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Domingo, Fevereiro 19, 2012

Se não pode ficar com os livros, leve-os com você

Não queria ter saído de casa neste carnaval. Gostaria de ter ficado me refestelando com obras fílmicas programadas, muita música (do rock setentista do Sabbath, passando pelo jazz, ao clássico, que são verdadeiramente os estilos que me apetecem); além disso queria colocar as leituras atrasadas em dia. Nas últimas duas semanas eu trabalhei de maneira operosa. Cansei. Fatiguei-me com as exigências da profissão que exerço: professor. Estando posto nestas condições, quando surge um desses feriados que se assemelham a um oásis, ficamos imensamente ansiosos. A gente vem numa caminhada alucinante, angustiante, e, de repente, encontramos essas ilhas de possibilidades. E o resultado é que grandes expectativas são grassadas.

Mas a minha mulher acabou me convencendo a sair de casa. Arrancou-me da minha ilha imaginária. E penso que isso seja uma característica da espécie. Acredito que num tempo primal, os homens por viverem fora de casa (as mulheres, por sua vez, por estarem sempre recolhidas no antro doméstico a cuidar da prole e dos afazeres do lar), num momento ou outro queriam, quando voltavam das caçadas e do trabalho agrícola, recolherem-se pachorrentamente, sem serem incomodados. As mulheres por viverem numa condição inversa, sentiam uma necessidade de saírem, de socializarem, de verem as novidades do mundo. Claro, vivemos em um outro tempo, mas isso ainda continua inscrito num código invisível, em alguma região adormecida do vulcânico cérebro feminino.

Ao sair de casa, trouxe comigo o volume maravilhoso - Karl Marx - ou o espírito do mundo - de Jacques Atalli. A leitura das primeiras páginas causaram uma funda impressão poética. Attali faz uma análise 'secular' de Marx, alguém que parece ter se constituído numa entidade hagiográfica. As análises, geralmente, sobre Marx ou são apaixonadas e sacralizantes ou rasteiras e criminalizantes; ou o amam ou o odeiam. Pelo que que pareceu, Attali decinge-se de uma visão acachapante e unilateral de Marx, como tantos têm feito. O filósofo alemão é uma das mentes mais engenhosas e influentes da história. Poucos filósofos falaram tanto nos últimos quinhentos anos quanto o pensador nascido em Trier. Nenhum filósofo provocou tanta especulação quanto ele. Enormes disputas - militares, ideológicas, estratégicas - surgiram por causa de supostas interpretações exegéticas feitas dos seus escritos que abarcam a economia - o modo de produção e a vida dos homens. E até os dias de hoje, o mundo se "re-arranja" após a Guerra Fria, resultado de uma nação que se levantou para fazer óbice ao capital, personalizado na figura dos Estados Unidos da América. As crises cíclicas do capitalismo já eram apontadas pelo informado jornalista Marx.

Marx disse que as nossas lutas acontecem na história. Não há outro mundo possível. A não ser aquele que nascerá como resultado da luta dos trabalhadores, sobrepujando as contradições da sociedade capitalista. Nesse sentido, como dizia Nietzsche, a doutrina de Marx se assemelha ao cristianismo, por ser proponente de um mundo balizado no idealismo. Continuarei a leitura. Conaterei as novidades.

Ontem à tarde, após ter chegado à capital goiana fui a um shopping da cidade e após ter entrado na Livraria Saraiva, acabei cometendo algumas extravagâncias. Não gosto de ir a lojas de livros. Isso me faz sofrer. Olhar aquelas volumes indeléveis e deixá-los intactos, sem poder levar para casa, me é muito difícil. Adio ao máximo esse fato. Mas acabei cedendo. Comprei quatro livros - On the Road - Pé na estrada, livro de Jack Kerouac ao qual eu estava há muito tempo com o intento de comprar; Por que não sou cristão - Bertrand Russell, este talvez por ter sido influenciado pelo Charlles Campos (embora eu goste bastente do estilo frugal e elegante de Russell); Um artista da fome e outros contos, de Kafka (ando na minha fase Franz Kafka. Tenho tetando lê-lo ao máximo). O estilo do escitor polonês me deixa com a impressão de que um louco resolveu fazer literatura, criando metáforas incríveis e sofisticadas; e o último foi A origem da família, da propriedade privada e do Estado, de Friedrich Engels, um clássico do amigo de Marx. Possuo este livro em casa, todavia numa edição ordinária. Resolvi comprá-lo pela surpreendente editora Expressão Popular, que tem realizado um trabalho extraodinário no sentido de publicar os grandes clássicos do marxismo.

Sendo assim, a minha viagem não está sendo de todo ruim. Estou hospedado em um hotel numa cidade do interior, com vários livros sobre a minha cama. Ouço o Duplo Concerto para cello e orquestra de Brahms em meu notebook. Faz um calor terrível, o que é amenizado pelo ar condiocionado. E a certeza de que muitas vozes falam comigo está comigo. Sendo assim, se você não pode ficar em casa com os seus livros, leve-os com você.


Goiânia/Pontalina - GO
19/02/2012


Segunda-feira, Fevereiro 13, 2012

Quando ficamos mais pobres

Não gosto de emprestar livros. Sou muito ciumento com relação aos meus livros. Quando morava na casa de minha mãe, meu irmão costumava emprestar os meus livros para os colegas dele. Aquilo me enfarava. Artudia-me. Deixava-me com nervos em estado de choque. Lembro-me de que quando eu era criança eu assistia ao desenho da Disney Ducktales. A figura do tio Patinhas sempre me chamava a atenção. Ele era um velho rabugento e sovina que guardava o seu dinheiro numa caixa forte. Conseguia contabilizar todas as moedas. Cena curiosa era aquela em que ele nadava na dinheirama da qual era dono. Quando faltava uma moeda da sua caixa forte, ele conseguia perceber. Ficava louco, desconcertado e, geralmente, encetava uma cruzada para conseguir o objeto desaparecido.

Pois, curiosamente, desenvolvi essa capacidade para com os meus livros. Sendo possuidor de mais de 1400 livros, conseguia perceber quando algum estava fora do lugar. Infelizmente num desses empréstimos clandestinos, três livros se foram de minha biblioteca e não mais voltaram. Agora que casei e saí da casa da minha mãe, estou resolvido a comprá-los de volta. São eles: Doutor Fausto, de Thomas Mann; O livro do desassossego, de Fernando Pessoa; e Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk, de Nikolai Leskov (sendo que este último eu mesmo emprestei e ele nunca mais voltou).

Estou com um desejo enorme de ler Doutor Fausto, mas fui surrupiado por intenções ávidas e incógnitas. Minha "caixa forte" (biblioteca) está mais pobre - e eu também.

Quarta-feira, Fevereiro 08, 2012

Confissão apaixonada!

A literatura é uma vitamina que fortalece as percepções do espiríto. Esta frase canhestra, quase que saída de um protocolo de auto-ajuda me veio gratuita. Não encontro outra para descrever o sentimento que me balança. Lembro de outra mais séria e segura do crítico brasileiro Afrânio Coutinho: "A literatura é transfiguração do mundo". Descobri a literatura muito tarde em minha vida. Queria ter nascido com ela. Gostaria que ela fizesse parte do meu código genético. Que se misturasse aos fluídos do meu corpo. Mas somos resultado de uma interação. E geralmente as coisas se aproximam de nós por causa, na maioria das vezes, de uma confluência sócio-histórica. Ainda bem que ela veio a mim, mesmo que tarde.

Em matéria de conhecimento literário eu não passo de um pedante. Um diletante raso, sem matéria, sem nervos fortes. Sou estreito como um regato em tempo de seca. Não li ainda a maioria dos clássicos universais. Aqueles livros que entraram na categoria de imortais. E quando lemos um livro como O Processo, vem a nós uma sensação de estupidez, de questionamento aniquilador: "Por que você perdeu tanto tempo antes de chegar até este livro?". Apesar de ter lido A Metamorfose há dois anos atrás mais ou menos, somente agora estou lendo O Processo. Este ano ainda quero ler O Castelo e Carta ao Meu Pai, textos célebres de Kafka.

E fica-nos a pergunta: "O que foi Franz Kafka?". Um ateu religioso, criador de mundos repletos de si mesmo? Uma mente complexa que parece antever (no dizer de Lukács) a decadência do mundo burguês? O escritor, nos seus textos, descreve a esquizofrenia do nosso tempo. O absurdo de nossos processos existenciais, ordenado por um poder burocrático invísivel. Somos baratas asquerosas e os outros homens fingem nos aceitar. Gregor Samsa é uma metáfora.

Continuemos a nossa leitura exultando esta descoberta. Ah! a literatura... musa de corpo excitante e intangível.

Domingo, Fevereiro 05, 2012

Início de leitura - O Processo, de Franz Kafka


Apesar da semana corrida, tive a oportunidade de iniciar a leitura de O Processo de Franz Kafka. Leitura visceral. Texto atordoante e eivado pelo absurdo. Como um sujeito reagiria se percebesse que foi preso por motivos não explicados? Pois esta é a tortuosa e tensa história de Joseph K. A narrativa asfixiante e tortuosa nos dá a sensação dolorosa das impressões advindas ao personagem. A prisão é um absurdo e a não explicação desta é o que atormenta. Continuemos a leitura.

Segunda-feira, Janeiro 30, 2012

Anotações sobre Anton Tchékhov

Achei o texto bastante pertinente. Resolvi postá-lo por conta disso. Foi extraído do jornal Sul 21 e escrito por Milton Ribeiro. O texto trata sobre um dos maiores escritores russos de todos os tempos (e por quê não dizer da literatura ocidental?)





Anton Tchekhov e Liev Tolstói

Milton Ribeiro

É curiosa a celebridade póstuma alcançada por Anton Tchékhov. Seja na Rússia ou em qualquer lugar do mundo, o escritor está cada vez mais próximo do nível de semideuses de Dostoiévski e Tolstói, só para ficar entre seus conterrâneos. É justo. Não há uma “grande obra” do autor, mas o numeroso mosaico formado por seus contos, peças teatrais e novelas merece lugar entre as maiores da literatura ocidental.

O fascínio de nossa contemporaneidade com o escritor russo não é casual: o realismo, a clareza, o humor, a leveza, a abordagem compreensiva dos personagens, a pouca ênfase a coisas que outros escreveriam cheios de exclamações — ele parece dizer: não te ajudarei, descubra sozinho o que há de importante aqui — , a imaginação para criar cenas e situações significantes, sua visão sem ilusões do amor e a total falta de preconceitos não apenas o permitia transitar por toda a sociedade russa do século XIX como permite que o mesmo aconteça entre os leitores de hoje. Talvez ele não fale a todos da mesma forma, mas há um fato comum citado por vários ensaístas: ele é uma leitura inteligente cuja presença e essência é amiga e irônica. Ou seja, ele vicia.


Tchékhov viveu apenas 44 anos e era médico. Até os 26 anos, publicou 300 histórias em jornais russos, quase todas cômicas. Vivendo em Moscou, era obscuro. Porém, sem que soubesse, estava tornando-se famoso em São Petersburgo, onde tinha numerosos leitores. Isto perdurou até o dia em que recebeu uma carta do severíssimo crítico Grigorovitch:

Os atributos variados de seu indiscutível talento, a verdade de suas análises psicológicas, a maestria de suas descrições (…) deram-me a convicção de que está destinado a criar obras admiráveis e verdadeiramente artísticas. E o senhor se tornará culpado de um grande pecado moral, se não corresponder a estas esperanças. O que lhe falta é estima por este talento, tão raramente conhecido por um ser humano. Pare de escrever depressa demais…

Tchékhov mudou e, sem perder a graça e a leveza mozartiana de seu texto, tornou-se realista. O novo estilo custou-lhe violentas críticas, que acusavam seu “mau gosto” e a utilização de “detalhes sujos e grosseiros”. Ele respondeu: “Pensar que a literatura tem como finalidade descobrir as pérolas e mostrá-las livres de qualquer impureza, equivale a rejeitá-la.”


Rubens Figueiredo, tradutor e prefaciador de O Assassinato e outras histórias faz importantes observações sobre Tchékhov:

No ambiente intelectual russo, o debate só parecia fazer sentido quando tomava formas extremadas. A fama crescente de Tchékhov e a expectativa em torno de seus textos obrigaram-no a defender-se dos mal-entendidos, cada vez mais numerosos.

Os leitores russos se haviam acostumado a tomar os escritores como campeões de credos políticos e religiosos mas, no caso de Tchékhov, esbarravam em textos obstinadamente inconclusivos. Mais grave ainda, suas entrelinhas pareciam indicar que tanto as grandes sínteses intelectuais quanto os padrões de pensamento herdados pelos costumes serviam antes para encobrir a realidade.

O desconcertante é que Tchékhov consegue munir sua prosa de uma sutileza capaz de sugerir outras camadas de experiência, como se a realidade nunca se esgotasse.

E, mais desconcertante para a época:

Para Tchékhov, a religião era moralmente indiferente. Ou seja, a crença, seus conceitos, seus símbolos e rituais eram ineficazes para deter a crueldade e o egoísmo, mas tampouco constituíam suas causas.

E o próprio Tchekhov escreveu, demosntrando uma posição absolutamente moderna, a do escritor que se nega a proferir “verdades”:

Não cabe ao escritor a solução de problemas como Deus ou o pessimismo; seu trabalho consiste em registrar quem, em que circunstâncias, disse ou pensou sobre Deus e o pessimismo.


Indicações de leitura

Há muitos livros de Tchékhov para serem indicados. Como ele era contista, novelista e dramaturgo, há muitas coletâneas e, nelas, muitos contos e novelas repetidas. Vamos começar pelas peças teatrais: As Três Irmãs, A Gaivota, Tio Vânia e O Jardim das Cerejeiras são tão extraordinárias que prescindem dos atores e podem ser lidas como uma novela de diálogos. O extraordinário A Enfermaria Nº 6 está em vários livros, assim como os contos Inimigos, A Dama do Cachorrinho e um conto clássico que os tradutores deveriam reunir-se a fim de estabelecer um nome, pois ele pode se chamar Queridinha aqui, O Coração de Olenka ali, Dô-doce (?) acolá, assim como Amorzinho ou qualquer outra coisa.

A novela A Estepe, curta e genial, narra a viagem de uma criança como uma metáfora da viagem que atravessamos sem saber porque e para quê. A impressão estranha que a novela causa é semelhante a causada pelo filme Olhos Negros de Nikita Mikhálkov, em que Mastroianni recorda “as névoas da Rússia num passeio de carruagem, na infância, há muito tempo”.

O melhor livro talvez seja uma tradução dos contos feita por Bóris Schnaidermann:

A Dama do Cachorrinho e outros contos. Editado primeiro pela Civilização Brasileira, depois pela Max Limonad e finalmentye para Editora 34.

Outros livros:

Contos e Novelas. Edições Ráduga (Moscou). 1987. Um primor de tradução para o português realizada por Andrei Melnikov.
O Assassinato e outras histórias. Cosac & Naify. 2002. Trad. de Rubens Figueiredo.
O Beijo e outras histórias. Círculo do Livro. 1978. Trad. de Bóris Schnaidermann.
A Enfermaria Nº 6 e outros contos. Editorial Verbo. 1972. Trad. de Maria Luísa Anahory.
Os mais brilhantes contos de Tchekhov. Edições de Ouro. 1978. Trad. de Tatiana Belinky.
Lenco Tchékhov. Ensaio e Contos. Ediouro. 2004. Trad.de Tatiana Belinky.

Filmes: há dois esplêndidos filmes de Nikita Mikhálkov baseados “em qualquer coisa de Tchékhov” (palavras do próprio diretor e roteirista): Peça Inacabada para Piano Mecânico (1977) e o famoso Olhos Negros (1987) com Marcello Mastroianni detonando no papel principal atrás da Dama do Cachorrinho.


A opinião de Tolstói

Os personagens de Tchékhov são cheios de boas intenções sobrecarregadas de estupidez, inatividade e finalidade. Tchekhov é moderno em sua concisão, pouca adjetivação e principalmente na recusa em explicar o mundo. Confrontado com as idéias de Tolstói — o qual em seus textos parece ter resolvido todos os impasses da humanidade — , Tchékhov era um apresentador de realidades complexas e insolúveis que habitam uma dentro da outra. Também defendia, uma novidade na época, os efeitos benéficos da ciência e do progresso. Porém, apesar de totalmente diferente, Tolstói apreciava muito sua obra.

Em vida, Anton Tchékhov era razoavelmente conhecido, mas não era uma celebridade. Após sua morte, Tolstói disse: “Creio que Tchékhov criou novas — absolutamente novas — formas de literatura que não encontrei em parte alguma. Deixando de lado falsas modéstias, afirmo que Tchékhov está muito acima de mim”.

Naquele tempo, os contemporâneos não deram atenção a esta opinião. Pensavam que o conde já idoso estava a superestimar o amigo, atribuindo-lhe características acima das que merecia. Passados cem anos, vemos agora que Tolstói não estava tão equivocado. Atualmente, na Rússia, Anton Tchékhov encontra-se ao lado dos grandes clássicos: Púchkin, Gogol, Dostoiévski e Tolstói. E, como dramaturgo, está entre os mais célebres e montados autores mundiais.

As mortes de Tchékhov

Anton Pavlovitch Tchekhov sentou-se na cama e de maneira significativa disse, em voz alta e em alemão: ´Ich sterbe´ – estou morrendo. Depois, segurou o copo, voltou-se para mim, sorriu seu maravilhoso sorriso e disse: ´Faz muito tempo que não bebo champanhe´. Bebeu todo o copo, estendeu-se em silêncio e, instantes depois, calou-se para sempre. E a pavorosa calma da noite foi apenas alterada por um estampido terrível: a rolha da garrafa não terminada voou longe.

Olga Knipper, esposa de Anton Tchékhov.

A morte de Tchékhov no balneário de Badenweiler é uma das mais recontadas da historia da literatura. Parece haver enorme sedução na cena do escritor moribundo, sua mulher, seu médico, o estudante que chegou para ajudar e a garrafa de champanhe. Quem pediu a bebida? O médico ou Tchékhov? A sedução é tanta que o grande Raymond Carver escreveu um conto, Três rosas amarelas, no qual narra a cena, só que cheia de detalhes inventados. Talvez isso tenha nascido da narrativa de Olga Knipper, atriz e mulher do escritor. Em seu relato, a cena é contada com tanto, mas tanto romantismo que não parece verdadeira. O cômico sobre sua morte é que a prórpia Olga narrou a morte do marido várias vezes. De forma sempre diversa…

Faz pouco mais de 100 anos que o fato narrado ocorreu. Tchékhov faleceu em 15 de julho de 1904 em Badenweiler, Alemanha. Tinha nascido em 29 de janeiro de 1860.

Sábado, Janeiro 28, 2012

Memórias - os itinerários do tempo (IV)

Atrapalhava-me perceber que um ato às vezes determinava punição, outras vezes não determinava. Impossível orientar-me, estabelecer norma razoável de procedimento.

Graciliano Ramos, in Infância, p. 89

O povo nordestino é conhecido pela sua natural compreensão acerca do machismo. Machista é aquele indivíduo que adquiriu modos de macho, de machão, que salienta e se orgulha da masculidade. Estes são conceitos que estão amalgamados no interior do povo nordestino. Este é um ponto importante na forma como se vê e interpreta o mundo. Quem nasceu no nordeste e foi criado no ambiente rural, traz em si um pouco desta mancha.

Meu pai e meus avôs estavam dentro desta cultura do macho. Desde cedo somos ensinados a respeitarmos os mais velhos. Menino não deveria se intrometer na conversa de pessoas mais velhas. Quando um adulto estivesse conversando e uma criança decidisse dar uma opinião, era repreendido por olhadelas consumidoras, que afirmavam informações repressoras inteiras. Menino que era menino tinha que saber o seu lugar. A obediência estava vinculada mais ao medo do castigo, do que o respeito que nascia da consciência. Lembro-me que era necessário dar benção aos mais velhos. Ao chegar a determinado lugar onde encontrasse meus avós, tios, mãe, pai, tinha que proferir:

- Benção, fulano! – Ao que o interlocutor respondia:

- Benção, meu filho!

Quando não respondia era repreendido por frases severas, intempestivas:

- Esse menino anda uma coisa séria. Nem parece gente. Parece mais bicho.

Ficava pelos cantos desconfiado, com o olhar pidão, envergonhado por tamanha falta. Prometia a mim mesmo que na próxima ocasião eu me emendaria. Consertaria tudo. Poria remendos grossos naquele ato tão ignóbil. E o pior de tudo é que iam reclamar à minha mãe dos meus modos. Levava outra reprimenda da minha mãe.

Tratava-se de um mundo patriarcalista no qual homens mandavam por, simplesmente, serem homens. Durante toda a minha infância, cresci com este conceito de que “homem é assim”, “homem faz assim”, “homem age assim”.

Um exemplo disso é meu avô materno. Trata-se de uma figura de uma compreensão antiga acerca dos fatos. Descendente de escravos, meu avô é negro, como negra era a minha bisavó. Casou-se duas vezes. O primeiro casamento acabou em desquite. Vivia brigando com a primeira esposa como cão e gato. A mulher não se submetia aos conceitos de meu avô e o resultado eram escoriações e hematomas nos dois.

Casou-se uma segunda vez. Esta outra esposa é a minha avó – ainda viva. Desde os dezenove anos de idade gastando-se na beira do fogo. Vai manhã, vem tarde e ela com a sua paciência pachorrenta e inalterável. Sempre com o mesmo temperamento. Nunca a vi alterada por qualquer ato buliçoso. Desconfio que seja uma santa.

Meu avô era um tipo primitivo, modelo dos antigos senhores de engenho. Pai de todos. Sempre com os beiços enrugados. Numa sisudez de assustar os anjos. A casa do meu avô materno é um asilo de traumas e medos enlatados em conserva. Os filhos têm um respeito – medo – encabulador do pai, meu avô. Ele os criou em regime de servidão. Surras sobejas, trabalho duro e rude foi a alimentação vitaminada que receberam com fartura. Hoje ele está com oitenta anos, mas ainda preserva traços do patriarcalismo antigo e castrante. Um olhar dele ainda arrepia os cabelos da alma dos filhos – meus tios e tias e a minha mãe. Quando era pequeno passei muitos sustos com ele. Um rabo de olho congelava-me as ações, paralisava-me o coração, emudecia a minha loquacidade, mofava os movimentos ágeis e libertários da minha infância.

Uma certa vez acabei passando dois meses sem ir à casa do meu avô. Minha mãe havia me mandado buscar uma caixa de fósforos. Queria fumar. Naquele instante ela estava no rio lavando roupas nas pedras. Deu vontade de fumar, mas ela esqueceu o fósforo. Mandou que eu fosse buscar. Protestei, resmunguei. Finalmente, ela me venceu pela autoridade. Ameaçou-me. Fui contrariado. Menino descalço, galguei a ladeira com xingamentos implícitos em cada frase. Caminhada medonha. A casa distante. Sol a pino no céu. Fui à casa de minha avó buscar a caixa de fósforos. Quando vinha, ainda remoia injustiças. Quando surgiu-me o fantasma da tentação. Ao passar próximo às canas do meu avô, que naquela ocasião estavam pequenas, cobertas pela palha do corte da safra que acabara há poucos meses, risquei o fósforo na matéria seca. A lingüeta do fogo surgiu rápido. Cresceu. Fortaleceu-se com o combustível que estava ali. Perdi o controle do fogo. Tentei abafá-lo. Meus esforços foram debalde. Corri. Não sei quem viu ou apagou o fogo. Dentro de mim, eu tinha consciência de que havia prevaricado. Uma sensação de que havia cometido um crime hediondo. Meu avô com certeza me daria um “lapo”, como ele costumava dizer. Entreguei os fósforos para a minha mãe e fiquei ali quieto. Amofinado. Pensando em qual seria o resultado daquilo tudo. Com a consciência em formigamentos, eu iria ao outro lado da terra se minha mãe mandasse. Mudança abrupta.

Ausentei-me da casa de meu avô. Quando o via à distância, escondia-me. Certo dia minha mãe chegou em casa perguntando:

- Oh!, Carlos, tu tocou fogo na cana do teu avô, foi? Tu não tem o que fazer não, menino? – escondi-me em mim mesmo e gaguejei qualquer explicação bronca.

Meu avô havia contado para ela que o incendiário do canavial havia sido eu. O medo avolumou-se na minha alma. Quase todos os dias eu tinha o costume de ir à casa do meu avô, mas agora não tinha o que fazer. Teria que abdicar das minhas idas até lá. Tentei arranjar uma estratégia. O tempo seria responsável pelo esquecimento. Nada melhor do que a sucessão de dias que sempre traz eventos novos e acaba fazendo com que o passado fique como algo distante, esquecidiço. Após oito semanas decidi ir à casa de meu avô. Cheguei meio desconfiado, pelos cantos. Estudando todos os movimentos. Cada passo seguia uma diligência filosófica. Todavia, a primeira pessoa que encontrei foi meu avô que foi logo dizendo num crescendo de gigante.

- Foi você, seu cabra, que tocou fogo nas minhas canas, num foi? A próxima vez que você fizer isso, você vai me apanhar, tá entendendo? – petrifiquei-me. Certamente ele tinha uma autoridade fabulosa. Certamente ele havia adquirido dos deuses tamanho poder. Como infundia autoridade a sua voz! Era o eco de um trovão que entrava-me pelos ouvidos, machucava-me a interiodade.

Minha tia Lurdes era outra que me ameaçava com sentenças graves. Eu, Zequinha, meu irmão e Ginado gostávamos de ir tomar banho num riacho. Passávamos ali quase todas as manhãs. De manhã quando chegávamos ali as águas estavam limpas. Víamos o fundo como que por um espelho. Ali peixes nadavam e exibiam despreocupação. Começávamos a pular e água rapidamente ficava escura. Achávamos extraordinário. Divertimento de menino. Minha tia não via com bons olhos essa nossa ida – minha e do meu irmão – para o riacho tomar banho. Dizia que íamos pegar doença. A maleita ia nos vitimar. Ela ficava responsável por mim e pelo meu irmão quando minha mãe ia trabalhar na roça.

Fazíamos longas excussões para chegarmos ao riacho. Atravessávamos canavias de folhas cortantes. Peregrinávamos por um caminho três vezes mais distante do que o comum para chegarmos ao córrego a fim de que não fossemos vistos. Cresci num ambiente de moralidade forte. De uma religiosidade forte. De um catolicismo arraigado nas entranhas do povo. Com afirmações como estas: “Menino mal educado pode ser levado pelo papa-figo”. Até hoje não sei quem é esse papa-figo. “Menino que responde os mais velhos, o papai do céu castiga”. Ouvia estas sentenças sem saber divisar muito bem para o que elas serviam. Concentrava-me na sentença grave. A ameaça do castigo plasmava-se na minha mente e ecoava por regiões inteiras da minha alma. “Papai do Céu” devia ser um velho muito ranzinza, como o meu avô para que se zangasse e se importasse com o que as crianças faziam. Imaginava o ente enorme de cabelos alvos como algodão, com uma chibata na mão, pronto a me surpreender quando eu vacilasse. Com certeza, ele era um senhor idoso, que se utilizava da força cósmica para consumir aqueles que transgredissem a moral. Parece que a moral estava apenas do lado dos mais velhos. Eu, simples, criança sobrevivia subjugado pela força de Deus e dos homens.

Quarta-feira, Janeiro 25, 2012

Meus Verdes Anos, de José Lins do Rego, é uma obra metalinguística

Após ter lido Meus verdes anos de José Lins do Rego, fiquei com a funda impressão de que aquilo que li era uma obra metaliguística. O livro foi publicado no ano de 1956, ou seja, um ano antes da morte de José Lins, que morreria a 12 de setembro de 1957. Escrever Meus verdes anos foi abrir um baú de memórias com as cores da infância. Era como se o escritor afirmasse: "Aqui está o meu material literário. Isso explica tudo".

Nos parágrafos finais do livro de memórias, o garoto do Pilar explica as suas dores pelo fato do canário Marechal (presente do negro José Joaquim) ter ido embora. Destaco as seguintes palavras: "E mal pus os pés por debaixo da goiabeira, ele voou para longe até sumir-se na distância. Ainda o vi como um pontinho no céu. Vi-o furando o espaço e correndo para o mundo. Lá se fora ele com os cantos que enchiam de alegria as minhas madrugadas de asmático. Lá se perdia ele para sempre, assim como estes meus verdes anos que em vão procuro reter" (o destaque é meu). As palavras em destaque expressa esse desejo de uma tentativa de reter as fragrâncias infância.

José Lins foi "um escritor menino". Nunca esqueceu as suas experiências de infância. É curioso como em Meus verdes anos a força sinestésica dos eventos estão presas em suas descrições. Ele consegue falar em "miado de gato", "chiado de carro de boi"; do "cheiro do capim" cortado pelo negro José Joaquim; da "fragrância" lascivizante de Zefinha; da vulva escura da negra que lhe dava banho e que se abria como uma flor rubra. Lê-lo é imergir num rio imenso, como o rio Paraíba (descrito no livro).

Quando lemos Meus verdes anos, entedemos Menino de Engenho, Doidinho, O Moleque Ricardo, Cangaceiros ou Usina, por exemplo. Acentuamos a compreensão de muitos dos personagens do escritor. Daí é que falamos de uma metaliguagem do livro publicado em 1956.

A obra de Zé Lins é um retrato imprescindível para a formação de uma antropologia do homem do nordeste em dado momento histórico. Assim como a obra de Balzac mostrou a França burguesa - seus costumes, hábitos, valores e doenças -, Zé Lins mostro como nenhum outro o retrato das oligarquias do açucar e o tipo de sertanejo que é formador do homem regional brasileiro - o cangaceiro; o homem religioso; a ligação inconsciente com a igreja. Revelou os aspectos ecônomicos - a ascensão e a decadência dos engenhos. José Lins escrevia sem preocupações de engajamento e compromisso aparentes. Ele escrevia porque tinha o que dizer, como que para libertar-se das várias vozes que ele havia captado em sua infância.

Estou desejoso para ler, ainda, Usina, Pureza, Moleque Ricardo e Riacho Doce nesse primeiro semestre. Como é bom e gostoso ler José Lins do Rego, o escritor menino!