sexta-feira, outubro 31, 2014

Alguns filmes de outubro

O mês de novembro chega à curva do caminho. Aos poucos vai morrendo. Não mais existirá um outubro de 2014, significando que este mês é marco realizável, mas que não será mais experienciável - apenas em 2015, 2016 etc. O mês de outubro foi carregado de emoções. Mês de eleições. Para presidente foram dois turnos, em que se pôde presenciar de tudo: mentiras, dissimulações e tentativas de golpes por parte da mídia nacional. Fiz uma militância sem igual. Emendei críticas contra raciocínios pequenos; contra visões afetadas pela miopia política e filosófica. Estive com o coração aos saltos em alguns momentos, principalmente, domingo, 26, dia decisivo do segundo turno.

Além dessas atividades, assisti a doze filmes. Tomei a firme resolução de ver dois filmes, no mínimo, por semana sempre que possível. Claro, em alguns momentos a conta foi exacerbada. Alguns filmes eu revisitei como, por exemplo, o sempre aprazível O nome da rosa e os bons filmes brasileiros Desmundo e Mauá: o imperador e o rei. Estiveram ainda na linha de ação: o brasileiro Carlota Joaquina; o surpreendente filme alemão A onda; os hollywoodianos O preço do amanhã, que se mostrou interessante pela trama distópica, mas que encerra com aqueles finais previsíveis; e o fraquíssimo - e também distópico - O doador de memórias (Meryl Streep já esteve melhor); assiti à sensacional pintura política em forma de comédia de Kubrick, o Dr. Fantástico; o sensacional Nebraska, um road movie de fina sensibilidade, do diretor Alexander Payne; o filme possui uma trilha sonora (que tenho escutado bastante) arrebatável, entre o folk americano e a reflexão onírica e impressionista encontrada nas cenas filmadas em preto e branco;  vi o épico A Infância de Ivan, de Tarkovski; esteve também em meu cardápio o bom filme uruguaio O quarto de Leo, que aborda a temática homossexual. Todavia, dois filmes me deixaram muito feliz - o filme chinês O caminho para casa e o franco-belga Violette, bastante denso e de uma visceralidade arrebatadora.

Não pretendo dar spoilers sobre os filmes. Quero apenas apontar algumas impressões sucintas:

Violette (2013), de Martin Provost, é um daqueles filmes que embriagam. A começar pela belíssima fotografia da França da Segunda Guerra Mundial. O diretor nos coloca em uma Paris com laivos suburbanos. Uma cidade melancólica, porém charmosa e de febricitante produção intelectual; uma cidade de casas com aquecedores problemáticos e papéis de paredes mofados. Provost já havia conseguido esse recurso no bonito Séraphine (2008) e o repetiu agora. O filme mostra a personalidade conturbada e o drama pessoal de Violette Leduc até que esta se torne a escritora bem sucedida de A Bastarda. Inclusive, procurei o livro para comprar na Estante Virtual. Não tive êxito. Há a notificação de que existem alguns exemplares, mas não conseguimos efetivar a visualização da disponibilidade. O filme põe no centro a aproximação intelectual de Leduc com Simone de Beauvoir (a companheira de Sartre), uma feminista no sentido lato do termo. É nesse período conturbado do século XX, que Beauvoir está escrevendo O segundo sexo, uma das obras fundamentais do século passado, que debate o papel da mulher na sociedade burguesa. De certa forma, o papel de Leduc é simbólico para o desenho da obra que Beauvoir escreve. Leduc é uma personagem de personalidade complexa: abortara na juventude. possuía inclinações homossexuais; é perseguida por tramas mentais que colocam mulheres em posição de vanguarda em um ocidente cristão machista e conservador. Enfim, é um filmaço!

O caminho para casa (2000), de Zhang Yimou, é uma experiência singular de fina poesia e beleza. Há algum tempo atrás vi Balzac e costureirinha chinesa (2002), do diretor Dai Seiji, e fiquei impressionado com a suavidade da obra. A cena final do filme é uma das cenas mais sublimes que já vi: a personagem caminha pelas montanhas de uma China que vive sob o maoísmo e um dos Concertos para violino de Mozart (não lembro qual) toca e aquilo vai se rarefazendo, mostrando o poder infinito da beleza. Já no filme de Yimou, temos novamente uma China rural, bucólica, singela. O filho vem de uma cidade  grande para o enterro do pai.. Ao chegar encontra a mãe desconsolada. O que ela queria era fazer com que o marido viesse pela estrada que levava ao povoado (ele estava morto em outro lugar). Nesse ponto, o filho, como um narrador em off, começa a contar como se dera o romance entre a mãe e o pai - que viera ser professor no pequeno povoado. Curioso recurso é utilizado pelo diretor: o início e o final do filme foram filmados em preto e branco e, no meio, onde encontramos a construção do romance, o filme ganha cores (primeiro do outono e depois do inverno), talvez para mostrar a relação construída por eles. Belíssimo filme!

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