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quinta-feira, julho 16, 2026

Algumas impressões sobre o romance "Jubiabá", de Jorge Amado

 

“[Antônio Balduíno] Andava pelos dezoito anos mas parecia ter vinte. Era forte e alto como uma árvore, livre como um animal e possuía a gargalhada mais clara da cidade”.

Jorge Amado, in “Jubiabá”

 

Tenho por meta ler integralmente a obra do escritor baiano Jorge Amado. Tenho tentado ler os seus romances em ordem cronológica.  “Jubiabá” é o quarto livro do escritor baiano. Desde os tempos da escola, Amado sempre se mostrou para mim como um escritor que provoca uma relativa sensação de intriga. Sou afeito ao estilo seco e duro de Graciliano Ramos; ou à prosa caudalosa, com cintilações psicológicas bem desenhadas de José Lins do Rego – para mencionar dois outros importantes escritores nordestinos, também pertencentes à Segunda Fase do Modernismo.

O autor de “Jubiabá”, diferentemente dos dois escritores mencionados, escreveu uma literatura muito mais popular. O texto de Graciliano próximo do texto de Amado é “parnasiano”. Graciliano era meticuloso na revisão gramatical e sintática, o que se faz notar no efeito de sua literatura. Amado, por sua vez, utiliza uma lexicografia extraída das camadas mais populares do povo baiano. Isso está de acordo com as intenções que o habitavam na primeira fase de sua literatura, voltada de maneira candente aos temas sociais. Importa ainda mencionar a aproximação com as teses comunistas e ao engajamento assumido pelo escritor.

O próprio Jorge Amado viajou por alguns estados nordestinos, pelo Recôncavo Baiano – e sendo ele ligado às questões da terra (sua família era proprietária de terras onde se plantava cacau) – e um profundo conhecedor das ambivalências pelas quais passava o povo negro soteropolitano. Jorge procura na tradição africana os elementos necessários para compreender a brasilidade.  Jorge Amado projetou as suas lentes para o povo negro, radicado em Salvador, o local do país onde mais se recebeu escravos trazidos da África e, com isso, escancarou uma das faces mais profundas da nossa história. O projeto antropológico de Jorge Amado, emanado de sua literatura, depositado em personagens memoráveis e fortes, é dos mais relevantes para um olhar mais profundo sobre a cultura do Brasil.

Antes de “Jubiabá”, Amado havia escrito “O país do carnaval”, “Cacau” e “Suor”. São livros de enredos ligeiros que, quando comparados a “Jubiabá”, funcionam como exercícios iniciais de escrita. Quando da publicação de “Jubiabá”, Graciliano escreveu para o seu amigo José Lins do Rego sobre o livro de Jorge e disse: “Eu queria saber com que cara o Otávio de Faria (jornalista e escritor) leu aquilo. Há pouco tempo ele disse que Jorge era um literatinho e que não devia meter-se a escrever romance… Enfim, o livro é ótimo. Tão bom, que aqueles documentos inúteis, anúncios de circo etc.…, não o prejudicam. Mesmo com a preocupação de fazer romance de classe, não penso que o livro do Jorge deforme a realidade, como lhe parece”.  O termo “literatinho” talvez tenha sido empregado por causa da ausência de profundidade das personagens criadas por Jorge até aquele momento. Antônio Balduíno, o Baldo, o protagonista do romance é um “Odisseu baiano”. Assim como o herói da obra de Homero, a trajetória transforma-os em sujeitos errantes, ambos são transformados pela viagem e chegam ao final da travessia completamente modificados. Essa é a impressão que fica ao concluir leitura da obra. Sua trajetória faz lembrar aquela explanada por José Lins do Rego em “O moleque Ricardo”, ambientado no Recife. Ricardo saído da bagaceira, procura a cidade grande; enfrenta as agruras, entra na luta sindical e é conduzido à prisão Fernando de Noronha. O Baldo, por sua vez, um moleque negro vive mil vidas no romance e acaba, assim como Ricardo, envolvido na luta coletiva.

O título “Jubiabá” não é dado ao personagem central da obra como poderia ocorrer de maneira intuitiva. “Jubiabá” é o nome que se emprega ao babolirixá, uma espécie de mestre, de conselheiro transcendental de Baldo. Pode-se depreender também que o título certamente é uma homenagem à cultura popular, às religiões de matriz africana, à sabedoria herdada do povo negro. Cheguei a procurar o significado dessa palavra, mas não encontrei. O que se sabe é que personagem teria existido na Bahia. Ou seja, ela é resultado da homenagem do escritor às grandes figuras populares do povo baiano.

O romance possui imagens quase cinematográficas como, por exemplo, quando a personagem se embrenha pelo mato, sendo perseguido de maneira animalesca por sujeitos que procuram a vindita. Outra cena importante é a luta com o boxeador alemão.

“Jubiabá” é um romance com muitas ações do seu personagem principal. Existem questões que surgem em uma primeira leitura. Podem-se citar a título de exemplo:

(1) A luta racial e a identidade negra: Antônio Balduíno é uma figura encantadora. É um herói com mil faces. Ele possui a sina do homem negro. Nascido em um morro. Órfão ainda muito pequeno. Adotado por uma família. Hostilizado pela família por essa mesma família que o adotou.  O mergulho profundo na rotina da rua. Guindado à condição de boxeador. A honra e a derrota. Tudo isso torna-o uma figura sobre a qual estão colocadas as vicissitudes do destino. Sua luta passa pela afirmação de sua identidade de homem negro e marginalizado. Recai sobre ele a insubmissão. Baldo é uma figura múltipla e repleto de habilidades – é um malandro nato; é boxeador; é poeta; é apaixonado; é cangaceiro; é religioso; é órfão; é um homem do povo; é preto; é sindicalista. Desfere golpes contra a  própria vida e contra o próprio destino a fim de continuar a ser quem é. Baldo é um dos primeiros e únicos heróis negros de nossa literatura.  Amaro, personagem homossexual e negro, do romance naturalista “O Bom Crioulo”, de Adolfo Caminha, não pode ser esquecido.   

(2) A desigualdade e a luta de classes: “Jubiabá” é o romance que se insere na fase social ou proletária de Jorge Amado. É patente a tese de que o herói precisa ascender a fim de se envolver no movimento social. O desfecho da existência de Balduíno é o ingresso no movimento sindical. Fica explícito no romance o quanto sua vida é pautada pela exploração. Em todas as relações que ele estabeleceu, há uma força estrutural que o explora, que nega a ele a dignidade para ser. A saída para alguém nessa condição é lutar, é se insurgir; é organizar a resistência contra os donos dos meios de produção. Vale mencionar que, nesse período, Jorge Amado encontrava-se cada vez mais alicerçado no movimento comunista. Outra questão importante a ser mencionada é que “Jubiabá” foi um dos livros de Jorge Amado que mais fizeram sucesso na União Soviética. Lia-se o livro como uma tese em que se pode notar as etapas da ascensão da luta do proletariado. A luta do herói da sociedade de classes ascende até que ele se organize com outros explorados para empunhar a bandeira da revolução.

(3) A forte presença da religiosidade do povo: Estive em Salvador em 2023. Fiquei impressionado com a cidade. Salvador é uma cidade que possui uma energia bem diferente das outras cidades brasileiras. A presença do povo negro se faz por todos os lados. Ou seja, Salvador é um pedaço da África no Brasil. A presença da cultura africana derrama-se pelos vários bairros e pode ser percebida na culinária, nos monumentos, no corpo dos soteropolitanos, nas vestimentas, na ginga do baiano, na religiosidade. Recordo-me que o guia que nos conduziu ao Centro Histórico da cidade afirmou que há mais de mil terreiros em Salvador. Fiquei impressionado com o número. Há mais terreiros do que igrejas católicas. É muito comum, em Salvador, você encontrar alguém que possua um orixá como guia. Essas divindades estão presentes na umbanda e no candomblé. Elas são extraídas da mitologia do povo iorubá (África Ocidental), de onde vieram boa parte dos escravos africanos trazidos ao Brasil. As divindades representam e controlam forças da natureza.   

(4) A formação da consciência político do sujeito histórico: Observa-se que Baldo possui uma trajetória ascendente. A personagem amadurece à medida que a trama se desenvolve. Há nessa estratégia a estrutura de um romance de formação. Balduíno parte da luta pessoal e individual em busca de resistir às intempéries de uma rotina de privações e obstáculos. Todavia, o herói somente conseguirá resolver o seu problema, se entender que os seus problemas e obstáculos são decorrentes de uma estrutura social injusta. O destino do sujeito opresso em uma sociedade desigual e injusta é a formação da consciência de classe. A emancipação passa, necessariamente, pelo entendimento de sua condição. A busca individual dificilmente debela a exploração e desigualdade na sociedade capitalista.

(5) A infância como elemento de reflexão: É relevante afirmar que “Jubiabá” faz lembrar em alguns momentos outro romance amadiano – “Capitães de areia”, de 1937. Alguns dos temas deste romance parecem já esquematizados em “Juabiabá”. O grupo de amigos de Antônio Balduíno que perambula pelas ruas de Salvador faz lembrar o grupo chefiado por Pedro Bala, personagem principal de “Capitães de Areia”. Nesse sentido, Amado reflete sobre o abandono da infância, a paisagem urbana e suas contradições e a solidariedade estruturada entre os marginalizados.

“Jubiabá” é um romance que surpreende pela trama envolvente, pela personagem encantadora, pela forma como retrata os grupos marginalizados, como retrata algumas manifestações do povo – o samba, a capoeira, as festas, a religiosidade, a sensualidade, a oralidade, a valorização da cultura negra. Trata-se de uma obra neorrealista, mas carregada de elementos envolventes. Antônio Balduíno poderia ser o que quisesse, caso não pesasse sobre sobre ele a sina de ser pobre, preto e marginalizado. Era um sujeito com múltiplos talentos.

 

 

 

 

segunda-feira, março 20, 2023

"Caminhos Cruzados", de Erico Veríssimo

 


                A década de 30 do século XX foi uma das mais ricas para a literatura brasileira. Viveu-se o que se convencionou chamar de Segunda Geração Modernista (1930-1945). A literatura produzida por aqui desenvolveu o seu engajamento. Liberdade para criar e reconhecer as contradições brasileiras ganharam forma. Tanto a poesia quanto a prosa assumiram uma posição de denúncia. Há nomes importantes na poesia – Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Murilo Mendes. Na prosa, também se observa a força, a pujança das narrativas, uma preocupação com a crítica à condição do homem numa sociedade repleta de duros antagonismos.

                No Nordeste, há nomes que impressionam pelo aspecto prolífico da produção. As questões regionais passaram a ganhar visibilidade. A seca, as desigualdades, o jogo político que fazia com o poder pertencesse a certas famílias – as velhas oligarquias, fruto da formação social e econômica do país -, são expostos por Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Amando Fontes, entre outros.

                Pode-se observar ainda um movimento que tende a revelar os dramas do homem urbano. Os escritores apontavam as lutas do homem da cidade. Suas dissonâncias. Seu mal-estar psicológico. A urbe capitalista é o espaço em que o ser humano encontra-se exposto às ambivalências; à solidão; ao aparente; à angustia. Os gestos não definem um ensaio de definição.

                Erico Veríssimo foi certamente um mestre nesse sentido. “Caminhos cruzados” foi o seu segundo romance, escrito no ano de 1935. Veríssimo à sua maneira, com uma prosa ágil, despojada, dedica atenção aos homens e mulheres da Porto Alegre da primeira metade do século XX. Erico descreve com inconformismo a realidade das vidas humanas embrutecidas ou vulnerabilizadas pela luta no palco social. Ninguém está livre da crise. Seu texto é imensamente humano.

Erico Veríssimo. 

                A paisagem urbana esconde os dilemas. O romance possui vários nichos narrativos, que funcionam como uma novela. Cada capítulo dedica-se a uma personagem. Vamos conhecendo um a um; solidarizamo-nos com um; tomamos aversão a outros. O autor parece apresentar um prédio para alguém que passa pela rua. Ele aponta o seu dedo e vai descrevendo as histórias que povoam cada apartamento. Em alguns deles, notam-se a exuberância, o luxo, a vaidade. Em outros, a singeleza, a humildade, o despojamento. Como diz Antonio Cândido, é como se o escritor dividisse as personagens em dois grupos: o grupo “A”, formado pelos ricos; e o grupo “B”, formado eminentemente pelos pobres.

                Veríssimo denuncia as desigualdades sociais e a indiferença. Em um período sensível da história nacional, que estava na iminência do golpe de Estado de Vargas, não faltou quem visse intenções revolucionárias na pena do escritor.

                O gaúcho, também autor de “Incidente em Antares”, utiliza a técnica do contraponto, segundo ele, apropriada da obra do inglês Aldous Huxley. É curioso perceber como essas personagens diversas e contrastantes se aproximam e se cruzam pela urdidura da vida social. É nesse ponto, que Veríssimo realiza o movimento primoroso do acerto, pois, ao estabelecer essas conexões, ele captura a imagem de uma sociedade inteira.

                O romance gerou escândalos e protestos. Os conservadores ciosos dos valores da família, enxergaram imoralidades. Moacyr Scliar afirma que, quando adolescente, a leitura do livro era terminantemente proibida. Despertou também furor político, pois a obra foi acusada de disseminar o comunismo. Sim. Essa palavra tão incompreendida; tão onipresente no imaginário da classe média brasileira; essa palavra cujo conceito é desconhecido por muitos. 

                 Ao lermos o romance, não notamos nada disso. Observa-se que Erico é habilidoso em realizar uma crítica firme contra um país que invizibiliza parte de sua população. Se Erico suscitou debates, é pelo fato de sua obra está entretecida pelos limites impostos pelo mundo material. As personagens do livro são motivadas pelo sonho, pela esperança, mas têm suas intenções estilhaçadas pelo mundo real. Nada mais atual que isso. E nesse sentido, este romance do autor gaúcho ainda continua dizendo muito.


quinta-feira, janeiro 12, 2023

As 10 principais leituras de 2022

Os dias começaram intensos em 2023. Essa postagem era para ter sido feita nos primeiros dias de janeiro ou no final de dezembro. O trabalho e o excesso de atividade não deixaram. De qualquer forma, o mais importante é que ela sairá. 

O objetivo dela é apontar as dez leituras mais importantes que fiz ao longo do ano de 2022. Um ano difícil. Repleto de tensionamentos e cansaços. De perdas e danos que deixaram arranhões. Por sua vez, não largamos as leituras. As leituras aconteceram a conta gotas. Nos intervalos. Nas caminhadas. No embalo do ônibus. Nos cochilos assustados do metrô. À noite, enquanto punha o meu filho pra dormir. Difícil. Mas seguimos com um senso de dever cumprido. 

Como afirmo todos os anos, gostaria de ter lido mais do que li. Todavia, consegui ler aquilo que me foi possível. Sendo assim, seguem as dez leituras mais importantes que li ao longo do ano que passou. 

01 - "Os Sertões" - Euclides da Cunha;

02 - "Antes do baile verde" - Lygia Fagundes Telles;

03 - "1984" - George Orwell;

04 - "O milagre de Espinosa" - Frédéric Lenoir;

05 - "O ventre" - Carlos Heitor Cony;

06 - "A metamorfose" - Franz Kafka;

07 - "Fascismo à brasileira" - Pedro Doria;

08 - "Lula - uma biografia - vol. 1 - Fernando Morais;

09 - "Capitães de Areia" - Jorge Amado;

10 - "Úrsula" - Maria Firmina dos Reis.

segunda-feira, dezembro 12, 2022

"Capitães de Areia": algumas palavras

            

Jorge Amado é um dos escritores brasileiros que menos li e que mais eu preciso ler. Com este livro sobre o qual escrevo, é a terceira leitura. Sua vasta obra, repleta de paisagens diversas é um importante afresco sobre uma dimensão do Brasil a partir da Bahia. A ideia daqui para frente é visitar uma obra por ano do autor de “Cacau”, “Mar Morto”, “Suor”, entre tantas outras obras que criaram uma espécie de deslumbrante painel sobre o fascinante povo baiano.

O livro da vez foi “Capitães de Areia”, de 1937. Trata-se de um romance, cujo narrador onisciente nos apresenta um grupo de garotos desamparados. Moradores de um trapiche, próximo a uma praia, o bando sobrevive afoitamente, cometendo pequenos furtos e desafiando as autoridades da capital baiana.

O grupo é chefiado por Pedro Bala, um órfão que lidera o grupo formado por uma dezena de meninos abandonados – há um leitor, um malandro que conquista prostitutas; há o beato, o desejoso pelo cangaço; um coxo, alma mais amarga e vingativa do grupo. Na parte dois da obra, aparece a figura de Dora, uma menina órfã de mãe, que fora vitimada pela bexiga. Inicialmente, há uma hostilidade contra ela, mas, depois, ela passa a ser benquista pelo bando. A adolescente passa a exercer o papel arquetípico da mãe que eles não possuem. Ela é o lado terno, feminino, capaz de mudar o ambiente. Dora inicia um romance com o chefe do grupo, consolidando um relacionamento entre aquele que chefiava os garotos – e a única mulher da comunidade –, um tipo de mãe.

Cena do filme "Capitães de Areia", de Cecília Amado

A obra faz parte da chamada 2ª geração modernista. Está inscrita no romance de 30. Reverbera nela uma forte crítica social. Vale mencionar que o chamado Romance de 30, mobilizou escritores para refletir a respeito de um país que passava por enormes mudanças. Logo após o fim da República Velha (1889-1930), o país inicia um outro período com mudanças políticas, econômicas e sociais. O outrora país agrário e refém das oligarquias regionais – vale mencionar os casos de São Paulo e Minas Gerais que, durante a Primeira República, revezavam-se na escolha dos presidentes do país, naquilo que ficou conhecido como a República do Café com Leite – começa a se industrializar. Novos atores políticos
emergem. O eixo do poder se consolida no Centro-Sul. Getúlio Vargas passará a ser o principal nome da política nacional nos próximos vinte anos.

Mesmo em face dessas transformações, nota-se o quanto o Brasil continuava atrasado em relação às grandes economias capitalistas. Jorge Amado, um baiano, filho de uma tradicional família do estado, entra no debate político, que demonstra de forma realista as chagas sociais de um país que precisa superar os seus problemas; iniciar um novo ciclo; superar os antagonismos.

Amado é o primeiro escritor a dar visibilidade ao papel de jovens adolescentes malandros. Havia um consenso que buscava enquadrar esses jovens como bandidos e marginais desocupados. Isso fica provado em dois momentos do romance: (1) na reportagem que surge no início da obra, trazendo as escusas do diretor do reformatório, defendendo-se das acusações de maus-tratos contra jovens institucionalizados; (2) quando Pedro Bala é apreendido e experimenta a tortura na própria pele numa instituição para menores.

Nota-se, assim, o olhar benevolente e generoso de Amado para a condição desses jovens. Sua tese era a de que garotos eram obrigados a praticar pequenas infrações pelo fato de não possuírem uma estrutura familiar favorável e o Estado não assumir o seu devido papel ante tão grande calamidade. Durante o Estado Novo, período conhecido como a Ditadura de Vargas (1937-1946), mais de 800 exemplares da obra foram queimados em praça pública. Observa-se que a mensagem da obra atingiu em cheio o poder oficial. Aqueles que controlavam o Estado entenderam a poderosa crítica escrita por Jorge Amado.

Jorge Amado


O escritor procura humanizar os garotos desumanizados por suas histórias de vida. Um exemplo é a personagem Sem-Perna. Após ter se inserido em uma família com o objetivo determinado de roubar, fica balançado entre a opção de cumprir as demandas do grupo e ceder aos afetos recebidos pela família que o acolheu. Nota-se, assim, que a principal carência dos meninos era de aceitação e afeto. Para que aquele bando de malandros juvenis pudesse abandonar aquele ciclo de contravenções, era necessário que tivessem algumas de suas carências preenchidas. Apesar da brutalização, da vida clandestina, há a clara tese de que o afeto, a necessidade de um lar, de uma vida segura e com as necessidades primárias atendidas, é um imperativo para todas as pessoas.

O livro possui uma mensagem atemporal. Passados mais de 80 anos da escrita, o país avançou em algumas questões, mas não entendeu a necessidade de proteger integralmente os direitos de crianças e adolescentes. Ainda vigora uma noção punitivista a respeito dos jovens que cometem ilícitos; uma defesa intransigente por certa porção da população brasileira que desconhece a realidade de milhões de brasileiros e brasileiras pobres que vivem nas periferias do país. O combate que evita o cometimento desses atos não é a repressão, mas a existência de políticas públicas que garantam os direitos sociais às famílias mais pobres. Certamente, foi essa a mensagem que atravessa o tempo deixada por Jorge Amado.

terça-feira, novembro 23, 2021

"Marafa", de Marques Rebelo

 

       

                Marafa designa, de acordo com certo dicionário, “vida libertina”, “devassa”; dessa forma, aponta para certo modo de ser. É uma palavra de origem africana. Dizer aquilo é uma marafa significa, entre outras coisas, afirmar que algo é libertino, imoral, obsceno, carnal.

            Pois justamente esse é o nome que o escritor modernista Marques Rebelo deu ao seu primeiro romance, escrito no agitado ano de 1935. Rebelo pertence àquela geração de escritores que tomaram de assalto a literatura brasileira na segunda geração modernista. Seu nome de nascimento Eddy Dias da Cruz. Como se pode ver, Rebelo é um nome artístico. Carioca de nascimento, Rebelo chegou a ingressar na Academia Brasileira de Letras – 1965 a 1973. Ainda muito cedo mudou para Barbacena em Minas Gerais. Foi nessa localidade que realizou as primeiras leituras.

            De volta ao Rio de janeiro, Rebelo ainda adolescente toma conhecimento da literatura de Machado de Assis e Manuel Antônio de Almeida, dois dos nomes que marcariam o seu estilo definitivamente. Excursiona pela medicina e pelo direito, formando-se neste último. Como era comum entre os intelectuais da época, exerce o jornalismo.

            O que deve ser afirmado sobre o escritor nessa breve e magra apresentação é que Rebelo apesar de ter conhecido os grandes nomes da literatura da época – Cyro dos Anjos, Carlos Drummond de Andrade, José Lins do Rego, Jorge Amado – não se fiou pelas inovações advindas da Semana de Arte de 1922. O escritor é um continuador da tradição legada por Machado de Assis. Seu texto guia-se pelo estilo claro, musical. Dir-se-ia de que se trata de uma fusão de Machado de Assis com Lima Barreto – Machado pelo estilo; Lima pelos temas que emanam dos seus textos muito bem escritos.

            Rebelo procura os motivos de sua literatura nos subúrbios. Na vida marginalizada. Junto àquelas que fazem acrobacias para conseguir um lugar ao sol. Rebelo escreve uma crônica da vida que surge da mixórdia de eventos da vida pequeno-burguesa. Insere-se nos becos. Na vida malandra dos personagens que se utilizam de estratagemas, da confusão, da malandragem, da esperteza, do rústico. Em Marafa encontramos uma fauna diversa no meio da polifonia do caos da metrópole. Essa passagem do livro é expressiva por ilustrar a obra, fornecer um rico panorama a respeito da obra e da literatura do próprio Rebelo: "Mendigos estendem as mãos imundas, mostrando chagas, andrajos e deformidades. Mendigas dão maminhas mirradas a esqueletos de crianças. Inválidos, cegos, aleijados, portadores de elefantíase, suspeitas caras de leprosos, há mendigos nas esquinas, nas soleiras, no portão dos cemitérios, nos degraus das igrejas, à porta dos restaurantes, dormindo no sopé das estátuas e nos bancos das praças. Há tantos mendigos e falsos mendigos como há pardais. E há a Comissão de Turismo, convidando o mundo, com maus cartazes, para conhecer as belezas naturais da capital maravilhosa."

            O carioca é um dos grandes escritores brasileiros responsáveis pela análise afiada da vida urbana e de suas contradições, sua monotonia, sua tristeza, seu desejo de acerto, sua tragédia. As personagens são metáforas andantes de uma vida que não se resigna com as condições opressoras das estruturas sociais; são sujeitos que se esgueiram agilmente nas sombras do andar de baixo da escadaria da sociedade de classes. É isso que testemunhamos em Marafa.

            A história possui dois personagens nucleares – José e Teixeirinha. O primeiro é um disciplinado rapaz, dono de uma personalidade que procura sempre acertar. Trabalhador. Cioso por fazer as coisas de maneira correta. Um excelente filho. Apaixonado. Desejoso de casar. Formar uma família. Já o segundo é o modelo do malandro. Vive de pequenos golpes. Acumula passagens pela polícia. Explora prostitutas. Vive nas sombras, esgueirando-se de credores.

            Como não poderia deixar de ser, esses seres ambivalentes acabam se cruzando, o que acaba perpetrando a tragédia. Há ainda outros personagens no livro, que funcionam como satélites. Um desses casos é o irmão de José, um estudante de medicina com uma vocação pela ambição. Apaixona-se pela noiva do irmão. Pressiona-a. Comete um aliciamento, capaz de provocar pânico e desespero na moça, que não arregimenta a coragem necessária para contar para o noivo o acontecido.

            Confesso que, inicialmente, comecei a leitura com máxima desconfiança. No início, a história se mostra pouco convidativa. A não convencionalidade do tema provocou um certo estranhamento, mas, aos poucos, somos conduzidos àquele mundo suburbano, repleto de poças de lama; repleto de cheiros acres, de energias soturnas. A literatura de Rebelo possui o gosto da noite. Após o término da leitura, fica a impressão de que atravessamos uma paisagem noturna, repleta de umidade espessa e ela acabou por aderir à nossa pele.

            Mais uma leitura concluída. Vamos ao conflito de Jorge de Lima, pois haverá “A guerra dentro do beco”.

terça-feira, outubro 19, 2021

O Amanuense Belmiro. Algumas impressões

 


O Amanuense Belmiro é um livro singular. Escrito na década de 30 do século XX, o famoso “romance” de Cyro dos Anjos possui elementos  grandiosos bastantes para serem refletidos. Ponho aspas na palavra “romance”, pois denominá-lo dessa forma nos coloca diante de uma inflexão – trata-se de um diário, de um memorial ou de um romance em forma de memorial e diário?   

                Li o livro há duas semanas. A leitura é – talvez, por estratégia do escritor – aparentemente ingênua. Não há uma história mirabolante. Pontua-se, por sua vez, de que não se trata de um livro para iniciantes em literatura. O livro é repleto de sutilezas, o que nos obriga a visitar a obra mais de uma vez. Ou seja, é daqueles livros que devem ser frequentados de tempos em tempos. 

                Primeiramente, deve-se abrir uma nota sobre o autor. Cyro dos Anjos, nascido em Montes Claros, desde muito cedo recebeu uma esmerada, meticulosa educação. Formou-se em Direito. Logo depois, exerceu o jornalismo em diversos meios de comunicação.  Efetivou-se como servidor público até o final da vida. Estabeleceu um trânsito constante entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro. Na Cidade Maravilhosa, costurou amizades com Marques Rebelo, José Lins dos Rego, Carlos Drummond entre outros. Em 1969, ingressou na Academia Brasileira de Letras. Assumiu o lugar do poeta pernambucano Manoel Bandeira.

                O livro de Cyro dos Anjos foi publicado precisamente no ano de 1937. Em se tratando de momento histórico, um livro com as características de O Amanuense Belmiro, parecia deslocado pela força implosiva e irresistível dos romances regionalistas dos escritores nordestinos. Graciliano Ramos, neste ano de 1937, estava finalizando sua grande obra – Vidas Secas – que seria publicado em 1938. Já lançara Caetés (1933), São Bernardo (1934) e Angústia (1936). Este último com feições mais urbanas. José Lins do Rego, o criador do Ciclo da cana-de-açúcar, desvelara um nordeste profundo, singular; escancara a opulência e a decadência dos grandes engenhos, responsáveis pela formação sócio-econômica do Nordeste. Guiado pelas teses de Gilberto Freyre, o escritor paraibano descreveu de maneira febril – sem concessões – a força de um mundo que já não existia, mas que deveria ser notado pelos impactos deixados na sociabilidade do país. Em 1937, José Lins já havia escrito os cinco romances do Ciclo – Menino de Engenho (1932), Doidinho (1933), Banguê (1934), O moleque Ricardo (1935) e Usina (1937).  Vale mencionar nomes como os de Jorge Amado, Raquel de Queiroz, José Américo de Almeida, entre outros.

                Ao escrever O Amanuense, Cyro parecia ignorar essa pujança realista dos escritores nordestinos. Sua hipótese era urbanista. Pequeno burguesa. Belmiro Borba, a personagem principal da obra é uma figura sem brilho, um sujeito que não faz nada para ser grandioso, mas é atraente e simpático como um personagem de Charles Chaplin. 

Cyro dos Anjos, em 1992

                Sua vida é banal. O emprego em que se ocupa é resultado de uma sinecura. É um burocrata insípido. Mete-se na massa. Não faz nada de opulento. Mostra-se patético. Todavia, existe algo de heroico em Belmiro Borba. O livro nesse sentido, ganha proporções machadianas. Cyro insere pinceladas tortas, repletas de um lirismo irônico; de tiradas finas; de esquemas sutis, capazes de provocar belas risadas.

                Belmiro, o herói torto do livro, apaixona-se por Carmélia. Todavia, a personagem é apenas uma visão contemplativa do seu platonismo infecundo. Carmélia Miranda não passa de uma imagem vaporosa. Ele não consuma suas intenções. Viaja para o Rio de Janeiro a fim de vê-la partir para a Europa em lua de mel. Admira-a à distância. Certo dia, enquanto caminha como um transeunte desenxabido e anônimo pelas ruas de Belo Horizonte, um automóvel joga água após ter passado por uma poça, deixando-o ensopado. A imagem é patética. O casal que se encontra dentro do carro, vendo a imagem arremata uma desbragada risada. Ele reconhece Carmélia no banco do passageiro.

Tudo parece bastante simples, modesto em O Amanuense, mas essa é justamente a estratégia do escritor. O que vemos como simplicidade é, na verdade, uma estratégia metalinguística. Ele escreve um diário ou um memorial? Memorial é aquilo que aponta para um passado repleto de suave nostalgia. Há um aspecto mais ontologicamente preciso. Busca-se retratar fatos que possuem um painel esquemático, linear. A função das memórias é trazer à tona o passado, que deseja se tornar presente. Por sua vez, o diário é um elemento arredio e errante em sua forma. Possui uma estrutura fragmentária. Não se prende a um esquema. Belmiro pretende escrever um memorial, mas, de forma intencional, acaba se perdendo. Migra para o diário. A narrativa deixa o passado e se fixa no presente. Ele põe no papel fatos que encobrem o período de pouco mais de um ano – do Natal de 1935, até o Carnaval de 1937.

O imobilismo de Belmiro e seu caráter cético, niilista, torna a história repleta de camadas de ironia. O Amanuense Belmiro é um livro singular, pois demonstra as possibilidades da literatura. Coloca-nos diante um esquema que, na verdade, tem a intenção de enganar o leitor. Belmiro apresenta-se como um descritor de eventos, mas, no fundo, descobrimos que ele está pregando uma peça no leitor. Sua estratégia é de empulhação, pois não entrega aquilo que promete. É ele mesmo o abismo; sua vida é um esquema caótico. Sua vida possui o ritmo da melancolia; seu modo de escrever, o encontro com o fragmentário. Excelente livro.