Kierkegaard já dizia isso. É que a fé não lida com categorias materializáveis, mas com o invisível, com o intangível. Lembrando aquele velho princípio agostiniano: "Creio para depois pensar". Além do que o dogmatismo da fé é uma categoria não relatizável. O crente sente sua "existência" abalada quando essa suposta "verdade" é colocada em xeque. Daí, ou se aceita a fé como verdade incondicional ou se põe abaixo toda aquela epistemologia capaz de explicar todos os fenômenos universais. Se ele relativiza, aquilo que ele crer deixa de ser "verdade" e passa a ser apenas mais uma narrativa como as tantas que já existem. Para o crente, deixar de dialogar com essa "verdade" é "perder a fé" e correr um sério risco. Admirável a fala de Carl Sagan.
Mostrando postagens com marcador Carl Sagan. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Carl Sagan. Mostrar todas as postagens
domingo, agosto 04, 2013
terça-feira, janeiro 01, 2013
"Pálido ponto azul", uma reflexão de início de ano a partir de um vídeo de Carl Sagan
Não quero parecer pedante com este post. Não quero parecer leviano; nem ostentar aquilo que não posso ser. Este é o primeiro post para o ano de 2013. E este blog nunca foi um espaço assediado por visitantes. Insisto em escrever garatujas, pois acho que isso é um exercício catártico. E se alguém passa os olhos por aquilo que escrevo, já me sinto feliz e realizado. Obrigado.
Ontem, assisti a um vídeo de Carl Sagan, o famoso entusiasta da ciência e uma das descobertas mais caras e graciosas do ano de 2012. Li e especialmente vi muita coisa sobre Sagan disponível na internet ano passado. "Pálido ponto azul" é o nome de um dos seus livros mais famosos. No vídeo, que também possui o nome do livro, Sagan faz uma bela reflexão a partir de um evento: A sonda Voyager fora enviada para além de Saturno e de lá tirou uma foto do nosso planeta. Aquela foto acabou impressionando Sagan. Ele viu, na foto, uma mancha pouco interessante. Que não chamava atenção. Não possuía atrativos. Um pequeno ponto pálido, com uma luz bruxuleante, no meio de um universo pontilhado de estrelas.
Naquele ponto tênue, aparentemente sem interesse, estava o centro de sua reflexão. Aquilo era o nosso planeta. A Terra é a nossa casa e fora dela (até agora) não temos notícias de vidas tão complexas como as nossas. Desse modo, Sagan nos propõe uma bela mensagem, afirmando que: apesar desse ponto sem atrativos ser tão inexpressivo no palco amplo e infinito do universo, ele possui uma relevância fora de qualquer especulação para nós. Não somos nada sem ele.
Pois tudo o que conhecemos e desejamos conhecer, fazemo-lo por causa dele. É nesse palco que estão as pessoas que amamos; onde nascemos, crescemos e morremos; é nesse palco que sentimos as nossas dores; é nesse palco de luz trêmula que guerras são travadas para satisfazer a megalomania de alguns e que numa geração seguinte o triunfo conquistado se fragmenta; é nesse mundo, que não possui vantagens em relação a qualquer outro lugar do universo, que fazemos germinar as nossas vaidades, nossos pretensos conhecimentos e inteelctualidade, que nada é senão vento e cinza e que o tempo se encarrega de apagar com suas areias operárias; é nesse palco que grassam as religiões, as ideologias, os combates; é nele que não aprendemos a viver em paz uns com outros, mesmo tendo a mesma origem e possivelmente o mesmo destino, já que não somos eternos - somos transitórios como o pequeno ponto pálido azul; é nesse mundo que vivemos que julgamos as coisas conforme a nossa vontade e não somos capazes de abrir mão daquilo que pensamos como centro de toda a verdade em algumas ocasiões.
Mas é nesse palco, também, que estão fecundados os grandes atos que nos tornam tão especiais. É aqui que mostramos que somos uma espécie nova, curiosa e com grande potencial criativo. Afinal, foi aqui que viveu uma criatura como Sagan, como Mozart, Beethoven, Bach ou Shakespeare; como eu ou como você: Em suma: é aqui que estão as nossas misérias e as nossas poesias criativas.
E isso me fez pensar: o que vale a pena na vida? O que devo fazer para que a minha vida tenha sentido e seja feliz? Talvez a tentativa de encontrar respostas para essas perguntas seja de fato o grande fundamento da vida. A vida feliz não é baseada na quantidade de respostas que damos, mas na quantidade de perguntas que fazemos. Então, o que devemos fazer para que a nossa vida tenha sentido nesse pequeno ponto pálido azul?
Conversando com a minha esposa hoje cedo, falávamos justamente sobre isso. E chegamos a um acordo em um ponto: ter um coração receptivo à bondade e ao cultivo de amizade é, talvez, o antídoto mais eficaz a tornar a nossa vida positiva nos 70, 80 ou 90 anos que viveremos. O que torna a nossa vida realmente feliz não é quantidade de conquistas individuais, mas a quantidade de realizações capazes de beneficiar outras pessoas. É isso que dura. Nossa vida é passageira, mas os nossos gestos podem durar mais do que nós. De certa forma, quando praticamos o bem, começamos a nos eternizar. É o amor, a tolerância e a capacidade de nos solidarizar que nos torna a nossa existência com sentido nesse pequeno ponto azul.
Que 2013 seja um ano de bondades explícitas e sorrisos de bondade!
Abaixo, o vídeo de Sagan. Se você não deseja ler o texto, pelo menos assista ao vídeo. Será uma bela reflexão-provocação para o ano de 2013
____________________________________________________
____________________________________________________
Goiânia-GO
Abaixo, o vídeo de Sagan. Se você não deseja ler o texto, pelo menos assista ao vídeo. Será uma bela reflexão-provocação para o ano de 2013
terça-feira, novembro 06, 2012
Richard Dawkins estaria delirando? - uma ideia provocante
"O poder de consolo da religião não a torna verdadeira"
Richard Dawkins, in Deus: um delírio
Não era minha intenção escrever a respeito do tema, mas me senti estimulado após ter lido isso. Ficou a ideia do desafio posto, pois já li tanto O delírio de Dawkins, de Alister McGrath e Deus: um delírio, de Richard Dawkins. A impressão que ficou de Alister e Joanna McGrath é que eles possuem bons argumentos. Conseguem escrever com clareza. Mas, em hipótese nenhuma são convincentes ao ponto de sugerirem um delírio em Dawkins.
Nota-se desde o princípio da obra um escopo claro: descreditar ou minimizar os efeitos da metralhadora crítica de Dawkins. O autor de Deus: um delírio é um argumentador bem instrumentalizado. Tentar descreditar Dawkins ou tentar insistir na ideia de que Dawkins escreve patacas, que está em erros é um ato inglório. O próprio McGrath reconhece a mente brilhante de Dawkins. E de certa forma se ampara em lacunas. Em pontos não fechados do debate científico para diminuir os efeitos do canhão de Dawkins. Ele diz, em outras palavras, que há um equívoco profundo na intenção de Deus: um delírio; que há um devaneio, uma má-fé nos escritos de Dawkins; que outrora Dawkins já foi um cientista sério e respeitado, mas que agora, após ter se enveredado pela crítica religiosa, perdeu o discernimento completo.
Do outro lado, a obra de Dawkins nos coloca diante de uma questão fundamental - a não existência e Deus. Deus em outras palavras é um cogitio. Um fato infantilizante. Deus é a resposta "sublime" para a causa não explicada. E o neodarwinista acerta um cruzado atordoante: "As lacunas, pelo padrão da cabeça dos criacionistas, são preenchidas por Deus".
Ele nos posiciona à frente de uma argumentação necessária: não existe romantismos ante a natureza. A questão extravagante para os criacionistas é fato de enxergar "fadas" e "duendes" onde só existe aquilo que é. É mais ou menos como aquele poema do Manuel Bandeira: O poema do beco ("O que eu vejo é o beco"). E nesse sentido, é necessário lembrar de Carl Sagan, alguém que labutou pela bom senso e pela razão, com uma finalidade clara: exorcizar as compreensões a-científicas e pautadas e suposições irrefletidas. "A ciência é o melhor que temos. É o melhor que o engenho o humano já concebeu". Assim, a ciência não lida com "fadas" e "duendes" e com compreensões metafísicas questionáveis como a religião sempre faz.
Dawkins diz que "A natureza é um contador avarento, apegado aos trocados, de olho no relógio, que pune a mínima extravagância". Os fenômenos do mundo são humanos, são demasiado humanos. A natureza nos forjou. A evolução nos deu uma mente racional. Uma capacidade de refletir a reflexão consciente. Ou em outras palavras: capacidade de saber que se sabe. E nesse sentido, para todo comportamento humano existe uma explicação/causa evolutiva. Como disse Desmond Morris: o homem é um fenômeno essencialmente bilógico.
E algo importante: Dawkins não é peremptório em Deus: um delírio. Ele sabe reconhecer os limites de uma teoria. Sabe até onde vai um argumento. Todavia, aquilo que nos é permitido conhecer já é suficiente para deslindar supostas fantasias. E aí nos recordamos de Sagan mais uma vez: "É melhor uma verdade dura, do que uma fantasia consoladora".
Um dos momentos mais formidáveis do aludido livro de Dawkins se dá quando ele faz uma análise da teodiceia do antigo e novo testamentos. Dawkins mostra o ilogicismo, os desencontros; os aspectos profundamente mitológicos dos escritos bíblicos. Faz uma análise do novo testamento e também encontra nele as mesmas contradições.
O livro de Dawkins é um importante documento a todo aquele que busca usar a inteligência que é própria do ser humano. É importante ler o livro dos McGrath, mas este não chega a causar maiores impactos. Dawkins é um argumentador muito mais habilidoso. Sua verve é muito mais límpida e clara. Suas argumentações atordoam o oponente, porquanto os seus argumentos estão assentados em pressupostos fiéis ao bom senso. E aí evocamos mais uma vez a frase que serviu de epígrafe a esse texto: o fato de a religião ter a sua importância no mundo material não a torna uma verdade. Ou seja, não consuma o seu argumento a respeito da existência de um mundo espiritual. O mundo espiritual existe no interior do mundo humano. Sem o humano, a ideia de Deus, de espírito, de vida após a morte cessam. Somente nós sabemos que vamos morrer e a evolução nos deu um desejo de perpetuação. Para isso criamos a ideia do numinoso. E viva Richard Dawkins!
terça-feira, outubro 23, 2012
"O macaco nu" e a crise de não-ser ante a natureza
Quando o que está em jogo é o ser humano, torno-me bastante pessimista. Carl Sagan costumava dizer que "somos uma espécie nova e curiosa e talvez haja salvação para cada um de nós". Não faço uso do otimismo de Sagan. A sua elegância o impelia a verbalizações nobres. Admiro essa sua capacidade. Mas, volto-me para uma outra direção. A direção que nos aponta um caminho incerto, infausto. Talvez haja em mim um pouco de Schopenhauer.
Somos uma espécie que pratica a rapina. Nossa história sobre o Planeta Terra é relativamente recente. Certa vez vi Carl Sagan fazer uma comparação que me impressionou. O célebre cientista americano disse que se pudessêmos colocar a história da Terra e do Universo dentro de um campo de futebol, desde o Big Bang, a história humana não seria mais do que um palmo dentro desse campo hipotético. Ou seja, a nossa história é recente, mas deixamos marcas profundas na história do Planeta. Talvez nenhuma espécie tenha mudado tanto o Planeta como nós o fizemos - nem mesmo os poderosos dinossauros.
Essa reflexão amarga se aprofundou ainda mais após a leitura que fiz do livro "O macaco nu", do zoólogo inglês Desmond Morris. Esse livro foi escrito na década de 60 do século passado. É profundo e arraigadamente científico em suas sentenças. Morris faz uma análise contundente sobre os hábitos dos seres humanos - sua origem, a questão da sexualidade, do crescimento, o poder de exploração tão próprio do ser humano, o alto grau de agressividade, a importância da alimentação e busca pelo conforto. O zoólogo não deixa passar nenhum dos hábitos daquele que ele cognominou de maneira irreverente como "macaco pelado". Tal classificação se deve ao fato de que, entre as 193 espécies de símios e macacos (da família dos primatas), a espécie humana é a única que não apresenta o corpo coberto por pelos. Mas tal fato não deve ser visto apenas como obra do acaso. Morris vai dizer que existe uma alta função para essa condição.
É no final da obra, que Morris profere uma frase belissimamente perturbadora: "...apesar de todos os nossos progressos tecnólogicos, continuamos a ser sobretudo um simples fenômeno biológico". Com isso ele está dizendo que não nos diferimos dos outros seres no que tange às necessidades vitais. Somos animais moldados pela evolução. Se no passado a atividade de caça nos ocupava a maior parte do tempo, hoje, é o trabalho, principal motor de troca da sociedade criada por esse mesmo ser gregário, que toma o nosso tempo. De modo que o nosso estilo de vida parece ter "sacralizado" o existir desse mesmo criador. Parece que perenizamos a realidade. Vivemos como se fossêmos eternos. Todavia, existe o esquecimento de que a natureza é lenta e as suas mudanças se perpetram de modo processual.
E baseado nisso, achamos outra afirmação desconcertante do cientista inglês: "Houve muitas espécies formidàveis que se extinguiram no passado, e nós não somos a exceção. Mais cedo ou mais tarde, teremos de partir e deixar lugar para qualquer outra coisa". E aqui, corroborando com Morris, penso que isso seja um fato mais que incontestável. Quanto tempo mais teremos? Mil anos? Dez mil anos? Um milhão de anos? Não se sabe! O fato é que somos uma espécie engenhosa. E essa capacidade de engenho não nos livrará da inexorabilidade do tempo. Chegará um tempo em que não mais seremos. E nem mesmo as nossas religiões nos "salvarão".
Somos um "fenômeno biológico", mas, somos, também, um fenômeno cultural. Tudo aquilo que construímos e fazemos está associado à necessidade de realizarmos aos instintos animais. Temos um forte impulso a buscar a sobrevivência e tirarmos vantagens de todas as coisas. Fomos moldados assim pela evolução. Nossos instintos sexuais, territoriais e agressivos não serão dominados e flexibilizados, pois somos, acima de tudo, seres biológicos que buscam a perpetuação. Até mesmo quando temos um filho, buscamos, nele, continuar a existir. Ora, para finalizar, o que são as religiões, senão uma necessidade de continuar a existir mesmo quando o nosso mais terrível inimigo chegar - a morte - e militar contra a nossa sede territorial de continuar a ser?
domingo, setembro 09, 2012
"Onde há dúvidas, há liberdade" e O mundo assombrado pelos demônios
Concluí há alguns dias a leitura de O mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan. Já fazia um bom tempo que eu não havia lido algo que me balançou tanto. Sagan com sua prosa elegante e fácil suscitou em mim um forte apego ao bom senso. Cada capítulo teve um sabor dignatório. A função do livro é explicitada no subtítulo - A ciência vista como uma vela no escuro. O livro revela o amor que o americano possuía pela ciência, que como ele mesmo diz sobre o conhecimento científico: "A ciência é o melhor que temos". Ou: "A ciência é o modo de desmascarar aqueles que apenas fingem conhecer".
O fato é que Sagan é transparente e honesto em sua análise. Mostra-se convincente em todos os momentos do livro. Sua maior arma é o modo como constrói os argumentos. Busca persuadir por meio de uma lógica combinada com uma abordagem firmada na sensatez. É nesse sentido que Sagan fala de discos voadores, da astrologia, das crenças religiosas, dos argumentos desgatados que buscam sustentar a existência de Deus. Dois dos capítulos mais notáveis do livro têm por título são "Um dragão na minha garagem" e "A arte refinada de detectar mentiras".
O mundo assombrado pelos demônios é um documento fascinante a quem deseja arrancar as máscaras da mentira e das superstições. Um fato curioso se deu comigo e serve para atestar a relevância do livro. Eu estava numa fila de supermercado e um moça curiosa quis saber o que eu estava lendo. Perguntou o nome do livro. Enunciei o nome do livro. Ela disse persingnando-se: "Cruzes!". E inquiriu: "Por que você está lendo isso? Alguém te indicou?". Até que expliquei do que se tratava o livro e ela se viu mais aliviada .O que a deixou contrafeita foi o fato de eu ter falado "demônio". Em pleno século XXI, muitas pessoas ainda vivem assustadas com essa hipótese como se ainda estivessem em plena Idade Média.
As crenças e superstições são gaiolas capazes de fazer prender os homens em suas grades. De certa forma, como diz Carl Sagan, "a credulidade mata". As crenças são piores que as mentiras; e, as convicções, inimigas do bom senso. Nesse sentido, é legítimo dizer que "onde há dúvida, ali há liberdade" para se buscar o novo, para se forjar, com criatividade, caminhos viáveis para um debate coeso e rico.
Posso concluir que esse livro terá forte influência nos caminhos e decisões que eu vier a tomar daqui para frente. É somente desvestido de dogmas que o homem pode escrever uma nova história não marcada pelo ranço perverso das cristalizações. E para terminar, uma pergunta fascinante feita por Sagan logo no início do livro: "A que interesses a ignorância serve?".
segunda-feira, agosto 20, 2012
É mais fácil acreditar naquilo que achamos que é a verdade
Carl Sagan foi um dos sujeitos que mais contribuíram com a ciência no século XX. Apesar de ter morrido no ano de 1996, a influência de Sagan permanece viva. Ele contribuiu efetivamente com o avanço do conhecimento científico e inspirou pessoas em todo mundo a buscarem o conhecimento e a fugirem da ignorância que apenas aprisiona e promove cadeias. Atualmente, estou lendo o seu estupendo livro O mundo assombrado pelos demônios e tenho tomado grandes "sustos". Falo em "sustos", pois o livro nos coloca situações a fim que percebamos o quanto estamos cercados por falácias de todos tipos que existem como verdades insofismáveis. A leitura tem sido lenta por causa dos vários compromissos diários, mas todas as vezes que tenho a oportunidade de lê-lo, bafeja sobre mim uma sensação de prazer profundo.
Por exemplo, hoje lendo o capítulo 12 do livro acima mencionado ("A arte de refinada de detectar mentiras"), encontrei uma afirmação extraída do livro Novum Organum (livro que tenho) (1620) do filósofo Francis Bacon. Nesta afirmação, Bacon, inventor do método experimental e do empirismo, enfatiza o quanto a nossa percepção é falível e o quanto somos influenciados pelos nossos afetos. Belíssima a afirmação do filósofo:
A compreensão humana não é um exame desinteressado, mas recebe infusões da vontade e dos afetos; disso se originam ciência que podem ser chamadas "ciências conforme a nossa vontade". Pois um homem acredita mais facilmente no que gostaria que fosse verdade. Assim, ele rejeita coisas difíceis pela impaciência de pesquisar; coisas sensatas, porque diminuem a esperança; as coisas mais profundas da natureza, por supertição; a luz da experiência, por arrogância e orgulho; coisas que são comumente aceitas, por deferência à opinião do vulgo. Em suma, inúmeras são as maneiras, e às vezes imperceptíveis, pelas quais os afetos colorem e contaminam o entendimento.
Abaixo, um maravilho poema do Drummond para adensar ainda mais o tema:
Verdade
Verdade
A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade.
Porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades,
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
Carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade.
Porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades,
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
Carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
quinta-feira, agosto 16, 2012
"O dragão na minha garagem" e como isso explica a religião
A clareza de certa alusão que Carl Sagan faz em um dos capítulos do livro O mundo assombrado pelos demônios me chamou a atenção. Faz lembrar o argumento de Bertrand Russell sobre a existência do Bule Celestial ou Bule Voador. Tanto o argumento de Sagan quanto do inglês Bertrand Russel colocam em xeque o principal eixo no qual as religiões estão assentadas - o da existência de seres invisíveis e extraordinários que comandam os destinos do homem. Se somente o religioso diz ver aquilo que é o objeto de sua fé, tal argumento não assemelharia ao argumento do Bule celestial ou de o dragão na garagem de Carl Sagan? Simplesmente fantástico!
Abaixo, trecho extraído do livro O mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan.
"Suponhamos (estou seguindo uma abordagem de terapia de grupo proposta pelo psicólogo Richard Franklin) que eu lhe faça seriamente essa afirmação. Com certeza você iria querer verificá-la, ver por si mesmo. São inumeráveis as histórias de dragões no decorrer dos séculos, mas não há evidências reais. Que oportunidade!
– Mostre-me – você diz.
– Mostre-me – você diz.
Eu o levo até a minha garagem. Você olha para dentro e vê uma escada de mão, latas de tinta vazias, um velho triciclo, mas nada de dragão.
– Onde está o dragão? - você pergunta.
– Oh, está ali – respondo, acenando vagamente. – Esqueci de lhe dizer que é um dragão invisível. Você propõe espalhar farinha no chão da garagem para tornar visíveis as pegadas do dragão.
– Boa idéia – digo eu –, mas esse dragão flutua no ar.
– Onde está o dragão? - você pergunta.
– Oh, está ali – respondo, acenando vagamente. – Esqueci de lhe dizer que é um dragão invisível. Você propõe espalhar farinha no chão da garagem para tornar visíveis as pegadas do dragão.
– Boa idéia – digo eu –, mas esse dragão flutua no ar.
Então você quer usar um sensor infravermelho para detectar o fogo invisível.
– Boa idéia, mas o fogo invisível é também desprovido de calor.
Você quer borrifar o dragão com tinta para tomá-lo visível.
– Boa idéia, só que é um dragão incorpóreo e a tinta não vai aderir.
E assim por diante. Eu me oponho a todo teste físico que você propõe com uma explicação especial de por que não vai funcionar. Ora, qual é a diferença entre um dragão invisível, incorpóreo, flutuante, que cospe fogo atérmico, e um dragão inexistente? Se não há como refutar a minha afirmação, se nenhum experimento
concebível vale contra ela, o que significa dizer que o meu dragão existe? A sua incapacidade de invalidar a minha hipótese não é absolutamente a mesma coisa que provar a veracidade dela. Alegações que não podem ser testadas, afirmações imunes a refutações não possuem caráter verídico, seja qual for o valor que possam ter por nos inspirar ou estimular nosso sentimento de admiração. O que estou pedindo a você é tão-somente que, em face da ausência de evidências, acredite na minha palavra. A única coisa que você realmente descobriu com a minha insistência de que há um dragão na
minha garagem é que algo estranho está se passando na minha mente. Você se perguntaria, já que nenhum teste físico se aplica, o que me fez acreditar nisso. A possibilidade de que foi sonho ou alucinação passaria certamente pela sua cabeça. Mas, nesse caso, por que eu levo a história tão a sério? Talvez eu precise de ajuda. Pelo menos, talvez eu tenha subestimado seriamente a falibilidade humana. Apesar de nenhum dos testes ter funcionado, imagine que você queira ser escrupulosamente
liberal. Você não rejeita de imediato a noção de que há um dragão que cospe fogo na minha garagem.
Apenas deixa a idéia cozinhando em banho-maria. As evidências presentes são fortemente contrárias a ela, mas, se surgirem novos dados, você está pronto a examiná-los para ver se são convincentes. Decerto não é correto de minha parte ficar ofendido por não acreditarem em mim; ou criticá-lo por ser chato e sem imaginação – só porque você apresentou o veredicto escocês de “não comprovado”.
Imagine que as coisas tivessem acontecido de outra maneira. O dragão é invisível, certo, mas aparecem pegadas na farinha enquanto você observa. O seu detector infravermelho lê dados fora da
escala. A tinta borrifada revela um espinhaço denteado oscilando à sua frente. Por mais cético que você pudesse ser a respeito da existência dos dragões – ainda mais dragões invisíveis –, teria de reconhecer que existe alguma coisa no ar, e que de forma preliminar ela é compatível com um dragão invisível que cospe fogo pelas ventas.
– Boa idéia, mas o fogo invisível é também desprovido de calor.
Você quer borrifar o dragão com tinta para tomá-lo visível.
– Boa idéia, só que é um dragão incorpóreo e a tinta não vai aderir.
E assim por diante. Eu me oponho a todo teste físico que você propõe com uma explicação especial de por que não vai funcionar. Ora, qual é a diferença entre um dragão invisível, incorpóreo, flutuante, que cospe fogo atérmico, e um dragão inexistente? Se não há como refutar a minha afirmação, se nenhum experimento
concebível vale contra ela, o que significa dizer que o meu dragão existe? A sua incapacidade de invalidar a minha hipótese não é absolutamente a mesma coisa que provar a veracidade dela. Alegações que não podem ser testadas, afirmações imunes a refutações não possuem caráter verídico, seja qual for o valor que possam ter por nos inspirar ou estimular nosso sentimento de admiração. O que estou pedindo a você é tão-somente que, em face da ausência de evidências, acredite na minha palavra. A única coisa que você realmente descobriu com a minha insistência de que há um dragão na
minha garagem é que algo estranho está se passando na minha mente. Você se perguntaria, já que nenhum teste físico se aplica, o que me fez acreditar nisso. A possibilidade de que foi sonho ou alucinação passaria certamente pela sua cabeça. Mas, nesse caso, por que eu levo a história tão a sério? Talvez eu precise de ajuda. Pelo menos, talvez eu tenha subestimado seriamente a falibilidade humana. Apesar de nenhum dos testes ter funcionado, imagine que você queira ser escrupulosamente
liberal. Você não rejeita de imediato a noção de que há um dragão que cospe fogo na minha garagem.
Apenas deixa a idéia cozinhando em banho-maria. As evidências presentes são fortemente contrárias a ela, mas, se surgirem novos dados, você está pronto a examiná-los para ver se são convincentes. Decerto não é correto de minha parte ficar ofendido por não acreditarem em mim; ou criticá-lo por ser chato e sem imaginação – só porque você apresentou o veredicto escocês de “não comprovado”.
Imagine que as coisas tivessem acontecido de outra maneira. O dragão é invisível, certo, mas aparecem pegadas na farinha enquanto você observa. O seu detector infravermelho lê dados fora da
escala. A tinta borrifada revela um espinhaço denteado oscilando à sua frente. Por mais cético que você pudesse ser a respeito da existência dos dragões – ainda mais dragões invisíveis –, teria de reconhecer que existe alguma coisa no ar, e que de forma preliminar ela é compatível com um dragão invisível que cospe fogo pelas ventas.
Agora outro roteiro: vamos supor que não seja apenas eu. Vamos supor que vários conhecidos seus, inclusive pessoas que você tem certeza de que não se conhecem, lhe dizem que há dragões nas suas garagens – mas, em todos os casos, a evidência é enlouquecedoramente impalpável. Todos nós admitimos nossa perturbação quando ficamos tomados por uma convicção tão estranha e tão mal sustentada pela evidência física. Nenhum de nós é lunático. Especulamos sobre o que isso significaria, caso dragões invisíveis estivessem realmente se escondendo nas garagens em todo o mundo, e nós, humanos, só agora estivéssemos percebendo. Eu gostaria que não fosse verdade, acredite. Mas talvez todos aqueles antigos mitos europeus e chineses sobre dragões não fossem mitos afinal...
Motivo de satisfação, algumas pegadas compatíveis com o tamanho de um dragão são agora noticiadas. Mas elas nunca surgem quando um cético está observando. Outra explicação se apresenta:
sob exame cuidadoso, parece claro que podem ter sido simuladas. Outro crente nos dragões aparece com um dedo queimado e atribui a queimadura a uma rara manifestação física do sopro ardente do animal. Porém, mais uma vez, existem outras possibilidades. Sabemos que há várias maneiras de queimar os dedos além do sopro de dragões invisíveis. Essa “evidência” – por mais importante que seja para os defensores da existência do dragão – está longe de ser convincente. De novo, a única abordagem sensata é rejeitar em princípio a hipótese do dragão, manter-se receptivo a futuros dados físicos e perguntar-se qual poderia ser a razão para tantas pessoas aparentemente normais e sensatas
partilharem a mesma delusão estranha.
A mágica requer cooperação tácita entre o público e o mágico um abandono do ceticismo, ou o que é às vezes descrito como a suspensão voluntária da descrença. Segue-se imediatamente que, para compreender a mágica, para expor o truque, devemos parar de colaborar".
sob exame cuidadoso, parece claro que podem ter sido simuladas. Outro crente nos dragões aparece com um dedo queimado e atribui a queimadura a uma rara manifestação física do sopro ardente do animal. Porém, mais uma vez, existem outras possibilidades. Sabemos que há várias maneiras de queimar os dedos além do sopro de dragões invisíveis. Essa “evidência” – por mais importante que seja para os defensores da existência do dragão – está longe de ser convincente. De novo, a única abordagem sensata é rejeitar em princípio a hipótese do dragão, manter-se receptivo a futuros dados físicos e perguntar-se qual poderia ser a razão para tantas pessoas aparentemente normais e sensatas
partilharem a mesma delusão estranha.
A mágica requer cooperação tácita entre o público e o mágico um abandono do ceticismo, ou o que é às vezes descrito como a suspensão voluntária da descrença. Segue-se imediatamente que, para compreender a mágica, para expor o truque, devemos parar de colaborar".
[SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios - a ciência vista como uma vela no escuro. Ed. Companhia das Letras. São Paulo, 2006, pp. 198 a 200. ]
segunda-feira, agosto 06, 2012
Excertos extraídos do livro "O mundo assombrado pelos demônios", de Carl Sagan
Algumas afirmações de Carl Sagan que me chamaram a atenção da leitura que estou fazendo no livro O mundo assombrado pelos demônios:
[Na ciência] "Conclusões falsas são tiradas todo o tempo, mas elas constituem tentativas. As hipóteses sãos formuladas de modo a poderem ser refutadas" (...)
A pseudociência é exatamente o oposto. As hipóteses sãos formuladas de modo a se tornar invulneráveis a qualquer experimento que ofereça um perspectiva de refutação, para que em princípio possam ser invalidadas. Os profissionais são defensivos e cautelosos. Faz-se oposição ao escrutínio cético. Quando a hipótese pseudocientífica não consegue entusiasmar os cientistas, deduz-se que há conspiração para eliminá-la". (p. 39) - (o destaque é meu por ter me chamado a atenção)
"Os seres humanos podem ansiar pela certeza absoluta; podem aspirar a alcançá-la; podem fingir, como fazem os partidários de certas religiões, que a atingiram. Mas a história da ciência - de longe o mais bem-sucedido conhecimento acessível aos humanos - ensina que o máximo que podemos esperar é um aperfeiçoamento sucessivo de nosso entendimento, um aprendizado por meio de nossos erros, uma abordagem assintótica do Unieverso, mas com a condição de que a certeza absoluta sempre nos escapará". (p. 46)
"Essa é uma das razões pelas quais as religiões organizadas não me inspiram confiança. Que líderes dos principais credos reconhecem que suas crenças talvez sejam incompletas ou errôneas, e criam institutos para revelar possíveis deficiências doutrinárias? Além do teste da vida cotidiana, quem verifica sistematicamente as circunstâncias em que os ensinamentos religiosos tradicionais talvez já não se apliquem? (É conecebível que as doutrinas e a ética que podem ter funcionado muito bem nos tempos patriarcais, patrísticos ou medievais sejam totalmente inválidas no mundo bastante diferente que habitamos hoje.) Que sermões examinam imparcialmente a hipótese de Deus? Que prêmios os céticos religiosos ganham das religiões estabelecidas - ou, nesse aspecto, que recompensas os céticos sociais e econômicos recebem da sociedade em que vivem?"
"A ciência, observa Ann Druyan, está sempre nos sussurrando ao ouvido: "Lembre-se, você é novo nisso. Pode estar equivocado. Já errou antes". Apesar de todo o discurso da humildade, mostrem-me algo comparável na religião. Acredita-se que as Escrituras sejam de inspiração divina - uma expressão com muitos significados. Mas e se forem simplesmente criadas por seres humanos falíveis? Os milagres são comprovados, mas e se forem, ao contrário, uma mistura de charlatanismo, estado de consciência desconhecidos, percepções errôneas de fenômenos naturais e doença mental? Nenhuma religião contemporânea e nenhum credo da Nova Era me parecem levar realmente em consideração a grandiosidade, a magnificência, a sutileza e a complexidade do Universo revelado pela ciência. (pp. 54,55).
Assinar:
Postagens (Atom)





