domingo, maio 01, 2016

O arrivismo midático nosso de cada dia

Hoje cedo fui à uma banca de jornal aqui perto de casa comprar um dos exemplares da Coleção Folha. Analisei os 28 livros constantes da promoção e resolvi comprar dezessete deles. Alguns dos livros eu já tenho, mas mesmo assim comprarei (sic). A edição é elegante e a tradução é melhor trabalhada. É o caso, por exemplo, dos dois exemplares que adquiri hoje - A morte de Ivan Ilitch (Tolstói) e Um aprendizado ou o livro dos prazeres (Clarice Lispector). 

Após ter comprado os livros, pus-me a ler as reportagens dos jornais e revistas. Uma indisposição, um asco foi sendo fermentado à medida que lia o mau-caratismo discursivo da mídia hegemônica. A Veja trazia palavras fortes como "plano radical para zerar déficit público"; "Meireles e Serra, o time de atacantes da política externa" etc. Eram palavras e expressões afirmativas, que ensaiavam projeções otimistas, bem diferentes daqueles que vimos nas últimas semanas acerca do ainda sobrevivente e agonizante governo Dilma. A única nota negativa era uma uma denúncia contra Lula, acusado de receber "mensalão da OAS desde a década de 80", mas nesse ponto temos "mais do mesmo". 

A Isto É avançava em um discurso babão e mais canino. Um fundo vermelho com as fotografias de Lula, Dilma e João Pedro Stédile, líder do MST, expunha uma atmosfera de raiva e ódio. A reportagem trazia em letras garrafais: "Os sabotadores do Brasil". Duas outras reportagens encimavam o veículo ordinário (não chamo aquilo de jornalismo). Jornalismo pressupõe responsabilidade com a construção da notícia e a entrega abnegada do fato (não devemos falar em imparcialidade, pois ela não existe), algo impossível no Brasil. A primeira buscava enlamear a figura de Lula; a segunda, trazia o título "Meireles na Fazenda - o nome que entusiasma o mercado e a sociedade". É interessante notar a busca desavergonhada de fecundar, por meio da generalização, uma uniformidade possível, um clima de leveza, de consenso. Essa tônica "imparcial" era seguida por todos os demais veículos jornalísticos. Não havia um "discurso  destoante", que se contrapusesse a esse jornalismo marrom, viciado, inimigo da verdade e da isenção. 

Todos eles ficam à porta da banca, em lugar visível. As outras revistas que possuem um discurso contra-hegemônico (Caros Amigos, Revista Piauí, Le Monde Diplomátique etc) ficam em lugar escuso, como se fossem aquele material encalhado, procurado por seres estranhos, de outro planeta. Trata-se de quinquilharia, certamente. É como se alguém chegasse procurando algo exótico e o dono do estabelecimento dissesse: "Olha, eu tenho o que está aí! Mas espera aí! Há um negócio por ali, que quase num sai. Tá meio empoeirado! Mas dá uma olhada!" E colocasse sobre o balcão papiros fossilizados. Material para arqueologista. Arquivos seletos para entes secretos.

Desse fato surgem duas questões: (1) Quando terá fim esse massacre, esse bombardeio dessa mídia marrom, arrivista, conservadora, inimiga do povo e acumpliciada com o grande capital? E nesse sentido é necessário fazer uma crítica sólida ao PT, que em quatro mandatos, não moveu um centímetro a legislação da política de meios no Brasil. Os grandes grupos, leia-se cinco famílias, continuam "a formar opinião" no Brasil, criando consensos e estabelecendo "o olhar", "a plataforma política" e "as crenças da sociedade brasileira". Com o novo cenário político que se desenha, torna-se mais distante a possibilidade de qualquer movimento nesse sentido. (2) A consequência dessa blitzkrieg midiática é o envenenamento da opinião pública. Qual é a saída? O meio alternativo que projeta para a sociedade uma outra forma de enxergar os acontecimentos políticos do país de forma responsável? Gostaria, nesse sentido, de apontar uma crítica: por que o PT não fundou uma TV pública, com uma programação capaz de fazer frente ao que aí está posto? O sujeito médio, "educado" pela Veja, Revista Época, Isto É; pelo conglomerado dos jornais estaduais, pertencentes aos clãs que representam as oligarquias, inimigas do povo, seja do Goiás, Alagoas, Piauí, Rondônia ou Rio Grande do Sul; pelos jornais televisivos, pelas emissoras de rádio, ouvirá apenas uma versão "da realidade", a saber, aquela que é de interesse das elites desse país e isso "modelará" inexoravelmente o seu olhar. O ódio instalado contra o governo atualmente é o resultado desse trabalho, como se o PT tivesse inaugurado a corrupção no país; como se antes do PT, o Brasil fosse um Éden, onde as pessoas 'viviam felizes' e 'se alimentavam da árvore da vida, que está no centro do jardim'.

Às vezes, bate-me uma vontade de que aquele dispositivo que existe no filme Homens de Preto, capaz de bloquear a memória e impedir que o sujeito tenha acesso ao que aconteceu com ele, existisse de verdade. Poderíamos utilizá-lo para esquecer tudo isso e começarmos do zero. Como isso não é possível, ficamos imersos nesse imenso mar de desânimo. Olhamos em volta e vislumbramos horizontes turvos. Ignorância e alienação por todos os lados. E como diz a música Vícios de Linguagens do Engenheiro do Hawaí: 

Tudo se resume a uma briga de torcidas
E a gente ali no meio, no meio das bandeiras
O jogo não importa, ninguém tá assistindo
E a gente ali no meio, no meio da cegueira
Tudo se reduz a um campo de batalha
E a gente ali no meio
Tudo se resume a disputa entre partidos
Lama na imprensa, sangue nas bandeiras
A verdade passa ao largo, como se não existisse
E a gente ali no meio, como se não existisse
Tudo se reduz, a uma cruz e uma espada

Ficamos ali, sem jeito, sem escapatória, sem possibilidade de fuga, vendo aonde tudo vai dar, enquanto as revistas, jornais e a TV, alimentam com seus discursos de cobiça, a indigência alheia. 

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