Mostrando postagens com marcador Natureza. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Natureza. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, janeiro 27, 2016

Sobre "O sal da terra" (2015)

"Somos um animal muito feroz... Somos uma violência extrema, de verdade. Nossa história é uma história de guerras"
Sebastião Salgado

O ano passado, fiquei desejoso de assistir ao documentário O Sal da Terra, que passou pelas salas do Espaço Itaú aqui em Brasília. A produção saiu de cartaz e eu fiquei a lamentar. A excessiva exigência das horas me impediu de de dar cabo às minhas intenções. Trata-se de documentário baseado na obra de Sebastião Salgado.

Esta semana eu consegui efetivar esse desejo aquecido pelo tempo. E não me decepcionei. Gostei do que presenciei. É uma produção que delineia num fluxo cronológico a carreira do premiado e conhecido fotógrafo mineiro. Salgado é um nômade. Já viajou praticamente pelo mundo todo. Sua técnica (fotografias em preto e branco), aliada a uma sensibilidade poderosa, cria quadros de estetização intensa. Paisagens, secas, dramas humanos, costumes indígenas, animais, tudo é imortalizado em um clique, que acaba por se transformar em uma obra de arte. 

O documentário filmado por Juliano Salgado (filho do fotógrafo) e pelo premiado diretor alemão Wim Wenders, coloca Salgado diante de sua obra, comentando boa parte dela. Assim, o diretor comenta desde as fotos que fez na América Latina (Bolívia, Equador, México), em Serra Pelada, ainda na década de oitenta, ao extermínio étnico em Ruanda e na antiga Iugoslávia; ou ainda tece observações acuradas sobre o olhar de um gorila. 

O momento que gera emoção é quando Salgado comenta o que viu e sentiu no Sahel, antiga região da Somália, na década de oitenta. A fome como uma dizimadora; como uma agente cruel e violento, a diminuir seres humanos a carcaças imprestáveis e inanimadas. O testemunho do massacre em Ruanda, resultado do conflito entre tutsis e hutus (que pode ser visto no filme Hotel Ruanda), ocorrido em 1994, também marca o fotógrafo. Nesse conflito covarde, um dos maiores do século XX, quase 1 milhão de pessoas morreram à vista da comunidade internacional. Daí surge a tese, segundo o próprio Salgado, que o ser humano é um "animal muito feroz". A sua face cruel faz avançar a injustiça. 

Essa tese é contraditada pela recuperação das matas da fazenda da própria família. A região que parece ser uma espécie de metáfora para a crença de Salgado, teve sua densa mata Atlântica arruinada pela exploração irresponsável e despreocupada pela própria família do artista. Até mesmo os riachos que passavam pela propriedade desapareceram. Todavia, houve um movimento do próprio Sebastião para replantar dois milhões de árvores na propriedade para restabelecer as antigas características do lugar. E é justamente nessa crença, nessa possibilidade de reversão do caos; dessa capacidade de restabelecer à vida aquilo que fazia grassar apenas a esterilidade, que Salgado ver um afluxo redentivo para o ser humano. Hoje, a atinga fazenda foi transformado em um parque ecológico. 

Trata-se de um documentário muito bonito. As fotografias que aparecem no filme, criam paroxismos para o dilema humano. Quem somos nós? Por que somos tão cruéis, mas tão encantadores? Esse dualismo cria uma teologia do desconhecido e da incerteza. A técnica em preto e branco torna mais patente uma metafísica sombria. Impossível olhar as fotografias e não se abismar; impossível não descolorir nossas arrogâncias, nossa crença no progresso, nossa vaidade presumida de que somos a coroação da matéria criativa do universo. 

Assim, o documentário nos aponta "a violência extrema" das obras humanas e sua pátina caótica de injustiças, mas ao mesmo tempo nos apresenta o amparo poético de uma perspectiva fundada na metáfora do "replantio" de nossa história. 


sábado, abril 18, 2015

A cultura do capital é anti-vida e anti-felicidade - Por Leonardo Boff

A demolição teórica do capitalismo como modo de produção começou com Karl Marx e foi crescendo ao longo de todo o século XX com o surgimento do socialismo e pela escola de Frankfurt. Para realizar seu propósito maior de acumular riqueza de forma ilimitada, o capitalismo agilizou todas as forças produtivas disponíveis. Mas teve como consequência, desde o início, um alto custo: uma perversa desigualdade social. Em termos ético-políticos, significa injustiça social e produção sistemática de pobreza.

Nos últimos decênios, a sociedade foi se dando conta também de que não vigora apenas uma injustiça social, mas também uma injustiça ecológica: devastação de inteiros ecossitemas, exaustão dos bens naturais, e, no termo, uma crise geral do sistema-vida e do sistema-Terra. As forças produtivas se transformaram em forças destrutivas. Diretamente, o que se busca mesmo é dinheiro. Como advertiu o Papa Francisco em excertos já conhecidos da Exortação Apostólica sobre a Ecologia: ”no capitalismo já não é o homem que comanda, mas o dinheiro e o dinheiro vivo. A ganância é a motivação … Um sistema econômico centrado no deus-dinheiro precisa saquear a natureza para sustentar o ritmo frenético de consumo que lhe é inerente.”

Agora o capitalismo mostrou sua verdadeira face: temos a ver com um sistema anti-vida humana e anti-vida natural. Ele nos coloca o dilema: ou mudamos ou corremos o risco da nossa própria destruição e parte da biosfera, como alerta a Carta da Terra.

No entanto, ele persiste como o sistema dominante em todo a Terra sob o nome de macro-economia neoliberal de mercado. Em que reside sua permanência e persistência? No meu modo de ver, reside na cultura do capital. Isso é mais que um modo de produção. Enquanto cultura encarna um modo de viver, de pensar, de imaginar, de produzir, de consumir, de se relacionar com a natureza e com os seres humanos, constituindo um sistema que consegue continuamente se reproduzir, pouco importa em que cultura vier a se instalar. Ele criou uma mentalidade, uma forma de exercer o poder e um código ético. Como enfatizou Fábio Konder Comparato num livro quer merece ser estudado A civilização capitalista (Saraiva, 2014):”o capitalismo é a primeira civilização mundial da história”(p.19). O capitalismo orgulhosamente afirma:”não há outra alternativa (TINA= There is no Alternative).”

Vejamos rapidamente algumas se suas características: finalidade da vida: acumular bens materiais; mediante um crescimento ilimitado, produzido pela exploração sem limites de todos os bens naturais; pela mercantilização de todas as coisas e pela especulação financeira; tudo feito com o menor investimento possível, visando a obter pela eficácia o maior lucro possível dentro do tempo mais curto possível; o motor é a concorrência turbinada pela propaganda comercial; o beneficiado final é o indivíduo; a promessa é a felicidade num contexto de materialismo raso.

Para este propósito se apropria de todo tempo de vida do ser humano, não deixando espaço para a gratuidade, a convivência fraternal entre as pessoas e com a natureza, o amor, a solidariedade, a compaixão e o simples viver como alegria de viver. Como tais realidades não importam para a cultura do capital, como reconheceu o insuspeito mega-especulador George Soros (A crise do Capitalismo, Campus 1999), porque, embora tenham valor, não tem preço nem dão lucro. Mas exatamente são elas que produzem a felicidade possível. Ele destrói as condições daquilo que se propunha: a felicidade. Assim ele não é só como anti-vida mas também anti-felicidade.

Como se depreende, esses ideais não são propriamente os mais dignos para efêmera e única passagem de nossa vida neste pequeno planeta. O ser humano não possui apenas fome de pão e afã de riqueza; é portador de outras tantas fomes como de comunicação, de encantamento, de paixão amorosa, de beleza e arte e de transcendência, entre outras tantas.

Mas por que a cultura do capital se mostra assim tão persistente? Sem maiores mediações diria: porque ela realiza uma das dimensões essenciais da existência humana, embora a elabore de forma distorcida: a necessidade de auto-afirmar-se, de reforçar seu eu, caso contrário não subsiste e é absorvido pelos outros ou desaparece.

Biólogos e mesmo cosmólogos (citemos apenas um dos maiores deles Brian Swimme) nos ensinam: em todos os seres do universo, especialmente no ser humano, vigoram duas forças que coexistem e se tencionam: a vontade do indivíduo de ser, de persistir e de continuar dentro do processo da vida; para isso tem que se auto-afirmar e fortalecer sua identidade, seu “eu”. A outra força é da integração num todo maior, na espécie, da qual o indivíduo é um representante, constituindo redes e sistemas de relações fora das quais ninguém subsiste.

A primeira força se constela ao redor do eu e do indivíduo e origina o individualismo. A segunda se articula ao redor da espécie, do nós e dá origem ao comunitário e ao societário. O primeiro está na base do capitalismo, o segundo, do socialismo na sua expressão melhor.
Onde reside o gênio do capitalismo? Na exacerbação do eu até ao máximo possível, do indivíduo e da auto-afirmação, desdenhando o todo maior, a integração na espécie e o nós. Desta forma desequilibrou toda a existência humana, pelo excesso de uma das forças, ignorando a outra.

Nesse dado natural reside a força de perpetuação da cultura do capital, pois se funda em algo verdadeiro mas concretizado de forma exacerbadamente unilateral e patológica.

Como superar esta situação secular? Fundamentalmente no regate do equilíbrio destas duas forças naturais que compõem a nossa realidade. Talvez seja a democracia sem fim, aquela instituição que faz jus, simultaneamente, ao indivíduo (eu) mas inserido dentro de um todo maior (nós, a sociedade) do qual é parte. Voltaremos ao tema porque não é suficiente fazer a crítica a esta cultura malvada, como a chamava Paulo Freire;   importa contrapor-lhe outro tipo de cultura que cultiva a vida e cria espaços para o amor, a cooperação, a criatividade e a transcendência.

Daqui

terça-feira, outubro 23, 2012

"O macaco nu" e a crise de não-ser ante a natureza

Quando o que está em jogo é o ser humano, torno-me bastante pessimista. Carl Sagan costumava dizer que "somos uma espécie nova e curiosa e talvez haja salvação para cada um de nós". Não faço uso do otimismo de Sagan. A sua elegância o impelia a verbalizações nobres. Admiro essa sua capacidade. Mas, volto-me para uma outra direção. A direção que nos aponta um caminho incerto, infausto. Talvez haja em mim um pouco de Schopenhauer.

Somos uma espécie que pratica a rapina. Nossa história sobre o Planeta Terra é relativamente recente. Certa vez vi Carl Sagan fazer uma comparação que me impressionou. O célebre cientista americano disse que se pudessêmos colocar a história da Terra e do Universo dentro de um campo de futebol, desde o Big Bang, a história humana não seria mais do que um palmo dentro desse campo hipotético. Ou seja, a nossa história é recente, mas deixamos marcas profundas na história do Planeta. Talvez nenhuma espécie tenha mudado tanto o Planeta como nós o fizemos - nem mesmo os poderosos dinossauros.

Essa reflexão amarga se aprofundou ainda mais após a leitura que fiz do livro "O macaco nu", do zoólogo inglês Desmond Morris. Esse livro foi escrito na década de 60 do século passado. É profundo e arraigadamente científico em suas sentenças. Morris faz uma análise contundente sobre os hábitos dos seres humanos - sua origem, a questão da sexualidade, do crescimento, o poder de exploração tão próprio do ser humano, o alto grau de agressividade, a importância da alimentação e busca pelo conforto. O zoólogo não deixa passar nenhum dos hábitos daquele que ele cognominou de maneira irreverente como "macaco pelado". Tal classificação se deve ao fato de que, entre as 193 espécies de símios e macacos (da família dos primatas), a espécie humana é a única que não apresenta o corpo coberto por pelos. Mas tal fato não deve ser visto apenas como obra do acaso. Morris vai dizer que existe uma alta função para essa condição.

É no final da obra, que Morris profere uma frase belissimamente perturbadora: "...apesar de todos os nossos progressos tecnólogicos, continuamos a ser sobretudo um simples fenômeno biológico". Com isso ele está dizendo que não nos diferimos dos outros seres no que tange às necessidades vitais. Somos animais moldados pela evolução. Se no passado a atividade de caça nos ocupava a maior parte do tempo, hoje, é o trabalho, principal motor de troca da sociedade criada por esse mesmo ser gregário, que toma o nosso tempo. De modo que o nosso estilo de vida parece ter "sacralizado" o existir desse mesmo criador. Parece que perenizamos a realidade. Vivemos como se fossêmos eternos. Todavia, existe o esquecimento de que a natureza é lenta e as suas mudanças se perpetram de modo processual.

E baseado nisso, achamos outra afirmação desconcertante do cientista inglês: "Houve muitas espécies formidàveis que se extinguiram no passado, e nós não somos a exceção. Mais cedo ou mais tarde, teremos de partir e deixar lugar para qualquer outra coisa". E aqui, corroborando com Morris, penso que isso seja um fato mais que incontestável. Quanto tempo mais teremos? Mil anos? Dez mil anos? Um milhão de anos? Não se sabe! O fato é que somos uma espécie engenhosa. E essa capacidade de engenho não nos livrará da inexorabilidade do tempo. Chegará um tempo em que não mais seremos. E nem mesmo as nossas religiões nos "salvarão".

Somos um "fenômeno biológico", mas, somos, também, um fenômeno cultural. Tudo aquilo que construímos e fazemos está associado à necessidade de realizarmos aos instintos animais. Temos um forte impulso a buscar a sobrevivência e tirarmos vantagens de todas as coisas. Fomos moldados assim pela evolução. Nossos instintos sexuais, territoriais e agressivos não serão dominados e flexibilizados, pois somos, acima de tudo, seres biológicos que buscam a perpetuação. Até mesmo quando temos um filho, buscamos, nele, continuar a existir. Ora, para finalizar, o que são as religiões, senão uma necessidade de continuar a existir mesmo quando o nosso mais terrível  inimigo chegar - a morte - e militar contra a nossa sede territorial de continuar a ser?


quarta-feira, setembro 12, 2012

A beleza mesmo em meio ao agreste

Em determinadas épocas do ano, o Distrito Federal se desertifica. O clima chega a níveis de pouca suportabilidade. A temperatura sobe. A umidade do ar chega índices alarmantes. O calor asfixiante nos deixa com uma forte sensação de irritabilidade. Tornamo-nos suscetíveis a problemas respiratórios com esse clima pouco "civilizável". A cidade inteira sofre. As crianças agonizam. Um colchão de fumaça encobre os quatro cantos da desse pedaço do Centro-Oeste. O céu límpido e alto que pode ser avistado com muita facilidade em outras épocas, torna-se indistiguível. 


Para piorar, os focos de incêndio se multiplicam. É corriqueiro constatarmos ao caminhar, um corpo cinzento se esgueirando para alcançar as alturas - o resultado das queimadas no cerrado. Em outras palavras: essa visão terrível já passou a fazer parte do período que se estende do final de agosto ao início de outubro. Setembro é o mês do "apocalipse" por aqui.

Mas a natureza é sábia e misteriosa. Ela oferece compensações. Presenteia-nos com revelações impressionantes. O que é curioso (e já se tornou notório em todo país) é o fato de que, nessa época, Brasília ganha cores de vida em meio à secura agreste. Ontem, por exemplo, ao voltar do trabalho para casa, pude presenciar vários ipês floridos. E, claro, acabei tirando algumas fotos com o meu celular. A qualidade não é das melhores, mas nos dá uma noção da beleza.

Abaixo, algumas imagens.






terça-feira, julho 31, 2012

A propósito de uma leitura sobre Marcelo Gleiser II

 "A ciência moderna revelou as causas desses eventos, mostrando que o que antes era atribuído aso deuses é só uma manifestação de fenômenos naturais segundo leis específicas. Essa mudança de atitude com relação á Natureza é muitas vezes condenada por líderes religiosos mais extremos ou por aqueles que acreditam que "entender" a Natureza tira a sua beleza, que entender a física por trás dos fenômenos celestes exerciza a sua magia. Muitos pelo contrário; eu afirmo que a compreensão da dinâmica celeste apenas aumenta nossa admiração pela beleza do cosmo". 
Marcelo Gleiser, O fim da terra e do céu, p. 146

Aos dois leitores impacientes que chegaram a esse espaço por causa de uma conflagração de um "acidente internético", dirijo as palavras incipientes que se seguem. Atualmente estou lendo Doutor Fausto, de Thomas Mann (que está de lado por enquanto) e O fim da terra e do céu, de Marcelo Gleiser (que estou simplesmente embasbacado). Gleiser é um sujeito de uma mente fina, de pensamento especulativo rico, que nos faz imaginar coisas e afirmar: "Minha nossa! Eu sou uma minhoca cósmica. Alguém que está aqui pelos sucessivos poderes criativos da natureza e não por uma teleologia eminentemente divina". 

Quando leio a respeito da grandiosidade do cosmos e os números que exatificam as proporções infinitas daquilo com a qual não estamos acostumados mensurar, lembro imediatamente da frase de Pascal: "Esses espaços infinitos me apavora". E, de fato, olhar o céu, esse grande pergaminho que serve a tantas interpretações e que no decorrer da história foi alvo de tantas leituras, aturde-nos. Foi com medo ou talvez admirado com aquilo que não podia controlar que os homens forjaram "mundos" para tentar explicar aquilo que não conseguiam entender. Mas ao criar o sobrenatural, a finalidade dessa busca era afirmar a si mesmo.

O que somos? Qual o nosso valor? Hoje, enquanto vinha para casa e me encontrava no metrô, fiquei observando as várias pessoas que estavam no mesmo vagão em que eu estava. Os mais variados tipos: adolescentes com ar despreocupado, o almofadinha da repartição pública, o operário da construção civil, o tipo importante a portar o celular da última geração; mulheres ostentando a aparência de importância. Olhei aquilo como que vendo um desfile de tipos. Não estou julgando aquelas pessoas, apenas argumentando que vivemos como se fossêmos os mais importantes dos seres e não percebemos que somos seres passageiros em um planeta que também é passageiro. Segundo os cientistas, o Sol está na metade da vida. Atualmente ele possui cerca de 10 bilhões de anos. Viverá mais 10 e aí virá o fim. E com o fim dele, virá também o fim de todos os corpos e seres que dependem da energia liberada pela queima de gases.

Num passado bem longíquo não existíamos. Passamos a existir graças aos ciclos naturais, às mudanças perpetradas no decorrer de milhões de anos. Os dinossauros, por exemplo, ficaram sobre a Terra por cerca de 150 milhões de anos. Mas, em dado momento do tempo, deixaram de existir e se assim aconteceu foi por causa das condições naturais: climáticas, atmosféricas etc. Para que existamos e não sucumbamos diante de um cataclismo, não é necessário a priori que tenhamos inteligência, mas que as condições ambientais nos sejam favoráveis. A natureza que fez com que os dinossauros deixassem de existir é a mesma que fez com que o homem surgisse. Todavia, essa mesma natureza que cria, pode também destruir. Na natureza, não existem julgamentos morais do que é bom ou é ruim. O bom e o mal só existem a nível humano.

Afirmamos que existem o bem e o mal, porque criamos um índice de valoração para os eventos que existem a nível de mundo humano. Ou seja, uma alga não sabe o que é o bem nem o que é o mal. A gravidade não conhece o que é bonito nem feio. Um aminoácido não sabe o que é o pecado nem a virtude. Ela apenas é e obedece a comandos determinados por uma lei natural. Foram condições proporcionadas pelo mundo natural que permitiram ao homem chegar a ser o que é. 

Sendo assim, enquanto os dinossauros estiveram sobre a terra por mais de cem milhões de anos e foram extintos há sessenta milhões de anos atrás, os primeiros hominídeos (da qual o homem faz parte) surgiram aproxidamente há dois milhões de anos atrás. Ou seja, um lastro de tempo consideravelmente insignificante. O homem como o conhecemos hoje está por aqui há cerca de cinquenta mil anos. Com isso, notamos que esse ser que é capaz de criar juízos de valores e se impressiona com os artefatos que produz é um ser que não percebe o tamanho do seu desvalor.
Criamos cultura. Altares para nossas divindades. Tronos para os nossos reis. Pedestais para o nossos ídolos. Música para nos alegrar. Poesia para nos embevecer. E em um Planeta pequeno, composto por gases, água e rocha, vive um ser que até hoje não conseguiu se achar. E para que deixemos de existir não é necessário que algo extraordinário aconteça, que uma força sobrenatural nos trague.

Por exemplo, em 1994, eu ainda era um adolescente. Aconteceu algo que poucas pessoas lembram, mas que marcou minha adolescência. Recordo que a TV mostrou os fragmentos do cometa Shoemaker-Levy 9 se chocando com a atmosfera do planeta Júpiter. Dudante seis dias, o planeta gigante do Sistema Solar foi bombardeado por esses corpos. Foi um espetáculo que produziu beleza e terror, pois se o Shoemaker-Levy 9 tivesse se chocado com a Terra não estaríamos aqui agora para contar história. Os fragmentos do cometa estavam soltos pelo Sistema Solar por aproximadamente 5 bilhões de anos e foram atraídos para a atmosfera de Júpiter. Segundo as palavras de Glaiser:

O cometa permaneceu nessa órbita alongada em torno do Sol até o século passado, quando a atração gravitacional de Júpiter acabou por provocar a colisão; cada um dos seus fragmentos chocou-se com a parte superior da atmosfera a velocidades acima de 200 mil quilômetros por hora, liberando mais de 25 megatóns de TNT de energia. O planeta Júpiter é onze vezes maior do que a Terra, e sua massa, trezentas vezes maior do que a do nosso planeta. [...] Cada fragmento foi identificado por uma letra, na mesma ordem de impacto. O fragmento A atingiu a parte superior da atmosfera de Júpiter pouco antes das dezesse horas do dia 16 de julho. Sua explosão devido ao impacto criou uma bola de fogo gigantesca, levantando uam coluna de detritos com mais de 3 mil quilômetros de altitude. Ao retornrar ao planeta, os detritos criaram uma mancha negra com um diâmetro equivalente a um terço do diâmetro da Terra. E essa foi a primeira colisão! O mesmo padrão repetiu-se após o impacto de um dos fragmentos observados (alguns escaparam ao campo de observação): [...]  O fragmento G, um dos maiores, deicou uma mancha de dimensão comparável à dimensão da Terra. (o destaque é meu).

O que é curioso nisso tudo é que isso não nos inclina a refletirmos o quanto somos frágeis em nossa condição. Não somos sustentados por uma vontade divina ou sobrenatural. Somos o resultado da combinação de "acasos naturais" - embora, a natureza em seu curso nunca permita que algo exista sem que leve a uma nova etapa. Ou seja, nada é gratuito na natureza. Tal pensamento não deve nos deve lançar em um fatalismo, mas admirar essa harmonia da dança cósmica. Essa harmonia que como disse certa vez Carl Sagan: "Deve nos fazer admirar esse milagre". O milagre não é algo essencialmente sobrenatural, mas natural. O acontecimento fantástico não reside a nível extra-humano, mas no tempo e na conjuntura em que se encontram os homens. Sigamos com a leitura!

Abaixo, dois vídeos explicitando o evento com o Shoemaker-Levy 9. 


 

sexta-feira, junho 22, 2012

O neoliberalismo e a morte da Terra

Baita texto do Mauro Santayana. O jornalista fala sobre algo que eu já intuía: o fiasco que foi a Rio+20, sendo que, como já era esperado, o responsável por tal fato vexatório é, no dizer de Santayana, "a peste da ganância do capitalismo". 

Por Mauro Santayana

Não se pode esperar muito da Conferência do Rio. Há quarenta anos que o problema do meio ambiente vem sendo discutido e, nesse tempo, pouco se fez de objetivo a fim de assegurar as condições que a biosfera oferece à Natureza. Ao que parece, o homem está à espera de uma catástrofe – como foi a peste negra, no século 14 – a fim de compreender as dimensões de seus erros. Naquele século emblemático – no qual historiadores encontram semelhanças com o nosso – a população européia quase desapareceu. Pulgas e ratos levaram a peste da Ásia e encontraram o continente vulnerável à bactéria Yersinia pestis: segundo os cálculos, mais de um terço dos europeus pereceram no curso de quatro anos. Como vemos, seres aparentemente tão frágeis são capazes de promover hecatombes.

O que está matando o mundo, hoje, vale repetir, é a peste da ganância do capitalismo, que transformou a razão científica em mera servidora do dinheiro, principalmente a partir do neoliberalismo. Todos nós sabemos que os nutrientes químicos, como o nitrogênio, e agrotóxicos, estão matando os rios e extensões cada vez maiores dos oceanos. A Monsanto continua, firme, em nome da liberdade do mercado, a envenenar os solos e os mananciais de água – isso sem falar nas suas sementes transgênicas. O que já era ruim em 1972, quando se reuniu, em Estocolomo, a Primeira Conferência sobre o Meio-Ambiente, tornou-se muito pior a partir da conjuração anti-estado, promovida por Reagan, Thatcher – e, como coringa solto na jogada, o papa Karol Wojtila. Nestes últimos trinta e dois anos, não obstante as sucessivas declarações de alarme, e três novas conferências realizadas, pouco se fez de objetivo, a fim de salvar a natureza. Assim, o neoliberalismo acelera o assassinato da Terra.

A realidade nos impõe uma constatação: enquanto os Estados Unidos que, para o bem e para o mal, são o modelo da civilização contemporânea, não mudarem a sua matriz energética, e não contiverem a insensatez da bio-engenharia a serviço dos interesses do grande capital, o mundo continuará sua marcha para a tragédia.

Em nosso caso, a salvação da biodiversidade com que nos privilegiou a Natureza e, em seguida, a História, vem correndo novos e evitáveis riscos, a partir do desmantelamento do Estado, promovido pelo governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso.

Desde Getúlio Vargas, o Brasil dispunha de grupos técnicos de planejamento de infraestrutura a médio e longo prazo. Durante o governo de Juscelino, esses grupos se tornaram a vanguarda do desenvolvimento da economia nacional. Os governos militares mantiveram alguns deles, reorganizaram outros e esvaziaram os demais. Um desses grupos, talvez o mais importante para o nosso desenvolvimento, era o Geipot – reorganizado em 1965, durante o governo de Castelo Branco, abandonado por Fernando Henrique e hoje em liquidação. A União teve o prejuízo de 400 milhões de reais na execução das obras da Ferrovia Norte-Sul, por falta de um órgão como o Geipot. O serviço das empreiteiras não foi fiscalizado, dia-a-dia, como deveria ter sido, e erros graves, além da não execução das obras planejadas, como estações e depósitos, foram constatados pela nova diretoria da Valec, a estatal que administra a implantação do grande trecho ferroviário.

Outra imprevisão do governo se manifesta agora, na Hidrelétrica do Jirau. Dois milhões de metros cúbicos de madeira e lenha, retirados da área a ser coberta pelas águas, estão destinados a apodrecer, por falta de aproveitamento econômico. A retirada dessa cobertura vegetal deveria ter sido planejada com antecedência e seu aproveitamento, da mesma forma.

Outras áreas da Amazônia estão sendo desmatadas para a exportação – legal e ilegal – da madeira, com os danos conhecidos ao meio-ambiente. É urgente que se planifique o aproveitamento racional da madeira e dos outros bens naturais existentes nas áreas a serem inundadas nas outras hidrelétricas em construção no território brasileiro. Há, ainda, no fundo da futura represa – cujo enchimento se iniciará ainda este ano – muita cobertura vegetal que, se não retirada a tempo, irá provocar danos imensos ao ambiente, ao produzir metano, um dos gases mais poluidores da atmosfera, além do carbono.

A eficiência do Estado se garante mediante o estudo prévio de suas necessidades e de suas possibilidades, ou seja, de planejamento. Desde o Império, empreendedores e homens de Estado pensaram em termos de planejamento. Até hoje é válido o projeto ferroviário de Mauá, que previa a ligação ferroviária entre o Norte e o Sul, entre o Leste e o Oeste, e o aproveitamento dos rios para o transporte de carga pesada. Vargas, na plataforma eleitoral de 1930, reafirmou a necessidade de planejamento e seguiu a idéia durante o Estado Novo. Vargas retomou o projeto nacional, em 1951 e Juscelino deu-lhe prosseguimento de forma vigorosa, em seu mandato. Com a desconstrução do estado nacional, o governo Fernando Henrique deixou o planejamento por conta das empreiteiras e dos estrangeiros. Vale lembrar a contratação da Booz Allen pelo governo tucano, para “identificar os gargalos” que dificultam o desenvolvimento do país, quando não faltam técnicos competentes nos quadros da administração federal para cuidar do planejamento dos projetos de infra-estrutura no Brasil, como é o caso dos transportes e da energia.

É hora de o Estado assumir diretamente a sua responsabilidade e buscar os meios constitucionais para acabar com as agências reguladoras e devolver aos ministérios as tarefas que devem ser suas. As agências reguladoras foram, nos Estados Unidos de Roosevelt e do New Deal, o instrumento do Estado para conduzir a economia nos anos de crise. No Brasil, elas tiveram o objetivo contrário, o de entregar aos agentes privados, a serviço dos interesses estrangeiros, a administração dos setores estratégicos nacionais, como a energia elétrica, as telecomunicações, as rodovias, as ferrovias e os portos – isso sem falar na saúde, com a Anvisa.

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

sábado, junho 02, 2012

O estilo de vida e "a bárbarie"

No ano 1 depois de Cristo, a população da Terra era de 300 milhões de habitantes. Mil anos após, a população do Planeta Terra havia chegado a 310 milhões de habitantes. Ou seja, em mil anos a população do mundo havia aumentado em 10 milhões de pessoas. Em 1600, a população havia dobrado para 600 milhões de habitantes. Em 2000, a estimativa era de que a população estivesse em 6 bilhões. E no ano passado o número de habitantes pulou para 7 bilhões. Algo realmente assustador. Crescemos em 10 anos o que não se cresceu em mil anos.

Oscilo entre o otimismo e o pessismismo e, por fim, permito que este último ganhe quando penso no futuro da humanidade e do Planeta. Em meados século XX, Rosa Luxemburgo gritava: "Socialismo ou bárbarie!". Não quero fazer uma defesa do socialismo ou repudiar peremptoriamente o capitalismo. Quero apenas refletir no fato de que o grande problema do mundo não é em si um sistema econômico, mas o próprio homem. O homem é o autor do colapso do Planeta e de si mesmo.

O que o Capitalismo faz é realçar esse egoísmo intrínseco. Adensar uma perspectiva que faz parte da essência do ser humano. O estilo de vida defendido pelo homem é parasitário e faz com que sobre pouco espaço para a manuntenção da vida. Quantas já não foram as espécies extintas por causa do homem? Quantas já não foram as florestas destruídas para que cidades fossem construídas? Quantos não foram os rios e córregos completamente assolados de maneira irresponsável. Já vivemos a "bárbarie" propugnada por Rosa Luxemburgo. 

Quase 1 bilhão de pessoas passam fome em todo mundo. Mais de 1,3 bilhão não têm sequer uma lâmpada em casa. O grande desafio do homem é manter-se vivo à depredação protagonizada por ele mesmo. Criamos um modelo de civilização e acreditamos que ele seja perfeito. Não queremos abrir mão de tudo aquilo que temos. O nosso estilo de vida parece irreversível. Nossas telas de computadores, de celulares, cospem o brilho irrefugável do orgulho; os carros velozes e cada vez mais sofisticados aguçam a velocidade de nossas fantasias. A necessidade de destruição das florestas para plantar, para construir casas, prédios, é cada vez mais premente. O espaço outrora reivindicado por todos os outros seres vivos, tornou-se do homem. 

Somente o homem é capaz de dizer: "Eu sou o dono disso aqui". "Isso é meu!" E com isso, todo o Planeta Terra está sitiado e medido pela ganância. Caminhamos a passos largos para o abismo. A estimativa é que em 2030, a população do mundo chegue a 9 bilhões de pessoas. E algumas perguntas nos surgem: Como vestir essas pessoas? Como alimentar essas pessoas? Como conseguir água? Como será a vida nas grandes cidades?

O Planeta oferece um limite e nós estamos demorando muito para perceber isso. Os economistas anseiam pelo progresso. Falam em "crescimento virtuoso", quando presenciam uma homogeneidade no desenvolvimento. Para eles, progresso é permitir que todos os sujeitos de uma determinada sociedade possam consumir a fim de gerar divisas e capital para uns poucos ficarem mais ricos. Mas para que o abismo civilizacional não chegue cada vez mais próximo, o que devemos fazer? Apostar num estilo de vida mais coerente? Pautar nossa vida num estilo mais responsável? As respostas são pouco otimistas.

O que notamos é que quanto mais o tempo passa, mais percebemos que a velocidade do trem que construímos é louca e inconsequente. Estamos numa ladeira enorme e não queremos enxergar a curva à frente. Enquanto isso, uma festa continua sem que nos preocupemos com as irregularidades do caminho. Os próximos mil anos podem não aparecer.

Música da banda Dave Matthews Band (Don't Drink Water). Belas e perturbadoras imagens.

quinta-feira, maio 03, 2012

Na natureza selvagem - uma viagem em busca de liberdade

Na natureza mais selvagem não há apenas o material da mais cultivada das vidas e uma espécie de antecipação do resultado final, mas também um refinamento maior do que o homem jamais conseguiu alcançar".
 Henry David Thoreau

Em 2007, o ator e diretor Sean Penn, escreveu o roteiro e dirigiu o filme Na natureza selvagem, baseado no livro homônimo de John Krakauer, que conta história real de Christopher McCandless que se autodenominou de Alxander Supertramp. Assisti a esse longa-metragem na noite de segunda-feira. Mais de duas horas e meia de uma trilha sonora belíssima, escrita por Eddie Vedder, vocalista da banda Pearl Jam, e de cenas de tirar fôlego. Na natureza selvagem já era um projeto antigo. As pessoas que me haviam indicado o filme o fizeram mais pelo lado estético. Não chegaram a reportar o lado filósofico.

A obra nos lança um debate sobre relação entre vida social e vida natural. O filme é acima de tudo uma viagem ao interior do mundo de McCandless, um jovem rico, de uma inteligência brilhante e inquieta, que larga tudo e se refugia no coração gelado do Alaska e acaba morrendo de inanição. Tal saga tinha por finalidade o delineamento de experiências que deixassem de lado a ganância, a desistabilidade familiar e todo séquito de fatores mesquinhos. McCandlesse constrói um sonho e esse sonho passa a ser a sua grande busca. É necessário viver para aquilo o qual o coração faz pulsar.
Foto do próprio McCandless

O jovem McCandless poderia ser o que ele quisesse. Todavia, a sua grande escolha foi a liberdade. Fica no muito claro na obra, que as suas andanças, aventuras e perquirições buscavam tornar a liberdade um elemento vital. No final da obra, Mc Candless entende que tal sentimento somente tem razão de ser quando proporciona felicidade. "A felicidade só é real quando é compartilhada" - afirmação do próprio McCandless. Felicidade só pode ser felicidade quando vivida ao lado do outro. Ou seja, o outro é a porta dimensional capaz de me levar a experimentar a felicidade como projeto existencial.

O personagem encenado pelo talentoso Emile Hirsch é alguém atraente. Pródigo de ideais. É uma personalidade rebelde. Uma espécie de Thoreau moderno, inadaptado às intenções pequenas e condicionantes do capitalismo. Ele se insurge contra as premissas dos pais, que querem fazer dele um homem médio - desses que andam no fluxo da história; fazem o que todos fazem e acabam fenecendo como reles mortais. McCandless anda na contramão dessa lógica da domesticação. Busca viver no seio da natureza. Lendo Thoreau, os textos morais de Tolstói e, acima de tudo, Jack London (outro viajante inquieto), McCandless acende uma flama em seu coração. Experimenta por mais de 4 meses essa solidão que o remete à liberdade tão sonhada.

Emile Hirsch, no papel de Christopher McCandless
Não contava com o fato de que a lógica da natureza é a imparcialidade. Que ela não está condicionada aos romances. Como disse certa vez o próprio Henry David Thoreau: "A natureza é lenta porém segura; ela é a tartaruga que ganha a corrida pela perseverança". Essa mesma natureza que o personagem ama, é inamistosa. McCandless acabou morrendo de inanição. Ao tentar sair do seu carro-abrigo e procurar auxílio, é supreendido pelo degelo e engrossamento das águas de um rio. Não pode atravessar e aquilo resultou em cerceamento. Após ter voltado, ficou sem comida e teve que se alimentar de ervas. Infelizmente ingeriu uma planta que possuía propriedades venenosas e aquilo resultou em algo que o debilitou até a morte.

O filme nos lança uma importante reflexão intimista. Tudo é feito para nos silenciar. A música gravosa de Eddie Vedder. As cenas de uma América pouco conhecida. Uma América sem o establishment que a constitui. Uma América formada por longas estradas, canyons, rios, hippies e toda uma gama de atores que buscam um outro estilo de vida. A busca existencial e espiritual de MacCandless é corroborada pela frase: "Ao invés de amor, de dinheiro, de fama, de justiça, dê-me a verdade”. O jovem "Supertramp" (algo como "super andarilho") era um inquiridor. Todo aquele que se empenhe em achar o que é a verdade, necessariamente, chegará ao limiar dos portões da liberdade. Foi para isso que McCandless viveu.

Uma das faixas que serviram de trilha sonora para o filme. No vídeo, algumas imagens sobre McCandless.

 

sábado, março 20, 2010

Porquê Celebrar o Equinócio de Outono?

Dia 20 de Março é o Equinócio de Outono no hemisfério sul; dentro de dez dias entramos nas estações frias (ao menos aqueles que vivem mais longe do Equador). O outono, como a primavera, é uma estação de mudança; no entanto, enquanto a primavera tem cheiro de renovação e gosto de renascimento, o outono é uma época mais introspectiva, que nos chama a prepara-nos para o período mais escuro e frio do ano.

As celebrações já não são as mesmas de antigamente

Antigamente, a transição das estações era uma parte importante da vida. Os equinócios e solstícios eram celebrados, não só por motivos religiosos, mas porque a vida diária era diretamente afetada pela natureza, pelo clima. Hoje em dia, com o ar condicionado, a calefação, a urbanização e a produção industrial, essas celebrações se perderam. O passar das estações perdeu significado e importância. O que é uma pena. Porquê Celebrar o Equinócio de Outono? Uma pena porque com isso uma parte de nós se perdeu – principalmente para as mulheres. Essas celebrações nos ajudavam a conhecer e compreender os ciclos da vida, da natureza, de nosso próprio corpo e espírito.

Celebrar é uma Necessidade

Apesar da modernidade, ainda sentimos necessidade de ter esse conhecimento e essa compreensão, embora estejamos imersas na massificação da sociedade industrial de consumo, onde todos os dias, meses e anos são iguais – desprovistos de significado. Um bom exemplo disso é o fim do ano – o excesso das festas, de compras, de comida e bebida, a fúria das resoluções de ano novo, que logo caem no esquecimento. Nos entregamos à esses excessos, porque já não sabemos como celebrar de forma adequada, de forma a encher-nos a alma (e não somente a barriga).Sentimos a necessidade de celebrar, de marcar a passagem do ano, de encerrar um ciclo – mas não sabemos como.

Ritos de Passagem são Terapêuticos

Celebrações são (ou deveriam ser) ritos de passagem. Assinalam o final de um ciclo e o começo de outro, nos situam no contexto do todo, inserem nosso micro-cosmo pessoal dentro do macro-cosmo Vida.Nos convidam a olhar para trás, para o ciclo que está finalizando, e descobrir o que aprendemos, quais foram nossos erros e nossos acertos; e nos dão informação sobre o próximo ciclo, sugerindo como deveremos agir, quais deverão ser nossos próximos passos. Porquê Celebrar o Equinócio de Outono? Prestar atenção nos ciclos, entendê-los, honrá-los e celebrá-los é extremamente terapêutico. Essas práticas restabelecem a conexão com nós mesmas, nos dão alegria, paz e tranquilidade. Recuperar essas tradições de passagem, esses ritos e celebrações, essa forma de contar o tempo, só depende de nós. Você não precisa se fantasiar de bruxa e acender uma fogueira no meio do mato, para recuperar a magia e o significado dessas celebrações.

Extraído DAQUI.