terça-feira, novembro 06, 2012

Richard Dawkins estaria delirando? - uma ideia provocante

"O poder de consolo da religião não a torna verdadeira"
Richard Dawkins, in Deus: um delírio

Não era minha intenção escrever a respeito do tema, mas me senti estimulado após ter lido isso. Ficou a ideia do desafio posto, pois já li tanto O delírio de Dawkins, de Alister McGrath e Deus: um delírio, de Richard Dawkins. A impressão que ficou de Alister e Joanna McGrath é que eles possuem bons argumentos. Conseguem escrever com clareza. Mas, em hipótese nenhuma são convincentes ao ponto de sugerirem um delírio em Dawkins.

Nota-se desde o princípio da obra um escopo claro: descreditar ou minimizar os efeitos da metralhadora crítica de Dawkins. O autor de Deus: um delírio é um argumentador bem instrumentalizado. Tentar descreditar Dawkins ou tentar insistir na ideia de que Dawkins escreve patacas, que está em erros é um ato inglório. O próprio McGrath reconhece a mente brilhante de Dawkins. E de certa forma se ampara em lacunas. Em pontos não fechados do debate científico para diminuir os efeitos do canhão de Dawkins. Ele diz, em outras palavras, que há um equívoco profundo na intenção de Deus: um delírio; que há um devaneio, uma má-fé nos escritos de Dawkins; que outrora Dawkins já foi um cientista sério e respeitado, mas que agora, após ter se enveredado pela crítica religiosa, perdeu o discernimento completo.

Do outro lado, a obra de Dawkins nos coloca diante de uma questão fundamental - a não existência e Deus. Deus em outras palavras é um cogitio. Um fato infantilizante. Deus é a resposta "sublime" para a causa não explicada. E o neodarwinista acerta um cruzado atordoante: "As lacunas, pelo padrão da cabeça dos criacionistas, são preenchidas por Deus".

Ele nos posiciona à frente de uma argumentação necessária: não existe romantismos ante a natureza. A questão extravagante para os criacionistas é fato de enxergar "fadas" e "duendes" onde só existe aquilo que é. É mais ou menos como aquele poema do Manuel Bandeira: O poema do beco ("O que eu vejo é o beco"). E nesse sentido, é necessário lembrar de Carl Sagan, alguém que labutou pela bom senso e pela razão, com uma finalidade clara: exorcizar as compreensões a-científicas e pautadas e suposições irrefletidas. "A ciência é o melhor que temos. É o melhor que o engenho o humano já concebeu". Assim, a ciência não lida com "fadas" e "duendes" e com compreensões metafísicas questionáveis como a religião sempre faz. 

Dawkins diz que "A natureza é um contador avarento, apegado aos trocados, de olho no relógio, que pune a mínima extravagância". Os fenômenos do mundo são humanos, são demasiado humanos. A natureza nos forjou. A evolução nos deu uma mente racional. Uma capacidade de refletir a reflexão consciente. Ou em outras palavras: capacidade de saber que se sabe. E nesse sentido, para todo comportamento humano existe uma explicação/causa evolutiva. Como disse Desmond Morris: o homem é um fenômeno essencialmente bilógico.

E algo importante: Dawkins não é peremptório em Deus: um delírio. Ele sabe reconhecer os limites de uma teoria. Sabe até onde vai um argumento. Todavia, aquilo que nos é permitido conhecer já é suficiente para deslindar supostas fantasias. E aí nos recordamos de Sagan mais uma vez: "É melhor uma verdade dura, do que uma fantasia consoladora". 

Um dos momentos mais formidáveis do aludido livro de Dawkins se dá quando ele faz uma análise da teodiceia do antigo e novo testamentos. Dawkins mostra o ilogicismo, os desencontros; os aspectos profundamente mitológicos dos escritos bíblicos. Faz uma análise do novo testamento e também encontra nele as mesmas contradições.

O livro de Dawkins é um importante documento a todo aquele que busca usar a inteligência que é própria do ser humano. É importante ler o livro dos McGrath, mas este não chega a causar maiores impactos. Dawkins é um argumentador muito mais habilidoso. Sua verve é muito mais límpida e clara. Suas argumentações atordoam o oponente, porquanto os seus argumentos estão assentados em pressupostos fiéis ao bom senso. E aí evocamos mais uma vez a frase que serviu de epígrafe a esse texto: o fato de a religião ter a sua importância no mundo material não a torna uma verdade. Ou seja, não consuma o seu argumento a respeito da existência de um mundo espiritual. O mundo espiritual existe no interior do mundo humano. Sem o humano, a ideia de Deus, de espírito, de vida após a morte cessam. Somente nós sabemos que vamos morrer e a evolução nos deu um desejo de perpetuação. Para isso criamos a ideia do numinoso. E viva Richard Dawkins!


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