domingo, março 19, 2017

O que significa ser de direita ou de esquerda

Esquerda e direita não são noções estanques, homogêneas, mas é errado pensar que não existem no Brasil. Com os recentes acontecimentos, é possível que muitas pessoas não saibam exatamente como se posicionar frente a essa celeuma de vozes na imprensa, nas redes sociais, nas ruas e no dia a dia. Há narrativas em disputa e é preciso compreender o que elas dizem, para quem dizem e o que querem. Mas isso requer uma compreensão histórica do significado desses termos.

As noções de direita e esquerda têm origem na Revolução Francesa de 1789. Estão relacionadas aos lugares ocupados pelos estados gerais na Assembleia Nacional Francesa. À direita do rei ficavam o primeiro e o segundo estados, o clero e a nobreza; à esquerda, o terceiro estado, representado pela burguesia e o povo. Com o terceiro estado estava o desejo de superação da ordem antiga e a instauração de uma nova ordem.

Legitimada pela filosofia Iluminista, a burguesia abriu uma perspectiva de futuro, de emancipação do homem através dos ideais de liberdade e igualdade e que veio a ter seu ponto culminante na Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789. Através do jacobinismo, a politização da pobreza e das questões sociais ganhou contornos inéditos e abriu caminho para a emergência das vertentes socialistas do século XIX, que levaram adiante o projeto de construção de uma sociedade voltada para a inclusão dos mais pobres.

A direita é, portanto, o lugar dos ricos, daqueles que não querem perder privilégios nem fazer concessões de direitos. A esquerda é o lugar dos pobres, daqueles que querem mudar a ordem social para ampliar e universalizar direitos, de onde vêm os ideais de liberdade e igualdade que pautaram a Revolução. A esquerda está relacionada à abertura de uma perspectiva de futuro inclusiva e representa a contestação dos privilégios de uma minoria, mantidos em detrimento da maioria, representa a ânsia pela mudança e pela transformação social. Ser de esquerda é não se conformar ao status quo, não aceitar a naturalidade das hierarquias sociais e as desigualdades que elas engendram, não se conformar à exploração do homem pelo homem nem desistir de pensar a utopia e problematizar projetos de um futuro melhor.

Foi das ações e pressões dos movimentos trabalhistas de esquerda dos séculos XIX e XX que vieram, por exemplo, as principais conquistas para a classe trabalhadora. A origem dos conceitos vem, portanto, da Revolução Francesa e os matizes que esses termos assumiram posteriormente não alteram seus significados originais. O surgimento de uma extrema esquerda (socialismo soviético) e uma extrema direita (fascismo e nazismo) no século passado estão relacionados às reações de algumas nações e grupos sociais aos ideais originados na Revolução Francesa e sua emergência esteve diretamente relacionada à guerra total que abocanhou as potências europeias entre 1914-1918.

Ser de esquerda, portanto, nada tem a ver com culto ao Estado ou a ditaduras,  nem a esquerda é inerentemente anti-democrática, como a direita inculta tem repetido à exaustão. Esquerda é uma visão de mundo em favor dos menos favorecidos. Esse é o sentido original do termo. Com o fim do socialismo real e o definhamento do discurso revolucionário de esquerda, o que sobrou para a esquerda foi a social-democracia, ou seja, a defesa de projetos sociais de inclusão e ascensão social e seu casamento com valores democráticos e garantia de liberdades individuais.

Ao contrário do que muitos pensam, a defesa de liberdades individuais não é apanágio da direita. A social-democracia é uma vertente de esquerda que surgiu entre o final do século XIX e o início do XX que rejeitava a noção de ditadura do proletariado como etapa necessária para a construção de uma sociedade mais justa e focava na junção de dois elementos: o ideal de justiça social do socialismo e o ideal de liberdade individual do liberalismo. A ideia era criar um partido e um movimento trabalhista voltado para reformas, não para a revolução.

Por isso, a esquerda hoje casa mais perfeitamente com ideais liberais do que a direita. Enquanto a direita defende mais fortemente apenas o viés econômico do liberalismo, isto é, a supremacia do mercado e a retirada da mão protetora do Estado sobre os pobres – isto é, o a eliminação de políticas sociais – o liberalismo político de matriz norte-americana trouxe para o plano da ação política a defesa das minorias, como negros e homossexuais. É daí que vem as políticas de cotas para negros em universidades e empresas e as políticas de proteção a minorias sociológicas, grupos que não possuem hegemonia cultural e sofrem formas variadas de violência e exclusão. As leis em defesa de negros, homossexuais e mulheres, por exemplo, se encaixam nesse paradigma.

A direita se opõe às políticas sociais liberais (e no Brasil ela atribui isso erroneamente a uma visão comunista) porque pensa que isso fere a meritocracia. Mas meritocracia sem igualdade de oportunidades é apenas um instrumento de exclusão. Restou, portanto, à esquerda se apropriar desses ideais e fazer política social para reduzir as desigualdades sociais, raciais e de gênero. Essas políticas fortalecem a democracia na medida em que proporcionam o acesso dessas minorias a espaços de onde estavam excluídos por uma série de questões históricas.

O papel da esquerda hoje é pensar a inclusão com a valorização das liberdades democráticas. Temos dois exemplos notáveis disso no continente com Obama e Mujica. A direita continua a ser o que sempre foi: ela quer manter privilégios, é conservadora, quer manter (conservar) a ordem social baseada na desigualdade, inclusive a desigualdade de oportunidades – por isso o discurso da meritocracia frequentemente escamoteia seus interesses de classe. Não raramente ela também flerta com ideais do fascismo (como xenofobia, militarismo e nacionalismo). Contra a visão progressista que caracteriza a esquerda, a direita reafirma a importância e atemporalidade da tradição, sempre pensada como elemento normativo e legitimador das desigualdades.

No Brasil, temos visto o surgimento de uma excentricidade: o indivíduo pobre que se declara de direita. Em geral, ele ignora completamente questões históricas envolvendo os conceitos de esquerda e direita, sua leitura política é pobre ou inexistente. De toda forma, o pobre de direita é um idiota útil a favor das elites; estas sim, e somente elas, conservadoras por convicção e por projeto político.

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