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quinta-feira, novembro 01, 2018

Um comentário...

Curiosamente, as reportagens que são feitas nunca colocam a fala de alguém que se opõe à suposta quebra da previdência. Observem. Só há falas afirmando que a previdência está em colapso. É como se o trabalhador fosse o responsável pelo rombo nas contas públicas. Não há a explicação, por exemplo, sobre onde está localizada e o que é a previdência e como ela é sustentada. A previdência é apenas umas das pernas da Seguridade Social, que compreende a assistência social, a saúde e a previdência social. Quando os constituintes de 88 criaram a Seguridade Social, pensaram sobre ela iria se manter. Então, entraram os seguintes personagens: o trabalhador contribui com parcela do salário (INSS); os empregadores pagam o CSLL (imposto sobre o lucro) e o imposto sobre a folha; e toda a sociedade com a COFINS (imposto embutido sobre tudo o que se adquire). Então o que acontece? O governo maquia as contas. Em primeiro, lugar há uma separação. 

A previdência é colocada de lado, transparecendo o seu peso para o equilíbrio das contas públicas. Por que eles não falam que as contas da saúde estão quebradas ou da assistência - pelo menos por enquanto? Pelo simples fato de que os valores da previdência não podem ser canalizados para outros setores. São gastos vinculados, condicionados. Eles não podem desviar para pagar, por exemplo, os juros da dívida pública. Paulo Guedes disse que o Brasil reconstrói uma Europa todos os anos com os juros da dívida. Ele é um grande hipócrita, pois, ele, como banqueiro, lucra justamente disso. Assim, o governo quando vai fazer a conta, utiliza apenas a arrecadação do INSS. Ou seja, o que é arrecadado da contribuição dos trabalhadores. Desse jeito, a conta não fecha mesmo. E outra, o governo adora fazer desonerações para as grandes empresas. Em grande sentido, atualmente, somente os trabalhadores mantêm a previdência. 

A desculpa para a reforma nos moldes que eles querem fazer é rasgar o preceito constitucional da solidariedade. Atualmente, ela é mantida a assim. Quem trabalha, paga para aqueles que já estão aposentados. Mas, chegará o dia em que nos aposentaremos e aí as gerações mais novas contribuirão para que as aposentadorias sejam mantidas. A Manu, o Bernardo, o Miguel serão os responsáveis pelas nossas aposentadorias, se tudo se mantiver como está. O que o novo governo que fazer é acabar com este princípio. Primeiro, quer tirar das empresas o imposto sobre a folha e desobrigá-las a qualquer tipo de contribuição. O governo vai chegar para cada um e falar: "Queridão, você quer se aposentar?. Então faz uma capitalização". O trabalhador vai retrucar: "Mas eu ganho pouco. Como eu vou pagar?" O governo vai responder: "Paga o que você pode". Ou seja, a capitalização vai ser injetada em um banco e o banco vai transformar em papel e aplicar no mercado financeiro para gerar lucro". No fundo, há uma grande mentira por parte do governo para tirar dos empresários qualquer compromisso e, dele mesmo, qualquer despesa com o trabalhador. O fundo público vai ser revertido para pagar os papéis dos juros da dívida.

sábado, maio 19, 2018

Algumas palavras sobre "A verdade vencerá - o povo sabe por que me condenam", de Luiz Inácio Lula da Silva

Acabei a leitura do livro "A verdade vencerá - o povo sabe por que me condenam", editado pela Boitempo. O livro é resultado de horas de entrevistas de quatro pessoas (Ivana Jinkings, Gilberto Maringoni, Juca Kfouri e Maria Inês Nassif) que dialogam francamente com Luiz Inácio Lula da Silva, uma das figuras mais importantes da história política brasileira. 

Vale mencionar os quatro textos escritos na parte inicial do livro, com destaque para a crônica política de Luis Fernando Veríssimo e o artigo preciso escrito pelo habilidoso Luis Felipe Miguel, professor da Universidade de Brasília. 

Após a leitura do livro, restou-me a impressão (ainda mais forte) de que Lula é uma figura sui generis. Seus inimigos podem não gostar de sua pessoa, mas, devem, no mínimo, respeitar a sua trajetória política e histórica. A entrevista se mostra uma verdadeira aula de como acontece o jogo político. Não há um esquematismo sistemático típico dos intelectuais herméticos. Lula discorre com simplicidade o mundo grande, graúdo, das negociações políticas; dos conchavos, das traições; de como se deve respeitar o seu mais terrível algoz. 

Demonstra uma finesse no tratamento com os adversários. "O conselho que eu dou é não entrar na política. Porque a arte da política é você conversar com os contrários". Talvez, esse respeito não seja dispensado a ele. Afinal, seus algozes são implacáveis. Lula é um exímio construtor de frases. Suas verbalizações conseguem gerar empatia. Isso é um dos seus trunfos, o que o torna popular, querido por boa parcela da população mais pobre, gerando medo nos seus adversários. 

A entrevista toca em temas políticos sensíveis como, por exemplo, a traição de companheiros de partido, como é o caso de Antônio Pallocci. Busca problematizar o que gerou o impedimento de Dilma. A dificuldade que Dilma possuía para dialogar; o fiasco das decisões tomadas por Dilma logo após a vitória eleitoral em 2014. Aquilo que foi possível realizar quando era presidente e os sonhos que alimenta em relação ao país.

Lula se afirma inocente em todas as perguntas e direciona à Lava Jato, a responsabilidade pela criação de provas forjadas para incriminá-lo. Há uma noção muita clara de quem são os responsáveis pela perseguição orquestrada contra a sua pessoa. Lula fala ainda sobre a imagem que o país passou a ter internacionalmente após o seu governo. Os principais líderes do mundo passaram a respeitar o Brasil pela capacidade que Lula tinha de negociar. Senti falta de temas relativos à América Latina. Todavia, torna-se compreensível a ausência desses temas pelo fato de, no momento da entrevista, fevereiro de 2018, a condenação pelo TRF4 e a iminência de sua prisão, serem os temas do momento.

Fui ler na Amazon alguns comentários, tentando entender a percepção de algumas pessoas sobre o livro. Assustei-me com as afirmações. Certamente, o ódio leva as pessoas a perderem a o bom-senso. Aqueles que se dizem liberais no Brasil - entre estes estão os principais perseguidores de Lula - não sabem o que é liberalismo. Lula se mostra mais liberal do que aqueles que assim se autointitulam. Aquela máxima: "Posso não concordar com o que você diz, mas devo defender até a morte o direito de você dizer" não é consdierada. Há xingamentos. Falta de trato. Ausência de respeito à trajetória política. Insinuações de que Lula é ladrão - este um dos argumentos mais baixos e rasteiros que se possa imaginar. 

Aqueles que isso insinuam, não entenderam o livro, não entenderam a aula dada por Lula. Pelo menos cinquenta anos de história política é despejada em sua entrevista, reforçada pelas mais de duzentas referências a personagens e a acontecimentos.

Se Lula fosse uma personagem do mainstream político como os tantos que existem no Brasil, ele não sofreria a perseguição diuturna de que é alvo. Essa perseguição é resultado de um preconceito por tudo aquilo que ele representa - pela sua origem, pela sua militância, pelo fato de ser uma das personagens mais respeitadas no mundo inteiro, por ter realizado um realizado um governo de que os mais pobres têm saudades, por possuir 33 títulos de doutor honoris causa; por ter fundado um partido que possui densidade política e penetração social. 

As elites brasileiras, com os seus braços de poder na mídia, no judiciário, no sistema financeiro e nos vários setores de decisões do estado, sempre se utilizaram de manobras para impedir qualquer tipo de mudança. A condenação de Lula passa por isso. Lula foi condenado e está sendo perseguido pelo fato de ser Lula. Se não tivesse essa capacidade política de mobilização que possui, seu processo prescreveria e ela ainda concorreria cinicamente às eleições com a certeza de que venceria. Não seria molestado pela opinião pública. Não haveria essa estrutura de ódio construída contra a sua pessoa. 

A crítica que percebemos nas falas do ex-presidente se assentam na credulidade exacerbada que possui nas instituições do Estado. Uma crença de que a própria sociedade que incrimina é aquela que vai inocentá-lo. Lula se esquece de dois fatos: (1) O estado moderno é uma instância do poder da burguesia, das elites que comandam o estrato social. Ela se mune construindo um muro por meio das leis e interpretações que as personagens que possuem poder de mando orquestram. Os poderes constituídos (Executivo, Judiciário e Legislativo) são instâncias que tomam decisões políticas, que criam realidades jurídicas incompatíveis com o ideal daquilo que é democracia. A expectativa de democracia no estado burguês vive de conveniências. Os golpes e a capacidade de manipulação das decisões conduzem o processo político, incriminando determinados movimentos ou permitindo a sua existência enquanto esse não oferecer resistência às estruturas de classe da sociedade capitalista. (2) Lula se esquece de que o povo, essa entidade cooptável, manipulável, precisa de uma preparação, de educação política para entender determinados processos. E foi justamente isso que o seu governo não fez. O PT não foi capaz de mobilizar os vários movimentos da sociedade civil para debater determinados temas, que são fundamentais para gerar mudanças nesse país. Se esse fato tivesse acontecido, talvez, a Dilma estivesse terminando o seu segundo mandato e Lula assumisse a presidência, pela terceira vez, permitindo ao Partido a quinta vitória. O PT permitiu que a astúcia de seus opositores fosse maior do que a capacidade de mobilização de sua militância. 

No geral, o livro é muito bom! Vale a leitura. É preciso ler com tranquilidade para perceber a sensibilidade de cada palavra enunciada por Lula. É essa sensibilidade intrínseca que torna o livro valioso. Talvez a verdade triunfe daqui a cinquenta ou cem anos, como hoje se olha pra trás e se entende as dificuldades enfrentadas por Getúlio Vargas, JK ou João Goulart. Daqui a algumas décadas, os livros mostrarão o quanto o Brasil perdeu a chance de avançar socialmente por ter "criminalizado" a figura que tinha condições de realizar isso. 

sábado, novembro 19, 2016

A violência, a sociedade brasileira e o Estado brasileiro

Comentário a uma reportagem:

A análise é precisa. Vivemos tempos difíceis, daqueles de fascismo escancarado. A Constituição de 88 ao declarar que somos um Estado Democrático de Direito, deu uma "dignidade" e ao mesmo tempo uma "tarefa" ao Estado e à sociedade brasileira para a qual ainda não estávamos preparados. Passamos da Ditadura à Democracia sem entendermos de fato o que isso significava. De repente, saímos de uma Ditadura e mergulhamos em um "espaço" que eleva o debate, que consagra os Direitos Humanos como garantias fundamentais. Todavia, passou a existir um espaço absurdo entre o proclamado pela Constituição e o vivido pela sociedade brasileira. 

O Brasil é um país violento e que possui no seu imaginário uma acepção pouco afável para com aqueles que, também, formam o corpo social. O "homem cordial", sempre pronto a acolher, a recepcionar, de Sérgio Buarque de Holanda é um mito. É só observar como o Estado brasileiro tratou as manifestações, as insurreições populares em sua história. Cito apenas três: o Quilombo dos Palmares, Canudos e os cangaceiros de Lampião. Nos três exemplos, a violência foi praticada de forma radical. Palmares foi aniquilado e seus líderes destroçados. Zumbi teve a sua cabeça cortada e exposta em Recife. Canudos foi uma das maiores genocídios praticados pelo Estado Brasileiro em sua história. Mais de 30 mil brasileiro foram mortos. No caso de Lampião, como se não bastasse o barbarismo da morte, ainda houve uma exposição pública das cabeças dos miseráveis mortos, como que para dizer: "É assim que tratamos o diferente em nosso país". Outros casos poderiam ser citados como, por exemplo, O contestado ou a Inconfidência Mineira, os mais de trezentos anos de escravidão. Ou seja, a sociedade brasileira é violenta. Ela carrega em seu interior uma noção beligerante para com o diferente. Confunde-se "justiça" com "justiçamento". Atualmente, esse "juízo do carrasco", que estava adormecido, acordou bruscamente como um vulcão com grande força eruptiva. 

Vendo a reportagem pela televisão, senti-me mal. Sabia que havia algo de estranho no modo como estava sendo veiculada. O texto apenas confirmou minha desconfiança. Os fogos de artifício representam "o retumbar da ignorância", a exatificação do quanto somos violentos. Uma comemoração basbaque e, ao mesmo tempo, sanguinária, de que a justiça está sendo feita. Aconteceu isso com o golpe parlamentar contra a Dilma, sem perceberem que era o Direito que estava sendo violado. É importante lembrar que Sergio Cabral e Garotinho são dois políticos que possuem um histórico obscuro. Mas, o que está em jogo não é somente a trajetória política dos dois. O debate está em torno de como a mídia trata/tratou a prisão preventiva de cada um deles. No Brasil, temos o seguinte rito: (1) o Ministério Público investiga, recolhe supostas e eventuais provas; pede ao Judiciário o indiciamento do investigado. O Judiciário decreta a prisão cautelar; (2) a mídia faz um trabalho sujo de difamação do sujeito, ou seja, o sujeito é "malhado" como o Judas em sábado de aleluia, numa clara violação do Estado Democrático de Direito. Isso cria um juízo moral em torno do caso. (3) quando o juiz vai julgar o caso, ele é coagido pela opinião pública, mesmo que não haja provas robustas ou indício de materialidade, a condenar o sujeito. Se o Estado não condenar, desacredita-se da justiça e do Estado. Em um Estado Democrático de Direito, as garantias fundamentais são respeitas: direito ao contraditório, ampla defesa, presunção de inocência. Ou seja, até que o julgamento aconteça, o sujeito está sendo acusado, mas tem o direito de construir a sua defesa, por isso, não pode ser culpabilizado antes do tempo. 

Direito é um tema sensível. Geralmente, entende-se que Direito é apenas aquilo que concerne ao Judiciário, aos advogados, às leis. Não. A sociedade também faz o Direito. E o que temos visto no Brasil é uma acintosa reversão, uma involução dos direitos fundamentais, que são aqueles, mínimos que sejam, capazes de ofertarem a qualquer sujeito, independentemente de sua cor, religião, origem social, opção sexual, discernimento ideológico, a capacidade de serem considerados humanos. Assustamo-nos com a ação dos agentes puxando o Garotinho pela perna (novamente, é preciso diferenciar o homem político e o paciente que estava em uma maca, precisando de cuidados), mas esse é o tratamento que muitos brasileiros e brasileiras, que vivem nas periferias têm todos os dias, sem que a mídia esteja lá para mostrar. São criaturas anônimas que sofrem com a violação de garantias mínimas que as tornem humanas. E, num processo dialético consequente, essa mesma violência é passada para a sociedade, alimentada pela mídia, represada nas entranhas e avolumada em grande poupança pelo senso comum. Resultado: temos um quadro social dramático de insegurança e sensação de insegurança.

sexta-feira, outubro 14, 2016

"Recordações do Escrivão Isaías Caminha", Lima Barreto e o Brasil

"Na redação era assim: escrevia-se, mediante ordem do diretor, hoje contra e amanhã a favor", p. 103

Lima Barreto é um dos mais importantes escritores brasileiros. Conhecer a sua obra e a sua vida gera uma admiração e, ao mesmo tempo, um senso de solidariedade com essa incrível personagem que descreveu com imensa sensatez as contradições de um país desigual e preconceituoso como é o Brasil. Lima é um brasileiro. Era gente do povo. Identificava-se com ele. Tinha a sua cor e sofreu como este mesmo povo. Sua inteligência e argúcia foram armas que permitiram que tivéssemos uma fotografia mais viva e realista da sociedade brasileira do início do século XX, na chamada República Velha. 

A literatura de Lima Barreto não está circunscrita ao seu tempo. É uma reflexão atemporal. Nela enxergamos as mesmas vicissitudes sociais que até hoje atrasam o Brasil. Curioso é perceber que após cem anos da sua vida e da escrita dos seus textos, Lima parece ainda está entre nós. É como se tivéssemos um retratista, um cronista a falar da política, da economia, do jogo ardiloso dos jornais, sempre a construir narrativas que ludibriam o povo e favorecem os ricos. 

Pois é seguindo esse impulso que o seu primeiro livro Recordações do Escrivão Isaías Caminha é escrito. Nesta obra, Lima procura "cutucar" a vaidade daqueles que mandam no país, criticando o jogo de aparências que lhes é próprio. O autor narra a história de Isaías Caminha, um jovem sonhador que sai do Espírito Santo com destino ao Rio de Janeiro para tentar a vida. Isaías ambiciona tornar-se "doutor". (Ah! Doutor! Doutor!... Era mágico o título, tinha poderes e alcances múltiplos, vários, polifórmicos..." Ou: "Quantas prerrogativas, quantos direitos especiais, quantos privilégios, esse título dava! Podia ter dois e mais empregos apesar da Constituição; teria direito à prisão especial e não precisava saber nada"). Observe a crítica afiada do autor - e ainda bastante atual.

Vem sozinho. Não conhece ninguém na nova cidade. Deslumbra-se com as maravilhas da Capital Federal. Mas, aos poucos descortina-se sobre ele a realidade. O dinheiro acaba. Começa a passar fome. Perambula pela cidade. É confundido com um ladrão. Procura emprego. Não logra êxito. Quando a chance parece acenar-lhe, o dono do estabelecimento - um padeiro - não o aceita por causa da cor. Isaías experimenta a criminosa indiferença e o preconceito de uma sociedade que não acertou contas com a escravidão e que enxerga nos negros e seus descendentes uma condição inferiorizante. 

Apesar dos muitos reveses, Isaías acaba como "foca" de jornal, uma profissão subalterna. Mas é ali que ele observa os tipos mais finórios de uma sociedade atrasada e subserviente às elites europeias. O Jornal é O Globo, uma criação fictícia. Lima dirigia as suas críticas ao poderoso Correio da Manhã, o jornal mais influente da época. A narrativa, a partir desse ponto, torna-se um estudo do comportamento humano e social. Enxergamos a crítica feroz de Lima na pessoa de Isaías. São invectivas ácidas, acerbas; flechas saídas de um braço retesado e com a capacidade certeira. 

O autor toca em um dos pontos mais sensíveis da história republicana - o poder que a mídia exerce. A crítica suscitada é atual em sua problemática, pois a mídia continua a exercer um poder ainda bastante representativo no Brasil. Ela alimenta-se do sensacionalismo e sua atuação está assentada na violação à ética. O compromisso dos donos de mídia, ainda continua sendo em causa própria sob a conivência do poder público. É só observar como os acontecimentos políticos são tratados no nosso país. Emissoras são capazes de colocar e retirar presidentes. Robustecer a imagem de determinadas figuras e linchá-las diuturnamente a fim de que caiam em desgraça perante a opinião pública. Dois casos bastante emblemáticos podem ser citados. As duas deposições de presidentes da República que tivemos, a primeira em 1992 (Fernando Collor) e, a segunda, em 2016 (Dilma Rousseff), tiveram necessariamente a interferência da mídia na compreensão da sociedade; no modo como as opiniões são construídas.

Ou seja, nota-se que a crítica de Lima ainda continua bastante atual nesse sentido. O jogo hegemônico da mídia é uma arma dos poderosos para se perpetuarem no controle da sociedade. Caso curioso acontece nas Recordações. Diz Lima pro meio da observação de Isaías, que houve uma manifestação incitada pelo poderoso veículo de comunicação. O povo foi insuflado à indignação. Tratava-se de uma ação cega, "improvisada", "sem fisionomia", nas palavras do próprio escritor.

No jornal exultava-se. As vitórias do povo tinham hinos de vitórias da pátria. Exagerava-se, mentia-se, para se exaltar a população. Em tal lugar, a polícia foi repelida; em tal outro, recusou-se a atirar sobre o povo. Eu não fui para casa, dormi pelos cantos da redação e assisti à tiragem do jornal: tinha aumentado cinco mil exemplares. (p.144)

O "povo", essa designação abstrata e imponderável, havia sido envenenado, manipulado, pelas intenções secundárias do operadores da redação. A crítica mordaz de Lima contra o poderoso jornal e a pessoa do seu proprietário, Edmundo Bittencourt, rendeu a execração do autor. O poderoso "barão" da mídia proibiu que o nome de Lima fosse citado sobre qualquer pretexto naquele veículo comunicativo. Essa injunção acabou sendo acatada pelos demais jornais cariocas. Isso acabou por impedir a descoberta do talento do autor de O triste fim de Policarpo Quaresma. Um dos sujeitos mais conscientes da realidade brasileira do início do século experimentou aquilo que criticou. Os jornais possuem um poder terrível.

As dificuldades impostas, fizeram com Lima publicasse primeiramente as Recordações em Portugal. As portas haviam sido fechadas do lado de cá. No decorrer dos anos, o autor experimentou uma grande dificuldade para inserir os textos no cenário literário. Abandonava-se o autor pela crítica certeira, pela origem, pela cor e por uma suposta inabilidade para com a escrita. Sabe-se que isso é uma grande inverdade. Lima soube dar expressão a uma literatura modernista em sentido pleno. O autor já problematizava o país antes mesmo que o regionalistas de trinta o fizessem. É nesse sentido que o carioca mantém a sua atualidade e o seu poder penetrante na análise.

Assim, ler o Lima é descobrir o Brasil. É identificar-se com o drama brasileiro. Perceber o quanto somos tacanhos. O nosso atraso crônico. A arrogância, o preconceito e o autoritarismo de nossas elites.

Por esses dias, estou lendo Os bruzundangas, outra obra que revela o Brasil.

domingo, maio 01, 2016

O arrivismo midático nosso de cada dia

Hoje cedo fui à uma banca de jornal aqui perto de casa comprar um dos exemplares da Coleção Folha. Analisei os 28 livros constantes da promoção e resolvi comprar dezessete deles. Alguns dos livros eu já tenho, mas mesmo assim comprarei (sic). A edição é elegante e a tradução é melhor trabalhada. É o caso, por exemplo, dos dois exemplares que adquiri hoje - A morte de Ivan Ilitch (Tolstói) e Um aprendizado ou o livro dos prazeres (Clarice Lispector). 

Após ter comprado os livros, pus-me a ler as reportagens dos jornais e revistas. Uma indisposição, um asco foi sendo fermentado à medida que lia o mau-caratismo discursivo da mídia hegemônica. A Veja trazia palavras fortes como "plano radical para zerar déficit público"; "Meireles e Serra, o time de atacantes da política externa" etc. Eram palavras e expressões afirmativas, que ensaiavam projeções otimistas, bem diferentes daqueles que vimos nas últimas semanas acerca do ainda sobrevivente e agonizante governo Dilma. A única nota negativa era uma uma denúncia contra Lula, acusado de receber "mensalão da OAS desde a década de 80", mas nesse ponto temos "mais do mesmo". 

A Isto É avançava em um discurso babão e mais canino. Um fundo vermelho com as fotografias de Lula, Dilma e João Pedro Stédile, líder do MST, expunha uma atmosfera de raiva e ódio. A reportagem trazia em letras garrafais: "Os sabotadores do Brasil". Duas outras reportagens encimavam o veículo ordinário (não chamo aquilo de jornalismo). Jornalismo pressupõe responsabilidade com a construção da notícia e a entrega abnegada do fato (não devemos falar em imparcialidade, pois ela não existe), algo impossível no Brasil. A primeira buscava enlamear a figura de Lula; a segunda, trazia o título "Meireles na Fazenda - o nome que entusiasma o mercado e a sociedade". É interessante notar a busca desavergonhada de fecundar, por meio da generalização, uma uniformidade possível, um clima de leveza, de consenso. Essa tônica "imparcial" era seguida por todos os demais veículos jornalísticos. Não havia um "discurso  destoante", que se contrapusesse a esse jornalismo marrom, viciado, inimigo da verdade e da isenção. 

Todos eles ficam à porta da banca, em lugar visível. As outras revistas que possuem um discurso contra-hegemônico (Caros Amigos, Revista Piauí, Le Monde Diplomátique etc) ficam em lugar escuso, como se fossem aquele material encalhado, procurado por seres estranhos, de outro planeta. Trata-se de quinquilharia, certamente. É como se alguém chegasse procurando algo exótico e o dono do estabelecimento dissesse: "Olha, eu tenho o que está aí! Mas espera aí! Há um negócio por ali, que quase num sai. Tá meio empoeirado! Mas dá uma olhada!" E colocasse sobre o balcão papiros fossilizados. Material para arqueologista. Arquivos seletos para entes secretos.

Desse fato surgem duas questões: (1) Quando terá fim esse massacre, esse bombardeio dessa mídia marrom, arrivista, conservadora, inimiga do povo e acumpliciada com o grande capital? E nesse sentido é necessário fazer uma crítica sólida ao PT, que em quatro mandatos, não moveu um centímetro a legislação da política de meios no Brasil. Os grandes grupos, leia-se cinco famílias, continuam "a formar opinião" no Brasil, criando consensos e estabelecendo "o olhar", "a plataforma política" e "as crenças da sociedade brasileira". Com o novo cenário político que se desenha, torna-se mais distante a possibilidade de qualquer movimento nesse sentido. (2) A consequência dessa blitzkrieg midiática é o envenenamento da opinião pública. Qual é a saída? O meio alternativo que projeta para a sociedade uma outra forma de enxergar os acontecimentos políticos do país de forma responsável? Gostaria, nesse sentido, de apontar uma crítica: por que o PT não fundou uma TV pública, com uma programação capaz de fazer frente ao que aí está posto? O sujeito médio, "educado" pela Veja, Revista Época, Isto É; pelo conglomerado dos jornais estaduais, pertencentes aos clãs que representam as oligarquias, inimigas do povo, seja do Goiás, Alagoas, Piauí, Rondônia ou Rio Grande do Sul; pelos jornais televisivos, pelas emissoras de rádio, ouvirá apenas uma versão "da realidade", a saber, aquela que é de interesse das elites desse país e isso "modelará" inexoravelmente o seu olhar. O ódio instalado contra o governo atualmente é o resultado desse trabalho, como se o PT tivesse inaugurado a corrupção no país; como se antes do PT, o Brasil fosse um Éden, onde as pessoas 'viviam felizes' e 'se alimentavam da árvore da vida, que está no centro do jardim'.

Às vezes, bate-me uma vontade de que aquele dispositivo que existe no filme Homens de Preto, capaz de bloquear a memória e impedir que o sujeito tenha acesso ao que aconteceu com ele, existisse de verdade. Poderíamos utilizá-lo para esquecer tudo isso e começarmos do zero. Como isso não é possível, ficamos imersos nesse imenso mar de desânimo. Olhamos em volta e vislumbramos horizontes turvos. Ignorância e alienação por todos os lados. E como diz a música Vícios de Linguagens do Engenheiro do Hawaí: 

Tudo se resume a uma briga de torcidas
E a gente ali no meio, no meio das bandeiras
O jogo não importa, ninguém tá assistindo
E a gente ali no meio, no meio da cegueira
Tudo se reduz a um campo de batalha
E a gente ali no meio
Tudo se resume a disputa entre partidos
Lama na imprensa, sangue nas bandeiras
A verdade passa ao largo, como se não existisse
E a gente ali no meio, como se não existisse
Tudo se reduz, a uma cruz e uma espada

Ficamos ali, sem jeito, sem escapatória, sem possibilidade de fuga, vendo aonde tudo vai dar, enquanto as revistas, jornais e a TV, alimentam com seus discursos de cobiça, a indigência alheia. 

domingo, março 20, 2016

Os heróis e a conveniência

 
A mídia burguesa precisa construir heróis para que os setores conservadores tenham uma sensação de que a justiça está sendo feita. Todavia, todo Aquiles possui um calcanhar... O que a mídia não fala é que a luta de classes tem lado. De um lado os trabalhadores, que precisam de mobilização, organização; do outro, todo o aparato que legitima esse estado de coisas da ordem burguesa (a mídia nos seus mais variados formatos a destilar consensos, empresários, setores do Estado - Polícia Federal, Judiciário, Ministério Público, que são instâncias em que "os embaixadores das elites" se estabelecem para subverter as garantias constitucionais) -, os rentistas etc. No Legislativo, boa parte dos parlamentares são meninos de negócio do capital. No meio disso tudo está a classe média "fascinada" com essa cantilena de força tarefa anticorrupção. A corrupção deve ser vista como elemento antropológico no Brasil. Deve ser estudada, debatida, pesada, avaliada. Não é um sujeito que vai erradicá-la. 

O que está em jogo é a implosão do Estado Democrático de Direito, construído a duras penas. O que está em jogo ainda é uma dura ofensiva conservadora neoliberal que virá com fúria total contra os trabalhadores e contra os direitos trabalhistas. Lembrem-se de que o projeto da terceirização está guardado "em banho maria". Ainda não foi completamente derrotado. Que o desejo da FIESP é a derrocada da CLT; a morte dos direitos que ainda dão dignidade ao trabalhador - 13° salário, férias, seguro desemprego etc; que o PSDB, o partido com mais chances de assumir a presidência caso o PT saia de cena, foi majoritariamente favorável ao projeto quando este foi votado na Câmara. A classe média não consegue enxergar que a gravidade impele para baixo todo corpo que é jogado para cima. Uma pedra atirada para o alto, pode voltar sobre a sua própria cabeça. É só olhar para o lado e perceber o que Macri tem feito com a Argentina. Mais de 30 mil servidores públicos já foram demitidos; arrocho; aumentos desordenados para favorecer o grande capital. O capital precisa de crises para se fortalecer. Todas as vezes em que há crises, quem perde são os trabalhadores que precisam voltar a rolar a pedra para tentar subir a montanha como no mito de Sísifo.
P.S. Como disse alguém, há alguns anos atrás foi o Joaquim Barbosa.

quinta-feira, dezembro 03, 2015

Meu desalento e o momento político

Após alguns meses de ausência, eis que volto a este espaço para debulhar algumas garatujas e sensaborias. Ontem, no princípio da noite, após ter ido a uma confraternização, recebi uma atualização no meu celular sobre o pedido deflagrador do impedimento político de Dilma por parte de Eduardo Cunha. Aquela notícia - também comentada por dois ou três circunstantes da mesa - me deixou com uma preocupação imprecisa, um misto de ânsia e afetamento moral. 

Vivemos dias tão estranhos, que nivelamos todas as invirtudes. Misturamos o alto e o pequeno; o dia e a noite e dizemos que não há diferenças nítidas entre eles. O governo de Dilma Rousseff tem sofrido aberrantes ataques. Uma horda de abutres políticos arranca pedaços do já desfalecido organismo tombado e transmite esses vapores venenosos para a sociedade. O corpo sem reação sofre golpes por todos os lados e, por mais que tente se erguer, não dispõe de forças suficientes para tal. Suas investidas são confusas. Associam-se ao incerto, acumpliciam-se com o duvidoso, o que torna a visão potencializadora de melancolia e desespero.

Quando cheguei à noite, conversei com a minha companheira e declarei o meu abatimento. Relatei o meu desalento em viver em um país onde a democracia é só um nome de fachada, pois o que prevalece é a negociata, a mão que entrega o maço de dinheiro por debaixo da mesa. Um país cujo processo de participação popular é quase inexistente, cujo colóquio com as massas é uma realidade virtual; país cujo ethos do colonialismo ainda está fincado em nossa consciência, insinuando-se como mensagem subliminar, impedindo avanços, freando qualquer tentativa de partida. A história tem mostrado que caminhamos cinco anos e retrocedemos trinta.

É triste viver em um país, em que desde a Proclamação da República (1889), seis ou sete golpes da burguesia aconteceram trazendo implicações medonhas para o nosso ralo formato democrático. E a essa altura do campeonato, uma presidenta legitimamente eleita pelo povo (mais de 54 milhões de votos) tem à sua frente um horizonte nebuloso e espectral. E quais são as consequências disso para os trabalhadores?

É triste viver em um país em que as elites detentoras dos meios de comunicação constroem uma cortina de fumaça para que o povo não enxergue, de fato, os bastidores da República: o jogo sujo, de interesses velados e explícitos; o lobbysmo dos mau-caráter, o discurso ambíguo dos moralistas, o fascismo dos interesses anti-humanitários, o atentado contra as minorias, o derretimento dos valores fundamentais expressos na Constituição. 

E o que causa um profundo enfado é saber que o start, o disparo contra a presidente foi dado por uma crápula, uma pulha, um sujeito sem moral, cujo deus a quem serve, no dizer de Cristo, é mamon (o deus dinheiro). Um falsário, um pilantra de quinta categoria, que visualiza apenas o próprios interesses e está pouco preocupado com o destino político e econômico do país. O senhor Cunha faz parte de uma sigla partidária que tem apenas uma ideologia: o poder. Sua existência de inseto se assemelha a de um carrapato, que para existir, gruda-se a algum organismo e chupar-lhe o sangue. O organismo o qual o PMDB parasita é o Estado. O partido do senhor Cunha (juntamente com ele e seus asseclas) atenta contra o Brasil. Nele estão empresários, sujeitos encalhados, decadentes politicamente, analfabetos de toda estirpe, cujo interesse é o poder a consequência dele: o dinheiro do erário. 

Penso que o problema do partido da presidente foi fazer aliança com essa canalha. Negociar com "pirata" é correr o risco de ser traído. O erro do Partido dos Trabalhadores foi escolher o outro lado; fortalecer as elites; entrar em um jogo em que a moralidade é um princípio desconhecido. Fortalecer as hostes do "achacadores" da República. Tivesse dialogado com os movimentos sociais, fortalecido a sua militância de base, buscado a força dos trabalhadores, talvez, não estivesse sendo balançado por ventos tão medonhos. O Governo alimentou um monstro e, hoje, tenta controlá-lo com plumas de ganso. 

Aqueles que acham que pior do que está não fica, podem está enganados. Pensar que tirar Dilma "estabiliza" a casa é ter uma visão "pequena" sobre os fatos. É ser simplista. Dilma com todas as fragilidades, é o melhor que temos "no momento" a favor dos trabalhadores e dos movimentos sociais. Sua fraqueza se materializa em um fato, por conta da opinião pública. Ela apanha por está sendo esmagada pelo abraço de serpente da mídia. Sem força, ela vacila e claudica. Não governando Dilma, quem se colocaria no lugar dela? Em linha sucessória direta de acordo com a Consituição: Temer, Cunha, Renan, Lewandowsky? Em um outro pleito: Aécio? Ora, não sejamos inconsequentes!

A tristeza subiu leve por escadas invisíveis e chegou até o meu coração. Acordar todos os dias. Trabalhar. Ver a soma de descontos no seu contra-cheque. Construir discursos. Acreditar em melhores dias. Fazer militância. Defender os seus ideias. Entender que está do lado do oprimido é está do lado certo. Todavia, perceber que as instituições políticas do seu país militam contra o seus sonhos, a saber,  de ver um país mais justo, fraterno e com seguridade social plenos, deixa o sujeito zonzo, como se tivesse levado uma pancada no crânio. É assim que me sinto!


terça-feira, agosto 04, 2015

A prisão de Zé Dirceu é um lance de xadrez para aplicar o xeque-mate

O xadrez político do mês de agosto revela lances premeditados, previsíveis. Não há um córrego intermitente a impelir um regato tímido e morrediço como muitos acham. Há um mar revolto, com águas vermelhas, caóticas, representando hegemonicamente os anseios de boa parcela da população brasileira. A mídia (os jornalões, os revistões e a televisão), os partidos de oposição, o Judiciário, os presidentes do Senado e da Câmara, o alto escalão do empresariado, estudam movimentos para asfixiar o Governo com um xeque-mate. A prisão do Dirceu é uma tentativa de atingir o Lula. O alvo do juiz Sérgio Moro e da mídia é o Lula. Repito: o alvo das investigações é o Lula. Eles movimentam as peças. Sabem que cada lance deve ter uma ciência. Uma vez que se atinja o Lula, desmorona o castelo do Partido dos Trabalhadores. Eles possuem o poder, são uma categoria que manipula o cenário político. Mas sabem que não podem aplicar um golpe sozinho. Por isso, criam um cenário de implosão, de um armagedom de corrupção com suas notícias seletivas e tendenciosas. 

Quem monta o palco para o golpe são as elites, mas quem bate palmas para as ações farsescas da burguesia são os setores conservadores da sociedade.  Marx em seu livro "18 de Brumário de Luís Bonaparte", um estudo que fez sobre o golpe de estado aplicado na França pelo sobrinho de Napoleão - Luís Bonaparte - disse algo fantástico: "Em alguma passagem de suas obras, Hegel comenta que todos os grandes personagens da história mundial são encenados, por assim dizer, duas vezes. Ele se esqueceu de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa". E mais à frente: "Os homens fazem sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram. A tradição de todas as gerações passadas é como um pesadelo que comprime o cérebro dos vivos". 

Ou seja, é possível perceber um certo movimento que se repete - não da mesma forma. Uma ação deliberada, que caminha com passos silenciosos, velozes, para asfixiar os setores progressistas do país. O que vemos hoje é uma declaração de extinção dos valores e direitos fundamentais preconizados na Constituição. A oposição está pouco se lixando com a dita corrupção do PT. Ela sabe que, no fundo, os seus próprios valores não são íntegros, probos, retos e a favor da justiça. O que ele procura é rechaçar de qualquer forma o perigo que o PT representa. Ela quer o Estado de volta. E, atualmente, "o tema corrupção" é aquilo que deslumbra e indigna a sociedade. A corrupção faz parte do "modus faciendi" da sociedade brasileira. O modo de navegação que impele o sujeito médio do país é aquele que faz com que ele busque tirar vantagens do máximo de situações, sem se preocupar com o outro ou com os efeitos de sua ação sobre a coletividade. Chico Buarque ironizou isso em uma de suas músicas, dizendo que "não existe pecado do lado de baixo do equador". Enquanto não se entender isso, continuaremos a apontar dedos, desferindo golpes inocentes em inimigos invisíveis. 

O fato é que o cenário é complicadíssimo para o Governo. A mídia e os outros jogadores citados acima - que fazem parte do mesmo grupo - sabem que é preciso incendiar, jogar combustível, alimentar a indignação alienada da classe média para que a marcha acéfala do dia 16 ganhe corpo e não seja como a última que aconteceu em abril. É preciso arranjar atores, imolar supostas vítimas. José Dirceu é o cordeiro que serviu para a situação. Mas, ainda não parou. Os tentáculos do juiz Moro são insaciáveis. O objetivo é alcançar o Lula. 

E quando isso acontecer, o país enfrentará dias difíceis. Nossa "democracia racionada" correrá perigo e de transformar numa "democracia extinta". O voto de 54 milhões de pessoas serão jogados na latrina da história. E aí, para evocar Marx, teremos tragédia e farsa sendo encenadas. E muitos baterão palmas nesse dia - sem saber por quê.