| Visconde de Taunay |
segunda-feira, abril 12, 2021
“Inocência”, de Visconde de Taunay.
sexta-feira, março 05, 2021
"O Cabeleira", de Franklin Távora - algumas impressões
Quando entramos em contato com a literatura de José Lins do Rego e lemos
o seu “Cangaceiros”, passamos a crer que ali existe algo original. O tema do
cangaço é algo – temos a impressão – que nunca foi tratado pela literatura. O
estilo caudaloso, que flui de forma desimpedida, é algo que torna a narrativa
do escritor paraibano em algo imperdível.
O cangaço é um fenômeno histórico ocorrido no Nordeste brasileiro e que
possui uma forte ressonância social. Creem os estudiosos do fenômeno de que se
trata de um fenômeno que surgiu em decorrência das graves disparidades
sócio-econômicas da região. O delicioso livro Bandidos, de Eric Hobsbawm, expõe
no capítulo "O que é banditismo social?", que o fenômeno do
banditismo social faz parte de sociedades agrárias e pastoris. Existem
determinados elementos que dão vazão para que este tipo de movimento - marginal
- se forme. Por exemplo, Hobsbawm diz que em épocas de muita fome, de repressão
política, de descalabros variados, existe uma tendência que dá surgimento a
esse fenômeno. A violência no mando dos coronéis, aliada a séculos de
escravidão, bem como a pobreza de muitos sertanejos, talvez, tenham feito
fermentar esse tipo de banditismo tão característico. A violência “dos pequenos”
pode ser tão atroz quanto a violência dos grandes.
Pode-se afirmar que o cangaço existiu entre os séculos XVIII até à metade
do século XX, durante o Governo Vargas. Os cangaceiros ou bandoleiros como eram
chamados andavam em grupos armados, cometendo assaltos, assassinatos, estupros
e todo tipo de violência contra aqueles que criassem obstáculos às suas
intenções. Eram nômades; conheciam com muita intimidade a geografia árida da
caatinga. Esgueiravam-se de maneira habilidosa. Conseguiam, assim, fugir das
autoridades. Na vasta região cálida e seca, com uma vegetação cheia de
espinhos; solo pedregoso, onde se ocultavam animais peçonhentos, os cangaceiros
marchavam com incomum destreza.
Corroborando com isso, Hobsbawn diz: [O banditismo] "floresce em áreas
remotas e inacessíveis, tais como montanhas, planícies não cortadas por
estradas, áreas pantanosas, florestas ou estuários, com seu labirinto de canais
e cursos d'água, e é atraído por rotas comerciais ou estradas importantes, nas
quais a locomoção dos viajantes, nesses países pré-industriais, é lenta e
difícil". O historiador inglês vai dizer que baste a construção de
estradas ou a conexão com as regiões desoladas, onde originou o banditismo,
para que este arrefeça, perca a força. Ou seja, a rapidez na comunicação
permite ao Estado ações contundentes a fim de exorcizar o fenômeno do
banditismo social.
Ao longo do tempo, imprimiu-se no imaginário popular uma noção mais rarefeita do cangaço. Criou-se certo fascínio pelas suas personagens como é o caso típico de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, conhecido como o “o Rei do Cangaço”. Esse epíteto potencializa uma imagem positiva dessa personagem. A história intrigante que o acompanha possui inúmeros fatos violentos de pilhagens e mortes cruéis a seus desafetos.
Em 1876, o escritor cearense Franklin Távora, radicado no Pernambuco,
escreveu – ou romanceou – a história de José Gomes, conhecido como “o
Cabeleira”. Cabeleira é conhecido como um dos primeiros sujeitos a encabeçarem
o movimento do banditismo no Nordeste.
Franklin Távora, nascido em Baturité, em 1842, mudou para Pernambuco em
1844. E, a partir daí, a vinculação estabelecida com o estado dar-se-ia por
longos anos de sua vida. Ainda muito jovem, ingressou na tradicional e famosa
Faculdade de Direito do Recife. Em 1863, conseguiu o diploma de bacharel em
direito, tendo feito carreira no direito e no jornalismo.
O escritor era um intransigente
defensor das tradições populares; um nacionalista convicto; alguém que buscava
retratar em seu regionalismo eventos que tivessem uma fiel relação com a
história. Foi por conta disso, que entrou em uma porfia intelectual com José de
Alencar, uma entidade que, àquela época, gozava de enorme prestígio. Para
Távora, o regionalismo de Alencar era idealista em excesso. Não era verdadeiro.
Alencar falava, segundo ele, daquilo que não conhecia. Um exemplo é a escrita
de “O gaúcho”. Segundo Távora, Alencar falava do homem gaúcho sem ter colocado
os pés no Rio do Grande do Sul. Esse artificialismo na prosa regionalista de
Alencar rendeu bons debates.
Para escrever “O Cabeleira”, Távora toma nota de informações históricas,
como se pode perceber no prefácio e posfácio da obra. A atividade romanesca do
escritor assenta-se no chão da história. Não surgiu do nada.
Na obra, notamos a preocupação com a geografia; o nome das cidades da
Zona da Mata de Pernambuco – Goiana, Santo Antão (minha cidade, hoje, chamada
de Vitória de Santo Antão, Glória Goitá, Ipojuca, Limoeiro entre outras. A vegetação
também surge. O rio Tapacurá também é mencionado com certa recorrência na obra.
Encontramos o trecho com forte aceno histórico:
“Uma tarde Luisinha foi buscar água no rio Tapacurá, que banha a cidade
de Vitória, então povoação de Santo Antão, à qual pertencia Glória de Goitá
donde era natural o Cabeleira. Santo Antão distingue-se na história
pernambucana pela circunstância de lhe estar próximo o Monte das Tabocas no
qual se verificou em 3 de agosto de 1645 a batalha que iniciou a insurreição
portuguesa contra o domínio holandês, e exercitou direta e decisiva influência
no futuro político, comercial, industrial e religioso do Brasil. Esta memorável
batalha, depois de seis longas horas de fogo, declarou-se em favor dos nossos
primeiros dominadores. Em comemoração deste acontecimento, uma lei provincial
de 6 de maio de 1843 erigiu a antiga povoação em cidade a que chamou de Vitória
como acima de se vê”. (p.49).
Segundo a história, Cabeleira nasceu em Glória do Goitá, munícipio da
Zona da Mata. Era uma criança dócil. Sua mãe era uma mulher de alma sensível e
piedosa. Joaquim Gomes, seu pai, era um sujeito cruel, que não possuía qualquer
comiseração por quem quer que fosse. Seu desejo era incutir no filho a força
dos instintos. Foi assim que procurou incutir no filho hábitos de sadismo e
perversidade. A lição veio, incialmente, com o estripamento de animais. Segundo
Joaquim Gomes, isso permitiria ao filho nunca se dobrar a ninguém. Afinal, ele
estava criando o filho para ser um homem de verdade. Ou como diz o autor: “uma
máquina de cometer crimes”. (p.38).
A mãe de José Gomes – Joana - sofria com essas lições atrozes e
desumanas. Ela sabia qual era o objetivo do pai. E somente rezava, tentando
desfazer aquilo que o pai buscava impingir na alma do filho. Até que Joaquim
foge com José. Tira o filho da zona de influência da mãe. É a partir daí que a
história de Cabeleira, como era chamada por causa de seus cabelos longos e
negros, passou a ganhar contornos daquilo que mais tarde seria.
Nas páginas que seguem, notam-se os feitos do bandido. Os crimes
cometidos. As crueldades que se alastravam com o assassinato de crianças, de
pessoas idosas ou de quem lhe surgisse no caminho. Associado a mais alguns
comparsas, José Gomes passa a ser temido. Sua fama chega até ao Recife.
Os impulsos de Cabeleira são refreados, quando ele se encontra com a Luisinha,
uma paixão iniciada na infância. Ela busca arrancar do coração do bandido todas
as raízes da maldade. Ele mostra-se obediente. Procura refrear os instintos. E
aos poucos tem a sua personalidade transformada.
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| Franklin Távora (1842-1888) |
O romance procura amainar a imagem daquele que é considerado como um criador de um proto-cangaço. Ele dá mostras de que está arrependido. Sua imagem é realçada como a de um herói – pelo menos essa é a depreensão que fica subentendida da leitura. Diferentemente, de outras figuras do cangaço como Antonio Silvino, cangaceiro paraibano, que iniciou no movimento após presenciar a morte do pai e se envolver em brigas de terra; ou de Lampião, que também foi vítima de violência contra a sua família, Cabeleira é treinado pelo pai para ser o que foi. Há uma espécie de isenção pela culpa por parte do escritor.
Seu estilo é a mescla da objetividade jornalística, com o rigor de uma
historiografia que se preocupa em ser fiel a certos eventos. Mas, no bojo dessa
característica, nota-se o estofo da prosa romanesca. Seu texto é realista. Mas
é diferente do rigor naturalista do texto de Aluísio Azevedo; e diferente
também do regionalismo idealista de José de Alencar. Satisfiz um desejo antigo ao lê-lo.
quarta-feira, julho 01, 2015
"Ressurreição", de Machado de Assis
domingo, agosto 11, 2013
"Fogo Morto", obra prima de José Lins do Rego. Algumas impressões
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| José Lins do Rego |
Ao terminar Usina, José Lins deu a certeza ao leitor de que terminaria o seu "ciclo da cana-de-açucar". Ora, uma vez que aquilo tenha acontecido, o escritor não poderia retomar a mesma temática, sob o risco de repetir-se. Mas não foi isso que se deu. Como já mencionado acima, em 1943 sai Fogo Morto e ali estava o que de mais curioso ele havia produzido em sua carreira. Alguns entendem que Bangüe (terceiro livro do ciclo da cana-de-açucar), seja outra de suas obras destacadas. Em Fogo Morto, José Lins fez uma análise mais global da sociedade açucareira, centrando a história em três personagens emblemáticos - Lula de Hollanda Chacon, Capitão Vitorino Papa-Rabo e no mestre Zé Amaro. O curioso nisso tudo é a mensagem política que a personagem alavanca, posto que a ordem descrita pelo narrador é a ordem oligárquica. Vitorino em sua luta é aquele que defende "o clarear" das relações; que prega a assunção de uma ordem democrática, o fim dos "potentados da terra", dos desmandos, tirando o Brasil da ditadura dos grandes latifúndios, tão comum à Primeira República, já que a história se passa no início do século XX, época em que os engenhos começam a agonizar no Nordeste e que se consolidará durante o Governo Vargas com a onda nacionalista e industrializante.
O romance lida com a decadência de uma ordem antiga, representado por Lula de Hollanda, o coronel "Lula". Lula casa com Amélia, filha do Capitão Tomás, e sua inabilidade administrativa leva-o ao longo dos anos a perder o império erguido pelo sogro. De modo que o visível declínio do engenho Santa Fé e a visão enfermiça, religiosa e delirante do coronel Lula é o próprio aspecto agônico que representa metaforicamente a morte de toda uma ordem. É notório dentro da história, a decadência política dos coronéis, na pessoa de Lula de Hollanda, e a expectativa utópica da igualdade, representado pelo capitão Vitorino.
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| Cena do filme Fogo Morto (1976), de Marcos Farias |
O que é mais saliente em Fogo Morto é a explícita descrição da agonia política por que passava o Nordeste e as posições ideológicas do autor sendo reveladas. Enquanto nos outros livros Zé Lins se portava como um contador de histórias estático, em Fogo Morto ele deixa bem claro em sua prosa regionalista o realismo histórico da dialética dos tempos. Nesse sentido, como diz Nelson Werneck Sodré em História da Literatura Brasileira, o regionalismo surgido no século XX, difere do regionalismo de José de Alencar ou de Bernardo Guimarães (escritores românticos do século XIX), pelo alto grau de veracidade da forma. E nisso Fogo Morto acentua sua importância.
Próximas leituras do mestre Zé Lins: Cangaceiros e Pedra Bonita.
O filme Fogo Morto pode ser visto no Youtube. Vi e gostei da adaptação.
terça-feira, janeiro 22, 2013
Algumas considerações sobre Usina, romance de José Lins do Rego
O romance Usina, de José Lins do Rego, finaliza de forma brilhante o Ciclo da cana-de-açucar, como ficaram conhecidos os cinco primeiros livros do paraibano - Menino de Engenho, Doidinho, Bangüe, O moleque Ricardo e Usina. É um livro repleto de polifonias e ressonâncias. Zé Lins conduz a história do livro com um arrojo e com uma capacidade elétrica que torna a leitura dessa obra do regionalismo em algo prazeroso.
A vida torna-se impossível na Bom Jesus. Dr. Luis, o inimigo de Juca e da Bom Jesus, é dono da usina São Félix. É rico, bem-sucedido. Possui a prudência e a ardilosidade das serpentes. É ele quem vai fazer a Bom Jesus desfalecer nos momentos finais, quando percebe que o inimigo não tem mais como resistir.
Usina não é o melhor dos cinco romances do Ciclo. Em minha opinião, penso que o melhor dos cinco romances seja Bangüe. Todavia, Usina é uma obra fundamental para consulta. Talvez, o que faça a obra perder em energia seja o descritivismo insistente do leitor. Os lapsos incompreensíveis. A narrativa inicial trata sobre a vida de Ricardo em Fernando de Noronha. Mais tarde descobrimos que toda aquela descrição não possui relação direta com o restante do livro. A personagem Ricardo apaga-se completamente e acaba sendo assassinado. Zé Lins permeia o romance com muitos eventos, embora seu estilo não torne a história enfadonha. Sua habilidade para narrar era incomum e é justamente esse trunfo que torna José Lins do Rego um escritor relevante para quem quer ler uma boa história, assim como o é, também, Erico Veríssimo, por exemplo. quinta-feira, janeiro 17, 2013
Impressões sobre as 100 primeiras páginas de Usina, de José Lins do Rego

Hoje, aqui em Maceió, li aproximadamente 100 páginas do romance Usina, de José Lins do Rêgo, obra escrita em 1936. O livro é conhecido por dar cabo àquilo que o escritor paraibano chamou de Ciclo da cana-de-açucar. O texto é o quinto de uma sequência bem-sucedida de romances escritos por um José Lins completamente inspirado - Menino de Engenho, Doidinho, Bangüe, O moleque Ricardo, respectivamente. É curioso notar que até Usina, os textos de José Lins saíam com uma facilidade, com uma fluência, com uma dinamicidade únicos. Após o último romance de o Ciclo da cana-de-açucar, para muitos críticos e estudiosos da obra de José Lins, há como que um esgotamento na inspiração do escritor. Mais tarde vão surgir outras obras significativas. As principais são Fogo Morto, Riacho Doce, Pedra Bonita e Cangaceiros. O que é relevante apontar nisso tudo é que antes dos regionalistas, o Nordeste não possuía voz. Não era descrito. José de Alencar andou escrevendo alguns romances piegas, numa tentativa de consolidar a literatura "com uma voz verdadeiramente brasileira". O livro que me é lembrado de Alencar é Guerra dos Mascates. Mais tarde, surge o Mulato, de Aluísio Azevedo. A história se passa no Maranhão. Os Sertões, de Euclides da Cunha, é uma das vozes mais fortes na tentativa de deslindar essa omissão. A ótica clínica e jornalística de Euclides da Cunha fez uma análise das mais brilhantes. Mas, foi somente com o movimento literário inaugurado por A Bagaceira (1928), de José Américo de Almeida, que o Nordeste ganhou notoriedade. A denúncia ganhou corpo, se avivou. O restante do Brasil passou a conhecer essa região esquecida. Uma lugar de omissões e desigualdades aberrantes. O Nordeste dos contrários. Dos homens-bichos. O Nordeste dos "homens fortes", como já advertira Euclides da Cunha.






