Mostrando postagens com marcador Educação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Educação. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, outubro 06, 2025

Memórias... um documentário sobre o professor Carlos Mota

Professor Carlos Mota

Semana passada, descobri que Mário Bispo, um dos grandes professores que eu já tive, leva a sua filhinha à escola onde o meu filho estuda. Nesses encontros fortuitos, porém novidadeiros e que infundem na gente uma ponta de satisfeita felicidade, ele acabou me chamado lisonjeiramente de "meu poeta". Não me julguei digno do elogio. Desconversei. Chamou-me assim pelo fato de eu ter escrito um texto sobre o professor Carlos Mota

Ele afirmou que haviam feito um documentário sobre a vida do professor Carlos Mota, assassinado em 2008, no Lago Oeste, local onde morava. A morte do professor Carlos Mota provocou grande comoção por tudo aquilo que ele representou para a educação de sua comunidade. Foi morto por fazer uma pequena revolução que progredia em um movimento ondulante e que começava a ganhar contornos no local em que vivia. Carlos Mota era diretor de uma escola no Lago Oeste. Seu trabalho estava impactando a comunidade e causando um sintomático incômodo ao mundo do crime. Resultado: foi alvejado covardemente por alguém da região que estava se sentindo incomodado pela sua entusiasmada atuação.

Fui aluno de Carlos Mota e ainda guardo boas memórias. Estudei com ele - caso não esteja enganado - nos idos de 2007 ou 2008. Durante um semestre no curso de Letras, tive o privilégio de escutá-lo. Era um grande orador. Falava de forma apaixonada sobre vários temas. Todavia, era visível a sua paixão pela educação, por uma educação emancipadora, que transformasse a realidade e nos fizesse compreendê-la. 

Naquele semestre, tivemos o privilégio de ler coletivamente "Não espere pelo epitáfio", livro de reflexões instigantes do ótimo Mário Sérgio Cortela. Os textos curtos, mas com instigantes reflexões filosóficas, iniciavam os trabalhos pedagógicos. Era como se estivéssemos para iniciar um grande banquete e aquelas leituras eram as entradas que alargavam ainda mais a nossa fome. Carlos de um tablado que se elevava alguns centímetros do chão, gesticulava, liberava uma sintaxe afiada, cortante, inspirada. Dizem os estudiosos que o nosso cérebro retém apenas aquilo que nos marca sobremaneira. Eu não teria como apagar aquelas lembranças. Em sala de aula, tento repetir essa mesma prática: sempre começo as aulas da sexta-feira com uma leitura-reflexão a respeito de um poema - Fernando Pessoa, Carlos Drummond, Cecília Meireles, Adélia Prado, Manoel de Barros, João Cabral de Melo neto etc. É uma forma de aprender com a beleza, com a singeleza dos versos, da poesia que se encontra em algum apenas esperando ser apreciada. O fato de fazer isso é uma reminiscência involuntária daquilo que aprendi com Carlos Mota. 

Lembro-me de que ele convidou os alunos para realizar uma visita ao local onde morava. Sua chácara ele chamava de "Brilho da Lua". Foi uma noite extraordinária. Imensamente generoso, ele abriu os portões de sua chácara para a turma inteira. Alguns levaram barracas para acampar. Era uma noite fria e brumosa. Naquele dia, teve música, dança, falas, risadas desmedidas, discursos, aprofundamento de ideias políticas. Recordo-me que, no outro dia, ele de sua casa e foi até onde os bravos alunos dormiam. Aproximou-se com um largo sorriso - uma das suas marcas. Franqueou-nos a sua cozinha. Não imagino que outro professor teria coragem de fazer isso. Pois Carlos Mota, alguém imensamente comprometido com a formação de cada uma nós foi capaz de fazê-lo.  

Olhando, hoje, à distância, essa postura apaixonada, capaz de incentivar, de provocar afetos, recordo os versos de Erasmo Carlos: "Gente certa é gente aberta". Carlos viveu as implicações desses versos. Era a pessoa certa para os grandes gestos, para as grandes e largas aberturas. Sua vida deu certo, pois ele não se fechou; abriu-se generosamente para ser com as pessoas com as quais encontrou - principalmente, seus alunos e as pessoas humildes. Era alguém com um grande potencial. Estava sempre aberto para as grandes ideias. Suas reflexões sempre promoviam a boa política, a abertura para a generosidade, para as ideais humanizadores. Abriam portas para realidades novas; para mundos anteriormente inacessíveis aos olhos acostumados ao comum, ao banal. Era, por isso, que ele era tão atraente. 

Mário Bispo disse que o filho do professor Carlos Mota produziu um documentário sobre o pai; que no processo de procurar informações sobre pai, leu o texto que escrevi lá em 2008. Fiquei um pouco atordoado por saber que havia muitas imperfeições de estilo e uma abundante imperícia gramatical naquilo que escrevi. 

Revisitei o texto; realizei algumas modificações para que ficasse mais palatável. 

Abaixo, o documentário produzido pelo jornalista Otávio Augusto Pereira Mota, filho de Carlos Mota. 

 

quinta-feira, outubro 15, 2020

Um mosaico de lembranças nesse dia dos professores

 

Dou aula há dez anos. Há quem fique dez, vinte, trinta ou mais anos nessa profissão. Não pretendo ficar por tanto tempo. A profissão docente é repleta de sabores múltiplos. Há aqueles doces, de uma pureza sofisticada; mas, há aqueles que divergem da doçura por serem azedos ao extremo. Pretendo falar um pouquinho da minha relação com alguns professores inesquecíveis.

Ao longo de minha jornada como estudante, eu tive a oportunidade de encontrar com professores e professoras para as quais eu pagaria um valor altíssimo para ter a oportunidade de ficar mais próximo; de passar uma tarde a conversar com eles. Admirava-os (e os admiro ainda hoje, embora o tempo insista em criar camadas de afastamentos). Tenho o costume de reverenciar, de nutrir grande respeito por pessoas admiráveis. E muitos professores com os quais eu cruzei ao longo de minha jornada como estudante, inseriram-se nessa categoria.

                 Nos anos iniciais, recordo-me da Marli, da Geovanete, da Suely, da Soraia - por quem me apaixonei na 2ª série). As paixões fazem parte dessa fase. Ela era professora de artes. Encontrava-me com ela uma vez por semana, às terças-feiras. Era pouco. Durante as aulas, ficava embevecido. Seus longos cabelos pretos. Sua voz melodiosa. Seus trejeitos tão singulares. Os ademanes da caminhada. Ainda posso vê-la. Ia para casa de ônibus. Um certo dia, resolvi verificar onde ela morava. Peguei o mesmo ônibus em que ela estava. Passei por baixo da catraca. Aboletei-me na última cadeira da condução. Ela ficou à frente, próxima ao cobrador. Certamente, ela me viu. Ignorou-me. Não disse nada.

                O ônibus seguiu a sua viagem. Ao chegar ao Centro de Taguatinga (Região Administrativa do DF), vi que ela se levantou. Passou por mim; nem olhou. Desceu do ônibus. Misturou-se à aglomeração de transeuntes. Sumiu no rio de pessoas como uma flor delicada que é empurrada pela correnteza. Fiquei distante a olhar. Voltei para casa após esse episódio arqueológico e nem consigo divisar o que pensava. Ao encontrá-la na escola em um dia qualquer, ela disse: “Oi! Carlos!”. Fiquei sem palavras, inexpressivo, como é comum à minha pessoa em inteirações sociais.

                Ao chegar à antiga quinta série, encontrei uma fauna docente bastante diversa. Havia professores que ensinavam bem; outros, nem tanto. Recordo-me de um professor de ciências cujo tom histriônico ficou impresso em minha memória. Suas aulas eram divertidíssimas. Ele se vestia sempre com roupas sociais – camisa social, calça social, sapato social. Parecia um corretor de imóveis com a sua valise escura. Fisicamente era magro e baixo; usava óculos. Fazia lembrar o político Éneas pela calvície.  Sua letra era milimetricamente desenhada. Seus esquemas coloridos feitos no quadro, beiravam à perfeição. Da minha cadeira, eu prestava atenção. Ele começava a falar de moléculas; de processos químicos; de transformações gasosas. De repente, fazia uma careta. Simulava gestos teatrais. Saía da sala. Ficávamos rindo. Algum tempo depois, voltava como se nada tivesse acontecido e nos empurrava para frente em sua jocosa viagem científica.

                Nessa mesma escola, havia uma professora cuja fama era das mais atrozes. Os alunos tinham medo dela. Ouvia a fama dela; punha a imaginação para funcionar. Ela parecia se alimentar dessa horrenda ressonância social. Na sexta série, tive o infortúnio de cruzar com ela. Era professora de ensino religioso. Quando a vi pela primeira vez, observei-a. Sua fama consolidou-se numa determinada aula. A sala não parecia um espaço de aprendizagem sobre as coisas divinas. Estava mais para um tribunal da inquisição. Não havia liberdade para falar. Todos alunos ficavam tensos. Perfilados marcialmente, reduzíamo-nos.  Apequenávamo-nos.  Transformávamo-nos em coisinhas insignificantes. Um olhar dela, congelava a alma. Parecia possuir um chicote de fogo nas mãos. Era magra. Um cocó no alto da cabeça. Usava uma dentadura amarelecida pelo tempo. Não sei se era tabagista. Quando falava, tinha a impressão de que a prótese dentária dançava em sua boca magra e babosa.

                Um colega olhou para o lado. Ela saiu do seu lugar, movimentou-se célere. Disse, olhando para o infeliz, que se comprimia na cadeira: “Por que você não põe uma melancia na cabeça!” “Está querendo aparecer?” Essas frases foram proferidas de uma maneira torrencial. Havia tempestades em seus olhos. Uma camada metálica em sua voz. Reduzi-me em minha cadeira. Sua pedagogia era a do pavor, do medo. Ela ficou como exemplo negativo daquilo que um professor não deve ser. Não sei aonde ela está. Aposentou-se?

                Seu filho estudava na mesma escola em que eu estudava. Vestia roupas compridas em pleno calor. Usava óculos. Ficava pelos cantos a ler a Constituição de 88. Olhava para ele. Tentava decifrá-lo. Ele era um para-raios; certamente, as borrascas inflamadas de sua mãe caíam sobre o seu corpo pequeno e mofino. Sua mãe era professora de religião. Mas era uma religião draconiana. Não a de Cristo.

                No ensino médio, encontrei outras figuras exóticas, singulares. Havia um professor de literatura que me fazia pensar nos textos de Nelson Rodrigues. Um toque de sátiro pulava de suas falas em certos momentos. Tratava-se de figura bastante cômica. Agradável. Era poeta. Tinha livro lançado. Membro da Academia Taguatinguense de Letras, fato que insistentemente surgia em conversas. Às segundas-feiras, nos dois primeiros horários, com certa recorrência, chegava atrasado. Quando estava do lado de fora da sala, via sua imagem aportar no corredor; deslocar-se com passos ligeiros, mas solenes. Uma parte do corpo franzino meio pensa. Cabelos penteados de lado. Óculos de grau. Uma mão no bolso e outra a segurar a valise. Caminhava de cabeça baixa. Parecia pedir desculpas com aquele gesto.

                Observava os seus olhos ainda inchados, da noite mal dormida, de quem saíra de casa atrasado. Quando se aproximava, notava o seu bafo etílico. Imaginava a pândega em que se metera ao longo do final de semana. Dizia possuir uma grande biblioteca. Ficava a imaginar. Vi nele a primeira figura de um grande erudito. Se isso não se confirmou ao longo das aulas, pelo menos a impressão não esmorecia.

                Poderia citar outras personalidades. Outros nomes dessas magnânimas figuras. Houve inúmeras com as quais cruzei. Todas dignas. Todas justas. Todas humanas. Como dizia a poetisa goiana Cora Coralina: “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. Acredito que tenha recebido um pouco de cada um deles, porque a prática os ajudou a aprender aquilo que ensinavam. Sendo professor, acredito que tenha me assenhoreado de um pouquinho de cada um deles, enquanto vou aprendendo a aprender aquilo que ensino.

quarta-feira, dezembro 18, 2019

A grandeza de Paulo Freire e a tolice de um imbecil

"Se não amo o mundo, se não amo a vida, se não amo os homens, não me é possível o diálogo". Paulo Freire

Um dos assuntos mais badalados da semana foi a cena caricata de um presidente despreparado, semialfabetizado, tecendo comentários sobre uma figura da educação. No caso em questão, trata-se nada mais nada menos do que Paulo Freire, uma das personalidades brasileiras mais conhecidas no mundo. Bolsonaro, sempre bolsonárico (uma condição ontológica), chamou o autor de A pedagogia do oprimido de "energúmeno". 

Verificando a acepção da palavra citada pelo presidente (talvez, ele nem conheça os matizes da palavra), verificam-se os seguintes significados: "uma pessoa possessa ou possuída por um demônio; alguém que possui um comportamento descontrolado; um desatinado". Ou em uma última acepção: "sujeito sem conhecimento, um imbecil". E, nesse sentido último, nota-se o quanto a palavra utilizada possui uma falta de nexo com a pessoa a quem ela foi dirigida. 

Certa vez, escutei uma história de um professor da Universidade de Brasília bastante emocionante e singela por tudo o que ela evoca e representa. Dizia ele que certa vez fez uma viagem para a China. Não para a China das grandes metrópoles populosas; de trânsito que beira ao cinematográfico por causa da quantidade de veículos. Não a China das cidades luminosas; não a China dos adjetivos pentagruélicos. Ele foi a um vilarejo do interior, lugar em que o antigo ainda continua com suas tradições; com seus riachos; com suas montanhas; a China da vida simples. Ele visitou uma escola rural. As pessoas do lugar ficaram curiosa para saber de onde procedia aquele ocidental. Insinuou timidamente que era do Brasil. 

E, para a sua surpresa, escutou algo que mexeu com o seu instinto de brasilidade. Ele escutou o nome de alguém que não era um jogador de futebol nem uma atriz de novela. Ele escutou a delicada, mas confortadora frase: "Terra de Paulo Freire". Aquilo colocou a certeza dentro dele de que Paulo Freire não era apenas uma figura pública do Brasil. O pernambucano era um cidadão do mundo. Um divulgador de belezas, dono de uma pedagogia construída com a palavra, a palavra que era tão importante para ele. É importante aprender a "dizê-la"; a desvelá-la. Trazê-la de dentro de si para "pronunciar o mundo, modificá-lo"; transformá-lo pelo entendimento da própria condição de si e do outro. 

A história contada pelo professor é especial, porquanto ilustra a grandeza do filósofo e educador brasileiro. Atualmente, há em movimento, no Brasil, uma marcha em defesa da ignorância, do irracionalismo;  uma corrente anti-iluminista; um macartismo à brasileira, encampado por figuras histriônicas e patéticas. Bolsonaro é uma dessas figuras mais proeminentes. No futuro, haverá risadas - talvez, constrangimento ou vergonha. O atual chefe do Executivo Federal será conhecido - ele sim - como o mais "imbecil" e "energúmeno" dos presidentes que governaram o país. Do contrário, Paulo Freire continuará a ser estudado e respeitado pelo mundo a fora - e reverenciado por pessoas que reconhecem o quanto a sua pedagogia é libertadora. 

sábado, dezembro 14, 2019

Ó Captain! My Captain!" Walt Whitman


A profissão docente não é fácil. É repleta de dissabores. Olhando-a apenas no plano físico, da materialidade, há apenas cansaço. Suor. Falas gritadas em muitos momentos. Indignação. Surtos de poder. Mas, existe uma potência invisível que constrói sentidos; que cativa corações e alimenta olhares silenciosos. Onde menos se percebe, há uma árvore frondosa a frutificar; a produzir beleza; a encher os olhos daqueles que observam.

Deve ser, por isso, que Cristo disse que o semeador saiu a semear. Sim. A função do professor é semear os grãos pequenos, mas insistentes do saber. Eles caem nos solos mais distintos, produzindo matas densas de caráter; de gratidão; de aprendizado; da seiva de que a vida se alimenta.

Escrevo essas palavras chochas, pois recebi uma mensagem esta manhã de uma aluna para quem dei aula em 2013 - a Luíza, criatura meiga e observadora. Fiquei imensamente feliz por saber que ela está bem e começará uma outra jornada! Tornou-se mais latente em mim a noção de que nós professores somos semeadores.


As palavras dela: "Oi, professor! Tudo bem?
Não sei se lembra de mim, tive um ano de aula com você no santa rosa, em 2013 e sou irmã mais nova da Maíra Kirovsky

Ontem tive minha colação de grau e finalmente terminei o ensino médio.

Ao pensar em meus professores e em como tenho enorme carinho por todos, lembrei de você

Embora nosso tempo tenha sido curto, nunca o esqueci e sempre lembro dele com saudades

Posso dizer que você é um dos melhores professores que já tive em todo o meu período escolar

Ir para a escola nunca foi uma tarefa fácil para mim e o ano em que fui sua aluna foi especialmente difícil

Aulas como a sua me ajudavam a conseguir levantar da cama e ir pra escola

Aulas como a sua me inspiraram a ser melhor

E me inspiram até hoje

Quero que saiba da importância que tem em minha vida (e na de muitas outras pessoas, com certeza)

E quero agradecer por tudo

Obrigado por ter me inspirado a ler, obrigado pelas aulas, obrigado por ter me ajudado a formar o ser humano que sou hoje!

Sempre lembrarei de você com ternura e admiração"

Um grande abraço, Luíza!

segunda-feira, outubro 15, 2018

Não diga para mim "feliz dia dos professores", se você aprova um projeto que aniquila a educação e o papel dos professores

Uma das frases mais contundentes de Paulo Freire, entre as tantas proferidas pela boniteza de sua sabedoria, é a de que a "educação é um ato político". Hoje, dia 15 de outubro, é comemorado o dia do professor. É uma data que possui um sabor adstringente; que chega a por um travo, um leve e perceptível sabor amargo na boca. 

(1) Ser professor é uma das mais nobres profissões. Quando afirmo isso, não quero patinar em um lugar comum. Afirmo uma obviedade pela verdade que a afirmação encerra. O destino de um país, necessariamente, passa pelo nível dos professores que possui. Eles são um dos principais contribuidores à formação das novas gerações. Possuem uma importância política, econômica e cultural. Um professor mal preparado deixa marcas profundas em seus alunos; mas, o contrário, também é verdade: um professor sábio, rico em carisma e sensibilidade é capaz de despertar os mais necessários sentimentos que tornam um sujeito responsável e crédulo no ser humano. Em sociedades amadurecidas, os professores possuem um lugar de destaque. São respeitados; bem remunerados. Tidos como heróis. 

(2) Por sua vez, o momento político que vivemos reserva enormes dificuldades para os professores. Há uma hostilidade contra os professores. O famigerado Escola sem partido traz uma agenda policialesca contra os professores. Debater criticamente qualquer assunto, demonstrando os pontos de vista sobre determinado assunto, pode ser entendido como "doutrinação". Um exemplo se deu com meu irmão, professor de história de determinada escola. Ele resolveu trabalhar O atlas da violência, divulgado este ano pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Neste documento oficial, produzido por pesquisadores do Brasil inteiro, que trabalharam com informações empíricas, fica constatado que os negros são as principais vítimas da violência - entre tantas outras violências existentes contra mulheres, gays, índios etc. Que nascer negro no Brasil - e numa periferia - já condena qualquer sujeito potencialmente a um fatalidade - viver menos. Uma mãe, também professora (sic.) de escola pública, foi até a direção da escola denunciar o tipo "de doutrinação esquerdista" que ele estava fazendo. Uma verdadeira lavagem cerebral contra o seu filho. A escola o demitiu. 

Neste período eleitoral, muitos professores votarão em Bolsonaro, atestando uma completa falta de sintonia com a responsabilidade docente. O plano de governo do candidato do PSL para a educação traz uma série de propostas genéricas e vazias de conteúdo. É importante denunciar que se trata de um retrocesso. Por exemplo, a construção de uma escola militar em cada capital do país, como se isso melhorasse por si mesmo a qualidade da educação no Brasil; ou incentivar a educação à distância ainda na educação básica, algo proibido pela atual LDB. Segundo o plano de governo do candidato do PSL, o estado brasileiro gasta imensamente com ensino superior. Por isso, é necessário reverter esses investimentos. Ou seja, o que se busca é colocar o país numa "idade média pedagógica". 

O que se nota no plano de governo do candidato que lidera as pesquisas até agora é que há uma tentativa de monitorar a educação e os professores. O objetivo é cercear os professores, extraindo a possibilidade de qualquer conteúdo crítico da educação escolar. Com isso, agravar-se-á ainda mais o problema da educação nacional. O país precisa abandonar uma educação voltada para o decoreba e estabelecer um currículo em que disciplinas como história, arte, filosofia, sociologia, literatura, sejam valorizadas a fim de propiciar uma intersecção com as outras disciplinas - matemática, português, química etc - para permitir que os alunos agucem a capacidade analítica. A perspectiva bolsonarística é mediocremente empobrecedora por não levar em conta a problemática da educação pública. 

Quando Paulo Freire dizia que "a educação é ato político", ele apontava que a educação é feita por sujeitos ativos; por pessoas que se reconhecem como sujeitos históricos, pois não existe uma educação neutra. Em sua intencionalidade, ela ajuda a elucidar, permitindo que se construa uma alternativa crítica e criadora; ou aquela perspectiva que apenas aceita, que se resigna diante das estruturas opressoras do mundo, sem fomentar nos sujeitos aprendentes uma generosidade humanizadora. 

Por isso, não diga para mim "feliz dia dos professores", se você aprova um projeto que aniquila a educação e o papel dos professores. Isso apenas revela incoerência. Não se ajuda a construir uma sociedade solidária com projetos autoritários e excludentes. 


domingo, outubro 15, 2017

15 de outubro. Dia do professor. O que há para comemorar?

Ser responsável no desenvolvimento de uma prática qualquer implica, de um lado, o cumprimento de deveres, de outro, o exercício de direitos. Paulo Freire

15 de outubro. Dia do professor. Sou professor. Mas não tenho muitos motivos para risos largos. Em um país como o Brasil, ser professor é não ter motivos para comemorar, ainda mais no momento em que vivemos, quando do ponto de vista político, enfrentamos uma situação caótica, preocupante, de disputa hegemônica clara. Fico a observar as congratulações vazias, destituídas de reflexões mais fundas. Afinal, quais seriam os motivos para a comemoração?

Antes de empinar o peito e esboçar uma jactância anêmica, seria importante pensarmos o quanto o professor é valorizado, primeiramente, pelo Estado, pelos mentores das políticas públicas. Atualmente, sobre o professor recai a culpa de ser doutrinador, de "fazedor de cabeças". Se isso fosse verdade, não estaríamos vivendo um dos momentos mais grotescos de nossa história, em que a profissão tem sido criminalizada pelo Escola sem Partido, uma das construções mais patéticas e incoerentes possíveis do ponto de vista epistemológico. Quando o professor doutrina, faz a cabeça das pessoas, se ainda há pessoas que votam em Jair Messias Bolsonaro e pedem a volta da Ditadura? 

Afinal, o que há para comemorar? O Governo Federal congelou os investimentos em educação por vinte anos para inflar os bolsos dos rentistas. Ou seja, a longo prazo, pensa-se no setor financeiro mais do que em um projeto de educação para o Brasil, capaz de colocar o país na esteira do desenvolvimento e construir uma projeto de nação. 

O que há para comemorar, quando há um desmonte da universidade pública? A pesquisa tem sido precarizada. Os investimentos só encolhem, impedindo que o país protaganize a ciência, em projetos capazes de fazer do país uma potência nessa área. Novamente, entende-se que o mercado redimirá os problemas do país. A educação é só um detalhe. Novamente, o professor é só um detalhe, uma profissão proletarizada, secundarizada, sem investimentos, sem formação adequada, continuada.

O que há para comemorar, quando poucos são os Estados e municípios que conseguem pagar o piso salarial nacional para os professores? Importante dizer que o piso é uma conquista histórica. 

O que há para comemorar, quando o PIB é disputado pelo rentismo e pelos setores  que se beneficiam imoralmente com os juros da dívida pública, relegando à educação as migalhas que sobram do fundo público? 

O que há para comemorar? Educação é luta. É uma campo em disputa. É uma atuação política fundamental. Ela gesta o cidadão que se con-forma ou que se in-con-forma. Não é campo neutro. Se há descaso, isso já enuncia um compromisso político daqueles que a pensam. Então, olhando por este ponto de vista, não há motivos para júbilos ou idealismos. 

Que há para comemorar?

A alienação?
A classe dividida?
O trabalho excedente não remunerado?
A ausência de final semana, porque este só existe para a preparação de aula?
Da falta de ócio, de leitura?
A falta de incentivos, de reconhecimento?
De estímulos do Estado e da sociedade?
...dos alunos?
A mão de obra barata?
A desvalorização grassante..?
A síndrome de burn out?
O trabalhar em três escolas para se conseguir pagar as contas?
A ignorância política?
A incapacidade de pensar histórica e dialeticamente a sua condição?

Afinal, tantas são os motivos para a seriedade, para não pensar messianicamente a profissão e poucos são os motivos para o júbilo, para o contentamento que a ocasião exige. 




quinta-feira, abril 30, 2015

Nota de indignação

Quando vemos um cenário de barbárie, selvageria e truculência como o que aconteceu no Paraná no dia de ontem, numa indicação clara de como a educação é tratada nesse país, fica a indignação, o repúdio, um sentimento profundo de ojeriza. Existem inversões gritantes nesse país fundado sob uma concepção patrimonialista, repressiva e violenta. O estado brasileiro está a serviço de determinados interesses de classe. O tratamento dispendido aos professores apenas indica como o cidadão, o trabalhador, é visto numa sociedade formada por dois estratos: o Brasil real (do trem lotado, das escolas em má qualidade, do presídios apinhados, da saúde capenga, da favela, do espaço público segmentado) e o Brasil virtual, do andar de cima (dos privilégios, das negociatas, das cumplicidades corruptoras, dos acordos espúrios para se locupletar com a coisa pública).

 Ou seja, o estado brasileiro serve a determinados fins; serve a uma elite que há 500 anos se encastelou, fincou raízes no tecido social e extrai dele toda a seiva produzida pela força dos trabalhadores. Quando vejo uma notícia como a mostrada abaixo, apenas fica a certeza de que somente daqui a 300 anos, com um grande debate, uma mobilização social forçada, poderemos pensar em outro país. No presente, por enquanto, ao presenciar a ferocidade fascista do estado brasileiro contra os professores, por exemplo, morre a crença de que vivemos em um país que tem um projeto político de constituição coletiva.

domingo, dezembro 14, 2014

Que tipo de educação queremos: aquela que defende o consenso ou aquela que enxerga a história como um palco de atuação e transformação?

Essa é a ideia de educação que as elites brasileiras ainda sustentam - e que o Estado propagandeia -, deixando clara a sua posição acerca de um conformismo; uma defesa explícita do consenso em torno de um tipo de educação alienada, tecnicista, fordista em sua concepção para as classes populares. 


Publicidade realizada pela Prefeitura do Rio de Janeiro, publicada no Jornal O Globo em 07/12 (o que coaduna com a alma ideológica do veículo publicizante) e que mostra crianças numa linha de produção. 


Faz lembrar isso:

domingo, agosto 31, 2014

A naturalização do cotidiano e a política

















Karel Kosik diz em sua Dialética do Concreto algo essencial: "O indivíduo não é apenas aquilo que ele próprio crê nem o que o mundo crê; é também algo mais: é parte de uma conexão em que ele desempenha um papel objetivo, supra-individual, do qual não se dá conta necessariamente". (KOSIK, 1976, p. 62). Com isso, o pensador marxista nos deixa a ideia de que existe uma realidade a qual o homem comum perde o contato em seu cotidiano. Mas o que é essa cotidianidade? 

Na cotidianidade vivem todos os homens. Cotidianidade não é o espaço privado prevalecendo sobre o espaço público. Para ele "a vida de cada dia tem sua própria experiência, a própria sabedoria, o próprio horizonte, as próprias previsões, as repetições, mas também as exceções". Os homens vivem esses fatos e se acostumam a tais eventos, entendendo, que as coisas são aquilo que são. Que não existe uma outra forma de ser. Ou seja, a vida objetiva passa a criar uma instintividade mecânica em relação às coisas e ao mundo. 

O homem, assim, acaba criando um para si, em que considera a realidade como o seu próprio mundo, pois sua visão sobre as coisas se tornam eventos familiares. O sujeito acostumado com o aparente não consegue divisar a existência de outro mundo, de outra forma de ser possível à realidade. A vida calcada no cotidiano e fincada no aparente, sem que tenha uma expectativa da essência, leva o homem a naturalizar determinados acontecimentos. A naturalização dos fatos, leva o sujeito ao comodismo; à incapacidade para fazer julgamentos sobre qual a relação que o seu cotidiano tem com a história.

Um exemplo disso é o hábito que o sujeito moderno tem de colocar o dedo no interruptor de luz e acender ou apagar, sem se dar conta de que por trás de tal ação existe uma cadeia histórica. Ou quando liga a torneira e ver a água jorrando, sem se dar conta do processo que trouxe a água até à sua casa. Sartre menciona esse processo de naturalização tão comum da vida burguesa em seu romance existencialista A Náusea. Os jovens de hoje naturalizaram a consciência de que o mundo é da forma que eles veem; que os celulares são um elemento que acompanha a humanidade desde as mais remotas datas. Não saberiam viver sem os aparelhos, pois acabaram naturalizando a existência desses objetos portadores de fetiche. 

Quando penso estas coisas, me vêm à mente uma afirmação de José Carlos Libâneo em sua famosa Didática. O educador afirma em tom althusseriano que "O sistema educativo, incluindo as escolas, as igrejas, as agências de formação profissional, os meios de comunicação de massa, é um meio privilegiado para o repasse da ideologia dominante". Poderíamos completar afirmando: "para a naturalização do mundo". Em seguida, o educador nos propõe que desconfiemos nas seguintes afirmações:

(1) O Governo sempre faz o que é possível; as pessoas é que não colaboram;
(2) Os professores não têm que se preocupar com política; o que devem fazer é cumprir sua obrigação na escola;
(3) A educação é a mola do sucesso, para subir na vida;
(4) Nossa sociedade é democrática porque dá oportunidades iguais a todos. Se a pessoa não tem bom emprego ou não consegue estudar é porque tem limitações individuais;
(5) As crianças são indisciplinadas e relapsas porque seus pais não lhes dão educação conveniente em casa;
(6) As crianças repetem de ano porque não se esforçam; tudo na vida depende de esforço pessoal;
(7) Bom aluno é aquele que sabe obedecer (LIBÂNEO, 2008, p.20)

As afirmações são aplicadas no contexto do mundo da educação, mas, na vida cotidiana, poderíamos ampliar a lista, sem esquecer que muitas dessas premissas são construídas pelos meios de comunicação de massa e acabam ganhando um grau de verdade inquestionável:

(1) Política não presta; político é tudo corrupto; 
(2) Se passou na televisão é por que é verdade; não há o que se discutir;
(3) A violência é um problema que é resolvido pela presença da polícia;
(4) Os menores são os responsáveis pela violência nas grandes cidades;
(5) O Brasil é um país que não dar certo; nada presta por aqui;
(6) Comunismo, marxismo e socialismo são símbolos de ditaduras; 
(7) Manifestação ou reivindicação social é um movimento orquestrado por "vândalos" e "vagabundos";
(8) Você é capaz de ter sucesso na vida; para isso é só se esforçar que você consegue;
(9) Só é pobre quem quer, pois é só trabalhar;
(10) Deus sempre ajuda aquele que ora;
(11) O mundo sempre foi assim; não tem como mudá-lo; 
(12) "Sou brasileiro e não desisto nunca";
(13) Somos uma democracia racial; 
(14) A desigualdade social é um problema de gestão;
(15) O mundo pode ser "consertado"; para isso, basta eu fazer a minha parte; 

A lista poderia continuar. Esses são apenas algumas frases que me ocorreram. Kosik ainda afirma: "A alienação da cotidianidade reflete-se na consciência, ora como posição acrítica, ora como sentimento do absurdo. Para que o homem possa descobrir a verdade da cotidianidade alienada, deve conseguir dela se desligar, liberá-la da familiaridade, exercer sobre ela uma "violência"".(p.78). Por violência, entenda-se a capacidade de "ver a própria face e conhecer o próprio mundo", destruindo de uma vez por todas a naturalização - a pseudoconcreticidade. 

terça-feira, dezembro 10, 2013

Mosaicos

Minhas férias começam oficialmente na sexta-feira. Mas, já começo a sentir os seus eflúvios soprando suavemente nos vales mais interiores de mim mesmo. Foi um ano cheio. Trabalhei muito. Excessivamente. Ainda estou vivo. O blog - esse espaço para minhas garatujas descompromissadas - anda às moscas. Voltarei a ler. Livros não faltam. Existe uma montanha me esperando: biografias (Tolstói, Malcom X, Hobsbawn, Marx etc); romances (Mario Vargas-Llosa, Swift - que já estou lendo -, José Lins do Rego, Brontë, etc); poesia (João Cabral de Melo Neto); história (Hobsbawn, Darcy Ribeiro, Boris Fausto) etc. Não sei se dará tempo de ler tudo isso. Sinto-me como uma criança numa loja de brinquedos. É muito estímulo, muitas possibilidades. 

Para tirar as teias de aranha deste espaço, resolvi colar um comentário que fiz lá no Facebook no dia de ontem, sobre uma reportagem que li sobre o resultado que o Brasil alcançou na prova do Pisa.

"Este texto assusta! E serve como ecplicação para uma série de problemas com os quais convivemos. O Brasil é um país firmado na desigualdade. E essa desigualdade acaba provocando consequências drásticas no processo formador de nossas escolas. Se por uma lado temos uma escola pública deficitária, com alunos pouco interessados ou mais preocupados com o percentual mínimo para passar de ano, temos por outro lado os filhos da classe média, que sofrem com os mesmos problemas de nossa educação deficitária - só que em escolas privadas(sic). Os mais privilegiados financeiramente buscam garantir por meio de mensalidades estratosféricas, em uma suposta instituição privada "decente", a vaga do filho nos estabelecimentos superiores públicos de educação, quando este terminar a educação básica. Todavia, tal fato não é uma garantia eficaz, pois temos um gargalo sócio-histórico que gera consequências alarmantes. E tais problemas vão desde o processo de formação dos professores, às avaliações que são aplicadas nas escolas. A profissão docente, no Brasil, tornou-se proletarizada; multiplicam-se as instituições de ensino que formam pessimamente os professores; a relação do professor com o aluno ainda é desarmoniosa; quando esta não está fundada na indiferença, está fundada no medo do aluno (cliente) "mandar" no professor (empregado, pois aquele paga o salário deste); ou mesmo de nossos currículos baseados no decoreba e que desestimulam o conhecimento historicamente produzido pela sociedade; ou ainda, problemas sociais sérios que acabam criando a evasão escolar, gerando como consequência uma horda de sujeitos que não entenderam a relevância histórico-cultural da escola. Assim, entendo que quando as políticas públicas são ineficazes no que tange à educação, o Estado se torna responsável por consagrar as desigualdades sociais. Ou seja, o Estado se torna criminoso, porquanto acaba jogando de forma acintosa os mais pobres na ignorância da inoperança histórica. A escola ainda é, para os mais pobres, a única forma de se conseguir a emancipação social. Como dizia Gramsci, é lá que deve atuar a figura do intelectual orgânico, capaz de fazer convergir forças para tornar pública e explícita uma "práxis" contra-hegemônica.

O texto abaixo serve para que reflitamos um pouco. Serve para mostrar o quanto a burguesia brasileira sempre tenta/tentou imitar os modelos estrangeiros. Todavia, essa empresa nunca foi bem-sucedida, pois a sociedade desigual baseada no modelo defendido por ela cria um processo de equidistância e retro-alimentação, colocando-nos numa roda-viva histórica.

O Brasil foi o país que mais evoluiu desde 2003 - período do governo do PT -, mas é preciso caminhar com compromisso e responsabilidade".

sábado, junho 15, 2013

Uma imagem que fala


Emblemática esta imagem. Fiquei refletindo depois que a vi. Faz alusão a uma passagem da bíblia (se não estou equivocado, Provérbios 22). Uma blague forte e certeira. Não me impressiona o fato de que se trata de uma criança lendo Nietzsche e desconstruindo a ideia que somente a religião judaico-cristã pode educar. Impressiona-me, na verdade, as significações filosóficas da frase e da imagem. Muito bom!

domingo, setembro 16, 2012

Aula chata é legal - Por Cassionei Petry

O professor chega à sala de aula, sorridente, dá bom dia, abre o caderno de chamada e, brincalhão, diz: “chamaaaadaaaaa... a cobrar, para aceitá-la, continue na linha após a identificação”. Os alunos riem, um deles diz “só podia ser o 'sor' mesmo”, o gelo é quebrado, o mestre termina o dever burocrático e, ainda sorridente, vai começar a aula. Antes, porém, de ir ao quadro (negro, verde ou branco), ouve de um aluno, com a aprovação da maioria, a frase que lhe tira toda a base de sustentação: “Profe, faz uma aula diferente hoje, pra não ficar tão chata!” O mestre diminui seu sorriso, conta mentalmente até três e responde: “Caros alunos, bem-vindos ao mundo real. A realidade que os espera lá fora é chata, às vezes, assim como uma aula de língua portuguesa”. 

Criou-se, nos últimos tempos, a ideia de que o professor deve ser como um apresentador de televisão, que precisa manter a audiência, tanto do auditório, como dos telespectadores. É preciso conquistar os alunos, dizem muitos teóricos no assunto, já que há outras coisas mais interessantes fora da escola. Para tanto, se faz necessário métodos inovadores, como a dança do “cada um no seu quadrado” ou incentivá-los a ler Paulo Coelho. Mesmo assim, porém, não se consegue agradar aos alunos, que querem cada vez mais liberdade e menos compromisso. Nesse diapasão, daqui a pouco, iremos para a sala de aula, com o bolso recheado de cédulas em forma de aviãozinho, e gritaremos “quem quer dinheiro” para que os alunos prestem atenção nas lições. Isso se houver lições para ensinar.

A internet proporciona um mundo mais interessante para os nossos jovens, dizem. Até posso concordar, afinal de contas também reservo parte do meu tempo para pesquisas na rede mundial de computadores, e com resultados esplêndidos. No entanto, sabemos que eles não utilizam, na maioria dos casos, a web para aprender, mas sim para coisas mais fúteis, como compartilhar fotos, baixar a música do momento (geralmente de péssimo gosto), assassinar a língua portuguesa e muitos etcéteras. Sou contra as coisas fúteis? Não, até porque o entretenimento faz parte da nossa vida e eu mesmo já compartilhei fotos e assassinei a língua uma porção de vezes em redes sociais na internet (psiu, bem baixinho aqui: já fiz downloads de músicas de gosto duvidoso também). No entanto, na idade em que mais se deve aproveitar o tempo para aprender, os jovens desperdiçam a chance de conhecer o que de mais importante já foi realizado pelos nossos cientistas, filósofos, matemáticos, historiadores e escritores. E se nós, professores, abrirmos mão disso e nivelarmos por baixo o conhecimento, estaremos criando seres humanos medíocres, preocupados, mas nem tanto, tão somente em atingir a média para passar de ano.

As aulas não devem ser chatas? Por que não? Se o estudante está na escola para aprender, uma das lições é a de que nem sempre as coisas são prazerosas. Acordar às 6 horas da manhã para trabalhar não é nada agradável. Pegar ônibus lotado é um saco. Nem sempre se tem um chefe carismático. Conviver com gente chata é chato. As coisas não são, portanto, como queremos que sejam. O mundo não gira em torno do nosso umbigo. Essa é a realidade que nossos alunos vão enfrentar. E é isso, também, que devemos ensinar.

Texto publicado com a autorização do senhor Cassionei

quarta-feira, maio 09, 2012

Breve comentário a uma leitura inicial de A Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire

Quando Paulo Freire escreveu os seus primeiros trabalhos, o contexto mundial era de Guerra Fria. O mundo estava dividido entre americanos e soviéticos. Mesmo com essa divisão, criou-se a ideia de Primeiro Mundo e Terceiro Mundo. O Primeiro Mundo pertencia àquelas nações ricas, desenvolvidas. O Segundo Mundo pertencia aos países socialistas, que não faziam parte do Primeiro Mundo, mas também não poderiam ser classificados como de Terceiro Mundo. E, por fim, do Terceiro Mundo fazia parte aqueles países probres, nos quais as desigualdades sociais e econômicas eram alarmantes. 

A reflexão de Freire tem por finalidade refletir sobre a massa de opressos que vivia à margem nesse chamado Terceiro Mundo. Que eram explorados e consentiam com isso. Por conta disso, ele chamou um dos seus livros (que estou lendo nesse momento) de A Pedagogia do Oprimido. Seu discurso era direcionado aos oprimidos - embora também ao opressor. Analisando o seu texto (docemente poético e ao mesmo tempo visceral porquê trágico), nota-se o quanto permanece atual a reflexão feita no final da década de 60, enquanto estava exilado no Chile. Paulo Freire sempre buscou, dialeticamente, entender a condição do marginalizado, daqueles que nada são e que foram "proibidos de ser".

Gostaria apenas de citar um trecho de A Pedagogia do Orpimido: "Há, por outro lado, em certo momento da experiência existencial dos oprimidos, uma irresistível atração pelo opressor. Pelos seus padrões de vida. Participar destes padrões constitui uma incontida aspiração. na sua alienação querem, a todo custo, parecer com o opressor. Imitá-lo. Seguí-lo. Isto se verifica, sobretudo, nos oprimidos de "classe média", cujo anseio é serem iguais ao "homem ilustre" da chamada classe "superior"".

Notável síntese. Freire fala de uma violência trans-histórica de sedimentação de uma lei, pois "esta violência, como um processo, passa de geração a geração de opressores, que se vão fazendo legatários dela e formando-se no seu clima geral. Este clima cria nos opressores uma consicência fortemente possessiva. Possessiva do mundo e dos homens. Fora da pessoa direta, concreta, material, do mundo e dos homens, os opressores não se podem entender a si mesmos. [...] Daí que tendam a transformar tudo o que os cerca em objetos de seu domínio. A terra, os bens, a produção, a criação dos homens, os homens mesmos, o tempo em que estão os homens, tudo se reduz a objeto de seu comando. Nesta ânsia irrefreada de posse, desenvolvem em si a convicção de que lhes é possível transformar tudo a seu poder compra. Daí a sua concepção estritamente materialista da existência. O dinheiro é a medida de todas as coisas. E o lucro, seu objetivo principal".
Sigamos com a leitura do texto freiriano!

Abaixo, dois vídeos que trazem uma entrevista concedida por Freire em 1997, ano de sua morte.

domingo, janeiro 22, 2012

O senso comum, como ação orientadora do status quo

E tantos são aqueles que estão amarrados às teias invisíveis do senso comum. Acorrentados a formas acríticas de pensamentos como em O Mito da Caverna de Platão, enxergando o mundo por intermédio das sombras; defendendo o indenfensável, como se isso resumisse e fosse a exata expressão daquilo que é. O mundo não "é" assim; ele "está" assim.

"O senso comum interessa (e muito) à situação conservadora da sociedade em que vivemos, em função de fato de que ele não possibilita o surgimento de uma "massa crítica" de seres humanos presentes e ativos na sociedade. O senso comum é o meio fundamental para a proliferação da manipulação das informações, das condutas e dos políticos e sociais dos dirigentes e dos setores dominantes da sociedade".

(LUCKESI, Cipriano Carlos. Filosofia da Educação. Editora Cortez. São Paulo. 2011, p. 134)

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Comunicação e cultura em Paulo Freire: 30 anos depois

Hoje, a contribuição de Paulo Freire para o campo da comunicação é fonte de inspiração e referência. A situação, certamente, não era a mesma no final da década de 70. Embora reconhecido internacionalmente e estudado em várias disciplinas, seu pensamento era quase que totalmente ignorado nos estudos de comunicação, inclusive no Brasil.

Visitando a trabalho o sul da Índia, estado de Tamilnadu, no início de 2010, o professor de física da Universidade de Brasília, Amílcar Rabelo de Queiroz, deparou-se com uma situação reveladora. Em viagem para a região de Thanjavur conheceu um vilarejo pobre – Pattukkotta – que vive basicamente da pequena agricultura. Lá visitou uma escola de educação fundamental. Para facilitar sua apresentação e criar um clima amistoso, os colegas do Institute of Mathematical Sciences (IMSC), que com ele viajavam, informam aos professores da escola que Amílcar era brasileiro, da terra de Pelé. “Brasil? Pelé?”. Repetem várias vezes. De repente, um deles sorri e exclama: “ah, ah, Brasil, claro, terra de Freire, Paulo Freire!” E alcança na estante vários livros de um dos nossos maiores educadores, traduzido, estudado e reconhecido em todo o mundo.

Paulo Freire faleceu há quase 14 anos, em maio de 1997. Se estivesse vivo, completaria noventa anos em setembro. Sua obra, seu pensamento e sua ação deixaram marcas profundas em vários campos do conhecimento. Seu único ensaio especificamente sobre comunicação – Extensão ou Comunicação? – foi escrito no exílio chileno, em 1968, e publicado pela Editora Paz e Terra, no Brasil, em 1971.

Tenho afirmado recorrentemente que as reflexões de Freire sobre comunicação nunca estiveram tão atuais. [cf. nesta Carta Maior “Paulo Freire, direito à comunicação e PNDH3”].

Direito à comunicação
A necessidade de construção e positivação de um direito à comunicação foi identificada há mais de 40 anos pelo francês Jean D’Arcy, quando diretor de serviços audiovisuais e de rádio do Departamento de Informações Públicas das Nações Unidas, em 1969. Naquela época ele afirmava:

Virá o tempo em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos terá de abarcar um direito mais amplo que o direito humano à informação, estabelecido pela primeira vez 21 anos atrás no Artigo 19. Trata-se do direito do homem de se comunicar.

A proposta de D’Arcy, na verdade, assumia e consagrava uma perspectiva “dialógica” da comunicação que já havia sido elaborada, do ponto de vista conceitual, por Paulo Freire no ensaio "Extensão ou comunicação"?

Freire recorre à raiz semântica da palavra comunicação e nela inclui a dimensão política da igualdade, a ausência de dominação. Para ele, comunicação implica um diálogo entre sujeitos mediados pelo objeto de conhecimento que por sua vez decorre da experiência e do trabalho cotidiano. Ao restringir a comunicação a uma relação entre sujeitos, necessariamente iguais, toda “relação de poder” fica excluída. O próprio conhecimento gerado pelo diálogo comunicativo só será verdadeiro e autêntico quando comprometido com a justiça e a transformação social. A comunicação passa a ser, portanto, por definição, dialógica, vale dizer, de “mão dupla”, contemplando, ao mesmo tempo, o direito de ser informado e o direito de acesso aos meios necessários à plena liberdade de expressão.

Como se vê, Freire teoriza a comunicação interativa antes da revolução digital, vale dizer, antes da internet e de suas redes sociais. No nosso tempo, quando as novas tecnologias [TICs] rompem com a unidirecionalidade da comunicação “de massa” tradicional, o conceito de comunicação relacional e transformadora oferece uma referencia normativa revitalizada e desafiadora.

História das idéias
Ao reafirmar a atualidade do pensamento de Paulo Freire, especificamente para o campo da comunicação, tomo a liberdade de registrar os trinta anos de "Comunicação e Cultura: as idéias de Paulo Freire", publicado pela Paz e Terra, em março de 1981 (2ª. edição 1984). O livro é uma adaptação de tese de doutorado defendida em agosto de 1979.

Na verdade, o argumento central sobre a importância de Freire para o estudo da comunicação já havia aparecido em artigo anterior que publiquei, com Clifford Christians, na revista inglesa Communication (vol. 4, n. 1, 1979) sob o título “Paulo Freire: the political dimension of dialogic communication”, traduzido e publicado em português pela revista Síntese (vol. VI, n. 16, maio/agosto de 1979).

A história das idéias nos diferentes campos do conhecimento – inclusive na Comunicação – muitas vezes contém omissões, deliberadas ou não, ao deixar de registrar contribuições feitas por autores que, por diferentes razões, não se situam no seu “mainstream” ou não se alinham aos grupos dominantes na academia. Daí, às vezes, a necessidade de auto-registros isolados como esse.

Hoje, a contribuição de Paulo Freire para o campo da comunicação é fonte de inspiração e referência. A situação, certamente, não era a mesma no final da década de 70 do século passado. Embora reconhecido internacionalmente e estudado em várias disciplinas – filosofia, sociologia, serviço social, religião, história – seu pensamento era quase que totalmente ignorado nos estudos de comunicação, inclusive na sua terra, o Brasil.

A incrível história do prof. Amílcar na Índia, de que só agora tomei conhecimento, serviu de mote para que fizesse, então, esse duplo registro: a permanente atualidade do pensamento do educador brasileiro e os trinta anos do Comunicação e Cultura: as idéias de Paulo Freire.


Venício A. de Lima é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010.

DAQUI

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Como estrelas na terra e a poética do humano

Talvez a meia dúzia de leitores-visitantes mensais desse blog me julguem sisudo. Sério demais. Com trejeitos alambicados. Com estilo textual afetado. Os sérios não são levados em conta. Não se trata de uma reclamação, um lamento. Mas apenas uma observação gratuita, momentânea. Geralmente escrevo aquilo que me vem à ideia, como resultado de experiências e observações que faço. E hoje à tarde, tive a oportunidade de assistir ao filme Como estrelas na Terra pela segunda vez. Impossível não fazer constatações sérias sobre a película.

É um dos filmes mais belos que já vi. Desde que o filme Quem quer ser um milionário ganhou oito Oscars, que o mundo direcionou o olhar com mais atenção para a Índia. Como estrelas da terra é uma dessas películas que suscitam constatações graves, porém, alegres, poéticas, catárticas. Faz-me lembrar Sociedades dos Poetas Mortos ou Língua das Mariposas. A obra aponta para aquilo que Paulo Freire verbaliza em Pedagogia do Oprimido: "ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo".

O papel do educador é fazer com que aprendente tenha uma emersão. E dessa emersão, a sua consciência (daquele que aprende) estabeleça vínculo com o mundo e ele saiba quem é enquanto sujeito histórico. É a partir desse encontro que os dramas, deficiências e dores existenciais são superados. Como estrelas na terra revela, sugere-nos, com muita poesia e beleza, o quanto a compreensão, o olhar terno e o calor do encontro pode fazer dos homens, verdadeiros seres humanos.

Uma das falas mais belas do filme é quando o professor Ram Shankar Nikumbh (Aamir Khan, diretor, produtor, escritor do filme) afirma que a arte existe para que enuncie o sentir humano. Acredito que esta afirmação seja uma metáfora-metaliguistica da obra, falando dela mesma. Ou seja, o filme é um daqueles trabalhos que fazem desvelar o sentir de cada um de nós. Vi ao filme duas vezes e (afirmo sem receios ) chorei as duas vezes. Todos têm a sua importância na terra. Todos os homens são seres distintos e o universo foi feito com cores variadas. Todos existem como estrelas na terra.

Leia AQUI uma pequena sinopse do filme

segunda-feira, novembro 29, 2010

O mundo de Sofia, o filme

A película O Mundo de Sofia foi filmado no ano de 1998. É uma obra origem norueguesa elaborada pelo diretor Erik Gustavson. Está baseado na obra homônima do escritor, também norueguês, Jostein Gaarder. O livro de Gaarder foi publicado em 1991 e vendeu milhões de cópias em todo o mundo. Estima-se que somente no Brasil já esteja na setuagésima reimpressão. O filme baseado no livro chegou ao mercado brasileiro no ano de 2008.

O filme, assim como o livro, conta a história da adolescente Sofia Amudsen. Sofia mora com sua mãe, seu gato, seu peixe dourado e sua tartaruga. Seu pai trabalha num navio petroleiro e fica fora de casa a maior parte do ano. Ela leva uma vida de normalidade como uma mera colegial. Até que recebe dois misteriosos bilhetes, ambos com duas fulgurantes perguntas: “Quem é você?” e “De onde vem o mundo?” A partir daí, Sofia passa a receber paulatinamente um curso de filosofia pelo correio.

Por intermédio dessas correspondências, a garota se torna discípula de um filósofo denominado Alberto Knox. A princípio, Alberto é uma figura anônima, incógnita, mas, aos poucos revela um pouco mais de si. O cinqüentenário Alberto ensina história da filosofia de uma maneira extremamente simples e versátil. Inicia pelos Pré-Socráticos até os filósofos modernos. Por exemplo, para ensinar sobre os filósofos medievais, o professor leva a menina Sofia a um mosteiro. No intuito de ensinar sobre o existencialismo de Sartre e Simone de Beauvoir, Sofia é levada a um café francês, palco histórico onde se desfechavam muitas das disputas filosóficas na França da segunda metade do século passado. Ou seja, é o pensamento complexo sendo amoldado pela inserção do aprendente no contexto daquilo em que é ensinado. O saber não se torna em algo distante, ausente. Num curso de filosofia, a maior tendência seria tornar o aprendizado árido. Todavia, a pedagogia do professor Alberto está repleta de praticidade e magia, o que torna o ato de aprender em algo prazeroso.

Ao final, percebemos que Sofia e Alberto são personagens de uma metaficção. Certo Alberto Knag é o criador dos dois personagens. Knag permite que as duas personagens se descubram enquanto figuras fictícias. A filosofia tornou possível que os dois – Sofia e Alberto Knox – transcendessem a própria realidade do ir-real em que se encontravam.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque

terça-feira, fevereiro 03, 2009

A língua das mariposas

Vi há poucos dias o filme espanhol “A Língua das Mariposas”. É por isso que escrevo estas palavras. O filme não sai da minha cabeça. É um dos melhores filmes que vi ultimamente. Se fosse contabilizar os filmes que vi nesse princípio de ano, a memória talvez falhasse (“Os deuses devem estar loucos I e II”, “Amores Brutos”, “O Declínio do Império Americano”, “Os 27 beijos roubados” e., agora, o filme do diretor José Luis Cuerda).
Para quem gosta de filmes belos, poéticos e com finais que não conformam o público, não deve ver a obra. A película é forte em sensibilidade. O diretor soube unir fotografia historicamente convincente com enredo poético. A Guerra Civil Espanhola está às portas e aquele acontecimento será marcante na vida da pequena cidade onde o menino Moncho mora. Aos sete anos de idade, ele vai para a escola. Tem medo. Segundo as histórias que ouvira, os mestres eram pessoas malvadas, algozes que fulminavam o corpo e a alma. Essa suposição logo se desvanece quando o pequeno conhece Don Gregório, o mestre paciente, mágico em simplicidade.
A mais bela das relações se dá entre o menino e o professor. A admiração de Moncho cresce à medida que escuta a sabedoria e conhecimento do professor. Don Gregório é querido na pequena comunidade. Sua paciência e sua intelectualidade são virtudes admiradas por todos.
Don Gregório ensina a Moncho que a língua das mariposas é um canal que o animal enrola em forma de espiral e somente o desenrola quando sorve o néctar das plantas. Mas ao fazer isso, a mariposa leva o pólen da planta. Estabelece-se uma relação de mutualismo entre a mariposa e a planta. Os dois organismos lucram com aquilo. A língua das mariposas é uma metáfora. Outro aprendizado muito importante diz respeito a um pássaro australiano chamado perlintorrinco. Segundo o mestre, aquele pássaro é o mais generoso e romântico dos conquistadores da natureza. Don Gregório diz que para requestar a fêmea ele apanha a mais bela flor que acha e leva para ela. É o pássaro da generosidade e da beleza.
A repressão política começa a se alastrar. Os republicanos são acossados pelas forças fascistas que tomam a Espanha e são, necessariamente, presos como criminosos políticos. E e aí que reside um dos momentos mais belos, brilhantes e tristes do filme. O professor, o líder, o mestre generoso e paciente é preso por conta de suas posições ideológicas, juntamente com outros homens comuns da cidade. A comunidade se reúne para ver os presos serem levados pelo exército. Enquanto são encaminhados para o caminhão, a população com o escopo claro de não se comprometer com as forças repressoras do governo, inicia um linchamento verbal. “Comunistas”. “Ateus”. “Traidores”. “Filhos de uma puta”. E outros palavrões depreciativos. De repente, entre os presos, aparece Don Gregório. O seu caminhar lento, o seu olhar de dignidade e compaixão encara a multidão. Moncho ver o mestre, pois estava ali com a família. A mãe o incita a protestar contra os homens, contra o professor. Aquela atitude da mãe de Moncho é com o fim de livrar a família da perseguição política. O pequeno atira pedras nos homens, vocifera contra o mestre: “Comunista”. “Ateu”. “Língua de Mariposa”. “Perlintorrinco”. O filme acaba justamente aí.
Fica-nos a inquietação. O menino de fato expressa os aprendizados, tornando aquilo uma metáfora poética ou solta as palavras que lhe vem à ideia? Essa cena inquieta. Deixa-nos atônitos, pensativos. Faz pensar na barbárie dos regimes ditatoriais e fascistas como foi o do general Franco; na beleza da educação; na relação que estabelecemos com escola; com as impressões mágicas que colhemos dos nossos primeiros mestres.
Afirmo que é necessário que você assista a esta película de José Luis Cuerda. Indescritível mente, poética e bela.

P.S. Quem quiser ler mais sobre o filme numa perspectiva educacional, eu achei um bom texto AQUI!!!

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: terça-feira, 03 de fevereiro de 2009, 22:43:16

domingo, junho 22, 2008

Homens como Carlos eram necessários à sociedade...

A vida reserva momentos tristes e inesperados. Na última sexta-feira, dia 20 de junho, assassinaram o grande e admirável professor Carlos Ramos Mota. Confesso que o meu coração ficou profundamente ferido com a morte do Carlos. Acredito também que este tenha sido o sentimento que alimentou a alma de muitos daqueles que conviveram com este grande entusiasta. Tem-se a mania de afirmar que somente falamos bem das pessoas quando estas morrem. Não creio que este seja um ditado de todo errado. Mas quando se trata de Carlos Mota, estamos falando de uma figura que é para ser lembrada na vida e na morte.
 
Ele era um verdadeiro ser-humano - no sentido mais extremo termo. O professor Carlos era um grande um idealista, um utopista daqueles que acreditavam na possibilidade revolucionária da educação. Tive o privilégio de aprender com ele; de ser seu aluno. As suas aulas eram um convite delicioso à reflexão e ao saber. Geralmente, sempre iniciava as aulas com uma pensata, que era o seu modo de dizer: "Olhe para o mundo com novos olhos! Não se acostume com o que te mostram!". Conheci o Carlos, assim como todos os alunos, lá no Imesb - nas aulas de educação. Suas aulas eram convites deliciosos à reflexão. Recordo-me de seu método de ler um texto do Mário Sérgio Cortela ("Não espere pelo Epitáfio - provocações filosóficas") e em seguida fazer alguns comentários extremamente pertinentes. 
 
Ele chamava de "método da escutatória". Ou seja, era preciso aprender a ouvir para poder falar. Suas reflexões eram ponderações revolucionárias. Pegava em nossas mãos e nos conduzia pelo reino mágico das possibilidade, do sonho e da decantação da realidade. Carlos era um excelente orador. Era um pessoa que entusiasmava; era bom ser conduzido pelo seu entusiasmo. Alguém que sonhava com a transformação da sociedade por meio de uma educação engajada, capaz de promover seus efeitos caudilhescos. Somente quem conviveu com ele - nem que seja de uma forma tênue - sabe a importância de homens com ele para o país. Homens como o Carlos são necessários à sociedade. São como a luz que irradia e faz perceber o valor das coisas. 
 
Dos professores que aprendi a admirar, Carlos era com certeza um dos mais destacados. É lamentável que a torpeza de um ogro tenha ceifado a vida de um campeão valoroso. Acredito que este seja o sentimento que habita o coração de cada um dos alunos privilegiados que aprenderam com o Carlos o exemplo da vida. A vida é fugaz, efêmera; é ligeira e, por isso, precisamos fazê-la valer a pena. É como diz o texto do Mário Sérgio Cortela que certa vez o professor Mota leu para nós: "Não é necessário ir até os extremos, mas é essencial não ficar restrito ao confortável e letárgico centro; muitas vezes o meio pode ficar anódino, inodoro, insípido e incolor. Alguns desses desejos de romper fronteiras mornas só aparecem nos epitáfios, sempre em forma nostálgica e lamentadora de um 'eu devia ter'. Para além da mitologia grega, não é por acaso que outros Titãs têm sido tão festejados quando cantam de forma deliciosa e perturbadora (e muitos com eles): "Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer, devia ter arriscado mais e até errado mais, ter feito o que eu queria fazer".
 
Com certeza, Carlos ousou, não esperou pelo epitáfio. Lamentamos profundamente a sua morte e ficamos sentidos em ver como a barbárie triunfa a passos largos, como as mazelas sociais, os cânceres brotam ao nosso lado e soltam suas pústulas sanguinolentas afetando os nossos mais queridos vizinhos, colegas, amigos... modelos... heróis. Viva o grande incentivador, educador, amigo, Carlos Mota.