “Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram” (1 Co 15.20).

                Uma outra questão importante levantada por Vermes diz respeito a como cada evangelista narra o evento da ressurreição, o que atesta um desencontro de perspectivas. Ou seja, cada evangelista se muniu de material diverso. Isso gerou desencontros nos detalhes da suposta ressurreição.

 Mateus diz que Maria Madalena e a outra Maria foram ao túmulo, no primeiro dia da semana, e um anjo removeu a pedra e sentou-se sobre ela. O anjo possuía o brilho de um relâmpago. Os guardas tremeram de medo e ficaram como mortos. As mulheres são aconselhadas pelo anjo a contarem para os discípulos que Jesus havia ressuscitado e que iria para a Galileia. Jesus aparece para as mulheres e reitera o que havia sido anunciado pelo anjo. Os guardas são subornados pelas autoridades para não confessarem o que havia acontecido. Era preciso falar que os discípulos roubaram o corpo de Jesus enquanto os guardas dormiam. Na Galileia, Jesus se encontra com os onze discípulos. Anima-os e encoraja para que eles levem a mensagem ensinada até os confins do mundo. (Mt 28).

Em Marcos, diz-se que José de Arimatéia pediu o corpo de Jesus a Pôncio Pilatos (sic.). José tirou Cristo da cruz. Enrolou-o em um lençol e o pôs num túmulo que fora talhado na rocha. Em seguida, fechou a entrada do túmulo com uma pedra. Maria Madalena e Maria, mãe de Joset, observavam onde Ele (Jesus) fora posto. Tendo passado o sábado, elas voltaram para aplicar aromas ao corpo de Jesus. Afinal, os preparativos não foram feitos por causa do final da sexta-feira, quando foi morto, e o início do sábado. Elas especulavam entre si como removeriam a pedra.  Dessa vez, diferente de Mateus, havia pelo menos três mulheres – Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé. Em Mateus não consta, Salomé. Outro detalhe, de Mateus para Marcos é que, em Mateus, o anjo senta-se na pedra à entrada do túmulo; em Marcos, elas entram para o túmulo e encontram o anjo sentado. Nos manuscritos mais antigos, o capítulo 16 de Marcos termina abruptamente no versículo 8. Nota-se, quando se inicia o versículo 9, que o texto tenta retomar um assunto, mas há uma clara mudança no foco narrativo. É como se alguém tivesse pegado um texto inacabado e fizesse um fecho para delimitar o seu fim.

Nesse sentido, é preciso perceber que o enxerto insere outras aparições. A narrativa retilínea de Mateus é bem diferente do emaranhado de aparições de Marcos. Por exemplo, Mateus diz que ele reapareceu para os onze no alto de um morro. Em Marcos, Jesus se manifesta quando os discípulos estão á mesa. O texto chega ao seu cabo com a seguinte sentença: “Ora, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi arrebatado ao céu e sentou-se à direita de Deus” (Mc 16.18). E diz o texto que eles saíram dali decididos a pregar.

Em Lucas, há um detalhamento maior. Enquanto Marcos é frugal com o seu texto, o autor de Lucas procura ser meticuloso. Repete alguns eventos encontrados nos dois textos. Fala de José de Arimatéia. Descreve a intervenção dele junto a Pilatos. O depósito do corpo de Cristo em um túmulo.  As mulheres que ficam observando à distância onde o corpo havia sido colocado. Quando elas voltam, encontram o túmulo aberto. E, dessa vez, não é mais um único anjo: são dois com vestes fulgurantes. Outra diferença é o nome daquelas que vão ao túmulo: Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago. Novamente, não há referência a Salomé. Em compensação, surge alguém denominada de Joana. De acordo com Lucas, ainda havia outras mulheres. (Lc 24.10). Outro detalhe que exibe a contradição sobre o tema diz respeito ao modo como Jesus aparece para os onze. Após o episódio do caminho de Emaús, Jesus aparece para os onze, dessa vez, em Jerusalém. Em Mateus e Marcos, afirma-se que esse encontro se deu na Galiléia. (lC.24.33-36). Em Marcos, é dito que a ascensão de Jesus se deu forma abrupta, quando eles estavam comendo. Em Lucas, os discípulos vão com Jesus até Betânia. E nessa localidade, Jesus foi “elevado ao céu”.

                Em João, a figura de José de Arimatéia reaparece, acompanhado, dessa vez, por Nicodemos. Observa-se que os preparativos para o sepultamento acontecem ainda na sexta-feira. Segundo narra o autor de João, Jesus foi colocado em uma espécie de jardim, em um sepulcro novo. João insere outros elementos, o que sugere que houve uma tentativa por parte dos evangelistas de criar uma narrativa que correspondesse à nova situação que se estabelecera, a saber, a morte de Jesus. Diz João que Maria Madalena foi sozinha ao túmulo (sic). Tendo chegado lá e percebido que o túmulo estava aberto e vazio, voltou e foi avisar a Simão, ou seja, a Pedro, e, possivelmente, a João, o discípulo que Jesus amava. Os dois correram até o túmulo e comprovaram aquilo que havia sido dito por Maria.

                Maria fica – sozinha – chorando “junto ao sepulcro”, “de fora”. E aparecem dois anjos. Mas, junto com os anjos, Jesus também aparece para ela. Ela não o reconhece. Após tê-lo confundido com um jardineiro, ela o identifica. Ele pede para que ela vá contar a novidade aos discípulos. Estando todos trancafiados, ele aparece no meio deles. Apresenta-se e sopra sobre eles o espírito santo. Nesse ponto, há uma divergência para os escritos de Lucas – o evangelho e Atos dos Apóstolos -, pois nos dois textos eles são aconselhados a ficarem em Jerusalém até que do alto fossem revestidos de poder. Oito dias depois, estando os discípulos juntos, ele reaparece – aparentemente – para dar uma prova de vida a Tomé. João termina dizendo que Jesus fez inúmeros outros prodígios que não estão escritos no seu texto. Na parte final, há uma espécie de epílogo. Funciona como se fosse um evento deslocado do texto principal, mas que traz algumas informações curiosas. O fato que chama a atenção é a pescaria frustrada de alguns discípulos. Jesus faz um outro milagre: o milagre da pesca abundante. Pedro e os seus companheiros recolhem 153 peixes grandes. Diz João que essa foi a terceira vez que ele apareceu para os discípulos, depois que havia ressuscitado dos mortos. Há uma série de falas repletas de um mistério que se projeta de forma aleatória. E o texto de João termina dizendo que Jesus realizou tantas ações que, se elas fossem descritas, não caberiam nos livros do mundo.

                Em Atos dos apóstolos, o autor – supostamente Lucas – diz que Jesus ficou com os discípulos durante quarenta dias. Jesus diz, “no decurso de uma refeição”, que eles deveriam permanecer em Jerusalém. Nota-se que diferente de João, eles ainda receberiam o espírito santo. De repente, o texto afirma de maneira estranha que ele “foi elevado à vista deles, e uma nuvem o ocultou a seus olhos”. Todavia, a continuidade do texto nos faz crer que eles estavam “no monte chamado das Oliveiras”. Nota-se que aqui já é o terceiro lugar de onde se fala que Jesus estava ou ascendeu aos céus – Galiléia, Betânia e Monte das Oliveiras.  Essas evidências contrastantes atestam aquilo que Vermes afirma sobre a tarefa que os discípulos tiveram a fim de criar um “esquema” capaz de dar significado à ressurreição. Era preciso tornar crível a existência de Jesus como o Messias; que sua mensagem não fracassou com a morte. A ressurreição de Jesus se tornou um emblema poderoso. É a esperança daqueles que nele esperam.

                No final do livro de Vermes, há uma referência a uma expressão usada pelo teólogo alemão Rudolf Butmann. Segundo ele, “o túmulo vazio é uma lenda apologética”. Sim. Lenda, pois passou a fazer do imaginário e dos desejos extraordinários dos discípulos. E “apologética”, pois se transformou em uma sentença teológica fundamental para o cristianismo. Na verdade, é uma marca dessa religião. Não há como dissociar esse elemento da fé. Excelente livro! Enriqueceu a minha percepção sobre esse aspecto mitológico da fé cristã.