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sexta-feira, setembro 10, 2021

"Ressurreição - história e mito", de Geza Vermes. Algumas considerações

 


                Terminei a leitura de “Ressurreição – história e mito”, de Geza Vermes. Estudei teologia. É um assunto que surge, em alguns momentos, com certas nuances de interesse. Cursei  teologia reformada, conservadora, ciosa de certos pressupostos doutrinários; não capaz de relativizar conceitos por que calvinista. Todo aquele conjunto de elementos inegociáveis – soberania divina, as duas naturezas de Cristo, a ressurreição, a justificação pela fé; a predestinação e a eleição; a glorificação dos fiéis numa apoteótica segunda volta de Cristo. São temas caros e, portanto, basilares para os fiéis dessa religião. Aqueles que acreditam fazem disso um dos fundamentos da vida.

                Todavia, o conjunto dessas doutrinas é resultado de uma formação paulatina da Igreja. A consolidação desses entendimentos doutrinários passou por muitas disputas. Afinal, um conceito não resulta de uma consolidação estanque – ainda mais quando se trata de uma narrativa. Não coaduno mais com esse entendimento conservador, que sacraliza certas compreensões e as tornam inamovíveis. A religião é um fenômeno necessariamente humano. Religião é antropologia. É o resultado dos sonhos, dos anseios mais recônditos do ser humano. Ela foi criada para justificar certos elementos da realidade e que, sem ela, o ser humano teria dificuldades para lidar e aceitar. 

                O que convencionamos chamar de cristianismo não era o mesmo há dois mil anos. A história é construída por um constante jogo dialético. Os evangelhos, conforme os lemos, são bem distintos dos textos paulinos, pois estes são o resultado do entendimento, da sistematização daquilo que ele entendia ser o cerne dos ensinamentos de Jesus. É possível falar que aquilo que Jesus não disse foi consolidado por meio de uma interpretação. Paulo é um grande revisionista; um estruturador de fundamentos teológicos. Do mesmo modo, de acordo com o excelente livro de Geza Vermes, o conceito de ressurreição também levou tempo para ser uma doutrina plenamente aceitável dentro do judaísmo e, mais tarde, tornar-se um tema da teologia cristã.  

                Do ponto de vista histórico, o cristianismo é uma vertente religiosa derivada do judaísmo. Sendo assim, boa parte dos elementos estruturais do cristianismo foram herdados da religião dos judeus. Por exemplo, a divindade do chamado Antigo Testamento, Javé, é a mesma divindade do Novo Testamento. É o mesmo que profere uma sentença de aprovação à Jesus no ato do batismo, conforme Mateus 4. Alguns conceitos teológicos também foram herdados do judaísmo. A ideia de aliança é algo que perpassa todo o texto bíblico. O amor, a proteção, a predileção divina também é algo que faz parte desse conjunto.

                No Antigo Testamento, conforme diz Vermes, não se encontra a ideia de ressurreição como passou a ser acreditada no cristianismo. Paulo eleva esse entendimento, tornando esse um dos signos de sua pregação. Como teria ocorrido essa mudança de compreensão ao longo dos séculos? É sobre isso  que o autor procura discorrer ao longo de sua didática obra.

                Para ele, - e isso pode ser comprovado pela experiência -, a teologia existente no Antigo Testamento afirma que a vida no mundo físico é a única oportunidade que o fiel possui para se deleitar, para fruir, para se regozijar. O autor de Eclesiastes escreve: “Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde vais, não há obra nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma”. (Ec 9.10). No livro de Jó, há ainda uma descrição mais dramática sobre esse silêncio a que todos os seres vivos serão submetidos após a morte. “Antes que eu vá para o lugar de que não voltarei, à terra da escuridão e da sombra da morte; Terra escuríssima, como a própria escuridão, terra de sombra da morte e sem ordem alguma, e onde a luz é como a escuridão”. (Jó 10.20-21). Esse lugar silencioso, escuro, fechado, recôndito, de onde nada emanava, tinha o nome de Xeol ou Sheol – em hebraico, “mundo” ou “morada dos mortos”. Nesse mundo não seria possível adorar a deus. Isso só se torna possível do lado de cá da existência (Sl 6.5).

                Segundo Geza Vermes a mudança de compreensão se deu por volta do segundo século antes de Cristo, no período Asmoneu com os Macabeus. Esse período foi marcado por uma forte resistência religiosa. As violações cometidas por Antíoco IV contra a fé dos judeus teria feito surgir uma quantidade enorme de pessoas dispostas a proteger as tradições da religião. Muitas pessoas teriam dado a própria vida para garantir a pureza da fé. Há relatos de que Antíoco IV tenha sacrificado uma porca no altar do templo sagrado dos judeus, algo que os ofendeu profundamente. Esse mesmo soberano da dinastia selêucida procurou helenizar à força a cidade de Jerusalém, instalando contra a vontade dos judeus, uma estátua de Zeus; além disso, proibiu o culto judeu e a circuncisão. Foi o suficiente para um movimento de resistência.

                Aqueles que resistiram, entregando a própria vida, precisavam de um prêmio. Não era justo para com eles a morte e o confinamento frio e eterno do Sheol. Vermes cita o esclarecedor texto do Testamento de Judá, escrito nesse período: “aqueles que foram mortos em nome do Senhor despertarão para a vida” (25.4). Percebe-se, claramente, uma mudança de compreensão. Do silêncio do Sheol, alguém poderia ressurgir. Era uma mudança radical de compreensão.

                Nos dias de Jesus, a ressurreição era uma doutrina digna de certas disputas. Os fariseus, por exemplo, (partido surgido à época dos Macabeus, diga-se de passagem), acreditavam que haveria ressurreição. Já os saduceus, constitutivos da elite sacerdotal, não acreditavam nessa doutrina. Todavia, há algo importante de ser observado. Os fariseus eram o grupo mais proeminente e com maior capilaridade na sociedade judaica da época. Eles possuíam um amplo grupo de adeptos. As doutrinas defendidas pelos fariseus tinham uma maior penetração social. Os grupos moderadamente abastados eram fariseus, o que dava a eles uma maior densidade, uma maior penetração em vários estratos da sociedade. Eram criadores de consenso.

                Os evangelhos são escritos posteriores à vida de Jesus. Foram escritos por pessoas que tinham o objetivo de provar que Jesus era o Cristo, o Messias. Sendo assim, há um esquema presente em todos: Jesus nasce miraculosamente, vive miraculosamente, morre; e ressuscita miraculosamente. Como diz Vermes, quando se ler atentamente os evangelhos é possível perceber que os apóstolos não tinham ideia do que aconteceria. Ou seja, não contavam com a morte de Jesus. O próprio Jesus se esforça o tempo todo para narrar com plena ênfase a chegada do reino de deus. Muitos dos seguidores de Jesus e – talvez o próprio Jesus - entendessem que não veriam a morte. O reino de deus havia chegado. Um exemplo disso está na passagem em que Jesus diz que “muitos não provariam a morte até que vissem o reino de deus” (Lc 9.27); ou na esclarecedora passagem: “Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, respondeu-lhes: ‘A vinda do Reino de Deus não é observável. Não se poderia dizer: ‘Ei-lo aqui! Ei-lo ali!’, pois eis que o Reino de Deus está no meio de vós’” (Lc 17. 20-21). O “reino de deus” havia chegado; era uma realidade incontrastável. 

                Entre a sua chegada, o estabelecimento do reino de deus e o final dos tempos, havia o entendimento para o próprio Jesus, que não haveria morte. Tanto é assim, afirma Geza Vermes, que o ensinamento sobre a vida após a morte nos evangelhos é algo vago. A sentença que emula a doutrina evangélica é a chegada do reino de deus.

                Desse modo, a morte de Jesus foi um verdadeiro “balde de água fria” nas intenções dos seus seguidores. Aquilo os aturdiu profundamente. Ficaram confusos. Sem entender o evento. Alguns, talvez, até decepcionados. Afinal, Jesus havia feito a promessa de uma redenção, de uma transformação por meio da chegada de seu reino.  Os quatro evangelhos, de acordo com a redação encontrada na bíblia nos nossos dias, aparentemente, conservam uma narrativa coesa. Todavia, analisada em detalhes, deixam algumas pistas. Diz Vermes:

“O tema da ressurreição ganha importância através do tratamento de dois aspectos da vida de Jesus nos Evangelhos. Para servir às necessidades apologéticas da Igreja explicando a cruz e a subsequente ressuscitação do Messias, os evangelistas sentiram-se obrigados a inserir, nas suas narrativas da fase final da vide de Jesus predições reiteradas da sua morte e ressurreição iminentes. Essas profecias visavam, aparentemente, preparar seus companheiros mais próximos para a sua queda e exaltação imprevistas ao final de sua carreira. É óbvio que ao tentar relatar a ressurreição de Jesus os evangelistas enfrentaram uma laboriosa tarefa. Seus relatos exibem numerosas incoerências. Contudo, as sete ou oito décadas – entre 30 d.C. e 100-110 d.C., os anos que separam a morte de Jesus da conclusão do Evangelho de João – testemunharam uma certeza constantemente crescente na Igreja Primitiva quanto à ressurreição de Jesus e sua presença espiritual entre os seus seguidores”. (pp. 135,136)

                Sendo assim, a ressurreição é um tema que ganha relevância, pois a morte de Jesus quebrou o fluxo de expectativa dos seus seguidores. Os evangelhos procuram direcionar a narrativa, deixando a entender que aquilo estava no horizonte da pregação de Jesus. Todavia, as contradições internas atestam uma tentativa de inserção do tema. Há a busca de relacionar a morte de Jesus com predições do Antigo Testamento que se harmonizassem com a vida de Jesus. Um exemplo disso se encontra em Mateus 12.40. Nesta passagem Jesus faz supostamente uma analogia da sua morte com o fato do profeta Jonas ter ficado ‘três dias no ventre de um monstro marinho’. Do mesmo modo, ele ficaria três dias no ‘ventre da terra’, até ressurgir dos mortos.

                Como nos alega Vermes, essa afirmação possivelmente seja fruto de uma organização pessoal do escritor do Evangelho segundo Mateus. É a “laboriosa tarefa” de que fala o escritor. Diante do evento da morte de Jesus, foi necessário criar um enredo capaz de criar  esperança. A ressurreição não era o fim. Paulo, mais tarde, falaria que “Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram” (1 Co 15.20).

                Uma outra questão importante levantada por Vermes diz respeito a como cada evangelista narra o evento da ressurreição, o que atesta um desencontro de perspectivas. Ou seja, cada evangelista se muniu de material diverso. Isso gerou desencontros nos detalhes da suposta ressurreição.

 Mateus diz que Maria Madalena e a outra Maria foram ao túmulo, no primeiro dia da semana, e um anjo removeu a pedra e sentou-se sobre ela. O anjo possuía o brilho de um relâmpago. Os guardas tremeram de medo e ficaram como mortos. As mulheres são aconselhadas pelo anjo a contarem para os discípulos que Jesus havia ressuscitado e que iria para a Galileia. Jesus aparece para as mulheres e reitera o que havia sido anunciado pelo anjo. Os guardas são subornados pelas autoridades para não confessarem o que havia acontecido. Era preciso falar que os discípulos roubaram o corpo de Jesus enquanto os guardas dormiam. Na Galileia, Jesus se encontra com os onze discípulos. Anima-os e encoraja para que eles levem a mensagem ensinada até os confins do mundo. (Mt 28).

Em Marcos, diz-se que José de Arimatéia pediu o corpo de Jesus a Pôncio Pilatos (sic.). José tirou Cristo da cruz. Enrolou-o em um lençol e o pôs num túmulo que fora talhado na rocha. Em seguida, fechou a entrada do túmulo com uma pedra. Maria Madalena e Maria, mãe de Joset, observavam onde Ele (Jesus) fora posto. Tendo passado o sábado, elas voltaram para aplicar aromas ao corpo de Jesus. Afinal, os preparativos não foram feitos por causa do final da sexta-feira, quando foi morto, e o início do sábado. Elas especulavam entre si como removeriam a pedra.  Dessa vez, diferente de Mateus, havia pelo menos três mulheres – Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé. Em Mateus não consta, Salomé. Outro detalhe, de Mateus para Marcos é que, em Mateus, o anjo senta-se na pedra à entrada do túmulo; em Marcos, elas entram para o túmulo e encontram o anjo sentado. Nos manuscritos mais antigos, o capítulo 16 de Marcos termina abruptamente no versículo 8. Nota-se, quando se inicia o versículo 9, que o texto tenta retomar um assunto, mas há uma clara mudança no foco narrativo. É como se alguém tivesse pegado um texto inacabado e fizesse um fecho para delimitar o seu fim.

Nesse sentido, é preciso perceber que o enxerto insere outras aparições. A narrativa retilínea de Mateus é bem diferente do emaranhado de aparições de Marcos. Por exemplo, Mateus diz que ele reapareceu para os onze no alto de um morro. Em Marcos, Jesus se manifesta quando os discípulos estão á mesa. O texto chega ao seu cabo com a seguinte sentença: “Ora, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi arrebatado ao céu e sentou-se à direita de Deus” (Mc 16.18). E diz o texto que eles saíram dali decididos a pregar.

Em Lucas, há um detalhamento maior. Enquanto Marcos é frugal com o seu texto, o autor de Lucas procura ser meticuloso. Repete alguns eventos encontrados nos dois textos. Fala de José de Arimatéia. Descreve a intervenção dele junto a Pilatos. O depósito do corpo de Cristo em um túmulo.  As mulheres que ficam observando à distância onde o corpo havia sido colocado. Quando elas voltam, encontram o túmulo aberto. E, dessa vez, não é mais um único anjo: são dois com vestes fulgurantes. Outra diferença é o nome daquelas que vão ao túmulo: Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago. Novamente, não há referência a Salomé. Em compensação, surge alguém denominada de Joana. De acordo com Lucas, ainda havia outras mulheres. (Lc 24.10). Outro detalhe que exibe a contradição sobre o tema diz respeito ao modo como Jesus aparece para os onze. Após o episódio do caminho de Emaús, Jesus aparece para os onze, dessa vez, em Jerusalém. Em Mateus e Marcos, afirma-se que esse encontro se deu na Galiléia. (lC.24.33-36). Em Marcos, é dito que a ascensão de Jesus se deu forma abrupta, quando eles estavam comendo. Em Lucas, os discípulos vão com Jesus até Betânia. E nessa localidade, Jesus foi “elevado ao céu”.

                Em João, a figura de José de Arimatéia reaparece, acompanhado, dessa vez, por Nicodemos. Observa-se que os preparativos para o sepultamento acontecem ainda na sexta-feira. Segundo narra o autor de João, Jesus foi colocado em uma espécie de jardim, em um sepulcro novo. João insere outros elementos, o que sugere que houve uma tentativa por parte dos evangelistas de criar uma narrativa que correspondesse à nova situação que se estabelecera, a saber, a morte de Jesus. Diz João que Maria Madalena foi sozinha ao túmulo (sic). Tendo chegado lá e percebido que o túmulo estava aberto e vazio, voltou e foi avisar a Simão, ou seja, a Pedro, e, possivelmente, a João, o discípulo que Jesus amava. Os dois correram até o túmulo e comprovaram aquilo que havia sido dito por Maria.

                Maria fica – sozinha – chorando “junto ao sepulcro”, “de fora”. E aparecem dois anjos. Mas, junto com os anjos, Jesus também aparece para ela. Ela não o reconhece. Após tê-lo confundido com um jardineiro, ela o identifica. Ele pede para que ela vá contar a novidade aos discípulos. Estando todos trancafiados, ele aparece no meio deles. Apresenta-se e sopra sobre eles o espírito santo. Nesse ponto, há uma divergência para os escritos de Lucas – o evangelho e Atos dos Apóstolos -, pois nos dois textos eles são aconselhados a ficarem em Jerusalém até que do alto fossem revestidos de poder. Oito dias depois, estando os discípulos juntos, ele reaparece – aparentemente – para dar uma prova de vida a Tomé. João termina dizendo que Jesus fez inúmeros outros prodígios que não estão escritos no seu texto. Na parte final, há uma espécie de epílogo. Funciona como se fosse um evento deslocado do texto principal, mas que traz algumas informações curiosas. O fato que chama a atenção é a pescaria frustrada de alguns discípulos. Jesus faz um outro milagre: o milagre da pesca abundante. Pedro e os seus companheiros recolhem 153 peixes grandes. Diz João que essa foi a terceira vez que ele apareceu para os discípulos, depois que havia ressuscitado dos mortos. Há uma série de falas repletas de um mistério que se projeta de forma aleatória. E o texto de João termina dizendo que Jesus realizou tantas ações que, se elas fossem descritas, não caberiam nos livros do mundo.

                Em Atos dos apóstolos, o autor – supostamente Lucas – diz que Jesus ficou com os discípulos durante quarenta dias. Jesus diz, “no decurso de uma refeição”, que eles deveriam permanecer em Jerusalém. Nota-se que diferente de João, eles ainda receberiam o espírito santo. De repente, o texto afirma de maneira estranha que ele “foi elevado à vista deles, e uma nuvem o ocultou a seus olhos”. Todavia, a continuidade do texto nos faz crer que eles estavam “no monte chamado das Oliveiras”. Nota-se que aqui já é o terceiro lugar de onde se fala que Jesus estava ou ascendeu aos céus – Galiléia, Betânia e Monte das Oliveiras.  Essas evidências contrastantes atestam aquilo que Vermes afirma sobre a tarefa que os discípulos tiveram a fim de criar um “esquema” capaz de dar significado à ressurreição. Era preciso tornar crível a existência de Jesus como o Messias; que sua mensagem não fracassou com a morte. A ressurreição de Jesus se tornou um emblema poderoso. É a esperança daqueles que nele esperam.

                No final do livro de Vermes, há uma referência a uma expressão usada pelo teólogo alemão Rudolf Butmann. Segundo ele, “o túmulo vazio é uma lenda apologética”. Sim. Lenda, pois passou a fazer do imaginário e dos desejos extraordinários dos discípulos. E “apologética”, pois se transformou em uma sentença teológica fundamental para o cristianismo. Na verdade, é uma marca dessa religião. Não há como dissociar esse elemento da fé. Excelente livro! Enriqueceu a minha percepção sobre esse aspecto mitológico da fé cristã.  

domingo, janeiro 28, 2018

"Quem escreveu a Bíblia?", de Bart D. Erhman

A Bíblia é considerada por bilhões de pessoas em todo o mundo como um livro sagrado, de autoridade inquestionável. Ela é a expressão exata daquilo que Deus falou. É a verbalização, a materialização de sua voz. O inequívoco sopro de Sua boca, tornado em evento por meio dos profetas, evangelistas e outros sujeitos anônimos que, ao longo de mais de mil e quinhentos anos, foram responsáveis por essa construção. 

Analisando por essa perspectiva meramente de fé, os cristãos dizem que não há um equívoco sequer em seu texto. Está de acordo com a vontade da soberana de vontade do Criador. A própria Bíblia utiliza uma metalinguagem para justificar a sua autoridade. Na segunda carta, supostamente escrita por Pedro, encontramos uma afirmação categórica: "E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações. Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo". (2 Pedro 1:19-21).

Quem lê a Bíblia em nossos dias, não relaciona o fato de que sua escrita seja o resultado de disputas. Essa tese está no livro do professor Bart D. Erhman  "Quem escreveu a Bíblia?", que acabei de ler. Ehrman, um renomado estudioso do Novo Testamento, mostra que boa parte da redação atribuída a determinados autores não se sustenta. Ou seja, a menção a esses autores está equivocada. 

Tomemos como exemplo as duas epístolas de Pedro. Sempre percebi nas leituras que já fiz das duas cartas que havia elementos distintos da personalidade do apóstolo daqueles encontrados nos evangelhos. Pedro era um indivíduo bronco, dado a rompentes; de personalidade forte, impulsivo. Em um dos episódios narrados nos evangelhos, Pedro corta a orelha de Malco, um dos soldados romanos que vieram prender Jesus. Ainda segundo os evangelistas é ele que quer que desça um raio do céu para fulminar aqueles que não creram em Cristo. Todavia, quando lemos as duas epístolas, notamos um Pedro diferente  - articulado, conhecedor dos textos Antigo Testamento; conselheiro, de sabedoria  proverbialmente paulina. 

Possivelmente, Pedro fosse um analfabeto. Segundo o próprio Erhman, apenas 3% das pessoas nos tempos de Jesus sabiam ler ou escrever. A grande massa de pessoas viviam numa profunda ignorância. É estranho que, de repente, Pedro se levante como uma autoridade intelectual. Outro elemento destoante é a qualidade do grego utilizado para escrever a carta, que é de boa qualidade. Pedro, certamente, não sabia grego. Sua língua era o aramaico, como um palestino humilde que era; habitante do norte de Israel. 

Utilizo a epístola de Pedro como exemplo citado por Erhman, mas, nos supostos textos de Paulo, também encontramos atribuições indevidas. A tradição entende que quase metade dos textos do Novo Testamento foi escrito por Paulo. Esse fato não se sustenta para Erhman. Para ele, não são paulinas as cartas de: I e II Timóteo, Tito (chamadas de cartas pastorais); Efésios, II Tessalonicenses e Hebreus. 

Durante os primórdios da Igreja, não havia um cânon (o conjunto de livros ditos "sagrados" como convencionamos hoje). Havia uma tradição oral. As pessoas que haviam convivido com Jesus transmitiam as narrativas. Aos poucos essas histórias começaram a ser coligidas, reunidas. O primeiro evangelho a surgir foi o de Marcos. Logo em seguida vieram Mateus e Lucas. O Evangelho de João foi último. A grande questão é saber quem de fato eram essas pessoas. Os nomes foram atribuídos. Não significam que pessoas com esses nomes e personalidades escreveram esses textos. Há dezenas de outros evangelhos escritos, mas, por que somente esses foram considerados sagrados? Existem livros atribuídos a Pilatos, a Nicodemos, a Maria Madalena, a Tomé, a Pedro etc; há livros de sujeitos que viveram próximos aos apóstolos como Clemente. 

Ao longo dos séculos, foram os concílios os responsáveis por fixar o que cabia e o que não cabia no chamado cânon. É possível que muita coisa que "não era" passou a ser considerado como sagrado; e muita coisa que "era", que também deixou de ser. O fato, é que "o uso" e a repetição de determinado entendimento cria a consolidação daquilo que é sagrado assim como conhecemos. Hoje, por uma questão que se tornou inquestionável, colocar em dúvida esses textos é cometer um crime mortal.  

Não se trata de uma implicação com a Bíblia. Erhman é um debatedor honesto. Sua função não é atacar a Bíblia, destratar a fé alheia. Suas argumentações são acadêmicas e honestas.  Vale a leitura!

sábado, janeiro 24, 2015

As duas éticas e o evangelho

As parcas leituras da bíblia que realizei, levaram-me a entender que existe uma ética da contradição nas sentenças evangélicas. A bíblia é um livro dos livros. Quando afirmo isso quero dizer que lá dentro encontram-se uma quantidade grandiosa de discursos. Quem pretender lê-la, precisa estar sensível a isso. Há o discurso raivoso de um Javé melindroso no Antigo Testamento. Alguém que mata idosos, crianças, mulheres. Que culpa o rei Saul por ter poupado uma nação inimiga inteira, quando deveria ter dizimado todos os seus integrantes.

É o deus bélico. Que extermina povos inteiros para promover Israel. Muito cômodo para Israel que conta a sua história de protegido. Há o discurso da justiça social dos profetas menores.  A poesia que busca inspiração na natureza de alguns dos salmos. No chamado novo testamento, encontramos o discurso ressentido de Paulo. Alguém que, criativamente, sistematizou um código dogmático e que acabou criando o que conhecemos como doutrina da igreja cristã. Termos como predestinação, eleição, justificação, velho homem, novo homem, velho Adão, novo Adão, não são encontrados nos quatro relatos biográficos da vida de Jesus, conhecidos como evangelhos. Nesse sentido, é possível é distinguir uma mensagem paulina e uma mensagem cristocêntrica nessa teia complexa de discursos.

E acredito que o coração da mensagem cristã esteja justamente nessa pequena porção da bíblia. É como se ali estivesse o coração do sistema. O seu núcleo vital. Dali emanam a energia, a luz que irradia sobre a vida. Percebo que Mateus, Marcos, Lucas e João, os chamados biógrafos oficiais, reconhecidos pela igreja (outros escreveram também sobre Jesus), conseguiram captar ou construir um discurso de uma ética que é mais fina, mais nobre, do que aquela construída por Paulo e seguida pela igreja. Por isso, vislumbro dois horizontes distintos quando leio os evangelhos e enxergo aquilo que é praticado: 

(1) Cristo levou à frente um tipo de projeto que fazia com que os sujeitos saíssem de uma ética privativa, para uma ética coletiva. Para Jesus, o seu reino só faz sentido se levar a transformação do outro e do mundo como causa fundamental. Jesus pregou a misericórdia e disse que pobres são todos aqueles que se reconhecem como necessitados de uma mudança existencial, de uma guinada que passará a ser dirigida pelo amor, solidariedade. A moral predatória, porque desvinculada de um projeto de inclusão e solidariedade, não faz parte do seu reino. É do reino aquele que, na aceitação da diferença, vive isso como verdade incondicional. Como diz Jürgen Moltmann Cristo não é apenas o articulador de uma mensagem, mas o criador de um caminho. Esse caminho se alegra com toda causa que espalhe a justiça, que inclua o necessitado, que permita ao outro uma compreensão da sua condição e o faça buscar o bem-estar para todos os homens.

(2) Por outro lado, existe uma ética privatista, seguidora dos valores culturais do momento, como se esses fossem a exata medida daquilo que é ensinado. Seguidora daquilo que é articulado pelo sacerdote, que em muitos casos é mais ignorante, do que muitos fiéis (Mateus 23). Trata-se, no fundo, primeiro de uma compreensão que leva em conta uma tônica baseada em regra marcial de mercado: conquistar, crescer, avançar, bater no peito e alardear a sua própria justiça arrogante (Lucas 18.9-14). Ou seja, cresço à medida que conquisto, não levando em conta que o crescimento propugnado pelo evangelho se dá de dentro para fora. A água que revela que o chafariz funciona não brota de fora para dentro, mas de dentro para fora (João 7.38). Nietzsche diz que a existência do sacerdote é legitimada pela conivência do fiel; aquele possui um discurso reativo, negativo, em relação a este. Este aceita a autoridade daquele e chancela a sua autoridade.

Portanto, não acredito em um evangelho como visto por aí: de cara séria, sisudo, falso, perdulário, ufanista, irresponsavelmente despreocupado com a humildade, com o silêncio, com a reflexão sobre o mundo (não para julgar e se afastar), que não vive aquela fala de Jesus: "o que a tua mão direita faz, não conte à esquerda"; preocupado com o exterior do copo e não com o seu interior; um evangelho que segue uma ética mercantilista e que mesmo quando diz ser puro, está escondido nos recônditos de um discurso chauvinista e que não se transforma em vida.

Lendo uma entrevista do Papa Franscisco, cristalizei ainda mais essas certezas. Francisco tem sido perseguido pelo fundamentalistas conservadores por pregar, justamente, a ética coletiva que é tão evidente na mensagem de Jesus. O evangelho quer queira quer não queira faz uma opção pelos pobres. Tiago, o irmão de Jesus, em sua sede justiça, diz em sua carta (Tg 5.1-6) que os pobres foram injustiçados pelos ricos, que se aproveitaram de sua não resistência e lançaram aqueles na miséria.

Wolfgang Schrage, corroborando com o que diz Tiago em outro capítulo, diz que "fé e ação estão indissoluvelmente unidas" no cerne da mensagem evangélica. Por isso, perdi completamente a paciência com o discurso ufanista e conservador de determinados sujeitos, que levantam a bandeira de uma ética que não é o coração da mensagem evangélica; uma ética hipócrita e seletiva. Nesse sentido, quando alguém diz ser cristão analiso qual ética está inscrita em seu discurso: se privatista ou coletiva.

domingo, setembro 01, 2013

Algumas considerações sobre Paulo e um livro de Alain Badiou

Paulo, o apóstolo Paulo, é uma das figuras mais controversas da história. Sou intrigado com essa personagem por tudo aquilo que possivelmente foi e por tudo aquilo que ele representa. Paulo de Tarso é uma das figuras mais emblemáticas da Antiguidade. Esse desejo de conhecê-lo mais profundamente me fez ler o livro "São Paulo - a fundação do universalismo", de Alain Badiou, filósofo e historiador marxista francês. Quis sair do nicho traditivo e que defende de forma cega o dogma, para entrar em uma "arena" crítica.

Fico pensando se não houvesse os escritos de Paulo como seria o cristianismo como religião institucionalizada? Como seriam os dogmas? Os escritos de Paulo são pontos basilares que sustentam a catedral dourinária dos cristãos. Muitos pensadores já perceberam o quanto o texto paulino é inflexivo dentro do Novo Testamento. O apóstolo quebra completamente o aspecto biográfico e taumatológico dos evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João; e do livro de Atos dos Apóstolos). Existem inúmeras versões para essa discrepância. 

Segundo certa parte dos estudiosos, os textos paulinos constituem os primeiros documentos da história do cristianismo. Das treze cartas sugeridas como escritas por Paulo, seis pelo menos são tidas como verdadeiramente paulinas (Romanos, 1° e 2° Coríntios, Gálatas, Filipenses e 1° Tessalonicenses). As demais (Efésios, Colossenses, 2° Tessalonicenses, Tito, Filêmon, 1° e 2° Timóteo) são de autoria questionável por conta dos extratos estilísticos e, segundo os estudiosos, foram agregadas ao corpus canônico posteriormente. 

Mas o que torna o texto paulino algo a ser investigado? As cartas de Paulo são narrativas pragmáticas. Elas foram escritas em contextos bastante específicos. É estranho que Paulo não insira quase nada em seus escritos sobre discursos de Cristo. O tema mais preponderante em seus escritos resvalam em alguns temas comuns aos evangelhos. Um exemplo é a eucaristia (a santa ceia). Enquanto os evangelhos estão assentados sobre milagres, eventos extraordinários, discursos e ensinamentos por meio de parábolas, eventos climáticos anômalos, ressurreições, os textos paulinos estão fundados em aspectos jurídicos, ou seja, arraigadamente teológicos em sua natureza. Paulo vai falar de justificação, redenção, glorificação, fé como força restauradora, predestinação, eleição, graça, ao contrário do que, por exemplo, defende a Carta de Tiago. Este defende as obras, aquele, a graça e a fé. Ou o Evangelho segundo Marcos que mostra um Jesus imensamente ativo e dinâmico em sua atuação.

Paulo talvez tenha escrito os seus textos nas décadas de 50 e 60 do primeiro século. Os evangelhos, quiçá, sejam escritos mais recentes do Novo Testamento. Suspeita-se que havia uma tradição oral transmissora dos eventos sobre a vida de Jesus, pois se os evangelhos fossem escritas concomitantes ao momento da vida de Paulo, é possível que ele tivesse inserido em seus textos alguns elementos conforme aventado acima. Cria-se assim uma dissociação entre o Jesus histórico dos evangelhos e o arcabouço doutrinário do apóstolo. 

Paulo possui um dogma antifilósofico: Cristo morreu e ressuscitou, por isso invistamos a nossa fé e expectativa nesse episódio. Em sua metafísica cabem potestades e principados. A luta entre o bem e o mal. Ele fia o seu discurso em outra realidade, estabelecendo assim, de forma paradoxal, um platonismo. Sua escatologia diverge daquilo que Jesus escreve nos capítulos finais do Evangelho de Mateus. Paulo fala do "homem da iniquidade" (o imperador romano?). Paulo deve ter atuado como cristão sob o regime de três marcantes imperadores: o terrível Calígula, o conformado Cláudio e o sanguinário Nero. Inclusive, ele foi morto sob a ordem de Nero, conforme a tradição da Igreja defende. 

Do ponto de vista político ele é conformista. Já que em sua pregação existe uma metafísica platônica, ou seja, separando o mundo real do mundo ideal, Paulo prega a submissão dos cristãos às autoridades como aparece explícito em sua carta aos Romanos. Ele não considera a autoridade sob o aspecto crítico. Sua intenção é sempre apontar para a "nova Jerusalém", para a outra vida. "Se a nossa vida se resume apenas àquilo que vivemos neste mundo, somos os mais miseráveis dos seres" (1 Coríntios 15). 

Segundo Badiou, Paulo é o fundador do universalismo da subjetividade da fé, já que a fé não é uma categoria quantificável. O apóstolo não coaduna a ideia de totalidade dos gregos ou de uma eleição judaica que diverge da lógica grega, obrigando tudo que existe a se harmonizar com aquilo que é. Paulo caminha na direção contrária disso. Ele coloca as suas sentenças acima dos condicionamentos da filosofia grega ou da lei judaica, apesar de possuir em sua práxis um profundo background judaico. Ver, por exemplo, a sua explicação para as prerrogativas do homem e "o silêncio da mulher". 

O livro de Badiou contribui com o debate em torno da figura de Paulo. Todavia, existem pelo menos quatro autores estudiosos da vida de Paulo que preciso ler: Adolf von Harnack, Ferdinand Christian Baur, Albert Schweitzer e Ernest Renan, apesar de toda a crítica negativa contra esse último.


sexta-feira, maio 10, 2013

"As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras"

Diz Paulo Freire em sua Pedagogia do Oprimido que não é possível manter uma relação dialógica com quem não comungue com o seu projeto ideológico. Pensava que existia um certo radicalismo nessa assertiva, até que ontem percebi que o educador pernambucano estava correto. Nietszche diz também em um dos seus livros que "as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras". 

Faço essa divagação, pois ontem tive o desprazer de tentar estabelecer um diálogo com um sujeito o qual estudei em um seminário teológico. Nos anos de seminários, notava o quanto o sujeito era "quadrado", radical; o quanto baseava seus argumentos em convicções extremadas. Ontem, pelo Facebook, fiz uma correção a uma afirmação sem fundamento histórico colocada por esse ex-colega e ele me respondeu com uma ironia despropositada. Além do que, enviou-me um texto que, quando li, dei grandes risadas.

O texto busca desqualificar o marxismo, fazendo uma mixórdia de afirmações desencontradas. Fiquei com a impressão irônica de que a principal função de Marx era perseguir o cristianismo e acabar com a religião de Paulo. Um verdadeiro desbunde. Imaginei, ainda, que (se eles - construtores de teologias alienígenas - leram os textos de Marx) eles haviam lido outros textos, que não aqueles escritos pelo autor de O Capital. O nome dado pelos adeptos desse radicalismo esquizofrênico é "marxismo cultural". Marxismo cultural seria o movimento de cunho cultural, alimentado por intelectuais e pelos meios de comunicação de massa para arruinar os valores judaico-cristãos. 

 O que me chamou atenção foi a incapacidade do sujeito ler os fatos por uma perspectiva crítico-dialética. Ele se diz professor de Filosofia no estado do Maranhão. Temi pelo que o sujeito anda ensinando para os sues alunos. Afinal, ele colocou o socialismo, o nazismo e o fascismo na mesma esteira de comparação. Ele ignora o fato de que foi a União Soviética que derrotou o nazismo. Não quero entrar no aspecto do socialismo real implementado pela União Soviética, já que sempre associam o socialismo às ditaduras variadas. Todavia, vivemos, também, uma ditadura muito bem-disfarçada sob a égide da democracia e da liberdade.

Indicou-me alguns escritores aos quais já tive a oportunidade de conhecer - Peter Kreeft, Olavo de Carvalho, Nancy Pearcey, Charles Colson, William Craig, John C. Lennox. A maioria deles, da direita ultra-conservadora dos Estados Unidos. Ou seja, defensores da política de Bush.

O que me deixa impressionado é saber como um sujeito que se arroga a ser formador de opinião se mostra tão míope. Sua preocupação mais intensa é o movimento homossexual. Desconhece o sujeito que os valores morais  seguem a lógica de cada momento da dialética da história. E que a própria sociedade judia possuía os seus valores e esses foram cristalizados no tempo pelo movimento religioso que dogmatizou os seus aspectos culturais. Impressiona-me como os valores culturais de uma determinada sociedade, no caso a judia, por meio dos valores ditos bíblicos, cegam um ser humano ao ponto de descaracterizar, distorcer a própria realidade em que vive. Impressiona-me perceber que, como no Mito da Caverna de Platão, alguém enxerga o mundo por meio de sombras. Assusta-me o nível de embrutecimento gerado pelas convicções da fé. Isso explica, por exemplo, a atitude de um homem-bomba ou a capacidade de ser implacável com os diferentes. 

Paulo Freire e Nietzsche me fizeram entender um pouco mais sobre a natureza do humana, demasiado humana.

quarta-feira, dezembro 26, 2012

Devaneios ou como se aplica um golpe na consciência II

Na noite de Natal, do dia 24 para 25, como de praxe, eu e a minha esposa fomos a uma reunião de família. Como acontece todos os anos, muitas músicas cristãs alimentam o momento com uma aura rala de felicidade e paz. Logo após as músicas, foi feita uma pregação por um dos pastores da família. Foi lido o texto do evangelho segundo São Lucas: 

"A uma virgem desposada com um homem, cujo nome era José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria. E, entrando o anjo aonde ela estava, disse: Salve, agraciada; o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres. E, vendo-o ela, turbou-se muito com aquelas palavras, e considerava que saudação seria esta. Disse-lhe, então, o anjo: Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus. E eis que em teu ventre conceberás e darás à luz um filho, e por-lhe-ás o nome de Jesus. Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; E reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim". (Lucas 1:27-33).

Uma explicação bastante emotiva se consumou após a leitura do excerto. O discurso se fiou pelos caminhos da missão de Jesus. E qual a Sua missão? A resposta surgiu fáicl: livrar o homem do pecado. E o que é o pecado? Tudo aquilo que separa o homem de Cristo. Não deixei de observar que o sermão estava cheio de termos teológicos: queda, pecado original, justificação, redenção, predestinação, graça etc. 

O que é curioso nesse sentido é que Jesus não pronunciou nenhuma dessas palavras. Todas fazem parte da plêiade do universo paulino. O sermão ficou repleto de um discurso afetado pelo "mau humor" do apóstolo. Diferente daquilo que se vê nos evangelhos, linguagem grávida de bondade, de expectativa pelo reino de deus, tornou-se numa sentença condenatória - a típica verve de Paulo

Enquanto ouvia o sermão, fiquei pensando que acontecera a leitura do evangelho, mas o discurso proferido se conciliava com a força agressiva, bárbara e ressentida do corolário de Paulo.

Não é preciso ser um estudioso profundo para perceber a diferença nítida que existe entre os quatro evangelhos - narrativas sobre a vida de Jesus - e as cartas paulinas. Não é necessário fazer um estudo das fontes, das lacunas, do "documento Q"; estudar teologia, filologia, teoria do discurso, hermenêutica, para perceber que existe uma inflexão estilística nos textos paulinos. É como se dobrassêmos a esquina. A teologia de Paulo é uma esquina. Um leitor experiente e acostumado às nuances estilísticas de um bom texto literário, consegue perceber o antogonismo que se perpetra no Novo Testamento a partir da carta aos romanos. 

Por exemplo, um leitor treinado conseguirá perceber o estilo de Machado de Assis, de Graciliano Ramos ou Guimarães Rosa com muita facilidade. Se lhe vendassem os olhos e lessem os textos de um dos três autores, perceber-se-ia de maneira clara as diferenças - o desenvolvimento de ideias, a muicalidade, a jogo linguístico, as perorações, a fluência verbal etc. Ou seja, cada autor possui elementos idiossincráticos. Peculiares. Com o texto paulino não é diferente.

Dos 27 livros do Novo Testamento, a tradição ("a lenda dos santos", no dizer de Nietzsche) da igreja atribui 13 a Paulo. Existe ainda uma controvérsia em torno da Carta aos Hebreus. Para muitos, esse documento também teria sido escrito por Paulo. Todavia, não é algo assegurado e sustentado por muitos téologos conservadores.

O certo é que mesmo sem a carta aos Hebreus, o efeito do pensamento de Paulo se faz sentir no Novo Testamento  - e, consequentemente, na história do cristianismo. Sem o chamado "apóstolo dos gentios", a configuração do cristianismo não seria a mesma que temos hoje.

Somente um homem como ele, com uma personalidade que conjugava o bairrismo de um rabino e a força, a energia de um soldado romano, poderia ter tido a a criatividade para elaborar um conjunto de pensamento tão atraente e tão bem articulado como o pensamento paulino. Paulo tira o foco dos demais díscipulos em projeta-se como centro do discurso. Vislumbra-se aqui a necessidade de auto-afirmação. 

Mesmo dentro do judaísmo Paulo não era alguém benquisto. Ele mesmo afirma em uma das suas cartas (Galátas) que ficou quatorze anos se preparando para a missão que empreendeu. E daí nos surge um questionamento: não teria sido esse o momento em que Paulo sistematizou o seu pensamento? É possível que tenha ouvido os relatos dos evangelhos; tenha feito consulta a possíveis testetmunhas e tenha coligido o arcabouço daquilo que é a sua teologia. 

Paulo transformou a morte de Cristo num discurso triunfalista. Aqui é importante dizer que os evangelhos também não são narrativas fidedignas da vida de Cristo. Há muito de triunfalismo e a forja de eventos miraculos com a finalidade de transformar a existência de Jesus em algo miraculoso. Assim, no meio da narrativa evangélica é necessário encontrar as verdadeiras palavaras e ensinamentos de Cristo - um mestre por excelência. Os evangelhos não são relatos neutros e objetivos, o que lhes deformam a intenção. Foram escritos pela comunidade de crentes, logo, são viciados e parciais. Mas, nada impede que lá dentro encontremos "algumas" palavras de Jesus.