Mostrando postagens com marcador Santo Agostinho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Santo Agostinho. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, setembro 18, 2023

Devaneios sobre Santo Agostinho

 

                Retorno ao belo e dramático texto de “As Confissões”, de Santo Agostinho. A primeira vez que o li, em 2005, eu era um ardoroso cristão. Frequentava a Igreja Presbiteriana. Estudava teologia em um seminário. Derramava-me em preces. Procurava aquecer a minha alma com a luz emanada da fé. Agostinho ajudou-me nisso. Foi um mestre profundo a quem eu li com o coração em chamas.

                Regresso a Agostinho. Dessa vez, já não há crença profusa, mas há respeito. Não há ilusões, mas escuto-o com atenção. Bebo as suas palavras vagarosamente para sentir os efeitos. O grande bispo continua a falar com a típica beleza inegável. Com o jogo retórico. Com as imagens que suscitam uma comovente admiração.

                Agostinho é um dos pensadores que me define. Sua paixão pelo mistério, pela verdade, pela coerência, sempre foi uma orientação e uma paixão para mim. Conecto-me com a resplandecência que deriva do seu pensamento. Leio as suas palavras e sou visitado por uma buliçosa centelha de paixão. O grande teólogo é um mestre da elegância e dono de uma intuição filosófica invejáveis.  Era daquelas pessoas que sempre questionava aquilo que fazia e procurava um propósito pelo qual deveria viver.

Quando analisamos a sua vida, percebemos o quanto, desde pequeno, Agostinho demonstrava uma potência inevitável. A criança que procurava apanhar as goiabas do vizinho por achá-las mais vistosas, o jovem vaidoso, o adulto arrogante, mestre respeitado da retórica, demonstrou ao longo de sua caminhada que algo estava a faltar. Agostinho realizou uma carreira primando pela satisfação dos próprios desejos, até que esbarrou na nulidade, que é o resultado daquele que obedece apenas a si mesmo. A vida de Agostinho pode ser sintetizada na passagem de Eclesiastes 3.11: “Também pôs [Deus] no coração do homem o anseio pela eternidade”.

                Mais tarde, ele proferiria em “As Confissões”: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava fora”. Essa noção de que a vida equivocada é aquela que se vive fora da verdade do Deus cristão é a grande máxima de Agostinho. O homem, enquanto caminha, deve estar bem atento, pois a caminhada pode conduzi-lo à verdade e, portanto, à fruição de Deus (a Cidade de Deus) ou ao caminho do equívoco, do mal – a cidade dos homens.

                A caminhada errada leva sempre ao engano, ao choro, à angústia. Sofremos, agonizamos e não experimentamos a verdadeira paz enquanto não repousamos em Deus. E é, justamente nesse ponto, que repousa um dos mais sofisticados e elaborados entendimentos filosóficos do Mundo Ocidental: a noção do mal e do bem. O bem permite folgar, fruir, experimentar Deus. Quem assim o faz, acha a verdadeira felicidade. Tudo o que existe é bom. Não existem verdades que não sejam divinas. Dessa forma, o mal não é uma antítese, uma força contrária como algo em si. O mal não tem substância.  Foge-se, assim, de um maniqueísmo, corrente teológico-filosófica da qual Agostinho fizera parte. Observando de uma força bem superficial, pode-se afirmar que o princípio elementar do maniqueísmo é que mal e bem são forças antagônicas, com a mesma potência – Deus (o bem) e Diabo (o mal).

                Para Agostinho, o mal é a ausência de bem. O mal é um desvio na rota de qualquer indivíduo. Ser mal ou viver no mal é estar longe de Deus; ignorar os seus princípios e, consequentemente, não experimentar a felicidade Dele oriunda. Pode-se comparar a existência do mal como uma escuridão que acomete uma sala quando a porta é fechada. A escuridão está ali, mas pode ser desfeita, uma vez que a posta seja aberta. A escuridão existe onde houve privação da luz. O mundo e todas as coisas que o compõem existem para a luz.

                Esse pensamento é coerente com a sua própria vida. Agostinho entende que no período em que “fechou a porta” experimentou o mal. Somente quando foi redirecionado pela graça divina para o próprio Deus, pôde conhecer o bem para o qual havia sido criado. A compreensão de Agostinho é a de que, enquanto não chegamos à graça, a vida de todo ser humano é acompanhada por uma insofismável sucessão de infelicidades.

                Como o bispo de Hipona revigora. Como seu pensamento é delicado e comovente. Hoje, não me oriento pela sua divindade. Todavia, percebo que há em mim uma sede pelo mistério. E é possível transformar esse seu desejo em contemplação; e a contemplação em matéria para poesia.

“As Confissões” é um texto em que Agostinho se analisa, perscruta os próprios pensamentos e intenções.  Ler “As Confissões” é realizar um exercício de autoconhecimento. Enquanto lemos o texto agostiniano e observamos a maneira como seu autor se enxerga, passamos a nos compreender também. “As Confissões” é uma antropologia; um espelho do próprio ser humano à procura da eternidade; um trabalho arqueológico e ontológico.


domingo, setembro 18, 2016

Sobre "A civilização do açúcar", algumas palavras

"Todos os momentos do cotidiano do açúcar marcavam-se pela presença do escravismo".

Antes que iniciasse o processo de industrialização com o desenvolvimentismo de Vargas, na década de 30 do século XX, a história econômica do Brasil sempre foi marcada pela monocultura agrária. Essa monocultura revelava a ausência de projetos da Metrópole para a Colônia e, mais tarde, da burguesia nacional dependente para com o país. 

Até 1930, o café era o principal produto exportado. Com a quebra da Bolsa de 1929, veio também o naufrágio de um  arranjo político, ou seja, o próprio naufrágio da República Velha (1889-1930). Antes disso, por quase duzentos anos, o açúcar foi o produto que envidou os maiores esforços da Coroa Portuguesa em relação a uma otimização que forçasse uma superprodução da Colônia. 

O açúcar construiu uma dinâmica social na Colônia. Foi o produto que se alastrou por vastas regiões do Nordeste brasileiro. A produção demandava uma mão-de-obra considerável. E é justamente daí que notamos sair, do açúcar, um modelo social que até hoje possui os efeitos na sociedade brasileira. 

Ao chegar ao Brasil, em 1500, Portugal não se direcionou prontamente à exploração das novas terras americanas. Foi somente após trinta anos, que houve um encaminhamento administrativo a fim de tornar a Colônia em algo rentável. O Brasil não foi visto como um país em que se podia começar um projeto de construção social equilibrado. A vasta região com florestas densas, rios enormes, um litoral belíssimo, com paisagens exuberantes, com uma pluralidade climática, passou a ser visto como uma "mina" capaz de enriquecer a mambembe nobreza portuguesa. A espoliação foi a estratégia; o saque, o modo de condução. O pacto colonial sujeitou o Brasil a uma relação servil com a Metrópole. A relação estabelecida impedia que houvesse qualquer possibilidade de organização social e administrativa da Colônia. Sua função era enriquecer a todo custo Portugal. Era como uma galinha dos ovos de ouro, que tinha que produzir cada vez mais, alimentada com palha. Oswald de Andrade percebeu isso muito bem em seu genial, picaresco poema:

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.

As terras nacionais foram fatiadas e entregues aos donatários no sistema chamado de capitanias hereditárias. A capitania era uma mera otimização geográfico-administrativa cuja finalidade era tornar a "empresa colonial" mais rentável. 

Assim, o primeiro produto que surgiu foi o açúcar. Junto com essa mercadoria, surgiu uma estrutura social em torno desse produto. O engenho, lugar de produção do açúcar, consolidou, organizou a sociedade entre aqueles que se beneficiavam do cultivo e produção da cana-de-açúcar e aqueles que viviam à margem, sendo explorados nessa produção. Desde o princípio, ficou bem claro que os sujeitos vindos de Portugal não estavam dispostos a realizaram qualquer trabalho braçal. A contratação de trabalhadores também não gerou interesses. 

Dessa forma, Portugal buscou arranjar de outras formas "os braços" que moveriam as engrenagens econômicas da Colônia. O escravo passou a ser essa força, transformada em animal que só produzia. Era arrancado de sua cultura de forma violenta e desafricanizado. O transporte nos navios negreiros era realizado de forma desumana. Uma vez na Colônia, chegava a trabalhar doze horas ininterruptas. Dormia em condições adversas. Comia mal. Não era respeitado como um ser humano. Era comparado aos animais. Era uma propriedade do seu senhor, assim como os bois e os cavalos que pastavam nos campos. A vida útil de um escravo era de, no máximo, dez anos de trabalhos intensos. O número de escravos definia o status de um branco, assim, como hoje, o carro que temos revela um dado padrão social. Do comer ao vestir; do amamentar ao deslocar-se em uma liteira, era o escravo a figura que movia a sociedade. O trabalho manual, transigente e braçal jamais era realizado por um sujeito branco, tido como livre. Buscava-se qualquer ocupação, menos aquela que fizesse confundir o sujeito branco e livre com o escravo. Talvez, venha desse fato a gradação em torno da ideia de trabalho no Brasil. Geralmente, o trabalho intelectual é visto como mais digno do que o trabalho manual. O arquiteto é melhor avaliado que a faxineira na escala social. Em determinadas profissões (direito, medicina, psicologia), o sujeito que as exerce recebe o título de "doutor". Alguns setores da sociedade, principalmente as elites e a classe média, sedimentam muito bem essa relação.

Criou-se, assim, aquela denominação que Gilberto Freire intitula em seu livro mais famoso - a casa-grande e a senzala. A casa-grande era o lugar aristocrático por excelência. Era um espaço amplo, com um alpendre largo; colocada em lugar alto e ventilado; aglutinadora da família do senhor de engenho, que possuía as suas regras e erigia a imagem do chefe da casa como um senhor feudal. Os engenhos eram mini-feudos.  Um espaço de suseranagem e vassalagem.

Ora, uma ordem social perversa como esta, não resultará em um país organizado e solidário para com os seus cidadãos. O intelectual Jessé Souza, autor de A ralé brasileira e A tolice da inteligência brasileira, afirma que reside na ordem social brasileira uma concepção fecundada em Santo Agostinho de forte influência platônica. Possuímos o mundo do espírito, das coisas sublimes e o mundo feio da matéria, cuja constituição se efetiva com as "coisas" de menor valor e virtude. De um lado temos as elites, que preconizam a virtude, o ideal de beleza, de virtude, de ética; nesse mundo habitado pelos ricos e senhores, tudo parece resplandecer em beleza, em uma forte afirmação daquilo que é bom e legitima o bem. Por outro lado, o mundo material é o mundo da carne, do sexo, dos escravos, do trabalho, da dureza cotidiana; o mundo habitado pela mulheres, pelos homossexuais, pelas periferias. É o mundo feio, pecaminoso, que provoca azo para repulsa. 

A sociedade brasileira é violenta e perversa nesse sentido. A desigualdade possui um fundamento econômico, mas possui um forte fundamento teológico. Ao escrever A civilização do açúcar, Vera Lúcia Amaral Ferlini queria revelar onde está a gênese de nosso modo de ser. É olhando o passado que encontramos os indícios daquilo que somos no presente. 

domingo, maio 08, 2016

Cinco de maio, aniversário de Karl Marx e Kierkegaard

Kiekergaard (esq.) e Karl Marx (dir.)
"A nossa existência é vivida para frente, mas entendida quando olhada para trás". Esta frase sempre me serviu de bússola. Em vários momentos em que me vi incompreendido, sem saber que direção tomar ou, simplesmente, buscando entender um evento, um comportamento meio autômato, ela surgiu sorrateira como um luzeiro e me fez colocar os pés no chão e continuar a caminhada. A frase pertence ao filósofo dinamarquês Sorem Aabye Kierkegaard. Ora, por que me remeto a ele assim de forma gratuita? Quinta-feira, dia cinco de maio, o mundo comemorou 203 anos do seu nascimento. 

Coloco Kierkegaard entre as minhas preferências filosóficas, assim como outras criaturas preocupadas com a existência - Agostinho, Pascal e Nieztsche. Os dois primeiros inequivocamente cristãos e, o último, alguém que buscava o conhecimento de si, desvencilhando-se de tudo aquilo que cheirasse a niilismo, sendo que o cristianismo se constituía uma grande abertura que impelia a um mundo de farsa, de negação da vontade, de resignação a um moral de escravo. Enquanto estivermos ocupados com deuses e uma moral mesquinha, jamais nos auto-determinaremos como sujeitos.

Curiosamente, no dia cinco de maio, outro filósofo que aprendi a admirar também, completou aniversário - 198 anos do nascimento do filósofo alemão Karl Marx. Marx anda na direção contrária de Kierkegaard. Aquele não olhava para dentro de si para determinar o mundo, como este procurava fazer. O alemão entendia que as relações que constituem o sujeito são forjadas na história. A base abstrata do homem, algo tão caro para o pensamento kierkegaardiano, é para Marx forjada a partir de determinada forma social. Ou seja, aquilo que é sentido e criado, é "a consciência invertida do homem", conforme diz Marx. O único ponto em comum dos dois é Hegel. Os dois haviam sido hegelianos quando jovens.

O que explica a minha predileção por dois filósofos que são antípodas? É possível conciliar essa discrepância? Como suavizar por meio de uma uniformização frases como estas: "A verdade é a subjetividade" (Kierkegaard); e "Não é a consciência dos homens que determina seu ser, mas, pelo contrário, seu ser social é que determina sua consciência"? (Karl Marx). 

Não é minha pretensão amarrar as pontas desse lençol de costura intrincada. Todavia, tento conciliar uma explicação, romantizando o presente fato. Kierkegaard, assim como os filósofos que citei acima, preenche minha parte mais intuitiva, mais propensa às metáforas, ao sentir poético; às projeções idealistas. Embora Kierkegaard estivesse à procura de um sentido que determinasse a sua existência ("procuro uma verdade que seja verdadeira para mim"), a frase que inicia o texto possui de forma subjacente elementos do devir, que é tão necessário para fecundar o pensamento de Marx. Olhando para trás, percebendo as curvas silentes, os saltos por vales cerrados, por escarpas longínquas, a história me forjou tal qual sou. Se sinto, se poetizo a vida, se procuro sentir, se mesmo não acreditando na religião institucional, fio-me por "uma vida na fé", acercando-me da terceira etapa do pensamento de Kierkegaard (estética, moral e fé) - claro, guardando as devidas proporções. Fé aqui não deve ser entendido em sentido comum. Fé a possibilidade de destruir todas as finitudes e transformar a existência em algo que está acima das pequenas coisas da vida.

Já Karl Marx me ajuda a colocar os pés no chão da história. Ajuda-me a despistar as convenções sociais forjadas, construídas para amarrar e impedir que compreendamos que existe um movimento latente, capaz de mudar o curso do mundo material. São os homens que constroem a história. Interpretá-la apenas não a torna um palco favorável à minha condição. Marx afugenta as ilusões. Em Marx, sentimos que a realidade é dura, que ela tem um corpo afiado e inquieto. Na teríamos essa consciência, não sentiríamos como sentimos; não leríamos o mundo como lemos; não perceberíamos como percebemos; não seríamos iludidos como somos; as estruturas jurídicas, políticas, religiosas, educativas, artísticas, filosóficas, morais seriam outras, se outras fossem as determinantes econômicas, se outras fossem as estruturas que determinam o ser social. 

Kierkegaard me impele ao ser; Marx, à ação. Em mim não há antagonismos. Antagônicas são as ideias. O ser tenta acolhê-las. Agasalhá-las. Tendo a consciência de que o fluxo contínuo de movimento forja as ideias, cria pessimismos e alegrias; cria a dureza para suportar e a sensibilidade que nos leva ao choro; a melancolia incontida e o gozo pela expectativa de vitória, sou enquanto sigo; mas sou sabedor de que a caminhada me marca, risca-me com o seu cinzel. Se tenho a percepção que tenho, não foi de forma gratuita. Sou assim, porque não sou de outro modo; mas, sendo como sou, posso ser de outro modo, desde que lute para sê-lo. Em quando assim for, olharei para trás compreenderei o ser que levo e tenho.

Parabéns, Marx e Kierkegaard!

domingo, dezembro 21, 2014

Surpreendido mais uma vez

C.S. Lewis (1898-1963)
O tempo é uma entidade curiosa. Parece que hoje eu tenho uma noção de que ele se pulveriza bem mais rapidamente do que em outras épocas. Dormimos. Acordamos. Realizamos meia dúzia de atividades com completa desconexão, apenas seguindo aquela força maquinal do cotidiano e, de repente, temos que dormir novamente para acordar e reiniciar todo evento circular. 

Constato que tenho lido numa velocidade cada vez menor. Fazendo isso, sigo uma via paradoxal em relação à consciência que tenho do tempo. Estou lendo três livros ao mesmo tempo. No passado, eu já cheguei ler cinco ou seis. Era um frenesi constante. Chegava a vencer nove ou dez em um único mês. Atualmente, tenho lido muito pouco. E isso acaba gerando em mim uma indignação silenciosa, dessas que se alastram como fumaça e deixa a gente com os seus efeitos duradouros. A despeito disso, resolvi iniciar a leitura de um livro que há muito eu procurava. 

Enquanto eu era um estudante de teologia, lá pelos idos de 2003, li Surpreendido pela Alegria, de C.S. Lewis. E, a primeira vez que o li, fui como sugerido pelo título, "surpreendido" por uma estilo agradável e por uma narrativa autobiográfica de grande qualidade. Lewis diz no início da obra que não pretendia escrever um tipo de livro que se assemelhasse às Confissões de Santo Agostinho ou às Confissões de Rousseau. Penso que neste ponto resida uma humildade fingida da parte do inglês, posto que o livro possui uma leveza poética e uma qualidade que nos faz desconfiar que por trás daquelas letras do autor, há alguém saturado dos aromas da literatura. 

Já estava procurando o livro há uns seis anos. Entrei em contato com a Livraria Mundo Cristão, responsável pela publicação em 1998, mas eles me informaram que não havia nenhuma previsão de reimpressão da obra nos próximos anos. O exemplar que li pertencia à biblioteca do Seminário Presbiteriano de Brasília. 

Todavia, os ventos venturosos trazidos pelos deuses vieram até mim e eu o achei na rede. O livro inteiro em uma versão em PDF. Sei. Não é a mesma coisa que o objeto físico. Ler no computador não é uma das melhores coisas. Já li livros na tela, seguindo aquele fluxo de letras miúdas e luminosas - O crime do padre Amaro (Eça de Queirós), A peste (Camus), O Anticristo (Nietzsche) entre outros - e a experiência não é a mesma que ter em mãos o livro. Atualmente, ando lendo O homem desenraizado, de Todorov, também na tela do meu notebook. E tenho planos de ler O descobrimento da América do mesmo autor. É cacete ler no computador. Mas vamos lá...

Li, hoje à noite, as primeiras vinte páginas do livro de Lewis (assim que terminar pretendo fazer uma pequena resenha) e me detive nas palavras abaixo. Ao ler essas palavras, embarquei em uma viagem que me levou ao passado. Recordo-me de que quando li cada uma delas pela primeira vez, tomei as palavras como um valor quintessencial que me seguiria pela vida a fora.  Sempre desejei, desde o dia que li isso, tornar em uma verdade inseparável, inarredável. Ou seja, jurei nunca me afastar dos livros. E, hoje, lendo essas palavras, não deixo abrir os lábios em um sorriso de satisfação por algo que vivi, que descobri - e que foi bom. Ah! o tempo...

"[...] Meu pai comprava todos os livros que lia e jamais se livrou de nenhum deles. Havia livros no escritório, livros na sala de estar, livros no guarda-roupa, livros (duas fileiras) na grande estante ao pé da escada, livros num dos quartos, livros empilhados até a altura do meu ombro no sótão da caixa-d'água, livros de todos os tipos, que refletiam cada efêmero estágio dos interesses dos meus pais-legíveis ou não, uns apropriados para crianças e outros absolutamente não. Nada me era proibido. Nas tardes aparentemente intermináveis de chuva, eu tirava das estantes volume atrás de volume. Encontrar um livro novo era para mim tão certo quanto, para um homem que caminha num campo, é certo encontrar uma nova folha na relva.". (C.S. LEWIS, 1998, 20).


sábado, julho 19, 2014

Rubem Alves e o meu aprendizado a respeito do tempo e da vida

  "Poesia é uma qualidade do olhar"/ "O mundo para mim é um instrumento cósmico onde dormem as mais belas melodias". - Rubem Alves

O tempo como agente

Diz Agostinho que "o tempo produz efeitos admiráveis dentro de nós". O tempo possui um cinzel invisível que vai nos esculpindo tanto física quanto espiritualmente. Recordo-me das frases iniciais de Erico Veríssimo em Solo de Clarineta, quando ele diz que "as marcas do tempo estavam impressas no pergaminho do seu rosto". Uma metáfora que define os enunciados do tempo escritos em nós. É trivial. É natural. Mas todos morrem. Já perdi tantas pessoas queridas - meu pai, meu avô materno, minha avó paterna, conhecidos, amigos. E cada novo dia, o movimento irrefreável do rio da vida dobra mais uma curva em sua viagem. O tempo é aliado da morte. É seu companheiro. Os dois caminham de mãos dadas como no filme de Ingmar Bergman. A morte aparece para jogar com a sua vítima. Ele tenta enganá-la. Tenta negociar, mas bastou o tempo para fulminá-lo. Quando ele menos esperava, ela apareceu com sua face fria e o tragou.

A morte nos machuca, pois aqueles a quem ela faz de vítima, sabemos, nunca mais se verá. É um "sequestro", uma violência abrupta, um laceração nas emoções. Uma cisão, um corte, um passar a esponja na existência de cada um de nós. Quem vai não volta. Quando se morre, tudo termina. A expectativa da morte é a realidade mais trágica para o ser humano. 

Hoje, o tempo trouxe consigo a sua companheira e ceifou a vida de uma das figuras responsáveis por um pouco de minha formação ontológica - Rubem Alves. Fiquei sabendo da morte de Rubem Alves no início da tarde de hoje. Há dias eu acompanhava o sofrimento pelo qual ele passava. Enquanto corria hoje no final da tarde, eu ouvia a End of the Road, de Eddie Vedder, que faz parte da trilha sonora do filme Dentro da Natureza  Selvagem, pensei sobre esse "fim da estrada" a qual todos nós chegaremos, enquanto olhava para as nuvens alaranjadas, com feições sanguinolentas. A aragem fria do início da noite produziu reverberações poderosas. Acabei ficando triste.

O tempo da descoberta

Descobri Rubem Alves nos idos de 2002. Estudava em um seminário. E ao conhecer as suas crônicas, impressionei-me com sua sensibilidade. De repente, passei a procurar para ler tudo que dizia respeito a ele. Contudo, percebia que quando falava de Rubem Alves, alguns dos meus colegas seminaristas me encaravam com certa desconfiança. Afinal, entendi o porquê de tanto medo dos meus colegas. Rubem havia sido um seminarista, assim como eu o era; chegou a ser pastor, mas sua liberdade de pensamento e sua forma de "caminhar" acabaram por criar problemas. Em plena Ditadura Militar, a Igreja Presbiteriana do Brasil o denunciou ao serviço de repressão do Regime. Se ele ficasse por aqui, certamente seria preso, torturado e teria um destino incerto. Enfim viajou para os Estados Unidos e lá fez mestrado e doutorado, contribuindo proficuamente para lançar as bases daquilo que se tornou conhecido como Teologia da Libertação. Sua Teologia da Esperança é o embrião que deu feições ao movimento que teria nomes como o peruano Gustavo Gutierrez e o brasileiro Leonardo Boff como ícones. 

O pensamento teológico de Rubem Alves, de certa forma, acabou por me influenciar. Desvinculei-me do dogmatismo da fé quando li Protestantimo e Repressão e Dogmatismo e Tolerância. Estes, acredito, são livros que me marcaram e que inscreveram em mim o discernimento filosófico e estético que tenho sobre a espiritualidade; me tiraram o"cabresto religioso" que estava em meu pescoço e me fazia olhar somente para o chão. Quando li Rubem Alves, pude olhar para o céu e me maravilhar com as cintilações de um azul que nunca enxergara. Os dois livros estão guardados carinhosamente em minha biblioteca e, de vez em quando, pego-os, admiro-os, folhe-os e termino tudo com um grande sorriso.

Passei a perceber que em Rubem Alves se torna fato aquela frase dele: "As palavras têm o poder de fazer acordar os desejos adormecidos dentro do corpo". É como se o corpo fosse uma lápide, um jazigo, onde estão congelados os rios simbólicos. As palavras são sóis capazes para dar vida a esse mundo inóspito. São elas, tão próprias do mundo humano, elementos capazes de fazer morar em nós a faculdade da alegria. A palavra é capaz de fazer ressuscitar o corpo. Ela é a eucaristia vivificadora. O corpo é uma realidade biológica, orgânica, mas o que nos torna humanos é a capacidade de criação dos símbolos. Criamos, pois isso é inerente aos seres humanos. Portanto, esse corpo é o espaço gerador de novas ideias, da capacidade de apreensão do mundo. Ou seja, tudo mora no corpo. A vida e a morte. Os abismos e as montanhas. Os jardins e os pântanos. O céu e o inferno. Os dias e as noites. E para subverter a logicidade da matéria, é necessário treinar o olhar. Rubem costumava repetir uma frase do poeta inglês William Blake: "O tolo ao ver uma árvore, enxerga somente uma árvore; o sábio, por sua vez, ao ver uma árvore, enxerga uma poesia". 

Após entender que existe um jogo simbólico por traz das coisas, transformei isso em uma realidade para os meus devaneios teológicos e espirituais. Rubem costumava apontar para o ritual cristão da santa ceia, dizendo que ali estava "o símbolo de uma ausência" - o pão e o vinho. Observem como ele conseguia fazer poesia com as mínimas coisas. E que o mundo estava repleto de metáforas. "E toda metáfora é um salto sobre o abismo". É esse jogo com a palavra que torna o universo de Rubem Alves tão encantador. Flertar com o seu pensamento é passar a viver com os arco-íris, com os arrebóis mais encarnados, com os jardins mais coloridos, com a sensação de que estamos saboreando as carnes delicadas de um caqui.

O pensamento de Rubem Alves se funde com um dos seus mestres - Nietzsche. Diz o alemão: "Estou convencido de que a arte representa a tarefa realmente metafísica do homem... A existência do muno só se justifica como um fenômeno estético". Acredito que estas palavras definam o que foi e como deve ser compreendido Rubem Alves.

O tempo do real (tempus fugit)

Ao saber da notícia nefanda, fez-se uma noite escura dentro de mim. Fiquei com um mal-estar horrível. É como se eu tivesse perdido alguém muito querido e que vivia comigo todos os dias. Fiquei triste por saber que não teremos textos inéditos; as palestras sempre encantadoras; as palavras embriagadas pelo cheiro de capim gordura, pelos ipês floridos, pelo barulho dos carros de boi, dos mistérios da terra de Riobaldo - Minas Gerais. Rubem nunca se afastou completamente de suas origens. Apesar de viver boa parte de sua vida em Campinas, interior de São Paulo, trazia em sua alma as aprendizagens iniciadas em Boa Esperança-MG - sua cidade natal. É como aquele poema ontológico de Carlos Drummond de Andrade, Confidência do itabirano.

Seu corpo, onde morou tantas poesias, será cremado e possivelmente as cinzas serão atirados ao vento, para que possam polinizar as flores a fim de que elas se tornem mais belas; para que as pintagueiras surjam mais vermelhas e atraentes; para que os flamboyants e ipês surjam como cabeleiras inflamadas a produzir beleza; para que os jardins sejam fecundados e possam se fortalecer. 

Em um país e em um tempo como o nosso, perder Rubem Alves é algo de muita seriedade. Mas ficarão as suas palavras, que virão como revoadas de pássaros e farão morada em mim, em nós... Marcharão numa procissão em direção ao interior de catedrais secretas. Proferirão discursos, declamarão poesias e atestarão com um verso de Manuel de Barros - repetido tantas vezes por ele: "É mais presença em mim aquilo que me falta". 

Obrigado, Rubem! Se eu não tivesse encontrado os seus textos, talvez eu não fosse aquilo que sou. O rio continua a correr e suas águas são sempre novas. Olhemos para as árvores e encontremos poemas.

domingo, maio 25, 2014

Uma reflexão...



"Caminhante, não existem caminhos. Os caminhos se fazem ao caminhar". 
Rubem Alves

É curioso como o tempo nos leva a aceitar determinadas coisas - e a rechaçar outras. Torná-las menos palatáveis.   Eventos que mereçam atenção, projeção de perspectiva. Vivi por quase uma década metido com a religião. Converti-me à fé protestante no final de 1999. Conheci pessoas. Fui a cultos. Direcionei minhas preces ao céu para ter um melancólico silêncio. O cicio perdeu-se no espaço. Caiu da altura para a qual eu o direcionei. E o meu grito é apenas um eco represado dentro de mim.
                Estudei para ser clérigo. Li bastante. Debati com os meus iguais. Enchi-me de romantismo. Realizei prédicas. Instei a tantos quantos achei pelo meu caminho. Quis revelar o fantástico mundo ideal da religião. Descortinar a “salvação” – afinal, vivemos em um mundo de perdidos (aqueles que ainda não aceitaram “a salvação”) e os eleitos remidos (aqueles que foram visitados pela “salvação” e aceitaram-na). Tornei-me “chato” para com alguns que não quiseram dar ouvidos àquilo que eu dizia. Tentava empurrar o meu “entendimento” de garganta abaixo gerando, consequentemente, sequelas indesejáveis nos outros. Quando estamos convictos de algo, não respeitamos as singularidades. E por isso que Nietzsche disse certa vez que “existem determinados pressupostos, certas credulidades, que são demoníacas”. Ou seja, elas fazem mal, pois são mesquinhas, aviltadoras, inquisidoras, geradoras de vítimas por não conseguirem lidar com a diferença.
                Entendem que o mundo está cindido em duas cores: o verde e o roxo, hipoteticamente. Colocam óculos que determinam uma única visão; um víeis preconceituoso e reducionista.  Então se o bem é representado pelo verde, todas as demais cores são nocivas por não serem verdes. Se o roxo é a cor da virtude, tudo aquilo que não tenha essa semelhança, torna-se sem graça e é tratado sem deferência. É daí que brotam os conflitos religiosos.
                O tempo em que vivi em meio ao nicho religioso conheci pessoas de todos os calibres – mansos, eufóricos, fingidos, solidários, gananciosos, arrogantes etc. Toda fauna humana encontradiça em qualquer lugar do planeta.  Minhas leituras, minhas reflexões, fizeram-me refletir sobre determinados fenômenos:

(1) A fé é um fenômeno humano: inquestionavelmente a fé é um fenômeno pertencente apenas ao mundo humano. Se os cavalos tivessem uma fé, os deuses dessa fé teriam uma fisionomia equina. O ser humano criou a religião como uma tentativa de lidar com alguns medos, receios e eventos trágicos que estão longe do seu controle. Fico a pensar no homem da pré-história. Os fenômenos naturais eram eventos não controláveis. Não se pode mandar no sol; na água da chuva; nas estações dos anos. Esse mesmo homem quando sentia a necessidade de buscar aquilo que lhe era necessário para a subsistência, dependia necessariamente dos “humores” da natureza. Por não possuir a previsibilidade científica que atualmente nos é banal, esse mesmo homem precisava invocar um poder capaz de subjugar as forças da natureza.  Ao olhar para o céu numa noite escura, os nossos antepassados deveriam morrer de pavor por perceber um mistério intangível escondido atrás de cada sinal luminoso que brilhava no céu. Afinal, se tudo está aqui e eu não tenho controle sobre isso, existe alguém que possui. Como diz Marcelo Gleiser: “os céus eram vistos como manuscritos sagrados”. E nos “manuscritos” estão escritos os mistérios recônditos de sinais milenares, redigidos por forças inumanas que coordenam o destino de todos os seres. Avançamos enquanto civilização humana. Mudamos a forma como lidamos com a matéria. Subjugamos determinados fenômenos que no passado eram impensáveis. Mas trouxemos conosco, apesar de tudo, determinadas compreensões que são atemporais. E talvez nisso achemos a resposta na assertiva de Pascal: “Esses espaços infinitos nos apavoram”. De certo. O medo da morte, das tragédias, das doenças, da ausência de pessoas queridas, leva-nos a criar uma força que nos acalente, que nos erga de nossas dores, de nossos terrores que nos atormentam. Nesse sentido, a religião constrói um muro em torno de nós para nos trazer consolo. Como diz Rubem Alves: “A religião é um dique construído contra o caos”. Se ela fosse extirpada do planeta muitos indivíduos ficariam loucos, matariam a si mesmos, por se negarem a aceitar tal fato, pois a religião é um fenômeno unicamente dos seres humanos. Nossa existência Planeta Terra é algo imensamente recente. Não vivemos nem uma décima parte daquilo que os dinossauros, por exemplo, viveram no planeta. Mas temos a presunção de formular julgamentos e sistemas que ultimam todas as coisas; que torna toda a realidade explicável pela teoria da lacuna. Deus, por isso, torna-se a “causação” de todo evento; a resposta justificável a todo movimento, força ou circunstância do cosmos. Enquanto estivermos neste planeta, enquanto tivermos a consciência de que estamos conscientes seremos animados por tal diligência.

(2) A espiritualidade está em todo canto: Já que a religião é fenômeno intrínseco ao ser humano; adorno de sua existência, pois desde os tempos ancestrais carregamos tão grande intuição, não podemos negar a espiritualidade. Todavia, não podemos confundir espiritualidade com o fenômeno religioso. A espiritualidade é aroma colhida pela alma, resultante da estética da natureza. Existe, inegavelmente, uma estética na natureza e uma capacidade humana para criar. Agimos assim por sermos seres complexos e que trazemos à existência a beleza. Escrevemos poesias, livros; pintamos belos quadros; compomos músicas encharcadas de delicadeza; construímos determinados objetos que trazem satisfação aos olhos; ouvimos determinados sons que nos emulam o interior; ou simplesmente enxergamos determinados espaços, eventos ou situações produzidas que trazem efeitos incríveis sobre os nossos sentidos.  Assim, a espiritualidade independe de forças religiosas. Ser espiritual é poder fruir um poema; uma voz delicada que faz balançar o nosso coração; uma poesia que nos aquece o interior; a visão de uma planície ou colina que faz erguer a admiração, enchendo os nossos lábios de contentamento e um riso sempiterno. Sou daqueles que acreditam que a espiritualidade está em toda parte e, pode até mesmo, estar dentro do nicho religioso. Todavia, ela não está reservada apenas ao nicho; ela não é fruto privativo de determinadas pessoas. Espiritualidade é sensibilidade. É por isso que Alberto Caieiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, diz em seu lindo e espiritual O guardador de rebanhos:

(...) Não acredito em Deus porque nunca o vi
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta adentro

Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e o sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol

(...) Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos...
E não nos dará mais nada, porque dar-nos mais
Seria tirar-nos mais.

(3) Está em determinado igreja (seita) não me torna uma pessoa necessariamente melhor: Não sinto inveja ou qualquer manifestação de pesar por não estar em uma comunidade, assim como aqueles que estão presos e circunscritos em determinadas geografias religiosas. Em muitas situações as patologias de determinado grupo, ou seja, a psicologia social do grupo é instilada nos membros daquele grupo. Isso acontece com muitas agremiações políticas e outros ajuntamentos humanos. Num dado sentido, está no grupo legitima ou consolida as minhas crenças, pois ali estão pessoas que coadunam com a minha visão de mundo. Assim, dependendo do modo como eu me relaciono com os códigos expressos neste ajuntamento, a transposição desses códigos para o mundo material, para a vida real, pode me tornar em um sujeito limitado e encerrado em meus preconceitos.

(4) A psicologia da fé: a religião é um fenômeno lingüístico, que por sua vez se torna em consciência para aquele que crer. A linguagem é um instrumento de mediação entre o homem e o mundo. É por meio dos signos criados pelo homem ao longo de sua história que esse mesmo homem encontra sentido para as coisas que estão no mundo. Por não contemplarmos a realidade face a face, precisamos de algo que sirva de veículo simbólico que porte as intenções determinadas naquilo que criamos. Para isso utilizamos a linguagem que, também, é um fenômeno complexo no mundo humano. E nesse sentido, determinada linguagem nos conduz a determinadas interpretações. É justamente na interpretação que apreendemos o símbolo que ressignifica o mundo. Ou seja, o mundo e as minhas emoções se abraçam nessa interpretação. E a partir daí que crio minhas preferências e determinado ponto de vista sobre determinado fenômeno, pois interpreto o fenômeno e esse fenômeno ganha carne em minhas emoções, mas isso não se dá diretamente. Acontece por meio de uma interpretação que é inculcada em minha consciência, criando uma estruturação, uma segurança em meu mundo interior. Falar é sempre revelar algo o qual eu já experimentei pela interpretação daquilo que fui, senti, vivenciei. O mundo que defendo é aquele que gira em torno dos meus valores e crenças internalizados. Eu freqüento as coisas e as coisas me freqüentam. Reproduzo e sou reproduzido. Julio Cabrera, filósofo da Universidade de Brasília, em seu livro A ética e suas negações diz que “Se os deuses e demônios da nossa sobrevivência nos aparecem como independentes, é porque nós mesmos lhes demos independência”. Ou seja, a linguagem quando naturalizada tende a não ser questionada. É assim que se explica a psicologia da fé. Chama-se a isso de conversão. Converter-se é mudar o referencial interpretativo. É, por isso, que Paulo, o criador dos “esquemas dogmatizantes”, um dos sujeitos mais habilidosos da história da Igreja, vai dizer que o sujeito que se “converteu” se fez “nova criatura”; que tudo se fez novo e as coisas velhas já passaram.  Pois ele sabia que essa conversão é um processo de reestruturação e reconstrução dos esquemas interpretativos que sustentam determinados valores dos indivíduos. A conversão gera crise por revelar ao sujeito um conjunto terrível de axiomas que levam, quase sempre, o sujeito à crise. Após passar por uma catarse, o sujeito se apresenta a esse novo mundo com uma nova linguagem; com uma nova forma de portar-se; de se relacionar com o mundo, pois os seus referenciais mudaram também. Na verdade, o que muda é a linguagem e seus valores implícitos que acabam por se coadunarem com as emoções do converso. As mudanças ocorrem como fenômeno, primeiramente, emocional e psicológico. Logo em seguida, essa mudança ocorre no modo como articulamos a sociedade e a história. E por isso, que se mata em nome da religião – e que se morre também -, pois se mudou o modo de relação com o mundo. Explica-se ainda o porquê das orações. Quando o crédulo ora, não significa que sua prece está sendo ouvida; representa meramente o fato de que criamos a expectativa de que alguém está a nos ouvir. Essa consciência gera um conforto, um consolo capaz de nos fazer serenar todos os desmazelos existenciais. O que muda não é o mundo ou a história, mas a minha forma de me relacionar com o mundo e com a história. O sujeito crer pelo fato de ser apresentado a ele um panorama trágico e caótico. Após esse abalo, o sujeito “aceita” os novos códigos, a nova cosmovisão, os novos valores que devem servir de óculos para que ele veja o mundo. Paulo quando escreve aos romanos chama esse evento de metanoia (no grego), que significa “mudança de um determinado tipo de racionalidade ou forma de pensar”.  Assim, ao assumir o discurso da fé, estou “agasalhando” em minha interioridade um conjunto de lentes interpretativas que trabalharão em mim os seus efeitos, gerando um novo tipo de consciência sobre os eventos da materialidade. É com esse aparato que passo a julgar o que é bom e o que é mal; o que é pecado e o que é virtude.

(5) Antropologia da fé: para a fé (aqui me refiro à cristã), o homem possui uma antropologia, que é a antropologia da queda. O homem é um ser imperfeito desde o evento do jardim do éden. A maldade que existe no homem não está condicionada a priori por eventos históricos ou sociais. O mal no homem não é um fenômeno que passa a morar nele em decorrência da materialidade como apregoa, por exemplo, Karl Marx. O mal no homem está ligado a um problema ontológico.  Em decorrência disso, só existe uma forma de “reformar” o mundo, aceitando ao Cristo da fé, ao dogma da conversão, que é uma docilização, um funcionalismo operante. Os homens conversos não pertencem a esse mundo. São de outro plano. Como diz Agostinho em suas Confissões: “Criaste-nos para ti e nossa alma vive inquieta enquanto não repousa em ti” (não sei se está correta a frase, já que estou citando de cabeça). Em sentido kieekergaardiano, existir perante Deus é estar destinado à culpa, pois a nossa ontologicidade é maculada. Deus é o sempre santo; e, nós, os seres partidos e finitos. O único remédio é a conversão, ou seja, a mudança matricial da forma de ler e enxergar o mundo. É na vida que se decide a morte, pois aquilo que escolhemos ser, será – peremptoriamente.
                Escolhi escrever essas palavras, pelo fato de hoje ouvir que determinada pessoa mudou o seu comportamento para comigo por eu ter feito algumas afirmações que feriu a sua fé. O sujeito freqüenta uma determinada igreja evangélica – portanto, portadora de determinada linguagem. Segundo ele, eu por ter estudado teologia e ter um conhecimento relativo sobre os fenômenos ditos “sacros” , serei cobrado com contundência no dia do juízo, corroborando com aquilo que está escrito em uma das cartas bíblicas – se não me engano, a carta de Tiago. Eu poderia escrever – algo que talvez eu faça qualquer dia desses – sobre o significado “sagrado” da bíblia, que para mim é um livro humano que narra os eventos religiosos e a compreensão de um povo sobre determinados pressupostos de sua experiência de fé.
                Quero deixar bem claro que sou uma pessoa religiosa – não no sentido ordinário o qual estamos acostumados. Para mim a espiritualidade é um fenômeno capaz de me tornar livre, mais compreensivo, compassivo, sendo entendedor que o outro para ser bom, não precisa aceitar a minha fé. Crença é um fenômeno pessoal. Não devo cindir com as pessoas somente pelo fato delas não crerem naquilo que creio. Não devo ser tão presunçoso a esse ponto. Como diz Rubem Alves, “o Deus dos protestantes é o Deus da causalidade inflexível”. E quando notamos tais coisas, apenas achega-se a nós certeza de que somos seres curiosos. E como dizia Nietzsche mais ou menos com essas palavras: “Criamos o in-criado e acabamos sendo dominados pela nossa própria criação”.  

domingo, abril 27, 2014

“A beleza salvará o mundo”: Dostoiewski nos ensina como - de Leonardo Boff

Belo texto de Leonardo Boff - mais um!

Dos gregos aprendemos e isso atravessou  os séculos, que todo ser, por diferente que seja, possui três características transcendentais (estão sempre presentes pouco importa a situação, o lugar e o tempo): ele é o unum, o verum e o bonum, quer dizer ele goza de uma unidade interna que o mantem na existência, ele é verdadeiro, porque se mostra assim como de fato é e é bom porque desempenha bem o seu lugar junto aos demais ajundando-os a existirem e coexistirem.

Coube aos mestres franciscanos medievais, como Alexandre de Hales e especialmente São Boaventura que, prolongando uma tradição vinda de Dionísio Aeropagita e de Santo Agostinho, acrescentarem ao ser mais uma característica transcendental: o pulchrum vale dizer, o belo. Baseados, seguramente na experiência pessoal de São Francisco que era um poeta e um esteta de excepcional qualidade, que “no belo das criaturas via o Belíssimo,” enriqueceram nossa compreensão do ser com a dimensão da beleza. Todos os seres, mesmo aqueles que nos parecem hediondos, se os olharmos com afeição, nos detalhes e no todo, apresentam, cada um a seu modo, uma beleza singular na maneira como neles tudo vem articulado com um equilíbrio e harmonia surpreendentes.

Um dos grandes apreciadores da beleza foi Fiodor Dostoiewski. A beleza era tão central em sua vida, conta-nos Anselm Grün, monge beneditino e grande espiritualista, em seu último livro “Beleza: uma nova espiritualidade da alegria de viver”(Vier Türme Verlag 2014) que o grande romancista russo desolocava-se pelo menos uma vez ao ano até Dresde, na Alemanha, só para contemplar na capela a formosa Madona Sixtina de Rafael. Permanecia longo tempo em contemplação diante daquela esplêndida figura. Tal fato é surpreendente, pois seus romances penetraram nas zonas mais obscuras e até perversas da alma humana. Mas o que o movia, na verdade, era a busca da beleza pois nos legou a famosa frase:”A beleza salvará o mundo”dita no livro O Idiota.

No romance Os irmãos Karamazov aprofunda a questão. Um ateu Ipolit pergunta ao príncipe Mynski como “a beleza salvaria o mundo”? O príncipe nada diz mas vai junto a um jovem de 18 anos que agonizava. Aí fica cheio de compaixão e amor até ele morrer. Com isso nos quis dizer: beleza é o que nos leva ao amor condividido com a dor; o mundo será salvo hoje e sempre enquanto houver essa atitude.

Para Dostoiewski a contemplação da Madona de Rafael era a sua terapia pessoal, pois sem ela desesperaria dos homens e de si mesmo, diante de tantos problemas que vivia. Em seus escritos descreveu pessoas más e destrutivas e outras que mergulhavam nos abismos do desespero. Mas seu olhar, que rimava amor com dor compartida, conseguia ver beleza na alma dos mais perversos personagens. Para ele, o contrário do belo não era o feio mas o espírito utilitarista e o uso dos outros, roubando-lhe assim a dignidade.

“Seguramente não podemos viver sem pão,mas também é impossível existir sem beleza”repetia. Beleza é mais que estética; possui uma dimensão ética e religiosa. Ele via em Jesus um semeador de beleza. “Ele foi um exemplo de beleza e a implantou na alma das pessoas para que através da beleza todos se fizessem irmãos entre si”. Ele não se refere ao amor ao próximo; a contrário: é a beleza que suscita o amor e nos faz ver no outro um próximo a amar.

A nossa cultura dominada pelo marketing vê a beleza como uma construção do corpo e não da totalidade da pessoa. Então surgem métodos e mais métodos de plásticas e botoxs para tornarem as pessoas mais “belas”. Por ser construída, é uma beleza sem alma. E se repararmos bem, nesta estética fabricada, emergem pessoas com uma beleza fria e com uma aura de artificialidade, incapaz de irradiar. Daí irrompe a vaidade, não o amor, pois a beleza tem a ver com amor e a comunicação. Dostoiewski observa, nos Irmãos Karamazov, que um rosto é belo quando você percebe que nele litigam Deus e o Diabo entorno do bem e do mal. Quando percebe que o bem venceu, irrompe a beleza expressiva, suave, natural e irradiante. Qual beleza é maior? A do rosto frio de uma top-model ou a do rosto enrugado e cheio de irradiação da Irmã Dulce de Salvador, Bahia, ou a da Madre Tereza de Calcutá? A beleza, característica transcendental, se revela como irradiação do ser. Nas duas Irmãs, a irradiação é manifesta, na top-model existe mas é esmaecida.

O Papa Francisco conferiu especial importância na transmissão da fé cristã à via pulchritudinis (a via da beleza). Não basta que a mensagem seja boa e justa. Ela tem que ser bela, pois só assim chega ao coração das pessoas e suscita o amor que atrái ( Exortação A alegria do Evangelho, n 167). A Igreja não visa o proselitismo mas a atração que vem do amor e da beleza da mensagem que causa fascínio e produz esplendor.

A beleza é um valor em si mesmo. É gratuita e sem interesse. É como a flor que floresce por florescer pouco importa se a olham ou não, como diz o místico Angelus Silesius. Quem não se deixa fascinar por uma flor que sorri gratuitamente ao universo? Assim devemos viver a beleza no meio de um mundo de interesses, trocas e mercadorias. Então ela realiza sua origem sânscrita Bet-El-Za que quer dizer:”o lugar onde Deus brilha”. Brilha por tudo e nos faz também brilhar pelo belo que se irradia de nós.

Leonardo Boff escreveu A força da ternura, Editora Mar de Idéias, Rio 2011.


sexta-feira, abril 18, 2014

A Sexta-Feira Santa e uma pequena reflexão sobre a fé

Rogier van der Weyden, Sepultamento, 1450.
Após ler um belo texto de Leonardo Boff, bateu-me uma sensação de frescor espiritual. Além disso, estou ouvindo o Stabat Mater, do compositor italiano Antonio Caldara, que nasceu no século XVII e morreu no século XVIII. Hoje se comemora a dita Sexta-Feira Santa, momento de imensa significação para a cristandade. É o dia que, segundo a tradição cristã, Jesus morreu por amor aos homens a fim de remi-los dos pecados e injustiças. 

Passados dois mil anos dessa possível morte, fico a pensar na atual situação do mundo, cujo nível de violência, dessacralização, vilanias, cinismos e irreverências se tornaram insuportáveis - não que isso não tenha existido em outras épocas. E a consequência disso tudo é o medo, a bestialização, a perca da capacidade do afeto.  E a mensagem de amor e esperança parece ter se diluído no horizonte aziago da história. Parece que caminhamos para a barbárie. Para a selvageria absoluta. Nesse sentido, penso que aí se faz importante a mensagem cristã de amor. Não somente a cristã, mas todas aquelas que enchem o coração dos homens de luz e pacificação. 

A cristã, especialmente, ergueu um monumento de esperança. Serenou angelicamente um gesto de beleza com o objetivo de tornar os homens mais homens; mais justos; mais cheios de dignidade e capazes de reconhecerem o outro como sendo alguém vestido pela imagem santificada do absoluto. Entendo que a mensagem do Evangelho seja um das mais bonitas que já foram semeadas na história da humanidade. Ela por si só, sem o fungo fermentador dos radicalismos da fé, sem a dogmática castrante que existe em torno da religião institucionalizada, é capaz de promover revoluções interiores. É capaz de fazer nascer a vida. É como o próprio Cristo diz em uma das passagens dos evangelhos, afirmando de forma belíssima que o amor, a descoberta de si, o caminhar religado com esse espírito de sensibilidade e transformador, faz com que esse mesmo sujeito se torne uma espécie de "chafariz ambulante", do qual do seu interior brotam as águas que transformam a própria vida (Jo 7.38)

Quando olho para a história da arte, não deixando de pensar no poder e pompa ostentada pela Igreja durante vários séculos, cujo resultado foi perseguição, morte, abusos, vilanias, negociações extravagantes, numa afronta deliberada àquilo que ensinou Cristo, não posso me desvencilhar das emoções geradas a partir da contemplação da fé. Como, por exemplo, a bela Missa  Dolorosa do Antonio Caldara, que escuto agora; ou ainda uma missa ou cantata de Bach; ou uma obra de Palestrina, Lassus, Gesualdo ou Victoria. Ou ainda a contemplação de uma obra de Rogier van de Weyden, Caravaggio ou Giotto.

Allain de Boton escreveu em seu livro Religião para ateus que "o cristianismo nunca nos deixa qualquer dúvida sobre para que serve a arte: é um meio para nos lembrar daquilo que importa. Existe com o intuito de nos guiar para o que deveríamos cultuar e condenar, se desejamos ser pessoas boas e sãs em posse de almas bem-ordenadas. É um mecanismo por meio do qual nosssas memórias são exercitadas à força a respeito do que devemos amar e ser gratos, assim como do que devemos nos afastar e temer". Agostinho nos aponta para isso quando diz que um sacramento é um símbolo capaz de representar uma ausência; é um sinal da presença da graça. O cristianismo como um todo é um apontar para a possibilidade de que os há esperança, de que a bondade e o amor, essa capacidade tão humana, podem ser experimentados.

Assim, passo a ser simpático para com a fé a partir do momento em que ela me torna uma pessoa mais singela, mais humana e, a partir disso, abre uma porta dimensional capaz de me fazer pensar em minha finitude e como Pascal posso dizer: "Sou o nada diante do tudo; e o tudo diante do nada". A sentido da religião repousa justamente nessa compreensão belíssima que nos leva a cultivar paisagens interiores. E uma vez que as paisagens interiores estejam cultivadas, do lado de fora verão a cachoeira, a cascata interior aludida por Jesus. E aí tudo ganha o sentido daquela afirmação de São Francisco: "Prega o Evangelho em todo tempo; se necessário, usa as palavras".

quinta-feira, janeiro 02, 2014

Alguns devaneios e um livro de Paul Tillich - "História do pensamento cristão"

Paul Tillich
Sempre fui religioso. Durante muito tempo, o medo e a culpa foram as minhas principais religiões. Fiz minhas preces. Li a Bíblia quatro ou cinco vezes. Frequentei igreja. Elaborei prédicas. Semeei esperanças e julgamentos. Tudo em nome de um dogma. Estudei em um seminário. Formei-me em teologia. Perscrutei como são as entranhas da religião. Senti o cheiro de seus órgãos. Como são estruturados os seus tecidos. A régua de cálculo é a teologia. É com ela que se mede os espaços; que se estabelece aquilo que é certo ou errado. A religião é, por natureza, dicotômica. Ela não existe sem um "sim" e sem um "não". Ou seja, ela não consegue existir sem a ideia de "bem" e sem a ideia de "mal". De "bem" se chama aquilo que está harmonizado com os ditames do dogma; de "mal" se chama aquilo que não está de acordo com as sentenças do dogma.

Analisando friamente a história da evolução do homem, chegamos a conclusões desconcertantes. Tudo está na história. Ela explica o presente. A questão essencial passa a existir quando negligenciamos a análise dos processos históricos. O mundo sempre foi o mesmo? Os antigos não estruturaram as nossas consciências? A resposta para as certezas do presente não estariam no passado? 

Hoje temos a tecnologia por todos os lados. Ela nos pervade. Estamos tão acostumados a ela, que achamos estranho quando ficamos sem nosso celular ou sem acessar a rede mundial de computadores; ou quando a energia elétrica tem o fornecimento prejudicado. Acostuma-nos às informações. Quando queremos saber algo vamos ao Google. Lá encontramos todas as respostas. Tudo é tão óbvio. A medicina caminha a passos largos. Conseguimos coibir boa parte da enfermidades que eram capazes de dizimar populações inteiras.  Temos ressonâncias computadorizadas sofisticadíssimas. Enxergamos, hoje, o núcleo essencial da vida. Mapeamos geneticamente o DNA. Vimos que não estamos distantes dos outros seres do ponto de vista genético. Existe um nível de parentesco muito grande - principalmente, com os primatas. Podemos escolher o sexo, a cor dos olhos, do cabelo das crianças.

Sören Kierkegaard

Mas tudo foi assim? E quando queríamos entender essas coisas e não tínhamos um aparato científico tão desenvolvido? É, justamente, aí que entra a religião. Ela foi a primeira forma de explicação. Os mitos surgiram como forma de explicar a materialidade. Os antigos, simplesmente, disseram: "É vontade dos deuses!" Era a forma de construir diques contra o caos de uma existência fincada no nada. Em momentos de solidão, de agonia, de dor, o melhor remédio é saber que não se está sozinho. Daí, ao se criar um "ser invisível", "onipotente", "onipresente", que vigia e guarda os nossos desejos, passamos a experimentar uma estabilidade psicológica. Feuerbach, filósofo alemão do século XIX, costumava dizer que religião é "antropologia". Eu diria, também, que religião é "psicologia". Tudo é resultado de uma consciência depositada em receptáculo onipotente (deus), que passa a guardar, salvar, premiar, privilegiar e explicar a totalidade do universo. 

O crente encontra tudo o que ele procura em sua fé. Ela explica tudo. Tire-se a fé e ele tem as suas estruturas psicológicas abaladas. Todavia, ele não sabe que tudo está em nós. Ou seja, a religião revela intimidade do próprio homem. Seus medos. Inseguranças. Seus desejos velados. Sua necessidade de justiça ante a injustiça. Sua vingança contra os cataclismos de um mundo desordenado. É a saudade sentida por algo que ele nunca experimentou, que se transforma em torrente psicológica quando ele verbaliza para um ente invisível. Deus é o próprio homem querendo achar a si mesmo na noite escura da alma. 

Ocorreram-me esses devaneios, depois que li o livro História do Pensamento Cristão, de Paul Tillich, um dos maiores teólogos da história do cristianismo protestante. Tillich era polonês e após ter participado da Primeira Guerra Mundial teve as suas percepções sobre o ser humano e a história completamente alterados. Por ter vivenciado as agruras da guerra como capelão, observou o quanto o ser humano é habitado por uma torpeza absurda. Abraçou uma epistemologia existencialista. Kierkegaard é um dos progenitores do seu pensamento. Leciounou teologia em um seminário que tinha nomes como Heidegger e Rudolf Bulltmann. E a partir desse entendimento buscou trazer lampejos de esperança ao homem do século XX. A desolação de uma época fundada na desesperança fez com que Tillich construísse uma teologia que respondia a um questionamento: "Onde está Deus em meio a tudo isso? Onde achar esperança?" E Tillich respondia: "A mensagem de esperança está escondida em ti. Deus é um evento relativo que está escondido em ti mesmo, ó homem do caos". 
 
A mensagem, necessarimente relevante, é aquela que responde a uma necessidade pessoal. A religião fica nua, sem os seus dogmas, sem as suas folhagens; sem seus códigos construídos pelos "eminentes" teólogos. Ou seja, a filosofia passa a está à frente da fé. Não é a fé que, agostianamente, dita o que é certo ou errado em matéria de crença, mas a existência que determina o ser ou não-ser.  Poderia dizer que é um quase tomismo sem o método escolástico. 

O livro de Tillich solidificou uma desconfiança que há muito me acompanhava. Vi como os dogmas do cristianismo, as polêmicas e o pensamento hegemônico se consolidaram. O mundo que está aí foi montado por alguém. E essa deve ser a premissa. Ora, quem "construiu" os dogmas do cristianismo? Por que se crer desse jeito e não de outro? Por que o mundo ocidental é cristão e não politeísta ou não se tem uma fé gnóstica? Por que se crer na trindade? Esse conceito sempre existiu? A dupla natureza de Cristo é algo que sempre foi acreditado dessa forma? E os livros bíblicos ditos sagrados, quem os tornou "santos"? E o dogma do pecado original? 

São questões que devem ser respondidas com máxima urgência. Quando se olha para a história, nota-se que determinados sujeitos construíram esses conceitos. Os concílios fomentaram aquilo que se deveria crer e aquilo que não se deveria crer. Ou seja, o mundo ocidental acredita naquilo que foi construído pela institucionalização de um movimento. A cultura hegemônica de um povo tornou-se a referência absoluta incomparável. Gramsci afirma de forma lapidar sobre esse tema: 

Antonio Gramsci
"(...) A história da filosofia, como é comumente entendida, isto é, como história das filosofias e dos filósofos, é a história das tentativas e das iniciativas ideológicas de uma determinada classe de pessoas para mudar, corrigir e aperfeiçoar as concepções do mundo existentes em todas as épocas determinadas e para mudar, portanto, as normas de conduta que lhes são relativas e adequadas, ou seja, para mudar a atividade prática em seu conjunto"
"A filosofia de uma época não é filosofia deste ou daquele filósofo, deste ou daquele grupo de intelectuais, desta ou daquela grande parcela das massas populares: é uma combinação de todos estes elementos, culminando em uma determinada direção, na qual sua culminação torna-se norma de ação coletiva, isto é, torna-se "história" concreta e completa (integral)". 
"A filosofia de uma época histórica, portanto, não é senão a história desta mesma época, não é senão a massa de variações que o grupo dirigente conseguiu determinar na realidade precedente: neste sentido, história e filosofia são inseparáveis, formam um "bloco". (GRAMSCI, 1981, p.32).

Assim, nota-se que a construção de determinada massa ideológica ou determinado força filosófica hegemônica se dá em determinado momento histórico pelo grupo majoritário, pelo jogo de interesses do grupo dominante. Os dogmas ou os sentidos da fé são resultado da força da Igreja que açambarcou a estrutura do Estado romano e se tornou a força ideológica totalizante. Os filósofos, teólogos, são, simplesmente, debatedores de uma dogma criado superestrutura que tinha a Igreja como força oficial. Ou seja, debatiam o status quo filosófico.

O livro do Tillich é relevante. Ele faz um passeio pela história. Discute o pensamento de cada filósofo e as querelas suscitadas pelas filosofias de cada um deles. Boa parte do livro é dedicado a discutir o pensamento teológico e filosófico dos primeiros séculos da era cristã. Explica os principais movimentos filosóficos religiosos que faziam parte do background dos mundos grego e romano e que foram extirpados pelo cristianismo. Teólogos importantes como Pelágio, Orígenes, Filo de Alexandria, Ário, Sabélio, tiveram seus pensamentos colocados na marginalidade pela força oficial da Igreja. As cidades importantes que fomentaram importantes debates - Alexandria, Antioquia, Bizâncio, Calcedônia.

Discute os principais nomes da filosofia e da teologia medieval - Tomás de Aquino, Abelardo, Bernardo de Claraval, Joaquin de Fiori, Anselmo, Guilherme de Ockham, Meister Eckhart. Discute os principais dogmas da Reforma e da Contra-Reforma. Discute, em seguida, o movimento escolástico protestante e o iluminismo. O livro é excelente para quem quiser conhecer profunda e filosoficamente como a fé ocidental está estruturada. O livro, na verdade, é resultado das aulas de Tillich dadas no período em que ele morou nos Estados Unidos.

Tinha o livro desde 2007 e li no final de dezembro último. O interesse foi tão salutar que comprei o outro livro do teólogo (Perspectivas da Teologia Protestante nos séculos XIX e XX), em que Tillich aborda a filosofia e a teologia dos séculos XIX e XX. Consegui-o em um sebo de Goiânia pela bagatela de vinte e um reais. Está novinho em folha.

GRAMSCI, Antonio. Concepção Dialética da História. Civilização Brasileira. trad. Carlos Nelson Coutinho, São Paulo. 1981, pp. 341

TILLICH, Paul. História do pensamento cristão. ASTE. São Paulo. 2004, pp. 293