domingo, setembro 18, 2016

Sobre "A civilização do açúcar", algumas palavras

"Todos os momentos do cotidiano do açúcar marcavam-se pela presença do escravismo".

Antes que iniciasse o processo de industrialização com o desenvolvimentismo de Vargas, na década de 30 do século XX, a história econômica do Brasil sempre foi marcada pela monocultura agrária. Essa monocultura revelava a ausência de projetos da Metrópole para a Colônia e, mais tarde, da burguesia nacional dependente para com o país. 

Até 1930, o café era o principal produto exportado. Com a quebra da Bolsa de 1929, veio também o naufrágio de um  arranjo político, ou seja, o próprio naufrágio da República Velha (1889-1930). Antes disso, por quase duzentos anos, o açúcar foi o produto que envidou os maiores esforços da Coroa Portuguesa em relação a uma otimização que forçasse uma superprodução da Colônia. 

O açúcar construiu uma dinâmica social na Colônia. Foi o produto que se alastrou por vastas regiões do Nordeste brasileiro. A produção demandava uma mão-de-obra considerável. E é justamente daí que notamos sair, do açúcar, um modelo social que até hoje possui os efeitos na sociedade brasileira. 

Ao chegar ao Brasil, em 1500, Portugal não se direcionou prontamente à exploração das novas terras americanas. Foi somente após trinta anos, que houve um encaminhamento administrativo a fim de tornar a Colônia em algo rentável. O Brasil não foi visto como um país em que se podia começar um projeto de construção social equilibrado. A vasta região com florestas densas, rios enormes, um litoral belíssimo, com paisagens exuberantes, com uma pluralidade climática, passou a ser visto como uma "mina" capaz de enriquecer a mambembe nobreza portuguesa. A espoliação foi a estratégia; o saque, o modo de condução. O pacto colonial sujeitou o Brasil a uma relação servil com a Metrópole. A relação estabelecida impedia que houvesse qualquer possibilidade de organização social e administrativa da Colônia. Sua função era enriquecer a todo custo Portugal. Era como uma galinha dos ovos de ouro, que tinha que produzir cada vez mais, alimentada com palha. Oswald de Andrade percebeu isso muito bem em seu genial, picaresco poema:

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.

As terras nacionais foram fatiadas e entregues aos donatários no sistema chamado de capitanias hereditárias. A capitania era uma mera otimização geográfico-administrativa cuja finalidade era tornar a "empresa colonial" mais rentável. 

Assim, o primeiro produto que surgiu foi o açúcar. Junto com essa mercadoria, surgiu uma estrutura social em torno desse produto. O engenho, lugar de produção do açúcar, consolidou, organizou a sociedade entre aqueles que se beneficiavam do cultivo e produção da cana-de-açúcar e aqueles que viviam à margem, sendo explorados nessa produção. Desde o princípio, ficou bem claro que os sujeitos vindos de Portugal não estavam dispostos a realizaram qualquer trabalho braçal. A contratação de trabalhadores também não gerou interesses. 

Dessa forma, Portugal buscou arranjar de outras formas "os braços" que moveriam as engrenagens econômicas da Colônia. O escravo passou a ser essa força, transformada em animal que só produzia. Era arrancado de sua cultura de forma violenta e desafricanizado. O transporte nos navios negreiros era realizado de forma desumana. Uma vez na Colônia, chegava a trabalhar doze horas ininterruptas. Dormia em condições adversas. Comia mal. Não era respeitado como um ser humano. Era comparado aos animais. Era uma propriedade do seu senhor, assim como os bois e os cavalos que pastavam nos campos. A vida útil de um escravo era de, no máximo, dez anos de trabalhos intensos. O número de escravos definia o status de um branco, assim, como hoje, o carro que temos revela um dado padrão social. Do comer ao vestir; do amamentar ao deslocar-se em uma liteira, era o escravo a figura que movia a sociedade. O trabalho manual, transigente e braçal jamais era realizado por um sujeito branco, tido como livre. Buscava-se qualquer ocupação, menos aquela que fizesse confundir o sujeito branco e livre com o escravo. Talvez, venha desse fato a gradação em torno da ideia de trabalho no Brasil. Geralmente, o trabalho intelectual é visto como mais digno do que o trabalho manual. O arquiteto é melhor avaliado que a faxineira na escala social. Em determinadas profissões (direito, medicina, psicologia), o sujeito que as exerce recebe o título de "doutor". Alguns setores da sociedade, principalmente as elites e a classe média, sedimentam muito bem essa relação.

Criou-se, assim, aquela denominação que Gilberto Freire intitula em seu livro mais famoso - a casa-grande e a senzala. A casa-grande era o lugar aristocrático por excelência. Era um espaço amplo, com um alpendre largo; colocada em lugar alto e ventilado; aglutinadora da família do senhor de engenho, que possuía as suas regras e erigia a imagem do chefe da casa como um senhor feudal. Os engenhos eram mini-feudos.  Um espaço de suseranagem e vassalagem.

Ora, uma ordem social perversa como esta, não resultará em um país organizado e solidário para com os seus cidadãos. O intelectual Jessé Souza, autor de A ralé brasileira e A tolice da inteligência brasileira, afirma que reside na ordem social brasileira uma concepção fecundada em Santo Agostinho de forte influência platônica. Possuímos o mundo do espírito, das coisas sublimes e o mundo feio da matéria, cuja constituição se efetiva com as "coisas" de menor valor e virtude. De um lado temos as elites, que preconizam a virtude, o ideal de beleza, de virtude, de ética; nesse mundo habitado pelos ricos e senhores, tudo parece resplandecer em beleza, em uma forte afirmação daquilo que é bom e legitima o bem. Por outro lado, o mundo material é o mundo da carne, do sexo, dos escravos, do trabalho, da dureza cotidiana; o mundo habitado pela mulheres, pelos homossexuais, pelas periferias. É o mundo feio, pecaminoso, que provoca azo para repulsa. 

A sociedade brasileira é violenta e perversa nesse sentido. A desigualdade possui um fundamento econômico, mas possui um forte fundamento teológico. Ao escrever A civilização do açúcar, Vera Lúcia Amaral Ferlini queria revelar onde está a gênese de nosso modo de ser. É olhando o passado que encontramos os indícios daquilo que somos no presente. 

quinta-feira, setembro 08, 2016

"Como conversar com um fascista" (de Márcia Tiburi), algumas consideraçãos

Há alguns dias atrás, ao chegar ao trabalho, um colega me interpelou quando enxergou o título e a capa do livro que eu portava: "Você está lendo isso?" Num gesto de incredulidade, tentei explicar - ou propagandear - os méritos do livro. Depois fiquei refletindo sobre aquela pergunta ousada. Tratava-se de "Como conversar com um fascista - reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro", de Márcia Tiburi. 

Não é saudável etiquetar as pessoas, reduzindo-as a meros cognomes empobrecidos que encerram grandes preconceitos. Mas, na indagação do meu colega não estava aquilo que o título do livro pretende tratar, lançar luz, abrindo possibilidades para reflexões? O gesto do meu colega não havia sido "fascista" ou "autoritário"? Certamente.

O livro de Tiburi, professora de filosofia e grande notória palestrante, conhecida pela agilidade mental e pela inteligência refinada, é um importante trabalho para entendermos esse momento nebuloso por que passa o Brasil. O Brasil não é um país fascista. Fascistas são ações de determinados setores da sociedade, que se deixaram levar por uma narrativa absurdamente perigosa como resultado da luta de classes existente no seio de nossa sociedade e que ganhou paroxismos dramáticos desde a reeleição de Dilma Rousseff, em 2014. 

Fascismo, aliás, é uma palavra com muitas nuances e que gera excessivas controvérsias. Conforme explica Rubens Casara na apresentação do livro, a palavra fascismo vem de fascio (do latim fascis), "símbolo da autoridade dos antigos magistrados romanos, que utilizavam feixes de varas com o objetivo de abrir espaços para que passassem (exercício de poder sobre o corpo do indivíduo que atrapalha o caminho). Em sua origem, portanto os feixes eram instrumentos a serviço da autoridade e, por essa razão, passaram a ser utilizados como símbolos do poder do Estado". 

Com o tempo, essa força anti-oposição, ou seja, que busca tirar da frente tudo aquilo que se mostre como obstáculo ou resistência, tornou-se em ideologia, em força que se alastra no tecido social. Assim, o fascismo é uma ideologia "da negação", pois condena e suplanta toda forma de resistência criativa e multicolorida. O fascismo é enviesado, cinzento, possui um esquema que busca a construção de uma ideologia total, que não respeita as diferenças. Por sua vez, a democracia é capacidade de reconhecimento do plural, do colorido, do movimento; a democracia é a celebração das liberdades e das garantias fundamentais. Enquanto o fascismo tende pelo imobilismo, pela afasia social, a democracia prima pela dança que celebra o direito que pertence a mim e que pertence ao outro. Assim, eu e outro, sujeitos de direitos, buscamos conviver e construir um pacto que eleva a nossa capacidade de sermos humanos. Ou seja, a democracia é a possibilidade mais elevada que já surgiu, capaz de dignificar o eu diverso que existe em mim e que existe no outro. 

É a partir dessa compreensão que o livro de Tiburi busca lançar suas reflexões. A democracia é o mapa que estrutura suas reflexões. A partir dessa referência, temas caros à vida democrática passam a ser pensados de forma instigante. O papel da mídia, o aborto, o direito das mulheres, o estupro como prática social - e "as mulheres como seres estupráveis") etc. 

Penso que a reflexão mais cara, mais densa e instigante - entre as muitas que o livro constrói - gira em torno da compreensão de quem é o outro e sobre o poder revolucionário da linguagem. O outro numa perspectiva fascista é um obstáculo relativo. Quando afirmo isso, quero dizer que existem dois caminhos para outro o numa perspectiva fascista: ou se é por nós, assumindo nossa agenda estreita e uniforme, ou se é destruído, disciplinado pela violência, seja ela física ou simbólica. Acredito que o que se tem visto no Brasil ultimamente passe por isso. A linguagem no mundo fascista é algo necessariamente importante. É justamente ela que cria dogmas, efeitos, impele às crenças, edifica heróis e constrói diabos. Ou seja, a linguagem é importante para erguer propagandas e criar consensos. Ela é é capaz de cimentar o prédio do edifício social e abalar ou fortalecer estruturas.
E nesse sentido é importante que se entenda que a compreensão de quem é o outro é imensamente importante, pois o outro é sempre o mistério, o incontido, o não revelado. Ou seja, aquilo que eu não sou, aquilo que é parte em que não habito. Habito em mim. Tenho a tendência de colocar as minhas feições naquilo o qual já estou acostumado. Tendemos a nos acostumar com os eventos. Isso gera conforto. Ao falarmos de determinado acontecimento, determinado lugar, determinada pessoa, buscamos sempre emitir uma opinião que mostra mais a mim do que aquilo de que busco falar. É velha máxima que "aquilo que Pedro fala de Paulo, diz mais sobre Pedro do que de Paulo". Mas o outro é sempre o outro. O outro é possibilidade.

Somos treinados a entendermos que o outro é o "errado", que outro é "o inferno". O outro é "o louco", o "suicida". O "burro", o que "nada sabe", "o imoral". E nós, os detentores da virtude. O outro é sempre território a ser colonizado pela minha ingerência, pela força de minha fala, de minha impulsividade. Assim, qualquer debate, possibilidade de diálogo torna-se algo impensado. Se o diálogo é um exercício praticado por sujeitos maduros e que praticam o respeito mútuo, o diálogo com o fascismo é algo impraticável. Pois a diversidade, o plural, as várias faces de uma ideia, de um assunto não cabem na agenda do fascista.

Dificuldade instala-se pelo fato, como afirma o livro, de que "a política é uma experiência da linguagem". Ela é gestada no encontro. Na sobriedade dialética de sujeitos que entrelaçam a possibilidade de compreensão em um mundo em que sujeitos celebram o entendimento. O diálogo é a celebração da capacidade de respeitar o outro. Quando não há diálogo, o potencial febricitante do conflito pode se tornar em violência, sendo que esta pode se ramificar de diferentes formas.

O livro de Márcia Tiburi é para ser pensado, debatido; para se tornar fonte para leituras constantes. à medida que ia lendo, marquei os capítulos que mais me chamaram a atenção. Pretendo voltar a visitá-los de forma avulsa em momentos não programados. A reflexão da Márcia é provocativa e necessária.

quarta-feira, agosto 31, 2016

Um golpe nos sempre golpeados...

O Brasil se tornou uma país menor no dia de hoje. 31 de agosto será um dia para ser lembrado pelos próximos anos. Não serão lembranças boas, positivas. Quando olharmos para trás, sentiremos um profundo asco do quanto somos tolos e mentecaptos. Talvez daqui a cem anos os estudiosos, escrevam nos livros: "E, assim, aconteceu, mais uma vez, um golpe das aristocracias caducas no povo brasileiro".

O Brasil é um país de rupturas institucionais. Mas é importante entender que essas rupturas não são construídas em benefício do povo. As rupturas se constituem em um modo de operação de nossas elites, que desde que este país existe, estão entranhadas no Estado em um parasitismo impiedoso. A coisa pública nunca foi pública neste país. As aristocracias sempre usurparam o fundo público, resultado do trabalho dos brasileiros, não prestando contas a esses mesmos trabalhadores. É importante salientar que a República foi fundada com um golpe. As aristocracias não se sentindo mais satisfeitas com o Imperador Pedro II, entenderam que era necessário iniciar um outro processo sem que houvesse qualquer participação popular. O povo sempre foi alijado dos processos. Nunca teve oportunidade de ser chamado para participar das grandes decisões capazes de modificar a vida social. Até mesmo as passeatas que acontecem são resultado da manipulação midiática a favor das elites. Mas, quando o povo se insurge contra as injustiças é duramente reprimido.

A não participação popular nos momentos políticos críticos é um termômetro da alienação do povo a respeito de temas políticos. Escuto professores afirmando que "político é tudo igual, político não presta", uma das argumentações mais pobres e infantis que se possam construir e que está na boca de milhões de brasileiros.  Já escutei muitos colegas de profissão afirmando essa frase perigosa e que levita no lugar comum. Uma profunda, imensa piedade a esses sujeitos que não entendem o que uma ruptura democrática representa para um país, sobretudo um país como o nosso. 

Fico pensando nas crianças, nos jovens, nas mulheres, nos negros, nos velhos, índios, gays, quilombolas que são as principais vítimas imediatas das políticas criminosas que virão pela frente. Compadeço-me daquelas pessoas que ainda não entenderam a gravidade do que aconteceu hoje no Brasil. A sanha golpista afugentou o otimismo. 61 canalhas acumpliciados contra o povo, julgaram uma presidenta inocente e rasgaram os preceitos mais elementares do Estado de Democrático de Direito. 

Diante de um momento tão sério, resta-nos apenas uma decisão: a politização radical, o estudo, a leitura, a resistência contra o fascismo e suas derivações; a serenidade para reconhecer que somos um país em que as instituições são frágeis; que a sua classe média é cega, obtusa e alienada; um país que não se leva a sério; que possui uma aristocracia subalterna ao grande capital, pária, repleta de chefetes do grande imperialismo, lacaios e serviçais, capazes de massacrar os pobres, a gente comum, para terem os seus interesses atendidos. 

Como diz Darcy Ribeiro em O povo brasileiro, numa afirmação profética de grande pensador:

"Não é impensável que a reordenação social se faça sem convulsão social, por via de um reformismo democrático. Mas ela é muitíssimo improvável neste país em que uns poucos milhares de grandes proprietários podem açambarcar a maior parte de seu território, compelindo milhões de trabalhadores a se urbanizarem para viver a vida famélica das favelas, por força da manutenção de umas velhas leis. Cada vez que um político nacionalista ou populista se encaminha para a revisão da institucionalidade, as classes dominantes apelam para a repressão e a força".

Mais uma vez, isso ficou provado no dia de hoje. Triste. 

domingo, agosto 28, 2016

Uma governanta inocente condenada por um bando de corruptos - Por Leonardo Boff

Era uma vez uma nação grande por sua extensão e por seu povo alegre embora injustiçado. Em sua maioria sofria na miséria, nas grandes periferias das cidades e no interior profundo. Por séculos era governado por uma pequena elite do dinheiro que nunca se interessou pelo destino do povo pobre. No dizer de um historiador mulato, ele foi socialmente “capado e recapado, sangrado e ressangrado”.

Mas lentamente esses pobres foram se organizando em movimentos de todo tipo, acumulando poder social e alimentando um sonho de outro Brasil. Conseguiram transformar o poder social num poder político. Ajudaram a fundar o Partido dos Trabalhadores. Um de seus membros, sobrevivente da grande tribulação e torneiro mecânico, chegou a ser presidente. Apesar das pressões e concessões que sofreu dos endinheirados nacionais e transnacionais, conseguiu abrir uma significativa brecha no sistema de dominação permitindo-lhe fazer políticas sociais humanizadoras. Uma Argentina inteira saíu da miséria e da fome. Milhares conseguiram sua casinha, com luz e energia. Negros e pobres tiveram  acesso, antes impossível, ao ensino técnico e superior. Mais que tudo, porém, sentiram resgatada sua dignidade sempre negada. Viram-se parte da sociedade. Até podiam, em prestações, comprar um carrinho e tomar até o avião para visitar parentes distantes. Isso irritou a classe media, pois via seus espaços ocupados. Daí nasceu a discriminação e o ódio contra eles.

Ocorreu que nos13 anos de governo Lula-Dilma o Brasil ganhou respeitabilidade mundial. Mas a crise da economia e das financias, por ser sistêmica, nos atingiu, provocando dificuldades econômicas e desemprego que obrigou o governo a tomar medidas severas. A corrupção endêmica no país densificou-se na Petrobrás, envolvendo altos estratos do PT mas também dos principais partidos. Um juiz parcial, com traços de justiceiro, focou, praticamente, apenas o PT. Especialmente a mídia empressarial conservadora conseguiu criar o esteriótipo do PT como sinônimo de  corrupção. O que não é verdade, pois confunde a pequena parcela com o todo correto. Mas a corrupção condenável serviu de pretexto às elites endinheiras e seus aliados históricos, para tramar  um golpe parlamentar, pois mediante as eleições jamais trinfariam. Temendo que esse curso voltado aos mais pobres se consolidasse, decidiram liquidá-lo. O método usado antes, com Vargas e Jango, foi agora retomado com o mesmo pretexto “de combater a corrupção”, na verdade, para ocultar a própria corrupção. Os golpistas usaram o Parlamento no qual 60% estão sob acusações criminais e desrespeitaram os 54 milhões de votos que elegeram Dilma Rousseff.

Importa deixar claro que atrás desse golpe parlamentar se aninham os interesses mesquinhos e anti-sociais dos donos do poder, mancomunados com a imprensa que distorce os fatos e sempre se fez sócia de todos os golpes, juntamente com os partidos conservadores, com parte do Ministério Público e  da Polícia Militar (que substitui os tanques) e  uma parcela da Corte Suprema que, indignamente, não guarda imparcialidade. O golpe não é só contra a governanta, mas contra a democracia com viés participativo e social. Intenta-se voltar ao neoliberalismo mais descarado, atribuindo quase tudo ao mercado que é sempre competitivo e nada cooperativo (por isso conflitivo e anti-social). Para isso decidiu-se demolir as políticas sociais, privatizar a saúde e  educação e o petróleo e atacar as conquistas sociais dos trabalhadores.


Contra a Presidenta não se identificou nenhum crime. De erros administrativos toleráveis, também feitos pelos governos anteriores, derivou-se a irresponsabilidade  governamental contra a qual aplicou-se um impeachment. Por um pequeno acidente de bicicleta, se condena a Presidenta à morte, castigo totalmente desproporcional. Dos 81 senadores que vão julgá-la mais de 40 são réus ou investigados por outros crimes. Obrigam-na a sentar-se no banco dos réus, onde seus algozes deveriam estar. Entre eles se encontram 5 ex-ministros.

A corrupção não é só monetária. A pior é a corrupção das mentes e dos corações, cheios de ódio. Os senadores pro impeachment têm a mente corrompida, pois sabem que estão justificiando uma inocente. Mas a cegueira e os interesses corporativos prevalecem sobre os interesses de todo um povo.      

Aqui vale a dura sentença do Apóstolo Paulo:”eles aprisionam a verdade na injustiça. É o que atrai a ira de Deus”(Romanos 1,18). Os golpistas levarão na testa, pela vida afora, o sinal de Caim que assaninou seu irmão Abel. Eles assassinaram a democracia. Sua memória será maldita pelo crime que cometeram. E a ira divina pesará sobre eles.

Leonardo Boff é ex-professor de Ética da UERJ e escritor.

terça-feira, agosto 09, 2016

Sobre o "desfazer" anos - de acordo com Rubem Alves

Rubem Alves, o mineiro sensível de Boa Esperança-MG, sempre foi uma referência delicada para mim. Desde a primeira vez que li o seu texto, nunca mais fui o mesmo. Com ele passei a perceber que existe um gesto invisível, um movimento silencioso, que, às vezes, mora nos interstícios das coisas. É preciso ter humildade para perceber. Ler Rubem Alves é treinar o olhar. É ter a possibilidade de endireitar aquelas ramificações invisíveis que nos ligam ao mundo real e que faz dele "uma metáfora para alguma coisa", evocando a fala do carteiro a Pablo Neruda, no filme O carteiro e o poeta. É, por isso, que nunca deixei de lê-lo. De aprender com a sua pedagogia provocativa, capaz de nos tirar do lugar-comum.  

Pois, recordo-me de um episódio em que li uma das suas crônicas, um exercício que é sempre humanizante. Nessa crônica, ela comentava sobre a possibilidade de "desfazer" anos em seu aniversário. Essa ideia pouco comum, andava na direção contrária à compreensão que, geralmente, as pessoas possuem: de que à medida que o tempo passa, vou "fazendo" anos. Hoje, quando completo mais um ano de vida, bateu-me o desejo de ler mais uma vez esse bonito texto. Achei-o no site da Folha. 

Está abaixo:

Desfiz 75 anos... - por Rubem Alves

As velinhas acesas fincadas no bolo não querem morrer, mas elas vão ser mortas por um sopro que apaga a vida

MINHA FORMAÇÃO filosófica impõe-me o uso preciso das palavras porque as palavras devem revelar o ser. E é assim, usando de forma precisa as palavras, comunico aos meus leitores que ontem, dia 15 de setembro, eu desfiz 75 anos...

Haverá leitores que se apressarão a corrigir meu uso estranho, nunca visto, da palavra "desfazer", atribuindo-o, quem sabe, a um início do mal de Alzheimer. Todo mundo sabe que, para se anunciar um aniversário, o certo é dizer "fiz" tantos anos. No meu caso, "fiz" 75 anos...

Mas o verbo "fazer" sugere algo que aumenta, um crescimento do ser, o artista e o artesão "fazem"...
Mas, que ser aumenta com a passagem do tempo, esse monstro que devora os seus filhos? O que aumenta é o vazio. Esses anos que o aniversariante distraído anuncia como anos que ele fez são, precisamente, os anos que ele desfez, o tempo que já passou, que deixou de ser, os anos que o tempo devorou.

Por isso acho um equívoco filosófico perguntar a alguém: "Quantos anos você tem?". O certo seria perguntar "quantos anos você não tem?". E ela responderia "não tenho 42 anos", "não tenho 28 anos". Porque esse número de anos indica precisamente os anos que ela não tem mais. Nos aniversários, então, a maneira correta de se dirigir ao aniversariante é perguntando-lhe "quantos anos você está desfazendo hoje?".

Com base nessas reflexões filosóficas acho extremamente estranho e mesmo de mau gosto esse costume de o aniversariante soprar as velinhas acessas para que elas se reduzam a um pavio negro retorcido. Aí, nesse momento, todos gritam e riem de alegria e cantam o "Parabéns pra você", em louvor a essa "data querida..."

Bachelard, no seu delicadíssimo livro "A Chama de uma Vela", que nunca será best-seller, nos lembra que uma vela que queima é uma metáfora da existência humana. Há alguma coisa de trágico na vela que queima: para iluminar, ela tem que morrer um pouco. Por isso ela chora, e suas lágrimas escorrem sobre o seu corpo sob a forma de estrias de cera.

Uma vela que se apaga é uma vela que morre. Algumas velas se consomem todas, morrem de pé, têm de morrer porque a cera já se chorou toda. Outras morrem antes da hora -elas não queriam morrer-, mas veio o vento e a chama se foi.

As velinhas acesas fincadas no bolo não querem morrer. Elas vão ser assassinadas por um sopro. O sopro que apaga as velas é o sopro que apaga a vida...

Por isso não entendo os risos, as palmas e a alegria que se segue ao sopro que apaga as velas. Uma vela que se apaga é um sol que se põe, disse Bachelard. E todo pôr-do-sol é triste... Uma vela que se apaga anuncia um crepúsculo.

Por isso eu prefiro um ritual diferente, ritual que é uma invocação. Eu acendo uma vela pedindo aos deuses que me dêem muitos anos a mais de vida, esses anos que se seguirão, que são o único tempo que realmente possuo...

Assim fiz, acendi uma vela, meus amigos à minha volta. Que coisa boa é ter amigos, especialmente quando o crepúsculo e a noite se anunciam!

Acho que a vida humana não se mede nem por batidas cardíacas nem por ondas cerebrais. Somos humanos, permanecemos humanos enquanto estiver acesa em nós a esperança da alegria. Desfeita a esperança da alegria, a vela se apaga e a vida perde o sentido.

segunda-feira, agosto 08, 2016

Contos de Kolimá - livro 2 - "A margem esquerda"

Voltei ao texto de Varlam Chalámov. Como afirmei há algum tempo atrás, pretendo ler os seis livros que serão lançados pela Editora 34. Até agora saíram três. Vou para o segundo. Não há como ler Chalámov e não sair com uma experiência amarga e realista sobre os limites da natureza humana. Em Chalámov passamos a entender que escrever é um forma de resistência, de manter-se vivo, de suportar a facticidade da história, mesmo quando ela nos marca e deixa em nós o seu gosto amargo.

O russo foi levado ao inferno duas vezes, ou seja, foi preso duas vezes e enviado para Kolimá - região afastada da Sibéria - acusado de atividade contrarrevolucionária. Esteve no mundo subterrâneo, na casa dos mortos, dos degredados. São memórias que revelam como o homem pode se tornar o lobo do próprio homem. Poucas coisas na história da humanidade podem ser comparadas às experiências vivenciadas nos campos gelados de Kolimá. Vê-lo narrar com frieza e ataraxia, mostra-nos o quanto ele resistiu e manteve-se sóbrio. 

O escritor foi uma daquelas existências afeitas às grandes tragédias, aos grandes infortúnios que seguem determinadas figuras. Ao regressar após vinte anos em degredo, é enxotado pela esposa que manda que ele pegue os badulaques pessoais e siga para o outro lugar. Sou capaz de enxergá-lo escrevendo, sozinho, os seis tomos de Os Contos de Kolimá. Sua memória privilegiada foi capaz de esponjar os fatos, as dores lancinantes provocadas pelo infortúnio de uma existência condenada ao trabalho forçado, à má alimentação, ao frio, aos insetos, à sujeira, ao escorbuto, à infâmia, ao olhar torto e desconfiado dos lacaios do regime soviético. 

O conto de abertura - O procurador da Judeia - é uma aula de serenidade, de quem aprendeu a conviver com o sofrimento; de quem já se acostumou com todo o espectro de desgraças; de quem já viu aquilo que seres médios não imaginam. A narrativa conta de um navio que transporta três mil prisioneiros que são tratados como monturo. Milhares já haviam morrido e são jogados em valas-comuns, sem que se preocupe com suas histórias pessoais. Chalámov escreve assim:

"... Em cinco de dezembro de 1947, o vapor KIM entrou na baía de Nagáievo com uma carga humana - três mil presos. Durante a viagem os presos fizeram um motim, e as autoridades, para enfrentá-los, decidiram inundar de água todos os porões. E tudo a um frio de quarenta graus negativos. O que é uma queimadura de gelo de terceiro, quarto grau..."

São por meio desses enxertos de acontecimentos com feições de surrealidade, que encontramos o resultado do trabalho narrativo de Chalámov. A leitura do seu texto nos cura. E isso é paradoxal. Coloca-nos diante de uma maturidade, de uma serenidade que nos instrumentaliza para resistir aos grandes reveses. Em Chalámov, aprendemos que "o medo", como ele mesmo falou, "é um sentimento vergonhoso e depravador, que humilha o homem". Assim, existe uma beleza silenciosa, graciosa, mesmo em meio à tragédia e ao horror. Chalámov consegue destilar equilíbrio mesmo em meio à loucura; consegue a sobriedade quando os homens desvairavam. Seu texto é um sopro de vida em meio ao asfixiamento físico e moral de uma época e serve como reflexão, como um daqueles ensaios de Montaigne. Em Chalámov, ainda, vemos quando a vida perde completamente o seu valor e se passa a conviver com a banalidade do mal. 

domingo, agosto 07, 2016

Mais um texto de Jack London - "O vento do Norte"

Jack London (1876-1916) bem à vontade.
A natureza tem mil maneiras de recordar ao homem que ele é mortal e de o convencer disso (p. 104)


Jack London é um daqueles escritores que, ao iniciarmos a leitura do seu texto, somos fisgados, presos por sua prosa dinâmica, enxuta, ágil. Jack London é o pseudônimo para John Griffith Chaney, sujeito cujas qualidades e iniciativas o tornam uma figura atraente. Ao longo de sua curta vida (quarenta anos), esse grande personagem da literatura estadunidense acumulou largas e ricas experiências. Se observamos o rosário de atividades exercidas - vendedor ambulante, pescador de ostras, escritor, jornalista, ativista social, mineiro, marujo, viajante, dono de embarcação, notamos que sua capacidade criativa estava ligada a essa potência inquieta que o movia. 

É de se admirar que em apenas vinte e três anos, escreveu mais de cinquenta livros. Alguém poderia questionar as qualidades dessa produção. Todavia, o que se deve afirmar é que London era um narrador poderoso. Sua mente inquieta parecia uma usina inesgotável de fantasia. Segundo informações sobre a sua controversa morte, o escritor teria cometido suicídio; isso aos quarenta anos, quando a vida se enuncia para acontecimentos mais sublimes; quando a maturidade se mostra sólida e as experiências vividas se sedimentam para gerar as grandes reflexões. 

Pois, terminei a leitura do seu livro O vento do Norte, que encontrei na Estante Virtual pela bagatela de pouco mais de cinco reais. Trata-se de um livro de contos. As histórias estão cobertas pela neve do Norte - do Klondike, uma região do Yukon, no noroeste do Canadá, a leste da fronteira com o Alasca. A região é marcada pelo clima rigoroso, tendo períodos quentes e úmidos, durante o verão, e um inverno inclemente. Nessa região, na década de 90 do século XIX, houve a famosa Corrida do Ouro. Cidades inteiras se esvaziaram por causa das migrações. E, de repente, naquela região impiedosa, indivíduos morriam por causa da escassez de víveres. Havia aqueles que conseguiram o tão sonhado ouro; outros, por sua vez, voltaram famélicos e humilhados. É o caso de Jack London, que esteve no Klondike à procura de ouro.

Acontecia um processo curioso com o escritor: ele bebia, sorvia as paisagens, os tipos humanos. Nas viagens, por exemplo, que fez ao Japão ou à Austrália, transformou em histórias bem contadas e urdidas. Pois as histórias que são contadas em O vento do Norte, passam-nos um pouco dessa atmosfera gelada. São contos, por exemplo, como O pesadelo que conta a história de um sujeito paranoico e ganancioso. Vivia à ao longo de uma estrada. Geralmente, alugava a sua cabana para viajantes que queriam se hospedar. O pagamento era feito em ouro. Ele conseguiu acumular mais de vinte quilogramas do metal amarelo. Mas havia um problema: quanto mais ele ganhava, mais era acometido por uma sonho terrível. Todas as noites um sujeito com uma cicatriz horrível aparecia em seus sonhos tortos. Roubava o seu precioso metal e em seguida fulminava-o mortalmente. 

Certo dia, eis que aparece o misterioso sujeito com a cicatriz horrenda. O dono da choupana se ver congelado por aquela conspiração coincidentemente terrível - talvez profética. O visitante deseja apenas passar uma noite. Quando este está dormindo, o dono do estabelecimento amarra-lhe e passa-lhe a corda ao pescoço. Empunha uma arma contra ele. Cansado por conta da energia despendida, tira um pequeno cochilo. Ao acordar, olha para a sua bolsa e não encontra a sua preciosidade, a valiosa trouxa que havia escondida junto a si em uma bolsa. Acorda o sujeito com a cicatriz. Faz inquirições. Questiona-o. O visitante nega saber qualquer coisa. O dono do estabelecimento resolve matá-lo com a sua espingarda. Entrementes, não consegue. Enquanto dormia, colocara parte de sua mercadoria valiosa no cano da espingarda, pois tencionava escondê-la do viajante com a cicatriz. Ao puxar o gatilho, o tiro sai pela culatra: a espingarda explodiu em sua cara. O homem com a cicatriz procura por toda a casa e escava a preciosidade que havia sido escondida nas frestas mais impensáveis e vai embora com o ouro acumulado durante um bom pedaço de tempo.

London impressiona pela forma como escreve. Tudo nele converge para um fim, cuja grande preocupação é aglutinar em um fluxo esse fio veloz que torna um texto especial. Isso ele sabia e fez como ninguém ao longo de sua curta vida, todavia grande em realizações - principalmente literárias. 

sábado, agosto 06, 2016

Pokémon Go e a falsificação do real

Não quero acreditar que se trate apenas de envelhecimento e casmurrice exacerbada de minha parte; ou ainda de uma personalidade assentada no mau-humor, que se indispõe contra todas as novidades, alegando uma suposta conspiração de forças secretas, dispostas a dominarem o mundo. Quero crer que não se trata disso. Peremptoriamente, não. O fato é que não consigo tirar da cabeça a indisposição contra a nova atração da indústria cultural do entretimento: o Pokemón Go. O jogo inventado pela Nintendo tem capturado a atenção de indivíduos de todas as faixas etárias e criado, mais uma vez,  uma febre como o foram a Macarena ou o Lepo Lepo. É uma espécie de "A coisa", aquele filme da década de oitenta, que mostrava um iogurte de marshmallow que se transformava em um sucesso comercial, uma febre coletiva, mas, que no fundo, era uma força de outro mundo que dominaria o planeta.

Pelo que li, o jogo é baseado em dados virtuais de geolocalização. O jogador precisa instalar o jogo no celular e sair à cata de "monstrinhos" que vão surgindo como desafios a serem capturados. Assim, o sujeito recebe os dados para localização do ente virtual, observa as informações geográficas que são disparadas por coordenadas e, com a tecnologia do celular - câmera, GPS etc - vai, meio que bestializado, à procura da nova aventura. 

Quando vejo algo assim, vem-me à mente aquela passagem da Odisseia em que Ulisses precisa enfrentar as sereias. Desejando ouvir as criaturas mágicas sem enlouquecer, Ulisses pede para ser amarrado ao mastro do navio e solicita aos seus marinheiros que tapem os ouvidos com cera para não serem atingidos pelo feitiço, ou seja, pelo canto enganador. As sereias eram entidades que se travestiam de mulheres belíssimas, encantadoras, que se colocavam em determinados locais. Quando avistavam viajantes desatentos, iniciavam um canto maravilhoso que acabava por enfeitiçar aqueles que as escutavam. Uma vez capturado pelo força inebriadora do canto, o sujeito tornava-se uma presa fácil e era devorado pelas sereias. No fundo, aquelas entidades eram monstros terríveis. 

Essa história ilustra como em uma sociedade capitalista é preciso manter-se atento "ao canto das sereias" da idiotização. O quanto é necessário refletir a nossa relação com o mundo real. Jogos como Pokemon Go expõem o quanto o capitalismo precisa criar "fugas" do mundo material. O quanto é preciso confundir materialidade com virtualidade, fazendo com que esta última, em sua dimensão enfeitiçadora, torne-se mais significativa que o mundo desigual em que vivemos. Ao se confundir, por meio de uma indução os elementos do real e os elementos da aparência das coisas, cria-se uma falsificação do mundo real e das coisas reais. Assim, a falsificação é poderosa, pois desvia a atenção do sujeito para aquilo que não é, fazendo com que o real se esconda ou não seja desejado. O "espectro do virtual" torna-se mais interessante. Essa "confusão" é induzida e não deve ser entendida como gratuita. O que a indústria cultural do capital mais deseja é manter os indivíduos expostos ao canto enfeitiçador do entretenimento fácil e falto do uso da razão; da suspensão do juízo crítico.

Adorno e Horkheimer, no clássico A dialética do esclarecimento, afirmam que uma das estratégias do capital é a produção de uma indústria cultural. Neste enquadramento, "o indivíduo é ilusório não apenas por causa da padronização do modo de produção. Ele só é tolerado na medida em que sua identidade incondicional com o universal está fora de questão" (p.128). Ou seja, a consciência de si é um dado inexistente. O sujeito desvia o olhar de si para elementos externos à sua condição. Padroniza-se a realidade, convence-se o sujeito por meio da celebração dos espetáculos e das mercadorias, que existe uma naturalização do mundo tal qual ele é. Vive-se, assim, uma ditadura "do falseamento" criada pela imanência do estilo de vida criada pelo capital.

No filme O show de Truman (1998), de Peter Weir, a personagem Truman encenada por Jim Carrey, vive em um mundo de faz de conta. Ele não sabia quem era. Suas ações cotidianas, seus sentimentos, suas relações sociais estavam confinadas a um esquematismo de uma equipe de televisão que o mantinha preso dentro de um estúdio, vivendo uma espécie de reality show para divertir os telespectadores. Desde criança, Truman havia sido confinado naquele cenário. Ele era apenas um joguete, uma objeto manipulável, sem consciência de si, da sua condição, de sua origem, de sua história pessoal. Com o tempo a personagem passa a desconfiar de que algo "estranho" acontecia, que os eventos sempre se repetiam. Mas, todas as vezes que buscava uma pista que explicasse o seu drama pessoal, os questionamentos em torno de sua história, os organizadores do programa (a força externa e coercitiva), impedia a sua busca.

Jogos como Pokemon Go são formas dissimuladas de criar zumbis. Ele preenche o vazio criado pelo capital - o vazio que é o grande ethos de nossa época. Consome-se tudo de forma suína. Não distingue-se o produto, o artefato, o objeto, tudo vira matéria para distração. Engole-se qualquer coisa. Tudo é novidade. E o novo em sua rutilância tem a capacidade de seduzir. Poucos são os viajores do mar da história que prestam atenção "à música que escutam". Poucos são aqueles que distinguem a melodia enfeitiçadora que produz estragos. Poucos são aqueles que conseguem perceber o véu de falsificação produzido pela indústria que banaliza sujeitos e os transformam em títeres dóceis e zumbificados. 

É preciso atentar para a advertência de Ulisses.