segunda-feira, outubro 15, 2012

Memórias - como se deu o meu primeiro contato com a escola (homenagem ao dia do professor)

Escrevi este texto há muito tempo atrás. Faz parte de umas memórias que principiei a escrever em 2006. Naquela época, eu havia lido o livro "Infância", de Graciliano Ramos, pela segunda vez e acabei me entusiasmando. O texto abaixo constitui um dos trechos dessas memórias. Fala como se deu o meu primeiro contato com a escola e como a minha primeira professora foi marcante para mim. Agradeço a todos os demais professores que logo em seguida eu conheci na minha caminhada como estudante. Todos eles foram fundamentais. Eis alguns nomes que eu consigo lembrar: Marina, Ivanete, Geovanete, Ana Sueli, Adalbertos, Popó de Magalhães, Paulo, Luis Fernando, Mário Bispo, Carlos Mota, Ricardo, Cíntia, Consuelo, Soraia, Francisca, Dioney, Veruska e tantos outros que a memória não consegue fazer o exercício de lembrar. Obrigado a todos vocês!

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Recebi um livro corpulento... Papel ordinário, letra safada. Apesar disso emaranhei-me em regras complicadas, resmunguei expressões técnicas e encerrei-me num embrutecimento admirável.

Graciliano Ramos, in Infância, p.120

            Aos sete anos de idade, numa certa tarde, minha mãe me relatou que eu iria à escola. Meu primeiro contato que tive com as letras se deu por uma curiosidade assistida, por uma observação imaginosa. Minhas tias estudavam numa escola rural. Todos os dias eu as via preparadas para ir à escola. Precisava de um ritual: banhos, cabelos penteados, sapatilhas, saias pinçadas – os homens com shorts que iam até os joelhos – camisa branca impecável. Às vezes pegava o caderno e me aturdia na letra miúda e embaraçosa. Certamente aqueles códigos impressos na folha branca do caderno fazia parte de uma gente superior. Estudar era privilégio. Decodificar as regras, também. A escola com certeza era um local de pessoas limpas, de aprendizado para aqueles que queriam ser gente. Eu andava descalço. Meus pés haviam adquirido uma camada grossa no chão quente. Os espinhos não me fustigavam mais. Os tocos da chã eram-me insensíveis. Menino afeito à rusticidade, queriam me introduzir no local das regras civilizadoras.
             Eu iria à escola. Como seria esse mundo de pessoas limpas, de gente que desembrulhava códigos, que aprendia regras para ser gente? Possivelmente – imaginava – eu nem brincaria mais. Não andaria mais descalço. Deixaria de tomar banho no riacho. Atinaria para a repreensão dos mais velhos. Conceitos poderosos seriam alinhavados na minha mente. A notícia de minha mãe gerou ansiedade. Possivelmente, eu ingressaria num local de gente sabida. Sairia da classe dos iletrados e me alistaria no exército dos doutos. Leria livros. Minha avó me solicitaria a fim de que eu escrevesse cartas para os meus tios que tinham ido para São Paulo. Teria importância pelo fato de me tornar um menino sabido como meu primo Roberto que estudava na cidade e lia livros debaixo das mangueiras e jaqueiras nas tardes quentes da Zona da Mata pernambucana.
            A primeira impressão funda que se apresentou a mim foi a necessidade surgida de esfregar as unhas dos pés e das mãos; limpar os ouvidos; tirar os cascões dos pés rachados; pentear os cabelos. Minha mãe dizia que menino educado tinha que mudar a postura. Dali para frente, dizia minha mãe, todos os dias eu teria que andar bem vestido, com os cabelos alinhados e com as unhas impecáveis. Hoje penso em regras militares. Metodismo draconiano.
            Minha mãe engomou a minha roupa. Comprou alpercatas. Meteu-me dentro de um uniforme limpo e de calçados apertados. A princípio caminhei desenvolto, mas aos poucos o calçado ordinário maltratou-me os pés. Primeiro dia: minha mãe acompanhou-me. Foi entregar-me à professora. Fazer recomendações. Falar quem eu era. A professora olhou-me gentilmente. Não tinha mais que a oitava série. Era a instrutora dos “bichos” acanhados colocados na sala de aula. Filhos de agricultores que viviam da subsistência. Matutos. A maioria, homens que mal sabiam assinar o nome. Totalmente cegos para a escrita. Entrevados para os livros. Desde cedo haviam sido treinados na tarefa rude. Ajuntaram-se com mulheres como eles. Tiveram proles como os coelhos e agora os enfiavam numa escola rural. Saga cruel. A maior parte do dias esses meninos passavam na roça, carpindo, plantando, adubando e na outra parte se dedicavam à escola. Eu seria mais um integrado ao grupo.
Olhava curioso para a sala. A casa onde funcionava a escola era tosca. Não se distinguia muito da que eu morava. A diferença se estabelecia no fato de que esta tinha vãos, e, aquela, não. Era uma sala pejada de bancos duros, chãos. Ali, mais de cinqüenta seres se emaranhavam na tarde quente e seca  – as aulas eram sempre à tarde. No turno da manhã a escola não funcionava. Ali estavam os alunos da primeira à quarta série. Todos ajuntados como bichos-de-ruma. Os mais adiantados já sabiam assinar o nome e ostentavam desembaraço ao recitar a cartilha.
Minha mãe deixou-me. Fiquei sozinho na selva desconhecida. Algumas criaturas eu conhecia de brincadeira. Ali estava o filho de Antônio Fragoso, o filho de João da Horta, de Bil Nunes, de seu Suneca. Olhos a me despirem. A professora gorda, de cocó enorme no meio da cabeça, vestido florido, alegre, de rosto fino, nariz aquilino e óculos capenga, disse:
-          Gente, olha só... esse é o Carlos. Ele é o novo colega de vocês.
Procurei um lugar para sentar e me escondi. Afundado em mim mesmo, tentava capturar a explicação ininteligível para os alunos mais adiantados. O seu modo tranqüilo de professora enfeitiçava os meus olhos. Parecia uma fada madrinha a ensinar receitas de mágicas para os aprendizes. Distribuía tarefas. Finalmente, aproximou-se de mim e me entregou uma cartilha de folhas amarelas. Cartão interessante. Ainda lembro das frases: “Rui tinha uma rede”. “O rato roeu a roupa do rei de Roma”. Frases cantadas, sibiladas, densamente musicais. Pareciam feitas para serem decoradas. Fiquei impotente ali parado com aquele papel que continha códigos estranhos.
Os primeiros aprendizados se deram com força e resistência. Linhas semidesenhadas precisavam ser cobertas. Ficava ali mergulhado naqueles códigos pontilhados a cobrir o “a”, o “b”, o “c”, o alfabeto. A mão emperrava. Parecia resistir arduamente à domesticação. Resignava-me. A professora pegava-me as mãos e ajudava o lápis a correr pela folha pardacenta. Minhas mãos eram pesadas. Ficava ali o tempo inteiro a memorizar o alfabeto; repeti-lo, grifá-lo na mente; riscá-lo; sublinhá-lo no interior. Escrevê-lo à lápis nas folhas alvas da memória. Aquilo era exorbitante. Doía-me o juízo. Certamente aprender era tarefa difícil.
À hora da tabuada, a mente enchia-se de espaços, de branquidão total. Os números se emaranhavam num cipoal desconexo.
- Quanto que é 4x4? – perguntava-me a professora de régua na mão.
A sensação de que levaria um bolo me afundava ainda mais num embrutecimento enorme. A professora olhava-me. Penalizava-se do meu desconcerto. Indicava-me, ajudava-me com sua pachorra que promovia grandes torturas.
-          Quanto que é 4x1?
-          Quatro – respondia.
-          4x2?
-          Oito – respondia.
-          4x3? – perguntava de novo.
-          Doze, professora.
-          Então, quanto que é 4x4, Carlos? - Olhos lacrimejavam no esforço incontido.
-          Dezesseis!!!!
Eu, criatura tímida, percebia o suor se empastar na testa. Após cada teste, saía como de uma luta. Para livrar-me da palmatória era preciso entregar-me ao estudo. Deve ser por isso que gosto tanto de estudar e ler. São as reverberações de um tempo que eu me via premido a aprender por conta da férula da professora Marina. A mestra dizia do alto da sua autoridade:
- Vocês estão muito fracos. Aqueles que não estudarem vão levar um bolo na mão – sentado no meu banco desconfortável, olhava o objeto longo, de madeira, ao lado da criatura enorme.
Todas as tardes, nós somente íamos para casa após recitar a cartilha ou mostrar que estávamos com a tabuada na ponta da língua. Não sabia ler ainda, mas havia decorado, pelas figuras que a cartilha apresentava o que cada um dos desenhos queria dizer. Uma palavra que repetia muito era “árvore”. Ao enunciar esta palavra, geralmente a citava, não por saber o que os morfemas significavam, mas por causa da prática comum, de saber que os vegetais graúdos que davam frutos eram chamados de árvores. A professora corrigia-me:
- Você falou errado. Não se diz árvore e sim arvore. Ia para casa com aquela sentença na algibeira da desconfiança. Certamente havia um equívoco na pronúncia da professora. Os mestres poderiam errar! Aquele “arvore” pronunciado sem o acento agudo, como vim a saber mais tarde, dava uma identidade nova à palavra. A “árvore” que eu conhecia não era a “arvore” repetida com tanta contumácia pela professora todas as vezes que recitava a cartilha. Era tudo um grande desconcerto. Resignava-me ao engano da professora.
Até hoje me concentro nesse erro daquela professora. Porque ela dizia “arvore” ao invés de “árvore” eu não sei até hoje. Olhava para os vegetais maiores não como arvores, mas como árvores. Certamente a minha professora estava errada. Entendi que a escola nem sempre ensina a ler o mundo corretamente.

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