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terça-feira, abril 01, 2025

Um encontro

Cena do filme "Rapsódia em agosto", de Akira Kurozawa
 

               “Não existe morte natural. Nada que acontece a um homem é natural, já que sua presença coloca o mundo em questão”.

Simone de Beauvoir

Nestes dias iniciais de 2025, estou passando alguns dias na minha terra de nascimento; aquilo que os antigos chamavam de “pátria”, “a terra dos pais”. É muito representativo realizar esse tipo de visitação. Ajuda-me a entender certos fenômenos, certos pensamentos; a organizar os sentimentos; a compreender a maneira como ajo; meus silêncios, minhas dúvidas, medos e minha disposição incansável para a casmurrice. Alguns fatos são admitidos ou compreendidos após o trabalho do tempo.

Esta semana, fui com minha mãe visitar aquela que é considerada minha madrinha. Há uma tradição entre os nordestinos e, talvez, em outras regiões do Brasil de, por estimação, dar o filho, quando este nasce, para que alguém seja padrinho ou madrinha. Tal escolha reflete um tipo de honra e potencializa laços de fraternidade. Evidencia-se nessa ação um certo lastro virtuoso, pois certas qualidades precisam ser analisadas. Geralmente, a escolha solidificará ainda mais a amizade entre as partes envolvidas. As gerações mais novas não entendem o significado desse tipo de escolha. O costume tem se perdido ao longo do tempo.

Não atribuo muita relevância a esse tipo de tradição, mas respeito o seu significado. Convocado por minha mãe, fui de maneira cordata. Era uma questão de honra que eu fosse visitar a comadre Bil. Cheguei à casa pequena, no bairro do Cajá, em Vitória de Santo Antão – minha cidade. A casa onde já estivera antes, é pequena, acanhada, despojada de conforto, espremida entre outras casas semelhantes. A rua de pedra irregular é estreita. Ao chegar, os vizinhos ficaram observando quem eram os forasteiros. Suas três filhas nos recepcionaram. Depois das amenidades iniciais, fui conduzido ao quarto para poder falar com ela. Em um espaço pequeno, abafado, sentada sobre uma cama, ela se encontrava. Acometida por uma cegueira, resultante de um glaucoma, comadre Bil aguardava com o seu aspecto pequeno e frágil. Falamos rapidamente. Dei a benção a pedido de minha mãe – um gesto que indicador de respeito. Aquiesci por entender o que o momento representava. Minha mãe – parece que intencionalmente saiu; fiquei sozinho com aquela figura pequena, habitada por memórias e vivências. Fazia um bom tempo que eu não dirigia a palavra àquela pessoa que se encontrava sobre cama, em um espaço exíguo, de aspecto encurvado. Olhei buscando resgatar outras memórias. Imagens dela ainda jovem. A memória não realizou exercício tão promissor.

Narrou-me com sua fala ordeira e contada, uma multidão de fatos. Passeamos pelo passado. Ela contou sobre como se tornou vizinha do meu avô, quando tinha dezenove anos de idade. Descreveu pormenores sobre os meus tios com uma desenvoltura bíblica. Falou sobre as árvores frutíferas que cultivara em seu sítio, antes da mudança para Vitória de Santo Antão, algo que se deu há quase quarenta anos.

Tenho memórias esparsas de como era a sua casa. A sala com plantas. Algumas trepadeiras. Suas filhas costumavam passar óleo de soja nas folhas para que elas brilhassem. O chão limpo. Os sofás rústicos. A imagem dela e do meu padrinho desenhada na parede. O bigode desenhado do meu padrinho. O corredor que levava à cozinha. Na caminhada que se fazia da sala à cozinha, era possível passar por dois ou três quartos. Um pano ordinário fazia o papel de cortina. Não era possível enxergar nada. Eram furnas misteriosas. Minha memória não consegue fixar nenhuma forma naquele espaço. A cozinha também é um espaço, em minha memória, sem móveis; não consigo formular um pedaço da silhueta de qualquer coisa.

A porta era daquelas com dois compartimentos. Era possível abrir a parte de cima e deixar a parte de baixo fechada. Da cozinha, era possível enxergar, do lado direito, uma ampla porção do sítio. Em certa ocasião, em um mês bastante chuvoso, aconteceu um episódio que permanece em minha cabeça. João Severo, meu padrinho, plantou um pé de banana nanica. Com a chuva, o adubo e a boa terra, a planta deu um cacho de banana enorme. A planta inclinava-se para o chão. O pé da planta era sustentado por uma estaca, que foi providenciada para que a planta não viesse abaixo. Em um dia qualquer, uma torrencial chuva, seguida de um vento uivante, ameaçava derrubar o pé de banana. Seria uma grande perda. Estávamos todos na cozinha. João Severo ao constatar o que estava para acontecer, saiu em disparada a fim de remediar o que parecia inevitável. Ele desejava firmar outra estaca. A chuva grossa e o vento vigoroso davam a aparência ao meu padrinho de uma figura pequena que lutava contra forças ancestrais. A camisa aberta e o chapéu de palha conferiam à sua aparência o aspecto de um xógum que enfrentava as forças naturais com bravia inteligência e resistência. Não lembro qual foi o desfecho da luta.

Relaciono a cena de João Severo em sua luta particular, épica, para não permitir que o pé de bananeira viesse a pique, por causa dos golpes lancinantes que tomava das forças naturais, com imagem da senhora pequena e frágil que caminha empunhando um guarda-chuva, em meio à tempestade, do filme “Rapsódia em agosto”, de Akira Kurozawa. A delicada figura curvada avança inexpugnável, decididamente. Tudo é grande para ela. Associo o meu padrinho a essa imagem. Sua teimosia resistente contra o vento rodopiante e a chuva espessa era a luta do pescador de “O velho e o mar”, de Ernest Hemingway. Enquanto conversava com ela, esses temas passavam pela minha cabeça como cenas de um filme.

Com 78 anos de idade, impedida de caminhar (perdeu o movimento das pernas, após uma queda e uma cirurgia sem sucesso), cega, ela depende das filhas. A certeza que me ficou é que há memórias vivas dentro dela. Sua lucidez é um farol na noite escura em que vive. O corpo impôs certos condicionamentos. Impedida de ver, ela lembra; sem possibilidades de locomoção, ela demonstra uma ambivalência entre a necessidade e a suficiência.

Fiquei com sua imagem pequenina. Impactou-me vê-la daquela forma. Daí, volto à frase de Beauvoir: “nada que aconteça ao homem é natural”. Somos mais que os determinismos biológicos do corpo. Todavia, só podemos ser no corpo. Dessa forma, somos a mistura da fragilidade corpórea com a potência dos afetos, ou seja, daquilo que nos faz ser e existir.

Suas filhas disseram à minha mãe que ela chorou bastante quando fomos embora. Disse que gostou de ter conversado comigo. Verbalizou que gostaria de ter me visto, constatado como eu estou fisicamente.

Escrito em janeiro de 2025, em Vitória de Santo Antão-PE

quarta-feira, agosto 09, 2023

9 de agosto de 1979

 

O lugar em que ficava a casa. Na estradinha distante, o lugar em que morava seu Erasmo. 

Em um dia como este só me vem à cabeça as imagens descritas por José Lins do Rego em “Meus Verdes Anos”. Nas páginas iniciais, quando faz referência à morte de sua mãe, ele fala de “névoas espessas” da memória. De um momento em que as imagens se misturavam; confundiam-se; voavam; pareciam indivisas.  Da infância ficavam os pequenos registros. As imagens que se prenderam à memória pela significação que elas tiveram no momento em que aconteceram.

                Diz minha mãe que, dia 9 de agosto de 1979, deu numa quinta-feira. Ela passara a noite inteira do dia 8 com lancinantes contrações. Eu estava dando trabalho para nascer. Os recursos eram escassos. O casal humilde, que era o meu pai e minha mãe, morava numa casa de barro, desguarnecida de qualquer conforto. Não havia móveis. O barro cru que cobria a armação de gravetos dava um aspecto primitivo àquele lugarejo. Às vezes, quando tenho a oportunidade de ir ao local onde nasci, fico a observar tentando desenhar com a fantasia a possível habitação. A casa já não existe. Foi derrubada pelo mel avô há bastante tempo. Existem fragmentos das paredes dispersos no meio do mato.

                Naquele dia, imagino que a vegetação estivesse verde – afinal era agosto. Nas matas resplandecia o fulgor da beleza verde dos paul d’alhos e facheiros que dançavam impelidos pelo vento. A mata da fazenda próxima estava lá com os seus bambuzais, com as copas viçosas que ainda podem ser observadas hoje. As jaqueiras e mangueiras estavam em flor. Ir a Vitória de Santo Antão não era tarefa fácil.

                A manhã foi avançando. As dores se tornando cada vez mais agudas, graúdas, difíceis de serem suportadas. Minha avó materna tentava dar os auxílios necessários. Acostumada na arte de parir, ela certamente orientava minha mãe. No inexorável paroxismo da dor, impuseram uma tarefa ao meu pai: ir à casa de seu Erasmo, um dos únicos moradores das imediações da zona rural que possuía um carro (no caso, uma Rural), a fim de que minha mãe fosse levada a algum hospital de Vitória. Meu pai saiu em disparada. Há relatos de, no dia, ele usava uma camisa de botões. Ela estava aberta. A camisa voava por conta da velocidade do meu pai. A casa do seu Erasmo distava a uns cinco quilômetros. Numa caminhada tranquila e sem imposições, demoraria algo em torno de cinquenta minutos. Meu pai deve ter gastado uns vinte na estrada de chão.

                Nesse interregno, chamaram dona Bil, a parteira da região. Acostumada na arte de ajudar as mulheres a trazerem novos seres humanos ao mundo, dona Bil criara uma reputação. Do lugar onde residiu, restou apenas uma tapera. Havia duas frentes para resolver o dilema do nascimento: meu pai que buscava um transporte; e dona Bil, a parteira, que procurava minorar as dores espasmódicas de minha mãe. A natureza acabou sendo mais célere que o meu pai e a Rural de seu Erasmo. Nasci às 11h15, do dia 9 de agosto de 1979.

                Quando o transporte chegou, minha mãe se esvaía em suores e alívios; eu era apenas uma criança bochechuda e chorona.  

sexta-feira, março 05, 2021

"O Cabeleira", de Franklin Távora - algumas impressões

 


Quando entramos em contato com a literatura de José Lins do Rego e lemos o seu “Cangaceiros”, passamos a crer que ali existe algo original. O tema do cangaço é algo – temos a impressão – que nunca foi tratado pela literatura. O estilo caudaloso, que flui de forma desimpedida, é algo que torna a narrativa do escritor paraibano em algo imperdível.

O cangaço é um fenômeno histórico ocorrido no Nordeste brasileiro e que possui uma forte ressonância social. Creem os estudiosos do fenômeno de que se trata de um fenômeno que surgiu em decorrência das graves disparidades sócio-econômicas da região. O delicioso livro Bandidos, de Eric Hobsbawm, expõe no capítulo "O que é banditismo social?", que o fenômeno do banditismo social faz parte de sociedades agrárias e pastoris. Existem determinados elementos que dão vazão para que este tipo de movimento - marginal - se forme. Por exemplo, Hobsbawm diz que em épocas de muita fome, de repressão política, de descalabros variados, existe uma tendência que dá surgimento a esse fenômeno. A violência no mando dos coronéis, aliada a séculos de escravidão, bem como a pobreza de muitos sertanejos, talvez, tenham feito fermentar esse tipo de banditismo tão característico. A violência “dos pequenos” pode ser tão atroz quanto a violência dos grandes.

Pode-se afirmar que o cangaço existiu entre os séculos XVIII até à metade do século XX, durante o Governo Vargas. Os cangaceiros ou bandoleiros como eram chamados andavam em grupos armados, cometendo assaltos, assassinatos, estupros e todo tipo de violência contra aqueles que criassem obstáculos às suas intenções. Eram nômades; conheciam com muita intimidade a geografia árida da caatinga. Esgueiravam-se de maneira habilidosa. Conseguiam, assim, fugir das autoridades. Na vasta região cálida e seca, com uma vegetação cheia de espinhos; solo pedregoso, onde se ocultavam animais peçonhentos, os cangaceiros marchavam com incomum destreza.

Corroborando com isso, Hobsbawn diz: [O banditismo] "floresce em áreas remotas e inacessíveis, tais como montanhas, planícies não cortadas por estradas, áreas pantanosas, florestas ou estuários, com seu labirinto de canais e cursos d'água, e é atraído por rotas comerciais ou estradas importantes, nas quais a locomoção dos viajantes, nesses países pré-industriais, é lenta e difícil". O historiador inglês vai dizer que baste a construção de estradas ou a conexão com as regiões desoladas, onde originou o banditismo, para que este arrefeça, perca a força. Ou seja, a rapidez na comunicação permite ao Estado ações contundentes a fim de exorcizar o fenômeno do banditismo social.


Ao longo do tempo, imprimiu-se no imaginário popular uma noção mais rarefeita do cangaço. Criou-se certo fascínio pelas suas personagens como é o caso típico de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, conhecido como o “o Rei do  Cangaço”. Esse epíteto potencializa uma imagem positiva dessa personagem. A história intrigante que o acompanha possui inúmeros fatos violentos de pilhagens e mortes cruéis a seus desafetos.

Em 1876, o escritor cearense Franklin Távora, radicado no Pernambuco, escreveu – ou romanceou – a história de José Gomes, conhecido como “o Cabeleira”. Cabeleira é conhecido como um dos primeiros sujeitos a encabeçarem o movimento do banditismo no Nordeste.

Franklin Távora, nascido em Baturité, em 1842, mudou para Pernambuco em 1844. E, a partir daí, a vinculação estabelecida com o estado dar-se-ia por longos anos de sua vida. Ainda muito jovem, ingressou na tradicional e famosa Faculdade de Direito do Recife. Em 1863, conseguiu o diploma de bacharel em direito, tendo feito carreira no direito e no jornalismo.

 O escritor era um intransigente defensor das tradições populares; um nacionalista convicto; alguém que buscava retratar em seu regionalismo eventos que tivessem uma fiel relação com a história. Foi por conta disso, que entrou em uma porfia intelectual com José de Alencar, uma entidade que, àquela época, gozava de enorme prestígio. Para Távora, o regionalismo de Alencar era idealista em excesso. Não era verdadeiro. Alencar falava, segundo ele, daquilo que não conhecia. Um exemplo é a escrita de “O gaúcho”. Segundo Távora, Alencar falava do homem gaúcho sem ter colocado os pés no Rio do Grande do Sul. Esse artificialismo na prosa regionalista de Alencar rendeu bons debates.

Para escrever “O Cabeleira”, Távora toma nota de informações históricas, como se pode perceber no prefácio e posfácio da obra. A atividade romanesca do escritor assenta-se no chão da história. Não surgiu do nada.

Na obra, notamos a preocupação com a geografia; o nome das cidades da Zona da Mata de Pernambuco – Goiana, Santo Antão (minha cidade, hoje, chamada de Vitória de Santo Antão, Glória Goitá, Ipojuca, Limoeiro entre outras. A vegetação também surge. O rio Tapacurá também é mencionado com certa recorrência na obra. Encontramos o trecho com forte aceno histórico:

“Uma tarde Luisinha foi buscar água no rio Tapacurá, que banha a cidade de Vitória, então povoação de Santo Antão, à qual pertencia Glória de Goitá donde era natural o Cabeleira. Santo Antão distingue-se na história pernambucana pela circunstância de lhe estar próximo o Monte das Tabocas no qual se verificou em 3 de agosto de 1645 a batalha que iniciou a insurreição portuguesa contra o domínio holandês, e exercitou direta e decisiva influência no futuro político, comercial, industrial e religioso do Brasil. Esta memorável batalha, depois de seis longas horas de fogo, declarou-se em favor dos nossos primeiros dominadores. Em comemoração deste acontecimento, uma lei provincial de 6 de maio de 1843 erigiu a antiga povoação em cidade a que chamou de Vitória como acima de se vê”. (p.49).

Segundo a história, Cabeleira nasceu em Glória do Goitá, munícipio da Zona da Mata. Era uma criança dócil. Sua mãe era uma mulher de alma sensível e piedosa. Joaquim Gomes, seu pai, era um sujeito cruel, que não possuía qualquer comiseração por quem quer que fosse. Seu desejo era incutir no filho a força dos instintos. Foi assim que procurou incutir no filho hábitos de sadismo e perversidade. A lição veio, incialmente, com o estripamento de animais. Segundo Joaquim Gomes, isso permitiria ao filho nunca se dobrar a ninguém. Afinal, ele estava criando o filho para ser um homem de verdade. Ou como diz o autor: “uma máquina de cometer crimes”. (p.38).

A mãe de José Gomes – Joana - sofria com essas lições atrozes e desumanas. Ela sabia qual era o objetivo do pai. E somente rezava, tentando desfazer aquilo que o pai buscava impingir na alma do filho. Até que Joaquim foge com José. Tira o filho da zona de influência da mãe. É a partir daí que a história de Cabeleira, como era chamada por causa de seus cabelos longos e negros, passou a ganhar contornos daquilo que mais tarde seria.

Nas páginas que seguem, notam-se os feitos do bandido. Os crimes cometidos. As crueldades que se alastravam com o assassinato de crianças, de pessoas idosas ou de quem lhe surgisse no caminho. Associado a mais alguns comparsas, José Gomes passa a ser temido. Sua fama chega até ao Recife.

Os impulsos de Cabeleira são refreados, quando ele se encontra com a Luisinha, uma paixão iniciada na infância. Ela busca arrancar do coração do bandido todas as raízes da maldade. Ele mostra-se obediente. Procura refrear os instintos. E aos poucos tem a sua personalidade transformada.

Franklin Távora (1842-1888)

O romance procura amainar a imagem daquele que é considerado como um criador de um proto-cangaço.  Ele dá mostras de que está arrependido. Sua imagem é realçada como a de um herói – pelo menos essa é a depreensão que fica subentendida da leitura. Diferentemente, de outras figuras do cangaço como Antonio Silvino, cangaceiro paraibano, que iniciou no movimento após presenciar a morte do pai e se envolver em brigas de terra; ou de Lampião, que também foi vítima de violência contra a sua família, Cabeleira é treinado pelo pai para ser o que foi. Há uma espécie de isenção pela culpa por parte do escritor.

Seu estilo é a mescla da objetividade jornalística, com o rigor de uma historiografia que se preocupa em ser fiel a certos eventos. Mas, no bojo dessa característica, nota-se o estofo da prosa romanesca. Seu texto é realista. Mas é diferente do rigor naturalista do texto de Aluísio Azevedo; e diferente também do regionalismo idealista de José de Alencar.  Satisfiz um desejo antigo ao lê-lo.

domingo, outubro 19, 2014

Uma resposta à ignorância

O blog está abandonado ultimamente. Não é que me faltem ideias para novos textos magros - excessivamente magros. É que as coisas evoluem, passam, e eu acabo por postergar novas postagens. Nestes dias de eleições, tenho assistido a bastantes filmes e documentários, sempre voltados para uma temática mais política. Tal experiência tem sido positiva. Sem falar nos livros que tenho comprado. Há alguns dias atrás, vi uma afirmação medonhamente fascista plasmada com grande exultação pelo seu autor - como tantas que temos visto por brasileiros conservadores e cooptados pela mídia criminosa do nosso país. Aquilo encheu os meus olhos de sangue. Não pude deixar de dar uma resposta. É o texto que segue abaixo - claro, com algumas adaptações. Pretendo nos próximos dias tirar o blog da letargia, do silêncio

Em primeiro lugar, queria dizer que não tentei ser agressivo contra a sua pessoa, mas contra a ideia subjacente em sua fala. Que você é de direita dá para perceber pela objetividade da enunciação, completamente descontextualizada. É curioso notar que afirmar-se de direita no Brasil se tornou uma virtude. E mal sabem aqueles que supostamente se alegam como tal, que ser direita é afirmar está do outro lado da luta - é está do lado dos setores conservadores e atrasados da sociedade e, que a maioria das vezes, é contrário aos interesses dos debaixo. Quando leio os profetas, principalmente, Amós, Miquéias, Habacuque, Oséias, penso que esses homens não estavam na direita. Estavam na esquerda, lutando pela causa da viúva e do necessitado; enfrentado "as vacas de Basã", como disse Amós; lutando em favor dos desprezados pelas políticas mantenedoras do "status quo" das elites. 

Quando olho para Jesus, não penso que ele ficaria do lado da direita. Acredito que ele ficasse do lado dos oprimidos, dos enlutados, dos esfomeados, dos que não tinham emprego, das prostitutas, dos párias, dos estigmatizados, das minorias (Mt 9.10-13; 11.19;) ; daqueles que precisavam de uma palavra de transformação e esperança. A direita prega o preconceito, a desinformação, a não libertação. Acredito que o evangelho não seja da direita, mas o cristianismo dogmático que muitos defendem o seja. É, por isso, que o cristianismo prega a sua desimportância, por ser uma fé alienada, por não ser inserir nas lutas históricas. A suposta solidariedade pregada pelos cristãos é tacanha. Fica restrita ao ambiente eclesiástico. 

A igreja não olha para fora dos seus muros e, quando olha, vê apenas perdidos, desviados e pessoas que precisam ser "salvas". É por isso que vemos tanto obscurantismo e preconceito na igreja. Porque ela pensa na dicotomia "perdido" x "salvo". Esses são termos criados pelo dogma. O principal compromisso do evangelho é com a libertação do homem, com a sua dignidade. E eu penso que todo e qualquer processo que sirva para dá mais dignidade, esperança ao homem, é revolucionário. 

Uma segunda questão fica por conta do processo histórico do Nordeste. A região já foi um dos redutos econômicos mais viçosos do Brasil. Isso nos dois primeiros séculos de nossa história, quando do ciclo da cana-de-açúcar. Nesse momento da história, o Nordeste era farto. Os engenhos, que mantinham uma mão de obra escrava, enriqueciam a metrópole e geravam privilégios para a casa-grande. Após a derrocada do produto, por causa da intervenção dos holandeses, o comércio do açúcar definhou e a região amargou uma crise profunda. Com a descoberta do ouro na região Sudeste, o ciclo econômico muda-se para o centro sul. Vale ressaltar ainda que quando do ciclo do açúcar, os estados privilegiados pela produção eram Pernambuco, Paraíba e Alagoas. Estados como Piauí e Maranhão estavam afastados. Não havia atividade econômica relevante nesses estados. O homem comum tinha que submeter aos favores de algum oligarca e vender a sua força de trabalho. É, por isso, por exemplo, que no Piauí, as famílias Gurguéia, Martins e, atualmente, a família Portella, são tão fortes; ou os Sarneys no Maranhão, que se instalaram com tanta força. São famílias que desde tempos imemoriais fazem parte da oligarquia política da região. 

Esse cenário se estabeleceu pelos séculos seguintes. O Nordeste sempre foi visto como uma região de migrantes,  uma região de pessoas que saem para procurar melhores condições em outras locais. Mas isso se deu por conta da decadência econômica da região.  Esse ciclo tem permanecido ao longo da história.  Se deu assim no início do século XX , por exemplo, com o ciclo da borracha na Região Norte. O estado do Acre possui uma população cearense grandiosa, justamente, por causa do grande fluxo migratório. Ao longo do século XX, a leva grossa de migração continuou a sua marcha. Dessa vez para o Sudeste. E, quando se deu a construção de Brasília, para a nova capital. Mas o problema da pobreza não foi resolvido, pois como dizia Euclides da Cunha: "O que separa o interior do Nordeste do seu litoral não são cem quilômetros. São cem anos". Observe que a pobreza do Nordeste é uma questão histórica. O desemprego sempre foi algo sério. Muito gente sai de lá por entender que, lá, as chances são pequenas e inexpressivas. Eu, como você, somos um exemplo disso! É, por isso, que os nordestinos apoiam o governo do PT, pois foi a partir das políticas sociais de Lula e Dilma que os homens e mulheres daquela região viram as coisas mudar. Portanto, falar que o Bolsa Família está gerando uma leva de "não trabalhadores" é incorrer numa falácia histórica. 

E terceiro lugar, as políticas sociais do governo melhoraram a vida de milhões de pessoas. Meus familiares que estão em Pernambuco, boa parte deles, recebe Bolsa Família. Mas, nem por isso, são não trabalhadores ou "vagabundos" como se quer fazer crer. O Bolsa Família é uma política contingente. O instrumento que regula a política é a manutenção do filho estudando.  Se o menino deixa de ir para a escola, o programa é cortado. Falo isso, pois minha mãe já recebeu Bolsa Família. Meu pai havia morrido. Ficamos eu e mais dois irmãos e a minha mãe numa situação difícil. Naquela ocasião, meu irmão mais novo estava no ensino fundamental e não podia faltar a escola. E minha família era contemplada com R$ 70,00 que ajudava a engrossar o salário mínimo que minha mãe ganhava. O dinheiro ajudava bastante. Tínhamos que pagar aluguel, comprar comida e tudo aquilo que fosse necessário. Hoje, minha mãe não ganha mais o Bolsa Família – e continua a trabalhar como sempre fez. Muitas famílias passaram a comer mais depois do Bolsa Família. Quem disse isso foi a ONU. Pela primeira vez em 500 quinhentos anos, o Brasil não está mais no mapa mundial da fome. Penso que isso fosse motivo para a igreja ficar feliz. Claro, uma igreja coerente e comprometida com o necessitado. A fome não precisa de palavras soltas, vazias de conteúdos, precisa de substância material. Agostinho disse certa vez que toda verdade é verdade de Deus. Parafraseando Agostinho, podemos dizer que toda ação de solidariedade que venha trazer bem-estar, dignidade, é uma ação afirmativa em favor daquilo que prega o coração do evangelho. 

Em quatro lugar, termino com uma pergunta: onde estaríamos se tivéssemos continuado - você no Piauí e, eu, no Pernambuco? Não quis ser deseducado com você. Nunca mais tive oportunidade de conversar com você. Seria interessante fazê-lo. Um abraço!

domingo, fevereiro 16, 2014

Uma crônica inacabada sobre minha viagem a Pernambuco


"Ter pátria é ter razão para chorar"
Mia Couto

Decidi visitar a terra onde nasci. Hesitei por alguns dias. A dúvida surgiu, pois fiquei a pensar sobre qual seria o meio que utilizaria. Divaguei. Decidi, por fim, ir de ônibus. A decisão surgiu após uma caminhada. Fui a uma agência próxima de minha casa e comprei o bilhete. 36 horas na estrada, aboletado em um meio de transporte gerador de cansaço. A questão: "por que ir de ônibus?" Essa era a indagação feita pela minha esposa. Queria reviver momentos. Puxar os nacos adormecidos de experiências vividas de quando eu era criança. Peguei uma rota impensável e estúpida. 

               
Saí de Brasília, no sábado, dia 11 de janeiro, às 14 horas, com destino a Picos, cidade do estado do Piauí. Minha intenção era enxergar as entranhas de um Brasil esquecido, de um Brasil que vive imerso na letargia; queria visualizar a tessitura de uma porção do nosso país que não surge nas novelas da Rede Globo. Premeditei essas intenções pretensas e assim aconteceu.  
                 
O grande desafio de se viajar por muitas horas de ônibus é o cansaço resultante. A posição cacete. As minudências da letargia. As paradas em enxovias repugnantes. Banheiros fétidos. Comida ruim. Tratamento ordinário, dispensado por funcionários mal preparados. Acostumados a lidar com atropelos à clientela, olham-nos como se fôssemos bichos insignificantes que precisam de um favor.
                 
Foto tirada por mim em uma das cidades do Piauí
O Brasil é um país assentado em contrastes. É curioso perceber o Centro-Sul tão desenvolvido e o Nordeste tão atrasado, tão fincado em ignorância e superstições variadas. Há dez anos atrás fiz essa mesma viagem. Naquela ocasião, fiquei por 21 dias no município de Santa Luz, no Piauí, e de lá fui para Pernambuco. Dessa vez, passei pelos mesmos locais que passei daquela vez. Pouca coisa mudou. O ponto positivo está no fato de que as rodovias federais estão em ótimo estado. De Brasília, até a minha cidade, percorrendo mais de dois mil quilômetros, passando por cinco estados - Distrito Federal, Goiás, Bahia, Piauí e Pernambuco – tudo na mais perfeita qualidade. Penso que tenha sido resultado do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) dos governos Lula/Dilma. Todavia, observando como espectador comum, não divisei grandes mudanças na miudeza dos vários municípios pelos quais passei. Tudo na mais intacta inamovibilidade. Há, assim, uma homogeneidade no ontem e no hoje.
                 
Foto tirada por mim da região one fui criado
O Nordeste continua encimado em seu atraso interiorano. Fiquei impressionado com o Piauí. Cidades tacanhas, vilarejos incipientes; o chão gretado; a vegetação rala; rios mortiços; poços de água de um amarelo esverdeado a maior parte do caminho. Ao passar pelo interior de Pernambuco, tentei fazer uma malabarismo mental para arranjar um pensamento de como o povo consegue viver em região tão falta de oportunidades e recursos. Os homens da região vivem zonzos sem terem o que fazer. O brasileiro do Centro-Sul rico, alijado nas esteiras do progresso, antes de criticar as políticas sociais do governo, deveria visitar o interior do Brasil e sair do lugar comum. Existe uma ignorância do brasileiro com relação ao seu próprio país. Não conhecemos satisfatoriamente quem de fato somos e como a nossa história de saques e vilipêndios foi construída. Assim, penso que um dos exercícios mais éticos e cidadãos, de cada brasileiro, deveria ser conhecer o seu país antes de embarcar para a Disney ou Miami.
                 
Somos iludidos com o presente. Fazemos uma crítica sem critérios e sem conhecimento de causa. Nossa história foi construída em meio à violência. O interior do Brasil ainda nos faz lembrar uma Rússia czarista; uma sociedade firmada em compreensões medievais, alicerçada em tradições de outros tempos. Como tudo isso ocorreu? Por meio da violência e da rapinagem econômica. Quando me vem à mente a frase tão conhecida de Euclides da Cunha, autor de Os Sertões - “O sertanejo é antes de tudo um forte” -, passo a ser entendedor do que ele tentou exprimir em sentido amplo. Daqui de onde estou escrevendo essas linhas magras, excessivamente magras, contemplo um sujeito com uma enxada trabalhando no sol inclemente das dez e meia da manhã. Ou seja, o sertanejo arenga, cisma, desfere golpes contra a vida, numa tentativa de sobrevivência. A sua briga com a enxada é uma metáfora da própria existência. O Nordeste já foi a região mais rica do nosso país. Enquanto produzia cana-de-açúcar, sua importância econômica transferiu-se para outro lugar do país.
                
 A mídia cisma em mostrar o Nordeste do litoral, aquele que o mesmo Euclides da Cunha disse que havia uma separação do outro Nordeste do interior. Já estive nesses “dois nordestes” e é nítida a apartação criada pelo capitalismo.
                
Foto tirada do local onde brinquei boa parte de minha infância. A ressonância de tudo isso ainda vive dentro de mim.
 O outro dia assisti a uma palestra de Ariano Suassuna e uma fala dele me chamou atenção. Disse ele que é possível encontrar a Idade Média no Nordeste. Pude atestar isso em dois momentos: (1) enquanto atravessava o interior de Pernambuco e o interior do Piauí (mais naquele do que neste), constatei que cada cidade tem a imagem de um santo ou um padroeiro. Ou seja, existe uma forte resiliência do sertanejo à vontade do sobrenatural. A vontade divina é uma força geradora de temor. O sertanejo leva a sua existência conforme “deus quer”. O catolicismo colocou as suas garras no imaginário do povo e expeliu o veneno de uma superstição medieval, que domina e tangencia a interpretação do mundo. A religião forte balança a vontade do sertanejo. Em nome dela, ele faz romarias; recita falas; declama rezas a fim de amortecer os maus augúrios de um deus carrasco e cheio de dengos. (2) as cantigas. Ontem, enquanto ia para a cidade, tomei uma lotação e fui ouvindo a voz do povo com o propósito de me abeberar das ressonâncias sonoras dos pernambucanos. Na condução, alguém cantava uma espécie de canto triste, melodramático, um repente de dor, que falava de amores não realizados; o tema da melodia tratava de um sujeito que morria por ingerir álcool em excesso por causa de uma paixão não correspondida.
(...)

Escrito e não finalizado, dia 15 de janeiro, no Sítio dos Melos, região pertencente ao município de Vitória de Santo Antão, minha cidade natal, Pernambuco.

P.S. Outro dia encontrei um colega que há muito não via. Ele me indagou sobre as minhas férias. Quando contei sobre a viagem que fizera, ele disse que isso é coisa de pessoal de "esquerda", não deixei de dar uma boa risada.


terça-feira, dezembro 18, 2012

Baixio das Bestas e sua tese artificial


Ousei assistir ao filme Baixio das Bestas (2006), de Cláudio de Assis. O interesse pelo filme de Assis era um projeto antigo. Quando o filme estreou em 2006, li uma crônica positiva sobre o filme. Reservei um interesse pela obra. No mês de julho deste ano, assisti a outro filme de Cláudio Assis, de 2002, Amarelo Manga.

Mas tenho a dizer que esta segunda obra não me impressionou tanto quanto a primeira. Baixio das bestas me deixou com uma impressão decepcionante. Como em Amarelo Manga, Baixio traz uma tese de ruína social. Se naquele Assis retratou a vida citadina dos recifenses do subúrbio, neste o cinesta voltou os seus olhos para o campo - a Zona da Mata pernambucana. O espaço da obra é o espaço da decadência, do embargo do tempo. 

As cenas iniciais nos coloca um narrador que verbaliza sobre o poder de morte do tempo. Essa entidade matou os "engenhos", matou as "usinas", matará "a mim" e matará "a você". Talvez nessa afirmação resida o fato de que o tempo é o propugnador inveterado da condição de penúria e alienação do ser humano; que a passagem do tempo não trará mudanças, que a condição de miséria se retroalimenta. E de certa forma, o que percebemos no filme é a clausura; a ausência de saídas; o enredo da obra é apriosionante. A história tem início, mas o final não nos dá notícia dos personagens. De forma abrupta, o fluxo da história é interrompido.

Ao invés de levar o espectador à história, fazendo-o refletir, Assis opta por trazer a história. Impô-la. Torná-la chocante. A estratégia utilizada é o corpo nu, a masturbação, o estupro de prostitutas, a orgia, a moral decadente, a hiprocria, o cafetismo e a exploração sexual imposta por um avô à neta, a prisão domiciliar, a vida infame de agroboys que se utilizam da condição de 'civilizados' para ultrajar a vida do homem do campo.

Numa da cenas iniciais, talvez querendo estabelecer uma conexão com aquilo que mais tarde é trabalhado, numa espécie de spoiler, o avô da garota supra mencionado, leva a neta para se despir paras caminhoneirso e outros sujeitos da terra. Num jogo cinematográfico, a jovem se apequena com o distaciamento da câmera, enquanto os homens são mostrados em simulações de masturbação, num gesto desvairado e animal, e logo em seguida é mostrada a cruz de uma igreja velha. Ou seja, de um lado a ignomínia, a vilania, a baixeza de bestas, do outro lado, a moralidade sagrada da religião. Aquela se soprepõe a esta. 

O acerto claro em Amarelo Manga, faltou em Baixio das bestas. O Brasil é um país assentado na desigualdade, de fato. Um país que possui uma quantidade significativa de pessoas que vive uma realidade infame de miséria e alienação. Homens e mulheres que são violentados pelo descaso e que vivem em "baixios" rurais e urbanos; que não experimentam a dignidade; que experimentam a não dinamicidade das mudanças sociais e que, por causa disso, são vítimas da violência e de uma olhar pequeno sobre o mundo. 

Todavia, a intencionalidade da obra asfixia o espectador e não deixa a possibilidade de credulidade. O homem para Assis, tornou-se em bicho medonho, ávido por misérias e putrefação. Se Assis tivesse apostado na denúncia, criando processos de reflexão como fez em Amarelo Manga, a sua tese teria sido aceita com mais facilidade.

sábado, dezembro 15, 2012

Luiz Gonzaga - a voz que representa um povo

No último dia 13 de dezembro, o Brasil teve a honra de comemorar o centenário do nascimento de um dos seus artistas populares mais ilustres - Luiz Gonzaga, o rei do baião, o velho Lua; um dos responsáveis pela consolidação do forró, do baião e do xote como ritmos musicais essencilamente brasileiros. Não percebi muitas homenagens sendo realizadas para laurear o grande artista nascido no sertão do estado de Pernambuco.

Resolvi, por isso, no último dia 13, assisti ao filme "Luiz Gonzaga - de pai para filho", que me pareceu bastante contudente no aspecto biográfico. A obra de Bruno Silveira revela os momentos mais importantes da história do artista pernambucano - sua origem, a saída de Exu, sua cidade natal, a fase no exército brasileiro, a ida ao Rio de Janeiro, as dificuldades iniciais para conseguir se consolidar como um artista das massas, a fase de sucesso e o posterior esquecimento do público a partir da época de JK. Todos os fatos são narrados ao filho Gonzaguinha, que vai a Exu com a finalidade de prestar contas com o pai. Os dois possuíam uma relação estremecida em decorrência das muitas viagens empreendidas por Gonzagão e o abandono do filho. É um filme bonito. Possui momentos bastante belos e dramáticos. Os atores conseguem ser convincentes.

Falar de Luiz Gonzaga é lembrar a minha infância no interior do estado de Pernambuco, na década de 80. Recordo-me de que quando saí do estado de Pernambuco, no dia de 19 de agosto de 1989, com destino a Brasília, Gonzaga morrera dia 2 do mesmo mês. Foi um acontecimento grandioso. Triste. A minha memória traz fiapos do evento. Todavia, recordo-me da grande passeata; do choro  dos pernambucanos e de tantos outros brasileiros que se identificavam com o autor de "Asa Branca". 

Sempre observava o meu avô paterno, nas tardes de sábado, embaixo de uma mangueira frondosa, a escutar em seu Chevette '79, as canções do rei do baião. Ele inclinava o banco do carro e ficava indolente na tarde ventilada e de bafo quente. 

Recordo que ainda muito pequeno, aprendi muitas das músicas do grande artista. Lá em casa, meu pai possuía inúmeros vinis de Gonzaga. As festas juninas eram grandes e divertidas, regadas ao som de Luiz Gonzaga e do Trio Nordestino. Eu, sujeito oblíquo, tacanho, em minha inocência infantil, ganhava algumas moedas da parentela para cantar músicas de Luiz Gonzaga. Uma que eu sempre cantava era "Farinhada": "Eu tava na peneira/ eu tava peneirando/ Eu tava no namoro/ eu tava namorando". Além do quê essa canção traz uma lembrança benfazeja da minha avó paterna - que hoje não mais vive. Era uma música que eu sempre a escutava cantarolar.
Outra música bastante cantada era "A volta da asa branca": "Já faz três noites/ que pro norte relampeia/ A asa branca/ ouvindo o ronco do trovão/ Já bateu asa/ E voltou pro meu sertão/ Ai, ai eu vou me embora/ Vou cuidar da plantação".

Ou "Riacho do Navio": "Riacho do Navio/ Corre pro Pajeú/ O rio Pajeú vai despejar/ No São Francisco/ O rio São Francisco/ Vai bater no "mei" do mar/ O rio São Francisco/Vai bater no "mei" do mar".

Outra ainda era de "Fiá a Pavi": "Hoje tem forró mais cedo,/ forró como eu nunca ví/ Tem quadrilha pau de sebo,/ violeiro desafio/ Sanfoneiro forrozeiro,/ têm bandinha de bifitri/ Forró quando é gostoso eu entro de fiá pavi". 

A mais pedida era "Forró de cabo a rabo": "Eu fui dançar um forró, Lá na casa do Zé Nabo/ Nunca ví forró tão bom,/ Nessa noite quase me acabo/ Tinha um mundão de mulé,/ Sanfoneiro como o diabo/ O forró tava gostoso,/ Era forró de cabo a rabo". Em minha ignorância não entendia o termo "Zé Nabo" e cantava "Zenado". O importante era que a rima se consumava.

Gostava muito de cantar embaixo do sol inclemente "Pense n'eu": "Pense n'eu quando em vez coração/ Pense n'eu vez em quando/ Onde estou, como estarei/ Se sorrindo ou se chorando/ Se sorrindo ou se chorando/ Pense n'eu... vez em quando/ Pense n'eu... vez em quando". Recordo-me de uma marcha, uma toada que possuía um toque leve de viagem, de um vagar pesaroso. Aquela contração "n'eu" possuía um efeito tremendo sobre mim. Se não estou enganado, Gonzagão contava essa música com o seu filho Gonzaguinha.

Além dessa vivência com a música de Luiz Gonzaga, no mês de junho, meu pai inventava uma festa junina que era uma atração na região de gente humilde. Magotes de matutos pululavam por todos os lados. Colocavam camisas tacanhas e perfumes de gosto duvidoso. O arrasta-pé acontecia embaixo de uma palhoça feita com palhas de coqueiro. O chão era preperado com areia. A estrutura verde abrigava danças e bebedeiras que contemplavam as três festas católicas do mês de junho - Santo Antônio, São João e São Pedro. A pândega era alimentada pelo embalo sonoro. Acepipes ordinários. Cerveja ruim. Cachaça. Riso solto. Alegria desarrazoada. E um profundo toque de satisfação naquele regozijo ordinário. 

Todavia, as músicas de Luiz Gonzaga estavam ali. Faziam a alegria do matuto. Elevava a dignidade do sujeito que se esfumava no roçado no meio da semana. Que juntava o salário mambembe e gastava na patuscada. O riso fácil, emulado pelos vapores etílicos, era esperado com anseio nervoso pelos sertanejos do lugar. Eu, criança mofina, de gestos acanhados, observava os movimentos, a expectação, o acontecimento ruidoso.

Mas o que é tão marcante em Luiz Gonzaga? É importante dizer que Luiz Gonzaga dignificou o Nordeste com a sua música. Quando de seu surgimento, o Nordeste era preterido do cenário cultural do país. A década de quarenta não possuía lugar para as novidades vindas de lá. Ao tentar a sorte no Rio de Janeiro, Gonzaga foi ousado. Inventou um estilo e, na era de ouro do rádio, solidificou uma identificação com o público - pincipalmente os nordestinos que procuravam vida nova no Centro-Sul do país. Era época da Ditadura de Vargas. A ideia de um cantor que arrebatasse o povo, sem uma crítica política explícita, agradou o status quo.

Quando analisamos a obra de Gonzaga percebemos alguns momentos bastante curiosos. Suas canções eram engajadas? Talvez essa não fosse a sua finalidade. Ele cantou o sertão. Falou das agruras da seca, como em "Asa Branca", "Pau de Arara", "Acauã" ou em "Triste Partida", a qual o compositor faz parceria com o poeta cearense Patativa do Assaré, outra voz importante do sertão. 

O fato é que arcabouço artístico de Gonzaga - o ritmo, as letras, o sotaque, as expressões utilizadas, os elementos culturais expostos, a voz gonzaguena - faz identificar os elementos culturais de uma região, de um povo inteiro. Inocente ou não,  a música gonzagueana representou/representa as condições de vida de uma parte do povo nordestino, sobretudo àquele que estava à mercê das benesses do litoral que desigual e rapidamente passava por um processo de urbanização. Aqui parafraseando Euclides da Cunha: "O que separa o sertão do litoral, não são dezenas de quilômetros; mas um século inteiro". 

Sua música, ora pede, ora agradece; ora tece críticas, ora mostra a alegria do cotidiano da região, representou para o Brasil um novo gênero musical, seja na dança, seja nas melodias. Muitas de suas letras são poesias densas, expressivas, belas e tristes - verdadeiras forças que revelam um lado esquecido do Brasil. 

Abaixo, escolhi três canções de uma beleza comovente: Acauã, Assum Preto e Estrada de Canindé. 
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segunda-feira, outubro 15, 2012

Memórias - como se deu o meu primeiro contato com a escola (homenagem ao dia do professor)

Escrevi este texto há muito tempo atrás. Faz parte de umas memórias que principiei a escrever em 2006. Naquela época, eu havia lido o livro "Infância", de Graciliano Ramos, pela segunda vez e acabei me entusiasmando. O texto abaixo constitui um dos trechos dessas memórias. Fala como se deu o meu primeiro contato com a escola e como a minha primeira professora foi marcante para mim. Agradeço a todos os demais professores que logo em seguida eu conheci na minha caminhada como estudante. Todos eles foram fundamentais. Eis alguns nomes que eu consigo lembrar: Marina, Ivanete, Geovanete, Ana Sueli, Adalbertos, Popó de Magalhães, Paulo, Luis Fernando, Mário Bispo, Carlos Mota, Ricardo, Cíntia, Consuelo, Soraia, Francisca, Dioney, Veruska e tantos outros que a memória não consegue fazer o exercício de lembrar. Obrigado a todos vocês!

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Recebi um livro corpulento... Papel ordinário, letra safada. Apesar disso emaranhei-me em regras complicadas, resmunguei expressões técnicas e encerrei-me num embrutecimento admirável.

Graciliano Ramos, in Infância, p.120

            Aos sete anos de idade, numa certa tarde, minha mãe me relatou que eu iria à escola. Meu primeiro contato que tive com as letras se deu por uma curiosidade assistida, por uma observação imaginosa. Minhas tias estudavam numa escola rural. Todos os dias eu as via preparadas para ir à escola. Precisava de um ritual: banhos, cabelos penteados, sapatilhas, saias pinçadas – os homens com shorts que iam até os joelhos – camisa branca impecável. Às vezes pegava o caderno e me aturdia na letra miúda e embaraçosa. Certamente aqueles códigos impressos na folha branca do caderno fazia parte de uma gente superior. Estudar era privilégio. Decodificar as regras, também. A escola com certeza era um local de pessoas limpas, de aprendizado para aqueles que queriam ser gente. Eu andava descalço. Meus pés haviam adquirido uma camada grossa no chão quente. Os espinhos não me fustigavam mais. Os tocos da chã eram-me insensíveis. Menino afeito à rusticidade, queriam me introduzir no local das regras civilizadoras.
             Eu iria à escola. Como seria esse mundo de pessoas limpas, de gente que desembrulhava códigos, que aprendia regras para ser gente? Possivelmente – imaginava – eu nem brincaria mais. Não andaria mais descalço. Deixaria de tomar banho no riacho. Atinaria para a repreensão dos mais velhos. Conceitos poderosos seriam alinhavados na minha mente. A notícia de minha mãe gerou ansiedade. Possivelmente, eu ingressaria num local de gente sabida. Sairia da classe dos iletrados e me alistaria no exército dos doutos. Leria livros. Minha avó me solicitaria a fim de que eu escrevesse cartas para os meus tios que tinham ido para São Paulo. Teria importância pelo fato de me tornar um menino sabido como meu primo Roberto que estudava na cidade e lia livros debaixo das mangueiras e jaqueiras nas tardes quentes da Zona da Mata pernambucana.
            A primeira impressão funda que se apresentou a mim foi a necessidade surgida de esfregar as unhas dos pés e das mãos; limpar os ouvidos; tirar os cascões dos pés rachados; pentear os cabelos. Minha mãe dizia que menino educado tinha que mudar a postura. Dali para frente, dizia minha mãe, todos os dias eu teria que andar bem vestido, com os cabelos alinhados e com as unhas impecáveis. Hoje penso em regras militares. Metodismo draconiano.
            Minha mãe engomou a minha roupa. Comprou alpercatas. Meteu-me dentro de um uniforme limpo e de calçados apertados. A princípio caminhei desenvolto, mas aos poucos o calçado ordinário maltratou-me os pés. Primeiro dia: minha mãe acompanhou-me. Foi entregar-me à professora. Fazer recomendações. Falar quem eu era. A professora olhou-me gentilmente. Não tinha mais que a oitava série. Era a instrutora dos “bichos” acanhados colocados na sala de aula. Filhos de agricultores que viviam da subsistência. Matutos. A maioria, homens que mal sabiam assinar o nome. Totalmente cegos para a escrita. Entrevados para os livros. Desde cedo haviam sido treinados na tarefa rude. Ajuntaram-se com mulheres como eles. Tiveram proles como os coelhos e agora os enfiavam numa escola rural. Saga cruel. A maior parte do dias esses meninos passavam na roça, carpindo, plantando, adubando e na outra parte se dedicavam à escola. Eu seria mais um integrado ao grupo.
Olhava curioso para a sala. A casa onde funcionava a escola era tosca. Não se distinguia muito da que eu morava. A diferença se estabelecia no fato de que esta tinha vãos, e, aquela, não. Era uma sala pejada de bancos duros, chãos. Ali, mais de cinqüenta seres se emaranhavam na tarde quente e seca  – as aulas eram sempre à tarde. No turno da manhã a escola não funcionava. Ali estavam os alunos da primeira à quarta série. Todos ajuntados como bichos-de-ruma. Os mais adiantados já sabiam assinar o nome e ostentavam desembaraço ao recitar a cartilha.
Minha mãe deixou-me. Fiquei sozinho na selva desconhecida. Algumas criaturas eu conhecia de brincadeira. Ali estava o filho de Antônio Fragoso, o filho de João da Horta, de Bil Nunes, de seu Suneca. Olhos a me despirem. A professora gorda, de cocó enorme no meio da cabeça, vestido florido, alegre, de rosto fino, nariz aquilino e óculos capenga, disse:
-          Gente, olha só... esse é o Carlos. Ele é o novo colega de vocês.
Procurei um lugar para sentar e me escondi. Afundado em mim mesmo, tentava capturar a explicação ininteligível para os alunos mais adiantados. O seu modo tranqüilo de professora enfeitiçava os meus olhos. Parecia uma fada madrinha a ensinar receitas de mágicas para os aprendizes. Distribuía tarefas. Finalmente, aproximou-se de mim e me entregou uma cartilha de folhas amarelas. Cartão interessante. Ainda lembro das frases: “Rui tinha uma rede”. “O rato roeu a roupa do rei de Roma”. Frases cantadas, sibiladas, densamente musicais. Pareciam feitas para serem decoradas. Fiquei impotente ali parado com aquele papel que continha códigos estranhos.
Os primeiros aprendizados se deram com força e resistência. Linhas semidesenhadas precisavam ser cobertas. Ficava ali mergulhado naqueles códigos pontilhados a cobrir o “a”, o “b”, o “c”, o alfabeto. A mão emperrava. Parecia resistir arduamente à domesticação. Resignava-me. A professora pegava-me as mãos e ajudava o lápis a correr pela folha pardacenta. Minhas mãos eram pesadas. Ficava ali o tempo inteiro a memorizar o alfabeto; repeti-lo, grifá-lo na mente; riscá-lo; sublinhá-lo no interior. Escrevê-lo à lápis nas folhas alvas da memória. Aquilo era exorbitante. Doía-me o juízo. Certamente aprender era tarefa difícil.
À hora da tabuada, a mente enchia-se de espaços, de branquidão total. Os números se emaranhavam num cipoal desconexo.
- Quanto que é 4x4? – perguntava-me a professora de régua na mão.
A sensação de que levaria um bolo me afundava ainda mais num embrutecimento enorme. A professora olhava-me. Penalizava-se do meu desconcerto. Indicava-me, ajudava-me com sua pachorra que promovia grandes torturas.
-          Quanto que é 4x1?
-          Quatro – respondia.
-          4x2?
-          Oito – respondia.
-          4x3? – perguntava de novo.
-          Doze, professora.
-          Então, quanto que é 4x4, Carlos? - Olhos lacrimejavam no esforço incontido.
-          Dezesseis!!!!
Eu, criatura tímida, percebia o suor se empastar na testa. Após cada teste, saía como de uma luta. Para livrar-me da palmatória era preciso entregar-me ao estudo. Deve ser por isso que gosto tanto de estudar e ler. São as reverberações de um tempo que eu me via premido a aprender por conta da férula da professora Marina. A mestra dizia do alto da sua autoridade:
- Vocês estão muito fracos. Aqueles que não estudarem vão levar um bolo na mão – sentado no meu banco desconfortável, olhava o objeto longo, de madeira, ao lado da criatura enorme.
Todas as tardes, nós somente íamos para casa após recitar a cartilha ou mostrar que estávamos com a tabuada na ponta da língua. Não sabia ler ainda, mas havia decorado, pelas figuras que a cartilha apresentava o que cada um dos desenhos queria dizer. Uma palavra que repetia muito era “árvore”. Ao enunciar esta palavra, geralmente a citava, não por saber o que os morfemas significavam, mas por causa da prática comum, de saber que os vegetais graúdos que davam frutos eram chamados de árvores. A professora corrigia-me:
- Você falou errado. Não se diz árvore e sim arvore. Ia para casa com aquela sentença na algibeira da desconfiança. Certamente havia um equívoco na pronúncia da professora. Os mestres poderiam errar! Aquele “arvore” pronunciado sem o acento agudo, como vim a saber mais tarde, dava uma identidade nova à palavra. A “árvore” que eu conhecia não era a “arvore” repetida com tanta contumácia pela professora todas as vezes que recitava a cartilha. Era tudo um grande desconcerto. Resignava-me ao engano da professora.
Até hoje me concentro nesse erro daquela professora. Porque ela dizia “arvore” ao invés de “árvore” eu não sei até hoje. Olhava para os vegetais maiores não como arvores, mas como árvores. Certamente a minha professora estava errada. Entendi que a escola nem sempre ensina a ler o mundo corretamente.