sexta-feira, abril 15, 2016

O momento político atual e uma frase de Lima Barreto

Lima Barreto no início do século XX, verbalizava por meio de seu imortal personagem Policarpo Quaresma: "Ou o Brasil acaba com as formigas; ou as formigas vão acabar com o Brasil". Darcy Ribeiro quando foi ao programa Roda Viva, disse que o Brasil é uma potência; é um país bonito, cheia de energia criadora, mas a sua elite 'ranzinza', 'mesquinha', finória', impede que o país avance. Pensado pela perspectiva policarpeana, as formigas continuam acabando com o Brasil. Alimentam-se de sua seiva, de suas riquezas, de seu viço; impedem avanços, refreiam otimismos. É difícil aceitar que passados mais de cem anos da escrita do livro de Lima Barreto, o Brasil continue a amargar um quadro político regressivo. 

Do início do século XX até hoje, o país passou pelo menos por três golpes. Todos eles apresentaram o desejo sanguinário das elites, conectadas aos desejos do grande capital internacional, de manter o Brasil como um país pequeno e insignificante. Golpes são dados todas as vezes que os interesses das elites são contrariados. O simulacro de democracia que temos, atesta um modelo para se chegar ao poder: no Brasil, para se alcançar o mandato eletivo, é necessário consegui-lo por meio do voto. Mas, essa garantia é relativa em um país de grande violência perpetrada pelas elites. 

Para isso, arranja-se, constrói-se o consenso em torno de determinadas máximas falíveis aos olhos da razão. O poderes República não são esferas harmônicas, capazes de fazer funcionar o Estado Democrático de Direito. O Judiciário não é "última trincheira da cidadania", como afirma o ministro do STF, Marco Aurélio de Melo; trata-se de um espaço para que alguns juízes façam política e distorçam o direito. O Legislativo não é a casa do povo; é o espaço para que os parlamentares trabalhem para os empresários que financiaram as suas campanhas. A palavra "povo" é um termo conveniente para o Legislativo. Pensar no trabalhador, nas crianças de rua, na políticas públicas necessárias, na dignidade, é uma miragem impossível. E o Executivo é o centro que coordena "a gerência da casa". Ou seja, é de lá que saem projetos que dinamizam a vida social e econômica. Dependendo de quem coordene, presida "a casa", abre-se espaço para as políticas que podem ou não beneficiar os trabalhadores - ou ainda determinados grupos da sociedade.

Pois é justamente o Executivo o centro de interesse da burguesia brasileira. O impedimento de Dilma Rousseff está assentado em uma grande farsa, por isso é um golpe. A burguesia aliançada ao capital usa os mais diferentes métodos para aplicar golpes: firma aliança com os militares como aconteceu no Brasil em 1964; judicializa os resultados eleitorais como atualmente está acontecendo; desgasta o governo opositor e popular por meio de determinadas pautas sensacionalistas, estabelecendo conexões explícitas com o aparelho midiático. Para se destruir alguém, nada melhor do que o jogo de especulações e sensacionalismos; nada melhor do que criminalizar, enxovalhar a imagem pública, "depredar" a credibilidade política  por meio do alardeamento de escândalos selecionados e potencializados. Corrupção não é uma prática privativa do governo do PT. Os erros políticos de Dilma não são suficientes para impedi-la politicamente, fazendo romper o seu mandato.

Um golpe a essa altura, colocar-nos-ia na mesma posição de Paraguai e Honduras, que foram os primeiros países latino-americanos a experimentarem rupturas democráticas em pleno século XXI. Essa condição vulnerabiliza conquistas. Coloca-nos numa posição de bagunça; de ausência de seriedade; cria retrocessos graves; abocanha direitos como se visualiza no horizonte que se desenha: a aliança PMDB-PSDB será um massacre contra os trabalhadores e contra os mais pobres. Para que a burguesia continue a ter seus lucros, é necessário fazer mudanças constitucionais e construir garantias de que não haverá resistências ao longo dos próximos anos. Por isso, são necessários pelo menos duas certezas imediatas: (1) retirar Dilma do poder e implantar um agenda conservadora para fazer acontecer aquilo que não aconteceu nos quatorze anos de governo do PT; (2) destruir a credibilidade política do PT e do seu principal líder - Luis Inácio Lula da Silva. Para isso, é importante colocá-lo como o grande bode expiatório da Lava a Jato. Hoje, li uma notícia que informava que há intenções no juiz Moro de encerrar a Operação ainda este ano. Por quê? Por que nos dois anos de Operação nenhum parlamentar do PSDB foi investigado, por exemplo, e tantas figuras ligadas ao PT amargaram a implosão pública de suas imagens? Por que Moro se nega a investigar os duzentos nomes da lista da Odebrecht e não quis a delação do empresário famoso? 

Há quem defenda o golpe sabendo daquilo que deseja com essa ruptura. Todavia, é inadmissível perceber trabalhadores defendendo esse artifício. É como se o algoz convencesse o condenado a comprar a própria corda que matará este. Um dos meios mais eficazes das elites conseguirem seus intentos, convencendo a opinião pública, é por meio de seu aparato de informações. No Brasil, desde o Império e início da República, que os jornais hegemônicos pertencem às famílias mais ricas do país. Com o advento da TV e do rádio, a força retórica do convencimento se tornou maior. Ou seja, não há escapatória para o homem médio - se ele não ler, ele escuta no rádio; se ele não ler nem escutar no rádio, a televisão cria o consenso por meio das edições de imagem. 

Diz Lima Barreto que o quixotismo de Policarpo Quaresma, levou-o à morte. Suas ideias não surtiram nenhum efeito. O seu desejo de "reformar" o Brasil foi suplantado pelos choques com o mundo dos interesses e das conveniências dos grupos que mandam no país. Infelizmente, o que já está desenhado e, que, neste momento está sendo colorido, é a certeza manifesta de que continuamos sendo devorados "pelas formigas"; e que as nossas elites desejam que vivamos acorrentados na escuridão, sem possibilidades de sonharmos com o futuro. 

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