quarta-feira, fevereiro 18, 2026

"A Normalista", de Adolfo Caminha

 

                Comecei a leitura das 12 obras de literatura brasileira para o ano de 2026, por “A normalista”, do cearense Adolfo Caminha. Em 2022, li “O bom crioulo” do mesmo autor. Estes são seus dois principais romances. O escritor não possui uma obra volumosa, pois faleceu aos 29 anos de idade, vitimado pela tuberculose.

                Adolfo Caminha é daqueles escritores que gostavam de uma boa polêmica. Isso pode ser dito tanto por causa de “A normalista” e, também, de “O bom crioulo”. No primeiro, Caminha desfere um golpe eciano contra a hipocrisia moral da capital cearense; no segundo, aponta para as relações hierarquizadas da Marinha e como a sociedade carioca tratava os diferentes. No caso em questão, Amaro, é um ex-escravo, marinheiro e homossexual.

                Caminha sentiu os efeitos da famosa Seca de 1877 em seu estado. Ficou órfão da mãe quando tinha dez anos de idade. O peso dessa intempérie ficou em seu imaginário. Em “A normalista”, a personagem principal, Maria do Carmo, também perde a mãe para a terrífica seca, que assolou o estado. Esse evento geofísico criou um movimento fenomênico no imaginário dos intelectuais cearenses. Essa força parece influenciar até mesmo intelectuais do século XX. Por exemplo, o famoso primeiro romance de Rachel de Queirós – “O quinze” -, de 1930, inscreve-se nesse lastro realista. Apesar de a escritora não retratar a seca de 1877; mas a seca de 1915. Mesmo havendo o afastamento de quase quarenta anos, o drama parece ser cíclico.

                Caminha, apesar do pouco tempo de que dispôs e da vida agitada,  diferentemente de outros escritores do seu tempo, não era alguém de posses. Durante algum tempo, esteve na Marinha. Acabou saindo por divergências. Depois, assumiu um cargo menor no funcionalismo graças aos arranjos e conformações políticas. Sua literatura era produzida nesses intervalos. Colocou em evidência as duas cidades onde mais viveu – Fortaleza e Rio de Janeiro.

                “A normalista” é daqueles romances naturalistas que possuem um esquema já conhecido – linguagem objetiva, visão determinista, zoomorfização, racionalismo e cientificismo. O cearense pode ser colocado ao lado de escritores como Aluísio Azevedo, Júlio Ribeiro, Rodolfo Téofilo, Inglês de Sousa e Raul Pompéia como um dos grandes dessa escola.

                No livro de 1893, Caminha descreve os descalabros das relações com um pessimismo inquestionável contra a capital do seu estado. O escritor parece realizar um acerto de contas por causa da relação clandestina que teve com uma mulher casada. Em uma cidade provinciana e conservadora, a crítica lhe causou desconforto. Essa mesma cidade preocupada com os valores morais alheios acobertava contradições. Ou seja, quem se preocupava com o comportamento alheio, não olhava para as próprias ações, para as próprias contradições. É nesse cadinho de misérias morais, que Caminha conta a história de Maria do Carmo e de como seu padrinho João da Mata a engravidou, enredando-a. Fortaleza é retratada como um palco de sordidez, de vícios torpes, apesar de não se perceber.

                A sociedade burguesa para Caminha é um espaço onde os jogos de aparência possuem uma dinâmica hipócrita. Nessa sociedade de moral rígida, consolidada por uma religiosidade de fachada, adultérios, golpes, exploração e dominação acontecem sem constrangimentos. A força é imperiosa e coercitiva, sobretudo sobre os mais fracos – mulheres e negros. A sexualidade feminina é tratada como um perigo social. Todavia, esses desejos reprimidos aparecem como força natural irreprimível.  Nessa mesma sociedade, a honra da mulher é tratada como um patrimônio da família.

                Com essas críticas – entre outras -, Caminha denuncia o provincianismo pequeno-burguês da elite citadina do seu tempo. Nessa sociedade, as fofocas existem como um uma tônica comum. Essa prática é alicerçada pela superficialidade e faz do indivíduo um alguém imensamente pequeno diante da força que o jogo social tem sobre ele.  

               

sexta-feira, janeiro 16, 2026

Na hora da almoço - de Belchior


No centro da sala, diante da mesa
No fundo do prato, comida e tristeza
A gente se olha, se toca e se cala
E se desentende no instante em que fala
Medo, medo, medo

Cada um guarda mais o seu segredo
Sua mão fechada, sua boca aberta
Seu peito deserto, sua mão parada
Lacrada e selada e molhada de medo
Medo, medo, medo

Pai na cabeceira: é hora do almoço
Minha mãe me chama: é hora do almoço
Minha irmã mais nova, negra cabeleira
Minha vó reclama: é hora do almoço, moço, moço, moço

E eu ainda sou bem bem moço pra tanta tristeza
Deixemos de coisas, cuidemos da vida
Se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço, sem ter visto a vida
Ou coisa parecida, ou coisa parecida
Ou coisa aparecida

 

domingo, janeiro 11, 2026

Meus 20 concertos para piano favoritos.

Marc-Andre Hamelin em concerto com a Osesp

A palavra "concerto" tem a sua origem na palavra "concertare", cujo significado é "competir", "combater", dando a entender que a ideia de concerto existe em torno de uma disputa. A origem remonta o século XVII. O "Concerto grosso" ("concerto grande"), surgido nesse período, com um pequeno grupo de solistas, buscava contrapor esse mesmo grupo  à orquestra. Houve uma evolução desse formato para - apenas - um solista, fosse ele violinista, violista ou pianista. No Barroco, nomes como Vivaldi e Corelli são fundamentais para essa evolução. No Classicismo, esse formato tornou-se cada vez mais popular e acabou sendo usado por vários compositores - entre eles, Haydn e Mozart.

As características do "concerto" clássico procuravam reproduzir a forma-sonata. Ou seja, um primeiro movimento rápido; um segundo lento; e um terceiro rápido. O solista é seguido por uma orquestra completa, uma orquestra de cordas ou um conjunto de câmara. A partir da ascensão de um solista, passou a existir a necessidade do virtuosismo. No Romantismo, essa expressão recai sobre a capacidade quase trascendente daquele que interpreta. O instrumento - o piano, o violino etc - dá ao solista gestos quase heroicos no momento em que fica sozinho, mergulhado em funda introspecção. 

Tudo o que estou a falar aqui é simplório e sintético. A história do concerto possui muito mais elementos do que esses que estou a refletir de maneira rápida. O meu objetivo com essa postagem é revelar quais são os meus concertos para piano favoritos. Acabei por selecionar vinte. Fazer essa seleção não foi fácil, pois há compositores com mais de um concerto. Por exemplo, Mozart escreveu 27; Prokofiev, 5; e, Beethoven, 5. Outra: não escolhi mais de um obra por compositor. 

Seguem as obras:

(1) Beethoven- Concerto No. 4;

(2) Brahms - Concerto No. 2;

(3) Liszt - Concerto No. 1;

(4) Tchaikovsky - Concerto No. 1;

(5) Mozart - Concerto No. 26;

(6) Ravel - Concerto para piano, M. 83; 

(7) Grieg - Concerto para piano, Op. 16; 

(8) Shostakovich - Concerto No. 2;

(9) Schumann - Concerto para piano, Op. 54

(10)  Schoenberg - Concerto para piano, Op. 42

(11) Camille Saint-Saëns - Concerto No. 2;

(12) Dvorak - Concerto para piano, Op. 33;

(13) Villa-Lobos - Concerto No. 1; 

(14) Samuel Barber - Concerto para piano, Op. 38

(15) Chopin - Concerto No. 2;

(16) Prokofiev - Concerto No. 1; 

(17) Bartok - Concerto No. 1;

(18) Rachmaninov - Concerto No. 3;

(19) Paderewski - Concerto para piano, Op. 17

(20) Glazunov - Concerto No. 2. 

P.S1: A lista encontra-se no Spotify

P.S2. A lista acima não segue uma hierarquia. Simplesmente, fui elecando à medida que lembrava. 

sexta-feira, janeiro 02, 2026

Os 10 melhores filmes que vi em 2025

Iniciei 2025 com a intenção de assisti a setenta filmes. Não alcancei meu intento. Acabei me perdendo em algum momento. Em meio às sucessivas exigências da rotina, quando dei por mim já era o mês de agosto. Acho que vi pouca coisa entre abril e julho. Costumo colocar a lista dos filmes vistos aqui no blog. Mas até isso deixe de fazer. Anotei alguns nomes em minha agenda. O resultado foi que devo ter visto algo em torno de cinquenta filmes. Não alcancei o meu objetivo; todavia, vi boas produções. Em 2026, farei um esforço para ser diligente.

Escolhi dez filmes, mas, inicialmente, selecionei mais que isso. Alguns filmes não entraram na lista por muito pouco. Elenco aqui cinco que deveriam ter entrado, mas que acabei não colocando: "Veludo azul" (1986), de David Lynch; "A verdadeira dor" (2024), de Jesse Eisenberg;  "O céu de outubro" (1999), de Joe Johnston;  "Julieta dos espíritos" (1965), de Federico Fellini; e "O aprendiz" (2024), de Ali Abbasi.

Abaixo, segue a lista com os 10 melhores filmes que vi em 2025. 

(1) "Noites de Cabíria" (1957). Federico Fellini
(2) "Conclave" (2024). dir. Edward Berger
(3) "Ainda estou aqui" (2024). dir. Walter Salles
(4) "O sabor da vida" (2023). dir. Trân Anh Hùng
(5) "A garota da agulha" (2024). dir. Magnus von Horn
(6) "Sonhos de Trem" (2025). dir. Clint Bentley
(7) "Folhas de Outono" (2023). dir. Aki Kaurismäki
(8) "Um completo desconhecido" (2024). dir. James Mangold
(9) "No lugar da outra" (2024) dir. Maite Alberdi
(10) "O filho de mil homens" (2025) dir. Daniel Rezende

 

quinta-feira, janeiro 01, 2026

O cinema em 2026 - Michelangelo Antonioni

Começamos 2026 pensando a respeito do diretor o qual visitaremos. Após a seleção do nome, doze filmes são escolhidos para serem vistos ao longo do ano. Ano passado, o nome da vez foi o icônico Federico Fellini. Foi uma revelação. Dois dos filmes da lista eu já havia visto - "Noites de Cabíria" e "8 1/2". Os demais foram descobertas extraordinárias como, por exemplo, "Amacord", "Os boas vidas", "Julieta dos espíritos" e "A cidade das mulheres". A tônica felliniana da atmosfera onírica e da alegria cincerse foram características observáveis em cada obra. Algumas das produções exigiram uma noção de totalidade do que representa a obra do diretor. Se alguém quiser assistir a alguma dessas produções - não estando acostumado com cinematografia do diretor -, certamente não terá paciência e abandonará o filme. Fellini se entende, captura-se no detalhe. O exemplo mais elementar disso que estou a falar é "8 1/2". É preciso muita atenção e sensibilidade para arrematar-lhe as referências metafóricas e metalinguísticas. 

Para 2026, cogitei alguns nomes - Antonioni, Scorsese, Francis Ford Copolla, Kubrick. Sem muitas reflexões e deferências, saquei o nome do italiano Michelangelo Antonioni. Como já relatei em anos anteriores, tudo começou em 2020. Naquele ano, escolhemos alguns dos filmes de Tarkovsky. Repeti a experiência no ano seguinte. Nos anos anteriores, vieram as seguintes escolhas: Ingmar Bergman (2021); Akira Kurosawa (2022) - uma das experiências estéticas mais bonitas da minha vida; Luis Buñuel (2023); François Truffaut (2024); e Federico Fellini (2025). 

Existe uma curiosidade sobre Antonioni: ele morreu no mesmo dia em que morreu Ingmar Bergman - 30 de julho de 2007. É uma coincidência do tempo ou uma trama da eternidade? Dois gênios que se ausentam do mundo que eles ajudaram a decifrar. 

Os doze filmes do diretor para 2026 são os seguintes (sempre na cota de um por mês):

(1) Blow - Up - depois daquele beijo

(2)  O grito

(3) A aventura

(4) O eclipse

(5) A noite

(6) As amigas

(7) Deserto vermelho

(8) Profissão: repórter

(9) Identificação de uma mulher

(10) Crimes da alma

(11) Amores na cidade

(12) Zabrieski Point 

Como planejo todos os anos, a meta para 2026 é assistir a 70 filmes (no mínimo). Ano passado, acabei me perdendo. Parei de catalogar. Talvez, não tenha conseguido alcançar os 70 pretendidos, mas vi uns 50 - está ótimo!

Vamos começar:

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