segunda-feira, abril 18, 2016

Quando andamos para trás...

É inadmissível que trabalhadores, pessoas que acordam cedo, pagam seus impostos, lutam por um país mais justo, admitam esse palco farsesco que se presenciou na noite de domingo. Chegamos ao fundo do poço de nossa infâmia, de nossa inanição moral e intelectual. Como bem enfatizou Jean Willys: "Uma Casa formada por analfabetos políticos"; uma Casa liderada por um mafioso, capaz de arregimentar como feiticeiro o baixo clero e prometer-lhes o vil metal que quebranta toda possibilidade ética, e  julgar e decidir o destino de um país com mais de duzentos milhões de pessoas. Ou como disse outro deputado do Psol: "Uma Casa presidida por um gângster". Não existe pior melancolia, pior ressaca existencial do que esta. A nossa fauna rupestre de mentes tacanhas, inflamados pela violência; legalistas que invocam deus, torturadores, assassinos, cafetões, oportunistas, párias ideológicos, infames, esquisoides, mandriões farsescos, finórios de carteirinha; que homenageiam "corretores de imóveis", "o filho", "o cachorro", "os médicos", mas que não embasam o voto de acordo com as finalidades do debate; esse exercício seria impossível para alguns, pois o baixíssimo capital cultural não permitiria. Como bem afirmou o jornal argentino Página 12, um parlamento formado por "escravocratas", filhos e herdeiros da casa grande. Uma aliança corrupta, firmada na luxúria ménage à trois entre a mídia golpista, setores atrasados da política nacional e das elites nacionais e admitida pela servil e ignorante classe média.

Os deputados que votaram pelo "sim" sabem o querem: fazer parte da composição do novo governo que será montado de forma ilegítima. O bolo já foi fatiado. Os ministérios e secretarias já foram fracionados. Eles foram para o plenário com os conchavos já montados. Aproveitaram a noite para aparecer no telão, talvez, numa das poucas oportunidades que terão na vida política. Nos dias normais, essas figuras se escondem no submundo da Câmara. Fazem migrações e engendram negócios espúrios contra o povo.

O que não é aceitável é vê trabalhadores coadunando com esse "show" de horrores. Quem está sendo violado, estuprado, é o Estado Democrático de Direito; os direitos trabalhistas; a nossa rala e inconsistente democracia; as conquistas sociais para os grupos olvidados deste país; a dignidade dos negros, índios, mulheres humildes, analfabetos, crianças e adolescentes; a comunidade LGBT, os quilombolas, os deserdados e desesperançados; aqueles que dependem do SUS. Aqueles que disseram "sim" não votaram pelo povo, pela justiça. Votaram pelas suas famílias bem assistidas, que comem todos os dias, que quando passam mal vão a um hospital particular; que estudam nas boas escolas privadas do país. Como diria o velho Marx "a história se repete como farsa".

Chegará o dia que muitos trabalhadores, que firmaram posição contra o governo, ludibriados pela mídia, arrepender-se-ão da esparrela em que se meteram, do projeto criminoso que apoiaram. Se eles soubessem os conchavos que estão sendo costurados nas masmorras do Congresso Nacional contra os trabalhadores, sairiam às ruas para que mais da metade da Câmara e do Senado acertasse contas com a justiça, para que Dilma não fosse vítima dessa encenação burlesca. 

Uma digressão

Historicamente, o Brasil sempre foi um país dividido. As imagens que alimentamos da política e das relações sociais servem para mostrar o quanto a nossa sociedade se pauta pela violência em todos os sentidos. E essa violência é usada para estabelecer conexões com a vida social. O Brasil ainda não rompeu com os efeitos da casa grande e da senzala. Então, muitos setores da sociedade, principalmente, a classe média, principal agente de reificação do “status” das elites, é a cimentadora dessas contradições. Existem dois problemas nesse sentido: 

(1) ela é vítima de sua própria ignorância. Suas pretensas vantagens não a tornam em uma entidade autônoma dentro da sociedade de classes. Ela também é explorada. Vende a sua força de trabalho. Ocupa determinados cargos do alto funcionalismo público; algumas profissões liberais como a de advogados, médicos, dentistas etc. Acham-se “livres”, todavia, esses indivíduos não fazem parte da dança do grande capital, necessariamente fator de relação nas grandes corporações.

(2) Alguns setores, arrimados na violência, fazem escolhas alienadas, ou seja, se tornam algozes. Esses grupos ostentam signos de “status”. Gostam de exibir determinados privilégios. Usam a violência como mecanismo de orientação social – por isso, o apoio à redução da maioridade penal, desejo que o país adote a pena de morte, o apoio a pilantras nazistas como o Bolsonaro etc e todo tipo de ação que leve ao não empoderamento dos mais necessitados. Têm raiva da diversidade social, do diferente. Criminalizam as políticas sociais. Chamam os programas sociais de assistencialismo, por entenderem que “a força vem do trabalho”, todavia, não sabem que o “trabalho” de que falam é o trabalho alienado. Chamam governos progressistas de populistas, um discurso que faz parte do ideário das elites da América Latina. Têm raiva dos índios, dos negros, das mulheres humildes, da comunidade LGBT, dos sem-terra, dos sem-teto, dos necessitados plurais do nosso país. A classe média paulista, por exemplo, entregou o que tinha de ouro em 1932 e 1964, para que o país enfrentasse “a ameaça vermelha”. Todavia, quando olho para isso, não consigo deixar de enxergar o duplo caráter de que falei acima – a ignorância, fruto da alienação, leva, necessariamente, ao chancelamento da violência e do obscurantismo.

Estou triste e decepcionado, mas sereno. Sou sabedor de que a história é resultado da luta de classes; que não existem lances fáceis e gratuitos. A dialética da história não nega os seus movimentos.

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