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sábado, março 19, 2022

"Om Bom Crioulo", de Adolfo Caminha. Algumas considerações.


 “... a natureza pode mais que a vontade humana”. Adolfo Caminha, em “O bom Crioulo”.

 

            “O Bom Crioulo” foi a primeira obra visitada da série de onze livros de literatura brasileira que elegi para ler ao longo do ano de 2022. Trata-se de livro escrito no ano de 1895, às vésperas do século XX. Adolfo Caminha, nascido no Ceará, no ano de 1867, morreria de forma precoce, aos trinta anos, no ano de 1897. Ou seja, apenas dois após a publicação da polêmica obra.

            Em 1895, o Brasil ainda sentia o calor de dois eventos importantes que, praticamente, definiriam o arranjo social e político do país até o ano de 1930. Em 1888, acontecera a Abolição da escravatura, que havia mudado oficialmente as relações sociais e econômicas no país. Já em 1889, acontecera o golpe das aristocracias rurais e dos militares que pôs fim ao Império. Apesar desses relevantes eventos, o país permanecia eminentemente sob o conservadorismo e o patriarcado. Certos assuntos – entre eles o homossexualismo – permaneciam sob um véu denso de reprovação social. Todavia, o papel da literatura se espraia, ganha contornos eloquentes, justamente nesse sentido, pois o seu compromisso transcende o posicionamento conservador ou não da sociedade.

            Do ponto de vista das produções estéticas, o país havia ultrapassado o fenômeno romântico de Joaquim Manoel de Macedo, Bernardo Guimarães e José de Alencar. Havia o Realismo pondo em alto relevo as contradições do país; revelando a mesquinhez das elites; seu moralismo de fachada; as demandas de um país que precisava se definir. Machado de Assis é o mestre por excelência dessa pujante “denúncia” do Realismo.

            Para além do Realismo, surge também o Naturalismo, que realça ainda mais as cores do mundo real, radicalizando-o. Os intelectuais, munindo-se de teses científicas, haviam criado supostos que consideravam o homem apenas como um joguete dos desejos e pulsões inconscientes. A natureza possuía leis inexpugnáveis, inexoráveis. Sendo assim, os comportamentos dos indivíduos eram determinados pela hereditariedade, pelo meio e o momento em que viviam, aquilo que Alfredo Bosi chama de “fatum”, ou seja, uma força irresistível que determina o destino de cada ser humano.

            Havia um cenário filosófico que estimulava essa compreensão da realidade. Importante mencionar o evolucionismo de Charles Darwin. Há um elemento fisiológico que leva ao realce dos instintos animalescos, fazendo com que o mais forte prevaleça. É muito comum nesse sentido, a importância que o sexo assume nesse debate. O Positivismo e o Determinismo também são correntes filosóficas que influenciaram o Naturalismo enquanto corrente estética. No Brasil, Aluísio Azevedo, Júlio Ribeiro, Domingos Olympio e Adolfo Caminha – entre outros – são nomes importantes da corrente naturalista.

            Em “O bom Crioulo” aparece a figura do ex-escravo Amaro (“amargo”), também conhecido como o “Bom Crioulo”. Importante observar o adjetivo “bom” utilizado pelo narrador. A noção era de que o “crioulo” (negro nascido na América) era, em regra, um sujeito primitivo, dono de um comportamento animalesco; que gozava de um prestígio negativo. Mas, Amaro era “bom”, ou seja, mostrava-se como alguém que quebrava essa regra, o que cria um antagonismo, uma exceção. Ele recebeu essa alcunha por ser alguém forte, comprometido com o trabalho e diligente.  Amaro trabalho em uma corveta, um navio da Marinha. É descomunalmente forte.

            Vale observar que, apesar de os negros terem conseguido a suposta liberdade oficial após a Abolição, ainda viviam numa condição subalterna na sociedade. Havia muitos negros na Marinha. Uma das práticas que gerava muita indignação eram as chibatadas aplicadas nos marinheiros considerados insubmissos. A Revolta da Chibata (1910) foi um desdobramento da indignação dos marinheiros, tendo como protagonista o negro João Cândido. Adolfo Caminha havia sido da Marinha e possuía uma posição contrária à prática das chibatadas. Quem aplicava as chibatadas eram os oficiais brancos que puniam negros e mulatos.

Adolfo Caminha

            Amaro é uma figura apresentada como forte e bom. Todavia, possuía problemas com a bebida. Todas as vezes que bebia, transformava-se em alguém com impulsos incontroláveis. A personagem além dessas características é homossexual. Nesse sentido, a obra ganha uma relevância grandiosa, o que fez com que o seu autor fosse alvo de acerbas críticas. Amaro apaixona-se pelo grumete Aleixo, um adolescente de quinze anos – branco, de cabelos loiros, olhos claros, possivelmente, descendente de europeus. Adolfo Caminha descreve a paixão que Amaro, de trinta anos, alimenta pelo jovem efebo. E, nesse sentido, é oportuno refletir sobre a polêmica de um relacionamento homossexual e inter-racial, de um homem com um adolescente branco e efeminado no final do XIX.

            “O Bom Crioulo” é considerado o primeiro romance da América Latina a tratar da temática homossexual. Na Inglaterra, Oscar Wilde havia escrito, em 1890, “O Retrato de Dorian Gray” que também põe em evidência o tema da sexualidade. O próprio Wilde experimentou na pele a força do conservadorismo. Em 1895, ele foi alvo de três processos por atividades homossexuais, tendo permanecido preso por dois anos (1895-1897), com a pena de trabalhos forçados.

            O romance de Adolfo Caminha tem um desdobramento naturalista. Amaro cumpre o seu destino como não poderia deixar de ser. Seu infortúnio é agudizado pela descoberta da traição de Aleixo com a ex-prostituta D. Carolina. Nota-se aqui a bissexualidade de Aleixo. Após um período doente, Amaro descobre o relacionamento dos dois e empreende uma ação tresloucada. O romance termina sob o signo da tragédia.

            Pessoalmente, posso afirmar de que gostei da leitura do livro. Texto fácil; bom de ser lido. Narrador em terceira pessoa, onisciente. Revela muitos aspectos da vida das metrópoles brasileiras, principalmente a Capital Federal no final do século XIX, assim, por exemplo, como é “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, outro importante romance naturalista. Além disso, lança luz sobre um debate importante. Se até hoje falar de homossexualismo gera polêmica, imagine esse debate sendo feito no final dos século XIX em um país de coronéis e beatos como o Brasil?

domingo, junho 02, 2013

200 anos de Kierkegaard - algumas palavras de admiração

Aprendi a admirar o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard ainda nos anos de seminário. A primeira vez que li algo a respeito dele, fiquei estarrecido com a sua paixão pelo paradoxo. O texto que li àquela época falava sobre o noivado do filósofo com a bela Regina Olsen. Kierkegaard após consumar o noivado, pede logo em seguida para desfazê-lo. Sua personalidade complexa aplicou um golpe nos sonhos da jovem Regina, que ainda tentou reatar o noivado, mas sem sucesso.

Durante muito tempo procurei informações sobre o filósofo. Comprei livros. Li a respeito dele. E, sobretudo, li alguns livros dele - Diário de um sedutor, Temor e tremor e O desespero humano. Kierkegaard sempre foi para mim um grande mistério. Sou um admirador do seu ideal de espiritualidade. É possível colocá-lo na categoria de um Agostinho ou de um Pascal, que foram nomes que viveram de maneira exponencial a fé cristã em uma época em que a razão prevalecia sobre os anseios existencializantes da interioridade humana.

Mês passado, precisamente, dia 5 de maio, o mundo comemorou duzentos anos do nascimento do filósofo. Kierkegaard passou um bom tempo no anonimato, pelo menos até as décadas de 40 e 50 do século XX, quando se deu uma onda existencializante na filosofia - Sartre, Jaspers, Heidegger, Camus e até mesmo os filósofos de Frankfurt etc, resgataram a filosofia do dinamarquês. Tanto foi assim que ele recebeu o epíteto de "pai do existencialismo". Não é de se estranhar que ele tenha ficado algum tempo incógnito. Afinal, a fria e distante Dinamarca ficava fora do cenário dos grandes debates. Kierkegaard escrevia em dinamarquês. A língua da filosofia era o francês ou alemão, sendo tolerado, quando muito, o inglês. O que poderia vir da longínqua Jutlândia?

O filósofo era uma figura, no mínimo, estranha. Escrevia sobre determinadas categorias as quais não eram referenciáveis. Os seus patrícios não o entendia. Nascido em 1813 e morto em 1855, Kierkegaard mesmo estando longe da arena filosófica não ficou alheio às grandes controvérsias filosóficas do seu tempo. Viajou à Alemanha para ouvir, por exemplo, uma palestra de Schelling. O século XIX é o século do idealismo hegeliano e, mais tarde, dos ideias materiais de Darwin, Comte e Marx. Onde se poderia colocar a filosofia singular de Kierkegaard que postulava que o individual prevalece sobre o universal? Ou seja, ao invés de se começar a análise do gênero para a espécie, deve se fazer o contrário, colocando o indivíduo sobre todas as coisas. É a existência singular do sujeito que o torna único ante todas as realidades.

Ele parecia "o patinho feio" da filosofia, fazendo uma referência ao seu conterrâneo Hans Christian Andersen. Enquanto a filosofia hegeliana explicava todas as coisas, bem como a ciência em vertiginoso desenvolvimento, Kierkegaard diz que faltava discutir sobre o indivíduo com toda a sua singularidade. Era pelo crivo do individual que a história deveria ser medida. Para ele, o sujeito precisa "decidir ser". E o instante da decisão é a loucura pela qual o universo inteiro deve parar, observar. O homem é aquilo que escolhe ser, é aquilo que se torna. E "tornar-se" é a maior das aventuras. Daí, que surge a sua máxima: "procuro uma verdade que seja verdadeira para mim", pois tudo para diante do indíviduo. São os seus olhos que observam a contigência, pois a existência é o reino do devir na história. 

Kierkegaard é o homem avesso a qualquer sistema que prenda a possibilidade de ser do sujeito individual. A possibilidade é a mais pesada e árdua das categorias, pois sugere uma escolha de fé e 'a fé é aquilo que deve sobrar quando tudo acaba'.

Kierkegaard era um "poeta cristão". Cena curiosa é aquela em que o diabo aparece para a personagem principal de Doutor Fausto, de Thomas Mann. Quando da chegada do diabo, este percebe Adrian lendo um dos livros do filósofo dinamarquês. O diabo então profere: "Então, lendo o cristão?" Em outras palavras: Kierkegaard foi aquilo que escreveu. Tornou a sua noção de fé e suas experiências em algo com sentido. Podemos dizer que ele encontrou a sua verdade. Sua filosofia era um estilo de vida. Como ele mesmo dizia: "ninguém pode se pôr em meu lugar diante de Deus". 

Selo de comemoração aos 200 anos de nascimento do filósofo
É diante de Deus, que o sujeito fica nu e se torna aquilo que deve se tornar. Daí, deerivam dois conceitos que são inextricáveis à obra do filósofo - o conceito de angústia e o conceito de desespero. A angústia é típica do homem na sua relação com o mundo; e o desespero é próprio do homem na sua relação consigo mesmo. As raízes do desespero estão em não querer se aceitar nas mãos de Deus. Quem está em desespero ainda não está consigo mesmo, ainda não se achou plenamente. Aqui cria-se a ideia do paradoxo, pois ao passo que mais me firmo na fé e me aproximo de Deus e, fujo do desespero, mais abomino o mundo e me torno pronto para a eternidade. 

Nesse sentido, é necessário mencionar os três estágios - o estético, o ético e o religioso. O estético seria aquele se vale dos prazeres. É o nível na qual os homens naturais se encontram.  O segundo estágio é o ético em que prevalece a observação das regras morais, dos códigos jurídicos. E o terceiro e último é o religioso, ou seja, o estágio em que o sujeito individual se torna a si mesmo e vive reconciliado com a eternidade.

Esse sujeito que possui uma consciência psicológica da sua condição é o "cavaleiro da fé". Fé não é meramente crer, mas é ressignificar a realidade. A filosofia de Kierkegaard sempre se constituiu em algo a ser admirado para mim. Sempre lembro dele uma hora ou outra. Ele falava daquilo que é mais fundamental na vida: tornar-se a si mesmo com todos os seus implicativos. Numa era a qual notamos um nível tão grande barbarismo e superficialidades, o pensamento de Kierkegaard surge como um desafio para que possamos nos encontrar na curva da existência do devir histórico.


domingo, maio 26, 2013

"O vento será sua herança" e o fanatismo contra a razão

Terminei de assistir ao filme O vento será sua herança ("Inherit the wind"), de 1960. O filme retrata um dos casos mais emblemáticos da história do judiciário americano. Trata-se da acusação contra o jovem professor, de 25 anos de idade, John T. Cates. Tal fato ficou conhecido como o Julgamento do Macaco ("Monkey Trial") e teve repercussão mundial. Na pequena cidade de Dayton, em 1925, no estado do Tennessee, as leis eram derivadas dos ensinamentos bíblicos. Nessa cidade (no filme, Hillsboro), o professor Bertran Cates (que no filme tem o nome mudado para John T. Cates) ensina em uma escola pública as concepções do darwinismo, sem que professe como convicção pessoal a conhecida teoria de Darwin. 

O professor é preso e são convidados para o caso os polemistas Henry Drummond - defesa - e Matthew H. Brady) - acusação. A acusação contra o professor se baseava no fato de ter desobedecido uma lei estadual que proibia os funcionários públicos de negarem os princípios do criacionismo. Nas sessões do tribunal, a população da cidade fica contra o professor. Na verdade, é compreensivo tal fato, pois as tradições da comunidade estavam sendo questionadas. As crenças geram um conforto psicológico. Quando determinada crença é questionada, há necessariamente uma desestabilização, gerando um conflito consequente.

Acontecem quatro sessões. A terceira é a mais dramática. É aquela em que é o advogado de defesa convida de forma irônica o promotor para ser interrogado. Na sessão número 2, o advogado de defesa tivera negada a possibilidade de entrevistar importantes cientistas e professores eminentes. Na terceira, de forma irônica, mune-se de uma bíblia para julgar o promotor, considerado um perito no conhecimento das escrituras. Aqui percebemos um gracejo feito pelo advogado de defesa, já que às autoridades científicas havia ocorrido uma negativa.

Henry Drummond utiliza como estratégia questionar alguns pontos bem sensíveis do texto bíblico como, por exemplo, a história da criação, o mito de Jonas e narrativa que conta que Josué fez o sol ficar inerte no céu. Tais argumentos foram elaborados de tal forma que fizeram o promotor caí em contradição. Ao final da sessão, ele estava bastante abalado, desorientado. O que o faz ir para casa e escrever uma extensa prédica a favor do criacionismo. 

Na quarta e última sessão, na qual teria o veredicto proferido, o professor é condenado. Sua condenação resume-se a pagar uma multa de cem dólares. Matthew H. Brady, responsável pela acusação, protesta veementemente. Quando a sentença é proferida, inicia o seu discurso tresloucado. E no calor da saraivada raivosa e conservadora acaba tendo um enfarte e morre seis dias depois. Sua morte simboliza a morte dos valores retrógrados e ensejando o surgimento de novas concepções.

O filme do diretor Stanley Kramer deixa-nos uma relevante reflexão, posto que nos alerta contra os dogmatismos, sejam eles religiosos ou "a-religiosos" - este último é aquele tipo de dogmatismo que tenta divergir da religião, mas acaba se tornando outra religião. Em todas as épocas da história a intolerância sempre esteve presente. O direito à liberdade de pensamento fizeram com que Sócrates, Giordano Bruno, Galileu Galilei ou Charles Darwin fossem perseguidos por desferirem golpes filosóficos nas ideias estabelecidas.

A religião, talvez, seja uma das dimensões do ser humano mais geradoras de conflitos. O religioso crente em seu dogma é preconceituoso, possui visão curta e não está aberto a qualquer debate. Se a linguagem diverge contra a sua, aquele que profere esta sentença é digno de um tribunal. 

Como fica bem claro no filme, o que distingue o homem dos outros seres da natureza é justamente a sua capacidade de pensar. Se deus fez o homem conforme está escrito nos "poemas sagrados" não lhe seria negada a possibilidade de ousar com a razão. Como fala do advogado de defesa: "Que outro mérito nós temos? O elefante é maior, o cavalo é mais veloz e mais forte... a borboleta é mais bonita, o mosquito é mais prolífico... até mesmo uma esponja é mais duradoura". 

P.S. O nome do filme é baseado no texto de Provérbios 11.29: "Aquele que perturba sua casa herdará o vento...". 

Excelente filme!

quinta-feira, maio 02, 2013

Filme "Criação" - sobre a vida de Charles Darwin

Assisti, ontem à noite, ao filme Criação (2009), do diretor Jon Amiel, que trata sobre a vida de um dos homens mais comentados e polêmicos da história, Charles Darwin. A obra é boa sob vários aspectos. Todavia, percebemos outros elementos de cunho ficcional que foram inseridos para aumentar o drama sobre a vida do inglês. 

O filme possui uma fotografia belíssima. Passa-se na Inglaterra vitoriana, época em que a religião e o moralismo, baeado nas ideias divinas, possuíam uma força disciplinadora. Assim, a obra busca mostrar dramas físicos, espirituais e mentais enfrentados pelo inglês antes da divulgação de A origem das espécies, de 1859. O fato é que Darwin relutava consigo mesmo antes divulgar uma teoria que poria em xeque o ideal criacionista de que todas as coisas emanam da vontade de um criador bondoso e benovolente.

Darwin passa entender, por meio de suas observações, que existe um gládio na natureza. Sua grande viagem pelo mundo realizado no HMS Beagle (1831-1836), fê-lo compreender empiricamente que, na natureza, os romances são dispensáveis. O que prevalece é a força e a imparcialidade. O mais forte sobrevive e transmite aos seus descendentes as suas características. Para que uma espécie sobreviva é necessário, muitas vezes, que prevaleça sobre a mais fraca. Isso fica claro numa das cenas do filme, quando Annie diz para seus irmãos ao perceberem uma raposa matar um coelho indefeso: "A raposa tem que comer o coelho, se não os bebês da raposa morrerão. É o equlíbrio das coisas". 

Ou seja, Darwin não é a-religioso. Deve se entender que a existência filósofica do conceito de moral, amor ou compaixão é um elemento fincado no mundo humano. Na natureza não existem bondades. Apenas a luta de cada espécie para gerar descendentes férteis e sobreviver. A verdadeira luta de todas as lutas na natureza, é a luta pela vida. A grande questão em Darwin é que ele tirou a cabeça dos homens do mundo das ideias; das explicações religiosas e não sustentadas por uma base empírica, portanto, científica, e as colocou no mundo natural. É como se ele dissesse: "Escutem! Todas as explicações para compreendermos todas as coisas estão aqui". Os argumentos da religião atuam nas lacunas. Se não se pode entender ou explicar com argumentos plausíveis, fala-se: "Não podemos especular ou contradizer as escrituras ou as coisas de Deus".

No filme, o amigo de Darwin, Thomas Huxley, que foi um dos maiores defensores da teoria no século XIX, diz: "Você matou Deus". Penso que Darwin não matou Deus. Talvez, sim, do ponto de vista da logicidade e da desnecessidade de colocar Deus no cerne da teoria. Afinal, não há lugar para um criador em sua teoria. Deus pode continuar a existir na cabeça daqueles que acreditam em sua existência, sem que interfira nas coisas da ciência. Darwin lutava contra as consequências da divulgação de suas ideias, pois há muito que ele deixara de crer em um criador. Haveria uma desagregação generalizada, no seu entender. Como as pessoas, as sociedades ficariam? Pensava em sua mulher.

O filme é bom. Todavia, exarcerba no dramalhão envolvendo Darwin e a morte de sua filha, Annie. Em alguns momentos dá a entender que o vetor principal que atrapalhava Darwin para não pulblicação do livro foi a morte da filha. Ela parecia exercer, no filme, um fascínio fantasmático. Segundo seus biógrafos, a morte da filha em 1851, encorpou a sua não crença na religião. De qualquer forma, é uma excelente obra para conhecermos um pouco mais sobre a vida de um dos maiores cientistas de todos os tempos.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

200 anos de Darwin

Escrevi este texto em julho do ano de 2008. Uma exposição bem organizada e com uma estrutura excelente revelou muitos dos aspectos da vida do inglês Charles Darwin. A exposição foi bastante concorrida. Muito material da época e objetos pessoais - livros e outros badulaques; o texto abaixo descreve com mais propiedade - estavam presentes na exposição. Não deixei de sair da exposição animado e com um senso profundo de que havia absorvido muito das impressões do inglês na sua expedição pelo mundo com o barco Beagle. No último dia 12 de fevereiro de 2009, completaram-se 200 anos do nascimento de um dos homens mais polêmicos e suscitadores de controvérsias dos últimos 500 anos. A teoria desenvolvida por ele até hoje provoca discussões calorosas. Os religiosos não aceitam suas teses de que o mundo ( a natureza como um todo) seria objeto de sucessivas evoluções; de que tudo é resultado do acaso. Em homenagem ao nascimento e às ideias do cientista é que o texto abaixo vai ser postado.


Há idéias que nascem para o futuro. Elas não são acatadas, bem compreendidas na época em que surgem. Nascem perigosas por que têm o poder de martelos e bigornas destruidoras. Outras levam os seus progenitores ao ostracismo. Nietzsche disse certa vez que há homens que já nascem póstumos. Ele se propôs a fazer filosofia com um martelo. Tinha por alvo a destruição das crenças e dos valores infundados, irrefletidos. Sua apreciação tinha uma força explosiva. Poderíamos estender essa construção de Nietzsche e dizer também que há ideias que já nascem para anunciar um outro tempo, pois ao nascerem são abafadas. Todavia, as cinzas das ideias permanecem acesas esperando que alguém as alimente. Isso se deu, por exemplo, com as ideias de Giordano Bruno que foi queimado pela Igreja em plena efervescência do Renascimento. O seu pensamento complexo era por demais perigoso para as convicções defendidas pela Igreja. Resultado: Bruno defendeu até à morte as suas ideias.

Outro pensador que teve que reformular suas opiniões, suas teses, suas convicções foi Galileu Galilei. Brecht entendeu isso quando escreveu sua peça teatral Galileu Galilei. O dramaturgo alemão sabia que o pensador italiano, bem como a sua vida era um grande modelo de resistência do homem que têm ideias. Conforme certa perspectiva, o texto de Brecht estuda a responsabilidade do homem para consigo mesmo, para com sua obra e para com a sociedade. Coloca em xeque o herói, seu significado social, a discutível necessidade de sua existência numa sociedade sem liberdade. Defende o conhecimento crítico científico, acredita na razão como instrumento de luta contra a repressão, possui uma estrutura dialética e é fundamentado nos princípios marxistas. Galileu tinha uma arma poderosa: a ideia. As ideias engendram guerras. A Igreja sabia que o pensamento heliocêntrico de Galilei faria desmoronar o geocentrismo. Mais do que isso, tal pressuposto derrubaria um entendimento que havia se tornado em crença religiosa, que estabilizava e dava segurança para as convicções da fé. Era o entendimento da religião contra a construção da ciência. Por mais que se tratasse de algo empiricamente provado pelas observações de Galileu, as formulações a que ele havia chegado eram inadmissíveis para a religião. Tratava-se de uma ideia nova, perigosa, que punha em xeque as crenças fundadas. Abalava o convencionalismo. Imobilizava a segurança psicológica que habitava os costumes e trazia para comento algo novo, caoticamente original e isso suplantaria o modo de ensinar, de pregar, de se reportar à divindade e à explicação do mundo. A terra perderia sua nobreza e passaria a ser apenas mais um astro entre os outros milhões que pervagam pelo Universo. Isso abalou as convicções com certeza. A Igreja mostrou o seu poder. Fez com que Galileu abdicasse de suas ideias, seus pensamentos livres, cientificamente coerentes. Os símbolos da ausência venceram os sentidos pragmáticos e objetivos da razão.

É necessário fazer essa reflexão inicial quando tenho por objetivo falar de Charles Darwin que também pensou à sua frente e estabeleceu um novo modo de entender a história e a natureza. E por que não dizer a religião? Decidi escrever sobre Darwin, pois fui à exposição que passou aqui por Brasília. Uma lona enorme montada em pleno gramado castigado pela secura do cerrado ao lado da Esplanada dos Ministérios. Lá dentro, instrumentos, objetos, imagens, animais, textos e outros badulaques relacionados com o pensador inglês. Analisando aqueles oito espaços ou compartimentos que buscavam explicar a saga desse cientista fantástico, busquei de certa forma entrar no universo da aventura lenta, gradual, da construção das idéias que revolucionariam não somente a biologia, mas também as ciências sociais. A teoria darwinista do surgimento da natureza e dos seres vivos é uma hipótese necessária.

Darwin desde pequeno sempre mostrou uma propensão para o agrupamento. Quando criança colecionava besouros, dissecava borboletas e caminhava pelos bosques em busca de seres que atiçavam a sua curiosidade. Estudou medicina e mais tarde teologia. Entrou em contato com a ciência. Aos 22 anos inicia uma viagem que tinha o projeto para demorar 2 anos, mas que ao fim durou 5 longos anos. É permitido a Darwin conhecer outros países, outros povos; observar a rica variedade geológica do planeta, estabelecer contato com material fóssil. Paisagens diferentes, nichos complexos. Passa inclusive pelo Brasil – Recife, Salvador, Rio de Janeiro. Viajava num navio pequeno (O Beagle), pouco confortável. Levava mais de 200 livros na proa do navio. Dormia numa rede que ficava a 60 centímetros do teto. Nesse local pouco propício ao pensamento, Darwin lia e refletia sobre as descobertas que mais tarde iriam ser redigidas no seu livro de 1.859, A Origem das Espécies. Esses contatos, essas relações cristalizou em Darwin o germe da observação. Escrevia, anotava em cadernos as suas conclusões. E verificava as características dos seres vivos de cada região do planeta.

Ao cabo de sua viagem, sir Charles volta para Londres a fim de reunir numa tese as suas verificações. Demoraria anos. Havia em Darwin o medo do resultado de seu pensamento. As suas conclusões sobre a seleção ou a transmutação dos seres vivos era, no seu [Darwin] entendimento uma blasfêmia, uma heresia. Uma idéia que poderia gerar uma avalanche negativa e enlamear a sua reputação pública. Tudo isso construía em Darwin uma cautela que fez com que ele adiasse ao máximo a divulgação da sua tese. Afirmar em plena Inglaterra vitoriana que os seres evoluem e que o princípio motor da vida não tinha uma relação com o divino era algo por demais “perigoso” e revolucionário. Darwin sabia disso. Quando o seu livro foi lançado saiu com o título “Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural”. O naturalista não quis usar o termo evolução por causa da repercussão e eclosão restritiva que isso provocaria. Mas até que enfim acabou divulgando as suas idéias, pressionado pelas circunstâncias.

Inicialmente não houve muito alarde sobre o conteúdo do livro. Todavia, com o tempo rapidamente as edições de seu livro se esgotaram e os debates se sucederam acalorados. O pensador foi parodiado, criticado, demonizado, caricaturado; tornou-se motivo para piadas e ultrajes. A Igreja foi implacável em tornar sacrílega as suas teses. Construiu uma imagem negativa do pensador. Os religiosos decidiram fazer uma cruzada para restabelecer a ordem e o lugar da religião na explicação do mundo.
Para Darwin, o princípio cristão de que Deus que criou o homem à Sua imagem e semelhança não condizia com a realidade da natureza. A Bíblia diz que Deus criou o homem e o colocou num jardim a fim de que este dominasse sobre todas as coisas. Para o cristianismo, o homem é o ser mais extraordinário da criação, pois seria a coroação do ato criativo de Deus. Darwin concluiu que não existe qualquer privilégio para o homem. O ser humano seria apenas uma entre as milhões de espécies que evoluíram e aprenderam (evolução dos mais aptos) a se adaptar para continuar a existir. Outras espécies deixaram de existir, pois não se adaptaram plenamente a determinados ambientes. Darwin em suas observações verificou que a natureza está num estado constante de beligerância. A harmonia da natureza é apenas aparente. Para o naturalista, a simples visão de uma vespa paralisando uma borboleta para que esta sirva de alimento desdizia os ensinamentos da religião. Charles aos poucos foi perdendo a sua credulidade nas explicações religiosas. A morte de sua filha, fez com que ele perdesse de vez a fé. Aos domingos, enquanto a sua família ia ao culto, Darwin fazia caminhadas para melhor refletir a sua existência.

Enquanto passeava pelo espaço da exposição fui sendo tomado por um sentimento de prazer. A cadência lógica dos espaços permitia que se entendesse como se deu a fomentação e a maturação das idéias do inglês Charles Darwin. Fiquei excitado com as descobertas e como essas se infundiram na mente e no pensamento do naturalista. Senti-me estando no Beagle na América do Sul, nas ilhas Galápagos, na Ásia, na Oceania. A contemplação das diversas paisagens devem ter proporcionado uma sensação inebriadora. As orquídeas, por exemplo, constituíam uma grande paixão para Charles. Certa vez, ele se admirou de como essas plantas tão belas, tão delicadas, possuíam uma estrutura que parecia feita por mãos intencionais. Uma abertura, como um convite, fazia com que os animais que entrassem ali em busca de alimento saíssem cheios de pólen. O cientista colocou um lápis dentro do pavilhão da flor e o lápis foi impregnado pela substância amarela da planta - a matéria reprodutora. Isso não é gratuito. As trocas simbióticas se dão em todo tempo na natureza. Durante milhões de anos a planta desenvolveu a capacidade de produzir um líquido segregado que alimenta pássaros e insetos, mas ao passo que os animais vão até à planta em busca de alimento, saem portadores da semente que fará gerar outras orquídeas. Ou seja, a finalidade da planta não é oferecer alimentos, mas reproduzir-se. O alimento é apenas um chamariz, um convite falso, pois a finalidade é outra. Essa lógica se dá em todos os espaços da natureza de acordo com o ambiente. É a evolução que criou mecanismo de adaptabilidades. Somente os que se adaptam e conseguem desenvolver esses mecanismos têm condições de seguir no decorrer das eras.

Na natureza existe apenas duas palavras que determinam e são o alvo dos seres vivos: sobrevivência e reprodução. Luta-se em todo tempo pela sobrevida e uma vez que isso se efetive, busca-se em seguida gerar indivíduos sadios e férteis para que esse ciclo tenha continuidade. A natureza é simples e complexa; harmônica e beligerante. A viagem de 5 anos fez amadurecer a alma de Darwin. Solidificou os seus pensamentos. Forjou as suas convicções. As suas idéias se tornaram numa respeitada e convincente teoria sobre o surgimento do homem e dos demais seres vivos.

Saí da exposição habitado por algumas conclusões. O ser humano é insignificante. Não há vantagens para o homo sapiens. As convicções são construções. São explicações forjadas para dá sentido ao mundo humano. Se as moscas pensassem como os homens teriam religiões, senso moral e explicações limitadas ao entendimento do mundo das moscas. Se os cavalos tivessem um cérebro desenvolvido pelo processo de transmutação como o homem, certamente que as explicações sobre a existência, a espiritualidade e as outras realidades estariam subjugadas ao senso eqüino dessa explicação. A evolução dos mais aptos, como diz Darwin, fez com que o homem chegasse à condição atual. Isso proporcionou a criação e a explicação de todas coisas como as entendemos. Pensamos e logo fazemos existir tudo isso que entendemos como realidade. Como se trata de um processo constante de mutabilidade, não significa que o homem domine sempre. Algum outro ser pode evoluir e chegar à condição semelhante ou superior à do homem daqui a alguns milhões de anos. Isso afronta as mentes estáticas e conservadoras.

Para encerrar, penso na frase poderosa de Victor Hugo: “Aquilo que guia e arrasta o mundo não são as máquinas, mas as idéias”. Essa é uma condição transmitida e maturada pelo processo de transmutação e nada é mais verdadeiro que essa idéia tão revolucionária. Os pensamentos revelam a força dos mais aptos e isso doma a natureza a favor do homem – por enquanto.


Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: quinta-feira, 17 de julho de 2008, 22:24:09.