quinta-feira, setembro 03, 2026

Devaneios kiekergaardianos

O Sacrifício de Isaac (Caravaggio) - 1603. 

Certa vez, ao ler uma obra do filósofo dinamarquês Sören Kiekergaard, esbarrei na desassossegada afirmação: “Não consigo entender Abraão”. Essa frase tem feito eco em minha cabeça. Desde que a li, fico a pensar em seu significado. Ela reflete em espelhos côncavos de minha interioridade – “Não consigo entender Abraão”. O que o filósofo existencialista não entendia exatamente? Que detalhe específico da personalidade do patriarca bíblico criava essa inquietante incógnita? 

Em primeiro lugar é importante situar o contexto de onde a sentença é oriunda. Kiekergaard abordava o pedido feito por Deus a Abraão para que Isaque, o filho da velhice do patriarca, fosse oferecido como holocausto no monte Moriá (Gn 22.3). Esse episódio representa o ápice de uma prova imposta a um indivíduo. Biblicamente, Abraão é conhecido como “o pai da fé” (Hb 11.17-19). Kierkegaard o chama de “o cavaleiro da fé”.

O velho patriarca ao manifestar, silenciosamente, a intenção de sacrificar o filho da promessa, revela a incondicionalidade de um problema – os preceitos de uma ética horizontal, portanto, terrena, são substituídos por uma dimensão do singular. Vale mencionar que Isaque era aquele a quem foi feita a promessa. Era, portanto, o filho da velhice, aquele cuja concepção por si só fora um milagre. 

Há aqui uma suspensão dos preceitos das convenções da ética, conforme a conhecemos. Ela suplanta os enquadramentos racionais. Qual pai em sã consciência sacrificaria o próprio filho a fim de satisfazer a um pedido que parecia duvidoso? Na relação com Deus, há uma impossibilidade de tornar essa mesma relação em algo comunicável pela razão. Por isso, a fé ganha um contorno paradoxal. Somente uma fé inquebrantável, assumidamente compromissada com a paixão seria capaz de tal feito. Conforme expressa o próprio Kierkegaard, a fé é o que fica quando todas as outras realidades se esgotam. Ter fé é assumir uma postura radical diante da existência. É um gesto que faz transcender a própria vida. A fé passa a ser uma maneira radical de existir diante de Deus.

A fé carrega um paradoxo, pois Abraão, ao mesmo tempo que obedece a Deus, levando o próprio filho para ser sacrificado, acredita que Isaque, de algum modo, continua a ser o filho da promessa. Diante disso, ela se afasta dos cálculos e previsões à medida que tentamos aprisioná-la. Voa mais alto, enquanto desenhamos asas para apanhá-la. Ela é frágil e potente. Diante da fé, o que resta é o silêncio. Uma decisão que torna o universo um mero espectador. Um palco onde o jogo da própria existência será observado.

Abraão é “o pai da fé”, “o pai de todos aqueles que creem” (Rm. 4.11). Ele é assim denominado, pois carregava a esperança, uma certeza inabalável, uma convicção robusta sobre quem havia feito o pedido.

Também não compreendemos Abraão. A razão não o compreende. É a disposição mais geral sobre o seu procedimento. Não compreendemos, pois não conseguimos medir a dimensão mais radical de sua fé. Isso apenas sugere o quanto resistimos a viver esse compromisso de uma decisão radical. Olhando sob esse ponto de vista, também custa-me entender Abraão.