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quinta-feira, outubro 15, 2020

Um mosaico de lembranças nesse dia dos professores

 

Dou aula há dez anos. Há quem fique dez, vinte, trinta ou mais anos nessa profissão. Não pretendo ficar por tanto tempo. A profissão docente é repleta de sabores múltiplos. Há aqueles doces, de uma pureza sofisticada; mas, há aqueles que divergem da doçura por serem azedos ao extremo. Pretendo falar um pouquinho da minha relação com alguns professores inesquecíveis.

Ao longo de minha jornada como estudante, eu tive a oportunidade de encontrar com professores e professoras para as quais eu pagaria um valor altíssimo para ter a oportunidade de ficar mais próximo; de passar uma tarde a conversar com eles. Admirava-os (e os admiro ainda hoje, embora o tempo insista em criar camadas de afastamentos). Tenho o costume de reverenciar, de nutrir grande respeito por pessoas admiráveis. E muitos professores com os quais eu cruzei ao longo de minha jornada como estudante, inseriram-se nessa categoria.

                 Nos anos iniciais, recordo-me da Marli, da Geovanete, da Suely, da Soraia - por quem me apaixonei na 2ª série). As paixões fazem parte dessa fase. Ela era professora de artes. Encontrava-me com ela uma vez por semana, às terças-feiras. Era pouco. Durante as aulas, ficava embevecido. Seus longos cabelos pretos. Sua voz melodiosa. Seus trejeitos tão singulares. Os ademanes da caminhada. Ainda posso vê-la. Ia para casa de ônibus. Um certo dia, resolvi verificar onde ela morava. Peguei o mesmo ônibus em que ela estava. Passei por baixo da catraca. Aboletei-me na última cadeira da condução. Ela ficou à frente, próxima ao cobrador. Certamente, ela me viu. Ignorou-me. Não disse nada.

                O ônibus seguiu a sua viagem. Ao chegar ao Centro de Taguatinga (Região Administrativa do DF), vi que ela se levantou. Passou por mim; nem olhou. Desceu do ônibus. Misturou-se à aglomeração de transeuntes. Sumiu no rio de pessoas como uma flor delicada que é empurrada pela correnteza. Fiquei distante a olhar. Voltei para casa após esse episódio arqueológico e nem consigo divisar o que pensava. Ao encontrá-la na escola em um dia qualquer, ela disse: “Oi! Carlos!”. Fiquei sem palavras, inexpressivo, como é comum à minha pessoa em inteirações sociais.

                Ao chegar à antiga quinta série, encontrei uma fauna docente bastante diversa. Havia professores que ensinavam bem; outros, nem tanto. Recordo-me de um professor de ciências cujo tom histriônico ficou impresso em minha memória. Suas aulas eram divertidíssimas. Ele se vestia sempre com roupas sociais – camisa social, calça social, sapato social. Parecia um corretor de imóveis com a sua valise escura. Fisicamente era magro e baixo; usava óculos. Fazia lembrar o político Éneas pela calvície.  Sua letra era milimetricamente desenhada. Seus esquemas coloridos feitos no quadro, beiravam à perfeição. Da minha cadeira, eu prestava atenção. Ele começava a falar de moléculas; de processos químicos; de transformações gasosas. De repente, fazia uma careta. Simulava gestos teatrais. Saía da sala. Ficávamos rindo. Algum tempo depois, voltava como se nada tivesse acontecido e nos empurrava para frente em sua jocosa viagem científica.

                Nessa mesma escola, havia uma professora cuja fama era das mais atrozes. Os alunos tinham medo dela. Ouvia a fama dela; punha a imaginação para funcionar. Ela parecia se alimentar dessa horrenda ressonância social. Na sexta série, tive o infortúnio de cruzar com ela. Era professora de ensino religioso. Quando a vi pela primeira vez, observei-a. Sua fama consolidou-se numa determinada aula. A sala não parecia um espaço de aprendizagem sobre as coisas divinas. Estava mais para um tribunal da inquisição. Não havia liberdade para falar. Todos alunos ficavam tensos. Perfilados marcialmente, reduzíamo-nos.  Apequenávamo-nos.  Transformávamo-nos em coisinhas insignificantes. Um olhar dela, congelava a alma. Parecia possuir um chicote de fogo nas mãos. Era magra. Um cocó no alto da cabeça. Usava uma dentadura amarelecida pelo tempo. Não sei se era tabagista. Quando falava, tinha a impressão de que a prótese dentária dançava em sua boca magra e babosa.

                Um colega olhou para o lado. Ela saiu do seu lugar, movimentou-se célere. Disse, olhando para o infeliz, que se comprimia na cadeira: “Por que você não põe uma melancia na cabeça!” “Está querendo aparecer?” Essas frases foram proferidas de uma maneira torrencial. Havia tempestades em seus olhos. Uma camada metálica em sua voz. Reduzi-me em minha cadeira. Sua pedagogia era a do pavor, do medo. Ela ficou como exemplo negativo daquilo que um professor não deve ser. Não sei aonde ela está. Aposentou-se?

                Seu filho estudava na mesma escola em que eu estudava. Vestia roupas compridas em pleno calor. Usava óculos. Ficava pelos cantos a ler a Constituição de 88. Olhava para ele. Tentava decifrá-lo. Ele era um para-raios; certamente, as borrascas inflamadas de sua mãe caíam sobre o seu corpo pequeno e mofino. Sua mãe era professora de religião. Mas era uma religião draconiana. Não a de Cristo.

                No ensino médio, encontrei outras figuras exóticas, singulares. Havia um professor de literatura que me fazia pensar nos textos de Nelson Rodrigues. Um toque de sátiro pulava de suas falas em certos momentos. Tratava-se de figura bastante cômica. Agradável. Era poeta. Tinha livro lançado. Membro da Academia Taguatinguense de Letras, fato que insistentemente surgia em conversas. Às segundas-feiras, nos dois primeiros horários, com certa recorrência, chegava atrasado. Quando estava do lado de fora da sala, via sua imagem aportar no corredor; deslocar-se com passos ligeiros, mas solenes. Uma parte do corpo franzino meio pensa. Cabelos penteados de lado. Óculos de grau. Uma mão no bolso e outra a segurar a valise. Caminhava de cabeça baixa. Parecia pedir desculpas com aquele gesto.

                Observava os seus olhos ainda inchados, da noite mal dormida, de quem saíra de casa atrasado. Quando se aproximava, notava o seu bafo etílico. Imaginava a pândega em que se metera ao longo do final de semana. Dizia possuir uma grande biblioteca. Ficava a imaginar. Vi nele a primeira figura de um grande erudito. Se isso não se confirmou ao longo das aulas, pelo menos a impressão não esmorecia.

                Poderia citar outras personalidades. Outros nomes dessas magnânimas figuras. Houve inúmeras com as quais cruzei. Todas dignas. Todas justas. Todas humanas. Como dizia a poetisa goiana Cora Coralina: “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. Acredito que tenha recebido um pouco de cada um deles, porque a prática os ajudou a aprender aquilo que ensinavam. Sendo professor, acredito que tenha me assenhoreado de um pouquinho de cada um deles, enquanto vou aprendendo a aprender aquilo que ensino.

terça-feira, agosto 13, 2019

40 anos

"Parece que foi ontem; parece que chovia". 

Acordar com quarenta anos e ter uma leve sensação de que nada mudou. Os dias com a sua poeira macia de acontecimentos, continuam a trazer a rotina. Olho-me no espelho e noto uma escrita vívida, às vezes, torta em cada extensão do pergaminho da minha face.  As coisas parecem estar todas conservadas em seus lugares. Nada é novo - apesar da aparente feição de novidade. 

Há quarenta anos, conta a minha mãe e a história, que eu nasci. Aportei no mundo. Nasci em um casebre. Uma joça feita de barro. Mal dimensionada. Improvisada como são as coisas feitas pela escassez e pela necessidade. Não havia enxovais. Minha mãe era uma jovem de 19 anos. Inexperiente. Humilde. Amedrontada pela novidade que a colocava numa posição vulnerável. Havia falta de empatia por parte de alguns familiares. Incompreensão. Fui agasalhado nas modestas fronhas de que dispunha. Nasci às 11h15min. de uma quinta-feira.

Quarenta anos se passaram a passos largos. Caminho para adiante, mas, vez ou outra, volto o meu olhar para trás. Percebo paisagens variadas. Elas chegam como "flashes"; ou como a explosão leve de fogos de artifício numa noite escura. Vejo a silhueta de eventos. Alguns, consigo identificar. Pareço olhar pela janela, atento a uma liturgia solene e imprevisível. O que virá pela frente?

Cheguei a um ponto delicado, repleto de significados. O tempo corre.  Tento segurá-lo. Ele está sempre um passo à minha frente. Resigno-me. Aprendo que o tempo esculpe o próximo minuto em silêncio; sem alardes; sem tagarelice. Quando dou por mim, a vida está pronta para atestar a sua obra. Aceitamos a marcha incontinenti das horas. Já não há tempo para perder tempo. Os próximo lances devem ser estudados. Quarenta anos se passaram tão rapidamente que parece que não deu tempo de trocar de roupa. 

Ainda tenho coisas para realizar. Como dizia Raul Seixas: "Eu que não me sento, no meu apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar". Na corda tênue de cada manhã, equilibro-me para não cair. Dou gargalhadas dos meus desatinos. Impaciento-me com a ignorância alheia. Às vezes, sou sério. Há certas variações que são inevitáveis. Acontecem como leis capitais. Mas esta é a minha maneira de ser. 

domingo, dezembro 04, 2016

8 1/2 de Fellini, algumas palavras

"Você tem razão. O papel não existe. Nem o filme existe".
Guido Anselmi, personagem alter-ego de Fellini em 8 e Meio

 8 e Meio é daqueles filmes marcantes, que se inscrevem definitivamente na memória e no coração de todo admirador do bom cinema. O filme de 1963, prova o gênio de um dos maiores diretores da história, Federico Fellini, autor de uma dezena de obras imortais.  8 e Meio assume uma característica essencialmente metalinguística por falar da dificuldade criativa do próprio Fellini. Aponta para o bloqueio de ideias que artistas e intelectuais, como mortais que são, enfrentam. Imagine você ser contratado para escrever uma peça ou um livro e visualizar tudo sendo preparado, mas sua mente está completamente nua? Não há ideias. As pessoas questionam quais papéis assumirão. Quais falas verbalizarão. Todavia, não há papéis, nem ideias, nem fluxo criativo. Tudo se mostra intransigentemente nulo.

Além do aspecto apontado acima, o filme é divertidíssimo, sabendo dosar muito bem o drama com o humor. Um exemplo é a cena em que Anselmi (Marcello Mastroianni), na parte final do filme, tenta se esconder embaixo da mesa, para fugir do questionamento dos jornalistas e assessores sobre a existência do trabalho. O filme mescla a realidade com os devaneios oníricos de Anselmi. Mas, no fundo, é Fellini que está ali, trazendo à tona toda uma memorialística - os fantasmas da infância, as várias mulheres que teve, a religião, os dilemas angustiantes de uma existência. E, quando ele faz isso, parece falar também com o espectador.

A cena que encerra o filme é de pura genialidade. Sob uma marchinha circense de Nino Rota, Anselmi conduz a gravação do seu (finalmente) filme. E tudo parece terminar numa grande ciranda. Ou seja, as pontas do inconciliável se encontram. As intrigas são desfeitas. E todos dançam e celebram. Até mesmo Anselmi entra na roda celebrante. Uma criança toca um instrumento de sopro (uma referência à infância do diretor?) e é seguida por outros músicos. Todos os outros músicos se retiram. Fica somente a criança, sendo iluminada por um facho de luz. Tal cena talvez aponte para a necessidade de simplicidade, algo tão distantes dos intelectuais. Na vida, é a pureza e a inocência que prevalecem.

8 e Meio é obra imorredoura. Precisa ser vista mais de uma vez. Possui detalhes sutis que devem ser absorvidos com uma paciência ruminante. Gênios como Fellini sabiam transformar até a dificuldade para fecundar a arte, em obra de arte. 


sábado, julho 19, 2014

Rubem Alves e o meu aprendizado a respeito do tempo e da vida

  "Poesia é uma qualidade do olhar"/ "O mundo para mim é um instrumento cósmico onde dormem as mais belas melodias". - Rubem Alves

O tempo como agente

Diz Agostinho que "o tempo produz efeitos admiráveis dentro de nós". O tempo possui um cinzel invisível que vai nos esculpindo tanto física quanto espiritualmente. Recordo-me das frases iniciais de Erico Veríssimo em Solo de Clarineta, quando ele diz que "as marcas do tempo estavam impressas no pergaminho do seu rosto". Uma metáfora que define os enunciados do tempo escritos em nós. É trivial. É natural. Mas todos morrem. Já perdi tantas pessoas queridas - meu pai, meu avô materno, minha avó paterna, conhecidos, amigos. E cada novo dia, o movimento irrefreável do rio da vida dobra mais uma curva em sua viagem. O tempo é aliado da morte. É seu companheiro. Os dois caminham de mãos dadas como no filme de Ingmar Bergman. A morte aparece para jogar com a sua vítima. Ele tenta enganá-la. Tenta negociar, mas bastou o tempo para fulminá-lo. Quando ele menos esperava, ela apareceu com sua face fria e o tragou.

A morte nos machuca, pois aqueles a quem ela faz de vítima, sabemos, nunca mais se verá. É um "sequestro", uma violência abrupta, um laceração nas emoções. Uma cisão, um corte, um passar a esponja na existência de cada um de nós. Quem vai não volta. Quando se morre, tudo termina. A expectativa da morte é a realidade mais trágica para o ser humano. 

Hoje, o tempo trouxe consigo a sua companheira e ceifou a vida de uma das figuras responsáveis por um pouco de minha formação ontológica - Rubem Alves. Fiquei sabendo da morte de Rubem Alves no início da tarde de hoje. Há dias eu acompanhava o sofrimento pelo qual ele passava. Enquanto corria hoje no final da tarde, eu ouvia a End of the Road, de Eddie Vedder, que faz parte da trilha sonora do filme Dentro da Natureza  Selvagem, pensei sobre esse "fim da estrada" a qual todos nós chegaremos, enquanto olhava para as nuvens alaranjadas, com feições sanguinolentas. A aragem fria do início da noite produziu reverberações poderosas. Acabei ficando triste.

O tempo da descoberta

Descobri Rubem Alves nos idos de 2002. Estudava em um seminário. E ao conhecer as suas crônicas, impressionei-me com sua sensibilidade. De repente, passei a procurar para ler tudo que dizia respeito a ele. Contudo, percebia que quando falava de Rubem Alves, alguns dos meus colegas seminaristas me encaravam com certa desconfiança. Afinal, entendi o porquê de tanto medo dos meus colegas. Rubem havia sido um seminarista, assim como eu o era; chegou a ser pastor, mas sua liberdade de pensamento e sua forma de "caminhar" acabaram por criar problemas. Em plena Ditadura Militar, a Igreja Presbiteriana do Brasil o denunciou ao serviço de repressão do Regime. Se ele ficasse por aqui, certamente seria preso, torturado e teria um destino incerto. Enfim viajou para os Estados Unidos e lá fez mestrado e doutorado, contribuindo proficuamente para lançar as bases daquilo que se tornou conhecido como Teologia da Libertação. Sua Teologia da Esperança é o embrião que deu feições ao movimento que teria nomes como o peruano Gustavo Gutierrez e o brasileiro Leonardo Boff como ícones. 

O pensamento teológico de Rubem Alves, de certa forma, acabou por me influenciar. Desvinculei-me do dogmatismo da fé quando li Protestantimo e Repressão e Dogmatismo e Tolerância. Estes, acredito, são livros que me marcaram e que inscreveram em mim o discernimento filosófico e estético que tenho sobre a espiritualidade; me tiraram o"cabresto religioso" que estava em meu pescoço e me fazia olhar somente para o chão. Quando li Rubem Alves, pude olhar para o céu e me maravilhar com as cintilações de um azul que nunca enxergara. Os dois livros estão guardados carinhosamente em minha biblioteca e, de vez em quando, pego-os, admiro-os, folhe-os e termino tudo com um grande sorriso.

Passei a perceber que em Rubem Alves se torna fato aquela frase dele: "As palavras têm o poder de fazer acordar os desejos adormecidos dentro do corpo". É como se o corpo fosse uma lápide, um jazigo, onde estão congelados os rios simbólicos. As palavras são sóis capazes para dar vida a esse mundo inóspito. São elas, tão próprias do mundo humano, elementos capazes de fazer morar em nós a faculdade da alegria. A palavra é capaz de fazer ressuscitar o corpo. Ela é a eucaristia vivificadora. O corpo é uma realidade biológica, orgânica, mas o que nos torna humanos é a capacidade de criação dos símbolos. Criamos, pois isso é inerente aos seres humanos. Portanto, esse corpo é o espaço gerador de novas ideias, da capacidade de apreensão do mundo. Ou seja, tudo mora no corpo. A vida e a morte. Os abismos e as montanhas. Os jardins e os pântanos. O céu e o inferno. Os dias e as noites. E para subverter a logicidade da matéria, é necessário treinar o olhar. Rubem costumava repetir uma frase do poeta inglês William Blake: "O tolo ao ver uma árvore, enxerga somente uma árvore; o sábio, por sua vez, ao ver uma árvore, enxerga uma poesia". 

Após entender que existe um jogo simbólico por traz das coisas, transformei isso em uma realidade para os meus devaneios teológicos e espirituais. Rubem costumava apontar para o ritual cristão da santa ceia, dizendo que ali estava "o símbolo de uma ausência" - o pão e o vinho. Observem como ele conseguia fazer poesia com as mínimas coisas. E que o mundo estava repleto de metáforas. "E toda metáfora é um salto sobre o abismo". É esse jogo com a palavra que torna o universo de Rubem Alves tão encantador. Flertar com o seu pensamento é passar a viver com os arco-íris, com os arrebóis mais encarnados, com os jardins mais coloridos, com a sensação de que estamos saboreando as carnes delicadas de um caqui.

O pensamento de Rubem Alves se funde com um dos seus mestres - Nietzsche. Diz o alemão: "Estou convencido de que a arte representa a tarefa realmente metafísica do homem... A existência do muno só se justifica como um fenômeno estético". Acredito que estas palavras definam o que foi e como deve ser compreendido Rubem Alves.

O tempo do real (tempus fugit)

Ao saber da notícia nefanda, fez-se uma noite escura dentro de mim. Fiquei com um mal-estar horrível. É como se eu tivesse perdido alguém muito querido e que vivia comigo todos os dias. Fiquei triste por saber que não teremos textos inéditos; as palestras sempre encantadoras; as palavras embriagadas pelo cheiro de capim gordura, pelos ipês floridos, pelo barulho dos carros de boi, dos mistérios da terra de Riobaldo - Minas Gerais. Rubem nunca se afastou completamente de suas origens. Apesar de viver boa parte de sua vida em Campinas, interior de São Paulo, trazia em sua alma as aprendizagens iniciadas em Boa Esperança-MG - sua cidade natal. É como aquele poema ontológico de Carlos Drummond de Andrade, Confidência do itabirano.

Seu corpo, onde morou tantas poesias, será cremado e possivelmente as cinzas serão atirados ao vento, para que possam polinizar as flores a fim de que elas se tornem mais belas; para que as pintagueiras surjam mais vermelhas e atraentes; para que os flamboyants e ipês surjam como cabeleiras inflamadas a produzir beleza; para que os jardins sejam fecundados e possam se fortalecer. 

Em um país e em um tempo como o nosso, perder Rubem Alves é algo de muita seriedade. Mas ficarão as suas palavras, que virão como revoadas de pássaros e farão morada em mim, em nós... Marcharão numa procissão em direção ao interior de catedrais secretas. Proferirão discursos, declamarão poesias e atestarão com um verso de Manuel de Barros - repetido tantas vezes por ele: "É mais presença em mim aquilo que me falta". 

Obrigado, Rubem! Se eu não tivesse encontrado os seus textos, talvez eu não fosse aquilo que sou. O rio continua a correr e suas águas são sempre novas. Olhemos para as árvores e encontremos poemas.

quarta-feira, dezembro 21, 2011

Anticristo, de Lars von Trier

Na última segunda-feira, fui à locadora aqui perto de casa e loquei Anticristo de Lars von Trier. Relutei ao máximo em vê-lo. Adiei o quanto pude a tarefa de assistir à película. Não gosto de filmes de terror nem de suspense. O estresse proporcionado por aquelas cenas tensas; as surpresas que são maquinalmente feitas para chocar o telespectador para mim são cacetes; a taquicardia, ao meu modo de ver, é desnecessária. Mas o filme de Trier me assediou por dois dias. Até que na manhã de hoje, eu resolvi vê-lo em meu notebook. Quis evitar maiores dissabores. E que surpresa me esperava. Descobri que o filme não é um terror. Poderia classicá-lo como um drama com fortes doses de suspense. Mas há apenas a utilização deste último artíficio para causar os efeitos possíveis, desejados pelo diretor.

O filme proporciona uma experiência tão densa que, após tê-lo visto, tenta-se reorganizar o caos mental, a experiência dorida a qual se enfrentou. De certa forma, ainda estou tentando ordenar os vários elementos, ou seja, cada peça que constitui a obra. Trier prende o telespectador, machuca-o, fere-o com cenas de violência, de uma eroticidade acachapante, de uma uma plasticidade quase que desnecessária. Mas como disse, nada no filme é desnecessário.

A príncipio, a história está colocada entre dois espaços, conectados a um "Prólogo" e um "Epílogo", momentos da mais intensa beleza surgida nos últimos tempos no cinema. O "Prólogo" e o "Epílogo" representam os dois espaços lumisos do filme. No intervalo desses dois espaços, está o escuro, o agonizante, o desespero e a depressão (“Luto", "Dor (Caos Reina)", "Desespero (Genocídio)" e "Os Três Mendigos"). Os cinco minutos iniciais do filme é de uma beleza e pureza enlevantes. O casal, representado pelo extraordinário Willem Dafoe e pela extraordinária Charlotte Gainsbourg, está fazendo sexo no banheiro. Trier busca ser realista. Mostra a genitália dos amantes - o pênis penetrando a vagina - talvez para sugerir o natural, o primitivo, a união profunda do homem e da mulher. As cenas se sucedem em câmera lenta. Tudo em preto e branco. Uma ária de Handel (Lascia Ch’io Pianga, com interpretação da soprano norueguesa Tuva Semmingsen) embala as emoções. A água do chuveiro cai. Fora da casa onde o casal está, a névoa despenca do céu em flocos suaves, como se fosse uma farinha celestial. O pequeno filho do casal sai do berço e ver a mãe e o pai realizando o gesto amoroso. Vira as costas. Faz uma cadeira de apoio e sobe até a janela. Brinca com a neve. E despenca. A queda parece ser uma poesia. Os pais não veem a queda do filho. Uma cena do filme, mais à frente, sugere que a mãe viu o filho caindo. Mas nada no filme de Trier é demasiadamente lógico.

Do evento trágico da morte do filho, desencadea-se o sofrimento para o casal. A mãe se ver aturdida pela dor e pelo desespero. É acometida por distúrbios psicológicos. E aqui começa de fato a viagem bíblica e psicanalítica proporcionada pela obra. Os personagens não possuem nome. Estão presente no filme a força do homem (a inteligência), contra o impulso da mulher (a demência). O marido mostra-se no filme como a energia racional, capaz de pensar os processos, de organizar o caos. É quem conduz, do ponto de vista da psicanálise, o tratamento psicológico da esposa. E é curioso o fato do casal se refugiar no interior de uma cabana chamada Éden, no coração de uma floresta. Éden segundo a Bíblia significa "paraíso" ou "jardim das delícias" e foi o local criado por Deus para que nele morasse e vivesse o primeiro casal humano - Adão e Eva. É somente após a queda, acepção bíblica, que a mulher recebe o nome de Eva. Ou seja, antes da queda ela não possuía nome. Já o homem é considerado "o pai de todos os homens" - Adão, do hebraico "adamar" ou "aquele que foi tirado da terra".

Éden, no filme de Trier, é o lugar da tentativa de cura, da busca pelas lembranças prazerosas e remidoras. Mas é em meio à natureza que os medos e reações mais intempestivas da esposa se voluntarizam. Cena curiosa e instigante é aquela que a esposa escuta um choro de uma criança. Ela procura em toda parte, mas não encontra nenhum personagem para protagonizar aquele vagido. De repente, a câmeta foca a netureza. A imensidão é mostrada. É a pópria natureza que chora. Uma agonia cósmica, metafísica, se insinua. A dor, então, é uma faceta natural do cosmos. Uma frase enunciada pelo marido no início do filme parece corroborar com esta ideia: "O sofrimento não é uma doença. É uma reação saudável e natural".

Na floresta, em meio à natureza, os instintos mais tenebrosos da esposa se avivam. Ela um ser frágil, vai adquirindo uma energia animalesca, pornográfica. Sua ânsia por sexo é um retrato curioso. Numa cena, ela atinge o falo do esposo com um objeto e este, com a dor, acaba desmaiando. E o que se sucede até o final é de uma audácia incrível. Numa cena de demasiada crueza, a esposa mutila o próprio clítoris com uma tesoura e tenta matar o marido. O marido como para se libertar da pulsão de destruição da esposa, acaba por enforcá-la e matá-la. Esse ato representa a liberdade. Ele fica livre da dor, da agonia, do selvagem que habita o feminino.

No "Prólogo", após ter matado a esposa: ele caminha cambaleante. Alimenta-se de frutas silvestres. É a harmonia com a natureza. Enquanto caminha, dezenas de fêmeas vêm ao seu encontro. Sobem o monte. O que seria esse monte? O Gólgota? - lugar da crucificação de Cristo. Mas essas mulheres não possuem rosto. E de repente, a película termina e por dois segundos, num fundo escuro, aparecem os dizeres: "Dedicado a Andrei Tarkovski (1932 a 1986)”. Tarkovski, nascido na antiga Uniãpo Soviética, foi um dos maiores diretores da história.

Lars von Trier tem gerado as mais distintas reações com os seus filmes. Polemista, "arengueiro", como se diz no Nordeste do Brasil, o diretor dimarquês tem arrancado uma beleza descomunal de suas obras. Os filmes de Trier possuem o poder de nos fazer pensar por dias. É daquelas obras que encerram efeitos densos. Deixando de lado maiores polêmicas quanto às suas afirmações sobre posicionamento político ou postura pessoal (o diretor se intitulou como o melhor do mundo e, em outro momento, disse admirar Hitler), Trier é um dos nomes mais importantes da arte cinematográfica da atualidade. Incensado por uns, odiado por outros, o diretor alimenta aquele tipo de sentimento que reside em torno dos grandes artistas.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Jorge Luis Borges e o labirinto da literatura

A literatura é um caminho de possibilidades infinitas. É uma planície que desemboca no mistério sem fim. O livro de Eclesiastes, filho da sabedoria judaica, diz que "não há limites para se escrever livros". O Google estima que existam mais de 3 trilhões de livros em todo mundo. Uma quantidade quase impensável, absurda. Se colocados lado a lado daria para dar voltas e voltas em torno do mundo. As possibilidades desses livros nos inclinam a mentalizar imaginações surreais, próximas daqueles quadros pintados por Salvador Dali.

E Borges, para nos aturdir, escreveu um conto chamado "Biblioteca de Babel" na qual imagina um universo constituído por livros. Ou seja, uma biblioteca do tamanho do universo, com prateleiras que se sucederiam umas as outras. Ao imaginarmos algo assim, bate-nos o senso de completo o entedimento de algo que fere as regras da lógica. O escritor argentino, na verdade, quis apenas construir uma metáfora, uma espécie de brincadeira com as possibilidades infinitas do texto ou com a possibilidade de criar; ou ainda uma metalinguagem com conhecimentos acumulados pela humanidade até os dias de hoje. O que nos assusta perante este fato é o noção de pequenez diante de estruturas invisíveis. O conhecimento que podemos apreender é finito. E as areias do tempo escorrem de maneira quase que infinitas em nossa percepção finita. Não poderemos ler todos os livros do mundo. Há uma limitação. O bibliófilo José Mindlin morto no ano de 2010, afirmou ter lido em toda a sua vida, algo em tono dos 8 mil títulos. Incrível. Pensando nisso, inquita-nos saber que as bibliotecas estão repletas de trilhas infinitas.

Mas o fato é que Borges é um escritor instigante. Seu texto é uma costura com outros textos falando do seu próprio texto - ou de outros textos. Terminei de ler O Livro de Areia, escrito em 1975. E torna-se curioso como ele brinca com a possibilidade do duplo. Seu texto é uma rede labiríntica, no qual nos perdemos em sensações e em tentativas de definições, de conclusões. Cada conto do livro é um quadro com linhas infinitas que constroem um tecido infinito. A erudição de Borges beira o absurdo. Seu estilo parece incorporar - fica-nos a sensação de paradoxo - de que ele abarcou quase que todos os conhecimentos possíveis. Suas citações, referências, construção de personagem são um passeio pela história - e as areias escorrem numa espécie de ampulheta invisível. Os personagens fictícios possuem uma verossimilhança absurdo com o real como no conto Avelino Arredondo, um dos mais instigantes do livro.

Fiquei pensando no arranjo do livro. O primeiro conto é O outro, conto este que tem sido alvo de teses e artigos acadêmicos. Borges brinca com o leitor. Existe um duplo aturde. Ao final, saímos da experiência nos perguntando: "terá isso sido verdade? É Fantástico!" Mas, o último conto do livro chama-se O Livro de Areia. Neste conto, logo no início achamos a afirmação: "A linha consta de um número infinito de pontos; o plano, de um número infinito de linhas; o volume, de um número infinito de linhas; o volume, de um número infinito de planos; o hipervolume, de um número infinito de volumes...."

Borges parece escrever uma metalinguagem de sua própria obra, uma espécie de autotexto. Ou em outra abordagem, o escritor argentino parece construir uma metáfora do próprio caráter instável da literatura, pois não sabemos de onde vem esse livro de areia. Essa imagem apenas realça a ideia de labirintos infinitos nos quais nos perdemos neles. Os caminhos nunca são planos ou retos em Borges. Eles sempre nos conduzem para encruzilhadas, para planos justapostos. O espaço da ficção e da realidade é separado por uma película fina, tênue, quase transparente.

Procurarei outro livro de Borges - Ficções - para ler. Por enquanto, ficarei com aquelas cenas pintadas com um realismo mágico; uma ficção poderosa que nos insere num plano de imagens densamente fortes. Em Borges, não sabemos se estamos conhecendo personagens fictícias ou memórias reais.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Contra a Leitura

Tomei a liberdade de postar o texto abaixo - e que delícia de texto! Repleto de ironias, subtilezas e delicadezas finas. Dignas dos grandes textos. Um verdadeiro manual àquele que precisa - e deve - aprender a ler. Texto que exorciza a doença terrível do pedantismo. Do enfatuamento. Que nos ensina termos o direito de ler não ler. Ler é liberdade. A citação da frase conhecida de Schopenhauer me fez rir: "Há indivíduos que leram tanto que ficaram idiotas".

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Por José Ribamar Bessa Freire

– “Não se ofenda, professor, mas eu quero saber se o senhor bebeu, hoje, antes de vir para a universidade?”. A pergunta me foi feita dentro da sala, por uma aluna, chamada Luíza, depois que eu anunciei, convicto, o tema da aula: uma reflexão CONTRA a leitura. Perplexa, Luíza confessou sua profunda decepção. Afinal, a gente havia se conhecido anos antes, numa biblioteca comunitária criada pelo pedreiro Evando dos Santos, na garagem da casa dele, Vila da Penha, no Rio, durante um concurso de poesia no qual ela fora premiada. A partir de então, militamos juntos em prol do livro, participando de vários eventos. Por isso, achou que, agora, eu devia estar de porre.

Apresento aqui um resumo da aula que dei, para que os quatro fiéis leitores dessa coluna possam avaliar também meu estado etílico, já que eles podem ficar incomodados com a crítica à leitura, pois todos os domingos a exercitam aqui nesse espaço. Dessa forma, espero também provocar os participantes do Festival Literário Internacional da Floresta – o Flifloresta – cuja abertura ocorre amanhã, em Manaus. Um dos seus objetivos é justamente o de formar novos leitores. Para ler o quê? Como?

A paixão de ler

O discurso dominante reverencia o livro, como algo sagrado que transporta luz e saber. Por isso, quem defende a não-leitura é considerado herege ou, no mínimo, bêbado. A leitura é endeusada como o único caminho que conduz ao conhecimento. Quanto mais leitura, mais humanos somos. A ausência de leitura nos brutaliza. Mentira! Puro blá-blá-blá. A História mostra que essa moralização da leitura é falsa. Por inacreditável que pareça, muitos professores, editores e pais de família que proclamam as vantagens da leitura, raramente abrem um livro. Esse discurso é tão escandalosamente hipócrita, que dá vontade de esculhambá-lo, chutando o pau da barraca.

Qual é à crítica que faço ao ato de ler? É que como prática social, a leitura deixou de ser algo livre e prazeroso, para se tornar uma obrigação, que confere status. Virou uma atividade burocrática, cobrada pelo professor na escola, que em vez de estimular a fome, empurra goela abaixo do aluno comida de qualidade duvidosa. Assim, um escritor tão vital para nós como Machado de Assis acaba sendo odiado. A escola alfabetiza, mas raramente desperta o sabor da leitura. Se para aprender a falar os bebês tivessem que ir pra escola – meu Deus do céu! – mais da metade da população seria muda ou gaga.

Vivemos num país de forte tradição oral, que não tem o hábito coletivo da leitura. Aí, de vez em quando, Secretarias de Cultura e outros órgãos não-governamentais tentam compensar as falhas da escola, desenvolvendo, às vezes com boa intenção, campanhas inúteis e dispendiosas para promover a leitura, o que equivale a criar uma repartição pública ou uma empresa destinada a promover, por exemplo, o namoro e o beijo. O namoro precisa de promoção? Não. A gente namora porque é bom. E ponto.

Ler é que nem namorar, só tem sentido se fundamentado na liberdade, na indisciplina, na anarquia, na paixão. Querer domesticar essa paixão significa sua morte. O jornal O Globo tenta incentivar a leitura, através do projeto “Quem lê jornal sabe mais”. Sabe mesmo? Sabe o quê? Essas campanhas servem para estimular o preconceito in-su-por-tá-vel e quase racista desenvolvido por aqueles que sabem ler contra os que vivem fora do mundo do livro e da leitura, tratados como burros e inferiores. Desenvolve ainda um sentimento de culpa nas pessoas por não terem lido determinados livros.

O babaca alfabetizado

Afinal, quem lê sabe mais do que quem não lê? A leitura melhora a gente? Conversa fiada! Ler não faz ninguém melhor. A leitura em si não aperfeiçoa as pessoas, sobretudo as que se acham superiores só porque leram alguns livros. Se fosse verdade, não haveria tanta gente babaca, arrogante, pretensiosa e moralmente podre. George Bush, deputados, juízes, desembargadores, empresários – como o desalgemado Daniel Dantas – fazem parte do mundo da leitura e nem por isso merecem nossa admiração.

A leitura não cura nenhuma doença e pode até agravá-la. Quem é babaca, depois de ler fica ainda mais babaca. O mesmo acontece com os ridículos, os vaidosos, os frívolos, os pedantes, os corruptos, os bestinhas e os bostinhas. Nós somos aquilo que somos, independentemente da leitura. Ler não serve pra nada, é um vício, uma perdição, uma felicidade. O único motivo pelo qual alguém pode se interessar por um livro é a dimensão mágica de seu conteúdo, a perplexidade, o assombro, a fantasia e a interrogação diante dos enigmas do cotidiano da vida que a leitura pode suscitar em nós.

Existem leitores ávidos, cujas virtudes humanísticas são nulas. São ratos de biblioteca, não lêem para viver, vivem para ler. Não namoram, não furunfam, não jogam nem dominó nem conversa fora com amigos. Perderam o sentido da vida. Levam vidinha superficial, cheia de preconceitos, indignidade e irracionalidade. São injustos, egoístas, soberbos e babacóides. Outros, só porque leram cinco, dez ou cem livros, assumem secretarias de cultura e se acham “os in-te-lec-tuais”. Humilham quem não leu os cem livros que eles juram conhecer.

Por outro lado, todos nós conhecemos não-leitores, dignos e justos, que possuem qualidades morais, inteligência e sensibilidade. Sou amigo de um pajé guarani, da aldeia de Biguaçu (SC), que não quis ser alfabetizado, mas é um sábio, conhece tudo do mundo, da natureza e da espécie humana; quando fala, ilumina quem o escuta, como um poderoso farol. Não leu nenhum dos 4 milhões de livros da Biblioteca Nacional, mas é um poço de integridade, de sapiência e de reserva moral. Aliás, nem o maior devorador de livros consegue em toda sua vida ler 0,1% dos livros já editados. É por isso que a chave da leitura está na não-leitura.

A não-leitura

O filósofo alemão Schopenhauer escreveu no século XIX que livro ruim é veneno intelectual, que estraga o espírito. Livros ruins, escritos apenas com o objetivo de gerar dinheiro, além de inúteis, são prejudiciais, porque para ler um livro bom, a condição é não ler o ruim, já que a vida é curta, e o tempo e a energia são escassos. Quem vive para ler, perde a capacidade de pensar por conta própria, como quem sempre anda a cavalo acaba esquecendo como se anda a pé. “Leram até ficar estúpidos” – diz o filósofo, para quem a leitura, sem a não-leitura, paralisa o espírito, da mesma forma que o excesso de alimento ou o alimento inadequado prejudica o corpo. O importante não é comer, mas digerir, não é ler, mas ruminar.

Não abrir livros é sabedoria. A escola, porém, nos ensina a ler, mas não nos ensina a não-ler. No entanto, o segredo da leitura reside ai: na não-leitura, que não é uma atitude passiva, mas ativa. Não é ausência de leitura, mas uma atividade organizadora e seletiva da leitura, para não se deixar afogar ou deformar pelos livros.

Há alguns anos dei um curso para professores indígenas, no coração da floresta. Era final de outubro. Quando cheguei, a maloca estava toda embandeirada para comemorar o dia do professor. Num lugar onde era difícil encontrar papel, as bandeirolas haviam sido confeccionadas com páginas de livros enviados por órgãos governamentais. Eram todos absolutamente inúteis. Pensei, então, que esse havia sido o melhor destino dado àquele veneno letal.

O historiador carioca Marcelo Lemos, meu amigo, cujo sobrenome é uma (in) citação à leitura coletiva, me enviou os dez mandamentos redigidos por Daniel Pennac, contendo os direitos do leitor: 1. O direito de não ler; 2 – O direito de pular páginas; 3 – O direito de não terminar o livro; 4 – o direito de reler; 5 – o direito de ler qualquer coisa, inclusive o que é considerado ruim; 6 – o direito ao bovarismo, doença textualmente transmissível; 7 – O direito de ler em qualquer lugar, inclusive na privada; 8 – O direito de ler uma frase aqui e outra ali; 9 – O direito de ler em voz alta ou em voz baixa; 10 – O direito de calar sobre aquilo que lemos, porque nossas razões para ler são tão estranhas quanto nossas razões para viver e ninguém pode invadir nossa intimidade.

Se você dedicou preciosos minutos à leitura dessa coluna, percebeu que não estou bêbado, mas caio numa contradição. As idéias aqui expostas não existiriam sem a leitura de quatro livros abaixo mencionados. Não menciono, porém, a longa lista dos livros que deixei de ler. Só dois deles: “Presidentes da Academia Amazonense de Letras – 1918 a 2006” (Valer – Manaus, 2006) e “Titulares da Academia. Perfis Acadêmicos” (Manaus – 1997) ambos do mesmo autor, Robério dos Santos Pereira Braga. Como os novos leitores formados pela Flifloresta vão encarar esse tipo de livro?

P.S. – Ah, antes que me esqueça, a Luiza, excelente poeta, além de leitora crítica, depois entendeu que eu, naquele dia, havia bebido apenas os autores abaixo relacionados.

i) Arthur Schpenhauer (1851): Sobre livros e leitura.Tradução de Philippe Humblé e Walter Costa. Florianópolis. Paraula. 1993; ii) Pierre Bayard: Comment parler des livres que l´on n´a pas lus? Paris. Minuit. 2007; iii) Juan Domingo Arguelles: Que leen los que no leen? México. Paidos. 2003; iv) Michèle Petit: Lecturas: del espacio íntimo al espacio público. Mexico. Fondo de Cultura. 2001.


quinta-feira, outubro 13, 2011

A natureza e a sua voz silenciosa

Hoje pela manhã, enquanto caminhava para o trabalho, observei que uma mudança se perpetrou nos canteiros e jardins de Brasília. Uma mudança suave, branda, quase imperceptível, que aos poucos vai tomando conta de tudo - a revolução persistente da natureza. Há alguns dias atrás, Brasília era uma braseiro no Planalto Central do Brasil. As gramíneas estavam ressecadas. O calor era insurportável, asfixiante. Uma emanação morna e sufocante brotava do asfalto quente. A umidade do ar dava à Capital Federal características de um deserto.

As feições se contraíam. Reclamações engrossavam o caldo de descontentamento dos brasilienses. Tudo seco. A paisagem era feia. A vida havia se escondido. As árvores nuas, muniam-se com a estratégia que a evolução havia dado a elas - perder as folhas, como se estivessem dizendo: "É necessário polpar energia e água". Curioso.

Mas bastou que as primeiras chuvas surgissem para que uma transformação silenciosa acontecesse. De repente, o verde sai da alcova, tímido, sonolento, e se insinua gracioso. Isso me faz lembrar de uma frase de Victor Hugo: "É triste pensar que a natureza fala e que o gênero humano não a escuta". Assim, como Victor Hugo, eu acredito que a natureza possua uma voz delicada. É uma voz murmurante, quase inaudível, mas que pode ser percebida se prestarmos atenção. Os desastres ambientais e catástrofes naturais que têm se dado a nível mundial, são o resultado da incapacidade do homem de ouvir a natureza.

Não se trata de um pessimismo, mas penso que o erro fatal do homem será continuar com sua gana predadora, desconsiderando todos os gritos, gestos e avisos da natureza. Mas, enquanto ainda posso caminhar, vejo um parto natural sendo gestado e isso enche os meus olhos de alegria.


domingo, setembro 25, 2011

O homem do futuro e O Cheiro do Ralo – dois filmes em dois dias!

Apesar de andar bastante estafado nestes últimos dias, tive a ventura de assistir a dois filmes nos últimos dois dias. Primeiro, na sexta-feira, assisti à película morna O Homem do Futuro, que tem como protagonista o Wagner Moura. E, ontem, o intrigante O Cheiro do Ralo, que tem como personagem principal - numa atuação absurda de boa - Selton Mello.


(1) O Homem de Futuro - na verdade, a obra do diretor Cláudio Torres me deixou com um misto de sentimentos contraditórios - de aspectos elogiáveis e, outros, críticos. O cinema brasileiro progrediu consideravelmente nos últimos vinte anos. No passado, ia-se ao cinema para se ver a filmes de "sacanagem" e ouvir palavrões. Oscilávamos entre a pornochanchada e o riso nonsense dos filmes de Os Trapalhões; e outros de qualidade inferior. Esse quadro nos levou a ter uma péssima impressão do cinema nacional. O Homem do Futuro é uma obra bem elaborada. Os efeitos especiais não são tacanhos. Nada deixam a dever a Hollywood. A atuação de Wagner Moura é contunden
te. A trama é bem construída. Possui coerência. Possui vários momentos em que se pode dar boas risadas, mas não de piadas baixas, nem rasteiras. O personagem de Wagner Moura (Zero) é construído para gerar empatia com o espectador. Os paradoxos temporais são bem construídos, o que nos leva a constatar a melhora significativa do nosso cinema.


O filme é uma comédia romântica com enxertos de ficção. Enquanto assistia ao filme me lembrei da trilogia De volta para o Futuro, um ícone dos anos oitenta; ou Bill e Ted. Ou seja, da aventura que surge como resultado da teoria científica, do professor maluco e genial que constrói bugigangas capazes de viajar no tempo e mudar aspectos malquistos do passado. E é aí, talvez, que o filme m
ostre o seu lado artificial. Embora a história não seja previsível, eu senti algo quadrado, cheio de arestas, entrando em meu cérebro. Talvez, ainda, essa sensação seja resultado de uma má impressão que tenha adquirido do cinema nacional, algo que está instalado como uma espécie de inconsciente coletivo. Ou seja, de que não temos vocação para fazermos filmes com efeitos especiais; de ficção científica; com um tipo de história que nos leva a um desfecho incomum.


(2) O Cheiro do
Ralo - O filme é baseado no livro homônimo de Lourenço Mutarelli. Assisti ontem à noite e fiquei impressionado com a qualidade. Fiquei me questionando como esse filme ficou à margem, na obscuridade. A qualidade da história é notável. A fotografia de um mundo suburbano, decadente, foi bem arquitetada. Ela faz jus ao papel de Lourenço (Selton Mello), o dono de um armazém, uma espécie de antiquário com vocação para ferro velho. Nesse local, o personagem trava batalhas psicológicas com as pessoas necessitadas que lá vão vender objetos velhos ou usados. A sua condição faz com que o personagem oprima, controle, dite as regras daqueles que vão lá vender os seus objetos. Mas, o curioso é que, no local onde fica a maior parte do filme, Lourenço passa a ser incomodado pelo cheiro do ralo de um banheiro contíguo à sua sala. Aos indivíduos que lá vão vender os seus objetos a baixos preços, Lourencço diz: "Olhe, esse mau cheiro é do ralo. Estou com um problema no banheiro".


O ralo possui uma relação simbólica com a personagem. Em dado momento da obra um dos visitantes anônimos diz: "Não! Esse cheiro é seu!" E aquilo passa a perturbar a personagem. É curioso que a relação da personagem com o ralo passa a assumir contornos existenciais. A vida marginal, pouco expressiva e decadente de Lourenço possui a fragrância do ralo. Com o tempo, ele passa a necessitar do ralo. Passa a cheirar o ralo como se aquilo fosse uma complementação necessária à sua existência. É como se o cheiro nauseabundo saísse de sua personalidade tacanha e conturbada.


A mente da personagem é complexa. Sua compulsão pela bunda de uma garçonete é curiosa. As pessoas que ele julgava controlar, principalmente, uma dependente química esquelética, levam a história a um desfecho curioso, um fim paradoxal. A última palavra que exprimimos para descrever a experiência proporcionada pela obra é: "Caramba! Que merda!"

Por Carlos Antônio M. Albuquerque


domingo, agosto 14, 2011

A beleza eterna que se mostra no efêmero

Escrito há mais de dois anos.

Nasci na zona rural. Isso é o suficiente para me deixar feliz. Acredito que hoje não há mais infâncias como a que tive no estado de Pernambuco. Cresci em meio a histórias e acontecimentos grandiosos. Estes foram responsáveis pela formação da camada existencial mais profunda da minha alma. Corri descalço, brinquei com a terra, nadei em riachos de águas cristalinas; deitei-me em gestos abandonados na gramínea seca a olhar para o céu. Ouvi o som da tempestade titânica nos canaviais impelidos pelo vento poderoso de uma tarde de inverno. Fui como o personagem de O Menino de Engenho, de José Lins do Rêgo. Subi em jaqueiras, mangueiras, ingazeiros, abacateiros e jenipapeiros; impressionei-me com novidades. Há expectativas fabulosas no meu mundo que não foram preenchidas e me levam uma vez ou outra a imaginar os meus dias de infância.Vez ou outra sou surpreendido por visões e acontecimentos daqueles dias.

Esperava com certa ânsia o período de floração das árvores frutíferas. O cheiro que recendia dos laranjais me fascinava. O cheiro das mangueiras floridas, dos ingazeiros, impingiam mistérios. Das mangueiras também. Vivia cercado por uma natureza enunciativa. Todavia, não devo deixar de mencionar que um dos fatos mais singulares era quando se dava a floração do pau d’arco. As matas distantes, que se mostravam ao longe com suas manchas amarelas, roxas e brancas, eram vizinhos amistosos que moravam na amplidão. Via-os longe. Manchas coloridas em meio à vegetação verde das matas. Os pau d’arcos sinalizavam poderes imateriais. A sua floração era acompanhada por toda uma transformação natural. Na época da floração, lagartos, pássaros e insetos tornam-se moradores de suas copas floridas – completamente floridas. Esta árvore é típica da Mata Atlântica. Ela pode ser encontrada na maioria dos estados litorâneos brasileiros.

Sem querer eu estava estabelecendo contato com o ipê, uma das árvores mais belas da vegetação nacional. O ipê é uma árvore simbolicamente poética. A sua floração silenciosa revela um ato superior. As suas flores surgem no inverno. Em Brasília, a floração se dá entre os meses de julho e agosto. Rubem Alves afirma que o surgimento das flores é um ato libidinoso: “As outras árvores fazem o que é normal - abrem-se para o amor na primavera, quando o clima é ameno e o verão está para chegar, com seu calor e chuvas. O ipê faz amor justo quando o inverno chega, e a sua copa florida é uma despudorada e triunfante exaltação do cio”. A vida apressada nos desarticula a percepção. Quando menos atentamos, lá está com toda superioridade a árvore completamente tomada pelas flores. As flores despojam-se rapidamente dos galhos. Passam o ano inteiro incógnitas como árvores normais, de repente se tornam em entes ornados por uma vestimenta nobre – flores amarelas, roxas, brancas, róseas.

Os ipês carregam consigo um enigma. Por que sua beleza é tão efêmera? Dispenso explicações científicas. Quero as poéticas, quero afirmações como a do poeta cearense Patativa do Assaré, que dizia: “Aquela árvore (...) qual rainha do campo, coroada”. As suas flores não duram mais que uma semana. É como se durante todo o ano ela reunisse as suas seivas e num único momento fizesse desabrochar a beleza oculta em sua matéria. É como se a eternidade passeasse pela terra em poucos instantes e nos fizesse enxergar os aspectos celestes embutidos na natureza. Olhar para um ipê florido antecipa a visão da glória etérea que habita na consciência religiosa da humanidade. A verdadeira religião lida necessariamente com o belo. O belo é o que é e isso define a existência. A realidade é bela. Nietzsche afirmava que a decadência do mundo grego iniciou-se no momento em que a realidade passou a ser analisada, investigada, em juízos de valor – bem e mal. O mal a representar as realidades ditas ruins, e, o bem, aqueles acontecimentos entendidos como positivos, a virtude. Daí para frente, passou-se a atribuir mais importância ao feio do que ao belo. O feio parece ter mais poderosos assombrosos sobre a mente dos homens. Os noticiários da televisão transmitem mais notícias ruins do que boas. Os jornalistas sabem que a matéria mais lida ou vista é aquela que fala de catástrofes e calamidades. Notícias boas não produzem tanto efeito.

É um espetáculo observar o ipê em pose majestática. O que dizer? Quais palavras poderiam classificar a sua beleza e postular: “ele é belo porque é assim e assim”? Não existe essa possibilidade. Os ipês são vocacionados para a beleza. Em meio à selva de pedra os indivíduos passam apressados e não se dão conta da sinfonia colorida que desabrochou em ornamentou a paisagem artificial. A única atitude que podemos de fato empreender é parar, observar, refletir e contemplar. Rubem Alves ainda diz que aqueles que param para contemplar a beleza dos ipês podem ser considerados como loucos: “Lembro-me disso todas as manhãs, pois na minha caminhada para o trabalho passo por um ipê rosa florido. A beleza é tão grande que fico ali parado, olhando sua copa contra o céu azul. E imagino que os outros, encerrados em suas pequenas bolhas metálicas rodantes, em busca de um destino, devem imaginar que não funciono bem”.

Para se apropriar da beleza eterna que se mostra no efêmero é necessário silêncio e solidão. É preciso desprender-se do concreto e do asfalto. Trata-se do mesmo ritual sugerido por Gilberto Gil na música “Se eu quiser falar com Deus”. Dizia Gil que era necessário tirar os sapatos, ficar sozinho, entrar no quarto, ficar em silêncio. Para ouvir o belo sugerido nos ipês é preciso esse mesmo ritual. Em nossos dias essa tarefa torna-se cada vez mais complexa. Todavia, os ipês ainda enchem-se para nos advertir que na frugalidade da sua floração, o eterno passeia pela terra nas cores alegres que brotam da beleza natural. Termino com as palavras de Rubem Alves: “Corra o risco de ser considerado louco: vá visitar os ipês. E diga-lhes que eles tornam o seu mundo mais belo. Eles nem o ouvirão e não responderão. Estão muito ocupados com o tempo de amar, que é tão curto. Quem sabe acontecerá com você o que aconteceu com Moisés, e sentirá que ali resplandece a glória divina...”.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: 27 e 29 de agosto de 2008, quarta e sexta-feira.

terça-feira, julho 19, 2011

Ágora – mais um belo filme espanhol

Os espanhóis voltaram a fazer um bom filme - Ágora – do diretor Alejandro Amenábar, tendo como protagonista a bela Rachel Weisz que faz o papel de Hypatias, filósofa neoplatônica do primeiro século depois de Cristo. A ágora para os gregos era o local onde a vida pública propriamente dita acontecia. Nesse sentido, o filme possui uma fotografia incrível. As descrições históricas impressionam. Retrata com fidelidade os fatos atinentes à vida e ao contexto político e social da época em que viveu a bela pensadora.

Os séculos IV e V d.C. foram extraordinariamente conturbados. Uma crença tomava de conta de todos os setores da vida social. O radicalismo da fé chegava a paroxismos nunca vistos. Os cristãos que haviam sido perseguidos, transformados em mártires, reverteram o quadro histórico e conseguiram fazer com que o Estado Romano tolerasse a sua fé. O imperador Teodósio (347-395 d.C) havia se convertido ao cristianismo. A fé que não a cristã não era aceita por aqueles que se diziam discípulos de Jesus Cristo. O culto aos deuses greco-romanos passou ser intolerado. Houve assim a institucionalização do radicalismo.

É nesse contexto tumultuado que vive Hypatias, filha do filósofo Theon, em Alexandria. É professora arguta. Segundo os historiadores, sucedeu o eminente filósofo Plotino, conhecido pelo seu neoplatonismo. É uma jovem sábia, de inteligência inquieta. Quando inquirida certa vez por qual motivo ainda não havia casado, respondeu peremptoriamente: “Estou casada com a verdade da filosofia”. Alexandria ficou mais conhecida na Antiguidade pela bela biblioteca que a cidade abrigava. Para outros, tal biblioteca nunca existiu. Seus aspectos faraônicos, dessa forma, não passam de uma lenda. Mas o fato é que existia em Alexandria uma tradição pelos livros – papiros. Inúmeros papiros são a companhia benquista da jovem pensadora.

Mas aos poucos, os cristãos entram em conflito com os não-cristãos. Os cristãos vão se estabelecendo. Arrostando. Subjugando pela força da espada. A figura de Cirilo de Alexandria, discípulo do bispo Teófilo, é fundamental. Cirilo exala intransigência. Ele é conhecido por fazer triunfar o cabedal temporal da Igreja sobre o espiritual. Se a Igreja Católica é essa potestade histórica, certamente Cirilo contribuiu para isso. Segundo Cirilo, fora da Igreja, a Grande Mãe, não havia salvação. Tal entendimento prevaleceu na história, fazendo da Santa Sé, em dados momentos, um “monstro manco”, capaz de estabelecer, pela sua posição, relações espúrias com o mundo e aquinhoar os homens com castigos e medos infundados. Mais tarde Cirilo foi transformado em doutor da Igreja.

A intemperança e o domínio da força fez com que os cristãos subjugassem Alexandria. Orestes, o prefeito da cidade, amigo da filósofa, acaba sendo vergado à vontade de Cirilo. Trata-se de um belo símbolo – ou seja, da Igreja dobrando o Estado, submetendo o mundo á sua vontade caprichosa. Hypatias fica sozinha. É acusada de ateísmo. Chamam-na de bruxa. Prostituta. Acusam-na com os motivos mais vis. A filósofa mostra-se até fim com total integridade. Não há dolo em suas ações. Age com virtude e com a intuição da verdade. Ama o saber – e ama-o até o fim. Conforme o filme, após ter dispensado a escolta de soldados romanos é apanhada por cristãos enquanto caminhava pela rua, como uma pessoa comum. Segundo a História, foi conduzida para o interior de um templo cristão e lá foi morta a pedradas. Seu corpo, logo em seguida, foi estilhaçado com cacos de conchas do mar. Fizeram-na em pedaços. Hypatias foi morta pela intolerância.

O filme Ágora deixa-nos a lição de que a irracionalidade pode subjulgar o bom senso. E, uma vez que isso ocorra, as conseqüências são danosas. Hypatias percebia incoerências no sistema ptolomaico. Ela percebeu que o sol era o centro do universo, sendo assim uma das primeiras cientistas da história a observar esse fato. Somente depois de 1200 anos é que se Nicolau Copérnico voltaria a estudar esse evento.

O sistema ptolomaico servia aos interesses da Igreja. Colocava a terra e os homens numa posição de dignidade. Permitia que ilações acerca das intenções de Deus fossem estabelecidas. Foi por causa do sistema ptolomaico que o Mundo Ocidental deixou a luminosidade da Antiguidade Clássica, com possibilidades e intenções científicas, e mergulhou numa noite de mil anos. É preciso assinalar que a Idade Média teve sua beleza, mas foi um tempo no qual a escuridão foi forjada, a ignorância alimentada e teve como resultado o atrofiamento da razão.

Ágora
retrata esse fato com tomadas áreas. Aos poucos a imagem se distancia do ponto geográfico – Alexandria – até que tenhamos o Planeta Terra. Sua dimensão. Grandiosidade. E o silêncio do Universo. Os homens são movidos, direcionados, por impulsos de credulidade, mas há apenas o silêncio dos espaços infinitos. A imagem se coaduna com a agonia existencial de Pascal: “Esses espaços infinitos me apavoram”. A grandiosidade do homem na terra é apenas aparente. A dignidade do sistema ptolomaico conferia apenas uma casca de orgulho premeditado. A terra era/é apenas mais um astro sem luz própria, girando em torno de uma estrela de quinta grandeza, numa costela afastada de uma galáxia. Só existem verdades para os homens. Recordo-me de alguns belos versos de Alberto Caieiro:

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?


"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.


O papel da religião deve
ser outro. Não abafar a voz da ciência. Deve, por sua vez, debater e apregoar virtudes. E não oferecer óbices à razão. Afinal, se Deus é o criador dos cosmos e deu inteligência ao homem, a criatura capaz de ter consciência de que está consciente, este deve utilizar a consciência de si para se situar no mundo. Quando a religião obstacula essa possibilidade, surgem os radicalismos, as fogueiras da inquisição, as trevas e o conseqüente assalto à capacidade humana.

O filme deixa transparecer, de maneira metafórica, que a morte de Hypatias, a filósofa independente, não vendida aos caprichos da Igreja, é o própria sepultamento da razão cientifica e da liberdade do pensar filosófico. Ou seja, a religião matou a razão e a consequência foi mil anos de uma escuridão úmida e pegajosa. A luz do inquirimento viria a brilhar novamente com o Renascimento.

Data: 13 e 16/11/2010, sábado e terça-feira