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O lugar em que ficava a casa. Na estradinha distante, o lugar em que morava seu Erasmo. |
Em um dia como
este só me vem à cabeça as imagens descritas por José Lins do Rego em “Meus
Verdes Anos”. Nas páginas iniciais, quando faz referência à morte de sua mãe,
ele fala de “névoas espessas” da memória. De um momento em que as imagens se
misturavam; confundiam-se; voavam; pareciam indivisas. Da infância ficavam os pequenos registros. As
imagens que se prenderam à memória pela significação que elas tiveram no
momento em que aconteceram.
Diz minha mãe que, dia 9 de
agosto de 1979, deu numa quinta-feira. Ela passara a noite inteira do dia 8 com
lancinantes contrações. Eu estava dando trabalho para nascer. Os recursos eram
escassos. O casal humilde, que era o meu pai e minha mãe, morava numa casa de
barro, desguarnecida de qualquer conforto. Não havia móveis. O barro cru que
cobria a armação de gravetos dava um aspecto primitivo àquele lugarejo. Às vezes,
quando tenho a oportunidade de ir ao local onde nasci, fico a observar tentando
desenhar com a fantasia a possível habitação. A casa já não existe. Foi
derrubada pelo mel avô há bastante tempo. Existem fragmentos das paredes
dispersos no meio do mato.
Naquele dia, imagino que a
vegetação estivesse verde – afinal era agosto. Nas matas resplandecia o fulgor
da beleza verde dos paul d’alhos e facheiros que dançavam impelidos pelo vento.
A mata da fazenda próxima estava lá com os seus bambuzais, com as copas viçosas
que ainda podem ser observadas hoje. As jaqueiras e mangueiras estavam em flor.
Ir a Vitória de Santo Antão não era tarefa fácil.
A manhã foi avançando. As dores
se tornando cada vez mais agudas, graúdas, difíceis de serem suportadas. Minha
avó materna tentava dar os auxílios necessários. Acostumada na arte de parir,
ela certamente orientava minha mãe. No inexorável paroxismo da dor, impuseram
uma tarefa ao meu pai: ir à casa de seu Erasmo, um dos únicos moradores das
imediações da zona rural que possuía um carro (no caso, uma Rural), a fim de
que minha mãe fosse levada a algum hospital de Vitória. Meu pai saiu em
disparada. Há relatos de, no dia, ele usava uma camisa de botões. Ela estava
aberta. A camisa voava por conta da velocidade do meu pai. A casa do seu Erasmo
distava a uns cinco quilômetros. Numa caminhada tranquila e sem imposições,
demoraria algo em torno de cinquenta minutos. Meu pai deve ter gastado uns
vinte na estrada de chão.
Nesse interregno, chamaram dona
Bil, a parteira da região. Acostumada na arte de ajudar as mulheres a trazerem
novos seres humanos ao mundo, dona Bil criara uma reputação. Do lugar onde
residiu, restou apenas uma tapera. Havia duas frentes para resolver o dilema do
nascimento: meu pai que buscava um transporte; e dona Bil, a parteira, que
procurava minorar as dores espasmódicas de minha mãe. A natureza acabou sendo
mais célere que o meu pai e a Rural de seu Erasmo. Nasci às 11h15, do dia 9 de
agosto de 1979.
Quando o transporte chegou,
minha mãe se esvaía em suores e alívios; eu era apenas uma criança bochechuda
e chorona.
2 comentários:
Carlinus,
Que linda narrativa, que bela história!
Parabéns por suas origens que, não fosse o direito de seus pais e seu a terem melhores condições para viver com mais serviços de saúde pública, seria toda poética!
Contente por ter aquela criança bochechuda crescido e se tornado esse músico generoso que, felizmente, continua compartilhando conosco seu bom gosto estético e suas preciosidades musicais e literárias.
Parabéns pelo ano novo, pelos 44 anos fora do útero de sua mãe!
Você fez por merecer os suores, as dores e as angústias de sua mãe, de seu pai, de seu Erasmo e de dona Biu!
:-)
Rameau
Frazec,
muito obrigado pelas palavras. Fico imensamente agradecido - e envaidecido - pela sua disposição em externar essa consideração.
Um grande abraço!
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