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segunda-feira, junho 21, 2021

Algumas palavras sobre o capítulo 1 do livro de Jó

Propus-me a ler o livro de Jó, uma das obras magnânimas do Judaísmo e do Cristianismo. Pretendo ler um capítulo por dia. Jó é um livro bastante emblemático, pois possui uma teologia suscitadora de possibilidades interpretativas que chega ao terreno do mito. É inegável a sua magnificente estrutura poética. Já o li algumas vezes. Sempre ficou aquela sensação de que há, no livro, uma intenção sapiencial e moral em seu autor. Não se sabe ao certo quem é o seu autor.

Outro fato bastante curioso sobre o livro é a historicidade do seu personagem principal. Quem é Jó? O livro começa situando os leitores geograficamente: “Havia na terra de Hus um homem chamado Jó” (Jó 1.1)[1] .  É uma forma de posicionar o leitor para a história que vai começar. É muito parecido com “Era uma vez,...”, das histórias extraordinárias.

A personagem é apresentada e, de início, já se diz que ele é “um homem íntegro e reto, que temia a Deus e se afastava do mal”. A introdução procura estabelecer duas características para a personagem: (1) uma preocupação moral; e (2) uma preocupação religiosa.

No segundo versículo, os dez filhos de Jó são apresentados. E, somente em quarto lugar, aparece a fortuna da personagem. Não se fala nada a respeito, mas, nota-se que os anos se passam. Jó reúne a família. Há festas, banquetes, congraçamentos.  Um espírito de fraternidade e amor parece existir entre os irmãos. Mesmo com todas essas situações, Jó é escrupuloso ao ponto de oferecer sacrifícios ao seu deus (Jó 1.5).

A partir do versículo 6, há um deslocamento no texto. Assemelha-se a um efeito cinematográfico. “Os Filhos de Deus”, em certo dia, vieram se apresentar a Iahweh. Quem eram esses “Filhos de Deus”? Seriam deuses? Arcanjos? Entidades miríficas que habitam a eternidade? A imagem deixa a entender de que se trata de um panteão. Vale ressaltar que os povos vizinhos de Israel eram politeístas. Ou seja, acreditavam em vários deuses. Do ponto de vista histórico, acredita-se que os judeus absorveram muito da mitologia cananeia. Inclusive, há o entendimento por parte de alguns historiadores, que o próprio Yaweh tenha sido incorporado da mitologia dos cananeus.  

Outro aspecto curioso a respeito dessa narrativa é que entre esses “seres especiais”, apareceu “Satanás”. Observa-se, nesse sentido, que “Satanás” ainda não possui os atributos diabólicos que assume no Novo Testamento. Ainda não é o “Baal Zebuf” (“o senhor das moscas”). Ou seja, aquele que habita o mundo escuro. Questionado por Yaweh a respeito do que fazia, ele responde: “Venho de dar uma volta na terra, andando a esmo”. É como se vivesse de forma desgarrada dos demais seres eternos. Nessa separação, ele “espreita” a criação. É responsável pela fermentação de antagonismos.

Iahweh parece provocar a criatura que acabara de chegar: “Reparaste no meu servo Jó? Na terra não há outro igual: é um homem íntegro e reto, que teme a Deus e se afasta do mal”. (Jó 1.8). Nota-se nesse sentido, que a observação em tom de arrogância provocativa vem do próprio Iahweh. Satanás retruca, afirmando que era muito fácil para Jó possuir todos aqueles atributos. Ele era protegido. “Porventura não levantaste um muro de proteção ao redor dele, de sua casa e de todos os seus bens?”. (Jó 1.10).

O que mais impressiona nesse fato é que, a partir dali, inicia-se uma espécie de aposta meta-histórica. Algo que acontece numa dimensão imiscível, mas que passa a ter efeitos no mundo material. Iahweh autoriza que Satanás inicie um processo de teste extremo à fidelidade de Jó. “Pois bem, tudo o que ele possui está em teu poder, mas não estendas tua mão contra ele”. (Jó 1.12). Diz o texto que “Satanás saiu da presença de Iahweh”.  

Fenômenos terríveis começam a ocorrer com Jó. As suas posses são aniquiladas. Os seus filhos são assassinados ou mortos em desastres naturais. Mas, vale lembrar, que a manipulação dos elementos naturais, estava sendo realizada por Satanás. A consequência desses eventos é a miséria suprema de Jó. O ato de Jó foi ‘rasgar o manto’; ‘rapou a cabeça’; ‘caiu por terra’; ‘inclinou-se para o chão’. São gestos que atestam o não conformismo, mas, ao mesmo tempo, uma humildade, uma aceitação inquestionável. O capítulo 1 finaliza com a sentença objetiva: “Apesar de tudo isso, Jó não cometeu pecado nem protestou contra Deus”.

Nota-se nesse primeiro capítulo de Jó, pelo menos, duas perspectivas:

(1)    O destino e a sorte dos homens são decididos, muitas vezes, em “jogos” ou “apostas” meta-históricas. Iahweh parece ignorar todos os sofrimentos que seriam experimentados por Jó. Há um claro equívoco na perspectiva da bondade divina. A fidelidade como fica evidenciada nos versículos iniciais do livro, não é uma garantia de proteção e zelo divino. A principal preocupação de Iahweh é provar uma tese: a de que ele era temido por Jó, independentemente da situação. Ou seja, muitos dos eventos trágicos – enfermidades, acidentes variados, casos inexplicáveis – podem indicar a presença de um jogo. Isso do ponto de vista das leis naturais é absurdo. Há ainda uma clara falta de lógica no que tange ao controle dos fenômenos.

 (2)  A estrutura do texto possui claros elementos mitológicos. Assemelha-se às narrativas dos povos vizinhos a Israel. Afinal, a noção de seres eternos que reúnem para decidir o destino dos homens possui fortes relações com a mitologia grega, por exemplo. A intriga entre os desejos divinos, os caprichos que acometem os deuses, estão presentes na narrativa. Seres eternos estão preocupados com aquilo que os homens fazem ou deixam de fazer. Sentimentos humanos são direcionados a seres tidos como perfeitos. Essa personificação é comum em histórias de contos maravilhosos. Para aquele que crer, que aceita irrefletidamente os elementos do texto sem notar esses arranjos discrepantes, acomodam-se com facilidade esses eventos da narrativa.

Vamos ao capítulo 2.   



[1] Na leitura, estou usando a excelente tradução da Bíblia de Jerusalém.

 

quinta-feira, janeiro 24, 2019

Matrix e o mundo real

"O que é "real"? Como você define o "real"? Se está falando do que consegue sentir, do que pode cheirar, provar, ver, então "real" são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo cérebro".
 Morpheus, personagem do filme Matrix

O que é a realidade? Tudo o que vemos é real? Como sei que existo e que aquilo que vejo e penso encontra ressonâncias com a materialidade? A nossa percepção do mundo não é fruto de um sonho? Essas perguntas perturbam e inquietam o ser humano há milênios. Os gregos foram os primeiros a tentarem responder essas perguntas.  

Em 1999, as irmãs Wachowski deram ao mundo uma obra-prima, o filme Matrix. Eles lançariam ainda outros dois, constituindo uma trilogia. A obra se fixa no rol daquelas distopias imortais como o são “2001: uma odisseia no espaço” (1969) e “Blade Runner – o caçador de androides” (1983). Matrix é uma distopia repleta de referências à filosofia, à mitologia, à teologia e a toda uma parafernália derivada da cibercultura. Particularmente, já devo ter assistido ao filme umas oito vezes. Cada vez que vejo a obra, atento para um detalhe ignorado. 

“O que é Matrix?” Essa pergunta encontra eco no questionamento fundamental: “o que é realidade?” Entendemos que a realidade abarca tudo aquilo que vemos, experimentamos, sentimos. Somos mediados pelos sentidos, que criam em nós, uma estrutura sólida da realidade. É a partir dessa referência que sedimentamos a nossa relação com o mundo que nos cerca. Mas, e se descobríssemos que aquilo que vemos, sentimos e experimentamos não é real?  

É justamente o personagem Thomas Anderson que começa a fazer esse questionamento. Anderson é um hacker. Trabalha numa empresa que desenvolve softwares. À noite, Anderson, que se assume como Neo no mundo cibernético, acessa os códigos da Matrix. E, assim, começa a desconfiar do mundo em que vive. Não consegue dormir. É perturbado por inquietações variadas. Neo, por fim, entra em contato com a personagem Morpheus, uma lenda do mundo virtual. Na mitologia grega, Morfeu é o deus dos sonhos. A entidade, cujo nome em grego “morpheu” significa a forma”, que possui a capacidade de se transformar em qualquer coisa e aparecer nos sonhos das pessoas. Morfeu é entidade sorrateira. Possui asas que não emitem som enquanto ruflam e deslizam suavemente. 

Em Matrix, Anderson  é despertado por Morpheus. É Morpheus quem o tira do mundo do sono, da ilusão, da virtualidade. Anderson vivia em mundo de fantasia, antes de se tornar Neo (o novo), “o escolhido”. Vivia dentro da Matrix. Seguindo esse entendimento, Matrix é uma realidade ilusória, uma realidade programada pelas máquinas. 

Segundo Morpheus, os homens iniciaram uma guerra contra as máquinas e perderam. Foram, por isso, evacuados do mundo. Passaram a viver em Zion (Sião), uma espécie de referência à Terra Santa, ao monte Sinai, onde supostamente, segundo o Velho Testamento, Javé apareceu para Moisés. Desde a guerra, o céu tornou-se escuro. Nuvens grossas e pesadas impedem que a luz do sol incida sobre a superfície. Sem luz solar, as máquinas não conseguem extrair energia necessária para alimentarem os sistemas existentes. Elas precisam de uma fonte alternativa de energia térmica. Passaram, pois, a cultivar seres humanos em série para que estes produzissem, por meio do calor corporal, bioeletricidade. Milhões de corpos são mantidos em sono perpétuo, sem que tenham exata consciência de sua real condição. 

Em uma das cenas do filme, Morpheus mostra para Neo duas pílulas - uma azul e outra vermelha. A azul permitiria a Neo continuar vivendo na escuridão, na ilusão; conduzia a sua vida normalmente na Matrix. Casaria. Teria filhos caso desejasse. Tocaria a sua vida. Desenvolveria suas atividades, sem qualquer preocupação. Já a pílula vermelho daria a ele a percepção do mundo real. Ele seria tirado do mundo das aparências. Despertaria para o mundo que o cerca. Perceberia a grande ilusão que o ladeava. Neo escolheu a pílula vermelha.

A grande questão é que há referências claras à “Alegoria da Caverna”, de Platão.  No livro 7, de A República, Platão narra a história de alguns prisioneiros que foram amarrados desde o nascimento no fundo de uma caverna. A condição dos prisioneiros é de tão grande passividade, que tudo que chega a eles, vem por intermédio de sombras e sonoridades confusas. Atrás deles, fica a saída da caverna em um plano inclinado. Há ainda uma fogueira acesa que projeta as sombras. Do lado de fora, as pessoas passam. A vida acontece em toda a sua plenitude. O sol brilha. As pessoas transitam desimpedidas. Dentro da caverna, a realidade é deformada. Chegam sombras tortas. O fogo bruxuleia por causa do vento. E, ao passo que isso ocorre, a projeção ganha contornos estranhos. A luz do sol não chega. Se essas pessoas estão ali desde que adquiriram consciência, é natural que elas entendam que toda a realidade que existe se limite ao que elas veem e escutam. 

Provocativamente, Platão diz que, após muito esforço, um dos prisioneiros consegue se libertar. Seu primeiro ato é se acostumar com a nova posição. Seus músculos e articulações estão atrofiados. Mal consegue se equilibrar. Caminha trôpego até o plano inclinado da caverna. Olha para trás, visualiza a fogueira, os companheiros manietados, as sombras fantasmagóricas que dançam nas paredes nuas da caverna. Faz um esforço. Galga a rampa. Um facho impetuoso de luz inunda-lhe os olhos. Quase fica cego. A luminosidade parece possuir espetos. Verruma-lhe os olhos. Em uma das cenas do filme, após sair da Matrix, Neo diz para Morpheus: “Os meus olhos doem”, ao que Morpheus retruca: “É por que você nunca os usou”.

Após enxergar o mundo e sua diversidade; perceber os parques; a força e a grandeza magnânima do mar; escutar os sons múltiplos da natureza, o homem decide voltar para contar tudo aos seus antigos companheiros. É sua obrigação, entende. Fora da caverna está o mundo real com sua diversidade e complexidade. Precisa voltar e explanar as sempiternas novidades. 

Ele assim o faz. Narra cada pormenor. Descreve o mundo e suas cores. As vozes. A dança frenética da realidade, banhada pela luminosidade do sol. Mas, grande foi o seu susto. Os antigos companheiros se recusam a aceitar tão aberrante e destoante notícia. Aquilo era um embuste. Uma mentira. Não existia nada daquilo. Tratava-se de uma invenção. A realidade, conforme eles entendiam de forma absoluta, resumia-se cabalmente àquilo que eles viam refletido no fundo da caverna. Em um dos diálogos do filme, Morpheus leva Neo a um grande centro metropolitano e diz: 

“A Matrix é um sistema, Neo. Esse sistema é nosso inimigo. Mas, quando estamos dentro dele, o que vemos? Homens de negócio, professores, advogados, marceneiros. As mesmas pessoas que queremos salvar. Mas até conseguimos, essas pessoas fazem parte desse sistema e isso faz delas nossas inimigas. Você precisa entender que a maior parte dessas pessoas não estão prontas para acordar. E muitos estão tão inertes, tão dependentes do sistema, que vão lutar para protegê-lo”. 
Os códigos que estruturam a realidade e fazem Matrix

Nota-se com isso, a estreita intertextualidade do filme com a alegoria escrita por Platão. Vale ressaltar que a alegoria pretende, por meio de simbolismos, retratar uma metáfora que acaba ganhando materialidade. Ou seja, cada elemento da alegoria estabelece conexão com o mundo material. Matrix aponta para esse intricado debate: até que ponto sabemos que aquilo que vemos, percebemos e ouvimos é verdadeiro? Outra questão é a defesa de determinadas premissas. As convicções surgem da experiência. Acostumamo-nos com a realidade que nos é apresentada. Entendemos que toda ela é inquestionável. O menor questionamento, a mais insignificante relativização, já é vista como motivo para provocação. E se nós, à semelhança dos prisioneiros, estivermos acorrentados, contaminados pela sonoridade falha; e se apreendermos um tipo de mundo, sem que este seja necessariamente a realidade que achamos que é?

O ser humano precisa de estabilidade. É, por isso, que se faz a defesa intransigente de certas convicções. Para aquele que possui, nada é tão verdadeiro, nada faz tanto sentido. Mas, e se essas convicções forem apenas sombras? O papel do filósofo ou daquele que foge da tirania do olhar único é sempre transgressor. O papel daquele reflete, que pensa, que desconfia, que procura sair da caverna dos preconceitos e da aparência é sempre de transgressão. Lênin costumava dizer que “a verdade é revolucionária”. 

Existem outros elementos no filme suficientes para produzir teses. O fato é que fico impressionado todas às vezes que assisto ao filme. Por exemplo, no campo da religião há referências a dogmas cristãos. Neo é “o messias”, o salvador, aquele que traria redenção à raça humana condenada. Ele é o libertador. Arrancaria os homens de um mundo em que eles nada são a fim de se tornarem aquilo que devem ser. Paulo, o apóstolo, diz na sua segunda carta aos coríntios diz que “se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas velhas passaram e tudo se fez novo”. Percebe-se aqui o quanto o filme procura estabelecer a mudança perpetrada pela relação com o messias. 

Outra referência curiosa é o dogma da Trindade. A personagem “Trinity” possui relação. A primeira vez que ela se encontra com Neo, ele diz: “Achei que você fosse um homem”. Ela responde: “Todos acham isso”. Quando da morte de Neo, ela o ressuscita. Pai, Filho e Espírito Santo são um. Se o filho ressuscita, o Pai e o Espírito ressuscitam, ou seja, a própria trindade ressuscita. 

Em suma: o filme é uma obra bastante incomum. Os irmãos Wachowski conseguiram trabalhar conceitos extremamente complexos e inovaram bastante no campo visual. O filme é um grande acontecimento. É um prato feito para aqueles que admiram filmes polifônicos, ou seja, que conseguem perturbar por aquilo que insinuam, seja de maneira direta ou indireta.

sexta-feira, outubro 13, 2017

Um excerto sobre Titono, personagem da mitologia grega

Meses e meses de silêncio completo. Abandono! Relapso! Ausência de curiosidade, de atividade. A lembrança vaga. O movimento para a ação emperrado. Hoje, resolvi escrever algo que me chamou a atenção. Está no livro Além de Darwin: o que sabemos sobre a história e o destino da vida na Terra, que ando lendo. Há um trecho em que ele fala de Titono, personagem singular da mitologia grega. 

O exemplo mais aterrador de falta de cuidado com desejos que me vem à cabeça envolve um sujeito chamado Titono, personagem da mitologia grega. Eis um cara que tinha tudo: príncipe de Tróia, um dos homens mais belos do seu tempo, reza a lenda que ele era tão charmoso que nem Eos, deusa da Aurora, resistiu aos seus encantos. Apaixonada pelo rapaz, Eos pediu que Zeus, o chefão dos deuses, transformasse Titono em imortal. Mas o desejo da deusa tinha sido terrivelmente mal formulado: ela esquecera de perdir que Titono também ficasse eternamente jovem. O resultado é que, embora não morresse, ele foi se tornando cada vez mais enrugado e carcomido, até acabar virando... um gafanhoto imortal.

sábado, agosto 06, 2016

Pokémon Go e a falsificação do real

Não quero acreditar que se trate apenas de envelhecimento e casmurrice exacerbada de minha parte; ou ainda de uma personalidade assentada no mau-humor, que se indispõe contra todas as novidades, alegando uma suposta conspiração de forças secretas, dispostas a dominarem o mundo. Quero crer que não se trata disso. Peremptoriamente, não. O fato é que não consigo tirar da cabeça a indisposição contra a nova atração da indústria cultural do entretimento: o Pokemón Go. O jogo inventado pela Nintendo tem capturado a atenção de indivíduos de todas as faixas etárias e criado, mais uma vez,  uma febre como o foram a Macarena ou o Lepo Lepo. É uma espécie de "A coisa", aquele filme da década de oitenta, que mostrava um iogurte de marshmallow que se transformava em um sucesso comercial, uma febre coletiva, mas, que no fundo, era uma força de outro mundo que dominaria o planeta.

Pelo que li, o jogo é baseado em dados virtuais de geolocalização. O jogador precisa instalar o jogo no celular e sair à cata de "monstrinhos" que vão surgindo como desafios a serem capturados. Assim, o sujeito recebe os dados para localização do ente virtual, observa as informações geográficas que são disparadas por coordenadas e, com a tecnologia do celular - câmera, GPS etc - vai, meio que bestializado, à procura da nova aventura. 

Quando vejo algo assim, vem-me à mente aquela passagem da Odisseia em que Ulisses precisa enfrentar as sereias. Desejando ouvir as criaturas mágicas sem enlouquecer, Ulisses pede para ser amarrado ao mastro do navio e solicita aos seus marinheiros que tapem os ouvidos com cera para não serem atingidos pelo feitiço, ou seja, pelo canto enganador. As sereias eram entidades que se travestiam de mulheres belíssimas, encantadoras, que se colocavam em determinados locais. Quando avistavam viajantes desatentos, iniciavam um canto maravilhoso que acabava por enfeitiçar aqueles que as escutavam. Uma vez capturado pelo força inebriadora do canto, o sujeito tornava-se uma presa fácil e era devorado pelas sereias. No fundo, aquelas entidades eram monstros terríveis. 

Essa história ilustra como em uma sociedade capitalista é preciso manter-se atento "ao canto das sereias" da idiotização. O quanto é necessário refletir a nossa relação com o mundo real. Jogos como Pokemon Go expõem o quanto o capitalismo precisa criar "fugas" do mundo material. O quanto é preciso confundir materialidade com virtualidade, fazendo com que esta última, em sua dimensão enfeitiçadora, torne-se mais significativa que o mundo desigual em que vivemos. Ao se confundir, por meio de uma indução os elementos do real e os elementos da aparência das coisas, cria-se uma falsificação do mundo real e das coisas reais. Assim, a falsificação é poderosa, pois desvia a atenção do sujeito para aquilo que não é, fazendo com que o real se esconda ou não seja desejado. O "espectro do virtual" torna-se mais interessante. Essa "confusão" é induzida e não deve ser entendida como gratuita. O que a indústria cultural do capital mais deseja é manter os indivíduos expostos ao canto enfeitiçador do entretenimento fácil e falto do uso da razão; da suspensão do juízo crítico.

Adorno e Horkheimer, no clássico A dialética do esclarecimento, afirmam que uma das estratégias do capital é a produção de uma indústria cultural. Neste enquadramento, "o indivíduo é ilusório não apenas por causa da padronização do modo de produção. Ele só é tolerado na medida em que sua identidade incondicional com o universal está fora de questão" (p.128). Ou seja, a consciência de si é um dado inexistente. O sujeito desvia o olhar de si para elementos externos à sua condição. Padroniza-se a realidade, convence-se o sujeito por meio da celebração dos espetáculos e das mercadorias, que existe uma naturalização do mundo tal qual ele é. Vive-se, assim, uma ditadura "do falseamento" criada pela imanência do estilo de vida criada pelo capital.

No filme O show de Truman (1998), de Peter Weir, a personagem Truman encenada por Jim Carrey, vive em um mundo de faz de conta. Ele não sabia quem era. Suas ações cotidianas, seus sentimentos, suas relações sociais estavam confinadas a um esquematismo de uma equipe de televisão que o mantinha preso dentro de um estúdio, vivendo uma espécie de reality show para divertir os telespectadores. Desde criança, Truman havia sido confinado naquele cenário. Ele era apenas um joguete, uma objeto manipulável, sem consciência de si, da sua condição, de sua origem, de sua história pessoal. Com o tempo a personagem passa a desconfiar de que algo "estranho" acontecia, que os eventos sempre se repetiam. Mas, todas as vezes que buscava uma pista que explicasse o seu drama pessoal, os questionamentos em torno de sua história, os organizadores do programa (a força externa e coercitiva), impedia a sua busca.

Jogos como Pokemon Go são formas dissimuladas de criar zumbis. Ele preenche o vazio criado pelo capital - o vazio que é o grande ethos de nossa época. Consome-se tudo de forma suína. Não distingue-se o produto, o artefato, o objeto, tudo vira matéria para distração. Engole-se qualquer coisa. Tudo é novidade. E o novo em sua rutilância tem a capacidade de seduzir. Poucos são os viajores do mar da história que prestam atenção "à música que escutam". Poucos são aqueles que distinguem a melodia enfeitiçadora que produz estragos. Poucos são aqueles que conseguem perceber o véu de falsificação produzido pela indústria que banaliza sujeitos e os transformam em títeres dóceis e zumbificados. 

É preciso atentar para a advertência de Ulisses. 

domingo, abril 20, 2014

"Educação Sentimental", de Júlio Bressane

Vi na sexta-feira ao perturbador filme de Júlio Bressane Educação Sentimental. Talvez o termo "perturbador" crie uma expectativa negativa em torno do filme, mas é, no mínimo, assim que poderíamos defini-lo. Emprego o termo aqui no bom-sentido. Não quero espicaçar a obra, que é de boa qualidade. Em primeiro lugar é preciso esclarecer que assistir a um filme de Júlio Bressane exige um exercício bastante intenso de disciplina e de relativa maturidade. O telespectador pouco afeito à estética bressaniana pode chegar a conclusões apressadas como esta: "Que porcaria é essa?!"

Ademais, Bressane é um dos diretores mais eruditos do nosso país com seu cinema experimental. Seus roteiros são densos e estão permeados por temas diversos da literatura, filosofia, religião e mitologia. Como, por exemplo, em Dias de Nietzsche em Turim ou São Jerônimo, que de tão bonito e sublime provoca uma náusea estomacal.

Educação Sentimental conta a história de Áurea e Áureo. Até aí tudo bem, já que os nomes parecem revelar uma grande brincadeira. Mas no transfundo disso tudo está o mito grego de Endimião e Selene. Ou seja, a lua que se apaixona pela beleza física de um jovem pastor. No caso do filme, a professora que se apaixona pelo aluno. Ela, uma letratada que conhece os meandros da literatura. Que disserta para o garoto, que em alguns momentos, parece não entender aquilo que ela diz. Seu tom professoral é erguido com afetamento e artificialidade. Sua voz é alambicada; todavia, impecável. Seus modos, completamente livres e telúricos, como na cena em que ela caminha e dança num frenesi primitivo. Ao fundo, ouvimos o sons de animais da fauna brasileira - tucanos e outros pássaros e animais

O filme revela uma poesia muda. As referências ao mito surgem a todo instante. No caso do mito, Zeus provoca um sono profundo em Endimião, que dorme e não pode despertar; e todas as noites a lua vem beijar a beleza de Endmião com sua claridade prateada. A professora, por sua vez, ensina tudo ao jovem Áureo. Beija-lhe a mocidade com sua erudição. Seu saber arqueológico é, na verdade, um grito a serviço da arte. E aqui notamos a genialidade de Bressane ou a sua voz protesto a favor de um cinema que faça emanar a poesia e deixe de lado o anelo comercial. Tal desejo inveterado pelo lucro tem tirado a roupagem artística do cinema. A indústria cinematógrafica sufoca e impede que a poesia de um Bressane, de um Tarkovski, de um Bergman, de um Kubrick seja apreciada.

Filme bom é aquele que nos faz pensar. Que sugere misteriosamente e nos deixa por dias com suas imagens tatuadas em nossa mente.  O filme de Bressane se inscreve nessa categoria. É um filme curto e, ao final, existe uma revelação das cenas dos bastidores (making of), chamado de Circuncena, que mostra a cozinha onde os sonhos do cinema são produzidos. Educação Sentimental não faz referência à obra homônima de Gustave Flaubert.

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Viagens - a ausência-presença das obras do tempo

A visita que fiz ao estado de Pernambuco - minha "pátria" (levando em conta que a palavra "pátria" significa "terra dos pais") - me deixou com uma sensação de que o tempo é uma força descomunal. Enquanto estava por lá, lembrei de uma frase de Karl Marx - "Tudo o que é sólido, desmancha no ar".

Havia ficado oito anos sem visitar aquele estado. Sem visitar parentes. Rever amigos. Apreciar paisagens. Envolver os meus sentidos com as feições da terra. Foi estranho não ter visto o meu avô materno. Não ouvir a sua voz grossa, envolvida pelo arrojo da autoridade. Esse fato causou uma sensação de ausência. Não visualizar os seus beiços enrugados à maneira dos velhos coronéis provocou um impacto. A casa de farinha, o seu lugar de praxe, ficou abandonada. Era nesse ambiente que ele fazia as suas reflexões. Comentava casos. Desferia críticas contra as injustiças. Comentava a política dos governos estadual e federal. Vociferava contra as bestuntices dos trabalhadores, dos vizinhos, dos filhos, dos netos... do mundo.

O tempo, como diz Agostinho em suas Confissões, provoca "efeitos admiráveis". Diria que ele causa um duplo efeito: (1) um a nível externo. Ou seja, aquele que se processa no mundo físico, alterando ambientes, provocando alterações contigentes; e (2) outro a nível existencial. Ou seja, efeitos de ordem psicológica. Enquanto caminhamos vamos sendo afetados por essa força que é como a água do mar - movimenta-se num dinamismo incessante. Não o percebemos, mas os seus efeitos vão "desmanchando" as obras da realidade e infundido, no ser, "efeitos admiráveis". E tudo se encerra na afirmação do poeta Manuel de Barros - "uma ausência que é só presença".

P.S. A obra fantasmagórica acima é de Francisco de Goya, um dos pilares da pintura espanhola. O quadro retrata o deus romano Saturno (Cronos no grego), devorando um dos seus filhos. Segundo a mitologia, Saturno fora advertido de que um dos seus filhos o destronaria. A partir daí, ele passa a devorar um por um os seus filhos. Até que um deles - Júpiter (Zeus no grego) - conseguiu escapar e viver. A cena é uma das mais terrificadoras já pintadas na história da arte. Mostra Saturno, símbolo do tempo, bestializado, consumindo implacavelmente um dos seus rebentos - os cabelos esvoaçados, os olhos fora das órbitas, o esforço para abrir a boca e convertê-la numa enorme cavidade negra que morde o braço esquerdo de um corpo humano, ao qual já não tem nem cabeça nem braço, provoca impacto. O corpo encurvado; o braço direito como um coto de uma árvore; as pernas como se estivessem amputadas a sumirem na treva espessa. Apesar das várias possibilidades de leitura da obra, a que mais gosto é aquela que mostra que o tempo é aquela força que devora tudo, que é implacável. Quem seria o "Júpiter"("Zeus") capaz de destronar o seu poder acachapante?


sábado, dezembro 31, 2011

Eu, Jorge Luis Borges, Santo Agostinho e o tempo

Neste instante, em que nossa caminhada nos faz chegar aos portões de uma zona imaginária, paro e reflito sobre tal efeito simbólico - 31 de dezembro, último dia do ano. Amanhã, o hoje não mis será. Penso em Janus, deidade mítica romana, capaz de olhar para frente e para trás simultaneamente. Considera o futuro, mas ainda está preso ao passado - é presente. Janus, porteiro do Monte Olimpo, também era o deus da dúvida, pois uma cabeça considerava o passado e, a outra, o futuro. Eu, de forma semelhante, estou com os pés fincados no presente, mas os meus olhos vislumbram as colinas afastadas do futuro; a minha mente é uma porta dimensional, condutora dos fatos e eventos acontecidos - alguns que já se gastaram e foram esquecidos; outros, que ainda persistem e já se tatuaram no meu, deixando os seus efeitos. Sou o intervalo entre o ontem e o manhã no tempo, essa força invísivel, criada para nos fatigar e determinar a nossa finitude. O tempo é consciência do que se espera no hoje, sendo que no ontem eu já esperava pelo hoje, e é no hoje que se espera pelo amanhã, tendo a consciência de que se é neste momento chamado hoje e projetando uma expectativa para aquilo que ainda não é e chamamos de futuro.

"O tempo é um problema para nós, um terrível e exigente problema, talvez o mais vital da metafísica; a eternidade, um jogo ou uma fatigada esperança"

(Jorge Luis Borges, in História da Eternidade, p. 6)


"Rubayat

Volte em minha voz a métrica do persa
A recordar que o tempo é a diversa
Trama de sonhos ávidos que somos
E que o secreto Sonhador dispersa.

Volte a afirmar que é a cinza o fogo,
A carne o pó, o rio o fugidio
Reflexo de tua vida e de minha vida
Que lentamente se nos esvai logo.

Volte a afirmar que o árduo monumento
Que constrói a soberba é como o vento
Que passa e que, à luz inconcebível
De Quem perdura, um século é um momento.

Volte a advertir que o rouxinol de ouro
Canta uma única vez no sonoro
Ápice da noite e que os astros
Avaros não prodigam seu tesouro.

Volte a lua ao verso que tua mão
Escreve como transforma no temporão
Azul o teu jardim. A mesma lua
Desse jardim há de procurar-te em vão.

Sejam sob a lua das ternas
Tardes teu humilde exemplo as cisternas,
Em cujo espelho de água se repetem
Umas poucas imagens eternas.

Que a lua do persa e os incertos
Ouros dos crepúsculos desertos
Voltem. Hoje é ontem. És os outros
Cujo rosto é o pó. És os mortos".

(Jorges Luis-Borges, in Elogio da Sombra, p. 24)

"Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem o pergunta, já não sei. Porém, atrevo-me a declarar, sem receio de constatação, que, se nada sobreviesse, não haveria tempo futuro, e se agora nada houvesse, não existiria tempo presente".

(Santo Agostinho, in As Confissões p. 322)