domingo, outubro 14, 2012

O UFC e a violência de uma sociedade contraditória

Ontem à noite fui à casa de um colega professor. Conversamos e rimos muito. Cheguei à minha por volta de uma hora da manhã. Vi pela janela que o meu vizinho estava assistindo, com outras pessoas, a uma luta. Liguei a TV. Tentei entender o motivo para aquela reunião intempestiva. Quando liguei a TV, surpreendi-me com o que vi. Tratava-se de uma luta de UFC. Achei aquele combate simplesmente sofrível. Dois figurões seminus numa jaula (o chamado octógono), protagonizando uma luta de rinha. Dois "galos" musculosos e vitaminados (vale lembrar que a legislação brasileira criminaliza as rinhas com animais).  Não consigo entender o motivo pelo qual o UFC impressiona tanta gente. É a violência explícita. A sacralização do golpe que fulmina o outro. 

Curiosa é a descrição do colunista do site O Globo: Vale observar como ele prima por usar termos que sugerem violência e beligerância: "Spider" ("aranha", aquele qu salta, que elimina o adversário pela estratégia); "pressionar"; "queda", "golpes", "oponente", "psicopata" (que sugere anomalia psíquica); "lutar"; "joelhada"; "devastadora"; "socos".

"No primeiro round, Bonnar seguiu a linha de Chael Sonnen dentro do octógono, pressionando Anderson contra a grade e tentando a queda, mas sem ter sucesso. O americano soltava golpes, mas se desgastava, e o Spider quase surpreendeu derrubando seu oponente. O brasileiro se livrou da pressão do Psicopata Americano, mas voltou e encostou na grade como forma de provocar. Parecia que o Spider não queria lutar, só se esquivando. Mas a genialidade apareceu quando ele quis. Uma joelhada devastadora em Bonnar, que caiu. Mais alguns socos e fim de luta. Mais uma vitória para a conta".

A luta terminou quando um dos contendores encaixou um golpe ("a joelhada devastadora") no queixo do adversário. Naquele instante, ouvi as manifestações de aprovação por parte do meu vizinho. Indago-me que sociedade é essa em que vivemos. Somos vitimados pela violência diária. A mídia sobrevive à custa da violência. Muda perfomaticamente quando anuncia em seus jornalões o último caso nefasto do final de semana. Os seus noticiários estão "ensanguentados". Fechamos hermeticamente as nossas casas. Andamos pelas ruas desconfiados. Fugimos dos estranhos. Mas aprovamos a violência propagandeada numa luta transmitida pela TV. Tal violência é resultado de uma sociedade estratificada, desigual, modelada pelas diferenças sociais.

É como se os dois elementos que, estão na "jaula", representassem as frustrações coletivas. Muitos gostariam de estar ali. Protagonizando aqueles golpes; aqueles socos; aquelas munhecadas com finalidades atordoantes. Custa-me entender tão grande otimismo, se não analisar por essa ótica crítica.

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